Monday, March 25, 2013

Tenho saudades tuas, David

À medida que um tipo vai envelhecendo vai ganhando interesses inesperados e redescobrindo memórias surpreendentes. Quando digo "um tipo" estou a falar de mim próprio, evidentemente. Estou a tentar implementar aos poucos esta mania de falar na terceira pessoa, sempre como "um tipo", e acho que dentro de um ano ou dois já é coisa para exportar lá para fora. Tentei fazer o mesmo há tempos usando antes o termo "desgraçado" mas, por alguma razão, as pessoas não aceitaram tão bem. São feitios...

Mas enfim, hoje em dia dou por mim a ouvir música que não ouvia na altura em que foi feita, a ver filmes que dantes não me interessavam para nada, a gostar de coisas que não gostava, só pela época que representam e pela nostalgia que me trazem. Posso estar vinte a trinta anos atrasado mas a verdade é que não me importo muito com isso. Desde que um desgraçado possa tirar daí momentos de genuína comoção, acho que é aposta ganha. Viram? Desgraçado não é tão eficaz, de facto.

E se aquilo que eu ontem desprezava hoje faz as minhas delícias, que dizer de tudo o resto que eu já venerava? Tipo a série de animação "David, o Gnomo"?!

Uma vez mais digo: não tenho nada contra nem a favor dos anões. Eles são como são e eu sou como sou, tenho mais meio metro e metade do tamanho do crânio, é certo, mas fora isso pouco nos afasta. Sei que eles por regra têm menos tolerância ao álcool do que as pessoas de dimensão dita normal, mas como também deixei de beber há uns bons meses calculo que até nisso sejamos parecidos. Os anões, é preciso dizê-lo sem rodeios, a meu ver não são nada de especial.

Já quando se fala de gnomos, a conversa é diferente.
Adorava-os em criança e, caso tivesse hoje uma doença grave do foro psicológico, continuava a adorá-los e a acreditar na sua existência.

Para começar, usam aqueles chapéus bicudos que tanto gabo nos Papas (até falei nisso no texto anterior). Continuo a achar que é preciso um indivíduo estar muito seguro de si e da sua sanidade mental para colocar um bicharoco daqueles todos os dias na pinha e achar que se está em condições para sair para a rua. No entanto, duvido que os gnomos associem ao adereço qualquer significado religioso... O que me levanta dúvidas quanto à posição relativamente às questões raciais. Há qualquer coisa de Ku Klux Klan naquele outfit mas prefiro não pensar muito no assunto. É certo que nunca vi nenhum sujeito de raça negra nos episódios de "David, o Gnomo" mas também não é menos certo que toda aquela realidade de floresta e não sei mais o quê pouco tem a ver com o Sul dos Estados Unidos. Lá está: não vale a pena ir por aí.

Depois, tanto David como Lisa (a esposa) eram idosos... E sabemos como as crianças apreciam idosos.
Eu não era excepção, de facto sentia empatia com velhotes mas hoje vejo as coisas com outros olhos. É que a grande generalidade dos gnomos que apareciam na série tinham já uns Invernos a mais, o que me leva a suspeitar que se a população gnoma era já envelhecida na altura, hoje já pouco deveria restar da mesma. Sou capaz de imaginar David com o chapéu meio murcho, sentado numa poça de mijo a ver o Goucha e a queixar-se que "Ser gnomo no meu tempo é que era e a malta nova não quer pegar nisto..." Enfim, preocupações que não me assombravam mas que actualmente, viciadas pela vida adulta, não deixam de surgir na ideia.

Para quem não via a série, David, além de gnomo, era também uma espécie de veterinário. Tipo, curava os animais que estivessem doentes, que tivessem sido apanhados em armadilhas ou que sofressem de uma maleita qualquer. Nenhum dos episódios abordava questões de ordem médica mais complexas ou até mesmo embaraçosas (não me lembro de ver David a ter de retirar um espinho do escroto de um texugo, por exemplo) nem sei se prestava serviços no âmbito da psicoterapia ou de medicinas alternativas, mas se tal acontecia deduzo que tais cenas tivessem sido registadas off the record. O tamanho de David não deixava de ser uma vantagem no exercício da sua profissão porque lhe permitia observar de perto e em grandes dimensões quaisquer orgão que tivesse de tratar. No fundo, uma boa maneira de se poupar uns trocos num microscópio. David era manhoso e sabia-o. No entanto, era também bastante estúpido dado que nunca o vi receber um cêntimo pelos serviços prestados. Os bichos deviam agradecer e dizer que pagavam no fim do mês quando recebessem e o otário dizia que sim e voltava para o buraco a cantarolar e a equilibrar o chapéu bicudo na cabeça. Enfim, há ursos...

Já a Lisa, sejamos sinceros, era uma mula que não fazia nada. Estava gorda como uma porca com um problema glandular e isso é fácil de explicar pelo simples facto que raramente saía do covil que partilhava com o marido. Seria uma trophy wife não fosse o seu aspecto asqueroso e abrutalhado em cima do qual, equilibrava também ela, o seu chapéu bicudo. Ok, podem dizer que provavelmente tratava da lida da casa. Mas quando a casa tem cerca de quinze centímetros quadrados digamos que as tarefas não podem consumir muito tempo ou energia. De qualquer maneira, acredito que houvesse uma certa tensão entre ela e David por causa da sua ineficácia em trazer dinheiro para o agregado familiar. O sair todos os dias para ir trabalhar e o regressar à noite com um sorriso idiota na cara e os bolsos vazios deviam encher Lisa de dúvidas e inquietação. Inquietação essa que nunca é verdadeiramente abordada na série, diga-se.

