Monday, March 25, 2013

Tenho saudades tuas, David

À medida que um tipo vai envelhecendo vai ganhando interesses inesperados e redescobrindo memórias surpreendentes. Quando digo "um tipo" estou a falar de mim próprio, evidentemente. Estou a tentar implementar aos poucos esta mania de falar na terceira pessoa, sempre como "um tipo", e acho que dentro de um ano ou dois já é coisa para exportar lá para fora. Tentei fazer o mesmo há tempos usando antes o termo "desgraçado" mas, por alguma razão, as pessoas não aceitaram tão bem. São feitios...

Mas enfim, hoje em dia dou por mim a ouvir música que não ouvia na altura em que foi feita, a ver filmes que dantes não me interessavam para nada, a gostar de coisas que não gostava, só pela época que representam e pela nostalgia que me trazem. Posso estar vinte a trinta anos atrasado mas a verdade é que não me importo muito com isso. Desde que um desgraçado possa tirar daí momentos de genuína comoção, acho que é aposta ganha. Viram? Desgraçado não é tão eficaz, de facto.

E se aquilo que eu ontem desprezava hoje faz as minhas delícias, que dizer de tudo o resto que eu já venerava? Tipo a série de animação "David, o Gnomo"?!

Uma vez mais digo: não tenho nada contra nem a favor dos anões. Eles são como são e eu sou como sou, tenho mais meio metro e metade do tamanho do crânio, é certo, mas fora isso pouco nos afasta. Sei que eles por regra têm menos tolerância ao álcool do que as pessoas de dimensão dita normal, mas como também deixei de beber há uns bons meses calculo que até nisso sejamos parecidos. Os anões, é preciso dizê-lo sem rodeios, a meu ver não são nada de especial.

Já quando se fala de gnomos, a conversa é diferente.
Adorava-os em criança e, caso tivesse hoje uma doença grave do foro psicológico, continuava a adorá-los e a acreditar na sua existência.

Para começar, usam aqueles chapéus bicudos que tanto gabo nos Papas (até falei nisso no texto anterior). Continuo a achar que é preciso um indivíduo estar muito seguro de si e da sua sanidade mental para colocar um bicharoco daqueles todos os dias na pinha e achar que se está em condições para sair para a rua. No entanto, duvido que os gnomos associem ao adereço qualquer significado religioso... O que me levanta dúvidas quanto à posição relativamente às questões raciais. Há qualquer coisa de Ku Klux Klan naquele outfit mas prefiro não pensar muito no assunto. É certo que nunca vi nenhum sujeito de raça negra nos episódios de "David, o Gnomo" mas também não é menos certo que toda aquela realidade de floresta e não sei mais o quê pouco tem a ver com o Sul dos Estados Unidos. Lá está: não vale a pena ir por aí.

Depois, tanto David como Lisa (a esposa) eram idosos... E sabemos como as crianças apreciam idosos.
Eu não era excepção, de facto sentia empatia com velhotes mas hoje vejo as coisas com outros olhos. É que a grande generalidade dos gnomos que apareciam na série tinham já uns Invernos a mais, o que me leva a suspeitar que se a população gnoma era já envelhecida na altura, hoje já pouco deveria restar da mesma. Sou capaz de imaginar David com o chapéu meio murcho, sentado numa poça de mijo a ver o Goucha e a queixar-se que "Ser gnomo no meu tempo é que era e a malta nova não quer pegar nisto..." Enfim, preocupações que não me assombravam mas que actualmente, viciadas pela vida adulta, não deixam de surgir na ideia.

Para quem não via a série, David, além de gnomo, era também uma espécie de veterinário. Tipo, curava os animais que estivessem doentes, que tivessem sido apanhados em armadilhas ou que sofressem de uma maleita qualquer. Nenhum dos episódios abordava questões de ordem médica mais complexas ou até mesmo embaraçosas (não me lembro de ver David a ter de retirar um espinho do escroto de um texugo, por exemplo) nem sei se prestava serviços no âmbito da psicoterapia ou de medicinas alternativas, mas se tal acontecia deduzo que tais cenas tivessem sido registadas off the record. O tamanho de David não deixava de ser uma vantagem no exercício da sua profissão porque lhe permitia observar de perto e em grandes dimensões quaisquer orgão que tivesse de tratar. No fundo, uma boa maneira de se poupar uns trocos num microscópio. David era manhoso e sabia-o. No entanto, era também bastante estúpido dado que nunca o vi receber um cêntimo pelos serviços prestados. Os bichos deviam agradecer e dizer que pagavam no fim do mês quando recebessem e o otário dizia que sim e voltava para o buraco a cantarolar e a equilibrar o chapéu bicudo na cabeça. Enfim, há ursos...

Já a Lisa, sejamos sinceros, era uma mula que não fazia nada. Estava gorda como uma porca com um problema glandular e isso é fácil de explicar pelo simples facto que raramente saía do covil que partilhava com o marido. Seria uma trophy wife não fosse o seu aspecto asqueroso e abrutalhado em cima do qual, equilibrava também ela, o seu chapéu bicudo. Ok, podem dizer que provavelmente tratava da lida da casa. Mas quando a casa tem cerca de quinze centímetros quadrados digamos que as tarefas não podem consumir muito tempo ou energia. De qualquer maneira, acredito que houvesse uma certa tensão entre ela e David por causa da sua ineficácia em trazer dinheiro para o agregado familiar. O sair todos os dias para ir trabalhar e o regressar à noite com um sorriso idiota na cara e os bolsos vazios deviam encher Lisa de dúvidas e inquietação. Inquietação essa que nunca é verdadeiramente abordada na série, diga-se.

No entanto, a relação entre os dois não parecia má, embora profundamente assexuada. Os raros momentos de carinho consistiam no esfreganço vigoroso dos narizes, prática que como é sabido foi tornada célebre pelos esquimós. Julgo que pouco devia ter a ver uma coisa com a outra, dado que aquela malta nunca devia ter visto um esquimó à frente, provavelmente era apenas uma maneira de mostrar qualquer coisa parecida com afecto sem ter de aplicar demasiado esforço nem correr o risco de ser erótico. E erotismo com aquelas duas aventesmas era algo para patrocinar os meus pesadelos durante meses.

