Friday, June 15, 2012

Venha o diabo e escolha

Eu devia ser estudado.
E acreditem que não digo isto com orgulho...
Eu devia estar preso num laboratório, 24 horas por dia, com indivíduos a analisarem-me as ondas cerebrais, a estudarem as minhas reacções a estímulos variados e com tailandesas a darem-me massagens com óleos e bálsamos. Ok, a parte das tailandesas era só para minha autorecriação. Mas ainda assim, o estudo aprofundado da minha psique seria um bem maior para a sociedade.

A questão essencial, essa, é permanente: "Porque é que eu continuo a fazer mal a mim próprio?"
Esta minha tendência para a autodestruição começa a preocupar-me. E atenção que não falo de interesse no suicídio ou de visionamento contínuo de filmes do Manoel de Oliveira... Falo das trapalhadas constantes que começam, a pouco e pouco, a dar cabo de mim.

Hoje acordei às 7 da manhã para ir ao ginásio.
Sim, eu sei que há coisas mais impressionantes do que essa, mas ainda assim custa-me acordar tão cedo pela simples razão de que me deito sempre tarde. Eu sei que me podia deitar também cedo mas um indivíduo como eu, que tem responsabilidades para com o país e o mundo, ao nível da cultura e da alta finança, não se pode dar ao luxo de descansar muito. Isso e porque costumo ficar a pastelar no computador até doerem os olhos. O problema é que a minha mulher também quer ir ao ginásio dela (hoje em dia deixam-nas fazer tudo) e prefere fazê-lo antes do trabalho. E como costumamos ir juntos para Lisboa não me restam grandes alternativas do que ir com ela e fazer com que os nossos horários coincidam. No entanto, atenção: prego-lhe sempre duas ou três lambadas a meio da A5... Só para marcar a minha posição e para que não me confundam com um choninhas que constrói as rotinas com base nas da cara metade.

Bom, hoje foi o meu primeiro dia no ginásio novo.
Não que não gostasse do meu ginásio antigo, como provam aliás este e este post, mas o facto de ter vindo trabalhar para Lisboa fez com que o outro local ficasse um bocado fora de mão. Desejo o melhor para o puto dos seios copa D, assim como a todos os outros idiotas de merda, mas a vida obriga-me a seguir em frente.

O ginásio novo...
A caminho de Lisboa no lugar do passageiro, ainda meio a dormir, engoli um iogurte e uma banana para me ajudar a suportar o exercício matinal. Isto enquanto segurava também no GPS (que a patroa não sabia ir dar ao meu ginásio), o MP3, o papelinho com o código para entrar no raio do sítio, a mala, os óculos de sol e a carteira. Portanto, antes das 8h já eu realizava um bonito espectáculo de malabarismo em plena avenida marginal, arriscando-me a mastigar o MP3 ou a digitar a morada na casca da banana. Portanto, um imbróglio do catano.

Chegados à capital, deixam-me à porta do tal sítio e fico logo muito impressionado.
É um conceito novo de ginásios low cost mas com muito bom ar, em que o preço baixo vem precisamente do facto de terem o mínimo de pessoas a trabalhar lá... Um pouco como aqueles motéis que se pagam com o cartão no parque de estacionamento e só se sabe que lá estivemos quando a esposa ou esposo descobrem o talão do multibanco. Pelo menos uma ou duas pessoas que lêem este post sabem do que estou a falar.

Bem, mas cheguei à porta de entrada, carregado com o saco do ginásio, a marmita do almoço, a mala, o MP3, os óculos de sol, a carteira e o papelinho (o GPS e o lixo do pequeno almoço ficaram no carro), portanto com o look "sem abrigo" totalmente a funcionar, cheguei à entrada e deparei-me com o quadro onde deveria digitar o tal código. Desdobrei o papelinho p'ra topar o número e digitei-o uma vez. Não abriu. Outra vez. Voltou a não abrir. Isto enquanto indivíduos passavam para dentro e para fora do local, olhando-me de lado e fazendo caretas ao meu aspecto de vendedor ambulante. Outra vez. Não abriu. Quando começava a ficar desesperado e a ligar à minha mulher (não que ela me pudesse ajudar mas era só para poder reclamar com alguém) apareceu um segurança que me perguntou o que se passava, posso jurar, com uma mão já na lata de gás pimenta não fosse o diabo tecê-las.

Expliquei-lhe que estava há demasiado tempo a colocar o meu código de seis dígitos no painel e que não conseguia abrir a porta.

Ele ficou a olhar para mim sem dizer nada.

Eu olhei uma vez mais para o papelinho.

Percebi que estava a digitar o código errado...

"6 NÚMEROS E ESTA BESTA NÃO CONSEGUE ACERTAR COM TODOS!!!", pensei eu.

Mas não dei parte fraca.

Sem alterar a expressão facial, voltei a digitar o código e desta vez a porta abriu.
Ensaiei um "ATÉ QUE ENFIM!", irritado, e olhei para o segurança abanando a cabeça como quem diz "Estas máquinas podem ser muito modernas mas só trabalham quando lhes apetece..."

O segurança não mudou a sua expressão facial.

Depois, deu-me as boas-vindas tratando-me pelo nome, porque quando se digita o código aparece o nome num ecrã qualquer que não vi onde estava, e começou a mostrar-me as instalações do ginásio, apercebendo-se de que era a minha primeira vez. Sala após sala percebi onde estava tudo, como tudo funcionava e estava pronto para começar a treinar. Pronto e entusiasmado, diga-se.

Assim, eu e a minha panóplia de tralha dirigimo-nos aos balneários e comecei a tirar as coisas do saco e a colocá-las no cacifo. Marmita, mala, carteira, óculos de sol e papelinho directamente lá para trás, começar a despir, começar a tirar as coisas do saco...

Ora, ténis... check!

Toalha... check!

Chinelas e roupa interior... check!

Completa e total ausência de calções e t-shirt para treinar... check!

...

O QUÊ?!

...

Tinha-me esquecido da merda dos calções e da t-shirt...

...

COMO ERA POSSÍVEL?!

COMO É QUE EU TINHA CONSEGUIDO SER TÃO ESTÚPIDO?!



MAIS IMPORTANTE DO QUE ISSO: PORQUÊ?!!!!!

...

...

Agora, lá estava eu, meio despido, a olhar fixamente para um saco do ginásio meio vazio e a suar abundantemente da testa.

O cacifo já cheio com as minhas traquitanas.

E eu a avaliar esta merda toda sem saber o que fazer.

O ginásio completo de malta que de certeza que estava a topar perfeitamente a situação e a gozar o prato.
Eu bem os ouvi a rir...

O segurança lá fora, convencido de que eu iria treinar pela primeira vez.

Desespero...

Olhei para o que tinha e passou-me pela cabeça ir treinar enfaixado na toalha como um faquir.

Mas cedo concluí que a retirada era a solução mais sensata e menos dada a atrair ainda mais estupidez. Fingi receber uma chamada importante de trabalho e, arrumando as coisas mais depressa do que a Selecção Portuguesa no Euro, dirigi-me para a saída de telefone na mão e sorriso nervoso no focinho. Passei pelo segurança que estava a falar com uma pessoa qualquer e não tive a oportunidade de lhe dar qualquer explicação. Apenas lancei um grunhido surdo e dei corda aos sapatos dali p'ra fora.
 
Não sem ter deixado com certeza meia dúzia de pessoas a pensar que:

A) sou um terrorista que, às claras, deixou lá meia dúzia de bombas e saiu a correr

B) sou um fervoroso homossexual que paga as quotas no ginásio só para ver os homens nus no balneário

C) sou um palerma que não sabe preparar o saco de treino


Sinceramente, venha o diabo e escolha...

