Wednesday, February 12, 2014

É só comida, pá...

Eu sou um indivíduo que paga várias dezenas de euros por mês a uma conhecida marca de telecomunicações nacional. O mesmo indivíduo, que sou eu, pouco ou nada vê de televisão sem ser algumas séries que a patroa põe a gravar na box (porque tenho tanto jeito para mexer em aparelhos novos como um boi-cavalo para aprender linguagens de programação).

Ora...
Ainda assim, e porque pouco vejo, eu acho que passava bem sem os canais de TV que possuo.
Quando era miúdo, primeiro tinha só dois e não me chegavam. Depois, passei a ter quatro e continuava a ser pouco. Hoje tenho quatrocentos e não lhes ligo nenhuma. Bonito e sucinto resumo da evolução dos tempos.

O que se passa nesta casa é que, e apesar da farturinha, tirando as tais séries que vemos à refeição (porque nem eu nem a minha mulher já temos pachorra para trocar mais do que cinco palavras um com o outro) só há um raio de um programa que pontifica nos ecrãs luminosos destes aparelhos de televisão como se tivesse sido pintado no vidro. Um programa que está a levar-me ao desespero e a acabar, passo a passo, não só com a minha vida mas também com o controlo que ainda possuo sobre a bexiga e outras válvulas potencialmente embaraçosas.

Um título do demónio chamado MASTERCHEF.

...

Amigos, nesta casa, e sem qualquer tipo de exagero (que eu não sou nada dessas coisas), esse seriado dá 60 minutos por hora, 24 horas por dia, 30 ou 31 dias por mês (Fevereiro incluído)!
O ano todo, sempre... SEMPRE!

A minha mulher deixa-se estar a olhar para a TV com aqueles olhos vítreos e baços de quem só está à espera que o peito de frango acabe de caramelizar para me vir degolar durante o sono. Eu sei que posso estar a inventar coisas mas passei a dormir com um garfo de sobremesa debaixo da almofada pelo sim pelo não. Não entendo o fascínio generalizado por este programa e, para mim, a menos que me provem o contrário, até pode ser uma manobra de hipnose colectiva muito bem elaborada para erradicar da face da Terra todos aqueles cujas habilidades na cozinha não vão além de fazer chá. Portanto, devo estar em muito maus lençóis.

Mas até assumo ser uma coisa bem produzida e até algo interessante. Nada a ver com aquela que considero ser a pior série de todos os tempos da televisão de todo o mundo, a escória da programação, o sebo ressequido da grelha, o pus anal das telecomunicações... Também apelidado por "Querido mudei a casa". Isso sim é algo que assumo como ofensa pessoal por ser tão mau, mas não vou alongar-me demasiado acerca do assunto porque, diz o médico e o chefe da PSP da minha zona de residência, não me posso enervar.

Não tenho nada contra o Masterchef mas, e porque sou obrigado a conviver tanto tempo com isto, há alguns aspectos do programa que começam a provocar-me úlceras na alma.

Primeiro que tudo: quantos episódios é que tem realmente uma temporada?! É que isto dura para sempre. PARA SEMPRE! Eu vejo parte de um dos do início e estão lá trinta (e eu não sabia que havia assim tantas pessoas na Austrália). Mais à frente volto a ver e ainda lá estão todas, senão mais duas ou três. COMO É QUE ISTO SE EXPLICA?! Cheguei a ver episódios em que um dos tipos é algo massacrado pela crítica, ou porque deixou tostar o leitão ou arrefecer as batatas, não me lembro... problemas lá deles! Em qualquer outro programa do mundo, esse tipo, como lhe correu mal o cozinhado e aquilo é bota-fora já se sabe... Vai de vela. Mas ali não! Corre mal e ele não só fica como ainda lá está passado trezentos episódios a tempo de poder entrar a dada altura o filho ou a filha que entretanto já fez dezoito e nunca conheceu o pai...

QUANTOS EPISÓDIOS TEM UMA TEMPORADA DESTA PORRA, PÁ?!

Depois, é a importância que se coloca nas coisas... Eu gosto muito de comer e reconheço que boa papa tem arte e mais não sei o quê. Respeito muito quem sabe cozinhar e ainda mais quem se dá ao trabalho de o fazer para mim. Eu não consigo, porque não tenho a sensibilidade necessária e porque já é uma grande coisa acertar na sanita quando faço xixi. Cada um faz o que faz melhor. Mas... caros amigos... É só comida, pá. Não vale a pena chorar nem desesperar nem dizer que a nossa vida é um prato de perdizes de caça com legumes salteados. Tenham lá calma e pensem na família e nas pessoas que vos querem bem. Tal é o drama à volta das patuscadas que eu acho que as prioridades estão um bocado do avesso no raio da ilha dos cangurus, ó catano.