Mas nem tudo era miserável, David fazia-se sempre transportar no dorso de uma raposa que chamava com um assobio. Provavelmente o único animal honesto e que assim recompensava os serviços de enfermaria prestados pelo gnomo. Uma espécie de limusina com motorista sempre ao dispor não era para qualquer um. Quando era criança, vivia na mesma rua que o ex-presidente da República António de Spínola. E, como se sabe, a malta que foi presidente tem direito a viatura e pinguim condutor todos os dias, até ao pijaminha de madeira. Os ex-presidentes e julgo que o Cavaco também, quando largar o poleiro. Bom, lembro-me de olhar para o velhote e achar que havia muito de David nele... Em vez de uma raposa vermelha era um carro preto e ele não o chamava com assobios mas fora isso era igual. Às vezes há coisas que aproximam os desenhos animados da vida real e só topamos quando somos putos. Enfim...

Os inimigos, também os havia, eram uns deprimentes irmãos mostrengos com narizes de bêbado a quem chamavam trolls, mas nunca constituíam grande ameaça. Faziam patifarias de modo cristão e sempre dentro de certos e determinados limites, porque eram também eles bastante estúpidos. Aliás, só assim se justificava a vida tranquila de David que, como já foi provado ao longo deste texto, não era propriamente a última Coca-Cola do deserto...

Mas voltando ao início, a minha adoração pelo boneco era imensa.
E aos trinta anos, não nego que ver o genérico no youtube faz com que haja uma lagriminha a querer saltar. Isto embora também tenha de recordar com bastante tristeza o momento em que nos separámos definitivamente e que envolveu um berreiro tal que os vizinhos provavelmente pensaram que me estavam a cortar um braço com uma colher de chá.

É que os senhores criadores da série "David, o gnomo", com certeza esgotados por todo o fervilhar criativo que os episódios exigiram e não sabendo como colocar termo à questão, tiveram a ideia brilhante de o fazer traumatizando milhares (quiçá milhões) de malta infantil.

Para quem não sabe, no final de "David, o gnomo", David e Lisa MORREM transformando-se ambos num decrépito e macabro par de árvores.

Sim, tal qual.

...

Ah mas não antes de uma dolorosa despedida lavada em lágrimas entre o gnomo e a raposa motorista (o que talvez tenha indicado que ambos tinham uma relação extra-profissional mas não vale a pena agora desenvolver o assunto).

Sim, MATARAM David e a mula da mulher só para poderem dar a série por finalizada.
Hoje, a transformação de personagens em árvores afigura-se-me como "menos má" mas na altura foi o equivalente a terem sido queimados vivos, decapitados e as cabeças espetadas em estacas à entrada da floresta. Podiam ter feito uma montagem com os trolls a despachá-los a tiro como no fim do Padrinho I, com os violinos de fundo, que aos meus olhos não teria sido menos chocante.

Enfim, a vida é curiosa e à medida que avança as memórias ganham outros valores e significados.
Julgo que é essa a conclusão que um tipo tira daqui.

Seja como for, e com toda a lamechice que isso implica...

Tenho saudades tuas, David.

Wednesday, February 13, 2013

O xôr Bento da contabilidade

Então mas... o Papa demite-se?!

...

Com o desemprego todo que anda p'raí, ele arreda um trabalho bom como aquele p'rá borda do prato?!

...

Parece-me uma decisão um tudo-nada irreflectida, devo confessar. Provavelmente foi tomada a quente e no calor do momento, mas já se sabe como são estes octogenários sempre com o sangue a fervilhar na guelra... Às vezes ganhavam mais se pusessem logo um comprimido debaixo da língua e se se deixassem ficar a reflectir com a nuca inclinada para trás e a boca aberta, esparramados no sofá. Mas enfim, é só uma sugestão.

Demite-se porquê?! Vamos lá a saber...

Está aborrecido porque já não tem mais progressão na carreira?! É que se for isso até compreendo porque depois de se ser representante de Deus na Terra, convenhamos, as coisas tornam-se um bocado maçudas. Deixamos de ler os classificados nos jornais, de ir a sites de emprego, de dar a dica aos amigos que estão noutros sítios melhores... Um tipo é Deus! Não há como bater isso.

Mas ainda assim, nos tempos que correm, acho um bocado cagarola abdicar por falta de desafio. Prefiro mesmo acreditar que a culpa é daquele maldito chapéu bicudo que deve dar cabo das costas.

Não me interpretem mal, eu adoraria usar um chapéu daqueles e dificilmente largaria um emprego em que o pudesse usar em situações que não incluissem piñatas, confettis ou línguas da sogra mas a sociedade não me permite essas liberdades. Permite a ele porque, lá está, até arrumar o cacifo é Deus.

A única maneira de me deixarem usar um chapéu bicudo numa base diária era se a minha cabeça fosse, ela própria, bicuda. Estive a ver uns documentários no National Geographic e parece-me que isso só é possível se se enfaixar a cabeça dos putos desde o berço com ligaduras apertadas. Portanto, todo um meritório e dedicado cuidado diário que os meus pais "decidiram" não ter. E agora eu que me governe com esta cabeça da treta, que não ostenta umas missangas douradas, uns berloques de veludo grená, uns bordados rococó... nada de nada. Uma pobreza franciscana é o que isto é ao nível craniano!

Mas enfim, mesmo que ele esteja com a cervical toda esfrangalhada continuo a achar estranho ter mandado o lugar assim às urtigas... Também me pus a pensar que talvez a culpa tenha sido do mau feitio do patrão. Sempre com ares de "maior" porque... é efectivamente "o maior". Quando assim é, sabemos bem que pode ser um pesadelo ser o secretário, por muitos chapéus bicudos que se possa usar. Deus não aceitou bem a decisão do homem, isso é certo. Mas se o azedume do todo-poderoso se reduz a um raiozinho a cair no pára-raios da Basílica de São Pedro então é aproveitar porque parece que, apesar de tudo, a idade o amansou um bocadinho. Tempos houveram em que lançava pragas, aniquilava civilizações inteiras, exigia sacrifícios... Agora limita-se a cumprir a ciência e a dar razão ao Ben Franklin. Depois não venham dizer que a religião é dogmática e não evolui.