Monday, June 11, 2012

A única verdade

Fui ontem ver o Prometheus, o filme que tem feito brotar toda uma panóplia de emoções entre o público cinéfilo. As emoções são muitas mas, a avaliar pelo que se tem escrito na net, poucas delas são positivas: temos desde a indignação ao ódio, desde a raiva ao agastamento e, às vezes, até um piscarzinho de olhos ao desprezo. 'Tá tudo com vontade de dizer das boas ao Ridley Scott ou até, para compor o discurso, de lhe mandar uma chapada na tromba. Eu, que nunca engracei com o senhor Scott, excepto nos incontornáveis Alien e Blade Runner, claro está, também estou consternado. Mas mais por solidariedade à malta do que por outra coisa qualquer. É que o senhor Scott é só um e a turba consternada é, como o próprio nome indica, uma turba! Como tal, eu na dúvida estou sempre do lado daqueles que me podem aleijar menos em caso de descontrolo.

Se eu gostei do filme? Por acaso até gostei bastante.
Se o Ridley Scott já me fez algum mal? Por acaso até fez. Nomeadamente nas vezes que gastei do dinheiro que me custa a ganhar para ver as inúmeras banhadas do menino. Mas pronto, todos os males do mundo fossem esses...

Desta vez, o desgraçado prejudicou-me consideravelmente menos do que à maioria das pessoas, admito. Mas ainda assim conseguiu deixar-me preocupado com a porra do filme. Preocupado, leram bem.

A preocupação é muito simples: depois de visionar uma película em que uma equipa de cerca de dez pessoas parte em busca do segredo da Humanidade e dá de caras com um rico e completo bouquet de mostrengos extraterrestres, de tempestades de sílica e de naves gigantescas daquelas que esmagam (sim, até parece que nunca viram nenhuma...), cheguei à conclusão de que basicamente não estou preparado PARA NADA.

Aquela malta corre, salta, anda ao soco, rebola, corre outra vez... e tudo isto dentro de uma espécie de fato de astronauta ou lá o que é! Há uma tipa que chega ao ponto de se meter dentro de uma cabine p'ra tirar uma lula do bucho à base de pinça e tudo (uma pinça daquelas que há nas máquinas dos snack-bares e que comigo nem uma merda de um peluche conseguem sacar), e a mulher consegue esta proeza sem perder a estaleca para correr, saltar e andar ao soco. Portanto isto é malta que sabe. E eu, definitivamente, não sei.

'Tá bem que aquilo é filme. Nem me passa pela cabeça achar que há ali alguma coisa de verdadeiro.
Mas a verdade é que quando vierem p'raí os aliens a abrir caminho "à patrão", determinados a desfazer a Terra com os seus ácidos (que eles andam com ela fisgada já há muito) ninguém vai poder contar comigo para salvar o que quer que seja. Não há dúvida, que o meu perfil é mais o de ser salvo. É para isso que tenho jeito. Mas enquanto houverem damas no mundo, herói nenhum vai desviar-se do seu caminho para safar um indivíduo gordo, careca e barbudo que acaba por constituir um perigo para o próprio salvamento. Para mim é claro como água que seria dos primeiros a patinar...

Eu até tenho andado no ginásio e assim, mas há arestas que não se limam da noite para o dia. E isso prova-se com uma análise mais detalhada...



AS 5 RAZÕES PELAS QUAIS NINGUÉM VAI PODER CONTAR COMIGO CASO ISTO DÊ TUDO P'RÓ TORTO AO NÍVEL DE BICHEZA EXTRATERRESTRE!


1) O fato de astronauta

Nem é por ter excesso de peso nem nada. É difícil encontrar calças que me sirvam por causa das minhas proporções, digamos, fora do comum. Há uma ou outra na C&A mas, por exemplo, na Pull&Bear é bem mais complicado. Ora, em plena invasão alien, e caso seja necessário arranjar fatos espaciais, duvido bastante que a C&A seja consultada para o efeito. E como também duvido que venham tirar medidas a este menino para mandarem fazer a vestimenta num alfaiate julgo que estou definitivamente fora da corrida (até porque a alta costura espacial é uma bonita tradição em desuso porque infelizmente "a malta nova não quer pegar nisto").


2) O ofício

Sou licenciado em design de comunicação mas muito do que faço profissionalmente envolve a escrita. No entanto, e como é sabido, nestas cobóiadas com monstruosidades de outros planetas são os atletas, os militares, os biólogos, os matemáticos e os cientistas em geral que se orientam melhor e que oferecem mais utilidade. Em caso de aperto, não é com certeza um argumento de banda desenhada ou um conto literário que nos vai salvar. Se os aliens apreciarem ouvir contar histórias sempre posso juntá-los em círculo e ler uma das minhas enquanto um qualquer soldado lhes espeta mísseis pelos tentáculos adentro. No entanto, acho essa hipótese muito pouco plausível.


3) Correr


Lá está, tenho exercido actividade física num ginásio mas não sou um corredor de fundo. Em caso de ataque, um tipo tem é de se por "nas meninas" mais rápido do que leva a dizer "CATANO! CUIDADO COM OS DENTINHOS DO MOLUSCO!". Eu sou mais de ir correr para o passadiço que liga o Estoril e Cascais e parar para descansar quando me apetece. Duvido que os monstros respeitassem o meu ritmo de corrida porque boa educação é coisa que não impera em criaturas peçonhentas com manias de dominar o universo. É pena porque acredito que tudo sabe melhor quando feito com cordialidade mas enfim...


4) O asco


Não me interpretem mal, não sou nenhuma florzinha de estufa. Mas digamos que há coisas em casa, e a minha mulher sabe do que falo, que me são particularmente difíceis de fazer. Lavar o caixote do lixo ou limpar a casa de banho dos gatos são duas delas. Tenho nojo. Agora imaginem como reagiria se tivesse um polvo humanóide aos saltos em cima de mim, cheio de baba e ranho, a querer envolvimento físico à base de porrada. Ora, eu nem caracóis como. Seria muito difícil comportar-me como um verdadeiro homem perante tão viscoso cenário...


5) A chamada bulha


E por falar em porrada chegámos ao último ponto da lista. É certo que poderiam haver muitos mais mas não vos quero maçar. Eu não tenho nada contra andar à bulha, pratiquei karate durante muitos anos e havia quem dissesse que era bastante bom. Não há em Trajouce quem se tenha esquecido das minhas performances em estágios. E quem diz Trajouce diz parte da Abóbada. O karate era uma actividade desportiva que eu gostava mas não propriamente por causa da violência. Tanto quanto possível acho que é sempre melhor trocar os tiros e as explosões por um debate aceso moderado por um jornalista credível. O Júlio Magalhães por exemplo. O que se perdia em espectáculo de fogo de artifício ganhava-se em audiências, o que para mim é sempre preferível...



Portanto, e mesmo sem que eu tenha desgostado da coisa, o senhor Scott arranjou mais uma vez maneira de me lixar. Nem por um segundo estas questões abandonaram a minha mente enquanto visionava o filme que era, como todos agora, em 3D. Enquanto devia estar a seguir a narrativa e a conhecer os personagens estava a analisar em qual daqueles rochedos é que eu me escondia se ali estivesse... O que não é cobardia, prefiro chamar-lhe de planeamento estratégico.

Se vierem aí os aliens sou tão inútil como o palhaço Tiririca numa board meeting da Goldmann Sachs. A verdade é esta.

E até ver é mesmo a única verdade.

Monday, May 28, 2012

Ai a minha cabeça...

Há definitivamente 3 coisas que me são difíceis de fazer:


- escalar o Monte Evereste num triciclo.

- aviar um cardume de tubarões à chapada.

- comprar chapéus que me sirvam na cabeça.


