Isto, tal qual.
E nem vou alongar-me muito sobre o assunto porque há milhões de espertinhos que estão a fazê-lo por mim neste preciso momento. O verdadeiro fim do mundo é haver tantas piadas idiotas sobre o fim do mundo, quando bastava que soasse um trovão de repente para que todos os comediantes de ocasião se desfizessem em diarreia pelas pernas abaixo. Aos esguichos como a erupção do Vesúvio!
Pá, se acabar acabou!
A pergunta que temos de colocar a nós próprios é se um mundo que cuspiu cá para fora Big Show SIC's, Casas dos Segredos e Manhãs da Júlia merece algum tipo de pesar ou de consideração. A verdade é que se os Maias anunciaram o juízo final para agora e não olharam para o lado a tempo de topar os espanhóis que se preparavam para os sachar à marretada, então há algo de muito mal contado aqui. Seriam videntes míopes e só conseguiam prever o futuro ao longe? Ou uma civilização que se entretinha a decapitar atletas que não enfiavam bolas em aros de pedra com a ajuda do cotovelo tinha de facto um parafuso a menos? Enfim, muitas questões, muitas piadinhas, mas nenhuma resposta do país por excelência da marijuana.
Assim sendo, e de volta às questões fulcrais da actualidade, hoje de manhã quase que desejei que o mundo acabasse realmente por uma ordem de razões. E, curiosamente, todas elas relacionadas com a minha ida ao ginásio.
Ora, o espaço de treino que eu agora frequento tem uma porta automática que se abre através da digitação de um código pessoal. Esse número é-nos fornecido através de um registo online e do preenchimento de uma ficha com os nossos dados e a nossa foto. Eu, por alguma razão idiota certamente associada às várias quedas de cornamenta ao chão na infância e ao uso excessivo de chinelos de dedo, decidi colocar não a foto da minha pessoa mas sim uma outra de Arnold Schwarzenegger nos tempos do bodybuilding.
...
Apenas porque sou estúpido. Não há mais nenhuma razão que o fundamente.
Isto até não seria grave se toda a santa vez que eu digitasse o código para entrar, a foto não aparecesse em formato GIGANTE num ecrã por cima da porta.
Agora, podem perguntar-me porque é que eu, tendo uma réstia de dignidade e noção do ridículo, não alterei a imagem no site e fiquei descansadinho... Vá lá, perguntem...
Epá, porque não deu.
Eu tentei, mas não deu.
Fiz upload de várias fotos, várias vezes diferentes e com diversos browsers, mas à entrada quem apareceu desde o dia 1 foi sempre o bom e velho Arnold a alancar com um haltere de cento e vinte quilos e a bufar estilo boi-cavalo.
Com o passar do tempo, decidi aceitar.
Normalmente, quando a vida me dá limões eu pergunto "P'ra que é que eu quero esta merda?!" mas desta vez chupei o raio dos citrinos. Muito, MUITO, a contragosto.
Passei a entrar sempre à socapa, esquivo como o Vale e Azevedo num dia de renda, para que ninguém percebesse o pateta que efectivamente sou. E sempre tive sucesso...
Até este malfadado dia 21...
O segurança que costuma estar junto às salas de treino a topar o rabo das gajas (afinal de contas é para isso que lhe pagam), hoje, talvez por ser o fim do mundo e estar demasiado deprimido para apreciar bom nalguedo, preferiu estar junto às portas num local privilegiado face ao ecrã. Avistando-o antecipadamente e sabendo que me dirigia para a minha perdição, agi com a máxima naturalidade que o meu tónus muscular permitiu, digitei o código e esperei que o Arnold surgisse e pusesse a nu todo o meu sentido de humor primário e demente. Era como uma prova de fé e confiança que Deus colocara diante de mim. Embora, por esta altura eu já devesse saber que Deus só me quer como palhaço. Atirar-me-ia de bom grado meia dúzia de tartes de natas à cara todos os dias, se isso não fosse tão show off.
Bom, talvez por perceber que não tinha escapatória possível, resolvi quebrar o gelo e olhar o segurança nos olhos enquanto sorria nervosamente.
Cheguei mesmo a soltar uma gargalhada surda que se materializou em som sob a bizarra forma de "GRGL..." Uma interjeição imperceptível que acabou por ilustrar o desconforto do momento.
...
GRGL..
...
O segurança topou o Arnold no monitor.
...
GRGL...
...
Devolveu-me o olhar.
...
GRGL...
...
E NÃO ESBOÇOU QUALQUER EXPRESSÃO NAQUELA P**A DAQUELA CARA!
...
Por mim o mundo podia muito bem acabar ali.
Enquanto eu gorgolejava ridiculamente diante da porta automática podia sem problemas apanhar com um meterorito na testa ou com um tsunami pelas costas abaixo. Detestaria saber que a minha última palavra se reduzira ao som "GRGL" mas, que se lixe, também não ficaria cá ninguém para se lembrar dela e ceder à tentação de a enfiar num livro reles de citações ou de a escrever na minha lápide.
AQUI JAZ SAGUIM
1982 - 2012
"GRGL"
Enfim, merda p'ra isto tudo.
Segui para os balneários com a moral a arrastar pelo chão e nenhuma vontade de ir p'rá passadeira.
Entrei no recinto e quando comecei a tirar as coisas do saco apercebi-me que tinha voltado a esquecer-me de uma muda de roupa interior para vestir depois do banho.
Cansaço...
Se fosse a primeira vez até se percebia.
Mas por esta altura já deve ser a quarta.
E isso é estúpido.
Não que seja horrível de todo adoptar o estilo freestyle. Mas há uma lista exaustiva de coisas que ainda assim prefiro fazer e que incluem espetar agulhas nos olhos ou comer vidro... Vamos ser francos: é desagradável!
Eu já guardo um par de meias extra no meu local de trabalho, a contar com estes meus lapsos cerebrais. Só lamento não ter tido a mesma ideia para as chamadas boxers, pois também me fazem muita falta.
Enfim, talvez imbuído pela humilhação da entrada ou pelo desalento de ter de passar o dia "à larga", vi-me absolutamente desesperado por uma outra situação que tenho guardado em silêncio até ao dia de hoje e que não dá mais para ocultar.
Estou muito satisfeito com aquele ginásio, não digo que não (e quem me conhece e quem leu posts anteriores sabe que isso não é muito fácil de conseguir). Porém...
Aquele espaço...
Possui...
Sem sombra de dúvida...
A PIOR SELECÇÃO MUSICAL DA HISTÓRIA DOS GINÁSIOS!
É que é uma xinfrineira infernal de batuques, guinchos e auto-tunes capazes de sorver o QI de um indivíduo décima a décima (pelo menos a avaliar por quem por lá anda e parece apreciar o som). As mais tinhosas rameiras da indústria musical em todo o seu esplendor, invadindo os meus tímpanos sem dó nem piedade todas as manhãs que vou treinar. Tenebroso!
Normalmente, encaixo o suplício com coragem e paciência mas hoje, quebradiço emocionalmente como estava, fiquei uma vez mais a desejar que o tal planeta Nibiru (ou lá como se chama aquela merda) se viesse espetar naquele subwoofer como um campeão.
Tão horrível, tão insuportável, que preferia ouvir os balidos agoniantes de um CABRITO VIVO A GUISAR! E eu sou um tipo que gosta de animais.
Enfim, soltei a minha lágrima.
Treinei como um senhor.
Abandonei o ginásio sem encarar o segurança.
E passei o resto do dia com comichões na virilha.
'Tou-me a cagar p'ró fim do mundo dos índios porque eles nunca souberam o que era sofrimento a sério. Não tivesse eu de passar esporadicamente por experiências destas e também me armava em exótico a talhar pedregulhos p'ra deixar em broa os papalvos do ano 3000.
Amanhã é outro dia...
E é isso que me mete medo!
Friday, December 21, 2012
Monday, December 3, 2012
Âncora anti-depressão
Tirando o Benfica, não sou conhecido por fazer parte de muitos clubes...
E mesmo nesse estou apenas na condição de adepto, que eu tenho coisas mais importantes em que gastar o dinheiro do que nos ordenados milionários de malta sul americana. Quer dizer, não precisa de ser sul americana. Coisa boa do Benfica é que há gente de todo o lado... Menos de cá.
O que, a avaliar pelos últimos anos, nem é assim tão mau.
Não tenho nada contra eles, atenção. Vibro com os seus golos, com as fintas, com cada jogada... Admito que não há ninguém que represente melhor o Benfica e Portugal do que os argentinos, mas a verdade é que tenho uma casa para pagar. E se falhar um mês duvido que o Sálvio dê um saltinho ao Totta para interceder a meu favor. Portanto, deixo-me estar sem quotas nem lugares cativos.
Hoje em dia, tenho GRANDES restrições em relação aos clubes em que me inscrevo. Principalmente, porque não tenho dinheiro p'ra abandalhar.
Quando era miúdo, o importante era receber correspondência e acumular cartões de sócio na carteira. O que para alguns não era senão lixo, para mim era símbolo de status e aquilo que me afastava da mediocridade de não pertencer a nada. Graças a este frenesim todo, ao longo dos tempos, associei-me a grupos tão determinantes na história do mundo e do preenchimento inútil de papel como o Super Clube dos Ases (já não me lembro bem mas julgo que tinha a ver com cereais), o Clube dos Amigos do Basquetebol (desporto ao qual nunca liguei pevas) ou o Clube dos Amigos da Raça Bulldog (sim, eles existem)... Ainda tenho os cartõezinhos todos guardados e talvez escreva sobre isto um dia (porque há mais... muito mais), mas de momento não é sobre este assunto que me apetece reflectir.
Recentemente entrei para um novo clube, muito a contragosto diga-se. O clube dos 30.
E antes de mais, já sei que o cliché agora é dizer que os 30 são os novos 20 mas esta máxima levanta-me questões. Se estamos todos a levar com talhadas de 10 anos em cima então a verdade é que os 20 são os novos 10 e o assunto "pedofilia" assume uma dimensão completamente nova. A maioridade deverá então passar para os 28 e quem tem menos de 10 anos, aos olhos da modernidade, não existe. Tudo isto é bastante confuso (à luz da filosofia e da própria estupidez), provoca-me dor de cabeça e acentua-me o reumatismo... O que não me surpreende porque sou agora oficialmente "uma pessoa de idade".
