Thursday, August 7, 2014

Um orgulho para o país e um pesadelo para a minha mulher

Sempre tive muito medo de ficar chalupa.

Eu, antes demais, sou uma pessoa que tem muitos medos. 
Fantasmas, grandes alturas e camarões estragados são destaques num vasto leque mas não há pavor que me atormente tanto como o de perder o juízo. Claro que pode haver (e garanto que há) quem diga que sou um trombalazana demente que parece ter levado com bordoada em barda pela moleira adentro em criança e eu admito que há nessas palavras algum fundo de verdade. No entanto, posso não ser um exemplo de clareza e lucidez mas estou longe de ser maluco dos cornos.

Um chalupa, no meu entender, é um indivíduo que partiu para onde não o conseguimos seguir. 
É uma pessoa que não tendo de estar confinada a um espaço fechado e sem arestas cortantes nos eleva o espírito por percebermos que, apesar dos problemas do dia-a-dia, ainda pertencemos a este lado da cerca da sanidade. 

É, por exemplo, um sujeito que parava na zona do Saldanha perto da minha antiga residência. 
Bem vestido, de fatinho escuro, mas que trazia sempre numa mão uma garrafa de espumante que levava frequentemente aos lábios e na outra um pau comprido e ameaçador. O seu ambiente de trabalho, digamos assim, dado que costumava lá estar sempre oito horas por dia com intervalo para almoço, era a entrada de um prédio devoluto junto à avenida Casal Ribeiro. Dizia que o prédio era dele e portanto tinha de guardá-lo. Aparentemente, as suas obrigações passavam também por ameaçar os transeuntes de paulada, sempre aos berros como era seu apanágio, mas, quando estava bem disposto, também não dispensava um pé de dança. Nunca percebi se a garrafa de espumante era sempre a mesma ou se era uma nova todos os dias. Também nunca confirmei se continha mesmo a bebida ou era apenas uma espécie de ritual imbecil: se o levar contínuo do gargalo à boca representava uma qualquer simbologia demoníaca de trompeta do Apocalipse. Sei que a dada altura, este chalupa arranjou um leitor de cassetes e já não se apresentava no spot sem phones nos ouvidos. O acrescento pode não ter saciado a sua fome por porrada indiscriminada a desconhecidos mas, façamos justiça, trouxe ainda mais ginga às suas sessões públicas de kuduro

Confesso que às vezes dava por mim a observar este espectáculo dantesco e a temer terrivelmente pelo futuro. O que quer que o mentecapto tivesse fumado ou ingerido andava por aí e podia arruinar-me o cerebelo com tanta eficácia como o fizera a ele... É por isso que ainda não desisti do sonho de me fazer acompanhar sempre por um provador, para passar a pente fino tudo que estará prestes a passar-me pelo goto. Pensei até em andar sempre com o meu gato debaixo do braço para o efeito (até porque, até ver, o diabólico leitão parece não ter nenhuma outra utilidade) mas acho que, só por si, isso já era um passo largo exactamente para o universo que pretendo evitar.

A verdade é que ao longo da minha vida tenho conhecido muitos chalupas e, por incrível que pareça, sempre que sou forçado a travar diálogo com um deles fico extremamente calmo, como se entrasse numa dimensão paralela e quisesse trazer um pouco de rigor e lógica onde não há nenhuma. É apenas uma forma de me enganar a mim próprio e afastar o medo de "virar a boneca", como se a chalupice fosse contagiosa.

Há cerca de um ano, estava eu num bar a festejar o aniversário da minha mulher quando reparei num homem, lá está, bem vestido e apessoado, a fazer uma estranha dança na outra ponta da sala. Eu sei que estranhas danças em bares não chegam para definir alguém como maluco mas este espaço era distinto e erudito e não se coadunava com o agitar frenético de ossadas e articulações que acontecia defronte de um aparentemente sereno (mas claramente em pânico) empregado de balcão. 

A dada altura, constatando que eu não o estava a imitar na sua apalhaçada performance, a criatura virou-se para mim e gritou:

- Então, tu não danças?!

Eu, porque me encontrava sentado e em grupo, e também porque considero a dança uma actividade inatingível ao corpo perro e inútil que tenho, atirei-lhe, lá está, com muita calma:

- Não.

O bicho, não tendo achado a minha resposta satisfatória, replicou com os olhos esbugalhados:

- Porquê?!

Procurando ignorar os risos nervosos dos meus convivas, respondi uma vez mais:

- Porque não gosto.

Foi aí que, sofrendo uma espécie de epifania satânica, o chalupa se aproximou da minha mesa e, balançando as ancas como nunca, berrou:

- É SÓ ABANAR O CU!

...

Em resposta à eloquente sugestão, decidi parar durante uns segundos.

Pensar na minha existência. De onde tinha vindo, para onde pretendia ir, tudo aquilo que me servia de inspiração e me construía a personalidade. Pensar em todos os degraus que subira e as barreiras que contornara até chegar àquele momento. 

O momento em que um desconhecido, agitando-se como louco, me ordenava aos gritos para "abanar o cu".

Respirei fundo.

Pisquei várias vezes para humedecer os globos oculares e, sempre muito tranquilo, voltei a responder-lhe.

- Eu não gosto de abanar o cu.

...

...

Percebi logo que, pela primeira vez, alguma coisa o tinha deixado estarrecido. 

"Alguém que não gosta de abanar o cu?! Como é possível?!"

Ficou a olhar para mim como se sempre tivesse vivido debaixo de água e alguém o houvesse pescado de repente. Como um chicharro a resfolegar à tona.

"Como era possível não se gostar de abanar o cu?!"

Porque considerei bizarro e tremendamente desconfortável prosseguir com a celebração do dia especial da minha mulher à vista desarmada de um lunático petrificado que não estava a conseguir suportar o choque da minha resposta, lancei uma ou duas palavras para o ar. Para forçá-lo a sair do transe.

Tudo o que consegui foi que ele parasse finalmente de efectuar o seu bailado.
O que para mim já foi uma enorme conquista. 

Com um ar mais sóbrio e "terreno", sussurrou:

- Posso fazer-te uma pergunta?

Mau.

Tremi.

Ainda há quinze segundos falávamos em "abanar" e em "cu" portanto qualquer conversa que se seguisse a esta não podia ser de todo agradável ou interessante.

Mas lá está, tenho medo. 
Medo de assumir perante mim próprio que estou diante de uma pessoa que é biruta e que daqui a uns anos posso ser eu a fazer aquela mesma figura diante de alguém mais são. Um tipo nunca sabe o dia de amanhã e são conhecidos os constituintes na minha vida, sobretudo de origem animal de estimação, que prometem levar-me à loucura a cada momento. 

Mas que pergunta poderia ele fazer?!

Se em vez de abanar o cu preferia abanar outras partes do corpo?
Se apreciava barrar-me com manteiga de amendoim a cada quatro horas?
Se quereria ir com ele à Cruz Quebrada adorar um pombo morto?

O QUÊ, MEU DEUS?! O QUÊ?!

Muito hesitantemente, mas procurando manter a calma, fiz um gesto com a cabeça.

Para que me fizesse a tal pergunta.

E ela lá veio. 

Solene.

...

- Já tens calções p'ró verão?

...

...

...

Foi a última vez que frequentei um bar.

E também só a muito custo voltei a vestir calções.

Deus me livre e guarde de chegar a este ponto mas, e apesar dos meus receios, devo dizer que já estive mais longe. É que sem um braço ou uma perna, com todas as dificuldades que isso traz, um homem ainda funciona. Mas a perguntar se as pessoas "têm calções para o verão" segundos depois de sugerir que "abanem o cu" não se vai longe, digam o que disserem.

Além disso, eu tenho tendência para exagerar tudo. 
Portanto se algum dia me der para ser chalupa devo entrar logo para o Top 3 mundial. Um orgulho para o país e um pesadelo para a minha mulher que certamente me daria guia de marcha na hora.

Mas se esse dia chegar...
E se me apanhar com uma garrafa de espumante e um pau nas mãos...
Prometo que a coisa não fica por ali.

Saturday, April 5, 2014

O campeão dos speedo

O meu gato é um imbecil.
Já lho disse muitas vezes na cara.

Não me pesa a consciência assumir isto publicamente dado que estou certo que ele pensa bem pior de mim, desde o dia em que calcou as patas gordas no chão cá de casa. Quem nos conhece, sabe bem que partilhamos o mesmo espaço segundo uma paz que pode estalar em bordoada a qualquer momento. Ele suja, eu limpo. Ele avacalha, eu arrumo. Ele destrói, eu arranjo ou ponho no lixo. O equilíbrio do pardieiro onde moro dispensa as energias cósmicas e os mais básicos princípios do feng-shui... É antes um sério teste ao meu autocontrolo e capacidade de recusar o impulso primitivo de esventrar a vil criatura e sair com as tripas dele ao pescoço, como um colar de missangas.

Enfim, mas não percamos tempo a falar de fait divers...

A verdade é que nos últimos meses, o diabrete sodomita que é o meu gato tem andado irreconhecível na sua doçura e procura de carinho humano. Ele é querer colo a toda a hora. Ele é esfregar o focinho ternamente. Ele é dormir aos pés como um bicho dos filmes da Disney. Só lhe falta cantar!
De repente, esta besta torna-se em tudo aquilo que eu e a minha mulher sonhámos quando o trouxemos cá p'ra casa, uma espécie de "ursinho carinhoso" que não só proporciona bons momentos de lazer em família como ainda se abstém de cometer vilanagens durante o resto do tempo. Nada... NADA... dos traços que vinham a marcar a sua infame personalidade até então.

Posto isto, eu até ficaria contente e, de certo modo, orgulhoso, se não soubesse de onde é que vem esta bondade toda. Se a achasse honesta e livre de interesses. Se não a topasse à légua...

O BEDUÍNO ESTÁ ASSIM PORQUE TEM FRIO!!!

Ora, que vá bardamerda!

A mudança brusca do estado de espírito do meu gato é capaz de ser o único efeito medianamente positivo no tempo extremamente ranhoso que temos tipo em todo o país. Fosse eu uma salamandra peçonhenta e estaria muito satisfeito com esta humidade toda. Isto para lagartagem e moluscos está um verdadeiro petisco. Mas para os seres humanos, à parte de terem agora como melhores amigos os mesmos gatos que lhes infernizavam a vida há seis meses atrás, não serve não senhor.

Eu já perdi a esperança de que alguma vez possamos voltar a ter dias de sol. Acho que acaba por ser mais sensato aceitar que daqui para a frente há-de ser isto ou muito pior. Há quem se queixe do aquecimento global e da poluição mas eu não tenho dúvidas que a culpa está em duas classes muito particulares de indivíduos: os amoladores e a malta da agricultura.

Ora, os amoladores vocês sabem porquê.
Não podem ver dois raios de sol sem que peguem no pífaro e venham estragar o dia ao resto das pessoas. Aquele maldito pífaro faz chover e, apesar de toda a gente saber que tem poderes mágicos, parece ser o segredo mais bem guardado da história. Países com seca era exportar para lá os amoladores e os pífaros e estava o problema resolvido. Não sei porque é que não tratam disso.
Ora, estes tipos são o primeiro entrave ao solinho, os índios da dança da chuva dos tempos pseudo-modernos (porque desde puto que os ouço a andar pela rua e a chamar borrascas), os tinhosos anti-praia. O governo pede para que sejamos empreendedores e, por causa disso, até já me passou pela cabeça desenvolver um projecto musical intitulado "As mais belas baladas em pífaro de amolador", como maneira de os retirar da rua e abrir novas oportunidades de negócio que não envolvam controlar a meteorologia. Mas isto já se sabe como é: o lobby das flautas de Pan é grande e não dá hipótese a mais ninguém. O que me leva à minha segunda ideia de os fuzilar a todos.

De resto, a malta da agricultura também tem culpas no cartório porque todos os anos se queixa que não há chuvinha para as couves, que não há chuvinha para as cenouras, não há chuvinha para o resto lá dos legumes deles...
Agora é calçar as galochas e andar a pescar hortaliça com água até ao pescoço.
Por causa dos queixumes.