Tudo o resto faço sem grande dificuldade, seja qual fora a tarefa.
Mas a verdade é que, no meu dia-a-dia, não insisto na parte do triciclo e muito menos na dos tubarões. Aceito que até aí não consigo ir e tudo bem, não me chateio nada com isso.

No entanto, resiste em mim uma fracção que não se conforma com isto dos chapéus, que acha que ainda vale a pena experimentar às dúzias deles na esperança de encontrar um que cubra este crânio gigantesco. Sei que sou louco por sonhar mas os loucos não se condenam... Quando muito, internam-se.

Aconteceu na passada sexta-feira outro desses episódios inglórios. Eu e a minha mulher decidimos ir ao Alegro de Alfragide com essa missão, certamente alimentada por uma qualquer lenda medieval, daquelas que chegam até nós pelas tradições populares...

"Atrás do sol posto, onde a montanha encontra as bombas de gasolina do Jumbo, irá luzir o último raio de sol que adivinhará o local preciso onde é possível descobrir um tesouro. O pertence mais valioso de todo o mundo, pela qual pereceram dezenas de cavaleiros. Algo nunca visto pelo Homem. UM CHAPÉU QUE REALMENTE CAIBA NO RAIO DA CABEÇORRA DO SAGUIM!!!"

Alguma coisa como isto.

Tenho a dizer que, e como de costume, percorremos uma dezena de lojas e voltámos para casa a apanhar frio na tola (pelo menos de mim falo). No entanto, não foi apenas a dimensão dos vis acessórios que traiu as minhas intenções...

A primeira loja só tinha bóinas cor de rosa. Imagino que seja a última tendência da moda e acreditem que sou tudo menos preconceituoso. Mas como da última vez que vi não era boiola, decidi deixá-las onde estavam.

A segunda loja tinha uma colecção de chapéus que faria o Liberace chorar de inveja. A esquizofrénica mostra de cores e padrões levou-me a crer que o Andrea Bocelli arranjou emprego como consultor estético... Mas, cá para mim, tudo o que o afastar da ópera é digno de ser aplaudido.

Foleirada à parte, tudo o resto (TUDO!), pura e simplesmente não serviu porque os chapéus ou eram pequenos ou a minha cabeça era demasiado grande. Se eu não me importasse de andar na rua à Pato Donald, com uma bóina encavalitada no cocuruto da pinha, talvez tivesse ali um bom leque de opções. Mas como, graças a Deus Nosso Senhor, ainda tenho noção do ridículo e um pingo de vergonha na cara prefiro sempre andar ao natural ou continuar a usar a bóina de sempre (continuo a dizer que foi encomendada à medida e com o pretexto de cobrir um um daqueles balões da Nivea que havia nas praias mas a minha mulher, que foi quem ma ofereceu, jura que não).

Começo a ficar um pouco cansado com este "problema" recorrente. Coloco-o entre aspas porque admito que não é verdadeiramente um problema senão no 1º mundo. Eu estou preocupado em não encontrar chapéus que me cubram a cabeça em condições enquanto que há populações inteiras que se preocupam antes com a manutenção das próprias cabeças. Sei bem que é uma mariquice mas ainda assim... Tira-me o sono.

Cheguei inclusivamente a algumas conclusões:


- Eu sou uma espécie de anão mas um pouco mais esticado. Ou seja, tenho a cabeçorra dum mas mais meio metro do que é habitual.

- Eu não sou careca, tenho a mesma quantidade de cabelo que tinha há dez anos atrás. O que acontece é que a cabeça continuou a crescer e o coro cabeludo não chega para cobrir tudo.

- É o preço que tenho de pagar por toda a genialidade com que sou obrigado a viver. Não basta só ser mega-inteligente, há que ter espaço para alojar os neurónios todos. Era bom que os neurónios fossem como os chineses que cabem às famílias de vinte num T0 mas logo por azar não é assim que funciona.


Enfim, a demanda continua.
Pode ser que encontre um chapéu decente na Amazon ou assim. Ou então sempre posso esperar pelo fim do Rock in Rio e dar um salto à Bela Vista...

... p'ra ver se há algum toldo que já não queiram.

Tuesday, May 1, 2012

A trombeta do Apocalipse

Este que vos escreve tirou uma semaninha de férias para vir descansar a cabeça p'ra Ferrel, junto à praia do Baleal. Este que vos escreve acordou de manhã todo bem disposto e foi comer uma sandes mista ao café mais próximo. De seguida, este que vos escreve recebeu um telefonema a anunciar que o Pingo Doce estava a oferecer 50% de desconto em todas as compras. Assim, e ainda a mastigar meio pão, este que vos escreve zarpou imediatamente para Peniche.

Imediatamente.

Isto porque, e não façamos confusões, este que vos escreve é uma AUTÊNTICA BESTA!

Hoje testemunhei coisas que nunca esperei em toda a minha vida.
Numa só manhã (e início da tarde) vi o pior do ser humano, e atenção que em muitos dos casos não coloco as mãos no fogo pela parte do "humano". Tudo isto in loco e a encher os cofres do estado holandês. Portanto, foi uma manhã em cheio.

Perguntam vocês: - Ó saguim, mas estando tu tão descansadinho mais a tua mulher, o que te deu para te enfiares naquilo que os mais esclarecidos apelidarão eloquentemente como "o olho do cú do inferno"?!

Ao que eu respondo: - Basta pegar na parte que diz "50% de desconto em todas as compras" mais aquela que diz que eu sou uma "AUTÊNTICA BESTA" e fazer a matemática...

Portanto, às 11h já eu lá estava metido.


Ao chegar, apercebi-me logo que já não haviam carrinhos disponíveis. Mulheres disformes com aspecto de peixeiras empurravam aos três e quatro em fila indiana enquanto limpavam o focinho dos filhos emplastrados de ranho. Isto enquanto se esqueciam de limpar o seu próprio focinho, loucas que estavam com a oportunidade divina de levarem duas dezenas de pacotes de papel higiénico a preço de ocasião.

(A sério, e isto é só um aparte... QUAL É A CENA COM O PAPEL HIGIÉNICO?! Ficaram tão excitados com a promoção que deixaram de possuir tónus no esfíncter?! É que aquela malta realmente cheirava a merda mas preferi deduzir que fosse pela falta de higiene pessoal e não por qualquer outro motivo mórbido! De todas as coisas que as pessoas podiam levar a metade do preço, afigura-se-me que o raio do papel higiénico foi o primeiro a esgotar nas prateleiras. Eu sei que é uma coisa que não se estraga e provavelmente foi esse o raciocínio dos génios que decidiram ir para casa a acartar às pilhas de Renova mas ainda assim... Dado o preço da coisa não podem ter feito assim tão bom negócio! Enfim, adiante...)

Assim, dada a ausência dos tão úteis carrinhos de compras eu e a minha mulher contentámo-nos com um cestinho e dois sacos do Jumbo, daqueles mais rijos que nos deram quando fomos tirar o cartão lá deles. Se virem isto como uma traição, azar! Façam também os 50% de desconto se forem capazes e depois conversamos... pode ser que apareça em Alfragide com sacos do Pingo Doce p'ra fazer justiça.

Portanto, com um cesto e dois sacos lá fomos desbravando caminho por entre a turba de sebosos que se gladiava quase à base de chapada por fruta, congelados e produtos de limpeza. Eu sei que não sou nenhum galã, aliás longe disso, mas acho que nunca vi tanta gente feia junta no mesmo sítio. E atenção que já estive uma vez na casa do povo do Cartaxo... Portanto, estão a ver onde está colocada a minha fasquia.