A tentar lidar com a entrada neste clube a que não fazia questão de pertencer, tentei identificar âncoras que me permitissem assumir a mudança de uma forma menos brusca. Sei perfeitamente que em pouco menos de cinco meses passarei a fazer-me acompanhar por aquelas caixinhas de comprimidos que têm compartimentos para cada dia da semana, mas ainda assim algo me diz que eu não estou a ficar velho... Eu já sou velho há muito tempo.
A condução, por exemplo. É essa a minha âncora principal.
Eu sempre conduzi como um velhote e não é agora aos 30 que vou passar a fazê-lo de maneira diferente.
Os velhos, como é sabido, conduzem mal. E não olham para trás quando fazem marcha atrás (o que é estranho porque o próprio nome dá uma dica do que deveriam fazer). Isto pode ser confundido com desnorte ou senilidade mas a verdade é que é uma escolha perfeitamente consciente. Eles não olham porque acham que já olharam muito ao longo dos anos, conquistaram o direito de não olhar. Os outros, que são novos, que se cheguem à frente e olhem agora para não acabarem com um pára-choques encalacrado na dentição. Depois, quando forem velhos podem fazer o mesmo que ninguém os poderá condenar. O raciocínio é mais ou menos este.
Se um velho quer andar numa autoestrada em contramão está, pensam eles, no seu pleno direito.
Se quiser passar a ferro os dedos dos pés de uma mulher de meia idade que atravessa a passadeira, é porque ainda pode fazê-lo. E, por um lado, ainda bem. A sociedade não quer que sejam activos?
Entre as várias actividades, conta-se o bingo, a bisca no jardim, a alimentação de pombaria e o desrespeito total e absoluto pelas regras de trânsito. A escolha já só depende do bom senso de cada um.
A sociedade colhe aquilo que planta.
E como, bem vistas as coisas, qualquer pena para um velho pode vir a ser prisão perpétua... A maior parte das vezes, dá-se um desconto e esquece-se o assunto.
Uma vez vi eu, ninguém me contou...
Estava à porta de casa de manhãzinha, à espera de uma boleia.
Sai um velhote de muletas do prédio ao lado.
...
De muletas, muito vagaroso.
Em direcção a um carro que estava estacionado completamente em cima do passeio.
Sem vergonha nenhuma, o velho.
À patrão.
...
Vagaroso.
Com as muletas.
Em direcção ao carro.
...
...
...
Entrou finalmente na viatura.
Sempre vagaroso.
Já com as muletas pousadas no lugar do passageiro.
Pôs o carro a funcionar.
Deixou o motor aquecer.
...
Meteu a marcha atrás e...
...
...
PAAAAAAMMMMMM!!!
...
REBENTOU A TRASEIRA NUM POSTE DE ILUMINAÇÃO.
...
Isto comigo a ver, incrédulo e de mãos na cabeça, a poucos metros do sucedido.
...
O poste de iluminação a abanar.
A passarada a voar descontrolada em múltiplas direcções.
Algumas pessoas a assomarem às janelas, assustadas com o estrondo.
Mas agora, digam-me vocês...
O velho foi avaliar os estragos para accionar o seguro?
O velho foi ver se danificou permanentemente o poste (coisa que fez com toda a certeza) para notificar a Junta de Freguesia?
O velho maldisse a sua distracção e prometeu não voltar a agir assim?
Nada disso, meteu a primeira e, sem virar a cabeça, saiu dali mais depressa do que leva a dizer "destruição da via pública".
Ora, entre mim e este indivíduo há, agora e sempre, muito poucas diferenças.
Isto ao volante, claro. De resto, penso que a superioridade ainda está do meu lado, seja numa competição de braço de ferro ou numa feroz disputa de sapateado (não que eu saiba fazê-lo, ou outra qualquer dança seja ela qual for, mas consigo aguentar-me em pé e ele sempre precisa das muletas), só para dar dois exemplos.
Nunca tive muito jeito para a condução nem nunca tive especial apreço por automóveis.
Bem sei que o másculo e o viril seria o contrário mas tenho dificuldade em entender os tipos que tiram prazer em encerar o carro, em tratar-lhe dos estofos ou em mexer-lhes nas tubagens e engenhos. No dia em que eu passasse a fazer isto julgo que ficaria com pena dos outros electrodomésticos que possuo... E em pouco tempo estaria a puxar o brilho à máquina de secar, a mudar os plásticos ao exaustor ou a rebaixar a torradeira. Para mim, todas são máquinas e todas são iguais aos olhos de Deus. Amén.
Conduzo diariamente por uma questão de necessidade e, apesar de tudo, estou bem melhor hoje de que há alguns anos atrás. Mas, ainda assim, ao nível do pessoal idoso.
As coisas começaram tremidas ainda aos 17, durante as aulas de condução.
Praticamente todas as recordações que tenho são em Chelas com o instrutor a berrar-me na cara. Tanto que me chego a questionar se realmente eram aulas de condução ou se não terei estado umas quantas vezes envolvido em sequestros e assaltos à mão armada...
No exame propriamente dito, vi o examinador calcar o travão com toda a força que a sua santa mãezinha lhe dera um dia, segundos antes de eu empurrar o automóvel para debaixo de um autocarro.
Ele, eu e as pessoas atrás, brancos como o cal.
O autocarro a passar.
O condutor do mesmo a olhar para nós, também ele branco como o cal.
O examinador a limpar o suor da testa com um lenço de pano e a dizer, ainda ofegante:
- Encoste aí o carro e passe p'ra trás antes que a gente morra p'raqui todos...
Portanto, chumbei no primeiro exame, não é?
Mas passei no segundo e, desde aí, tenho vindo a praticar a má condução um pouco por todo o país. Uma âncora que me permite aceitar isto dos 30 de uma forma muito mais leve e natural...
É comum vermos velhotes dizerem "A malta nova não quer pegar nisto" sobre esta ou aquela tradição. Mas neste caso concreto, faço questão de fazer-lhes justiça e de imitá-los no que fazem pior, desde tenra idade.
Posso já não pertencer ao clube da "malta nova".
Mas ainda bem, porque um clube onde se ouve LMFAO ou o "Gangnam Style" é um clube parvo.
E os tempos do Super Clube dos Ases já lá vão...
E mesmo nesse estou apenas na condição de adepto, que eu tenho coisas mais importantes em que gastar o dinheiro do que nos ordenados milionários de malta sul americana. Quer dizer, não precisa de ser sul americana. Coisa boa do Benfica é que há gente de todo o lado... Menos de cá.
O que, a avaliar pelos últimos anos, nem é assim tão mau.
Não tenho nada contra eles, atenção. Vibro com os seus golos, com as fintas, com cada jogada... Admito que não há ninguém que represente melhor o Benfica e Portugal do que os argentinos, mas a verdade é que tenho uma casa para pagar. E se falhar um mês duvido que o Sálvio dê um saltinho ao Totta para interceder a meu favor. Portanto, deixo-me estar sem quotas nem lugares cativos.
Hoje em dia, tenho GRANDES restrições em relação aos clubes em que me inscrevo. Principalmente, porque não tenho dinheiro p'ra abandalhar.
Quando era miúdo, o importante era receber correspondência e acumular cartões de sócio na carteira. O que para alguns não era senão lixo, para mim era símbolo de status e aquilo que me afastava da mediocridade de não pertencer a nada. Graças a este frenesim todo, ao longo dos tempos, associei-me a grupos tão determinantes na história do mundo e do preenchimento inútil de papel como o Super Clube dos Ases (já não me lembro bem mas julgo que tinha a ver com cereais), o Clube dos Amigos do Basquetebol (desporto ao qual nunca liguei pevas) ou o Clube dos Amigos da Raça Bulldog (sim, eles existem)... Ainda tenho os cartõezinhos todos guardados e talvez escreva sobre isto um dia (porque há mais... muito mais), mas de momento não é sobre este assunto que me apetece reflectir.
Recentemente entrei para um novo clube, muito a contragosto diga-se. O clube dos 30.
E antes de mais, já sei que o cliché agora é dizer que os 30 são os novos 20 mas esta máxima levanta-me questões. Se estamos todos a levar com talhadas de 10 anos em cima então a verdade é que os 20 são os novos 10 e o assunto "pedofilia" assume uma dimensão completamente nova. A maioridade deverá então passar para os 28 e quem tem menos de 10 anos, aos olhos da modernidade, não existe. Tudo isto é bastante confuso (à luz da filosofia e da própria estupidez), provoca-me dor de cabeça e acentua-me o reumatismo... O que não me surpreende porque sou agora oficialmente "uma pessoa de idade".
A tentar lidar com a entrada neste clube a que não fazia questão de pertencer, tentei identificar âncoras que me permitissem assumir a mudança de uma forma menos brusca. Sei perfeitamente que em pouco menos de cinco meses passarei a fazer-me acompanhar por aquelas caixinhas de comprimidos que têm compartimentos para cada dia da semana, mas ainda assim algo me diz que eu não estou a ficar velho... Eu já sou velho há muito tempo.
A condução, por exemplo. É essa a minha âncora principal.
Eu sempre conduzi como um velhote e não é agora aos 30 que vou passar a fazê-lo de maneira diferente.
Os velhos, como é sabido, conduzem mal. E não olham para trás quando fazem marcha atrás (o que é estranho porque o próprio nome dá uma dica do que deveriam fazer). Isto pode ser confundido com desnorte ou senilidade mas a verdade é que é uma escolha perfeitamente consciente. Eles não olham porque acham que já olharam muito ao longo dos anos, conquistaram o direito de não olhar. Os outros, que são novos, que se cheguem à frente e olhem agora para não acabarem com um pára-choques encalacrado na dentição. Depois, quando forem velhos podem fazer o mesmo que ninguém os poderá condenar. O raciocínio é mais ou menos este.
Se um velho quer andar numa autoestrada em contramão está, pensam eles, no seu pleno direito.
Se quiser passar a ferro os dedos dos pés de uma mulher de meia idade que atravessa a passadeira, é porque ainda pode fazê-lo. E, por um lado, ainda bem. A sociedade não quer que sejam activos?