Claro que percebo a falta que faz a chuva às plantações, nem ponho isso em causa. Mas gostava de saber porque é que raio é que me lembram disso quando dou pelas meias molhadas em plena baixa lisboeta! ALGUÉM ANDA A PLANTAR TOMATES NO LARGO DO CARMO?! Então porque é que não me posso queixar da chuva?! Tenham paciência...

É verdade, estou cada vez mais amargo.
Estamos em Abril e eu já não aguento mais a chuva e o frio.
E nem as ternuras do meu super-interesseiro gato servem para escamotear a situação.

Estou de tal forma perturbado que chego ao ponto de recordar com saudade um bizarro episódio ocorrido há uns meses valentes, no prédio do estúdio onde trabalho e que partilho com muitos outros trabalhadores liberais (termo fino para "desempregados"). Estávamos na altura a aproveitar os últimos dias de verão e a entrar na cinzenta era de trampa em que nos enfiámos. Saí do estúdio ao final do dia, na companhia de um amigo, e reparei que no patamar do prédio pairava um cheiro fortíssimo a verniz. No entanto, como um dos apartamentos estava em obras, rapidamente associei o odor químico à existência de "trabalhos". Quando me aproximei do elevador, reparei que a porta dessa mesma casa estava aberta e tinha efectivamente sido aplicado o produto no chão de tacos de madeira. Sorri, perante a minha extraordinária perspicácia.

O que não me fez sorrir foi a visão que acompanhava a entrada desse mesmo apartamento.

Ao lado da porta aberta estava um indivíduo.

Dos seus quarenta e poucos anos.

Alto e gordo.

Badocha imponente.

Papada debaixo do queixo.

Peludo.

Que ostentava, simples e exclusivamente, sobre o corpo nu...

... uns speedo azuis.

(speedo, para quem não sabe, são fatos de banho tipo cuecas)

...

...

Eu não sei o que é que foi mais desconfortável...
Se a reacção envergonhada do homem quando nos viu aparecer, se a visão apocalíptica daquele "deus Apolo" quase como veio ao mundo, se o facto de tanto eu como o meu amigo termos tido de esperar pelo elevador uns excruciantes segundos na sua companhia.

Julgo que ficaríamos igualmente atónitos se no mesmo sítio tivessemos visto duas renas a fazer o pino ou um mergulhador a assar chouriço. Nada daquilo fazia o mínimo sentido.

Mais tarde, com calma, adivinhámos que talvez o homem tivesse preferido aplicar o verniz naqueles preparos de modo a não sujar a roupa ou, no limite, ficar com as vestes impregnadas a químicos. As explicações podem ser muitas mas nada justifica aquilo. E não há indemnização que pague os danos morais de tal imagem no fim de um dia de trabalho.

Hoje, depois de meses a fio com um tempo de fugir, recordo com saudade o "campeão dos speedo".
Por ser um símbolo do tempo em que estar naqueles preparos era um acto de libertação refrescante.
Por ser um hino à loucura do verão.
Tempo esse que não volta mais.

Tirem-me mas é daqui!


Wednesday, February 12, 2014

É só comida, pá...

Eu sou um indivíduo que paga várias dezenas de euros por mês a uma conhecida marca de telecomunicações nacional. O mesmo indivíduo, que sou eu, pouco ou nada vê de televisão sem ser algumas séries que a patroa põe a gravar na box (porque tenho tanto jeito para mexer em aparelhos novos como um boi-cavalo para aprender linguagens de programação).

Ora...
Ainda assim, e porque pouco vejo, eu acho que passava bem sem os canais de TV que possuo.
Quando era miúdo, primeiro tinha só dois e não me chegavam. Depois, passei a ter quatro e continuava a ser pouco. Hoje tenho quatrocentos e não lhes ligo nenhuma. Bonito e sucinto resumo da evolução dos tempos.

O que se passa nesta casa é que, e apesar da farturinha, tirando as tais séries que vemos à refeição (porque nem eu nem a minha mulher já temos pachorra para trocar mais do que cinco palavras um com o outro) só há um raio de um programa que pontifica nos ecrãs luminosos destes aparelhos de televisão como se tivesse sido pintado no vidro. Um programa que está a levar-me ao desespero e a acabar, passo a passo, não só com a minha vida mas também com o controlo que ainda possuo sobre a bexiga e outras válvulas potencialmente embaraçosas.

Um título do demónio chamado MASTERCHEF.

...

Amigos, nesta casa, e sem qualquer tipo de exagero (que eu não sou nada dessas coisas), esse seriado dá 60 minutos por hora, 24 horas por dia, 30 ou 31 dias por mês (Fevereiro incluído)!
O ano todo, sempre... SEMPRE!

A minha mulher deixa-se estar a olhar para a TV com aqueles olhos vítreos e baços de quem só está à espera que o peito de frango acabe de caramelizar para me vir degolar durante o sono. Eu sei que posso estar a inventar coisas mas passei a dormir com um garfo de sobremesa debaixo da almofada pelo sim pelo não. Não entendo o fascínio generalizado por este programa e, para mim, a menos que me provem o contrário, até pode ser uma manobra de hipnose colectiva muito bem elaborada para erradicar da face da Terra todos aqueles cujas habilidades na cozinha não vão além de fazer chá. Portanto, devo estar em muito maus lençóis.

Mas até assumo ser uma coisa bem produzida e até algo interessante. Nada a ver com aquela que considero ser a pior série de todos os tempos da televisão de todo o mundo, a escória da programação, o sebo ressequido da grelha, o pus anal das telecomunicações... Também apelidado por "Querido mudei a casa". Isso sim é algo que assumo como ofensa pessoal por ser tão mau, mas não vou alongar-me demasiado acerca do assunto porque, diz o médico e o chefe da PSP da minha zona de residência, não me posso enervar.

Não tenho nada contra o Masterchef mas, e porque sou obrigado a conviver tanto tempo com isto, há alguns aspectos do programa que começam a provocar-me úlceras na alma.

Primeiro que tudo: quantos episódios é que tem realmente uma temporada?! É que isto dura para sempre. PARA SEMPRE! Eu vejo parte de um dos do início e estão lá trinta (e eu não sabia que havia assim tantas pessoas na Austrália). Mais à frente volto a ver e ainda lá estão todas, senão mais duas ou três. COMO É QUE ISTO SE EXPLICA?! Cheguei a ver episódios em que um dos tipos é algo massacrado pela crítica, ou porque deixou tostar o leitão ou arrefecer as batatas, não me lembro... problemas lá deles! Em qualquer outro programa do mundo, esse tipo, como lhe correu mal o cozinhado e aquilo é bota-fora já se sabe... Vai de vela. Mas ali não! Corre mal e ele não só fica como ainda lá está passado trezentos episódios a tempo de poder entrar a dada altura o filho ou a filha que entretanto já fez dezoito e nunca conheceu o pai...

QUANTOS EPISÓDIOS TEM UMA TEMPORADA DESTA PORRA, PÁ?!

Depois, é a importância que se coloca nas coisas... Eu gosto muito de comer e reconheço que boa papa tem arte e mais não sei o quê. Respeito muito quem sabe cozinhar e ainda mais quem se dá ao trabalho de o fazer para mim. Eu não consigo, porque não tenho a sensibilidade necessária e porque já é uma grande coisa acertar na sanita quando faço xixi. Cada um faz o que faz melhor. Mas... caros amigos... É só comida, pá. Não vale a pena chorar nem desesperar nem dizer que a nossa vida é um prato de perdizes de caça com legumes salteados. Tenham lá calma e pensem na família e nas pessoas que vos querem bem. Tal é o drama à volta das patuscadas que eu acho que as prioridades estão um bocado do avesso no raio da ilha dos cangurus, ó catano.

O meu avô tem noventa anos e já me comunicou a imensa estranheza com que verifica o fenómeno dos programas de culinária cada vez mais em voga. "Olho para a televisão...", diz ele, "Estão a fazer comida... Passadas duas horas lá estão eles a fazer comida... À noite, novamente a fazer comida...". O meu avô tem razão, senhores. É demais...

A SÉRIO, QUANTO DURA UMA TEMPORADA DO MASTERCHEF?!

E depois são todos amigos e carinhosos uns com os outros. Não digo que tenha de haver peixeirada e gritaria à americana, embora admita que às vezes nem é mal pensado para espevitar as coisas. Mas a quantidade de sorrisos, de gestos, de festinhas e das outras paneleiragens todas que cobrem o raio daquele gente de melaço já me começa a meter nojo! 'Tá bem que é uma abordagem diferente de reality show e que não querem lá ir pelo negativo mas bolas... É mesmo possível arranjar assim um grupinho de teletubbies saltitantes que se amam todos uns aos outros e a toda a gente do programa?! Não há quem se dê mal ou que não vá com a cara de alguém?! É assim tudo tão perfeito na Austrália?! Bardamerda!

E ISTO TUDO AO LONGO DE QUANTOS EPISÓDIOS, MESMO?!

A avaliar as centenas de concorrentes (cujo número, como que por magia, cresce a cada programa em vez de decrescer), estão sempre os mesmos três tipos. Dois cozinheiros gentis e fofinhos como pandas e um outro cavalheiro que é crítico e que se veste como se frequentasse a corte do Luís XIV. Às vezes gostam muito das comidas que provam, outras gostam um pouco menos, nunca acontece cuspirem a mixórdia para o lado com repugnância. Quanto menos não fosse por isso, até seria proveitoso levarem-me lá a preparar um dos meus cozinhados para que acontecesse algo diferente na série.

O Masterchef parece-me uma colónia de férias para deficientes. Ninguém perde, ninguém é expulso... No fim, há prémios para todos.

No Masterchef todos sorriem e são felizes. Quando choram é para dizer que o sonho deles sempre foi fazer comida para outros encherem o bandulho.

No Masterchef, um ovo estrelado demora duas semanas a fazer.

É UM PROGRAMA QUE NUNCA MAIS ACABA!

...

...

E a minha mulher continua a ver isto como se estivesse fora do alcance dela pegar no comando e mudar de canal. E eu, se quero estar um bocadinho ao pé dela, não posso evitar ver uma vez mais, e mais uma vez, tudo aquilo que vomitei ainda agora para este texto.

Só queria poder voltar a olhar para uma costeleta como antes.
Sem ver à sua volta toda uma tabela de reduções e temperos e nomes em estrangeiro que me recuso a aprender.

Só queria voltar aos tempos do Carlos Capote e da Vacondeus.
Em que a comida era só comida, despachava-se a coisa em vinte minutos e vamos lá embora que 'tá na hora do telejornal.

Só queria poder voltar a dormir descansado.

...

E devolver o garfo de sobremesa à gaveta dos talheres.

Friday, December 27, 2013

Agruras de um Natal passado

Estes governantes são tramados, pá.
As coisas que aquelas cabecinhas arranjam p'rá gente não ligar demasiado aos aumentos que tarda nada nos vão obrigar a vender o rabo para sobreviver... E não pensem que isto é apenas mais um dos meus exageros. É que ainda há bocado vi no telejornal que vai subir tudo o que são prestações e contas em 2014, desde o gás à água, passando pela electricidade, prestações da casa e taxas moderadoras dos hospitais. A venda do rabo é cada vez mais uma realidade e só se safará quem tiver bom rabo. Da minha parte, posso garantir que estou em muito maus lençóis porque, da última vez que vi, o meu rabo tinha sido considerado "lixo" pela própria Standards and Poors. Provavelmente, safar-me-ei com um ou outro estivador menos criterioso... Mas até aí será complicado porque também os estivadores andam a passar mal.

E curiosamente até é de lixo que estou a falar. Esta história da greve da recolha, para mim, foi uma jogada de mestre. Com os efeitos desta greve, ao primeiro beduíno que levantar a voz contra a política dos aumentos, sempre podem responder que acabámos o ano atolados em merda até às orelhas e portanto, a partir daí, é sempre a melhorar. Portanto não me parece que hajam coincidências.