Enquanto a minha mulher saltava de um corredor para o outro com a agilidade de um coelho com hemorróidas, eu rezava a todos os santos para não ser jogado ao chão e espezinhado violentamente pela multidão em fúria que vagueava aos tropeções pelos corredores e esfregava o focinho pelos escaparates até não sobrar nada. Vi malta a sacar coisas das prateleiras só para ter o prazer de as atirar para o lado com um gesto de desprezo, assim como quem diz "podia levar esta bosta por metade do preço mas é tão merdosa que nem me vou dar ao trabalho..." Assisti portanto a uma verdadeira exaltação do ego e um reforço da confiança de centenas de pessoas. Mas isso não chegou para que eu me sentisse contente...

Não se passaram dez minutos desde a minha entrada naquele caos para que me arrependesse solenemente de ali estar. De manhã, a ideia até tinha sido dar um passeio de bicicleta até à praia. Mas foi quando vi diante de mim uma velha com três bacalhaus em cada mão a berrar ensurdecedoramente qualquer badalhoquice para o ar é que percebi que o plano nada tinha já a ver com bicicletas ou com praia... Era o sinal de que a morte estava à espreita. A trombeta do Apocalipse.

Decidi esconder-me no sector do material de escritório, aquele que, curiosamente ou não, era dos menos movimentados. Fiz do inóspito local uma espécie de "toca" da qual espreitava esporadicamente na esperança de ver a polícia de choque a expulsar com bastante violência a terrível máfia de pensionistas, para que eu pudesse enfim fazer as compras descansado. Volta e meia também fantasiava em como seria bom possuir um lança-chamas. Mas era quando a minha imaginação ia longe demais e soltava uma ou outra gargalhada maliciosa que chegava a minha mulher com mais três latas de polpa de tomate que conseguira arrancar à força das mãos de uma mãe solteira.

A malta perdera o tino.

Eu sei que quando digo malta não posso excluir-me... Eu sei que também lá estava.
Também sei que vivemos tempos difíceis e que há que aproveitar mas... fazerem uma promoção destas no primeiro dia do mês, um feriado e ainda para mais no DIA DO TRABALHADOR?! É um convite à mortandade, senhores.  Um convite à mortandade.

Passados singelos vinte minutos já o cestinho e os sacos estavam tão cheios como os olhos da ex-mulher do Paco Bandeira. Hora então de seguir para a fila. E foi aí que começaram os verdadeiros problemas...

Se há coisa que aprendi no Minipreço de Benfica é que todo e qualquer super ou hipermercado é uma bomba relógio à espera de explodir. Eu não quero apontar o dedo a ninguém em especial mas as culpadas são O RAIO DAS VELHAS!!! Elas podem não estar a dizer nada mas estão sedentas de uma boa zaragata, de um bate-boca ordinário, de poderem soltar grosseiramente aqui e ali um "Vai p'rá tua terra!" Parece que não vêem mas vêem. Elas topam tudo. Sabem se avançámos um centímetro na fila das compras, se parece que eventualmente possamos estar a querer passar-lhes à frente, se dizemos qualquer coisa mesmo em voz baixa que lhes pareça incorrecto. Conhecem de antemão quantas pessoas estão nas filas e quantas estão nas caixas. Elas têm uma perfeita noção do espaço, dos indivíduos que o compõem, dos materias que definem a área e de tudo o que é necessário p'ra começar a berrar alarvidades. É uma técnica amadurecida ao longo de gerações.

Assim, pouco depois de ocuparmos o nosso lugar na fila para pagar já a minha mulher improvisava à base de discussão para uma velha que tentava furar à mete-nojo, acompanhada pelo neto que se assemelhava muitíssimo a uma bola de sêbo com óculos. Eu olhei para a velha, que parecia travar um combate mais renhido com a própria dentadura do que com a minha mulher, com aquele olhar pacato de quem não está p'ra se maçar. Não me interpretem mal, naquela fase estava capaz de lhe esmagar o pace maker com o último dos peixes-espada que jazia na secção da peixaria, mas ainda assim contive-me e esperei que o assunto se resolvesse por si só. A minha mulher solicitou a intervenção do cigano que estava à frente, e que empurrava mais a mulher uma caravana de cerca de dez sacos e carrinhos que continham praticamente tudo o que é comercializável na União Europeia, cigano esse que rapidamente meteu a velha no lugar e lhe disse que quem tinha razão eramos nós. Houvesse um destes em cada tribunal e amanhã já o Isaltino ia tomar duche à prisão, a apanhar o sabonete ao som de Gipsy Kings. Mas enfim, como não há é a vergonha que é...

As horas que se seguiram foram de profundo e doloroso sofrimento. Dez minutos de espera, dez centímetros em direcção à caixa, mais dez minutos de espera, mais dez centímetros... Volta e meia a rotina era interrompida por alguém que prendia a minha atenção como uma mulher de meia idade com vestuário amarelo e cabelo pintado de louro que me pareceu muito semelhante ao popular Poupas da Rua Sésamo ou uma outra já com "idade para ter juízo" mas que exibia uma espanpanante tatuagem no fundo das costas que se orgulhava de exibir com orgulho badalhoco enquanto sacava a última garrafa de lixívia dos escaparates... Profundo e doloroso sofrimento.

Chegámos à caixa já com uma vontade primitiva de chorar, depois de horas a ouvir os comentários da velha que nos queria passar à frente, que não parava de convencer a bola de sêbo do neto a mamar à borla tudo o que havia ali p'ra comer. Durante o tempo que ali estivemos o puto comeu uma tangerina, uma banana, um kit kat e uma embalagem de queijadas. Por mim, também tinha comido com uma murraça na tromba mas como ninguém me perguntou nada acabei por guardar as minhas sugestões p'ra mim próprio.

O rapaz que estava na caixa deixou-me estarrecido e, só por si, simbolizava este "Dia do Trabalhador". Permanecia calado, rosto imóvel, olhar vítreo... O gesto mecânico e repetido de passar os produtos pelo leitor de infravermelhos. Uma expressão catatónica que parecia querer explodir em pranto num "FUCK MY LIFE" interminável que só poderia acabar em suicídio. Aquele rapaz possuía nos olhos a tristeza do mundo. Mas nem assim se safou de levar um responso da gerente, por causa do quê não cheguei a descobrir, com o argumento de "Tu estás a trabalhar e nós também estamos. Ninguém sabia que isto ia ser assim..."

Ninguém sabia o quê?!

Primeiro dia do mês.
Feriado.
50% de desconto!

Pensavam que a malta ia entrar organizada e respeitosamente pelos Pingo Doces de todo o país e fazer as suas compras de maneira civilizada e humana? Julgam que estão aonde? em Estocolmo?! E depois o desgraçado do puto que dali só pára no Júlio de Matos ou em Custóias é que tem culpa?!

Enfim, saí de lá pior que estragado.
Por ter decidido passar uma manhã das minhas férias da pior maneira possível e por ter testemunhado as coisas que testemunhei. Esperam-me noites de pesadelos e suores frios que certamente só conhecerão descanso após muitos anos de psicoterapia.

Crash da bolsa americana, 2ª Guerra Mundial, crise humanitária no Ruanda... pr'a meninos!

Duro duro foi o Pingo Doce em 2012.

Wednesday, April 18, 2012

A tarde dos mortos-vivos

Há uma certa atracção mórbida e inexplicável pelos chamados zombies, os mortos vivos a cair aos pedaços que gostam de papar cérebros e povoam filmes e séries. Quando digo "há", claro que não me refiro às pessoas em geral, refiro-me apenas àquelas que apreciam coisas fixes.

Ora bem, eu também gosto deste universo macabro de um ponto de vista ficcional, claro. Há malta mais hardcore que chega a imaginar-se num qualquer mundo pós-apocalíptico provocado por um holocausto zombie, preparados para rebentar com uma cabeça ou duas à base de caçadeira. Mas para essas pessoas há uma ala especial no Júlio de Matos e um copinho de comprimidos a cada duas horas.

