Thursday, September 8, 2011

Ok, temos aqui um problema

Acredito que as balanças foram criadas com o objectivo de ajudar as pessoas a controlarem o seu peso e assim manterem uma melhor qualidade de vida.

Há quem acredite em Deus ou em vida extraterrestre. Eu acredito nisto. E acho que não há missão mais nobre para um aparelho.

É por estas e por outras que se me perguntarem se as balanças têm razão de existir e se não seria melhor ideia juntá-las todas a arder em sítios próprios como uma pira, num descampado ou no relvado do Estádio do Sporting, a minha resposta é "Não, senhor! Deixem-nas estar." e não se fala mais no assunto. Mas atenção: devem existir sobretudo para ajudar OS OUTROS, ok? Outra malta que não eu. Porque quando toca a mim a conversa já é diferente...

Nunca nenhuma balança me deu boas notícias. Nunca me colocou um sorriso na face, nunca me perguntou pela família ou deixou uma palavra amiga. Quando sou eu a pisar uma balança aquilo que vejo no mostrador é um misto de intensa agonia para que saia imediatamente (se um monte de plástico e parafusos tivesse a capacidade de berrar, berrava e bem) e a gentileza subtil de um coveiro embriagado a dar-me a terrível má nova de que estou gordo como um urso pardo com bócio. Sempre. Assim, e embora as respeite, também é por estas e por outras que evito relacionar-me com este tipo de maquinetas...

No outro dia, acompanhei uma amiga que não se estava a sentir bem a uma farmácia. Com o pretexto de que uma das razões do seu mal estar se devia ao seu estado de magreza extrema obriguei-a a subir para uma, lá está, balança, e a encarar assim a terrível verdade. No entanto, o papel impresso pelo "oráculo medidor de banha" veio provar que eu estava errado e que efectivamente a minha amiga estava em boa forma. A minha ideia de "magreza extrema" tinha sido portanto deturpada pela comparação com a minha pessoa sendo que é perfeitamente possível uma jovem adulta ter metade do meu tamanho e ser exactamente por isso que está com o peso ideal. Enfim...

O que consegui com a brincadeira foi ter de saltar logo a seguir para cima da plataforma. Achei que fazia sentido. Mas, como é evidente, arrependi-me nem um milésimo de segundo depois...

Primeiro a altura... 1,77 m

Até aqui tudo bem.
Nunca fui muito alto mas também não sou nenhum caga tacos. É uma altura que me permite chegar a um tupperware na última prateleira do armário da cozinha e ao mesmo tempo me impede de fazer figuras tristes no Portugal dos Pequenitos em Coimbra. Portanto, ao nível da altura, 5 estrelas.

Depois o peso... 96 kg

...

Ok, temos aqui um problema.

Não me interpretem mal, poderia até ser uma boa marca... caso eu pertencesse a uma qualquer ganadaria. Mas sendo eu humano e não tendo perspectivas de ser toureado num futuro próximo parece-me que tenho de fazer alguma coisa para impedir que qualquer dia os CTT me atribuam o meu próprio código postal.

Fui-me inscrever num ginásio. Pela 8340ª vez, mas ainda assim fui. A última aventura que tivera no mundo do desporto não fora propriamente brilhante e não me deixara as melhores recordações, como decerto se lembrarão devido a este testemunho. Em traços muito gerais: fui praticar natação livre para umas piscinas duma associação que trata malta com uma doença degenerativa nas costas. Na sua maior parte, idosos. E um dia tive conhecimento que estava um aviso no placard a dizer que já não era a primeira vez que eram encontradas fezes na água. Enfim, ainda não consigo escrever isto sem sofrer uma violenta contracção na traqueia mas não quis deixar de contextualizar.

Até porque agora a realidade é diferente. Num ginásio e a fazer cardio fitness, raios m'a partam se também encontro lá fezes!!!

Eu nem quero falar muito nisso que o Todo Poderoso ainda acha piada e aproveita para fazer das suas. É conhecido o seu bizarro entusiasmo por me lixar a vida e depois divertir-se às minhas custas, como se a minha existência fosse o seu reality show de palhaçada preferido. Tantas eras da História em que podia ter vivido e tive de aparecer logo quando o Velhote está no pico da senilidade...

Anyway...

Hoje foi o meu primeiro dia de exercício físico.
Sim, escrevo estas linhas depois de ter estado uma hora e meia a perceber o porquê do Cláudio Ramos recorrer à lipoaspiração sempre que quer eliminar a celulite do rabo. Mas eu com isto não pretendo descredibilizar a lipoaspiração, note-se. Conseguem-se os melhores resultados e não é preciso sofrer como uma noviça ao primeiro aborto. O problema é que eu sei que a mesma mão que assinaria o cheque deste tipo de cirurgias estaria também mais tarde a escolher vestidos na Bershka. E se as cores da Bershka me ficam mal...

Mas anyway outra vez...

Hoje foi o dia da avaliação.
Portanto, aquele em que conheço o meu plano de treinos para os próximos meses e compreendo que vou pagar com o sangue as pazadas de sushi e de vinhaça que emborquei desde nem eu sei quando. Ao ver o instrutor a preencher a tabela senti-me um Renato Seabra a ouvir a sentença. Se soube bem fazer o que fiz, não há dúvida que soube. Mas agora vou-me f***r à grande!

