Monday, June 11, 2012

A única verdade

Fui ontem ver o Prometheus, o filme que tem feito brotar toda uma panóplia de emoções entre o público cinéfilo. As emoções são muitas mas, a avaliar pelo que se tem escrito na net, poucas delas são positivas: temos desde a indignação ao ódio, desde a raiva ao agastamento e, às vezes, até um piscarzinho de olhos ao desprezo. 'Tá tudo com vontade de dizer das boas ao Ridley Scott ou até, para compor o discurso, de lhe mandar uma chapada na tromba. Eu, que nunca engracei com o senhor Scott, excepto nos incontornáveis Alien e Blade Runner, claro está, também estou consternado. Mas mais por solidariedade à malta do que por outra coisa qualquer. É que o senhor Scott é só um e a turba consternada é, como o próprio nome indica, uma turba! Como tal, eu na dúvida estou sempre do lado daqueles que me podem aleijar menos em caso de descontrolo.

Se eu gostei do filme? Por acaso até gostei bastante.
Se o Ridley Scott já me fez algum mal? Por acaso até fez. Nomeadamente nas vezes que gastei do dinheiro que me custa a ganhar para ver as inúmeras banhadas do menino. Mas pronto, todos os males do mundo fossem esses...

Desta vez, o desgraçado prejudicou-me consideravelmente menos do que à maioria das pessoas, admito. Mas ainda assim conseguiu deixar-me preocupado com a porra do filme. Preocupado, leram bem.

A preocupação é muito simples: depois de visionar uma película em que uma equipa de cerca de dez pessoas parte em busca do segredo da Humanidade e dá de caras com um rico e completo bouquet de mostrengos extraterrestres, de tempestades de sílica e de naves gigantescas daquelas que esmagam (sim, até parece que nunca viram nenhuma...), cheguei à conclusão de que basicamente não estou preparado PARA NADA.

Aquela malta corre, salta, anda ao soco, rebola, corre outra vez... e tudo isto dentro de uma espécie de fato de astronauta ou lá o que é! Há uma tipa que chega ao ponto de se meter dentro de uma cabine p'ra tirar uma lula do bucho à base de pinça e tudo (uma pinça daquelas que há nas máquinas dos snack-bares e que comigo nem uma merda de um peluche conseguem sacar), e a mulher consegue esta proeza sem perder a estaleca para correr, saltar e andar ao soco. Portanto isto é malta que sabe. E eu, definitivamente, não sei.

'Tá bem que aquilo é filme. Nem me passa pela cabeça achar que há ali alguma coisa de verdadeiro.
Mas a verdade é que quando vierem p'raí os aliens a abrir caminho "à patrão", determinados a desfazer a Terra com os seus ácidos (que eles andam com ela fisgada já há muito) ninguém vai poder contar comigo para salvar o que quer que seja. Não há dúvida, que o meu perfil é mais o de ser salvo. É para isso que tenho jeito. Mas enquanto houverem damas no mundo, herói nenhum vai desviar-se do seu caminho para safar um indivíduo gordo, careca e barbudo que acaba por constituir um perigo para o próprio salvamento. Para mim é claro como água que seria dos primeiros a patinar...

Eu até tenho andado no ginásio e assim, mas há arestas que não se limam da noite para o dia. E isso prova-se com uma análise mais detalhada...



AS 5 RAZÕES PELAS QUAIS NINGUÉM VAI PODER CONTAR COMIGO CASO ISTO DÊ TUDO P'RÓ TORTO AO NÍVEL DE BICHEZA EXTRATERRESTRE!


1) O fato de astronauta

Nem é por ter excesso de peso nem nada. É difícil encontrar calças que me sirvam por causa das minhas proporções, digamos, fora do comum. Há uma ou outra na C&A mas, por exemplo, na Pull&Bear é bem mais complicado. Ora, em plena invasão alien, e caso seja necessário arranjar fatos espaciais, duvido bastante que a C&A seja consultada para o efeito. E como também duvido que venham tirar medidas a este menino para mandarem fazer a vestimenta num alfaiate julgo que estou definitivamente fora da corrida (até porque a alta costura espacial é uma bonita tradição em desuso porque infelizmente "a malta nova não quer pegar nisto").