De qualquer maneira, se era para abdicar julgo que Ratzinger nem sequer devia ter pegado nesta empreitada. Já sei que a malta esteve lá reunida, que se gera sempre aquele ambiente de camaradagem, contam-se umas anedotas, brinde p'raqui, brinde p'rali, mas na altura em que estivessem p'ra lançar o fumo branco bastava agradecer e dizer para passar ao próximo porque não se tinha vida p'raquilo. Mas entusiasmou-se e se calhar agora vai ver-se grego se quiser arranjar outra coisa.

É que ser Papa é daqueles papéis que marca uma vida. É como o Radcliffe... O puto até pode ser bom actor e tudo mais mas o pessoal olha para ele e vai ver sempre o Harry Potter! Não há como fugir.

Enfim, mas apesar de ter ficado menos tempo no Vaticano do que o Pedro Barbosa no Sporting (que entrou lá ainda com borbulhas e saiu marreco e já sem cabelo), considero que o pontificado de Bento XVI teve bons momentos que vale a pena recordar num daqueles vídeos que faziam quando alguém era expulso da casa do Big Brother. Talvez com uma música do ceguinho da ópera para puxar a lagriminha... Isto caso queiram dar um pouco mais de dramatismo à coisa, claro.

Agora quem o vai substituir ainda não se sabe ao certo.
Ouvi dizer que toda uma legião de eternos suplentes como o Zé Figueiras da SIC ou o Kardec do Benfica enviaram candidaturas mas foram obviamente recusadas porque não preenchiam os requisitos. Um homem para ser Papa tem de ter as costas fortes (por causa dos tais chapéus bicudos) e também ajuda já ser cardeal e assim... Depois basta saber ler e não ter medo de andar numa espécie de carrinho de golfe. Acaba por não ser um ofício assim tão complicado.

Pessoalmente tenho pena que não se aposte mais na prata da casa e não se promova um estagiário que lá ande, por exemplo, mas admito que pouco percebo de Vaticanos. Eles não mandam em minha casa e eu não mando na deles, é um pacto de cavalheiros que temos vindo a respeitar com bastante sucesso.

A Ratzinger desejo a melhor das sortes embora continue a achar que ele tem nome de vilão dos bonecos animados. Eu não o contrataria para qualquer posição de atendimento ao público precisamente por isso. Se fosse a ele mantinha o Bento mas largava o XVI porque há-de haver sempre o engraçadinho que vai ignorar a numeração romana e ler as consoantes. Mais vale jogar pelo seguro e passava a ser xôr Bento da contabilidade.

Pronto.

Thursday, January 24, 2013

Esse maricas do Armstrong...

Olhem, antes de mais e não tendo nada a ver com o conteúdo propriamente dito deste post, quero aqui deixar novamente o apelo de se ACABAR DE VEZ COM A MERDA DOS PANDAS!!!

É que é uma situação que se tem vindo a arrastar ao longo de décadas e não há ninguém que se chegue à frente e resolva o assunto! Ainda esta semana tivemos o ministro da saúde do Japão a manifestar o desejo do falecimento rápido de milhões de idosos e nem estes bons exemplos de pragmatismo vindos de um país vizinho conseguem sensibilizar os chineses para aquilo que precisa de ser feito!!!

PORRA, ACABE-SE COM OS PANDAS PÁ!!!

O que é que é um panda senão um adolescente idiota e trombudo que passa a vida fechado no quarto a espremer as borbulhas e a recitar poesia barata?! Raisparta que o urso é emo e é estúpido, catano!

Primeiro: não se sabe vestir! Os meus pais tinham uma mobília de quarto preta e branca nos anos 80 mas isso é coisa que ficou lá p'ra trás assim como aqueles brincos de plástico colorido que saiam nas batatas. Segundo: é esquisito e fino, o estupor! Arroz e feijão que há às pazadas e que toda a gente gosta e come, não toca nem obrigado. Só lá vai com caninhas de bambú tenrinhas e às paletes delas que a real peidola do raio do urso não se sustenta com pouco. Como se isto tudo não bastasse, chineses enfiem por favor nas vossas cabeças:

O BICHO NÃO QUER REPRODUZIR-SE!!!

É que eles já deixaram isso muito claro! Nem uns dos outros gostam!!!
Excusam de lhes mostrar filmes pornográficos com bichezas (e acreditem que mostram porque eu li a notícia), de lhes polvilhar o bambú com gindungo (literalmente, não inventem vocês também) ou de lhes injectar hormonas...

O URSO NÃO QUER, ARRUMA-SE A LOJA E DÁ-SE LUGAR A OUTRO QUE ISTO É MESMO ASSIM!

EHPÁ QUE PESADELO!!!

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Bom...
Peço desculpa pelo excesso mas antes de qualquer coisa tinha mesmo de tirar este peso dos ombros. Desconfio que a origem do meu ódio esteja num boneco de um panda que eu tinha quando era pequeno, um daqueles de borracha que guincham quando lhes apertamos o bandulho. A brincar a brincar, ainda ouço aquele silvo aflitivo e aterrador quando estou para adormecer ou quando fecho os olhos em becos escuros, mas enquanto me trato e não me trato, vou desabafando para aqui.

Já agora, não sei bem porque é que ando p'raí a fechar os olhos em becos escuros mas enfim... isso será com certeza material para outra conversa.

Ora bem, grande brincalhão aquele Armstrong hem?
Eu sempre disse que ciclismo era estupidez mas nunca ninguém me deu ouvidos.
Os meus avós dizem que gostam de ver a Volta a Portugal por causa das paisagens mas o certo é que não poucas vezes as paisagens que acabam por ver estão no interior do subsconsciente, com as cabeças reclinadas para trás e a boca aberta, diante da TV.

O ciclismo é uma seca mas é só para quem assiste. Acredito que aqueles que estão a pedalar têm o coração ao ritmo de uma gazela a bombar numa festa de transe, tal é a catrefada de drogaria que levam no bucho.

Que muitos dos atletas usam substâncias ilegais já todos sabíamos e contávamos com isso, o que não é nada comum é vir o tipo que era considerado o rei deles todos assumir descaradamente a moscambilha num programa como o da Oprah. Se era para confessar macacadas ele que escolhesse o Goucha que menos gente vê e ninguém leva a sério. Mas não... O homem quis protagonismo até ao final.