O instrutor era aquilo a que se chama na gíria de "um puto porreiro". Estivemos a falar sobre artes marciais talvez até mais tempo do que seria necessário mas eu intencionalmente decidi prolongar a conversa para roubar minutos ao massacre físico que estava prestar a abraçar. Reparei que ele insistia em tratar-me por você, e isso estava a incomodar-me bastante. Não tanto pela palavra em si, até porque era normal dado que tínhamos acabado de nos conhecer, mas pela forma como a dizia. Como se eu fosse muito muito mais velho... Ora se eu tenho 28 e ele não devia ter mais de 25, parece-me que 3 anos de diferença não justificavam aqueles salamaleques todos. E não era só o "você", eram os cuidados todos que ele tinha com o meu historial clínico e em especial com a condição cardíaca. Como se eu andasse a gritar "enfarte do miocárdio" por todos os poros...

Enfim, chateou-me.

Inaugurei logo o novo "plano de terror" com quinze minutinhos de bicicleta.
Até me virem dizer que aquela era onde costumavam andar as mulheres e os obesos.

Começava bem...

No entanto, como tecnicamente até me insiro na segunda categoria, deixei-me estar e acabei o exercício.

O resto do treino foi uma divertida sucessão de dor, arrependimento e mágoa. Se fosse uma cantiga era sem dúvida "O Fado da Lontra" mas como não era acabou por ser apenas uma breve amostra de algo que vai fazer parte da minha vida pelo menos durante os próximos meses. Não me queixo, ainda bem que posso dar-me ao luxo de pagar por exercício em condições. Mas também não posso evitar de pensar em todo o dinheiro que se investe, por exemplo, a incentivar os estúpidos casais de pandas a querer mocar e no tão pouco que se aplica em tornar o real enchimento do bandulho num método de emagrecimento. São prioridades...

À saída do ginásio, e como não podia deixar de ser, aqui o campeão tinha de deixar o seu extraordinário carimbo de super-palermice em forma de pièce de résistance. Não bastava sair do recinto branco e encharcado como uma foca do Ártico atordoada... havia mesmo de deixar uma impressão memorável.

Uma vez mais, o jovem instrutor abordou-me para perguntar como tinha corrido o treino... se me estava a sentir bem... se me aguentava...

Você, você, você...

A sua saúde, a sua saúde, a sua saúde...

O coração, o coração, o coração...

...

Até que eu...

Decidi dizer a coisa mais incrivelmente IDIOTA...

Que alguma vez alguém poderia ter dito em qualquer situação...

Em qualquer país do mundo...

Em qualquer momento da História Universal...

...

Perante todo este cenário de formalidades, virei-me para o puto e disse...

...

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TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO...

...

...

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...

MAS NO QUE É QUE RAIO ESTAVA EU A PENSAR?!!



PORRA!!! FIZERAM-ME UMA LOBOTOMIA E NINGUÉM ME DISSE?!



"TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO?!!!" WHAT DA FUCK?!!!



ISTO É O TIPO DE COISAS QUE SE ESPERA OUVIR DE UM TIPO COM SUSPENSÓRIOS E UM DAQUELES BONÉS COM UMA HÉLICE...



CA GRANDESSÍSSIMA ESTUPIDEZ!!!



"QUE EU TAMBÉM SOU NOVO..." OH MEU DEUS! QUE ATRASADO MENTAL!



Este tipo de merdas faz-me lembrar outra das minhas festas de anos em casa quando a mãe de uma amiga minha, a tal que era convidada todos os anos, trouxe o filho mais novo, que não tinha sido convidado, só porque não lhe apetecia ficar a tomar conta dele.

Então, mal os meus pais abriram a porta e a minha amiga entrou para brincar connosco, a mulher empurrou o miúdo na mesma direcção e empunhando um saco manhoso de miniaturas de aviões de guerra coloridos, afirmou:

- O menino também vem porque também traz prenda!

Nessa altura apeteceu-me introduzir-lhe pelo recto os horrendos aviões, um por um!
Não só à gaja que dizia isto mas também ao desgraçado do puto que tinha a cabeça esférica e vermelha, semelhante a um queijo Limiano, prestes a explodir de vergonha.

MESMO ESSE EPISÓDIO NÃO SE EQUIPARA EM TERMOS DE IMBECILIDADE À MINHA BRILHANTE SAÍDA.

...

Enfim, estou cansado.
Não tanto do exercício mas fundamentalmente disto. Ainda assim há mais soluções para aqueles que têm excesso de peso do que para os que falam sem pensar. Isso é que era um desporto a sério e que só por si faria maravilhas no meu futuro.

* suspiro *

6 comments:

Paulo Marques said...

Como sempre um texto de grande qualidade e humor! Gostei imenso de toda a narrativa sempre muito divertida! Os meus parabéns pela inspiração ;)

Led said...

Estava à espera de uma descrição maior do teu "intenso" treino físico...
Assim fica a parecer que a única coisa que fizeste foi conversar com o rapaz.
Hum...
Cá para mim foi isso mesmo! Muita garganta e pouca acção!

André Oliveira said...

Obrigado, Paulo. Um abraço. ;)

André Oliveira said...

Joaninha, o que tu queres sei eu! Fazer a festa à conta aqui do manatim... :P

Led said...

Vou só então ali buscar uma guitarra e um chapéu de mariachi, para ver se te pões a mexer.

André Oliveira said...

Se estás a falar disto...

http://www.youtube.com/watch?v=ZS_6-IwMPjM&feature=youtu.be

Eu tinha bebido uns mojitos a mais... Não me orgulho do que fiz.