Lisboa está tão afogada em lixaria que parece que o terramoto foi na semana passada.
Calculo que até leprosos medievais se recusariam a passar em certas ruas, da maneira como isto está. Eu sou solidário com os homens do lixo, não por causa da história de não quererem passar p'rás freguesias e tudo mais, que aquela malta tem é de trabalhar e calar o bico, mas devido a um exemplo em particular. Quando era miúdo, havia um homem do lixo na minha rua que tinha um cabelo que sim senhor. Forte, viçoso e com aquele lustro cor de petróleo que só meses de recusa à higiene podem explicar. Eu sempre prezei o meu cabelo, mais ou menos até à altura em que comecei a ficar sem ele, e portanto olhava p'raquilo um pouco como os putos do Funchal olham para o Cristiano Ronaldo. Na altura, daria ambas as minhas pernas por uma cabeleira com aquele calibre, primeiro porque o que gostava mesmo era de estar sentado a despachar sandes de marmelada, portanto podia bem passar sem elas, e segundo porque assim teria a certeza de que nunca, mas nunca, viria a experimentar as agruras da calvície.

Cresci fascinado pelo homem do lixo do cabelo de aço e nunca fiquei a perceber a verdadeira natureza de tal fenómeno: se eram genes, se a total ausência de contacto com H2O ou se simplesmente os vapores dos resíduos que fortaleciam o escalpe. Tanto quanto sei, o homem até podia ser careca, mas como não havia banho para retirar os cabelos mortos eles lá ficaram, entrançados, num enorme telhado de pladur capilar. Enfim, ídolos de infância todos temos.

Penso que, principalmente por isso, durante breves momentos também eu quis ser homem do lixo. Aliás, ao longo da minha vida quis ser várias coisas até ter tomado a decisão de ser aquilo que sou hoje. Que é algo que não consigo descrever mas que há quem defina como "freelancer", "jeitoso", "escritor frustrado" ou "aquele tipo que olha para mim fixamente e que me faz deitar a mão ao gás pimenta sempre que aparece". No entanto, as minhas ambições de futuro esbarravam sempre no trágico e rigoroso muro da realidade. Quis ser veterinário mas percebi que era mais do que fazer festinhas aos cães. Quis ser pescador mas percebi que isso era estúpido. Quis ser dono do mundo (e por alguma razão achava que para isso precisava de uma espada e de um cavalo) mas havia um amigo meu que queria ser a mesma coisa e já tinha o cavalo. Quis ser paleontólogo mas depois de ver o Jurassic Park em 93 toda a gente queria. Enfim...

No fundo, o que eu queria mesmo era um cabelo como o do homem do lixo.
E daí o meu carinho por toda aquela malta.
Estou triste por se verem forçados a fazer greve, pelos aumentos que aí vêm e por ter de enfiar a boca em dúzias de sacas fedorentas com restos do Natal para chegar até ao carro e ir para casa.

Estas tristezas todas lembram-me, já agora, uma das coisas mais comoventes que alguma vez vi na televisão. Curiosamente na altura do Natal e também curiosamente protagonizadas por um tipo com um cabelo que sim senhor: Michael Landon da série "Um Anjo na Terra". Quem se lembra desta série provavelmente já estará num lar de terceira idade a comer açorda por uma palhinha e saberá que o único intuito da mesma era fazer chorar. Um pouco como as entrevistas do Daniel Oliveira mas em formato seriado e ainda mais explosivas. Todos os episódios eram tristes à sua maneira mas este... Este rebentou a escala.

Bom, vou deixar aqui o link para não me chamarem mentiroso.
Se vos apetecer ver depois do telejornal de hoje à noite pode ser que fiquem com um impulso incontrolável de sacrificar ninhadas de pandas e de tatuar suásticas na testa, mas isso serão apenas efeitos secundários.

Ora portanto, a sinopse é mais ou menos a seguinte:

Aquilo começa com um puto deficiente (que se não é mesmo deficiente então é muito bom actor) que, em jeito de bónus, é também sem abrigo. O desgraçado está a roubar um queque e um conjunto de velinhas numa loja de conveniência. A dada altura, porque como é deficiente é também um bocado trôpego, o puto lá faz merda e o dono da loja percebe que está a ser roubado. Por pouco não lhe prega uma lamparina bem aviada na tromba porque o rapaz consegue fugir e esgueirar-se até casa. Aqui, "casa" é uma caixa de cartão num beco escuro e badalhoco. Ora, perguntam vocês porque é que o miúdo deficiente foi correr este risco todo para gamar um queque e umas velas? Porque fazia anos e queria celebrar...

...

Eu por esta altura já não sabia se chorava ou se me mijava todo.
Tais eram as convulsões que sentia pelo corpo.

...

Ora, queria celebrar mas não estava sozinho. Tinha a companhia do seu único amigo: um gato sarnento a quem ele chamou repetidas vezes, pelo meio dos incessantes perdigotos que lhe saltavam da boca, de "o meu presente de aniversário". Enfim... Aparece Michael Landon com o seu extraordinário cabelo (semelhante ao do homem do lixo que eu conhecia mas com o factor champô à mistura) e, porque é um anjo e tem contactos privilegiados, consegue fazer com que um casal de classe média alta adopte o miúdo "especial". Ele lá vai para um grande casarão e tal, conhece o filho biológico do casal que surpreendentemente nem é muito mimado e durante um bom quarto de hora até parece que a coisa vai ter final feliz.

...

Aqui, entre o ranho que me escorria pelo peito até às virilhas, eu já tinha gasto duas embalagens de lenços e começava a achar que não valeria a pena abrir uma terceira.

...

A dada altura, por alguma razão há um fogo na casa e a malta que até ali tinha sido muito dócil e compreensiva não hesita um milésimo de segundo a culpar o deficiente e a correr com ele dali p'ra fora.

...

Tal qual.

...

Portanto, o puto lá regressa para a caixa de cartão, que por esta altura tinha mais SIDA que papel, e volta a passar as noites abraçado ao gato e a desejar que a catrefada de parasitas que a bicheza carrega no pêlo não o cegue durante a noite.

...

Fim.




Bom, é possível que não tenha sido 100% assim mas é assim que eu me lembro do raio do episódio. Ainda hoje, aos 31 anos, não há Natal que não me lembre do puto miserável e do Michael Landon sempre que vejo tristezas na televisão e fico receoso em relação ao futuro.

Espero que estes dramas todos se resolvam e que possamos começar o novo ano da melhor maneira.

Menos inquietação, melhores condições para os trabalhadores e se possível...

... mais saudinha para o meu cabelo, se faz favor.

Friday, November 8, 2013

Não me sirvam pudins azedos

Os animais...

...

Estou só a lançar o tema para cima da mesa a ver se alguém começa a discussão.

...

É que eu não sei mesmo o que pensar deles...
Quando era miúdo, era obrigado a manter-me afastado por razões de saúde. Não, não padecia da condição psicológica contra-natura de muitos pastores, tinha era mais alergias do que uma prostituta tailandesa e, por causa disso, não me deixavam ter cães nem gatos. Ok, tive tartarugas, peixes, hamsters e periquitos, mas aqueles que não tiveram mortes precoces e traumatizantes revelavam-se uma enorme desilusão de tão aborrecidos que eram. Toda a gente sabe que só os tem quem não pode ter animais de estimação a sério...

Já na altura tinha dúvidas de como devia entender isto da bicharada e hoje esse debate mental (que é, a todos os níveis, perturbador) está a atingir picos de intensa bizarria.

No outro dia, passeava-me eu de cuecas pela cozinha (já não me lembro se ia beber um copo de água ou se estava apenas a ter um dos meus momentos "especiais"), reparei que no lavatório jazia o corpo adormecido de uma pequena sardanisca. Ora, na infância, e apesar de apreciar fauna no geral, apreciava também muitíssimo tudo o que pudesse estar envolvido com barbárie e selvajaria. Era uma criança de contrastes, acho. Eu podia passar a tarde toda, muito fofinho, a coleccionar cromos de animais selvagens ou a ver documentários na televisão, mas bastava chegar a casa e ver uma barata no corredor para exigir a sua cabeça, babando-me e aos guinchos, para junto aos meus pais. Isso ou ir eu mesmo, por minha iniciativa, desfazer-lhe o corpo e profanar-lhe a alma com a ajuda de chinelos, venenos ou lança-chamas (que infelizmente nunca havia na despensa, por mais que procurasse).

Surpreender uma sardanisca no lavatório da cozinha lembrou-me um episódio semelhante ocorrido no passado, há muitos anos atrás. Numa outra casa, num outro tempo, o meu pai aprisionava um réptil em tudo semelhante num coador (porque também estávamos numa cozinha e era o que ele tinha mais à mão) e pedia-me que o matasse o mais rapidamente possível. Olhei à volta e não vi nada que pudesse ser usado para aniquilar a existência de tal micro-inimigo... Não havia aerossol, não havia um rolo de jornal, apenas... Um enorme e maciço MARTELO.

Peguei na ferramenta e aproximei-me do coador, com um brilho estranho nos olhos muito abertos, enquanto ouvia o meu pai berrar (com os olhos não menos abertos):

DEVAGARINHO!

DEVAGARINHO!

DEVAGARINHO!

...

Alcei o martelo atrás da nuca, sempre inexpressivo e focado na minha missão.

...

Desferi o golpe, fazendo um ângulo perfeito com o braço de modo a imprimir mais violência.

...

E PÁS NA CABEÇA DA BICHA!!!

...

Sardanisca espalhada pelo coador.

Pelo fogão da cozinha.

Pelo chão.

Pela parede.

E ainda hoje o meu pai deve andar a tirar bocados da mioleira dela dos dentes também...

...

É por essas e por outras, por me sentir mal pelo que lhe fiz, que comecei a pensar na vida e a reflectir na génese desse meu apetite por sangue e tripas. Se eu gostava de animais, porquê tanto interesse em matá-los, mesmo que fossem nojentos, incomodativos ou desagradáveis à vista? Já na altura, bastava sair à rua para ver dezenas de pessoas com essas mesmas características (então em Arroios...!), por isso não era justo que uns fossem filhos e outros enteados. Com muito raciocínio e avaliação pessoal, fui crescendo, amadurecendo, desenvolvendo a minha maneira de ver o mundo e hoje, apesar de continuar a ter sentimentos díspares para com os bichos, posso dizer que respeito a existência de todos eles e só muito raramente opto por lhes fazer mal. Apenas quando as vozes na minha cabeça me obrigam a... fazer coisas.

Mas estava eu a dizer...
Encontrei a sardanisca no meu lavatório, muito pequena e esverdeada como uma esmeralda ao sol e, por alguma razão, senti por ela um amor profundo. Estava disposto a retirá-la do meu espaço com todo o carinho e languidez que os anos me ensinaram a ter. A minha oportunidade de fazer as pazes com o universo. Com gestos silenciosos e fluídos, como um mestre de tai-chi, retirei um copo de plástico do armário de cima e um pedaço de cartão para servir de base. Olhando a criatura nos olhos, como que querendo hipnotizá-la com a minha alma terna e caridosa, baixei sobre ela, com muito jeitinho, o copo de plástico para que não conseguisse fugir. Milímetro a milímetro, falando-lhe baixinho com doçura, coloquei também a base de cartão que me iria permitir transportá-la até à rua. Depois de cumprir o meu objectivo (e estando certo que, às tantas, a bicha nem sequer se apercebeu do que tinha acabado de acontecer), subi as escadas até ao terraço evitando os olhares gulosos deste presunto ambulante com patas a quem eu chamo de gato e guardo em casa como animal de estimação (a sério, este barriga de mijo está tão balofo que qualquer dia tenho de ir dormir para o sofá e deixar-lhe a minha cama...)