Entre as várias actividades, conta-se o bingo, a bisca no jardim, a alimentação de pombaria e o desrespeito total e absoluto pelas regras de trânsito. A escolha já só depende do bom senso de cada um.
A sociedade colhe aquilo que planta.
E como, bem vistas as coisas, qualquer pena para um velho pode vir a ser prisão perpétua... A maior parte das vezes, dá-se um desconto e esquece-se o assunto.
Uma vez vi eu, ninguém me contou...
Estava à porta de casa de manhãzinha, à espera de uma boleia.
Sai um velhote de muletas do prédio ao lado.
...
De muletas, muito vagaroso.
Em direcção a um carro que estava estacionado completamente em cima do passeio.
Sem vergonha nenhuma, o velho.
À patrão.
...
Vagaroso.
Com as muletas.
Em direcção ao carro.
...
...
...
Entrou finalmente na viatura.
Sempre vagaroso.
Já com as muletas pousadas no lugar do passageiro.
Pôs o carro a funcionar.
Deixou o motor aquecer.
...
Meteu a marcha atrás e...
...
...
PAAAAAAMMMMMM!!!
...
REBENTOU A TRASEIRA NUM POSTE DE ILUMINAÇÃO.
...
Isto comigo a ver, incrédulo e de mãos na cabeça, a poucos metros do sucedido.
...
O poste de iluminação a abanar.
A passarada a voar descontrolada em múltiplas direcções.
Algumas pessoas a assomarem às janelas, assustadas com o estrondo.
Mas agora, digam-me vocês...
O velho foi avaliar os estragos para accionar o seguro?
O velho foi ver se danificou permanentemente o poste (coisa que fez com toda a certeza) para notificar a Junta de Freguesia?
O velho maldisse a sua distracção e prometeu não voltar a agir assim?
Nada disso, meteu a primeira e, sem virar a cabeça, saiu dali mais depressa do que leva a dizer "destruição da via pública".
Ora, entre mim e este indivíduo há, agora e sempre, muito poucas diferenças.
Isto ao volante, claro. De resto, penso que a superioridade ainda está do meu lado, seja numa competição de braço de ferro ou numa feroz disputa de sapateado (não que eu saiba fazê-lo, ou outra qualquer dança seja ela qual for, mas consigo aguentar-me em pé e ele sempre precisa das muletas), só para dar dois exemplos.
Nunca tive muito jeito para a condução nem nunca tive especial apreço por automóveis.
Bem sei que o másculo e o viril seria o contrário mas tenho dificuldade em entender os tipos que tiram prazer em encerar o carro, em tratar-lhe dos estofos ou em mexer-lhes nas tubagens e engenhos. No dia em que eu passasse a fazer isto julgo que ficaria com pena dos outros electrodomésticos que possuo... E em pouco tempo estaria a puxar o brilho à máquina de secar, a mudar os plásticos ao exaustor ou a rebaixar a torradeira. Para mim, todas são máquinas e todas são iguais aos olhos de Deus. Amén.
Conduzo diariamente por uma questão de necessidade e, apesar de tudo, estou bem melhor hoje de que há alguns anos atrás. Mas, ainda assim, ao nível do pessoal idoso.
As coisas começaram tremidas ainda aos 17, durante as aulas de condução.
Praticamente todas as recordações que tenho são em Chelas com o instrutor a berrar-me na cara. Tanto que me chego a questionar se realmente eram aulas de condução ou se não terei estado umas quantas vezes envolvido em sequestros e assaltos à mão armada...
No exame propriamente dito, vi o examinador calcar o travão com toda a força que a sua santa mãezinha lhe dera um dia, segundos antes de eu empurrar o automóvel para debaixo de um autocarro.
Ele, eu e as pessoas atrás, brancos como o cal.
O autocarro a passar.
O condutor do mesmo a olhar para nós, também ele branco como o cal.
O examinador a limpar o suor da testa com um lenço de pano e a dizer, ainda ofegante:
- Encoste aí o carro e passe p'ra trás antes que a gente morra p'raqui todos...
Portanto, chumbei no primeiro exame, não é?
Mas passei no segundo e, desde aí, tenho vindo a praticar a má condução um pouco por todo o país. Uma âncora que me permite aceitar isto dos 30 de uma forma muito mais leve e natural...
É comum vermos velhotes dizerem "A malta nova não quer pegar nisto" sobre esta ou aquela tradição. Mas neste caso concreto, faço questão de fazer-lhes justiça e de imitá-los no que fazem pior, desde tenra idade.
Posso já não pertencer ao clube da "malta nova".
Mas ainda bem, porque um clube onde se ouve LMFAO ou o "Gangnam Style" é um clube parvo.
E os tempos do Super Clube dos Ases já lá vão...
Friday, November 9, 2012
Triste, triste, triste
Ok, houve realmente uma coisa que não mencionei no meu último post, outra das razões pela qual sou capaz de estar mais magro... E começo assim o texto como se não tivesse havido interrupção nenhuma em relação ao anterior, como se acreditasse que todos tivessem estado duas ou três semanas em suspenso sem tirar os olhos do ecrã. A isto, meus amigos, chama-se confiança. Ou então é a estupidez do costume. Há-de ser uma das duas.
Ora bem, além de efectivamente não andar a comer "merda" (termo que usei para definir aquilo que não faz bem nenhum ao organismo e só serve para sossegar a gula) posso também adiantar que deixei de beber álcool.
Isto lido assim parece que não tem impacto nenhum... Mas podem crer que me foi particularmente difícil escrever estas palavras. Até porque escrever num teclado enquanto se chora copiosamente, equilibrando meia dúzia de kleenexes nas mãos é coisa para profissionais.
Deixei de beber álcool e isso é motivo de tristeza profunda para mim.
Mais triste do que um órfão a tremer de frio.
Mais triste do que um esquimó à paulada a uma foca bébé.
Mais triste do que o sonho do Jorge Gabriel em treinar o Sporting.
Mais triste do que Felix Baumgartner a atirar-se do espaço sem que ninguém o fosse tentar agarrar.
Triste, triste, triste.
E a razão que me levou a abandonar a pinga, para tornar tudo ainda mais revoltante, nem foi o raio da pança. Nem foi o peso. Foi porque o meu corpo insiste, desde os quatro anos, a sofrer de uma patologia típica "das gajas". Tenho enxaquecas crónicas desde tenra idade e percebi que bastam dois ou dezoito copos de vinho tinto para fazer disparar uma dor de cabeça mais depressa do que uma mulher da casa do Paco Bandeira.
Mas a verdade é que eu nem sequer bebia muito.
Nunca fui daqueles tipos que chegam a casa e vão preparar "um drink", vertendo generosas quantidades de whisky em copos largos (coisa muito vista em telenovelas, séries e filmes). Nunca percebi como é que aqueles indivíduos conseguiam depois ir jantar e estar com a família em condições... Se fosse eu a fazer isso, provavelmente não demoraria quinze minutos a ficar vermelhusco e a olhar fixamente para a minha mulher, encostado à ombreira da porta. Tenho a certeza de que em pouco tempo, ela passaria a dormir com um cutelo debaixo da almofada.
Também é comum vermos na TV aqueles homens de negócios que antes de assinar um contrato, enquanto discutem os detalhes, atiram baldes de "scotch" para a goela e largam baforadas de charuto no ar. Para vossa informação, eu já experimentei fazer isto e não acabou nada bem. Acreditem que para que os documentos não acabem a boiar em vomitado e estes homens não passem o resto da tarde de bruços no tapete do escritório de um deles, é preciso um poder de encaixe daqueles valentes.
A minha relação com o álcool nunca foi esta. Nem nada que se parecesse!
Beber para mim, com o passar dos anos, tornou-se algo social para ser partilhado com amigos, entre histórias divertidas e gargalhadas soltas. Se há coisa que a História nos ensinou é que um bom vinho desperta os sentidos e alimenta o espírito, e eu sempre gostei muito de História.
Assim como de vinho.
Tempos houve em que até tentei fazer um workshop para perceber um bocado mais. Mas os tipos não me abriram a porta e acabei por ficar na mesma (a título de curiosidade, o relato ficou aqui imortalizado).
Mas pronto, afinal esta abstinência até resulta: nunca mais tive enxaquecas a sério.
Isto é mais uma maneira grosseira e pouco criativa que o universo teve para me mostrar que não sou bem-vindo neste mundo cruel! Nada do que eu gosto pode ser feito. NADA!
Neste momento, eu que era a alma de qualquer festa ou jantar, tenho o espírito e o sentido de humor de um tijolo acabado de cozer. Isto e o parecer que o meu guarda-fatos é a secção de toldos do Leroy Merlin, torna a minha vida muito mais complicada de momento.
A total e completa ausência de álcool no meu organismo, aliada ao desaparecimento da sofreguidão, e porque não dizer ferocidade, no "ataque" à comida, fizeram com que já não constitua entretenimento para ninguém. Sou uma sombra daquilo que já fui... O álcool, é preciso dizê-lo, era o meu doping.
A minha sorte é que isto não é como no ciclismo e, ao jeito do Lance Armstrong, ninguém vai manchar o meu currículo ou tornar-me persona non grata do mundo dos petiscos e dos chiribitis. O que passou passou e quem viveu ficou com boas memórias.
Agora é começar do zero e reinventar-me, criar toda uma nova forma de estar, sem o inebriante efeito dos chamados "copos".
...
Tivesse eu lidado com isto mais cedo e o sacana do Baumgartner não tinha saltado sozinho.
Ora bem, além de efectivamente não andar a comer "merda" (termo que usei para definir aquilo que não faz bem nenhum ao organismo e só serve para sossegar a gula) posso também adiantar que deixei de beber álcool.
Isto lido assim parece que não tem impacto nenhum... Mas podem crer que me foi particularmente difícil escrever estas palavras. Até porque escrever num teclado enquanto se chora copiosamente, equilibrando meia dúzia de kleenexes nas mãos é coisa para profissionais.
Deixei de beber álcool e isso é motivo de tristeza profunda para mim.
Mais triste do que um órfão a tremer de frio.
Mais triste do que um esquimó à paulada a uma foca bébé.