2) O ofício

Sou licenciado em design de comunicação mas muito do que faço profissionalmente envolve a escrita. No entanto, e como é sabido, nestas cobóiadas com monstruosidades de outros planetas são os atletas, os militares, os biólogos, os matemáticos e os cientistas em geral que se orientam melhor e que oferecem mais utilidade. Em caso de aperto, não é com certeza um argumento de banda desenhada ou um conto literário que nos vai salvar. Se os aliens apreciarem ouvir contar histórias sempre posso juntá-los em círculo e ler uma das minhas enquanto um qualquer soldado lhes espeta mísseis pelos tentáculos adentro. No entanto, acho essa hipótese muito pouco plausível.


3) Correr


Lá está, tenho exercido actividade física num ginásio mas não sou um corredor de fundo. Em caso de ataque, um tipo tem é de se por "nas meninas" mais rápido do que leva a dizer "CATANO! CUIDADO COM OS DENTINHOS DO MOLUSCO!". Eu sou mais de ir correr para o passadiço que liga o Estoril e Cascais e parar para descansar quando me apetece. Duvido que os monstros respeitassem o meu ritmo de corrida porque boa educação é coisa que não impera em criaturas peçonhentas com manias de dominar o universo. É pena porque acredito que tudo sabe melhor quando feito com cordialidade mas enfim...


4) O asco


Não me interpretem mal, não sou nenhuma florzinha de estufa. Mas digamos que há coisas em casa, e a minha mulher sabe do que falo, que me são particularmente difíceis de fazer. Lavar o caixote do lixo ou limpar a casa de banho dos gatos são duas delas. Tenho nojo. Agora imaginem como reagiria se tivesse um polvo humanóide aos saltos em cima de mim, cheio de baba e ranho, a querer envolvimento físico à base de porrada. Ora, eu nem caracóis como. Seria muito difícil comportar-me como um verdadeiro homem perante tão viscoso cenário...


5) A chamada bulha


E por falar em porrada chegámos ao último ponto da lista. É certo que poderiam haver muitos mais mas não vos quero maçar. Eu não tenho nada contra andar à bulha, pratiquei karate durante muitos anos e havia quem dissesse que era bastante bom. Não há em Trajouce quem se tenha esquecido das minhas performances em estágios. E quem diz Trajouce diz parte da Abóbada. O karate era uma actividade desportiva que eu gostava mas não propriamente por causa da violência. Tanto quanto possível acho que é sempre melhor trocar os tiros e as explosões por um debate aceso moderado por um jornalista credível. O Júlio Magalhães por exemplo. O que se perdia em espectáculo de fogo de artifício ganhava-se em audiências, o que para mim é sempre preferível...



Portanto, e mesmo sem que eu tenha desgostado da coisa, o senhor Scott arranjou mais uma vez maneira de me lixar. Nem por um segundo estas questões abandonaram a minha mente enquanto visionava o filme que era, como todos agora, em 3D. Enquanto devia estar a seguir a narrativa e a conhecer os personagens estava a analisar em qual daqueles rochedos é que eu me escondia se ali estivesse... O que não é cobardia, prefiro chamar-lhe de planeamento estratégico.

Se vierem aí os aliens sou tão inútil como o palhaço Tiririca numa board meeting da Goldmann Sachs. A verdade é esta.

E até ver é mesmo a única verdade.

2 comments:

João Monteiro said...

Fui ver esta pessegada no outro dia e saí de lá consideravelmente mais leve da carteira e mais mal disposto que o sacana do calmeirão albino quando foi acordado! Raio do escocês não me torna a enganar! Este e o George Lucas podem-se limpar à parede com as prequelas deles!

Vê as minhas considerações no blog
http://thedragonsforge.blogspot.pt/

João Vasco Leal said...

No independence day, o Jeff Goldblum trabalha pra TvCabo e anda de bicla. No entanto salva a malta com uma ideia. Ora ideias não te faltam mano. És um autentico idiota! :D