Ao que parece, com testículo ou sem testículo, aquilo foi um ror de etapas e troféus ganhos à conta dos chiribitis. Comeu, bebeu, deu as suas cambalhotas ao nível da cama (que entretanto já não estamos a falar de pandas) e quando a coisa apertou de vez... apareceu e disse que era tudo mentira. Que não houve etapa em que não estivesse mais dopado do que o Jorge Palma em dia de concerto.

Pessoalmente, acho mal.

Quer dizer, não tenho nada contra o homem ter feito batota para baralhar a verdade desportiva, ter enganado milhões de adeptos, ter ofendido uma legião de admiradores, ter-se enchido à grande durante anos à conta de uma mentira.
Se estivessemos a falar de futebol até poderia levar a peito mas ciclismo... Ehpá ele que faça o que quiser. O que me transtorna não é nada disso.
O que me transtorna é terem dado tanta importância a um intrujão destes e não darem reconhecimento nenhum a este campeão que se fartou de atingir feitos ao longo da vida e nem um aplauso, nem uma palavra, um ramo de flores, uma flute de champanhe, nada...

E quando digo campeão, estou a falar de mim, notem.
Nunca pensei dizer isto mas se formos a ver bem, eu, que sou eu, acabo por ser tão campeão quanto o Armstrong.

...

Pronto, adiante...

Tudo o que fiz na minha vida ao nível do extraordinário teve de reconhecimento aquilo que teve de droga: zero.
Ok, nunca venci uma Volta a França, dou-vos isso. Mas já fui a Paris duas vezes de avião e parece que não conta p'ra nada. O que é que vale mais? É o Armstrong a pedalar cá em baixo todo janado ou sou eu lá em cima recostado como um senhor, a deslocar-me aos 900 Km/h de cada vez?! Pois.

Bom, passando a factos concretos dou o exemplo de um feito atingido por mim ainda em tenra idade e que foi ignorado pelo grande público. Portanto, uma coisa pela qual nunca recebi crédito...

Uma vez comi seis sandes de marmelada e queijo num só lanche.

...

SEIS!

E se foram no mesmo lanche estamos portanto a falar de cerca de uma hora.
Droga - nada.
Marmelada e queijo - o suficiente para me fazer tombar com um enfarte do miocárdio logo aos dez anos de existência.

A isto, meus amigos, chama-se domínio das paredes estomacais e dos movimentos basculantes da traqueia que à terceira sandes já queria espichar tudo p'ra fora a ver se me salvava a vida.
Enquanto isto acontecia, eu, pensando nas novas gerações e em todos aqueles para quem podia tornar-me um exemplo, mandei a traqueia à merda e empurrei-lhe mais três paposeco a murro, para atingir o objectivo.

Foi uma vitória silenciosa dado que só foi presenciada por duas pessoas.
E uma delas tinha os dedos no telefone, na iminência de ter de ligar para o 112. Mas eu era uma criança idealista e não conhecia a derrota, o desânimo e a noção de ridículo.

Comi as seis sandes bem apetrechadas de marmelada e queijo e passado duas horas sentei-me p'ra jantar como se nada fosse. Isto sem transfusões de sangue, sem injecções regulares nem demais substâncias suspeitas... Até a marmelada era caseira. Por isso, se vê...

A mim ninguém me chama para ir à Oprah falar desta experiência e cativar novos valores do enfardanço. Quem papa placentas, prega a deuses espaciais e salta nos sofás feito tantam, tem livre trânsito. O Tom Cruise, tudo bem. Agora, malta de verdadeiro valor já não é com eles.

Eu até aposto que ganhava a Volta à França só com uma dieta à base de sandes de marmelada e queijo. Cruzava a meta vinte anos depois, encharcado no próprio vómito e com a pança a rojar pelo alcatrão mas cruzava.
Não era como esse maricas do Armstrong...


Friday, December 21, 2012

CAGUEI P'RÓ FIM DO MUNDO!

Isto, tal qual.
E nem vou alongar-me muito sobre o assunto porque há milhões de espertinhos que estão a fazê-lo por mim neste preciso momento. O verdadeiro fim do mundo é haver tantas piadas idiotas sobre o fim do mundo, quando bastava que soasse um trovão de repente para que todos os comediantes de ocasião se desfizessem em diarreia pelas pernas abaixo. Aos esguichos como a erupção do Vesúvio!

Pá, se acabar acabou!
A pergunta que temos de colocar a nós próprios é se um mundo que cuspiu cá para fora Big Show SIC's, Casas dos Segredos e Manhãs da Júlia merece algum tipo de pesar ou de consideração. A verdade é que se os Maias anunciaram o juízo final para agora e não olharam para o lado a tempo de topar os espanhóis que se preparavam para os sachar à marretada, então há algo de muito mal contado aqui. Seriam videntes míopes e só conseguiam prever o futuro ao longe? Ou uma civilização que se entretinha a decapitar atletas que não enfiavam bolas em aros de pedra com a ajuda do cotovelo tinha de facto um parafuso a menos? Enfim, muitas questões, muitas piadinhas, mas nenhuma resposta do país por excelência da marijuana.

Assim sendo, e de volta às questões fulcrais da actualidade, hoje de manhã quase que desejei que o mundo acabasse realmente por uma ordem de razões. E, curiosamente, todas elas relacionadas com a minha ida ao ginásio.

Ora, o espaço de treino que eu agora frequento tem uma porta automática que se abre através da digitação de um código pessoal. Esse número é-nos fornecido através de um registo online e do preenchimento de uma ficha com os nossos dados e a nossa foto. Eu, por alguma razão idiota certamente associada às várias quedas de cornamenta ao chão na infância e ao uso excessivo de chinelos de dedo, decidi colocar não a foto da minha pessoa mas sim uma outra de Arnold Schwarzenegger nos tempos do bodybuilding.

...

Apenas porque sou estúpido. Não há mais nenhuma razão que o fundamente.