Mais triste do que o sonho do Jorge Gabriel em treinar o Sporting.
Mais triste do que Felix Baumgartner a atirar-se do espaço sem que ninguém o fosse tentar agarrar.
Triste, triste, triste.
E a razão que me levou a abandonar a pinga, para tornar tudo ainda mais revoltante, nem foi o raio da pança. Nem foi o peso. Foi porque o meu corpo insiste, desde os quatro anos, a sofrer de uma patologia típica "das gajas". Tenho enxaquecas crónicas desde tenra idade e percebi que bastam dois ou dezoito copos de vinho tinto para fazer disparar uma dor de cabeça mais depressa do que uma mulher da casa do Paco Bandeira.
Mas a verdade é que eu nem sequer bebia muito.
Nunca fui daqueles tipos que chegam a casa e vão preparar "um drink", vertendo generosas quantidades de whisky em copos largos (coisa muito vista em telenovelas, séries e filmes). Nunca percebi como é que aqueles indivíduos conseguiam depois ir jantar e estar com a família em condições... Se fosse eu a fazer isso, provavelmente não demoraria quinze minutos a ficar vermelhusco e a olhar fixamente para a minha mulher, encostado à ombreira da porta. Tenho a certeza de que em pouco tempo, ela passaria a dormir com um cutelo debaixo da almofada.
Também é comum vermos na TV aqueles homens de negócios que antes de assinar um contrato, enquanto discutem os detalhes, atiram baldes de "scotch" para a goela e largam baforadas de charuto no ar. Para vossa informação, eu já experimentei fazer isto e não acabou nada bem. Acreditem que para que os documentos não acabem a boiar em vomitado e estes homens não passem o resto da tarde de bruços no tapete do escritório de um deles, é preciso um poder de encaixe daqueles valentes.
A minha relação com o álcool nunca foi esta. Nem nada que se parecesse!
Beber para mim, com o passar dos anos, tornou-se algo social para ser partilhado com amigos, entre histórias divertidas e gargalhadas soltas. Se há coisa que a História nos ensinou é que um bom vinho desperta os sentidos e alimenta o espírito, e eu sempre gostei muito de História.
Assim como de vinho.
Tempos houve em que até tentei fazer um workshop para perceber um bocado mais. Mas os tipos não me abriram a porta e acabei por ficar na mesma (a título de curiosidade, o relato ficou aqui imortalizado).
Mas pronto, afinal esta abstinência até resulta: nunca mais tive enxaquecas a sério.
Isto é mais uma maneira grosseira e pouco criativa que o universo teve para me mostrar que não sou bem-vindo neste mundo cruel! Nada do que eu gosto pode ser feito. NADA!
Neste momento, eu que era a alma de qualquer festa ou jantar, tenho o espírito e o sentido de humor de um tijolo acabado de cozer. Isto e o parecer que o meu guarda-fatos é a secção de toldos do Leroy Merlin, torna a minha vida muito mais complicada de momento.
A total e completa ausência de álcool no meu organismo, aliada ao desaparecimento da sofreguidão, e porque não dizer ferocidade, no "ataque" à comida, fizeram com que já não constitua entretenimento para ninguém. Sou uma sombra daquilo que já fui... O álcool, é preciso dizê-lo, era o meu doping.
A minha sorte é que isto não é como no ciclismo e, ao jeito do Lance Armstrong, ninguém vai manchar o meu currículo ou tornar-me persona non grata do mundo dos petiscos e dos chiribitis. O que passou passou e quem viveu ficou com boas memórias.
Agora é começar do zero e reinventar-me, criar toda uma nova forma de estar, sem o inebriante efeito dos chamados "copos".
...
Tivesse eu lidado com isto mais cedo e o sacana do Baumgartner não tinha saltado sozinho.
Thursday, October 18, 2012
De volta, mas pouco...
Ora bem, para aqueles que fantasiam sobre o que estive a fazer no último mês e meio, apontar muito rapidamente cinco tópicos:
- Fantasiar é p'ra meninas.
- Fantasiar sobre mim, além de ser p'ra meninas, é perturbador.
- Eu sei que disse que ia parar para fazer o livro.
- Mas fazer o livro demora tempo e a vida continua.
- Estou um bom bocado mais magro.
Pronto, posto isto, obrigado e boa tarde.
...
Ok, vamos lá elaborar um bocadinho mais...
Estou realmente a fazer o livro mas cheguei à conclusão que o saguim escreveu que se desunhou nos últimos anos. Portanto, há aqui trabalho para duas ou três oficinas de crianças vietnamitas durante meses e meses, para despachar no intervalo dos sapatos. E atenção que digo vietnamitas e não portuguesas porque as de cá nem emprego têm devido à falência das fábricas... Isto, como sabem, está mesmo muito mau.
Assim, enquanto o bicho está no forno a apurar, decidi ir escrevendo mais qualquer coisa para não perder o pouco jeito que tenho. Senão quando voltar a dedicar-me à palhaçada sou capaz de estar ao nível do sentido de humor de António Sala na altura das "Anedotas sem malícia" (manual esse que ainda nos dias de hoje assombra os meus pesadelos mais sombrios).
Depois do meu último post muita coisa se tem passado, o mundo e os seus tumultos ambientais e económicos não dá senão motivos de preocupação e debate, assunto não falta... Mas julgo que o mais importante acaba mesmo por ser eu estar mais magro. Significativamente mais magro.
E se eu escrevia textos a ridicularizar a minha compleição de paquiderme, agora é justo que faça a mesma coisa mas ao contrário. É que isto de ser magro (ou mais magro, vá) não é tão bonito ou glamoroso como o pintam. Uma das coisas aborrecidas com que tive de me deparar, e ainda hoje me deparo, é a cara de espanto das pessoas que encontro e que já não me viam há algum tempo. No lugar de esbarrarem com o mamute a que estavam habituadas vêm uma versão subnutrida desse mesmo mamute, o que dá lugar sempre ao mesmo leque de reacções. É comum entrarem num estado de grande admiração e surpresa, exclamando "Estás tão diferente! Tão magro! O que se passou? O que fizeste?" Ao que eu respondo sempre: "Estou doente e custa-me falar sobre o assunto..."
...
Desta forma, evito a situação embaraçosa de ter de descrever "a minha fórmula de dieta".
Afasto conversas indesejadas.
E também as próprias pessoas que se arrastam de lágrimas nos olhos, a pedir a amigos comuns o número de telemóvel dos meus pais para saberem mais detalhes e como ajudar.
Só isso me faz sorrir.
Mas pronto, estou mais magro e neste momento não tenho calças que me sirvam.
Dantes não tinha porque cheguei a um ponto em que dos dez pares que estavam no guarda-fatos só dois passavam com dificuldade a zona dos tornozelos.
Agora não tenho porque dos dez pares que possuo só dois não me ficam a bailar na anca como se fosse uma bailarina exótica.
Tenho de mandar apertar isto. E depois é bom que não volte ao mesmo porque não ganho p'rás costureiras.
Mas para aqueles que querem emagrecer e não sabem como, vou fazer um pouco de serviço público neste blogue e dar uma receita infalível.
Vão lá buscar um bloco de notas e uma caneta que eu espero...
...
Vá, que vale a pena.
...
Não precisa de ser um bloco, basta um papel.
...
Uma folhinha que seja...
...
Já está?
Então cá vai...
...
Ehpá, se vocês soubessem como isto é grande... eheheh
...
Bom, concentração...
...
Cá vai...
...
Estão prontos?
...
Isto é uma receita infalível daquelas que alteram o curso da história...
...
Ora bem...
...
Para emagrecer basta...
FAZER EXERCÍCIO.
NÃO COMER MERDA.
E é isto, basicamente.
Acaba por não haver grande mistério.
Se um tipo abdica das coisas que mais gosta (quem disser que é da família e dos amigos está a mentir porque no fundo todos sabemos que o que mais adoramos é cervejola, vinhaça, queijos e fritalhada até termos de amputar dedos por causa do ácido úrico), se é preciso abandonar tudo o que é bom... Efectivamente é! Porque a vida não presta. Só mesmo por isso.
E como se virar a cara a tudo o que é belo e saboroso neste mundo não chegasse é preciso correr, sofrer, suar como um beduíno ao sol e dedicar largas horas à nobre arte do masoquismo.
É triste mas é a mais pura verdade.
No final de tudo, contas feitas, não vale assim tanto a pena.
Ser magro é praticamente como ser gordo mas com menos risco de enfarte do miocárdio. O que até torna os dias mais emocionantes, diga-se.
No entanto, já que aqui cheguei acho que vou cá ficar mais um bocadinho. A ver as vistas e a apreciar ter menos quinze quilos no bandulho porque a cada passo na rua é coisa para fazer a sua diferença.
Bom, por esta altura o texto do saguim já se assemelha perigosamente a um artigo da revista Cosmopolitan... O melhor é dá-lo como terminado.
Prometo continuar a trabalhar no livro que prometi.
E pode ser que muitos de vocês ainda sejam vivos quando ele sair.
Haja saudinha... Eheh
- Fantasiar é p'ra meninas.
- Fantasiar sobre mim, além de ser p'ra meninas, é perturbador.
- Eu sei que disse que ia parar para fazer o livro.
- Mas fazer o livro demora tempo e a vida continua.
- Estou um bom bocado mais magro.
Pronto, posto isto, obrigado e boa tarde.
...
Ok, vamos lá elaborar um bocadinho mais...
Estou realmente a fazer o livro mas cheguei à conclusão que o saguim escreveu que se desunhou nos últimos anos. Portanto, há aqui trabalho para duas ou três oficinas de crianças vietnamitas durante meses e meses, para despachar no intervalo dos sapatos. E atenção que digo vietnamitas e não portuguesas porque as de cá nem emprego têm devido à falência das fábricas... Isto, como sabem, está mesmo muito mau.
Assim, enquanto o bicho está no forno a apurar, decidi ir escrevendo mais qualquer coisa para não perder o pouco jeito que tenho. Senão quando voltar a dedicar-me à palhaçada sou capaz de estar ao nível do sentido de humor de António Sala na altura das "Anedotas sem malícia" (manual esse que ainda nos dias de hoje assombra os meus pesadelos mais sombrios).
