Saturday, April 5, 2014

O campeão dos speedo

O meu gato é um imbecil.
Já lho disse muitas vezes na cara.

Não me pesa a consciência assumir isto publicamente dado que estou certo que ele pensa bem pior de mim, desde o dia em que calcou as patas gordas no chão cá de casa. Quem nos conhece, sabe bem que partilhamos o mesmo espaço segundo uma paz que pode estalar em bordoada a qualquer momento. Ele suja, eu limpo. Ele avacalha, eu arrumo. Ele destrói, eu arranjo ou ponho no lixo. O equilíbrio do pardieiro onde moro dispensa as energias cósmicas e os mais básicos princípios do feng-shui... É antes um sério teste ao meu autocontrolo e capacidade de recusar o impulso primitivo de esventrar a vil criatura e sair com as tripas dele ao pescoço, como um colar de missangas.

Enfim, mas não percamos tempo a falar de fait divers...

A verdade é que nos últimos meses, o diabrete sodomita que é o meu gato tem andado irreconhecível na sua doçura e procura de carinho humano. Ele é querer colo a toda a hora. Ele é esfregar o focinho ternamente. Ele é dormir aos pés como um bicho dos filmes da Disney. Só lhe falta cantar!
De repente, esta besta torna-se em tudo aquilo que eu e a minha mulher sonhámos quando o trouxemos cá p'ra casa, uma espécie de "ursinho carinhoso" que não só proporciona bons momentos de lazer em família como ainda se abstém de cometer vilanagens durante o resto do tempo. Nada... NADA... dos traços que vinham a marcar a sua infame personalidade até então.

Posto isto, eu até ficaria contente e, de certo modo, orgulhoso, se não soubesse de onde é que vem esta bondade toda. Se a achasse honesta e livre de interesses. Se não a topasse à légua...

O BEDUÍNO ESTÁ ASSIM PORQUE TEM FRIO!!!

Ora, que vá bardamerda!

A mudança brusca do estado de espírito do meu gato é capaz de ser o único efeito medianamente positivo no tempo extremamente ranhoso que temos tipo em todo o país. Fosse eu uma salamandra peçonhenta e estaria muito satisfeito com esta humidade toda. Isto para lagartagem e moluscos está um verdadeiro petisco. Mas para os seres humanos, à parte de terem agora como melhores amigos os mesmos gatos que lhes infernizavam a vida há seis meses atrás, não serve não senhor.

Eu já perdi a esperança de que alguma vez possamos voltar a ter dias de sol. Acho que acaba por ser mais sensato aceitar que daqui para a frente há-de ser isto ou muito pior. Há quem se queixe do aquecimento global e da poluição mas eu não tenho dúvidas que a culpa está em duas classes muito particulares de indivíduos: os amoladores e a malta da agricultura.

Ora, os amoladores vocês sabem porquê.
Não podem ver dois raios de sol sem que peguem no pífaro e venham estragar o dia ao resto das pessoas. Aquele maldito pífaro faz chover e, apesar de toda a gente saber que tem poderes mágicos, parece ser o segredo mais bem guardado da história. Países com seca era exportar para lá os amoladores e os pífaros e estava o problema resolvido. Não sei porque é que não tratam disso.
Ora, estes tipos são o primeiro entrave ao solinho, os índios da dança da chuva dos tempos pseudo-modernos (porque desde puto que os ouço a andar pela rua e a chamar borrascas), os tinhosos anti-praia. O governo pede para que sejamos empreendedores e, por causa disso, até já me passou pela cabeça desenvolver um projecto musical intitulado "As mais belas baladas em pífaro de amolador", como maneira de os retirar da rua e abrir novas oportunidades de negócio que não envolvam controlar a meteorologia. Mas isto já se sabe como é: o lobby das flautas de Pan é grande e não dá hipótese a mais ninguém. O que me leva à minha segunda ideia de os fuzilar a todos.

De resto, a malta da agricultura também tem culpas no cartório porque todos os anos se queixa que não há chuvinha para as couves, que não há chuvinha para as cenouras, não há chuvinha para o resto lá dos legumes deles...
Agora é calçar as galochas e andar a pescar hortaliça com água até ao pescoço.
Por causa dos queixumes.