Bom, cheguei ao terraço segurando a base e o copinho com a sardanisca nas mãos, como uma oferta minha à natureza, glorificando a vida e todas as coisas sagradas, e comecei a pensar o que iria afinal fazer com ela. Atirá-la do terceiro andar não me parecia lá muito boa ideia dado o trabalho que tinha acabado de ter e a harmonia que bailava candidamente no meu coração. Deixá-la no mosaico também podia ser espinhoso caso ela decidisse enfiar-se dentro de casa outra vez. Daí, a solução passou por atirá-la para o telhado, apenas separado do meu terraço por uma grade.

Assim...

Coloquei os braços do outro lado do gradeamento...

Lancei à criatura um suave beijo de despedida, cheio de bondade e calor humano...

Retirei o copo de plástico...

Como eu suspeitava, ela não percebeu logo que estava livre...

Dei balanço com a base de cartão...

Atirei-a para a frente...

E depois de ter batido com a cabeça numa telha ficou INERTE E DE PATAS VOLTADAS!!!

...

...

F***-*E!!!

...

...

EU NÃO QUERIA CRER QUE AQUELE TRABALHO TODO TINHA SERVIDO PARA PARTIR O RAIO DO PESCOÇO À CRIATURA!!!

NÃO QUERIA CRER QUE O MUNDO ME IA FAZER ESSA DESFEITA!!!

40 MINUTOS DE MOVIMENTOS BRANDOS E SINUOSOS PARA, EM MENOS DE NADA, TER DE ASSISTIR AO CADÁVER A DESFAZER-SE DURANTE AS SEMANAS SEGUINTES.

EU NÃO QUERIA CRER!!!

...

Recusando-me a aceitar os factos, fiquei agarrado à grade, ainda de roupa interior, a chamar pela sardanisca num tom misto entre o aflito e o incrédulo.

Estamos a falar de um homem de trinta anos, em cuecas, a segurar uma parte da sua casa com ambas as mãos e a suplicar piedosamente pelo corpo inerte de uma sardanisca.

Portanto, um bonito espectáculo para todo e qualquer vizinho que estivesse à janela.

...

Ainda ali passei uns cinco minutos, sem sucesso.

E só depois de lhe atirar duas pedrinhas que saquei de um vaso é que a vi levantar-se e seguir o seu caminho.

Muito provavelmente para morrer em paz, uns metros mais adiante.

Ora, não é fácil admitir que aquela imensa odisseia para não roubar uma vida e respeitar todos os seres vivos acabou comigo de cuecas no terraço, a lapidar a carcaça ainda semi-viva da criatura que jurara proteger. Mas foi isso que se passou e é com a realidade que tenho de coexistir até ao fim dos meus dias. Portanto, se calhar continuo a ser a mesma besta do passado mas mais cínica, menos assumida e mais corrompida pelo mundo dos homens.

Ao menos tenho feito um esforço para decidir se os animais são, ou não são afinal, criaturas que valham a pena. Às vezes tenho a certeza que sim mas outras, começo a achar que não...

Por exemplo, eu reconheço valor aos javalis como indivíduos da floresta (que andam lá nas tocas deles e não chateiam ninguém) e como personagens de banda desenhada do Astérix. Têm com certeza qualidades e outros javalis que gostam muito deles mas, quanto a mim, não os ponham a servir à mesa...

Sim, a servir à mesa.

No outro dia, fui jantar a uma espelunca que já foi restaurante. Ao entrar, achei logo estranho que estivesse um porco selvagem a equilibrar-se nas patas de trás e a trazer a comida aos clientes mas como já vi tanta coisa estranha nesta vida (a maior parte dela no extinto jornal 24 Horas), em situações como estas prefiro calar a boca e seguir em frente. Houve quem dissesse que não se tratava afinal de um javali mas de uma pessoa em tudo semelhante a um suíno do bosque mas mais mal cheiroso e com o focinho mais cheio de gosma, mas não houve consenso em relação ao assunto. Mesmo que não fosse 100% porco, o que é certo é que a mãe fora com certeza violada por um, de quatro num celeiro, e passados nove meses trouxera ao mundo aquele artista. Portanto, até aí estávamos todos de acordo.

Mas sem querer afastar-me demasiado do assunto (e até porque isto é apenas um bizarro aparte), no final do jantar consegui identificar entre os grunhidos da besta que havia pudim para sobremesa. Pedi-lhe um e ele trouxe-mo poucos minutos depois, embalando o pratinho no casco.

À primeira colherada, espargi mais depressa a mixórdia do que levaria a ASAE a fechar o pardieiro e a mandar incinerar o corpo fedorento do empregado. Mais azedo do que aquele ex-pudim só mesmo um dos casacos coloridos do Goucha. Um verdadeiro atentado ao meu bem estar e um insulto a todos os grandes adeptos da nobre arte de realizar e degustar pudins.

Chamei o porco e disse-lhe que a sobremesa não estava em condições, que estava estragada.
O bicho ergueu as orelhas que tinha à frente dos olhos com indignação, raspou o muco das narinas com um fungo prolongado e pegou no prato da sobremesa com desconfiança.

Vi eu e viram as pessoas que estavam comigo, o javali a refundir-se para uma zona mais isolada e encostar o focinho ao doce. Não convencido com o fedor que certamente lhe teria queimado os pêlos das narinas caso fosse um ser humano normal, pegou na minha colher e deitou, ele próprio, um pedaço da gosma amarelecida sob a sua roliça e babujada língua de porcalhão.

Apercebendo-se de vez que dificilmente aquilo poderia estar mais podre e impróprio para consumo, a besta escarrou o pedaço que tinha jogado à boca para o mesmo prato de onde o tinha tirado e arrastou-se já quase em quatro patas de volta para a cozinha.

Irritado como se tivesse sido alvo de insultos...

Sem um pedido de desculpas...

Sem um grunhido arrependido...

Sem outro pudim que eu com toda a certeza recusaria.

...

...

Portanto, isto aconteceu, assim como o outro episódio embaraçoso, e só perpetua a minha dificuldade em concluir se os bichos prestam ou não prestam.

Se são bons ou são maus.

Se devo tratá-los com apreço ou terraplaná-los à base de bombaria.

Vou continuar a pensar no assunto.
E entretanto vou permitir que continuem a aproximar-se de mim, de vez em quando.
Desejando que me convençam com a sua simplicidade. Que me surpreendam com os seus gestos primitivos. E se possível...

... Que não me sirvam pudins azedos.

Monday, October 21, 2013

Uma nova era...


O meu muito obrigado àqueles que estiveram presentes na Biblioteca Camões no último Sábado. O meu ar de suricato cadavérico está relacionado com o estado de extremo cansaço em que me encontro e que estou a tentar ultrapassar.

Mas ainda assim deu-me muita força ter visto lá tantas caras amigas.

Vi também outras inimigas e demoníacas mas isso é porque quando estou cansado vejo coisas.

E sou perigoso.

Pronto, para quem não conseguiu ir e gostava de ter o livro, a informação para a encomenda encontra-se aqui à direita. Isto enquanto não disponibilizo a lista de livrarias onde o bicho vai estar, claro.

Entretanto, já para a semana começa uma nova era e nova vaga de textos aqui no estaminé.
Porque me faz falta escrever disparates e celebrar o absurdo que é a vida.

Espero ter-vos sempre a celebrar comigo.

Quero também criar uma mailing list para notificar sempre que colocar um texto novo.
Quem quiser ser adicionado escreva um mail com o subject ADICIONA-ME para horadosaguim@gmail.com

Isso ou coloque seguir por email também aqui à direita ou acompanhe-me no twitter.

O Saguim é chato, não é?
Pois é...

Abraço a todos.

Wednesday, October 16, 2013

"Hora do Saguim - O Livro" este Sábado às 19h...

... na Biblioteca Municipal Camões em Lisboa.

É desta! Vemo-nos por lá.

Thursday, October 10, 2013

Aí está o malandro! Marquem na agenda


Portanto, é p´ra irem reservando o final do dia 19, ok?
Eu sei que é só deste Sábado a oito mas a malta põe-se a fazer planos e depois é uma chatice. 
Assim fazem planos na mesma mas ao menos sabem que estão a faltar a uma apresentação do catano!

Entretanto ainda vos volto a lembrar a meio da próxima semana.

Quero que vão todos e que levem amigos.

Eu se me apetecer às tantas também passo por lá, p'ra morder o ambiente.

E é bom que veja a casa cheia.

Senão está prometido que vou sacrificar um bando de pinguins. 

Dos mais pequenos.

Depois não digam que eu não avisei...

Até muito breve.

Thursday, September 5, 2013

"Hora do Saguim - O Livro" a caminho



E é assim... Quem promete e não é político, normalmente cumpre.

O livro está feito, a capa está pronta e o lançamento será garantidamente em Outubro.
O próximo post que aqui colocar será o convite para a apresentação do bicho, portanto estejam atentos. Isto se não me apetecer meter antes um powerpoint com gatinhos... Só p'ra adoçar o palato.

Recapitulando: o ilustrador da capa foi o Pedro Carvalho, a designer da mesma foi a Sofia Mota, o conteúdo é da total responsabilidade do hominídeo que atafulhou este mesmo blog de parvoíce e a editora é a El Pep. Já a energia que vos permite ler isto no computador, em príncípio é da EDP. Ou então é de outra companhia que a DECO vos convenceu a contratar para ganhar algum por fora.

É assim a vidinha...

Vemo-nos em Outubro.

Sunday, August 11, 2013

Tá quase...

Malta da pesada... Só para ir dando notícias.

O livro está 100% terminado e revisto.
Tivesse sido outra pessoa a escrever e talvez estivesse bom. Mas como fui apenas eu, está o que está.

De qualquer maneira, agora vai mesmo acontecer e já não dá p'ra voltar atrás.

Em Setembro (ou o mais tardar no início de Outubro) temos o bicho à solta.

Entretanto, muito me queixei eu que não havia nenhuma editora que quisesse pegar nisto e eis que apareceu uma: a El Pep.


Uma "casa" independente que tem lançado muito bons projectos, entre a banda desenhada e a literatura. Prepara-se para lançar o meu, por isso talvez seja este o início do descalabro.

Da última vez que me meti com uma editora fui burlado à bruta.
Portanto, desta vez o meu objectivo é tentar burlar a El Pep. Ainda estou a ver como.

Bom, desta é que é...

Beijinhos e até Setembro.

Ou início de Outubro, o mais tardar.

...

Ah! Cuidado com o calor...

Pomada nessas virilhas.

...

Vocês sabem...

...

Wednesday, July 10, 2013

HABEMUS SAGUINO


O livro está escrito e paginado.
Agora está a ser revisto e a capa a ser terminada.

Vai ser lançado em Setembro e até lá ainda vou anunciar mais uma ou outra novidade.

Portanto, ide de férias, aproveitai a boa vida e depois estai disponível para parvoíce.

Mainada.


Friday, June 7, 2013

Parece que é desta...


É comummente aceite que sou um tretas mas ainda assim gosto de honrar a minha palavra.

O livro sagrado está quase concluído!

E o livro da "Hora do Saguim" também.

Falta apenas escrever 4 textos exclusivos e segue para revisão.
A capa vai estar a cargo do Pedro Carvalho.
O prefácio foi escrito pelo meu bom amigo Sá Granate.
Vai ter cerca de 300 páginas.
E tudo graças ao esforço e ao apoio de zero editoras.

Portanto, já se vê que vai ser coisa bonita.

'Tá quase...

Monday, March 25, 2013

Tenho saudades tuas, David

À medida que um tipo vai envelhecendo vai ganhando interesses inesperados e redescobrindo memórias surpreendentes. Quando digo "um tipo" estou a falar de mim próprio, evidentemente. Estou a tentar implementar aos poucos esta mania de falar na terceira pessoa, sempre como "um tipo", e acho que dentro de um ano ou dois já é coisa para exportar lá para fora. Tentei fazer o mesmo há tempos usando antes o termo "desgraçado" mas, por alguma razão, as pessoas não aceitaram tão bem. São feitios...

Mas enfim, hoje em dia dou por mim a ouvir música que não ouvia na altura em que foi feita, a ver filmes que dantes não me interessavam para nada, a gostar de coisas que não gostava, só pela época que representam e pela nostalgia que me trazem. Posso estar vinte a trinta anos atrasado mas a verdade é que não me importo muito com isso. Desde que um desgraçado possa tirar daí momentos de genuína comoção, acho que é aposta ganha. Viram? Desgraçado não é tão eficaz, de facto.