Depois do meu último post muita coisa se tem passado, o mundo e os seus tumultos ambientais e económicos não dá senão motivos de preocupação e debate, assunto não falta... Mas julgo que o mais importante acaba mesmo por ser eu estar mais magro. Significativamente mais magro.
E se eu escrevia textos a ridicularizar a minha compleição de paquiderme, agora é justo que faça a mesma coisa mas ao contrário. É que isto de ser magro (ou mais magro, vá) não é tão bonito ou glamoroso como o pintam. Uma das coisas aborrecidas com que tive de me deparar, e ainda hoje me deparo, é a cara de espanto das pessoas que encontro e que já não me viam há algum tempo. No lugar de esbarrarem com o mamute a que estavam habituadas vêm uma versão subnutrida desse mesmo mamute, o que dá lugar sempre ao mesmo leque de reacções. É comum entrarem num estado de grande admiração e surpresa, exclamando "Estás tão diferente! Tão magro! O que se passou? O que fizeste?" Ao que eu respondo sempre: "Estou doente e custa-me falar sobre o assunto..."
...
Desta forma, evito a situação embaraçosa de ter de descrever "a minha fórmula de dieta".
Afasto conversas indesejadas.
E também as próprias pessoas que se arrastam de lágrimas nos olhos, a pedir a amigos comuns o número de telemóvel dos meus pais para saberem mais detalhes e como ajudar.
Só isso me faz sorrir.
Mas pronto, estou mais magro e neste momento não tenho calças que me sirvam.
Dantes não tinha porque cheguei a um ponto em que dos dez pares que estavam no guarda-fatos só dois passavam com dificuldade a zona dos tornozelos.
Agora não tenho porque dos dez pares que possuo só dois não me ficam a bailar na anca como se fosse uma bailarina exótica.
Tenho de mandar apertar isto. E depois é bom que não volte ao mesmo porque não ganho p'rás costureiras.
Mas para aqueles que querem emagrecer e não sabem como, vou fazer um pouco de serviço público neste blogue e dar uma receita infalível.
Vão lá buscar um bloco de notas e uma caneta que eu espero...
...
Vá, que vale a pena.
...
Não precisa de ser um bloco, basta um papel.
...
Uma folhinha que seja...
...
Já está?
Então cá vai...
...
Ehpá, se vocês soubessem como isto é grande... eheheh
...
Bom, concentração...
...
Cá vai...
...
Estão prontos?
...
Isto é uma receita infalível daquelas que alteram o curso da história...
...
Ora bem...
...
Para emagrecer basta...
FAZER EXERCÍCIO.
NÃO COMER MERDA.
E é isto, basicamente.
Acaba por não haver grande mistério.
Se um tipo abdica das coisas que mais gosta (quem disser que é da família e dos amigos está a mentir porque no fundo todos sabemos que o que mais adoramos é cervejola, vinhaça, queijos e fritalhada até termos de amputar dedos por causa do ácido úrico), se é preciso abandonar tudo o que é bom... Efectivamente é! Porque a vida não presta. Só mesmo por isso.
E como se virar a cara a tudo o que é belo e saboroso neste mundo não chegasse é preciso correr, sofrer, suar como um beduíno ao sol e dedicar largas horas à nobre arte do masoquismo.
É triste mas é a mais pura verdade.
No final de tudo, contas feitas, não vale assim tanto a pena.
Ser magro é praticamente como ser gordo mas com menos risco de enfarte do miocárdio. O que até torna os dias mais emocionantes, diga-se.
No entanto, já que aqui cheguei acho que vou cá ficar mais um bocadinho. A ver as vistas e a apreciar ter menos quinze quilos no bandulho porque a cada passo na rua é coisa para fazer a sua diferença.
Bom, por esta altura o texto do saguim já se assemelha perigosamente a um artigo da revista Cosmopolitan... O melhor é dá-lo como terminado.
Prometo continuar a trabalhar no livro que prometi.
E pode ser que muitos de vocês ainda sejam vivos quando ele sair.
Haja saudinha... Eheh
Thursday, August 9, 2012
Fechado para publicação
Então o que se passa é o seguinte: já faço isto há uma série de anos e, ao longo do tempo, julgo que fui melhorando, encontrado os meus temas e sobretudo o meu tom. Continuo a escrever uns textos melhores e outros piores, como em tudo na vida, mas a verdade é que o trabalho se tornou consistente e, quer se goste ou não, uma alternativa de leitura de humor na net.
Criei a regra de só dizer a verdade (embora a mesma seja muitas vezes evidentemente exagerada) e é ela que me tem dado sempre assunto para escrever.
Há uns meses comecei a sondar editoras porque achei que tinha chegado a altura de publicar um best of em livro. No entanto, recebi muito poucas respostas e nenhuma favorável.
Assim sendo, e porque me recuso a recorrer a vanity presses (por causa de um assunto sobre o qual um dia ainda irei falar), decidi avançar para a autopublicação e começar a trabalhar no livro d'A Hora do Saguim.
O blog vai estar parado algum tempo, durante o qual criarei material novo em exclusivo para o livro, mas irei postando as novidades.
Penso que vai valer a pena. ;)
Monday, July 16, 2012
Raisparta os putos!
Malta nova.
Não aprecio.
E digo isto com plena e total consciência de que só tenho vinte e nove primaveras, atenção. O problema é que, ao mesmo tempo, sinto que já sou idoso há um ror de anos, como aqueles putos que mal nascem e já são sócios do Benfica. A verdade é que se tiver de escolher entre seniores e juniores normalmente não hesito: ponho um comprimido para a tensão debaixo da língua e visto a camisola da terceira idade mais depressa do que lhes leva a pegar no andarilho.
Nota-se muito que estive no Optimus Alive? Pois estive.
É épica e crónica a minha dificuldade em oferecer prendas à minha mulher. Nomeadamente ao nível da escolha. No passado escrevi sobre isso neste post e lamento imenso dizer que, para não variar, TODAS as idiotices que lá referi são a mais pura verdade. É verdade também que com o tempo comecei a prestar mais atenção às pequenas dicas que ela me dá, aos mais singelos pormenores nas conversas que me podem dar ideias de coisas para lhe oferecer nos anos e noutras ocasiões especiais. No Natal passado foram os bilhetes para o Alive. Como ela estava sempre a dizer que nunca tinha ido e gostava muito de ir, aqui o super-alarve foi logo fazer despesa e comprar bilhetes de três dias. Mesmo à lambão, de peito feito. Sem a mínima noção do que estava a fazer...
Com o passar dos meses, confesso que o cartaz não me seduziu por aí além. Mas, lá está, eu nesta história era apenas o acompanhante... O presente era dela e ela tinha melhor impressão do alinhamento do que eu.
Quando a data de início começou a aproximar-se percebi que três dias seguidos, a uma média de oito horas por dia, quase sempre em pé e em contacto directo com multidões era coisa para cansar um bocadinho... É que, nos dias que correm, não sou aquilo a que se pode chamar um "animal da noite". Quer dizer, não nego que não hajam semelhanças evidentes entre mim e uma coruja... Principalmente, de manhã quando acordo. O que quero dizer é que já não sou um tipo que aguente muito na chamada "night", a beber shots como um desgraçado ou a curtir até de manhã no Lux. Quando muito posso ir para a cama com a revista Lux e estar ali a folheá-la uns quinze minutos até começar a fechar os olhos. Mas enfim, acho que já estou a ser deprimente que chegue.
Portanto, sexta-feira passada lá estavamos nós a iniciar a odisseia.
Ao olhar novamente para o cartaz reparei que grande parte das bandas eram inglesas. E escusado será dizer que fiquei logo mal disposto e com vontade de me ir embora...
Numa altura em que o país está em crise, os nossos artistas estão praticamente ao abandono e existe uma necessidade evidente em realçar os valores nacionais e fomentar o orgulho lusitano, não haviam bandas americanas disponíveis?! Tivemos de importar tudo da Grã-Bretanha?! Acho mal.
Mas, feliz ou infelizmente, não foi só a música que veio das terras de sua majestade. Já que estavam com a mão na massa aproveitaram e trouxeram também uma catrefada de bêbados que isto nunca é demais contar com malta de qualidade. E atenção que eu há uns tempos atrás também era bêbado, por isso sei do que falo. Quer dizer, não era bem bêbado, às vezes bebia uns copos. E invariavelmente ficava alcoolizado, como qualquer jovem a experimentar novas sensações pela segunda, terceira ou vigésima nona vez. Mas pagar umas boas dezenas de euros para ver os concertos de rojo e de nariz enfiado no próprio vómito parece-me demasiado idiota para ser verdade. Mas já voltamos aos amantes da pinga...
No primeiro dia, para mim, não houve muito a assinalar. Reparei que aquilo estava à pinha com hipsters, o que dá sempre um interessante e patusco colorido a qualquer festival. Para citar uma conhecida marca de telecomunicações nacional: "há uma linha que separa" um hipster de um palhaço. E essa linha é, na maior parte das vezes, muito mas muito ténue. Basta colocar um bocado de pintura facial para se passar de um para outro (isto porque o nariz batatudo e vermelho uma boa parte deles já consegue depois de um ou dois martinis).
De resto, foi tudo um pouco morninho.
Houve coisas que gostei e outras que nem por isso, como em tudo na vida. O ponto mais baixo (porque tem sempre mais piada do que o ponto mais alto) foi mesmo o concerto abjecto de uma coisa que eu não entendo e que responde pelo nome impronunciável de LMFAO. Eu assisti a isto do princípio ao fim para tentar compreender se era eu que era burro ou se aquilo é mesmo ridículo. Admito que eu seja um bocadinho burro mas PORRA se aquilo é ridículo! Dá a ideia que as carrinhas com os adereços dos tipos foram roubadas e tiveram de ir comprar tudo à pressa ao chinês. Ele é calças coloridas, ele é bolas de praia, ele é bichos insufláveis, ele é um tipo deprimente com uma caixa na cabeça... Parece "Malucos do Riso" com anfetaminas e a malta adora. A malta nova, claro está.