Isto até não seria grave se toda a santa vez que eu digitasse o código para entrar, a foto não aparecesse em formato GIGANTE num ecrã por cima da porta.
Agora, podem perguntar-me porque é que eu, tendo uma réstia de dignidade e noção do ridículo, não alterei a imagem no site e fiquei descansadinho... Vá lá, perguntem...
Epá, porque não deu.
Eu tentei, mas não deu.
Fiz upload de várias fotos, várias vezes diferentes e com diversos browsers, mas à entrada quem apareceu desde o dia 1 foi sempre o bom e velho Arnold a alancar com um haltere de cento e vinte quilos e a bufar estilo boi-cavalo.

Com o passar do tempo, decidi aceitar.
Normalmente, quando a vida me dá limões eu pergunto "P'ra que é que eu quero esta merda?!" mas desta vez chupei o raio dos citrinos. Muito, MUITO, a contragosto.

Passei a entrar sempre à socapa, esquivo como o Vale e Azevedo num dia de renda, para que ninguém percebesse o pateta que efectivamente sou. E sempre tive sucesso...
Até este malfadado dia 21...

O segurança que costuma estar junto às salas de treino a topar o rabo das gajas (afinal de contas é para isso que lhe pagam), hoje, talvez por ser o fim do mundo e estar demasiado deprimido para apreciar bom nalguedo, preferiu estar junto às portas num local privilegiado face ao ecrã. Avistando-o antecipadamente e sabendo que me dirigia para a minha perdição, agi com a máxima naturalidade que o meu tónus muscular permitiu, digitei o código e esperei que o Arnold surgisse e pusesse a nu todo o meu sentido de humor primário e demente. Era como uma prova de fé e confiança que Deus colocara diante de mim. Embora, por esta altura eu já devesse saber que Deus só me quer como palhaço. Atirar-me-ia de bom grado meia dúzia de tartes de natas à cara todos os dias, se isso não fosse tão show off.

Bom, talvez por perceber que não tinha escapatória possível, resolvi quebrar o gelo e olhar o segurança nos olhos enquanto sorria nervosamente.
Cheguei mesmo a soltar uma gargalhada surda que se materializou em som sob a bizarra forma de "GRGL..." Uma interjeição imperceptível que acabou por ilustrar o desconforto do momento.

...

GRGL..

...

O segurança topou o Arnold no monitor.

...

GRGL...

...

Devolveu-me o olhar.

...

GRGL...

...

E NÃO ESBOÇOU QUALQUER EXPRESSÃO NAQUELA P**A DAQUELA CARA!

...

Por mim o mundo podia muito bem acabar ali.
Enquanto eu gorgolejava ridiculamente diante da porta automática podia sem problemas apanhar com um meterorito na testa ou com um tsunami pelas costas abaixo. Detestaria saber que a minha última palavra se reduzira ao som "GRGL" mas, que se lixe, também não ficaria cá ninguém para se lembrar dela e ceder à tentação de a enfiar num livro reles de citações ou de a escrever na minha lápide.


AQUI JAZ SAGUIM

1982 - 2012

"GRGL"


Enfim, merda p'ra isto tudo.
Segui para os balneários com a moral a arrastar pelo chão e nenhuma vontade de ir p'rá passadeira.
Entrei no recinto e quando comecei a tirar as coisas do saco apercebi-me que tinha voltado a esquecer-me de uma muda de roupa interior para vestir depois do banho.

Cansaço...

Se fosse a primeira vez até se percebia.
Mas por esta altura já deve ser a quarta.
E isso é estúpido.

Não que seja horrível de todo adoptar o estilo freestyle. Mas há uma lista exaustiva de coisas que ainda assim prefiro fazer e que incluem espetar agulhas nos olhos ou comer vidro... Vamos ser francos: é desagradável!
Eu já guardo um par de meias extra no meu local de trabalho, a contar com estes meus lapsos cerebrais. Só lamento não ter tido a mesma ideia para as chamadas boxers, pois também me fazem muita falta.

Enfim, talvez imbuído pela humilhação da entrada ou pelo desalento de ter de passar o dia "à larga", vi-me absolutamente desesperado por uma outra situação que tenho guardado em silêncio até ao dia de hoje e que não dá mais para ocultar.

Estou muito satisfeito com aquele ginásio, não digo que não (e quem me conhece e quem leu posts anteriores sabe que isso não é muito fácil de conseguir). Porém...

Aquele espaço...

Possui...

Sem sombra de dúvida...

A PIOR SELECÇÃO MUSICAL DA HISTÓRIA DOS GINÁSIOS!

É que é uma xinfrineira infernal de batuques, guinchos e auto-tunes capazes de sorver o QI de um indivíduo décima a décima (pelo menos a avaliar por quem por lá anda e parece apreciar o som). As mais tinhosas rameiras da indústria musical em todo o seu esplendor, invadindo os meus tímpanos sem dó nem piedade todas as manhãs que vou treinar. Tenebroso!
Normalmente, encaixo o suplício com coragem e paciência mas hoje, quebradiço emocionalmente como estava, fiquei uma vez mais a desejar que o tal planeta Nibiru (ou lá como se chama aquela merda) se viesse espetar naquele subwoofer como um campeão.

Tão horrível, tão insuportável, que preferia ouvir os balidos agoniantes de um CABRITO VIVO A GUISAR! E eu sou um tipo que gosta de animais.

Enfim, soltei a minha lágrima.
Treinei como um senhor.
Abandonei o ginásio sem encarar o segurança.
E passei o resto do dia com comichões na virilha.

'Tou-me a cagar p'ró fim do mundo dos índios porque eles nunca souberam o que era sofrimento a sério. Não tivesse eu de passar esporadicamente por experiências destas e também me armava em exótico a talhar pedregulhos p'ra deixar em broa os papalvos do ano 3000.

Amanhã é outro dia...
E é isso que me mete medo!

Monday, December 3, 2012

Âncora anti-depressão

Tirando o Benfica, não sou conhecido por fazer parte de muitos clubes...
E mesmo nesse estou apenas na condição de adepto, que eu tenho coisas mais importantes em que gastar o dinheiro do que nos ordenados milionários de malta sul americana. Quer dizer, não precisa de ser sul americana. Coisa boa do Benfica é que há gente de todo o lado... Menos de cá.

