Saturday, November 13, 2010

Do not cross

Já não é segredo para ninguém que a minha saída de Benfica está para muito breve.
Não é segredo porque eu mesmo o anunciei neste blogue há umas semanas, apesar de ninguém me ter perguntado nada.

Digamos que não sou muito bom a guardar segredos...

Basicamente tenho até ao final do mês para abandonar esta casa.
O meu lar doce lar durante os últimos dois anos e meio.
Casa essa que se pusermos de lado o chifrudo do vizinho anti-ruído, o escape negro do autocarro que pára à porta, os gritos dos transeuntes drogados e marginais de madrugada, o indivíduo meio monhé que está 24 horas por dia, 7 dias por semana, 12 meses por ano, sentado na esplanada da rua a beber imperiais umas atrás das outras sem ficar bêbado e a conversar com os velhotes, o ordinário que me riscou o carro, o outro ordinário que um dia me colocou um bilhetinho no limpa pára-brisas a chamar-me "anormal", os vizinhos mal-encarados, o indivíduo que vem receber a renda todos os dias 7, estilo medieval, porque, ainda não percebi porquê, não se pode pagar via multibanco, o violador de Telheiras que aterrorizou as redondezas, o mijo que muitas vezes aparece no hall de entrada do prédio e cujo mijão se nega a limpá-lo e o intercomunicador que o senhorio se orgulha em pura e simplesmente não mandar arranjar... se pusermos de lado tudo isso, esta casa nem nos acolheu muito mal.

A verdade é que aquela para onde vamos fica bem longe daqui e precisa de umas obras antes da mudança. Nada de fundo, não comprei nenhuma barraca, embora tenha visto algumas bem jeitosas e em conta, mas é coisa para durar uns dois mesinhos. Por causa disso, os últimos tempos não têm sido nada fáceis porque pensar em tudo o que queremos fazer e ainda tratar de mil e uma burocracias e chatices acaba por ser quase outro trabalho a tempo inteiro. E se já me chateia ter um, então dois é mesmo coisa para dar cabo dos nervos.

O problema é que quando não sobra tempo para mais nada, há uma série de outras coisas extra-emprego que ficam ou em stand-by ou quase completamente esquecidas. Falo de algo tão essencialmente simples como a limpeza da casa onde ainda estou. Ou da ausência dela.

Por um lado, sejamos sinceros, a permanência aqui neste momento provoca-me muito nojo.
Por outro, custa-me estar a gastar energia e recursos na higiene de um local que muito brevemente vai deixar de me albergar. Estão a ver o dilema?

Como sou preguiçoso acabo por me concentrar mais no segundo ponto. Aquele que diz: "What's the point...", afasta o lixo e se deita em posição fetal para acordar no dia seguinte de manhã. Sou preguiçoso para me mexer e fazer limpezas e, mais do que isso, sou preguiçoso para berrar à minha mulher que tem duas horas para pôr isto num brinquinho. Bom, aí sou até mais medroso porque penso que não me safava de levar uma patada nos dentes. Portanto, deixo-me estar.

Neste momento, é possível encontrar por aqui coisas curiosas e dignas da atenção da ciência.
As bolas de cotão atingem dimensões impressionantes e é comum vê-las a voar no corredor como se estivesse no Velho Oeste. Faz um bonito efeito. Fica só a faltar o Clint Eastwood mas não há meio do homem vir a Benfica. Coisa que eu até compreendo, dada a falta de fascínio e/ou interesse desta zona, mas a vir juntava-se o útil ao agradável e às tantas até me dava uma mãozinha e aspirava uma divisão ou outra. Assim de repente, parece-me pouco provável que um dia o Clint Eastwood me venha aspirar a casa por isso prefiro não contar com isso.

Sigamos em frente...

Esta casa produz bolas de cotão como a China produz leite em pó à base de veneno... É às pazadas. O que até se percebe dado que cá vivem 3 criaturas cuja principal função é gerar pêlo dia e noite. Falo da coelha, da gata e, como é evidente, da minha "mais que tudo". Eu sou apenas uma infeliz vítima desta situação horrível dado que pouco pêlo possuo já na zona da cabeça, e o pouco que tenho é regularmente rapado. Já sugeri o mesmo "hairstyle" às referidas 3 criaturas mas a sugestão foi recebida com pouco entusiasmo. Resultado disso é a continuidade das tais bolas de cotão.

Mas agora são tantas e tão grandes que a gata volta e meia olha para mim com os olhos arregalados como quem diz: "Ehpá, já limpavas isto ó porco da m***a! Tenho conhecidos que vivem às espinhas na rua e nem eles se sujeitavam a este pardieiro." Vai daí, dou-lhe um biscoito e compro-lhe o silêncio por mais algumas horas. Ah! E volta e meia também é costume ouvi-la espirrar muito atrapalhada quando decide engolir um pedaço de cotão. Sempre uma graça. Eu sorrio perante a sua estupidez, dou-lhe uma festa na cabeça e fico a desejar que tão cedo uma não se cruze no seu caminho. Por agora, é tudo o que consigo fazer.