Ao que parece os LMFAO são dois mas só lá estava um. Não sei se o LM (talvez a sigla de Luís Miguel, não posso garantir) se o FAO (aqui perco-me completamente). Mas em vez de dois idiotas de cabeleira afro em palco estava apenas um idiota de cabeleira afro... em palco. O circo instalou-se do princípio ao fim e, à minha frente, um puto que me parecia o seleccionador Paulo Bento se o mesmo fosse anão e deficiente da cara abanava-se vigorosamente agitando a cabeça para trás e para a frente como se a sua vida dependesse disso. Quando não estava a fazer a sua dança do pica-pau, o imberbe sorvia cigarros uns atrás dos outros, com uma sofreguidão abestalhada. A rapariga que estava atrás dele e que já tinha idade para ter juízo, apesar de aparentemente estar a apreciar aquele espectáculo insano, estava muito irritada com a atitude imatura e bruta do rapaz. Isto enquanto os elementos da "banda", apenas com tangas coloridas a separá-los da nudez total, abanavam a zona pélvica com uma brutalidade estonteante. Enfim, foi com este tipo de incongruências na mente, e com as primeiras dores nos pés e nas pernas que fui de comboio para casa...
Apenas para voltar no dia seguinte! Já menos fresco e enérgico do que no dia anterior.
No Sábado, e como gosto muito dos The Cure (uma banda que, lá está, não é propriamente de "malta nova"), plantei-me às sete e meia da tarde defronte do palco principal e só saí de lá por volta das três da manhã. Portanto, acho que não preciso de referir que, ao longo das horas, experimentei um tipo de sofrimento primitivo e profundo como nunca antes. Uma espécie de morte lenta e dolorosa que parecia querer arrastar-se para a eternidade. Isto enquanto ia batendo palmas no final das músicas para agitar as artérias e evitar o ataque cardíaco que parecia iminente.
Pontos negativos deste dia: lá está, o raio dos bêbados. Quando finalmente começou a banda que eu realmente queria ver, depois de ir furando aos poucos até à linha da frente, apareceu um que estava com ganas de beijar as pessoas à força. Pelo sim pelo não, cerrei logo o punho para lhe pregar um "xoxo" caso quisesse armar-se em esperto comigo. Felizmente não lhe deu para aí. Achou mais inteligente colocar-se à minha frente a atirar a cabeça em todas as direcções, na onda daqueles cãezinhos de cabeças baloiçantes que os bimbos têm nos carros mas caso o bicho estivesse no meio de um tufão. Comparado com aquilo a dança basculante do puto anão do dia anterior, era brincadeira de crianças. Eu a certa altura, e farto de me desviar das cabeçadas do bebedolas agarrei-o pelos ombros e gritei-lhe "TAKE IT EASY!" ao ouvido. Mas isso não impediu que o gajo continuasse a fazer merda e me impedisse de ver o concerto em condições.
A dada altura apareceu outro ainda mais bêbado do que o primeiro.
Mesmo quando eu achava que a situação não podia piorar.
Ficaram amigos instantaneamente e começaram a abraçar-se e a trocar juras de amizade eterna. Estava a acontecer um espectáculo dentro do próprio espectáculo e não quisesse eu naquela altura que ambos morressem afogados em gin, ficaria muito contente. Entretanto o primeiro bêbado, como que por milagre, acalmou com a presença do segundo. Isto foram as boas notícias. Mas o segundo bêbado ganhou ainda mais vigor através do contacto com o primeiro. Isto foram as más.
Tanto vigor que a dada altura tive de agarrá-lo pelos ombros e gritar-lhe "TAKE IT EASY!" ao ouvido. O tipo pediu-me desculpa e ofereceu-me um gole da garrafa dele. Eu pedi apenas que me deixasse ouvir a música em paz. Não contente com a minha recusa, o supremo embriagado ofereceu-se para me carregar em ombros. Queria que eu me sentasse nas suas costas para assistir ao espectáculo "no primeiro andar". Assim como quem oferece um cachimbo da paz. Eu podia ter-me aproveitado do estado ébrio dele para transformá-lo numa espécie de acordeão humano. Quem me conhece sabe que não sou propriamente um peso pluma... E que bastava assentar o traseiro no pescoço do camóne para ele passar a jantar por uma palhinha para o resto da vida. Mas enfim, decidi ser o "bigger man" e voltei a declinar a oferta, mantendo-me à espera que o coma alcoólico o pusesse fora de jogo.
Acerca dos The Cure dizer que o Robert Smith parece uma das bolas de cotão que apanho quando aspiro a sala mas que ainda assim está em boa forma. Digo musicalmente porque à primeira vista parece a madame Min. Por isso, acabou por valer a pena toda a sevícia física a que me sujeitei e o convívio próximo com jovens pinguços.
Enfim, fiquei tão destruído ao nível dos membros inferiores que no Domingo pouco aguentei. Deixei os Radiohead a tocar sozinhos e fui-me embora para o vale dos lençóis. De certeza que eles deram por isso e se calhar levaram a mal mas como quando me ponho a cantar no duche também não os vejo por perto acho que também é justo que provem do seu próprio remédio.
Além disso, fiquei com os índices de malta nova demasiado elevados no sangue.
As próximas semanas vão ser corridas a saladas para limpar isto. Saladas e uma hora de RTP Memória por dia para restaurar o equilíbrio aqui do campeão.
Não aprecio.
E digo isto com plena e total consciência de que só tenho vinte e nove primaveras, atenção. O problema é que, ao mesmo tempo, sinto que já sou idoso há um ror de anos, como aqueles putos que mal nascem e já são sócios do Benfica. A verdade é que se tiver de escolher entre seniores e juniores normalmente não hesito: ponho um comprimido para a tensão debaixo da língua e visto a camisola da terceira idade mais depressa do que lhes leva a pegar no andarilho.
Nota-se muito que estive no Optimus Alive? Pois estive.
É épica e crónica a minha dificuldade em oferecer prendas à minha mulher. Nomeadamente ao nível da escolha. No passado escrevi sobre isso neste post e lamento imenso dizer que, para não variar, TODAS as idiotices que lá referi são a mais pura verdade. É verdade também que com o tempo comecei a prestar mais atenção às pequenas dicas que ela me dá, aos mais singelos pormenores nas conversas que me podem dar ideias de coisas para lhe oferecer nos anos e noutras ocasiões especiais. No Natal passado foram os bilhetes para o Alive. Como ela estava sempre a dizer que nunca tinha ido e gostava muito de ir, aqui o super-alarve foi logo fazer despesa e comprar bilhetes de três dias. Mesmo à lambão, de peito feito. Sem a mínima noção do que estava a fazer...
Com o passar dos meses, confesso que o cartaz não me seduziu por aí além. Mas, lá está, eu nesta história era apenas o acompanhante... O presente era dela e ela tinha melhor impressão do alinhamento do que eu.
Quando a data de início começou a aproximar-se percebi que três dias seguidos, a uma média de oito horas por dia, quase sempre em pé e em contacto directo com multidões era coisa para cansar um bocadinho... É que, nos dias que correm, não sou aquilo a que se pode chamar um "animal da noite". Quer dizer, não nego que não hajam semelhanças evidentes entre mim e uma coruja... Principalmente, de manhã quando acordo. O que quero dizer é que já não sou um tipo que aguente muito na chamada "night", a beber shots como um desgraçado ou a curtir até de manhã no Lux. Quando muito posso ir para a cama com a revista Lux e estar ali a folheá-la uns quinze minutos até começar a fechar os olhos. Mas enfim, acho que já estou a ser deprimente que chegue.
Portanto, sexta-feira passada lá estavamos nós a iniciar a odisseia.
Ao olhar novamente para o cartaz reparei que grande parte das bandas eram inglesas. E escusado será dizer que fiquei logo mal disposto e com vontade de me ir embora...
Numa altura em que o país está em crise, os nossos artistas estão praticamente ao abandono e existe uma necessidade evidente em realçar os valores nacionais e fomentar o orgulho lusitano, não haviam bandas americanas disponíveis?! Tivemos de importar tudo da Grã-Bretanha?! Acho mal.
Mas, feliz ou infelizmente, não foi só a música que veio das terras de sua majestade. Já que estavam com a mão na massa aproveitaram e trouxeram também uma catrefada de bêbados que isto nunca é demais contar com malta de qualidade. E atenção que eu há uns tempos atrás também era bêbado, por isso sei do que falo. Quer dizer, não era bem bêbado, às vezes bebia uns copos. E invariavelmente ficava alcoolizado, como qualquer jovem a experimentar novas sensações pela segunda, terceira ou vigésima nona vez. Mas pagar umas boas dezenas de euros para ver os concertos de rojo e de nariz enfiado no próprio vómito parece-me demasiado idiota para ser verdade. Mas já voltamos aos amantes da pinga...
No primeiro dia, para mim, não houve muito a assinalar. Reparei que aquilo estava à pinha com hipsters, o que dá sempre um interessante e patusco colorido a qualquer festival. Para citar uma conhecida marca de telecomunicações nacional: "há uma linha que separa" um hipster de um palhaço. E essa linha é, na maior parte das vezes, muito mas muito ténue. Basta colocar um bocado de pintura facial para se passar de um para outro (isto porque o nariz batatudo e vermelho uma boa parte deles já consegue depois de um ou dois martinis).
De resto, foi tudo um pouco morninho.
Houve coisas que gostei e outras que nem por isso, como em tudo na vida. O ponto mais baixo (porque tem sempre mais piada do que o ponto mais alto) foi mesmo o concerto abjecto de uma coisa que eu não entendo e que responde pelo nome impronunciável de LMFAO. Eu assisti a isto do princípio ao fim para tentar compreender se era eu que era burro ou se aquilo é mesmo ridículo. Admito que eu seja um bocadinho burro mas PORRA se aquilo é ridículo! Dá a ideia que as carrinhas com os adereços dos tipos foram roubadas e tiveram de ir comprar tudo à pressa ao chinês. Ele é calças coloridas, ele é bolas de praia, ele é bichos insufláveis, ele é um tipo deprimente com uma caixa na cabeça... Parece "Malucos do Riso" com anfetaminas e a malta adora. A malta nova, claro está.