Este Domingo, não sei se inconscientemente motivado por esta recente onda de entusiasmo ou por ser apenas parvo, decidi passar a tarde no mais morto-vivo dos shoppings que eu conheço: o Beloura Shopping em Sintra (ou o "centro comercial das moscas" como já ouvi chamar-lhe). Atenção que não quero ser injusto, não estou a acusar o espaço de estar cheio de mosquedo e demais insectame... Neste caso, "moscas" acaba apenas por ser uma metáfora para o facto de não haver por lá quase ninguém.

A verdade é que já não ia lá há algum tempo e, com todos os seus defeitos, há uma coisa que ninguém consegue negar acerca do sítio: é sossegado como um cemitério judeu em Marte. É que não se ouve um pio. E a ausência de "pios" e demais sonoridades irritantes é o que desejamos para o nosso Domingo, cheio de paz e sossego. Lá fomos, eu e a minha querida mulher que se arrepende frequentemente de me seguir sem questionar aos fins-de-semana. Depois de ter visto em casa um daqueles sites de cinema, verifiquei que um dos filmes que queria ver, o "John Carter", estava em exibição nas salas do Beloura e a começar às 15h45. Esperto que nem um alho, e porque não gosto de andar a correr, congeminei logo o programa ideal que incluía almoço, visita a lojas a vulso e visionamento do filmes entre golfadas alarves de pipocas salgadas. Tudo na mais perfeita paz do Senhor.

E foi nessa mesma paz, ou pelo menos numa parecida, que encontrei o parque de estacionamento daquele Shopping. Um parque preparado para receber à volta de 60 viaturas e que continha cerca de 10. Não encontrei motivos para alarme... Aliás, até fiquei contente. Afinal, o que se quer é fugir à maralha e se havia coisa que ali não existia era, de facto, maralha. Na realidade, não me preocupei até entrar no parque de estacionamento coberto. Aqui, num espaço preparado para várias centenas de carros estava apenas a módica quantia de 1... Com um casal de indivíduos visivelmente espantado em avistar a presença de outro ser humano, como dois javalis encadeados no meio de uma estrada à noite a olhar p'ra mim. Dei meia volta e continuei a tentar entrar no recinto do centro comercial.

Digo continuei porque, e não sei porquê, todo o shopping me parece armadilhado. Como se se estivesse a defender de um qualquer exército invasor. Aquilo são corredores que não dão a lado nenhum, portas que não abrem, escadas encerradas, becos sem saída... Tanto que sou obrigado a concluir que só por sorte não me derramaram azeite a ferver em cima, atirado do alto do edifício por uma horda de guerreiros medievais. A parte das escadas é particularmente difícil. Originalmente eram rolantes mas, dada a ausência de público, calculo que a administração do shopping tenha percebido que estava ali uma gastação de energia incomportável. Como é que eles resolveram o problema, perguntam vocês?! Desligando as bichas da corrente e tapando os degraus com uma cobertura de madeira, claro está. Conferindo à escadaria não só um aspecto bastante ridículo mas também uma extrema dificuldade em subir, porque cada um destes degraus tem, como é sabido, cerca de meio metro de altura. Eu sou uma pessoa doente mas ainda consigo dar conta do recado porque sou novo. Agora para velhotes, crianças de colo e coxos é um fartote uma pessoa estar ali ao lado a apontar e a rir. E assim se passa um Domingo bem passado...

Com dificuldade, chegámos à zona da restauração para encontrar três restaurantes abertos, duas ou três pessoas esquecidas pelo tempo e uma imensa tristeza a pairar no ar... A sério, o espaço era tão deprimente que não conseguia deixar de pensar em cachorrinhos orfãos, em esquimós a matar focas bébés à paulada e no Benfica a passar outra temporada só com uma Taça da Liga. Por pouco, não consegui conter as lágrimas. Tendo três soluções à nossa escolha para almoçar, e porque é conhecido o meu faro por tudo o que é merdoso, optámos claramente pela pior. Quer dizer, do lado de fora o restaurante nem parecia mau. Tinha ar de italiano com uma grave crise de identidade. Ou seja, o menu era de comida italiana mas lá dentro era tamanha a miscelânea de cores, imagens e referências que só me apeteceu recomendar-lhe umas sessões de psicoterapia. O empregado, que estava convenientemente mascarado à pinguim, aproximou-se da mesa e apontou os nossos pedidos que consistiam em dois pratos de tortellini. Passados quinze minutos tínhamos na mesa duas saladas. Assim, sem mais nem menos.

Quer dizer, se se escavasse na cebola e no tomate com alguma insistência, mais tarde ou mais cedo o tortellini havia de dar um arzinho da sua graça. Mas ainda assim, pareceu-me pouco e até um pouco insultuoso. Ora, eu não gosto de salada. E como não havia qualquer referência a ela no prato que tinha pedido não achei relevante indicar isso. Por exemplo, ninguém vai a uma marisqueira, pede arroz de marisco e considera fundamental avisar o empregado para não colocar nenhuma cabeça de leitão na panela. Portanto, segundo a mesma linha de raciocínio, fiquei estupefacto com a iguaria que o pateta de paletó me colocou na mesa. Assim, chamei-o, pedi desculpas pelo incómodo e solicitei que me retirassem a salada no prato. De uma forma branda porque também sou pateta, embora não costume usar paletó. E o pinguim assim fez, exactamente como pedi... Levou o prato para dentro e, em menos de nada, voltou a colocar-mo em frente da cara, sem salada mas com a mesma quantidade de massa que tinha inicialmente (o equivalente a uma colher de sopa). No entanto, a avaliar pela quantidade de óleo que escorria pelo tortellini e que daria certamente para pôr um motor de uma avioneta a funcionar, julguei por bem não reclamar, engolir a mixórdia e pôr-me a andar dali p'ra fora.

Afundado em azia, que ao menos impediu que ficasse com fome, decidi ir dar uma volta pelas supostas lojas até ser hora de me dirigir à zona dos cinemas. A parte comercial do shopping não se afigurou menos trágica do que a da restauração, com o número de logistas a ultrapassar largamente o de visitantes. Eu ainda estive para lhes sugerir que fizessem compras nas lojas uns dos outros para ajudar e incentivar o negócio, mas ao avistar as expressões desoladas das suas faces concluí que a esperança abandonou aqueles corações há muito. A cada passo pelos corredores imensos e vazios do Beloura, parecia que ouvia Aimee Mann na sua balada mais triste... E se ali encontrasse uma forca devidamente pronta a usar ainda pensava duas vezes se não aproveitava e dava logo ali por terminada a tarde. Na zona comercial, além de toda a pobreza franciscana há a registar duas coisas: a loja dos animais e a tabacaria. A primeira, não há dúvida nenhuma, é o estabelecimento mais fácil de encontrar em todo o shopping. Não que esteja particularmente bem situado ou sinalizado mas porque o cheiro acre e nauseabundo começa a fazer-se sentir em São Pedro do Estoril. Eu que sou uma pessoa que gosta de animais decidi passar pela frente da loja a correr ao pé coxinho, com dois dedos na boca a conter o vómito e a tentar equilibrar-me com as tonturas. Não cheguei a perceber se o cheiro era dos pobres bichos enjaulados, se da ração que está à venda e que dada à ausência de compradores começa já a ficar podre ou do pobre indivíduo atrás do balcão que dado o aspecto já não devia ver água e sabão há uns anos valentes. Seja como for, fica à atenção da ASAE porque aquilo é um bedum que meu Deus Nosso Senhor... Não pertence a este planeta.