Mas se o cotão é realmente um enorme flagelo, o que dizer das descobertas revolucionárias que se vão passando na cozinha? Sim, é verdade, coisas do arco da velha. Já alguma vez tiveram uma abóbora podre no caixote do lixo durante dias? Não é tão espectacular como dizem. Na verdade, é tão nojento que se torna quase ofensivo. Eu levei a reacção da abóbora perante o tempo e a exposição ao ar como um insulto pessoal.

Primeiro a velhaca decidiu dizer-me que não estava em condições de ser consumida através do seu aspecto. Tinha ar de estar estragada e assim sendo foi devidamente colocada no caixote. O problema é que, dada a tal falta de tempo, esse saco acabou por permanecer no lixo durante alguns dias. O suficiente para a porra da abóbora me encher o caixote de uma espécie de água infernal emanadora de cheiro nauseabundo. Uma cortesia desta besta.

Eu nunca fui grande fã de abóboras e de um certo ponto de vista alguma razão deve ter a malta que lhes desenha caras feias e as exibe no Dia das Bruxas. Mas daí ao ódio que senti naquele dia vai uma boa diferença... E tão cedo parece-me que não ponho nenhuma na sopa!

Na cozinha sucedeu ainda outro fenómeno natural digno de nota. Depois de uma refeição de favas com chouriço e de colocado o excedente num tupperware, o meu genial cérebro sugeriu-me que colocasse o recipiente dentro do forno por estar ainda quente, a fazer horas para ir para o frigorífico. Dentro do forno, porque em cima da bancada está fora de questão. A menos que queira proporcionar à gata o banquete do ano, o que muito sinceramente não me seduz por aí além. Coloquei então o tupperware dentro do forno e o mesmo só foi reencontrado alguns dias mais tarde.

O cheiro era deveras incomodativo, verdade.
Impregnava a cozinha como o cadáver de uma doninha, verdade.
Mas o novo aspecto peludo e fofinho atribuía à velha refeição uma faceta carinhosa. Muito terna. Como um peluche mas para comer...

Enfim, digno de estudo digo-vos eu. Mas como também não tenho tempo para isso deixei a biodiversidade em "águas de bacalhau".

De qualquer maneira, há mais a dizer acerca deste upgrade de pocilga ao qual ainda chamo casa. A casa de banho, por exemplo, nem está muito mal.

Para uma casa de banho pública.

Se considerarmos os critérios dos sanitários dos centros de dia ou das estações de comboios, esta até dá gosto.

Ou então não e é repugnante como as outras... Mas não vou entrar em pormenores para não chocar ninguém e não provocar aquele movimento do esófago que "diz que vomita e depois não vomita". Enfim, isto por aqui está agreste.

O volume de roupa suja excede agora em muito o volume de roupa limpa. Não há tempo para meter na máquina e, além do mais, tem estado de chuva. Portanto, tenho agora um cesto a transbordar e ainda um saco cheio em cima, a fazer peso para que a tampa feche minimamente, que não me deixa mentir. E escusado será dizer que estes dois elementos acentuam ainda mais o clima de "barracaria" que domina este domicílio. É de fugir.

Aliás, hoje calcei o último par de peúgas da gaveta. Umas brancas da nike, para jogar à bola. Em situações normais não as usaria hoje mas não me restou outra opção. As cuecas também estão a acabar-se e se não tratar da roupa o quanto antes parece-me que vou ter de optar por um estilo de vida mais "à larga". Espero do fundo do coração que não chegue a tanto.

Feito um balanço final, aquilo que me dá algum alento é que TODA esta situação não é senão temporária. Daqui a pouco tempo já estarei numa casa mais bonita, com mais luz, mais arrumos, mais espaço... e mais área para distribuir a porcaria que mais tarde ou mais cedo se gera! Dar-me-á muita alegria.

E mesmo que tenha de lidar com isto por agora, convém manter o bom humor.

Sorrir sempre.

Não desesperar com a falta de tempo.

Ser optimista e, sobretudo...

... comprar mais biscoitos para gato.

6 comments:

Peres said...

Genial descrição da tua casa (ainda que não tenha reparado em nada, apenas naquele quadro espectacular da sala,lol). Para mim a piéce de resistance é mesmo o parzinho de meias Nike! Agora é andares com sandálias, calções de futebol, uma camisola da Argentina, colar de ouro e um palito para uma eventual fuga alimentar da normal escovagem dos dentes ^^

Pena Frenética said...

F******-se. Vou continuar a rebolar-me no chão com os teus textos. Vale sempre a pena continuares a não arrumares a 'barraca' e roubares esse tempo para descrever. Visual, como sempre.

André Oliveira said...

Miguel, espero que valorizes os meus truques de ilusionista na noite de 6ª, pois acredito que pouco disto te saltou ao olhar. Um dos segredos está na luz que deve ser sempre muito ténue... Aprende que eu não duro sempre. eheheheheh

André Oliveira said...

Pois, amigo... se eu tivesse aplicado o tempo que estive a escrever isto a... tipo... LIMPAR A CASA, talvez não tivesse tanto com que me queixar! :D

Pedro Carvalho said...

E eu que tinha penssado pedir pa ficar em tua casa quando fui até Amadora, DO QUE ME SAFEI - POOOOORRRAAA!!!

André Oliveira said...

MALDITO!!! O que tu não sabes é que tinha comprado montes de material de limpeza a contar contigo e com a Carla. Mas o plano saiu furado... AHRG!