O que, a avaliar pelos últimos anos, nem é assim tão mau.

Não tenho nada contra eles, atenção. Vibro com os seus golos, com as fintas, com cada jogada... Admito que não há ninguém que represente melhor o Benfica e Portugal do que os argentinos, mas a verdade é que tenho uma casa para pagar. E se falhar um mês duvido que o Sálvio dê um saltinho ao Totta para interceder a meu favor. Portanto, deixo-me estar sem quotas nem lugares cativos.

Hoje em dia, tenho GRANDES restrições em relação aos clubes em que me inscrevo. Principalmente, porque não tenho dinheiro p'ra abandalhar.
Quando era miúdo, o importante era receber correspondência e acumular cartões de sócio na carteira. O que para alguns não era senão lixo, para mim era símbolo de status e aquilo que me afastava da mediocridade de não pertencer a nada. Graças a este frenesim todo, ao longo dos tempos, associei-me a grupos tão determinantes na história do mundo e do preenchimento inútil de papel como o Super Clube dos Ases (já não me lembro bem mas julgo que tinha a ver com cereais), o Clube dos Amigos do Basquetebol (desporto ao qual nunca liguei pevas) ou o Clube dos Amigos da Raça Bulldog (sim, eles existem)... Ainda tenho os cartõezinhos todos guardados e talvez escreva sobre isto um dia (porque há mais... muito mais), mas de momento não é sobre este assunto que me apetece reflectir.

Recentemente entrei para um novo clube, muito a contragosto diga-se. O clube dos 30.

E antes de mais, já sei que o cliché agora é dizer que os 30 são os novos 20 mas esta máxima levanta-me questões. Se estamos todos a levar com talhadas de 10 anos em cima então a verdade é que os 20 são os novos 10 e o assunto "pedofilia" assume uma dimensão completamente nova. A maioridade deverá então passar para os 28 e quem tem menos de 10 anos, aos olhos da modernidade, não existe. Tudo isto é bastante confuso (à luz da filosofia e da própria estupidez), provoca-me dor de cabeça e acentua-me o reumatismo... O que não me surpreende porque sou agora oficialmente "uma pessoa de idade".

A tentar lidar com a entrada neste clube a que não fazia questão de pertencer, tentei identificar âncoras que me permitissem assumir a mudança de uma forma menos brusca. Sei perfeitamente que em pouco menos de cinco meses passarei a fazer-me acompanhar por aquelas caixinhas de comprimidos que têm compartimentos para cada dia da semana, mas ainda assim algo me diz que eu não estou a ficar velho... Eu já sou velho há muito tempo.

A condução, por exemplo. É essa a minha âncora principal.
Eu sempre conduzi como um velhote e não é agora aos 30 que vou passar a fazê-lo de maneira diferente.

Os velhos, como é sabido, conduzem mal. E não olham para trás quando fazem marcha atrás (o que é estranho porque o próprio nome dá uma dica do que deveriam fazer). Isto pode ser confundido com desnorte ou senilidade mas a verdade é que é uma escolha perfeitamente consciente. Eles não olham porque acham que já olharam muito ao longo dos anos, conquistaram o direito de não olhar. Os outros, que são novos, que se cheguem à frente e olhem agora para não acabarem com um pára-choques encalacrado na dentição. Depois, quando forem velhos podem fazer o mesmo que ninguém os poderá condenar. O raciocínio é mais ou menos este.

Se um velho quer andar numa autoestrada em contramão está, pensam eles, no seu pleno direito.
Se quiser passar a ferro os dedos dos pés de uma mulher de meia idade que atravessa a passadeira, é porque ainda pode fazê-lo. E, por um lado, ainda bem. A sociedade não quer que sejam activos?
Entre as várias actividades, conta-se o bingo, a bisca no jardim, a alimentação de pombaria e o desrespeito total e absoluto pelas regras de trânsito. A escolha já só depende do bom senso de cada um.

A sociedade colhe aquilo que planta.
E como, bem vistas as coisas, qualquer pena para um velho pode vir a ser prisão perpétua... A maior parte das vezes, dá-se um desconto e esquece-se o assunto.

Uma vez vi eu, ninguém me contou...


Estava à porta de casa de manhãzinha, à espera de uma boleia.

Sai um velhote de muletas do prédio ao lado.

...

De muletas, muito vagaroso.

Em direcção a um carro que estava estacionado completamente em cima do passeio.

Sem vergonha nenhuma, o velho.

À patrão.

...

Vagaroso.

Com as muletas.

Em direcção ao carro.

...

...

...

Entrou finalmente na viatura.

Sempre vagaroso.

Já com as muletas pousadas no lugar do passageiro.

Pôs o carro a funcionar.

Deixou o motor aquecer.

...

Meteu a marcha atrás e...

...

...

PAAAAAAMMMMMM!!!

...

REBENTOU A TRASEIRA NUM POSTE DE ILUMINAÇÃO.

...

Isto comigo a ver, incrédulo e de mãos na cabeça, a poucos metros do sucedido.

...

O poste de iluminação a abanar.

A passarada a voar descontrolada em múltiplas direcções.

Algumas pessoas a assomarem às janelas, assustadas com o estrondo.


Mas agora, digam-me vocês...
O velho foi avaliar os estragos para accionar o seguro?
O velho foi ver se danificou permanentemente o poste (coisa que fez com toda a certeza) para notificar a Junta de Freguesia?
O velho maldisse a sua distracção e prometeu não voltar a agir assim?

Nada disso, meteu a primeira e, sem virar a cabeça, saiu dali mais depressa do que leva a dizer "destruição da via pública".


Ora, entre mim e este indivíduo há, agora e sempre, muito poucas diferenças.
Isto ao volante, claro. De resto, penso que a superioridade ainda está do meu lado, seja numa competição de braço de ferro ou numa feroz disputa de sapateado (não que eu saiba fazê-lo, ou outra qualquer dança seja ela qual for, mas consigo aguentar-me em pé e ele sempre precisa das muletas), só para dar dois exemplos.