Dado que o filme só começava às 16h e que o almoço, de tão terrível, foi despachado em menos de nada, decidimos entrar na tabacaria para comprar umas revistas e transportar a mente para outros locais melhores. Na montra, havia um aviso que dizia o seguinte: "A CONSULTA DAS PUBLICAÇÕES IMPLICA A COMPRA DAS MESMAS!" Apesar de agressivo, compreendi logo a exigência. É que de outra forma seria impossível controlar os milhares de pessoas que se espezinhavam e agrediam perante os escaparates de revistas amareladas do casebre... Enfim, apesar de tudo eu sabia o que queria e saí de lá rapidamente deixando p'ra trás a minha mulher que ainda ficou a dar conversa a uma velha que lhe queria impingir uns DVD's foleiros.

Enfiei-me na ala dos cinemas como uma lebre em pânico e de lá não saí até ao fim do filme... Filme esse que só começava dali a duas horas.

Comprámos os bilhetes aos vinte empregados que se encontravam no recinto, uns atrás das caixas registadoras a roer as unhas, outros a limpar o chão que não tinha nada p'ra limpar e ainda outros apenas a olhar para o infinito, lamentando a ausência de público e a merda da vida em geral. Antes de nos sentarmos a ler as revistas, decidimos jogar um joguinho de "air hockey" (para quem não conhece joga-se numa mesa esburacada que deita ar, com dois manípulos esquisitóides e um disco, e o objectivo é enfiá-lo no buraco do opositor - salvo seja). Ora, certamente derivado da falta de uso, os manípulos estavam colados à mesa e sempre que os deixávamos pousados mais de cinco segundos voltavam a colar-se outra vez. Ar a sair do tampo, aquilo que confere a velocidade e animação ao jogo, era só de vez em quando, p'ra poupar luz, à semelhança das escadas rolantes de madeira. E foi assim, com as peças de plástico a rasparem na mesa como se estivessemos a afiar um cutelo, numa chinfrineira dos diabos, que jogámos desconfortavelmente entre o desejo de um final rápido e digno, para seguirmos em frente com as nossas vidas.

Posto isto, pegámos nas revistas e fomos para a esplanada. Esplanada essa que tinha, adivinharam, praticamente ninguém. Quer dizer, ninguém humano porque aquilo estava povoado por uma selecção de bonecos à escala real, que variava entre o bizarro e o estúpido. Eu sei que aqueles cinemas fazem parte de uma coisa chamada "CinemaCity" e que é suposto terem estátuas de personagens de filmes a decorar o espaço... mas parece-me que a malta do Beloura se entusiasmou um bocadinho. À entrada dos cinemas temos o Schwarzenneger na pele de Extreminador Implacável a dar as boas-vindas. Até aí tudo bem. Mas depois pelo espaço é um sem fim de palhaçada desconexa que mete astronautas, lutadores de wrestling, jogadores de râguebi, bicharada e tudo mais ao barulho sem critério nenhum... O que me leva a crer que, a dada altura e por alguma razão idiota, alguém tinha aquela lixarada toda no quintal a ganhar pó e, talvez pressionado pela mulher ou pelas autoridades competentes, decidiu levar para lá muito a contragosto.

Na esplanada, tive de ler a minha revista com um dos Blues Brothers sentado a olhar fixamente p'ra mim. Do outro lado do recinto, um dinossauro agachava-se numa posição ameaçadora, fazendo pandilha com uma vaca vestida à cowboy. Uns metros depois, estava o outro dos Blues Brothers de costas para o irmão, dando a entender que alguma desavença terá havido entre eles, com nova vaca, agora vestida à homem-aranha, junto a ele. A encabeçar todo este grupo psicótico, um índio olhava o horizonte, como que vislumbrando uma maneira de escapar e voltar para o Perú. E foi na companhia desta cambada, que num qualquer outro sítio me levaria a marcar de imediato novos exames à cabeça mas que ali me pareceu perfeitamente normal, que esperei com paciência até que o raio do "John Carter" começasse.

Bom, daí p'ra frente não vale mais bater no ceguinho...
Não vou debruçar-me sobre o facto de não haver água p'ra lavar as mãos na casa de banho depois do xixi ou de, inexplicavelmente e na toada "Twilight Zone" que povoa aquele shopping, o cinema ter ficado atolado de criançada até às orelhas de um momento para o outro... Vi o filme, escalei as escadas rolantes de madeira e segui a passadas largas até ao parque de estacionamento deserto enquanto a minha mulher maldizia a sua vida ao meu lado e fazia contas de me assassinar para não ter de voltar a pagar o empréstimo da casa ao banco.

O Beloura Shopping é de facto um zombie comercial e muito me admira que ainda esteja aberto. Não desejo mal às pessoas que lá trabalham, para elas toda a minha solidariedade, mas é certo que aquele espaço não pode estar a dar senão prejuízo. E se não dá ainda mais é porque ainda há fulanos como eu que decidem lá passar as tardes de Domingo. Mas ainda assim, parece-me que tenho de começar a ter mais cuidado com as minhas escolhas num futuro próximo...

A minha mulher é um doce mas não tem sangue de barata.
Já a fiz passar por muito e qualquer dia vira-se a mim.

Acho que vou fazer um workshop com o Paco Bandeira, por causa das coisas...

Wednesday, April 11, 2012

A Maternidade Alfredo da Costa e o Jean Jacques

Às vezes sinto que vivo numa qualquer espécie de paraíso...
Parece que morri algures sem dar por isso e que agora ando a flutuar num sítio calmo e agradável, ao som de flautas de Pan. Assim como uma libelinha mas sem a homossexualidade adjacente.

Na rua onde moro há civismo, há educação, há higiene.
Isto para mim é uma grande novidade, principalmente para alguém que veio directamente da Rua da Venezuela em Benfica. Aí, a par de um vizinho bovino que obtinha uma espécie de prazer mórbido em alancar com estuque nos cornos sempre que eu falava um bocadinho mais alto, tive ainda de aturar os marginais da paragem de autocarro, o violador de Telheiras, o biltre que me riscou o carro sem motivo algum e o indiano que passava o dia inteiro sentado numa esplanada manhosa a mamar imperiais, umas atrás das outras, como se não houvesse amanhã, sem apresentar o mínimo sinal de embriaguez. Isto, entre muitas outras personagens e episódios, convém deixar claro. Benfica foi para mim um misto entre circo dos horrores e musical do La Féria: bimbo, aterrador e, muitas vezes, completamente absurdo.

Se aquela rua fosse um programa televisivo seria com certeza apresentado pelo João Baião, numa das suas farpelas pejadas de lantejoulas, com uma bailarina Mamaré de cada lado. Enfim, um espectáculo degradante, diga-se.

Mas era a isto que eu estava habituado e agora, apesar de bastante feliz, não nego que me faz falta uma certa dose de bizarria no meu quotidiano. É assim como uma pitada de piri-piri no café com leite: não é suposto lá estar mas dá pica na mesma.

Antes de me mudar para Benfica, onde vivi dois anos e meio com a minha querida mulher e onde ia arruinando as nossas poupanças num certo restaurante de sushi (mas isso é outra história...), vivi toda a minha vida na casa dos meus pais perto do Arco do Cego. A rua onde habitávamos era, e é, tranquila, mas tinha também a sua generosa dose de cromos, de indigentes e de malta estranha no geral. Aquilo que em Benfica me irritava profundamente (estava farto daquela canalhada toda!) aqui até me divertia... E acabava por ser combustível para piadas e teatros que fazíamos alegremente em família, mais tarde, quando chegávamos a casa.