Claro que percebo a falta que faz a chuva às plantações, nem ponho isso em causa. Mas gostava de saber porque é que raio é que me lembram disso quando dou pelas meias molhadas em plena baixa lisboeta! ALGUÉM ANDA A PLANTAR TOMATES NO LARGO DO CARMO?! Então porque é que não me posso queixar da chuva?! Tenham paciência...

É verdade, estou cada vez mais amargo.
Estamos em Abril e eu já não aguento mais a chuva e o frio.
E nem as ternuras do meu super-interesseiro gato servem para escamotear a situação.

Estou de tal forma perturbado que chego ao ponto de recordar com saudade um bizarro episódio ocorrido há uns meses valentes, no prédio do estúdio onde trabalho e que partilho com muitos outros trabalhadores liberais (termo fino para "desempregados"). Estávamos na altura a aproveitar os últimos dias de verão e a entrar na cinzenta era de trampa em que nos enfiámos. Saí do estúdio ao final do dia, na companhia de um amigo, e reparei que no patamar do prédio pairava um cheiro fortíssimo a verniz. No entanto, como um dos apartamentos estava em obras, rapidamente associei o odor químico à existência de "trabalhos". Quando me aproximei do elevador, reparei que a porta dessa mesma casa estava aberta e tinha efectivamente sido aplicado o produto no chão de tacos de madeira. Sorri, perante a minha extraordinária perspicácia.

O que não me fez sorrir foi a visão que acompanhava a entrada desse mesmo apartamento.

Ao lado da porta aberta estava um indivíduo.

Dos seus quarenta e poucos anos.

Alto e gordo.

Badocha imponente.

Papada debaixo do queixo.

Peludo.

Que ostentava, simples e exclusivamente, sobre o corpo nu...

... uns speedo azuis.

(speedo, para quem não sabe, são fatos de banho tipo cuecas)

...

...

Eu não sei o que é que foi mais desconfortável...
Se a reacção envergonhada do homem quando nos viu aparecer, se a visão apocalíptica daquele "deus Apolo" quase como veio ao mundo, se o facto de tanto eu como o meu amigo termos tido de esperar pelo elevador uns excruciantes segundos na sua companhia.

Julgo que ficaríamos igualmente atónitos se no mesmo sítio tivessemos visto duas renas a fazer o pino ou um mergulhador a assar chouriço. Nada daquilo fazia o mínimo sentido.

Mais tarde, com calma, adivinhámos que talvez o homem tivesse preferido aplicar o verniz naqueles preparos de modo a não sujar a roupa ou, no limite, ficar com as vestes impregnadas a químicos. As explicações podem ser muitas mas nada justifica aquilo. E não há indemnização que pague os danos morais de tal imagem no fim de um dia de trabalho.

Hoje, depois de meses a fio com um tempo de fugir, recordo com saudade o "campeão dos speedo".
Por ser um símbolo do tempo em que estar naqueles preparos era um acto de libertação refrescante.
Por ser um hino à loucura do verão.
Tempo esse que não volta mais.

Tirem-me mas é daqui!


5 comments:

M D Roque said...

O que eu gosto de te ler André!
Pena que só de vez em quando.
Tenho 2 gatos e como te entendo bem :):):):)
Talvez o tipo dos Speedo estivesse a curtir os inebriantes vapores do afagamento á fresquinha.
Já me ri o suficiente para dormir tranquila.
Bjk. D

André Oliveira said...

Fico feliz de patrocinar uma noite descansa... :) Entretanto, mal escrevi o texto chegou o bom tempo. Das dias uma: ou estão a gozar comigo ou tenho em mim uma espécie de antídoto ao pífaro de amolador. Voto na primeira.

Filipe Duarte Pina said...

O que me foste lembrar. Já tinha arquivado essa imagem do gajo de speedo nos confins do meu cérebro. Grande momento :D

André Oliveira said...

Mas não podes negar que havia nele uma certa dose de sensualidade...

André Oliveira said...

Pensando bem é natural (e saudável até) que negues isso...