Nunca tive muito jeito para a condução nem nunca tive especial apreço por automóveis.
Bem sei que o másculo e o viril seria o contrário mas tenho dificuldade em entender os tipos que tiram prazer em encerar o carro, em tratar-lhe dos estofos ou em mexer-lhes nas tubagens e engenhos. No dia em que eu passasse a fazer isto julgo que ficaria com pena dos outros electrodomésticos que possuo... E em pouco tempo estaria a puxar o brilho à máquina de secar, a mudar os plásticos ao exaustor ou a rebaixar a torradeira. Para mim, todas são máquinas e todas são iguais aos olhos de Deus. Amén.

Conduzo diariamente por uma questão de necessidade e, apesar de tudo, estou bem melhor hoje de que há alguns anos atrás. Mas, ainda assim, ao nível do pessoal idoso.

As coisas começaram tremidas ainda aos 17, durante as aulas de condução.
Praticamente todas as recordações que tenho são em Chelas com o instrutor a berrar-me na cara. Tanto que me chego a questionar se realmente eram aulas de condução ou se não terei estado umas quantas vezes envolvido em sequestros e assaltos à mão armada...

No exame propriamente dito, vi o examinador calcar o travão com toda a força que a sua santa mãezinha lhe dera um dia, segundos antes de eu empurrar o automóvel para debaixo de um autocarro.

Ele, eu e as pessoas atrás, brancos como o cal.
O autocarro a passar.
O condutor do mesmo a olhar para nós, também ele branco como o cal.
O examinador a limpar o suor da testa com um lenço de pano e a dizer, ainda ofegante:

- Encoste aí o carro e passe p'ra trás antes que a gente morra p'raqui todos...


Portanto, chumbei no primeiro exame, não é?

Mas passei no segundo e, desde aí, tenho vindo a praticar a má condução um pouco por todo o país. Uma âncora que me permite aceitar isto dos 30 de uma forma muito mais leve e natural...
É comum vermos velhotes dizerem "A malta nova não quer pegar nisto" sobre esta ou aquela tradição. Mas neste caso concreto, faço questão de fazer-lhes justiça e de imitá-los no que fazem pior, desde tenra idade.

Posso já não pertencer ao clube da "malta nova".
Mas ainda bem, porque um clube onde se ouve LMFAO ou o "Gangnam Style" é um clube parvo.

E os tempos do Super Clube dos Ases já lá vão...

Friday, November 9, 2012

Triste, triste, triste

Ok, houve realmente uma coisa que não mencionei no meu último post, outra das razões pela qual sou capaz de estar mais magro... E começo assim o texto como se não tivesse havido interrupção nenhuma em relação ao anterior, como se acreditasse que todos tivessem estado duas ou três semanas em suspenso sem tirar os olhos do ecrã. A isto, meus amigos, chama-se confiança. Ou então é a estupidez do costume. Há-de ser uma das duas.

Ora bem, além de efectivamente não andar a comer "merda" (termo que usei para definir aquilo que não faz bem nenhum ao organismo e só serve para sossegar a gula) posso também adiantar que deixei de beber álcool.

Isto lido assim parece que não tem impacto nenhum... Mas podem crer que me foi particularmente difícil escrever estas palavras. Até porque escrever num teclado enquanto se chora copiosamente, equilibrando meia dúzia de kleenexes nas mãos é coisa para profissionais.

Deixei de beber álcool e isso é motivo de tristeza profunda para mim.
Mais triste do que um órfão a tremer de frio.
Mais triste do que um esquimó à paulada a uma foca bébé.
Mais triste do que o sonho do Jorge Gabriel em treinar o Sporting.
Mais triste do que Felix Baumgartner a atirar-se do espaço sem que ninguém o fosse tentar agarrar.

Triste, triste, triste.

E a razão que me levou a abandonar a pinga, para tornar tudo ainda mais revoltante, nem foi o raio da pança. Nem foi o peso. Foi porque o meu corpo insiste, desde os quatro anos, a sofrer de uma patologia típica "das gajas". Tenho enxaquecas crónicas desde tenra idade e percebi que bastam dois ou dezoito copos de vinho tinto para fazer disparar uma dor de cabeça mais depressa do que uma mulher da casa do Paco Bandeira.

Mas a verdade é que eu nem sequer bebia muito.
Nunca fui daqueles tipos que chegam a casa e vão preparar "um drink", vertendo generosas quantidades de whisky em copos largos (coisa muito vista em telenovelas, séries e filmes). Nunca percebi como é que aqueles indivíduos conseguiam depois ir jantar e estar com a família em condições... Se fosse eu a fazer isso, provavelmente não demoraria quinze minutos a ficar vermelhusco e a olhar fixamente para a minha mulher, encostado à ombreira da porta. Tenho a certeza de que em pouco tempo, ela passaria a dormir com um cutelo debaixo da almofada.

Também é comum vermos na TV aqueles homens de negócios que antes de assinar um contrato, enquanto discutem os detalhes, atiram baldes de "scotch" para a goela e largam baforadas de charuto no ar. Para vossa informação, eu já experimentei fazer isto e não acabou nada bem. Acreditem que para que os documentos não acabem a boiar em vomitado e estes homens não passem o resto da tarde de bruços no tapete do escritório de um deles, é preciso um poder de encaixe daqueles valentes.

A minha relação com o álcool nunca foi esta. Nem nada que se parecesse!
Beber para mim, com o passar dos anos, tornou-se algo social para ser partilhado com amigos, entre histórias divertidas e gargalhadas soltas. Se há coisa que a História nos ensinou é que um bom vinho desperta os sentidos e alimenta o espírito, e eu sempre gostei muito de História.

Assim como de vinho.

Tempos houve em que até tentei fazer um workshop para perceber um bocado mais. Mas os tipos não me abriram a porta e acabei por ficar na mesma (a título de curiosidade, o relato ficou aqui imortalizado).

Mas pronto, afinal esta abstinência até resulta: nunca mais tive enxaquecas a sério.
Isto é mais uma maneira grosseira e pouco criativa que o universo teve para me mostrar que não sou bem-vindo neste mundo cruel! Nada do que eu gosto pode ser feito. NADA!