Ontem, quando vi a notícia de que o governo queria fechar a Maternidade Alfredo da Costa lembrei-me de uma dessas personagens no limiar da insanidade que ainda mora na rua dos meus pais e que, não sei se feliz ou infelizmente, não mete as patas na praceta onde vivo na actualidade. Um indivíduo chamado Jean Jacques.

Na verdade, ninguém tem bem a certeza se ele se chama assim. Sei que um dia olhei para o interior do carro dele e que havia lá um cartãozinho com o nome... Na altura, pareceu-me francês e como provavelmente me esqueci qual era logo depois de o ler, baptizei-o com um dos maiores clichés gauleses no que toca a nomenclaturas... Portanto, ficou Jean Jacques e ficou muito bem.

O Jean Jacques é um indivíduo já com os seus cinquenta anos que anda TODOS OS DIAS DO ANO, faça chuva ou faça sol, de calções.

Ostenta um corte de cabelo à monge franciscano mas sem a parte da careca. Portanto, uma adaptação moderna do penteado que aparenta ter sido feito com a ajuda de uma malga enfiada pela pinha abaixo. No entanto, e convém fazer-se justiça, ele ainda tem cabelo e eu já não tenho muito. Por isso, apesar de maluco nesse aspecto está-me a ganhar.

O Jean Jacques, há vinte anos atrás, tinha três carros... Passado dez anos já só tinha dois. E neste momento já só tem um, reduzido à carroçaria. O homem aprecia bastante arruinar as viaturas enquanto acredita que as está a "arranjar". Como é que ele as chegou a ter em primeiro lugar dado que nunca trabalhou, perguntam vocês? Algo a ver com uma tia e com heranças... Nunca percebi muito bem mas também nunca me interessou.

O método de "arranjo de carros" utilizado por Jean Jacques era um misto de revolucionário e de idiota. A primeira coisa que fazia era arrancar tudo o que fosse plásticos do interior dos automóveis. Não sei se era uma espécie de fobia pessoal ou se ele achava que os plásticos falavam com ele... A verdade é que assim que lhes punha as unhas, era descascar portas e tablier até ficar só metal. Depois, começava a tapar os buracos deixados pela ferrugem (sim, eram viaturas de qualidade) com o material mais resistente e adequado para o efeito que existia no mercado: o BETÃO.

Mas isto era o que se podia considerar, o ofício de Jean Jacques.

Uma vez, a minha mãe, ainda acreditando que existiam vestígios de sanidade naquela cabeça de falso franciscano, pediu-lhe que lhe aplicasse umas escovas novas no limpa pára-brisas do carro dela. E ele, chegando-se à frente com uma voluntariedade ímpar, partiu-lhe aquela merda toda num abrir e fechar de olhos. Era assim que ele operava, e era assim que as pessoas o conheciam.

Nos tempos livres, Jean Jacques fazia sempre o mesmo: fazer surf e coleccionar lixarada. Era um homem de paixões simples mas sempre de uma grande entrega.

Muitas e muitas vezes o vi agarrado a uma prancha a caminho da camioneta que o levaria à Costa da Caparica. Vivia maravilhado com a claridade das dunas, o cheiro a maresia, o embalar quase materno da ondulação. Ele não se coíbia de nos falar deste seu amor até aos nossos ouvidos fazerem sangue... Era chato comá putaça, graças a Deus. Quando nos apanhava na rua começava uma conversa do nada, como se tivessemos acordado de um transe e estivessemos já a meio de uma discussão que durava há horas. Falava-nos dos infinitos benefícios do surf e o bem que lhe fazia à saúde. Quando estava bom tempo era do melhor e quando estava frio ele não se atrapalhava. Levava vestidas duas camisolas de lã grossa por causa das coisas. E a verdade é que nunca o vi constipado.

A prancha, essa, tinha de ser de esferovite. Só material do melhor para este menino.
Caso contrário podia fugir do seu controlo e bater-lhe com força na cabeça... E se há coisa que Jean Jacques não podia arriscar perder era aquilo que ele acreditava ser o seu bom juízo.

Havia quem dissesse que o homem não apanhava camioneta nenhuma, que era tudo mentira. Ia com a prancha até ao jardim da Casa da Moeda e lá ficava sentado num banco a tarde toda a falar com os polegares. Mas lá está, nunca pude comprovar portanto até ver não passam de boatos.

Se o surf tinha este importante papel na sua rotina já recolher lixo dos passeios não era digno de menor afecto. Consegui espreitar um dia pela janela da sua casa e havia tralha até ao tecto. Cartões, electrodomésticos usados, caixas, peças de todos os tamanhos e feitios... havia de tudo naquele barraco menos uma limpeza semanal. Muitas e muitas vezes vinha ele da feira da ladra carregado de computadores velhos e de livralhada, coisas que ele inventava para gastar o dinheiro. Gostava de falar das suas invenções e das suas ideias inovadoras. Ideias essas que eram invariavelmente um suceder alucinante de palhaçada.

Um dia, apareceu na rua com a cara coberta de natas a pingar para o chão. Aproximou-se orgulhosamente dos meus pais a dizer que aquilo fazia muito bem à pele, que era uma espécie de projecto que ele estava a desenvolver. Era com este tipo de assuntos que ele gostava de abordar as pessoas e deixá-las num misto de desconforto e pânico.

Outra altura houve em que Jean Jacques apregoava as virtudes de "andar" na saúde humana. Tinha lido uma qualquer entrevista com a Rosa Mota (sim, porque nada melhor do que uma criatura que se assemelha a um esqueleto ambulante para servir de guru da "boa vida") e que, de acordo com as suas contas, todas as pessoas deviam andar cerca de 18 horas por dia. E batia-se com esta estupidez como se a sua existência dependesse disso... Abençoado.

Ora, quando vi na televisão que tencionam fechar a mais emblemática maternidade lisboeta, e quem sabe do país, o meu pensamento imediato foi: "MAS COMO É QUE O JEAN JACQUES CHEGOU AO GOVERNO?!"

Porque isto cheira-me a ideia genial lá do bicho.

Ou dele ou de indivíduos do mesmo calibre...
Mas enquanto cidadão não escondo o meu desconforto em ser governado por gente que na intimidade enche a cara com natas, se lança ao mar com pranchas de esferovite e emplastra chaços com cimento... Se é para perdermos de vez a identidade nacional então mais vale fazer algo ainda mais revolucionário como prender de vez governantes criminosos como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro ou Isaltino Morais... Isso sim, era caso para pararmos tudo e chegarmos à conclusão que estávamos a deixar de ser Portugal. Agora fechar o raio da Maternidade, às tantas nem a besta do Jean Jacques nos seus sonhos mais mórbidos se lembraria de tal coisa.

Neste momento, vivo num sítio demasiado normal mas não nego que sinto falta de pequenas idiossincrasias inofensivas... Não encontro idiotas na minha rua mas basta ligar a televisão e lá estão eles. A decidir por mim e pelos meus, muitas vezes contrariamente àquilo que prometeram.

Assim, antes o Jean Jacques que não fazia mal a ninguém...
Excepto à minha mãe que teve de comprar uns limpa pára-brisas novos.

Friday, March 9, 2012

Melhor assim

Há uns meses atrás, confessei neste mesmo blog, nomeadamente aqui, que tinha começado a ir ao ginásio. Não que este invólucro estupendo a que chamo de corpo não seja já de si perfeito mas enfim, cheguei à conclusão que uma boa maneira de gastar o tempo livre era correr em cima de um tapete rolante que não sai do sítio e acartar com pesos que não precisam de ir a lado nenhum. É portanto deste nível de estupidez que estamos a falar.