E se aquilo que eu ontem desprezava hoje faz as minhas delícias, que dizer de tudo o resto que eu já venerava? Tipo a série de animação "David, o Gnomo"?!

Uma vez mais digo: não tenho nada contra nem a favor dos anões. Eles são como são e eu sou como sou, tenho mais meio metro e metade do tamanho do crânio, é certo, mas fora isso pouco nos afasta. Sei que eles por regra têm menos tolerância ao álcool do que as pessoas de dimensão dita normal, mas como também deixei de beber há uns bons meses calculo que até nisso sejamos parecidos. Os anões, é preciso dizê-lo sem rodeios, a meu ver não são nada de especial.

Já quando se fala de gnomos, a conversa é diferente.
Adorava-os em criança e, caso tivesse hoje uma doença grave do foro psicológico, continuava a adorá-los e a acreditar na sua existência.

Para começar, usam aqueles chapéus bicudos que tanto gabo nos Papas (até falei nisso no texto anterior). Continuo a achar que é preciso um indivíduo estar muito seguro de si e da sua sanidade mental para colocar um bicharoco daqueles todos os dias na pinha e achar que se está em condições para sair para a rua. No entanto, duvido que os gnomos associem ao adereço qualquer significado religioso... O que me levanta dúvidas quanto à posição relativamente às questões raciais. Há qualquer coisa de Ku Klux Klan naquele outfit mas prefiro não pensar muito no assunto. É certo que nunca vi nenhum sujeito de raça negra nos episódios de "David, o Gnomo" mas também não é menos certo que toda aquela realidade de floresta e não sei mais o quê pouco tem a ver com o Sul dos Estados Unidos. Lá está: não vale a pena ir por aí.

Depois, tanto David como Lisa (a esposa) eram idosos... E sabemos como as crianças apreciam idosos.
Eu não era excepção, de facto sentia empatia com velhotes mas hoje vejo as coisas com outros olhos. É que a grande generalidade dos gnomos que apareciam na série tinham já uns Invernos a mais, o que me leva a suspeitar que se a população gnoma era já envelhecida na altura, hoje já pouco deveria restar da mesma. Sou capaz de imaginar David com o chapéu meio murcho, sentado numa poça de mijo a ver o Goucha e a queixar-se que "Ser gnomo no meu tempo é que era e a malta nova não quer pegar nisto..." Enfim, preocupações que não me assombravam mas que actualmente, viciadas pela vida adulta, não deixam de surgir na ideia.

Para quem não via a série, David, além de gnomo, era também uma espécie de veterinário. Tipo, curava os animais que estivessem doentes, que tivessem sido apanhados em armadilhas ou que sofressem de uma maleita qualquer. Nenhum dos episódios abordava questões de ordem médica mais complexas ou até mesmo embaraçosas (não me lembro de ver David a ter de retirar um espinho do escroto de um texugo, por exemplo) nem sei se prestava serviços no âmbito da psicoterapia ou de medicinas alternativas, mas se tal acontecia deduzo que tais cenas tivessem sido registadas off the record. O tamanho de David não deixava de ser uma vantagem no exercício da sua profissão porque lhe permitia observar de perto e em grandes dimensões quaisquer orgão que tivesse de tratar. No fundo, uma boa maneira de se poupar uns trocos num microscópio. David era manhoso e sabia-o. No entanto, era também bastante estúpido dado que nunca o vi receber um cêntimo pelos serviços prestados. Os bichos deviam agradecer e dizer que pagavam no fim do mês quando recebessem e o otário dizia que sim e voltava para o buraco a cantarolar e a equilibrar o chapéu bicudo na cabeça. Enfim, há ursos...

Já a Lisa, sejamos sinceros, era uma mula que não fazia nada. Estava gorda como uma porca com um problema glandular e isso é fácil de explicar pelo simples facto que raramente saía do covil que partilhava com o marido. Seria uma trophy wife não fosse o seu aspecto asqueroso e abrutalhado em cima do qual, equilibrava também ela, o seu chapéu bicudo. Ok, podem dizer que provavelmente tratava da lida da casa. Mas quando a casa tem cerca de quinze centímetros quadrados digamos que as tarefas não podem consumir muito tempo ou energia. De qualquer maneira, acredito que houvesse uma certa tensão entre ela e David por causa da sua ineficácia em trazer dinheiro para o agregado familiar. O sair todos os dias para ir trabalhar e o regressar à noite com um sorriso idiota na cara e os bolsos vazios deviam encher Lisa de dúvidas e inquietação. Inquietação essa que nunca é verdadeiramente abordada na série, diga-se.

No entanto, a relação entre os dois não parecia má, embora profundamente assexuada. Os raros momentos de carinho consistiam no esfreganço vigoroso dos narizes, prática que como é sabido foi tornada célebre pelos esquimós. Julgo que pouco devia ter a ver uma coisa com a outra, dado que aquela malta nunca devia ter visto um esquimó à frente, provavelmente era apenas uma maneira de mostrar qualquer coisa parecida com afecto sem ter de aplicar demasiado esforço nem correr o risco de ser erótico. E erotismo com aquelas duas aventesmas era algo para patrocinar os meus pesadelos durante meses.

Mas nem tudo era miserável, David fazia-se sempre transportar no dorso de uma raposa que chamava com um assobio. Provavelmente o único animal honesto e que assim recompensava os serviços de enfermaria prestados pelo gnomo. Uma espécie de limusina com motorista sempre ao dispor não era para qualquer um. Quando era criança, vivia na mesma rua que o ex-presidente da República António de Spínola. E, como se sabe, a malta que foi presidente tem direito a viatura e pinguim condutor todos os dias, até ao pijaminha de madeira. Os ex-presidentes e julgo que o Cavaco também, quando largar o poleiro. Bom, lembro-me de olhar para o velhote e achar que havia muito de David nele... Em vez de uma raposa vermelha era um carro preto e ele não o chamava com assobios mas fora isso era igual. Às vezes há coisas que aproximam os desenhos animados da vida real e só topamos quando somos putos. Enfim...

Os inimigos, também os havia, eram uns deprimentes irmãos mostrengos com narizes de bêbado a quem chamavam trolls, mas nunca constituíam grande ameaça. Faziam patifarias de modo cristão e sempre dentro de certos e determinados limites, porque eram também eles bastante estúpidos. Aliás, só assim se justificava a vida tranquila de David que, como já foi provado ao longo deste texto, não era propriamente a última Coca-Cola do deserto...

Mas voltando ao início, a minha adoração pelo boneco era imensa.
E aos trinta anos, não nego que ver o genérico no youtube faz com que haja uma lagriminha a querer saltar. Isto embora também tenha de recordar com bastante tristeza o momento em que nos separámos definitivamente e que envolveu um berreiro tal que os vizinhos provavelmente pensaram que me estavam a cortar um braço com uma colher de chá.

É que os senhores criadores da série "David, o gnomo", com certeza esgotados por todo o fervilhar criativo que os episódios exigiram e não sabendo como colocar termo à questão, tiveram a ideia brilhante de o fazer traumatizando milhares (quiçá milhões) de malta infantil.

Para quem não sabe, no final de "David, o gnomo", David e Lisa MORREM transformando-se ambos num decrépito e macabro par de árvores.

Sim, tal qual.

...

Ah mas não antes de uma dolorosa despedida lavada em lágrimas entre o gnomo e a raposa motorista (o que talvez tenha indicado que ambos tinham uma relação extra-profissional mas não vale a pena agora desenvolver o assunto).

Sim, MATARAM David e a mula da mulher só para poderem dar a série por finalizada.
Hoje, a transformação de personagens em árvores afigura-se-me como "menos má" mas na altura foi o equivalente a terem sido queimados vivos, decapitados e as cabeças espetadas em estacas à entrada da floresta. Podiam ter feito uma montagem com os trolls a despachá-los a tiro como no fim do Padrinho I, com os violinos de fundo, que aos meus olhos não teria sido menos chocante.

Enfim, a vida é curiosa e à medida que avança as memórias ganham outros valores e significados.
Julgo que é essa a conclusão que um tipo tira daqui.

Seja como for, e com toda a lamechice que isso implica...

Tenho saudades tuas, David.

Wednesday, February 13, 2013

O xôr Bento da contabilidade

Então mas... o Papa demite-se?!

...

Com o desemprego todo que anda p'raí, ele arreda um trabalho bom como aquele p'rá borda do prato?!

...

Parece-me uma decisão um tudo-nada irreflectida, devo confessar. Provavelmente foi tomada a quente e no calor do momento, mas já se sabe como são estes octogenários sempre com o sangue a fervilhar na guelra... Às vezes ganhavam mais se pusessem logo um comprimido debaixo da língua e se se deixassem ficar a reflectir com a nuca inclinada para trás e a boca aberta, esparramados no sofá. Mas enfim, é só uma sugestão.

Demite-se porquê?! Vamos lá a saber...

Está aborrecido porque já não tem mais progressão na carreira?! É que se for isso até compreendo porque depois de se ser representante de Deus na Terra, convenhamos, as coisas tornam-se um bocado maçudas. Deixamos de ler os classificados nos jornais, de ir a sites de emprego, de dar a dica aos amigos que estão noutros sítios melhores... Um tipo é Deus! Não há como bater isso.

Mas ainda assim, nos tempos que correm, acho um bocado cagarola abdicar por falta de desafio. Prefiro mesmo acreditar que a culpa é daquele maldito chapéu bicudo que deve dar cabo das costas.

Não me interpretem mal, eu adoraria usar um chapéu daqueles e dificilmente largaria um emprego em que o pudesse usar em situações que não incluissem piñatas, confettis ou línguas da sogra mas a sociedade não me permite essas liberdades. Permite a ele porque, lá está, até arrumar o cacifo é Deus.

A única maneira de me deixarem usar um chapéu bicudo numa base diária era se a minha cabeça fosse, ela própria, bicuda. Estive a ver uns documentários no National Geographic e parece-me que isso só é possível se se enfaixar a cabeça dos putos desde o berço com ligaduras apertadas. Portanto, todo um meritório e dedicado cuidado diário que os meus pais "decidiram" não ter. E agora eu que me governe com esta cabeça da treta, que não ostenta umas missangas douradas, uns berloques de veludo grená, uns bordados rococó... nada de nada. Uma pobreza franciscana é o que isto é ao nível craniano!

Mas enfim, mesmo que ele esteja com a cervical toda esfrangalhada continuo a achar estranho ter mandado o lugar assim às urtigas... Também me pus a pensar que talvez a culpa tenha sido do mau feitio do patrão. Sempre com ares de "maior" porque... é efectivamente "o maior". Quando assim é, sabemos bem que pode ser um pesadelo ser o secretário, por muitos chapéus bicudos que se possa usar. Deus não aceitou bem a decisão do homem, isso é certo. Mas se o azedume do todo-poderoso se reduz a um raiozinho a cair no pára-raios da Basílica de São Pedro então é aproveitar porque parece que, apesar de tudo, a idade o amansou um bocadinho. Tempos houveram em que lançava pragas, aniquilava civilizações inteiras, exigia sacrifícios... Agora limita-se a cumprir a ciência e a dar razão ao Ben Franklin. Depois não venham dizer que a religião é dogmática e não evolui.

De qualquer maneira, se era para abdicar julgo que Ratzinger nem sequer devia ter pegado nesta empreitada. Já sei que a malta esteve lá reunida, que se gera sempre aquele ambiente de camaradagem, contam-se umas anedotas, brinde p'raqui, brinde p'rali, mas na altura em que estivessem p'ra lançar o fumo branco bastava agradecer e dizer para passar ao próximo porque não se tinha vida p'raquilo. Mas entusiasmou-se e se calhar agora vai ver-se grego se quiser arranjar outra coisa.