Neste momento, eu que era a alma de qualquer festa ou jantar, tenho o espírito e o sentido de humor de um tijolo acabado de cozer. Isto e o parecer que o meu guarda-fatos é a secção de toldos do Leroy Merlin, torna a minha vida muito mais complicada de momento.
A total e completa ausência de álcool no meu organismo, aliada ao desaparecimento da sofreguidão, e porque não dizer ferocidade, no "ataque" à comida, fizeram com que já não constitua entretenimento para ninguém. Sou uma sombra daquilo que já fui... O álcool, é preciso dizê-lo, era o meu doping.

A minha sorte é que isto não é como no ciclismo e, ao jeito do Lance Armstrong, ninguém vai manchar o meu currículo ou tornar-me persona non grata do mundo dos petiscos e dos chiribitis. O que passou passou e quem viveu ficou com boas memórias.

Agora é começar do zero e reinventar-me, criar toda uma nova forma de estar, sem o inebriante efeito dos chamados "copos".

...

Tivesse eu lidado com isto mais cedo e o sacana do Baumgartner não tinha saltado sozinho.

Thursday, October 18, 2012

De volta, mas pouco...

Ora bem, para aqueles que fantasiam sobre o que estive a fazer no último mês e meio, apontar muito rapidamente cinco tópicos:


- Fantasiar é p'ra meninas.

- Fantasiar sobre mim, além de ser p'ra meninas, é perturbador.

- Eu sei que disse que ia parar para fazer o livro.

- Mas fazer o livro demora tempo e a vida continua.

- Estou um bom bocado mais magro.


Pronto, posto isto, obrigado e boa tarde.

...

Ok, vamos lá elaborar um bocadinho mais...
Estou realmente a fazer o livro mas cheguei à conclusão que o saguim escreveu que se desunhou nos últimos anos. Portanto, há aqui trabalho para duas ou três oficinas de crianças vietnamitas durante meses e meses, para despachar no intervalo dos sapatos. E atenção que digo vietnamitas e não portuguesas porque as de cá nem emprego têm devido à falência das fábricas... Isto, como sabem, está mesmo muito mau.

Assim, enquanto o bicho está no forno a apurar, decidi ir escrevendo mais qualquer coisa para não perder o pouco jeito que tenho. Senão quando voltar a dedicar-me à palhaçada sou capaz de estar ao nível do sentido de humor de António Sala na altura das "Anedotas sem malícia" (manual esse que ainda nos dias de hoje assombra os meus pesadelos mais sombrios).

Depois do meu último post muita coisa se tem passado, o mundo e os seus tumultos ambientais e económicos não dá senão motivos de preocupação e debate, assunto não falta... Mas julgo que o mais importante acaba mesmo por ser eu estar mais magro. Significativamente mais magro.

E se eu escrevia textos a ridicularizar a minha compleição de paquiderme, agora é justo que faça a mesma coisa mas ao contrário. É que isto de ser magro (ou mais magro, vá) não é tão bonito ou glamoroso como o pintam. Uma das coisas aborrecidas com que tive de me deparar, e ainda hoje me deparo, é a cara de espanto das pessoas que encontro e que já não me viam há algum tempo. No lugar de esbarrarem com o mamute a que estavam habituadas vêm uma versão subnutrida desse mesmo mamute, o que dá lugar sempre ao mesmo leque de reacções. É comum entrarem num estado de grande admiração e surpresa, exclamando "Estás tão diferente! Tão magro! O que se passou? O que fizeste?" Ao que eu respondo sempre: "Estou doente e custa-me falar sobre o assunto..."

...

Desta forma, evito a situação embaraçosa de ter de descrever "a minha fórmula de dieta".
Afasto conversas indesejadas.
E também as próprias pessoas que se arrastam de lágrimas nos olhos, a pedir a amigos comuns o número de telemóvel dos meus pais para saberem mais detalhes e como ajudar.
Só isso me faz sorrir.

Mas pronto, estou mais magro e neste momento não tenho calças que me sirvam.
Dantes não tinha porque cheguei a um ponto em que dos dez pares que estavam no guarda-fatos só dois passavam com dificuldade a zona dos tornozelos.
Agora não tenho porque dos dez pares que possuo só dois não me ficam a bailar na anca como se fosse uma bailarina exótica.
Tenho de mandar apertar isto. E depois é bom que não volte ao mesmo porque não ganho p'rás costureiras.

Mas para aqueles que querem emagrecer e não sabem como, vou fazer um pouco de serviço público neste blogue e dar uma receita infalível.

Vão lá buscar um bloco de notas e uma caneta que eu espero...

...

Vá, que vale a pena.

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Não precisa de ser um bloco, basta um papel.

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Uma folhinha que seja...

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Já está?

Então cá vai...

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Ehpá, se vocês soubessem como isto é grande... eheheh

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Bom, concentração...

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Cá vai...

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Estão prontos?

...

Isto é uma receita infalível daquelas que alteram o curso da história...

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Ora bem...

...

Para emagrecer basta...


FAZER EXERCÍCIO.
NÃO COMER MERDA.


E é isto, basicamente.
Acaba por não haver grande mistério.

Se um tipo abdica das coisas que mais gosta (quem disser que é da família e dos amigos está a mentir porque no fundo todos sabemos que o que mais adoramos é cervejola, vinhaça, queijos e fritalhada até termos de amputar dedos por causa do ácido úrico), se é preciso abandonar tudo o que é bom... Efectivamente é! Porque a vida não presta. Só mesmo por isso.
E como se virar a cara a tudo o que é belo e saboroso neste mundo não chegasse é preciso correr, sofrer, suar como um beduíno ao sol e dedicar largas horas à nobre arte do masoquismo.

É triste mas é a mais pura verdade.

No final de tudo, contas feitas, não vale assim tanto a pena.
Ser magro é praticamente como ser gordo mas com menos risco de enfarte do miocárdio. O que até torna os dias mais emocionantes, diga-se.
No entanto, já que aqui cheguei acho que vou cá ficar mais um bocadinho. A ver as vistas e a apreciar ter menos quinze quilos no bandulho porque a cada passo na rua é coisa para fazer a sua diferença.

Bom, por esta altura o texto do saguim já se assemelha perigosamente a um artigo da revista Cosmopolitan... O melhor é dá-lo como terminado.

Prometo continuar a trabalhar no livro que prometi.
E pode ser que muitos de vocês ainda sejam vivos quando ele sair.

Haja saudinha... Eheh