Ao que parece os LMFAO são dois mas só lá estava um. Não sei se o LM (talvez a sigla de Luís Miguel, não posso garantir) se o FAO (aqui perco-me completamente). Mas em vez de dois idiotas de cabeleira afro em palco estava apenas um idiota de cabeleira afro... em palco. O circo instalou-se do princípio ao fim e, à minha frente, um puto que me parecia o seleccionador Paulo Bento se o mesmo fosse anão e deficiente da cara abanava-se vigorosamente agitando a cabeça para trás e para a frente como se a sua vida dependesse disso. Quando não estava a fazer a sua dança do pica-pau, o imberbe sorvia cigarros uns atrás dos outros, com uma sofreguidão abestalhada. A rapariga que estava atrás dele e que já tinha idade para ter juízo, apesar de aparentemente estar a apreciar aquele espectáculo insano, estava muito irritada com a atitude imatura e bruta do rapaz. Isto enquanto os elementos da "banda", apenas com tangas coloridas a separá-los da nudez total, abanavam a zona pélvica com uma brutalidade estonteante. Enfim, foi com este tipo de incongruências na mente, e com as primeiras dores nos pés e nas pernas que fui de comboio para casa...
Apenas para voltar no dia seguinte! Já menos fresco e enérgico do que no dia anterior.
No Sábado, e como gosto muito dos The Cure (uma banda que, lá está, não é propriamente de "malta nova"), plantei-me às sete e meia da tarde defronte do palco principal e só saí de lá por volta das três da manhã. Portanto, acho que não preciso de referir que, ao longo das horas, experimentei um tipo de sofrimento primitivo e profundo como nunca antes. Uma espécie de morte lenta e dolorosa que parecia querer arrastar-se para a eternidade. Isto enquanto ia batendo palmas no final das músicas para agitar as artérias e evitar o ataque cardíaco que parecia iminente.
Pontos negativos deste dia: lá está, o raio dos bêbados. Quando finalmente começou a banda que eu realmente queria ver, depois de ir furando aos poucos até à linha da frente, apareceu um que estava com ganas de beijar as pessoas à força. Pelo sim pelo não, cerrei logo o punho para lhe pregar um "xoxo" caso quisesse armar-se em esperto comigo. Felizmente não lhe deu para aí. Achou mais inteligente colocar-se à minha frente a atirar a cabeça em todas as direcções, na onda daqueles cãezinhos de cabeças baloiçantes que os bimbos têm nos carros mas caso o bicho estivesse no meio de um tufão. Comparado com aquilo a dança basculante do puto anão do dia anterior, era brincadeira de crianças. Eu a certa altura, e farto de me desviar das cabeçadas do bebedolas agarrei-o pelos ombros e gritei-lhe "TAKE IT EASY!" ao ouvido. Mas isso não impediu que o gajo continuasse a fazer merda e me impedisse de ver o concerto em condições.
A dada altura apareceu outro ainda mais bêbado do que o primeiro.
Mesmo quando eu achava que a situação não podia piorar.
Ficaram amigos instantaneamente e começaram a abraçar-se e a trocar juras de amizade eterna. Estava a acontecer um espectáculo dentro do próprio espectáculo e não quisesse eu naquela altura que ambos morressem afogados em gin, ficaria muito contente. Entretanto o primeiro bêbado, como que por milagre, acalmou com a presença do segundo. Isto foram as boas notícias. Mas o segundo bêbado ganhou ainda mais vigor através do contacto com o primeiro. Isto foram as más.
Tanto vigor que a dada altura tive de agarrá-lo pelos ombros e gritar-lhe "TAKE IT EASY!" ao ouvido. O tipo pediu-me desculpa e ofereceu-me um gole da garrafa dele. Eu pedi apenas que me deixasse ouvir a música em paz. Não contente com a minha recusa, o supremo embriagado ofereceu-se para me carregar em ombros. Queria que eu me sentasse nas suas costas para assistir ao espectáculo "no primeiro andar". Assim como quem oferece um cachimbo da paz. Eu podia ter-me aproveitado do estado ébrio dele para transformá-lo numa espécie de acordeão humano. Quem me conhece sabe que não sou propriamente um peso pluma... E que bastava assentar o traseiro no pescoço do camóne para ele passar a jantar por uma palhinha para o resto da vida. Mas enfim, decidi ser o "bigger man" e voltei a declinar a oferta, mantendo-me à espera que o coma alcoólico o pusesse fora de jogo.
Acerca dos The Cure dizer que o Robert Smith parece uma das bolas de cotão que apanho quando aspiro a sala mas que ainda assim está em boa forma. Digo musicalmente porque à primeira vista parece a madame Min. Por isso, acabou por valer a pena toda a sevícia física a que me sujeitei e o convívio próximo com jovens pinguços.
Enfim, fiquei tão destruído ao nível dos membros inferiores que no Domingo pouco aguentei. Deixei os Radiohead a tocar sozinhos e fui-me embora para o vale dos lençóis. De certeza que eles deram por isso e se calhar levaram a mal mas como quando me ponho a cantar no duche também não os vejo por perto acho que também é justo que provem do seu próprio remédio.
Além disso, fiquei com os índices de malta nova demasiado elevados no sangue.
As próximas semanas vão ser corridas a saladas para limpar isto. Saladas e uma hora de RTP Memória por dia para restaurar o equilíbrio aqui do campeão.
Friday, June 15, 2012
Venha o diabo e escolha
Eu devia ser estudado.
E acreditem que não digo isto com orgulho...
Eu devia estar preso num laboratório, 24 horas por dia, com indivíduos a analisarem-me as ondas cerebrais, a estudarem as minhas reacções a estímulos variados e com tailandesas a darem-me massagens com óleos e bálsamos. Ok, a parte das tailandesas era só para minha autorecriação. Mas ainda assim, o estudo aprofundado da minha psique seria um bem maior para a sociedade.
A questão essencial, essa, é permanente: "Porque é que eu continuo a fazer mal a mim próprio?"
Esta minha tendência para a autodestruição começa a preocupar-me. E atenção que não falo de interesse no suicídio ou de visionamento contínuo de filmes do Manoel de Oliveira... Falo das trapalhadas constantes que começam, a pouco e pouco, a dar cabo de mim.
Hoje acordei às 7 da manhã para ir ao ginásio.
Sim, eu sei que há coisas mais impressionantes do que essa, mas ainda assim custa-me acordar tão cedo pela simples razão de que me deito sempre tarde. Eu sei que me podia deitar também cedo mas um indivíduo como eu, que tem responsabilidades para com o país e o mundo, ao nível da cultura e da alta finança, não se pode dar ao luxo de descansar muito. Isso e porque costumo ficar a pastelar no computador até doerem os olhos. O problema é que a minha mulher também quer ir ao ginásio dela (hoje em dia deixam-nas fazer tudo) e prefere fazê-lo antes do trabalho. E como costumamos ir juntos para Lisboa não me restam grandes alternativas do que ir com ela e fazer com que os nossos horários coincidam. No entanto, atenção: prego-lhe sempre duas ou três lambadas a meio da A5... Só para marcar a minha posição e para que não me confundam com um choninhas que constrói as rotinas com base nas da cara metade.
Bom, hoje foi o meu primeiro dia no ginásio novo.
Não que não gostasse do meu ginásio antigo, como provam aliás este e este post, mas o facto de ter vindo trabalhar para Lisboa fez com que o outro local ficasse um bocado fora de mão. Desejo o melhor para o puto dos seios copa D, assim como a todos os outros idiotas de merda, mas a vida obriga-me a seguir em frente.
O ginásio novo...
A caminho de Lisboa no lugar do passageiro, ainda meio a dormir, engoli um iogurte e uma banana para me ajudar a suportar o exercício matinal. Isto enquanto segurava também no GPS (que a patroa não sabia ir dar ao meu ginásio), o MP3, o papelinho com o código para entrar no raio do sítio, a mala, os óculos de sol e a carteira. Portanto, antes das 8h já eu realizava um bonito espectáculo de malabarismo em plena avenida marginal, arriscando-me a mastigar o MP3 ou a digitar a morada na casca da banana. Portanto, um imbróglio do catano.
Chegados à capital, deixam-me à porta do tal sítio e fico logo muito impressionado.
É um conceito novo de ginásios low cost mas com muito bom ar, em que o preço baixo vem precisamente do facto de terem o mínimo de pessoas a trabalhar lá... Um pouco como aqueles motéis que se pagam com o cartão no parque de estacionamento e só se sabe que lá estivemos quando a esposa ou esposo descobrem o talão do multibanco. Pelo menos uma ou duas pessoas que lêem este post sabem do que estou a falar.
Bem, mas cheguei à porta de entrada, carregado com o saco do ginásio, a marmita do almoço, a mala, o MP3, os óculos de sol, a carteira e o papelinho (o GPS e o lixo do pequeno almoço ficaram no carro), portanto com o look "sem abrigo" totalmente a funcionar, cheguei à entrada e deparei-me com o quadro onde deveria digitar o tal código. Desdobrei o papelinho p'ra topar o número e digitei-o uma vez. Não abriu. Outra vez. Voltou a não abrir. Isto enquanto indivíduos passavam para dentro e para fora do local, olhando-me de lado e fazendo caretas ao meu aspecto de vendedor ambulante. Outra vez. Não abriu. Quando começava a ficar desesperado e a ligar à minha mulher (não que ela me pudesse ajudar mas era só para poder reclamar com alguém) apareceu um segurança que me perguntou o que se passava, posso jurar, com uma mão já na lata de gás pimenta não fosse o diabo tecê-las.
Expliquei-lhe que estava há demasiado tempo a colocar o meu código de seis dígitos no painel e que não conseguia abrir a porta.
Ele ficou a olhar para mim sem dizer nada.
Eu olhei uma vez mais para o papelinho.
Percebi que estava a digitar o código errado...
"6 NÚMEROS E ESTA BESTA NÃO CONSEGUE ACERTAR COM TODOS!!!", pensei eu.
Mas não dei parte fraca.
Sem alterar a expressão facial, voltei a digitar o código e desta vez a porta abriu.
Ensaiei um "ATÉ QUE ENFIM!", irritado, e olhei para o segurança abanando a cabeça como quem diz "Estas máquinas podem ser muito modernas mas só trabalham quando lhes apetece..."
O segurança não mudou a sua expressão facial.