É que ser Papa é daqueles papéis que marca uma vida. É como o Radcliffe... O puto até pode ser bom actor e tudo mais mas o pessoal olha para ele e vai ver sempre o Harry Potter! Não há como fugir.

Enfim, mas apesar de ter ficado menos tempo no Vaticano do que o Pedro Barbosa no Sporting (que entrou lá ainda com borbulhas e saiu marreco e já sem cabelo), considero que o pontificado de Bento XVI teve bons momentos que vale a pena recordar num daqueles vídeos que faziam quando alguém era expulso da casa do Big Brother. Talvez com uma música do ceguinho da ópera para puxar a lagriminha... Isto caso queiram dar um pouco mais de dramatismo à coisa, claro.

Agora quem o vai substituir ainda não se sabe ao certo.
Ouvi dizer que toda uma legião de eternos suplentes como o Zé Figueiras da SIC ou o Kardec do Benfica enviaram candidaturas mas foram obviamente recusadas porque não preenchiam os requisitos. Um homem para ser Papa tem de ter as costas fortes (por causa dos tais chapéus bicudos) e também ajuda já ser cardeal e assim... Depois basta saber ler e não ter medo de andar numa espécie de carrinho de golfe. Acaba por não ser um ofício assim tão complicado.

Pessoalmente tenho pena que não se aposte mais na prata da casa e não se promova um estagiário que lá ande, por exemplo, mas admito que pouco percebo de Vaticanos. Eles não mandam em minha casa e eu não mando na deles, é um pacto de cavalheiros que temos vindo a respeitar com bastante sucesso.

A Ratzinger desejo a melhor das sortes embora continue a achar que ele tem nome de vilão dos bonecos animados. Eu não o contrataria para qualquer posição de atendimento ao público precisamente por isso. Se fosse a ele mantinha o Bento mas largava o XVI porque há-de haver sempre o engraçadinho que vai ignorar a numeração romana e ler as consoantes. Mais vale jogar pelo seguro e passava a ser xôr Bento da contabilidade.

Pronto.

Thursday, January 24, 2013

Esse maricas do Armstrong...

Olhem, antes de mais e não tendo nada a ver com o conteúdo propriamente dito deste post, quero aqui deixar novamente o apelo de se ACABAR DE VEZ COM A MERDA DOS PANDAS!!!

É que é uma situação que se tem vindo a arrastar ao longo de décadas e não há ninguém que se chegue à frente e resolva o assunto! Ainda esta semana tivemos o ministro da saúde do Japão a manifestar o desejo do falecimento rápido de milhões de idosos e nem estes bons exemplos de pragmatismo vindos de um país vizinho conseguem sensibilizar os chineses para aquilo que precisa de ser feito!!!

PORRA, ACABE-SE COM OS PANDAS PÁ!!!

O que é que é um panda senão um adolescente idiota e trombudo que passa a vida fechado no quarto a espremer as borbulhas e a recitar poesia barata?! Raisparta que o urso é emo e é estúpido, catano!

Primeiro: não se sabe vestir! Os meus pais tinham uma mobília de quarto preta e branca nos anos 80 mas isso é coisa que ficou lá p'ra trás assim como aqueles brincos de plástico colorido que saiam nas batatas. Segundo: é esquisito e fino, o estupor! Arroz e feijão que há às pazadas e que toda a gente gosta e come, não toca nem obrigado. Só lá vai com caninhas de bambú tenrinhas e às paletes delas que a real peidola do raio do urso não se sustenta com pouco. Como se isto tudo não bastasse, chineses enfiem por favor nas vossas cabeças:

O BICHO NÃO QUER REPRODUZIR-SE!!!

É que eles já deixaram isso muito claro! Nem uns dos outros gostam!!!
Excusam de lhes mostrar filmes pornográficos com bichezas (e acreditem que mostram porque eu li a notícia), de lhes polvilhar o bambú com gindungo (literalmente, não inventem vocês também) ou de lhes injectar hormonas...

O URSO NÃO QUER, ARRUMA-SE A LOJA E DÁ-SE LUGAR A OUTRO QUE ISTO É MESMO ASSIM!

EHPÁ QUE PESADELO!!!

...

...

...

Bom...
Peço desculpa pelo excesso mas antes de qualquer coisa tinha mesmo de tirar este peso dos ombros. Desconfio que a origem do meu ódio esteja num boneco de um panda que eu tinha quando era pequeno, um daqueles de borracha que guincham quando lhes apertamos o bandulho. A brincar a brincar, ainda ouço aquele silvo aflitivo e aterrador quando estou para adormecer ou quando fecho os olhos em becos escuros, mas enquanto me trato e não me trato, vou desabafando para aqui.

Já agora, não sei bem porque é que ando p'raí a fechar os olhos em becos escuros mas enfim... isso será com certeza material para outra conversa.

Ora bem, grande brincalhão aquele Armstrong hem?
Eu sempre disse que ciclismo era estupidez mas nunca ninguém me deu ouvidos.
Os meus avós dizem que gostam de ver a Volta a Portugal por causa das paisagens mas o certo é que não poucas vezes as paisagens que acabam por ver estão no interior do subsconsciente, com as cabeças reclinadas para trás e a boca aberta, diante da TV.

O ciclismo é uma seca mas é só para quem assiste. Acredito que aqueles que estão a pedalar têm o coração ao ritmo de uma gazela a bombar numa festa de transe, tal é a catrefada de drogaria que levam no bucho.

Que muitos dos atletas usam substâncias ilegais já todos sabíamos e contávamos com isso, o que não é nada comum é vir o tipo que era considerado o rei deles todos assumir descaradamente a moscambilha num programa como o da Oprah. Se era para confessar macacadas ele que escolhesse o Goucha que menos gente vê e ninguém leva a sério. Mas não... O homem quis protagonismo até ao final.

Ao que parece, com testículo ou sem testículo, aquilo foi um ror de etapas e troféus ganhos à conta dos chiribitis. Comeu, bebeu, deu as suas cambalhotas ao nível da cama (que entretanto já não estamos a falar de pandas) e quando a coisa apertou de vez... apareceu e disse que era tudo mentira. Que não houve etapa em que não estivesse mais dopado do que o Jorge Palma em dia de concerto.

Pessoalmente, acho mal.

Quer dizer, não tenho nada contra o homem ter feito batota para baralhar a verdade desportiva, ter enganado milhões de adeptos, ter ofendido uma legião de admiradores, ter-se enchido à grande durante anos à conta de uma mentira.
Se estivessemos a falar de futebol até poderia levar a peito mas ciclismo... Ehpá ele que faça o que quiser. O que me transtorna não é nada disso.
O que me transtorna é terem dado tanta importância a um intrujão destes e não darem reconhecimento nenhum a este campeão que se fartou de atingir feitos ao longo da vida e nem um aplauso, nem uma palavra, um ramo de flores, uma flute de champanhe, nada...

E quando digo campeão, estou a falar de mim, notem.
Nunca pensei dizer isto mas se formos a ver bem, eu, que sou eu, acabo por ser tão campeão quanto o Armstrong.

...

Pronto, adiante...

Tudo o que fiz na minha vida ao nível do extraordinário teve de reconhecimento aquilo que teve de droga: zero.
Ok, nunca venci uma Volta a França, dou-vos isso. Mas já fui a Paris duas vezes de avião e parece que não conta p'ra nada. O que é que vale mais? É o Armstrong a pedalar cá em baixo todo janado ou sou eu lá em cima recostado como um senhor, a deslocar-me aos 900 Km/h de cada vez?! Pois.

Bom, passando a factos concretos dou o exemplo de um feito atingido por mim ainda em tenra idade e que foi ignorado pelo grande público. Portanto, uma coisa pela qual nunca recebi crédito...

Uma vez comi seis sandes de marmelada e queijo num só lanche.

...

SEIS!

E se foram no mesmo lanche estamos portanto a falar de cerca de uma hora.
Droga - nada.
Marmelada e queijo - o suficiente para me fazer tombar com um enfarte do miocárdio logo aos dez anos de existência.

A isto, meus amigos, chama-se domínio das paredes estomacais e dos movimentos basculantes da traqueia que à terceira sandes já queria espichar tudo p'ra fora a ver se me salvava a vida.
Enquanto isto acontecia, eu, pensando nas novas gerações e em todos aqueles para quem podia tornar-me um exemplo, mandei a traqueia à merda e empurrei-lhe mais três paposeco a murro, para atingir o objectivo.

Foi uma vitória silenciosa dado que só foi presenciada por duas pessoas.
E uma delas tinha os dedos no telefone, na iminência de ter de ligar para o 112. Mas eu era uma criança idealista e não conhecia a derrota, o desânimo e a noção de ridículo.

Comi as seis sandes bem apetrechadas de marmelada e queijo e passado duas horas sentei-me p'ra jantar como se nada fosse. Isto sem transfusões de sangue, sem injecções regulares nem demais substâncias suspeitas... Até a marmelada era caseira. Por isso, se vê...

A mim ninguém me chama para ir à Oprah falar desta experiência e cativar novos valores do enfardanço. Quem papa placentas, prega a deuses espaciais e salta nos sofás feito tantam, tem livre trânsito. O Tom Cruise, tudo bem. Agora, malta de verdadeiro valor já não é com eles.

Eu até aposto que ganhava a Volta à França só com uma dieta à base de sandes de marmelada e queijo. Cruzava a meta vinte anos depois, encharcado no próprio vómito e com a pança a rojar pelo alcatrão mas cruzava.
Não era como esse maricas do Armstrong...


Friday, December 21, 2012

CAGUEI P'RÓ FIM DO MUNDO!

Isto, tal qual.
E nem vou alongar-me muito sobre o assunto porque há milhões de espertinhos que estão a fazê-lo por mim neste preciso momento. O verdadeiro fim do mundo é haver tantas piadas idiotas sobre o fim do mundo, quando bastava que soasse um trovão de repente para que todos os comediantes de ocasião se desfizessem em diarreia pelas pernas abaixo. Aos esguichos como a erupção do Vesúvio!

Pá, se acabar acabou!
A pergunta que temos de colocar a nós próprios é se um mundo que cuspiu cá para fora Big Show SIC's, Casas dos Segredos e Manhãs da Júlia merece algum tipo de pesar ou de consideração. A verdade é que se os Maias anunciaram o juízo final para agora e não olharam para o lado a tempo de topar os espanhóis que se preparavam para os sachar à marretada, então há algo de muito mal contado aqui. Seriam videntes míopes e só conseguiam prever o futuro ao longe? Ou uma civilização que se entretinha a decapitar atletas que não enfiavam bolas em aros de pedra com a ajuda do cotovelo tinha de facto um parafuso a menos? Enfim, muitas questões, muitas piadinhas, mas nenhuma resposta do país por excelência da marijuana.

Assim sendo, e de volta às questões fulcrais da actualidade, hoje de manhã quase que desejei que o mundo acabasse realmente por uma ordem de razões. E, curiosamente, todas elas relacionadas com a minha ida ao ginásio.

Ora, o espaço de treino que eu agora frequento tem uma porta automática que se abre através da digitação de um código pessoal. Esse número é-nos fornecido através de um registo online e do preenchimento de uma ficha com os nossos dados e a nossa foto. Eu, por alguma razão idiota certamente associada às várias quedas de cornamenta ao chão na infância e ao uso excessivo de chinelos de dedo, decidi colocar não a foto da minha pessoa mas sim uma outra de Arnold Schwarzenegger nos tempos do bodybuilding.

...

Apenas porque sou estúpido. Não há mais nenhuma razão que o fundamente.

Isto até não seria grave se toda a santa vez que eu digitasse o código para entrar, a foto não aparecesse em formato GIGANTE num ecrã por cima da porta.
Agora, podem perguntar-me porque é que eu, tendo uma réstia de dignidade e noção do ridículo, não alterei a imagem no site e fiquei descansadinho... Vá lá, perguntem...
Epá, porque não deu.
Eu tentei, mas não deu.
Fiz upload de várias fotos, várias vezes diferentes e com diversos browsers, mas à entrada quem apareceu desde o dia 1 foi sempre o bom e velho Arnold a alancar com um haltere de cento e vinte quilos e a bufar estilo boi-cavalo.