Ok, estava um bocado gordo e resolvi tomar uma atitude. Neste momento continuo gordo mas ao menos estou mais rijo. A olho nu pode não fazer grande diferença mas a mim dá-me grande satisfação saber que agora já posso ir para a frente das manifestações chamar nomes feios às mães dos polícias sem que as balas de borracha me aleijem. Não é coisa que alguma vez tenha feito ou que tencione fazer mas ainda assim... agora é uma hipótese.

A brincar a brincar já lá estou há mais de meio ano, a ir duas vezes por semana, e já consegui que o monitor me tratasse por tu (para perceber esta, lamento mas é mesmo preciso ler o texto anterior). Não sei se ele foi à minha ficha e percebeu que não nasci nos anos sessenta como originalmente pensava ou se os meus esforços por usar o vocabulário da malta nova deram resultado. Se assim foi, os meus agradecimentos aos génios criativos que inventaram palavras como "Mámen", "baril", "tótil" e "fónix". Bem hajam.

Ora, como em todos os sítios, há coisas que gosto e outras que não gosto no ginásio que frequento. Gosto do sentimento com que fico depois de sair de lá. Não aquele com que vou para lá, não tudo o que sinto durante o tempo de tort... de exercício mas depois, quando já estou com a malinha às costas e a abandonar o edifício. Saio sempre com uma noção de dever cumprido, como se tivesse desmantelado uma bomba num orfanato cheio de focas bebés do Ártico. Também orfãs, claro está. E a magia da coisa é que não preciso de fazer nada tão complicado para ficar com aquele sentimento de "campeão". Basta-me passar hora e meia a arfar como um boi cavalo e a questionar-me se o formigueiro no braço esquerdo é a morte que se aproxima ou apenas comichão. Portanto, isto é claramente um aspecto positivo.

Claro que há a saúde e todas essas paneleirices... Mas como eu acredito que daqui a vinte anos vamos ser todos metade robôs, tendo substituido as partes podres do nosso corpo por maravilhas da tecnologia capazes de as imitar e até superar, não é com certeza por isso que me presto a todo aquele sofrimento. E digo sofrimento porque aquilo que eu passo não se limita apenas às sevícias auto-infligidas... Não há minuto de treino que não esteja a odiar alguém. Sim, ODIAR.

Sei bem a força que a palavra tem e também sei que não há grande razão para ser aplicada a desconhecidos, a menos que tenham feito mal à nossa família ou sejam adeptos do FCP. Mas a verdade, e não me orgulho disso, é que realmente aquela malta me dá a volta aos nervos... E principalmente um indivíduo em particular...

Antes de mais, que fique bem claro que não tenho absolutamente nada contra a homossexualidade. Aliás, acho que já aqui o referi várias vezes. Só há duas coisas que me enervam na onda gay: quando há palhaçada e quando o sujeito ou sujeita em questão não são necessariamente gays mas fazem toda uma panóplia de coisas dessa mesma natureza sem se aperceberem. Assim, segundo este contexto, aqui vai uma pequena lista de coisas que me enervam no tipo que vos falo:


- o corte de cabelo à bailarino (aquele que é mais curto dos lados e deixa uma franja frisada a bambolear à frente dos olhos, como se se transportasse um esquilo morto emplastrado na testa).

- a musculatura desnecessária (já não ambicionamos tomar terras aos mouros, é preciso que se saiba...)

- a camisola de alças de spandex.

- o facto de estar sempre acompanhado por dois outros indivíduos consideravelmente mais enfezados, para quem com certeza é qualquer coisa de Deus Apolo.

- o facto de monopolizar durante horas duas das máquinas que estão no meu plano de treino.

- a estupidez característica da adolescência.

- os seios.


...


Sim, os seios.

Não se enquadra com o resto da descrição, pois não? Mas é verdade, meus amigos.

O rapaz faz concorrência à Samantha Fox nos seus anos dourados.
E isso provoca-me muita espécie.

Calculo que haja uma fase durante o crescimento, principalmente naquele que envolve treino de musculação diário como o imberbe faz, em que se chega a um ponto em que se tem de optar entre continuar a desenvolver os músculos do peito ou procurar emprego como ama de leite. Se fosse eu escolheria a primeira opção, mas ele claramente optou pela segunda.

Seios!

Atenção que estou a falar de copa D para cima. E cada mês que passa a coisa piora um pouco.
Neste momento, e só à conta dos pesos, o rapaz pode orgulhar-se de ter mais mamas do que a Cameron Diaz, a Keira Knightley e a Kylie Minogue todas juntas. Agora pensando bem, talvez isso não seja bem motivo de orgulho mas ainda assim não deixa de ser verdade.

Seios!

Escusado será dizer que com a costumeira camisola de alças de spandex, e tendo a sensatez e a vergonha na cara de ainda não usar sutiã, aquilo salta e pulula à vista de todos num espectáculo de luz e cor a que nenhum ser humano com um pingo de bondade no coração devia ter de assistir.

Mas o rapaz gosta do look. E, ao que parece, aqueles que o acompanham também gostam.
Mal ele chega ao local de treino assenta logo arraiais nas duas máquinas que me interessam, com os companheiros aos pulinhos atrás de si. Como tem a compleição física de um gorila prateado trata logo de apetrechar os halteres com qualquer coisa como uma meia dúzia de toneladas de cada lado, perante a excitação dos tais companheiros. Depois, a rotina é sempre a mesma: levanta duas vezes, admira-se ao espelho durante dez minutos, levanta mais duas vezes, mete os seios para dentro da camisola de spandex e admira-se ao espelho durante mais dez minutos, e assim se passa uma tarde bem passada.

O problema é que eu preciso de usar aquela porra daquelas máquinas! E ainda por cima só demoro um quarto de hora!

Mas com o senhor Nereida Gallardo a passear-se à frente do espelho, sempre seguido de perto pelas suas duas concubinas, torna-se muito difícil!

Claro que podia aproveitar um desses momentos narcísicos de auto-contemplação para fazer o meu exercício num instante. Mas como ele deixa mais ou menos um Fernando Mendes em peso de cada lado do haltere, teria de retirar aquilo tudo disco a disco para poder levantar os meus quarenta quilinhos da praxe. Raisparta o miúdo, pá!

Outra coisa que me irrita nele é a atitude durante o banho. Não que costume tomá-lo com ele, Deus me livre e guarde, mas a verdade é que ele também não o toma sozinho. Toma-o na companhia de um dos seus lacaios e deve ser à vez porque não é sempre o mesmo. Eu nem acredito que façam porcarias na cabine do duche, até quero crer do fundo do coração que é para poupar tempo porque naquela estrumeira de ginásio que partilhamos só há mesmo dois chuveiros. Mas ainda assim é muito esquisito. Mesmo muito... E principalmente porque passam o tempo todo a cantar, a gritar e a imitar sons de bichos selvagens. A alguns pode ser apenas a estupidez característica da idade mas eu temo que seja algo substancialmente pior.

Reparei também que tanto ele como os outros tomam banhinho de calções. Abençoados. Deve ser a maneira de se convencerem que não há nada gay em partilharem um espaço de um metro e meio quadrado enquanto ensaboam braços, pernas e seios. Meio metro quadrado esse que, partilhado com um boizanas como o nosso amigo fica bastante mais apertado... Mas não há nada de rabiças nesse momento, não senhor... Como poderia haver se estão a usar calções?

Bom, esta conversa está a deixar-me mal disposto.

Eu só queria chegar, cumprir o meu plano de treino e voltar rapidamente para casa.
Para a minha vida cristã, junto da minha mulher, dos meus gatos e dos meus valores morais inflexíveis.

Dispensava de bom grado todo aquele freakshow. Ainda por cima proporcionado por um sujeito que se quisesse me esmagava o crânio com dois dedos do pé.

Todavia, ele tem seios de mulher e eu, até ver, ainda não.
Por isso, parece-me que estou melhor assim.