Saturday, April 9, 2011

Eu por cá

Enquanto escrevo estas linhas o meu amor está provavelmente a passar momentos inolvidáveis de diversão infantil na Eurodisney...

Sim, aquela que fica em Paris de França.
Na empresa onde ela trabalha acharam que era boa ideia comemorar o aniversário levando toda a gente para lá... E, até aí, estou plenamente de acordo. Acho que é de valor.

Só que às vezes bate aquela saudade...
Parece que foi ontem que a senti partir de madrugada para esse pássaro alado com penugem de metal a quem as pessoas civilizadas chamam de avião. E sim, parabéns àqueles que detectaram a piada fácil, foi mesmo ontem.

No meu coração parece que foi há mais tempo, tal é o sentimento que nutro por esta mulher.
Em momentos como este apetece-me encher o peito de ar, correr como doido até à janela aqui de casa, abri-la com um empurrão animalesco e gritar a plenos pulmões:

- O QUE É QUE EU COMO?!

...

...

É, que... E, por favor, não me interpretem mal que eu não sou nada machista... Sou é muito pouco hábil no que diz respeito à nobre arte da culinária. É certo que já fui mais esforçado no passado, não vou negar isso, mas a minha tendência natural para a trapalhice numa actividade que incide num sentido tão picuinhas como o paladar, esta minha coordenação motora digna de um cabeçudo do Carnaval de Torres revela-se um verdadeiro desastre. Relembro com algum saudosismo os telefonemas que fazia à minha avó na busca abnegada por receitas, dicas, qualquer coisa que me fizesse mostrar a porra de um lado sensível à minha mulher e assim convencê-la a ficar comigo!!!

Mas as coisas nem sempre corriam bem... Aliás, raramente...
Uma das vezes, a minha querida avó ensinou-me via telefone a fazer bifes marinados em vinho tinto. E eu, bruto que nem uma bigorna de vinte toneladas, lá fui à garrafeira de casa dos meus pais e fiz tal e qual ela me tinha instruído. Apenas na altura em que a minha cara-metade se queixou que os bifes tinham um sabor estranho eu comecei a desconfiar de que algo de errado se passava com eles.

Na verdade, não tinham um sabor nada estranho... Se esse sabor pertencesse a um torrão de Alicante encharcado em caramelo!

Estavam doces como tudo.
E o mistério foi rapidamente solucionado quando percebi que não tinha sido com vinho que tinha marinado o raio dos bifes... mas sim com jeropiga.

O resultado não é tão brilhante quanto possam pensar...

Mas sem querer assumir o erro, forcei-nos a acabar a refeição dizendo que era exactamente aquilo que queria fazer e que o sabor agridoce dos bifes (mais doce do que agri é certo) era fruto de uma receita exótica que eu tinha querido experimentar.

Graças a Deus que havia guronsan disponível na caixa dos medicamentos porque as horas que se seguiram foram tudo menos agradáveis...

A partir daí tanto eu como ela percebemos que há tarefas para as quais definitivamente não sou talhado. Ela é dotada de um talento mais do que razoável para a cozinha. Eu sou excepcionalmente bom a espojar-me no sofá e a jogar playstation. Não são tarefas fáceis mas alguém tem de as fazer.

Por essas e por outras ela faz-me falta.
Mas não deixo de me sentir contente por saber que se está a divertir. Isto embora eu também não esteja nada mal servido aqui em Paço de Arcos...

A Eurodisney tem um rato.
E eu só cá em casa tenho uma gata e uma coelha.
Portanto, em bichezas de orelhas proeminentes já estou a ganhar.

Lá, têm o Pato Donald.
E aqui à volta há pombaria que nunca mais acaba.
Não se vestem à marinheiro mas cagam os prédios como se fizessem parte das tropas especiais. Também aí está ela por ela.

Finalmente, parece que também há por lá a montanha russa do Indiana Jones.
E eu aqui perto tenho o SATU do Oeiras Parque.
Pronto, aí tenho de dar o braço a torcer... Adrenalina é coisa que não abunda naquela carruagem. Mas ao menos vou mais à larga porque aquilo está sempre vazio. Por isso acaba por compensar.

Enfim, ela por lá e eu por cá com todas as minhas limitações.
Limitações essas que não são assim tantas... É importante deixar aqui bem explícito que não preciso da ajuda de ninguém para me vestir ou para tomar banho. Isto embora há quem diga que não me fazia falta nenhuma uma mãozinha na hora de escolher os trapos que ostento no corpo, no dia-a-dia, dada a combinação de cores e de tecidos. O que para mim é avant-garde para os outros é apenas bizarro. Eu bem tento explicar que todos os grandes génios sofreram no seu tempo e que se calhar as gerações vindouras ainda hão-de dar-me razão mas nem eu próprio acredito muito nisso... É apenas algo que digo.

No fundo, e a ausência da minha mulher faz-me compreender isso, sou como um porquinho-da-índia que não deve ser deixado sozinho sem ração na tigela nem água no bebedouro. Portanto, se algo me acontecer entretanto, se começar a ficar com o pêlo pouco sedoso ou com os incisivos a lascar a culpa é dela e só dela!

Pelo sim pelo não, vou dedicar o dia de amanhã a roer-lhe os objectos de uso pessoal.

Aposto que tão cedo não repete a gracinha...

2 comments:

Tiago Costa Rebelo said...

Amigo, se para a semana ainda estiveres apenas na companhia da coelha e da gata.. ou se ambas ainda existirem e não tiverem sido "devoradas", 'bora jantar? A um restaurante claro.. assim não tens de te preocupar, por um dia, com cozinha! eheheh
Abraço

Led said...

"É importante deixar aqui bem explícito que não preciso da ajuda de ninguém para me vestir ou para tomar banho."

Ahé? Mas para cortar as unhas já precisas de ajuda, pelos vistos?
Calão. Nem que me pagasses. :P