Com o passar do tempo, decidi aceitar.
Normalmente, quando a vida me dá limões eu pergunto "P'ra que é que eu quero esta merda?!" mas desta vez chupei o raio dos citrinos. Muito, MUITO, a contragosto.

Passei a entrar sempre à socapa, esquivo como o Vale e Azevedo num dia de renda, para que ninguém percebesse o pateta que efectivamente sou. E sempre tive sucesso...
Até este malfadado dia 21...

O segurança que costuma estar junto às salas de treino a topar o rabo das gajas (afinal de contas é para isso que lhe pagam), hoje, talvez por ser o fim do mundo e estar demasiado deprimido para apreciar bom nalguedo, preferiu estar junto às portas num local privilegiado face ao ecrã. Avistando-o antecipadamente e sabendo que me dirigia para a minha perdição, agi com a máxima naturalidade que o meu tónus muscular permitiu, digitei o código e esperei que o Arnold surgisse e pusesse a nu todo o meu sentido de humor primário e demente. Era como uma prova de fé e confiança que Deus colocara diante de mim. Embora, por esta altura eu já devesse saber que Deus só me quer como palhaço. Atirar-me-ia de bom grado meia dúzia de tartes de natas à cara todos os dias, se isso não fosse tão show off.

Bom, talvez por perceber que não tinha escapatória possível, resolvi quebrar o gelo e olhar o segurança nos olhos enquanto sorria nervosamente.
Cheguei mesmo a soltar uma gargalhada surda que se materializou em som sob a bizarra forma de "GRGL..." Uma interjeição imperceptível que acabou por ilustrar o desconforto do momento.

...

GRGL..

...

O segurança topou o Arnold no monitor.

...

GRGL...

...

Devolveu-me o olhar.

...

GRGL...

...

E NÃO ESBOÇOU QUALQUER EXPRESSÃO NAQUELA P**A DAQUELA CARA!

...

Por mim o mundo podia muito bem acabar ali.
Enquanto eu gorgolejava ridiculamente diante da porta automática podia sem problemas apanhar com um meterorito na testa ou com um tsunami pelas costas abaixo. Detestaria saber que a minha última palavra se reduzira ao som "GRGL" mas, que se lixe, também não ficaria cá ninguém para se lembrar dela e ceder à tentação de a enfiar num livro reles de citações ou de a escrever na minha lápide.


AQUI JAZ SAGUIM

1982 - 2012

"GRGL"


Enfim, merda p'ra isto tudo.
Segui para os balneários com a moral a arrastar pelo chão e nenhuma vontade de ir p'rá passadeira.
Entrei no recinto e quando comecei a tirar as coisas do saco apercebi-me que tinha voltado a esquecer-me de uma muda de roupa interior para vestir depois do banho.

Cansaço...

Se fosse a primeira vez até se percebia.
Mas por esta altura já deve ser a quarta.
E isso é estúpido.

Não que seja horrível de todo adoptar o estilo freestyle. Mas há uma lista exaustiva de coisas que ainda assim prefiro fazer e que incluem espetar agulhas nos olhos ou comer vidro... Vamos ser francos: é desagradável!
Eu já guardo um par de meias extra no meu local de trabalho, a contar com estes meus lapsos cerebrais. Só lamento não ter tido a mesma ideia para as chamadas boxers, pois também me fazem muita falta.

Enfim, talvez imbuído pela humilhação da entrada ou pelo desalento de ter de passar o dia "à larga", vi-me absolutamente desesperado por uma outra situação que tenho guardado em silêncio até ao dia de hoje e que não dá mais para ocultar.

Estou muito satisfeito com aquele ginásio, não digo que não (e quem me conhece e quem leu posts anteriores sabe que isso não é muito fácil de conseguir). Porém...

Aquele espaço...

Possui...

Sem sombra de dúvida...

A PIOR SELECÇÃO MUSICAL DA HISTÓRIA DOS GINÁSIOS!

É que é uma xinfrineira infernal de batuques, guinchos e auto-tunes capazes de sorver o QI de um indivíduo décima a décima (pelo menos a avaliar por quem por lá anda e parece apreciar o som). As mais tinhosas rameiras da indústria musical em todo o seu esplendor, invadindo os meus tímpanos sem dó nem piedade todas as manhãs que vou treinar. Tenebroso!
Normalmente, encaixo o suplício com coragem e paciência mas hoje, quebradiço emocionalmente como estava, fiquei uma vez mais a desejar que o tal planeta Nibiru (ou lá como se chama aquela merda) se viesse espetar naquele subwoofer como um campeão.

Tão horrível, tão insuportável, que preferia ouvir os balidos agoniantes de um CABRITO VIVO A GUISAR! E eu sou um tipo que gosta de animais.

Enfim, soltei a minha lágrima.
Treinei como um senhor.
Abandonei o ginásio sem encarar o segurança.
E passei o resto do dia com comichões na virilha.

'Tou-me a cagar p'ró fim do mundo dos índios porque eles nunca souberam o que era sofrimento a sério. Não tivesse eu de passar esporadicamente por experiências destas e também me armava em exótico a talhar pedregulhos p'ra deixar em broa os papalvos do ano 3000.

Amanhã é outro dia...
E é isso que me mete medo!

Monday, December 3, 2012

Âncora anti-depressão

Tirando o Benfica, não sou conhecido por fazer parte de muitos clubes...
E mesmo nesse estou apenas na condição de adepto, que eu tenho coisas mais importantes em que gastar o dinheiro do que nos ordenados milionários de malta sul americana. Quer dizer, não precisa de ser sul americana. Coisa boa do Benfica é que há gente de todo o lado... Menos de cá.

O que, a avaliar pelos últimos anos, nem é assim tão mau.

Não tenho nada contra eles, atenção. Vibro com os seus golos, com as fintas, com cada jogada... Admito que não há ninguém que represente melhor o Benfica e Portugal do que os argentinos, mas a verdade é que tenho uma casa para pagar. E se falhar um mês duvido que o Sálvio dê um saltinho ao Totta para interceder a meu favor. Portanto, deixo-me estar sem quotas nem lugares cativos.

Hoje em dia, tenho GRANDES restrições em relação aos clubes em que me inscrevo. Principalmente, porque não tenho dinheiro p'ra abandalhar.
Quando era miúdo, o importante era receber correspondência e acumular cartões de sócio na carteira. O que para alguns não era senão lixo, para mim era símbolo de status e aquilo que me afastava da mediocridade de não pertencer a nada. Graças a este frenesim todo, ao longo dos tempos, associei-me a grupos tão determinantes na história do mundo e do preenchimento inútil de papel como o Super Clube dos Ases (já não me lembro bem mas julgo que tinha a ver com cereais), o Clube dos Amigos do Basquetebol (desporto ao qual nunca liguei pevas) ou o Clube dos Amigos da Raça Bulldog (sim, eles existem)... Ainda tenho os cartõezinhos todos guardados e talvez escreva sobre isto um dia (porque há mais... muito mais), mas de momento não é sobre este assunto que me apetece reflectir.

Recentemente entrei para um novo clube, muito a contragosto diga-se. O clube dos 30.

E antes de mais, já sei que o cliché agora é dizer que os 30 são os novos 20 mas esta máxima levanta-me questões. Se estamos todos a levar com talhadas de 10 anos em cima então a verdade é que os 20 são os novos 10 e o assunto "pedofilia" assume uma dimensão completamente nova. A maioridade deverá então passar para os 28 e quem tem menos de 10 anos, aos olhos da modernidade, não existe. Tudo isto é bastante confuso (à luz da filosofia e da própria estupidez), provoca-me dor de cabeça e acentua-me o reumatismo... O que não me surpreende porque sou agora oficialmente "uma pessoa de idade".

A tentar lidar com a entrada neste clube a que não fazia questão de pertencer, tentei identificar âncoras que me permitissem assumir a mudança de uma forma menos brusca. Sei perfeitamente que em pouco menos de cinco meses passarei a fazer-me acompanhar por aquelas caixinhas de comprimidos que têm compartimentos para cada dia da semana, mas ainda assim algo me diz que eu não estou a ficar velho... Eu já sou velho há muito tempo.

A condução, por exemplo. É essa a minha âncora principal.
Eu sempre conduzi como um velhote e não é agora aos 30 que vou passar a fazê-lo de maneira diferente.

Os velhos, como é sabido, conduzem mal. E não olham para trás quando fazem marcha atrás (o que é estranho porque o próprio nome dá uma dica do que deveriam fazer). Isto pode ser confundido com desnorte ou senilidade mas a verdade é que é uma escolha perfeitamente consciente. Eles não olham porque acham que já olharam muito ao longo dos anos, conquistaram o direito de não olhar. Os outros, que são novos, que se cheguem à frente e olhem agora para não acabarem com um pára-choques encalacrado na dentição. Depois, quando forem velhos podem fazer o mesmo que ninguém os poderá condenar. O raciocínio é mais ou menos este.

Se um velho quer andar numa autoestrada em contramão está, pensam eles, no seu pleno direito.
Se quiser passar a ferro os dedos dos pés de uma mulher de meia idade que atravessa a passadeira, é porque ainda pode fazê-lo. E, por um lado, ainda bem. A sociedade não quer que sejam activos?
Entre as várias actividades, conta-se o bingo, a bisca no jardim, a alimentação de pombaria e o desrespeito total e absoluto pelas regras de trânsito. A escolha já só depende do bom senso de cada um.

A sociedade colhe aquilo que planta.
E como, bem vistas as coisas, qualquer pena para um velho pode vir a ser prisão perpétua... A maior parte das vezes, dá-se um desconto e esquece-se o assunto.

Uma vez vi eu, ninguém me contou...


Estava à porta de casa de manhãzinha, à espera de uma boleia.

Sai um velhote de muletas do prédio ao lado.

...

De muletas, muito vagaroso.

Em direcção a um carro que estava estacionado completamente em cima do passeio.

Sem vergonha nenhuma, o velho.

À patrão.

...

Vagaroso.

Com as muletas.

Em direcção ao carro.

...

...

...

Entrou finalmente na viatura.

Sempre vagaroso.

Já com as muletas pousadas no lugar do passageiro.

Pôs o carro a funcionar.

Deixou o motor aquecer.

...

Meteu a marcha atrás e...

...

...

PAAAAAAMMMMMM!!!

...

REBENTOU A TRASEIRA NUM POSTE DE ILUMINAÇÃO.

...

Isto comigo a ver, incrédulo e de mãos na cabeça, a poucos metros do sucedido.

...

O poste de iluminação a abanar.

A passarada a voar descontrolada em múltiplas direcções.

Algumas pessoas a assomarem às janelas, assustadas com o estrondo.


Mas agora, digam-me vocês...
O velho foi avaliar os estragos para accionar o seguro?
O velho foi ver se danificou permanentemente o poste (coisa que fez com toda a certeza) para notificar a Junta de Freguesia?
O velho maldisse a sua distracção e prometeu não voltar a agir assim?

Nada disso, meteu a primeira e, sem virar a cabeça, saiu dali mais depressa do que leva a dizer "destruição da via pública".


Ora, entre mim e este indivíduo há, agora e sempre, muito poucas diferenças.
Isto ao volante, claro. De resto, penso que a superioridade ainda está do meu lado, seja numa competição de braço de ferro ou numa feroz disputa de sapateado (não que eu saiba fazê-lo, ou outra qualquer dança seja ela qual for, mas consigo aguentar-me em pé e ele sempre precisa das muletas), só para dar dois exemplos.

Nunca tive muito jeito para a condução nem nunca tive especial apreço por automóveis.
Bem sei que o másculo e o viril seria o contrário mas tenho dificuldade em entender os tipos que tiram prazer em encerar o carro, em tratar-lhe dos estofos ou em mexer-lhes nas tubagens e engenhos. No dia em que eu passasse a fazer isto julgo que ficaria com pena dos outros electrodomésticos que possuo... E em pouco tempo estaria a puxar o brilho à máquina de secar, a mudar os plásticos ao exaustor ou a rebaixar a torradeira. Para mim, todas são máquinas e todas são iguais aos olhos de Deus. Amén.