No entanto, a relação entre os dois não parecia má, embora profundamente assexuada. Os raros momentos de carinho consistiam no esfreganço vigoroso dos narizes, prática que como é sabido foi tornada célebre pelos esquimós. Julgo que pouco devia ter a ver uma coisa com a outra, dado que aquela malta nunca devia ter visto um esquimó à frente, provavelmente era apenas uma maneira de mostrar qualquer coisa parecida com afecto sem ter de aplicar demasiado esforço nem correr o risco de ser erótico. E erotismo com aquelas duas aventesmas era algo para patrocinar os meus pesadelos durante meses.

Mas nem tudo era miserável, David fazia-se sempre transportar no dorso de uma raposa que chamava com um assobio. Provavelmente o único animal honesto e que assim recompensava os serviços de enfermaria prestados pelo gnomo. Uma espécie de limusina com motorista sempre ao dispor não era para qualquer um. Quando era criança, vivia na mesma rua que o ex-presidente da República António de Spínola. E, como se sabe, a malta que foi presidente tem direito a viatura e pinguim condutor todos os dias, até ao pijaminha de madeira. Os ex-presidentes e julgo que o Cavaco também, quando largar o poleiro. Bom, lembro-me de olhar para o velhote e achar que havia muito de David nele... Em vez de uma raposa vermelha era um carro preto e ele não o chamava com assobios mas fora isso era igual. Às vezes há coisas que aproximam os desenhos animados da vida real e só topamos quando somos putos. Enfim...

Os inimigos, também os havia, eram uns deprimentes irmãos mostrengos com narizes de bêbado a quem chamavam trolls, mas nunca constituíam grande ameaça. Faziam patifarias de modo cristão e sempre dentro de certos e determinados limites, porque eram também eles bastante estúpidos. Aliás, só assim se justificava a vida tranquila de David que, como já foi provado ao longo deste texto, não era propriamente a última Coca-Cola do deserto...

Mas voltando ao início, a minha adoração pelo boneco era imensa.
E aos trinta anos, não nego que ver o genérico no youtube faz com que haja uma lagriminha a querer saltar. Isto embora também tenha de recordar com bastante tristeza o momento em que nos separámos definitivamente e que envolveu um berreiro tal que os vizinhos provavelmente pensaram que me estavam a cortar um braço com uma colher de chá.

É que os senhores criadores da série "David, o gnomo", com certeza esgotados por todo o fervilhar criativo que os episódios exigiram e não sabendo como colocar termo à questão, tiveram a ideia brilhante de o fazer traumatizando milhares (quiçá milhões) de malta infantil.

Para quem não sabe, no final de "David, o gnomo", David e Lisa MORREM transformando-se ambos num decrépito e macabro par de árvores.

Sim, tal qual.

...

Ah mas não antes de uma dolorosa despedida lavada em lágrimas entre o gnomo e a raposa motorista (o que talvez tenha indicado que ambos tinham uma relação extra-profissional mas não vale a pena agora desenvolver o assunto).

Sim, MATARAM David e a mula da mulher só para poderem dar a série por finalizada.
Hoje, a transformação de personagens em árvores afigura-se-me como "menos má" mas na altura foi o equivalente a terem sido queimados vivos, decapitados e as cabeças espetadas em estacas à entrada da floresta. Podiam ter feito uma montagem com os trolls a despachá-los a tiro como no fim do Padrinho I, com os violinos de fundo, que aos meus olhos não teria sido menos chocante.

Enfim, a vida é curiosa e à medida que avança as memórias ganham outros valores e significados.
Julgo que é essa a conclusão que um tipo tira daqui.

Seja como for, e com toda a lamechice que isso implica...

Tenho saudades tuas, David.

5 comments:

Carlos Rocha said...

Os trolls metiam-me medo.

André Oliveira said...

Estive a rever o genérico e eles só aparecem em duas alturas: a escorregar e a cair de uma ravina abaixo e a cheirar uma sopa ao lume... Convenhamos que estes bebedolas não eram grande ameaça. :)

Rachelet said...

Transformaram o David em árvore? Que violência. Mas percebo... não é como se pudessemos dizer «tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre» naquelas idades...

Dool In High Heels said...

Olá...
Gostei muito do teu cantinho...
Sou nova na blogosfera como blogger mas já cá navego há bastante tempo como leitora...
Parabéns pelo excelente trabalho que tens feito no teu Blog...
O meu cantinho é:
dollhighheels.blogspot.pt
Se puderes dá uma espreitadela e se gostares segue-me...
Bjokas
Bruna

André Oliveira said...

Olá Bruna

Ainda bem que gostaste. :)
Estou quase a acabar o livro, vou fazer agora um post sobre isso.

Beijinhos e obrigado