Depois, deu-me as boas-vindas tratando-me pelo nome, porque quando se digita o código aparece o nome num ecrã qualquer que não vi onde estava, e começou a mostrar-me as instalações do ginásio, apercebendo-se de que era a minha primeira vez. Sala após sala percebi onde estava tudo, como tudo funcionava e estava pronto para começar a treinar. Pronto e entusiasmado, diga-se.
Assim, eu e a minha panóplia de tralha dirigimo-nos aos balneários e comecei a tirar as coisas do saco e a colocá-las no cacifo. Marmita, mala, carteira, óculos de sol e papelinho directamente lá para trás, começar a despir, começar a tirar as coisas do saco...
Ora, ténis... check!
Toalha... check!
Chinelas e roupa interior... check!
Completa e total ausência de calções e t-shirt para treinar... check!
...
O QUÊ?!
...
Tinha-me esquecido da merda dos calções e da t-shirt...
...
COMO ERA POSSÍVEL?!
COMO É QUE EU TINHA CONSEGUIDO SER TÃO ESTÚPIDO?!
MAIS IMPORTANTE DO QUE ISSO: PORQUÊ?!!!!!
...
...
Agora, lá estava eu, meio despido, a olhar fixamente para um saco do ginásio meio vazio e a suar abundantemente da testa.
O cacifo já cheio com as minhas traquitanas.
E eu a avaliar esta merda toda sem saber o que fazer.
O ginásio completo de malta que de certeza que estava a topar perfeitamente a situação e a gozar o prato.
Eu bem os ouvi a rir...
O segurança lá fora, convencido de que eu iria treinar pela primeira vez.
Desespero...
Olhei para o que tinha e passou-me pela cabeça ir treinar enfaixado na toalha como um faquir.
Mas cedo concluí que a retirada era a solução mais sensata e menos dada a atrair ainda mais estupidez. Fingi receber uma chamada importante de trabalho e, arrumando as coisas mais depressa do que a Selecção Portuguesa no Euro, dirigi-me para a saída de telefone na mão e sorriso nervoso no focinho. Passei pelo segurança que estava a falar com uma pessoa qualquer e não tive a oportunidade de lhe dar qualquer explicação. Apenas lancei um grunhido surdo e dei corda aos sapatos dali p'ra fora.
Não sem ter deixado com certeza meia dúzia de pessoas a pensar que:
A) sou um terrorista que, às claras, deixou lá meia dúzia de bombas e saiu a correr
B) sou um fervoroso homossexual que paga as quotas no ginásio só para ver os homens nus no balneário
C) sou um palerma que não sabe preparar o saco de treino
Sinceramente, venha o diabo e escolha...
E acreditem que não digo isto com orgulho...
Eu devia estar preso num laboratório, 24 horas por dia, com indivíduos a analisarem-me as ondas cerebrais, a estudarem as minhas reacções a estímulos variados e com tailandesas a darem-me massagens com óleos e bálsamos. Ok, a parte das tailandesas era só para minha autorecriação. Mas ainda assim, o estudo aprofundado da minha psique seria um bem maior para a sociedade.
A questão essencial, essa, é permanente: "Porque é que eu continuo a fazer mal a mim próprio?"
Esta minha tendência para a autodestruição começa a preocupar-me. E atenção que não falo de interesse no suicídio ou de visionamento contínuo de filmes do Manoel de Oliveira... Falo das trapalhadas constantes que começam, a pouco e pouco, a dar cabo de mim.
Hoje acordei às 7 da manhã para ir ao ginásio.
Sim, eu sei que há coisas mais impressionantes do que essa, mas ainda assim custa-me acordar tão cedo pela simples razão de que me deito sempre tarde. Eu sei que me podia deitar também cedo mas um indivíduo como eu, que tem responsabilidades para com o país e o mundo, ao nível da cultura e da alta finança, não se pode dar ao luxo de descansar muito. Isso e porque costumo ficar a pastelar no computador até doerem os olhos. O problema é que a minha mulher também quer ir ao ginásio dela (hoje em dia deixam-nas fazer tudo) e prefere fazê-lo antes do trabalho. E como costumamos ir juntos para Lisboa não me restam grandes alternativas do que ir com ela e fazer com que os nossos horários coincidam. No entanto, atenção: prego-lhe sempre duas ou três lambadas a meio da A5... Só para marcar a minha posição e para que não me confundam com um choninhas que constrói as rotinas com base nas da cara metade.
Bom, hoje foi o meu primeiro dia no ginásio novo.
Não que não gostasse do meu ginásio antigo, como provam aliás este e este post, mas o facto de ter vindo trabalhar para Lisboa fez com que o outro local ficasse um bocado fora de mão. Desejo o melhor para o puto dos seios copa D, assim como a todos os outros idiotas de merda, mas a vida obriga-me a seguir em frente.
O ginásio novo...
A caminho de Lisboa no lugar do passageiro, ainda meio a dormir, engoli um iogurte e uma banana para me ajudar a suportar o exercício matinal. Isto enquanto segurava também no GPS (que a patroa não sabia ir dar ao meu ginásio), o MP3, o papelinho com o código para entrar no raio do sítio, a mala, os óculos de sol e a carteira. Portanto, antes das 8h já eu realizava um bonito espectáculo de malabarismo em plena avenida marginal, arriscando-me a mastigar o MP3 ou a digitar a morada na casca da banana. Portanto, um imbróglio do catano.
Chegados à capital, deixam-me à porta do tal sítio e fico logo muito impressionado.
É um conceito novo de ginásios low cost mas com muito bom ar, em que o preço baixo vem precisamente do facto de terem o mínimo de pessoas a trabalhar lá... Um pouco como aqueles motéis que se pagam com o cartão no parque de estacionamento e só se sabe que lá estivemos quando a esposa ou esposo descobrem o talão do multibanco. Pelo menos uma ou duas pessoas que lêem este post sabem do que estou a falar.
Bem, mas cheguei à porta de entrada, carregado com o saco do ginásio, a marmita do almoço, a mala, o MP3, os óculos de sol, a carteira e o papelinho (o GPS e o lixo do pequeno almoço ficaram no carro), portanto com o look "sem abrigo" totalmente a funcionar, cheguei à entrada e deparei-me com o quadro onde deveria digitar o tal código. Desdobrei o papelinho p'ra topar o número e digitei-o uma vez. Não abriu. Outra vez. Voltou a não abrir. Isto enquanto indivíduos passavam para dentro e para fora do local, olhando-me de lado e fazendo caretas ao meu aspecto de vendedor ambulante. Outra vez. Não abriu. Quando começava a ficar desesperado e a ligar à minha mulher (não que ela me pudesse ajudar mas era só para poder reclamar com alguém) apareceu um segurança que me perguntou o que se passava, posso jurar, com uma mão já na lata de gás pimenta não fosse o diabo tecê-las.
Expliquei-lhe que estava há demasiado tempo a colocar o meu código de seis dígitos no painel e que não conseguia abrir a porta.
Ele ficou a olhar para mim sem dizer nada.
Eu olhei uma vez mais para o papelinho.
Percebi que estava a digitar o código errado...
"6 NÚMEROS E ESTA BESTA NÃO CONSEGUE ACERTAR COM TODOS!!!", pensei eu.
Mas não dei parte fraca.
Sem alterar a expressão facial, voltei a digitar o código e desta vez a porta abriu.
Ensaiei um "ATÉ QUE ENFIM!", irritado, e olhei para o segurança abanando a cabeça como quem diz "Estas máquinas podem ser muito modernas mas só trabalham quando lhes apetece..."
O segurança não mudou a sua expressão facial.
Depois, deu-me as boas-vindas tratando-me pelo nome, porque quando se digita o código aparece o nome num ecrã qualquer que não vi onde estava, e começou a mostrar-me as instalações do ginásio, apercebendo-se de que era a minha primeira vez. Sala após sala percebi onde estava tudo, como tudo funcionava e estava pronto para começar a treinar. Pronto e entusiasmado, diga-se.
Assim, eu e a minha panóplia de tralha dirigimo-nos aos balneários e comecei a tirar as coisas do saco e a colocá-las no cacifo. Marmita, mala, carteira, óculos de sol e papelinho directamente lá para trás, começar a despir, começar a tirar as coisas do saco...
Ora, ténis... check!
Toalha... check!
Chinelas e roupa interior... check!
Completa e total ausência de calções e t-shirt para treinar... check!
...
O QUÊ?!
...
Tinha-me esquecido da merda dos calções e da t-shirt...
...
COMO ERA POSSÍVEL?!
COMO É QUE EU TINHA CONSEGUIDO SER TÃO ESTÚPIDO?!
MAIS IMPORTANTE DO QUE ISSO: PORQUÊ?!!!!!
...
...
Agora, lá estava eu, meio despido, a olhar fixamente para um saco do ginásio meio vazio e a suar abundantemente da testa.
O cacifo já cheio com as minhas traquitanas.
E eu a avaliar esta merda toda sem saber o que fazer.
O ginásio completo de malta que de certeza que estava a topar perfeitamente a situação e a gozar o prato.
Eu bem os ouvi a rir...
O segurança lá fora, convencido de que eu iria treinar pela primeira vez.
Desespero...
Olhei para o que tinha e passou-me pela cabeça ir treinar enfaixado na toalha como um faquir.
Mas cedo concluí que a retirada era a solução mais sensata e menos dada a atrair ainda mais estupidez. Fingi receber uma chamada importante de trabalho e, arrumando as coisas mais depressa do que a Selecção Portuguesa no Euro, dirigi-me para a saída de telefone na mão e sorriso nervoso no focinho. Passei pelo segurança que estava a falar com uma pessoa qualquer e não tive a oportunidade de lhe dar qualquer explicação. Apenas lancei um grunhido surdo e dei corda aos sapatos dali p'ra fora.
Não sem ter deixado com certeza meia dúzia de pessoas a pensar que:
A) sou um terrorista que, às claras, deixou lá meia dúzia de bombas e saiu a correr
B) sou um fervoroso homossexual que paga as quotas no ginásio só para ver os homens nus no balneário
C) sou um palerma que não sabe preparar o saco de treino
Sinceramente, venha o diabo e escolha...
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