Conduzo diariamente por uma questão de necessidade e, apesar de tudo, estou bem melhor hoje de que há alguns anos atrás. Mas, ainda assim, ao nível do pessoal idoso.

As coisas começaram tremidas ainda aos 17, durante as aulas de condução.
Praticamente todas as recordações que tenho são em Chelas com o instrutor a berrar-me na cara. Tanto que me chego a questionar se realmente eram aulas de condução ou se não terei estado umas quantas vezes envolvido em sequestros e assaltos à mão armada...

No exame propriamente dito, vi o examinador calcar o travão com toda a força que a sua santa mãezinha lhe dera um dia, segundos antes de eu empurrar o automóvel para debaixo de um autocarro.

Ele, eu e as pessoas atrás, brancos como o cal.
O autocarro a passar.
O condutor do mesmo a olhar para nós, também ele branco como o cal.
O examinador a limpar o suor da testa com um lenço de pano e a dizer, ainda ofegante:

- Encoste aí o carro e passe p'ra trás antes que a gente morra p'raqui todos...


Portanto, chumbei no primeiro exame, não é?

Mas passei no segundo e, desde aí, tenho vindo a praticar a má condução um pouco por todo o país. Uma âncora que me permite aceitar isto dos 30 de uma forma muito mais leve e natural...
É comum vermos velhotes dizerem "A malta nova não quer pegar nisto" sobre esta ou aquela tradição. Mas neste caso concreto, faço questão de fazer-lhes justiça e de imitá-los no que fazem pior, desde tenra idade.

Posso já não pertencer ao clube da "malta nova".
Mas ainda bem, porque um clube onde se ouve LMFAO ou o "Gangnam Style" é um clube parvo.

E os tempos do Super Clube dos Ases já lá vão...

Friday, November 9, 2012

Triste, triste, triste

Ok, houve realmente uma coisa que não mencionei no meu último post, outra das razões pela qual sou capaz de estar mais magro... E começo assim o texto como se não tivesse havido interrupção nenhuma em relação ao anterior, como se acreditasse que todos tivessem estado duas ou três semanas em suspenso sem tirar os olhos do ecrã. A isto, meus amigos, chama-se confiança. Ou então é a estupidez do costume. Há-de ser uma das duas.

Ora bem, além de efectivamente não andar a comer "merda" (termo que usei para definir aquilo que não faz bem nenhum ao organismo e só serve para sossegar a gula) posso também adiantar que deixei de beber álcool.

Isto lido assim parece que não tem impacto nenhum... Mas podem crer que me foi particularmente difícil escrever estas palavras. Até porque escrever num teclado enquanto se chora copiosamente, equilibrando meia dúzia de kleenexes nas mãos é coisa para profissionais.

Deixei de beber álcool e isso é motivo de tristeza profunda para mim.
Mais triste do que um órfão a tremer de frio.
Mais triste do que um esquimó à paulada a uma foca bébé.
Mais triste do que o sonho do Jorge Gabriel em treinar o Sporting.
Mais triste do que Felix Baumgartner a atirar-se do espaço sem que ninguém o fosse tentar agarrar.

Triste, triste, triste.

E a razão que me levou a abandonar a pinga, para tornar tudo ainda mais revoltante, nem foi o raio da pança. Nem foi o peso. Foi porque o meu corpo insiste, desde os quatro anos, a sofrer de uma patologia típica "das gajas". Tenho enxaquecas crónicas desde tenra idade e percebi que bastam dois ou dezoito copos de vinho tinto para fazer disparar uma dor de cabeça mais depressa do que uma mulher da casa do Paco Bandeira.

Mas a verdade é que eu nem sequer bebia muito.
Nunca fui daqueles tipos que chegam a casa e vão preparar "um drink", vertendo generosas quantidades de whisky em copos largos (coisa muito vista em telenovelas, séries e filmes). Nunca percebi como é que aqueles indivíduos conseguiam depois ir jantar e estar com a família em condições... Se fosse eu a fazer isso, provavelmente não demoraria quinze minutos a ficar vermelhusco e a olhar fixamente para a minha mulher, encostado à ombreira da porta. Tenho a certeza de que em pouco tempo, ela passaria a dormir com um cutelo debaixo da almofada.

Também é comum vermos na TV aqueles homens de negócios que antes de assinar um contrato, enquanto discutem os detalhes, atiram baldes de "scotch" para a goela e largam baforadas de charuto no ar. Para vossa informação, eu já experimentei fazer isto e não acabou nada bem. Acreditem que para que os documentos não acabem a boiar em vomitado e estes homens não passem o resto da tarde de bruços no tapete do escritório de um deles, é preciso um poder de encaixe daqueles valentes.

A minha relação com o álcool nunca foi esta. Nem nada que se parecesse!
Beber para mim, com o passar dos anos, tornou-se algo social para ser partilhado com amigos, entre histórias divertidas e gargalhadas soltas. Se há coisa que a História nos ensinou é que um bom vinho desperta os sentidos e alimenta o espírito, e eu sempre gostei muito de História.

Assim como de vinho.

Tempos houve em que até tentei fazer um workshop para perceber um bocado mais. Mas os tipos não me abriram a porta e acabei por ficar na mesma (a título de curiosidade, o relato ficou aqui imortalizado).

Mas pronto, afinal esta abstinência até resulta: nunca mais tive enxaquecas a sério.
Isto é mais uma maneira grosseira e pouco criativa que o universo teve para me mostrar que não sou bem-vindo neste mundo cruel! Nada do que eu gosto pode ser feito. NADA!

Neste momento, eu que era a alma de qualquer festa ou jantar, tenho o espírito e o sentido de humor de um tijolo acabado de cozer. Isto e o parecer que o meu guarda-fatos é a secção de toldos do Leroy Merlin, torna a minha vida muito mais complicada de momento.
A total e completa ausência de álcool no meu organismo, aliada ao desaparecimento da sofreguidão, e porque não dizer ferocidade, no "ataque" à comida, fizeram com que já não constitua entretenimento para ninguém. Sou uma sombra daquilo que já fui... O álcool, é preciso dizê-lo, era o meu doping.

A minha sorte é que isto não é como no ciclismo e, ao jeito do Lance Armstrong, ninguém vai manchar o meu currículo ou tornar-me persona non grata do mundo dos petiscos e dos chiribitis. O que passou passou e quem viveu ficou com boas memórias.

Agora é começar do zero e reinventar-me, criar toda uma nova forma de estar, sem o inebriante efeito dos chamados "copos".

...

Tivesse eu lidado com isto mais cedo e o sacana do Baumgartner não tinha saltado sozinho.

Thursday, October 18, 2012

De volta, mas pouco...

Ora bem, para aqueles que fantasiam sobre o que estive a fazer no último mês e meio, apontar muito rapidamente cinco tópicos:


- Fantasiar é p'ra meninas.

- Fantasiar sobre mim, além de ser p'ra meninas, é perturbador.

- Eu sei que disse que ia parar para fazer o livro.

- Mas fazer o livro demora tempo e a vida continua.

- Estou um bom bocado mais magro.


Pronto, posto isto, obrigado e boa tarde.

...

Ok, vamos lá elaborar um bocadinho mais...
Estou realmente a fazer o livro mas cheguei à conclusão que o saguim escreveu que se desunhou nos últimos anos. Portanto, há aqui trabalho para duas ou três oficinas de crianças vietnamitas durante meses e meses, para despachar no intervalo dos sapatos. E atenção que digo vietnamitas e não portuguesas porque as de cá nem emprego têm devido à falência das fábricas... Isto, como sabem, está mesmo muito mau.

Assim, enquanto o bicho está no forno a apurar, decidi ir escrevendo mais qualquer coisa para não perder o pouco jeito que tenho. Senão quando voltar a dedicar-me à palhaçada sou capaz de estar ao nível do sentido de humor de António Sala na altura das "Anedotas sem malícia" (manual esse que ainda nos dias de hoje assombra os meus pesadelos mais sombrios).

Depois do meu último post muita coisa se tem passado, o mundo e os seus tumultos ambientais e económicos não dá senão motivos de preocupação e debate, assunto não falta... Mas julgo que o mais importante acaba mesmo por ser eu estar mais magro. Significativamente mais magro.

E se eu escrevia textos a ridicularizar a minha compleição de paquiderme, agora é justo que faça a mesma coisa mas ao contrário. É que isto de ser magro (ou mais magro, vá) não é tão bonito ou glamoroso como o pintam. Uma das coisas aborrecidas com que tive de me deparar, e ainda hoje me deparo, é a cara de espanto das pessoas que encontro e que já não me viam há algum tempo. No lugar de esbarrarem com o mamute a que estavam habituadas vêm uma versão subnutrida desse mesmo mamute, o que dá lugar sempre ao mesmo leque de reacções. É comum entrarem num estado de grande admiração e surpresa, exclamando "Estás tão diferente! Tão magro! O que se passou? O que fizeste?" Ao que eu respondo sempre: "Estou doente e custa-me falar sobre o assunto..."

...

Desta forma, evito a situação embaraçosa de ter de descrever "a minha fórmula de dieta".
Afasto conversas indesejadas.
E também as próprias pessoas que se arrastam de lágrimas nos olhos, a pedir a amigos comuns o número de telemóvel dos meus pais para saberem mais detalhes e como ajudar.
Só isso me faz sorrir.

Mas pronto, estou mais magro e neste momento não tenho calças que me sirvam.
Dantes não tinha porque cheguei a um ponto em que dos dez pares que estavam no guarda-fatos só dois passavam com dificuldade a zona dos tornozelos.
Agora não tenho porque dos dez pares que possuo só dois não me ficam a bailar na anca como se fosse uma bailarina exótica.
Tenho de mandar apertar isto. E depois é bom que não volte ao mesmo porque não ganho p'rás costureiras.

Mas para aqueles que querem emagrecer e não sabem como, vou fazer um pouco de serviço público neste blogue e dar uma receita infalível.

Vão lá buscar um bloco de notas e uma caneta que eu espero...

...

Vá, que vale a pena.

...

Não precisa de ser um bloco, basta um papel.

...

Uma folhinha que seja...

...

Já está?

Então cá vai...

...

Ehpá, se vocês soubessem como isto é grande... eheheh

...

Bom, concentração...

...

Cá vai...

...

Estão prontos?

...

Isto é uma receita infalível daquelas que alteram o curso da história...

...

Ora bem...

...

Para emagrecer basta...


FAZER EXERCÍCIO.
NÃO COMER MERDA.


E é isto, basicamente.
Acaba por não haver grande mistério.

Se um tipo abdica das coisas que mais gosta (quem disser que é da família e dos amigos está a mentir porque no fundo todos sabemos que o que mais adoramos é cervejola, vinhaça, queijos e fritalhada até termos de amputar dedos por causa do ácido úrico), se é preciso abandonar tudo o que é bom... Efectivamente é! Porque a vida não presta. Só mesmo por isso.
E como se virar a cara a tudo o que é belo e saboroso neste mundo não chegasse é preciso correr, sofrer, suar como um beduíno ao sol e dedicar largas horas à nobre arte do masoquismo.

É triste mas é a mais pura verdade.

No final de tudo, contas feitas, não vale assim tanto a pena.
Ser magro é praticamente como ser gordo mas com menos risco de enfarte do miocárdio. O que até torna os dias mais emocionantes, diga-se.
No entanto, já que aqui cheguei acho que vou cá ficar mais um bocadinho. A ver as vistas e a apreciar ter menos quinze quilos no bandulho porque a cada passo na rua é coisa para fazer a sua diferença.

Bom, por esta altura o texto do saguim já se assemelha perigosamente a um artigo da revista Cosmopolitan... O melhor é dá-lo como terminado.

Prometo continuar a trabalhar no livro que prometi.
E pode ser que muitos de vocês ainda sejam vivos quando ele sair.

Haja saudinha... Eheh