O meu avô tem noventa anos e já me comunicou a imensa estranheza com que verifica o fenómeno dos programas de culinária cada vez mais em voga. "Olho para a televisão...", diz ele, "Estão a fazer comida... Passadas duas horas lá estão eles a fazer comida... À noite, novamente a fazer comida...". O meu avô tem razão, senhores. É demais...

A SÉRIO, QUANTO DURA UMA TEMPORADA DO MASTERCHEF?!

E depois são todos amigos e carinhosos uns com os outros. Não digo que tenha de haver peixeirada e gritaria à americana, embora admita que às vezes nem é mal pensado para espevitar as coisas. Mas a quantidade de sorrisos, de gestos, de festinhas e das outras paneleiragens todas que cobrem o raio daquele gente de melaço já me começa a meter nojo! 'Tá bem que é uma abordagem diferente de reality show e que não querem lá ir pelo negativo mas bolas... É mesmo possível arranjar assim um grupinho de teletubbies saltitantes que se amam todos uns aos outros e a toda a gente do programa?! Não há quem se dê mal ou que não vá com a cara de alguém?! É assim tudo tão perfeito na Austrália?! Bardamerda!

E ISTO TUDO AO LONGO DE QUANTOS EPISÓDIOS, MESMO?!

A avaliar as centenas de concorrentes (cujo número, como que por magia, cresce a cada programa em vez de decrescer), estão sempre os mesmos três tipos. Dois cozinheiros gentis e fofinhos como pandas e um outro cavalheiro que é crítico e que se veste como se frequentasse a corte do Luís XIV. Às vezes gostam muito das comidas que provam, outras gostam um pouco menos, nunca acontece cuspirem a mixórdia para o lado com repugnância. Quanto menos não fosse por isso, até seria proveitoso levarem-me lá a preparar um dos meus cozinhados para que acontecesse algo diferente na série.

O Masterchef parece-me uma colónia de férias para deficientes. Ninguém perde, ninguém é expulso... No fim, há prémios para todos.

No Masterchef todos sorriem e são felizes. Quando choram é para dizer que o sonho deles sempre foi fazer comida para outros encherem o bandulho.

No Masterchef, um ovo estrelado demora duas semanas a fazer.

É UM PROGRAMA QUE NUNCA MAIS ACABA!

...

...

E a minha mulher continua a ver isto como se estivesse fora do alcance dela pegar no comando e mudar de canal. E eu, se quero estar um bocadinho ao pé dela, não posso evitar ver uma vez mais, e mais uma vez, tudo aquilo que vomitei ainda agora para este texto.

Só queria poder voltar a olhar para uma costeleta como antes.
Sem ver à sua volta toda uma tabela de reduções e temperos e nomes em estrangeiro que me recuso a aprender.

Só queria voltar aos tempos do Carlos Capote e da Vacondeus.
Em que a comida era só comida, despachava-se a coisa em vinte minutos e vamos lá embora que 'tá na hora do telejornal.

Só queria poder voltar a dormir descansado.

...

E devolver o garfo de sobremesa à gaveta dos talheres.

2 comments:

M D Roque said...

Também via á noite quando saía tarde. N temporadas de 70 e tal episódios cada, com os chefes mais azeiteiros que se possa imaginar.
Acaba por aborrecer, fica tranquilo. Quando o canal começar a repetir ou saltar episódios e a coisa deixar de fazer sentido, temos que acabar por desistir. Olha que o garfo de sobremesa é uma excelente ideia para as noites de insónia.
Bons petiscos. D

SketchbookPT said...

Tás a sofrer com os Australianos, mas ainda vais sofrer mais quando começar a versão do Goucha.

Aí sim, vais ver o que é inquisição à moda antiga.

Já para não falar no Chef's Academy Kids com a rainha dos anais e das extensões de cabelo provenientes de crianças indianas Catarina Furtado, com o seu 'bring out the gimp' de estimação Henrique Sá Pessoa (o palerma sempre a massacrar o pobre do Ameixas por fazer comida de tasco, mas vi o gajo em Sagres no Verão com uma Fanny de imitação pela trela a comer no take away do Intermarché).

Queres um conselho?

Mete a tv cabo a chuchar no dedo na rua e apanha a net do vizinho.

Consta que a miudagem conhece uns sites onde se encontra qualquer password de redes alheias.

É capturares um à la Capitão Gancho e sacares a informação.

Bonne chancé