Às vezes sinto que vivo numa qualquer espécie de paraíso...
Parece que morri algures sem dar por isso e que agora ando a flutuar num sítio calmo e agradável, ao som de flautas de Pan. Assim como uma libelinha mas sem a homossexualidade adjacente.
Na rua onde moro há civismo, há educação, há higiene.
Isto para mim é uma grande novidade, principalmente para alguém que veio directamente da Rua da Venezuela em Benfica. Aí, a par de um vizinho bovino que obtinha uma espécie de prazer mórbido em alancar com estuque nos cornos sempre que eu falava um bocadinho mais alto, tive ainda de aturar os marginais da paragem de autocarro, o violador de Telheiras, o biltre que me riscou o carro sem motivo algum e o indiano que passava o dia inteiro sentado numa esplanada manhosa a mamar imperiais, umas atrás das outras, como se não houvesse amanhã, sem apresentar o mínimo sinal de embriaguez. Isto, entre muitas outras personagens e episódios, convém deixar claro. Benfica foi para mim um misto entre circo dos horrores e musical do La Féria: bimbo, aterrador e, muitas vezes, completamente absurdo.
Se aquela rua fosse um programa televisivo seria com certeza apresentado pelo João Baião, numa das suas farpelas pejadas de lantejoulas, com uma bailarina Mamaré de cada lado. Enfim, um espectáculo degradante, diga-se.
Mas era a isto que eu estava habituado e agora, apesar de bastante feliz, não nego que me faz falta uma certa dose de bizarria no meu quotidiano. É assim como uma pitada de piri-piri no café com leite: não é suposto lá estar mas dá pica na mesma.
Antes de me mudar para Benfica, onde vivi dois anos e meio com a minha querida mulher e onde ia arruinando as nossas poupanças num certo restaurante de sushi (mas isso é outra história...), vivi toda a minha vida na casa dos meus pais perto do Arco do Cego. A rua onde habitávamos era, e é, tranquila, mas tinha também a sua generosa dose de cromos, de indigentes e de malta estranha no geral. Aquilo que em Benfica me irritava profundamente (estava farto daquela canalhada toda!) aqui até me divertia... E acabava por ser combustível para piadas e teatros que fazíamos alegremente em família, mais tarde, quando chegávamos a casa.
Ontem, quando vi a notícia de que o governo queria fechar a Maternidade Alfredo da Costa lembrei-me de uma dessas personagens no limiar da insanidade que ainda mora na rua dos meus pais e que, não sei se feliz ou infelizmente, não mete as patas na praceta onde vivo na actualidade. Um indivíduo chamado Jean Jacques.
Na verdade, ninguém tem bem a certeza se ele se chama assim. Sei que um dia olhei para o interior do carro dele e que havia lá um cartãozinho com o nome... Na altura, pareceu-me francês e como provavelmente me esqueci qual era logo depois de o ler, baptizei-o com um dos maiores clichés gauleses no que toca a nomenclaturas... Portanto, ficou Jean Jacques e ficou muito bem.
O Jean Jacques é um indivíduo já com os seus cinquenta anos que anda TODOS OS DIAS DO ANO, faça chuva ou faça sol, de calções.
Ostenta um corte de cabelo à monge franciscano mas sem a parte da careca. Portanto, uma adaptação moderna do penteado que aparenta ter sido feito com a ajuda de uma malga enfiada pela pinha abaixo. No entanto, e convém fazer-se justiça, ele ainda tem cabelo e eu já não tenho muito. Por isso, apesar de maluco nesse aspecto está-me a ganhar.
O Jean Jacques, há vinte anos atrás, tinha três carros... Passado dez anos já só tinha dois. E neste momento já só tem um, reduzido à carroçaria. O homem aprecia bastante arruinar as viaturas enquanto acredita que as está a "arranjar". Como é que ele as chegou a ter em primeiro lugar dado que nunca trabalhou, perguntam vocês? Algo a ver com uma tia e com heranças... Nunca percebi muito bem mas também nunca me interessou.
O método de "arranjo de carros" utilizado por Jean Jacques era um misto de revolucionário e de idiota. A primeira coisa que fazia era arrancar tudo o que fosse plásticos do interior dos automóveis. Não sei se era uma espécie de fobia pessoal ou se ele achava que os plásticos falavam com ele... A verdade é que assim que lhes punha as unhas, era descascar portas e tablier até ficar só metal. Depois, começava a tapar os buracos deixados pela ferrugem (sim, eram viaturas de qualidade) com o material mais resistente e adequado para o efeito que existia no mercado: o BETÃO.
Mas isto era o que se podia considerar, o ofício de Jean Jacques.
Uma vez, a minha mãe, ainda acreditando que existiam vestígios de sanidade naquela cabeça de falso franciscano, pediu-lhe que lhe aplicasse umas escovas novas no limpa pára-brisas do carro dela. E ele, chegando-se à frente com uma voluntariedade ímpar, partiu-lhe aquela merda toda num abrir e fechar de olhos. Era assim que ele operava, e era assim que as pessoas o conheciam.
Nos tempos livres, Jean Jacques fazia sempre o mesmo: fazer surf e coleccionar lixarada. Era um homem de paixões simples mas sempre de uma grande entrega.
Muitas e muitas vezes o vi agarrado a uma prancha a caminho da camioneta que o levaria à Costa da Caparica. Vivia maravilhado com a claridade das dunas, o cheiro a maresia, o embalar quase materno da ondulação. Ele não se coíbia de nos falar deste seu amor até aos nossos ouvidos fazerem sangue... Era chato comá putaça, graças a Deus. Quando nos apanhava na rua começava uma conversa do nada, como se tivessemos acordado de um transe e estivessemos já a meio de uma discussão que durava há horas. Falava-nos dos infinitos benefícios do surf e o bem que lhe fazia à saúde. Quando estava bom tempo era do melhor e quando estava frio ele não se atrapalhava. Levava vestidas duas camisolas de lã grossa por causa das coisas. E a verdade é que nunca o vi constipado.
A prancha, essa, tinha de ser de esferovite. Só material do melhor para este menino.
Caso contrário podia fugir do seu controlo e bater-lhe com força na cabeça... E se há coisa que Jean Jacques não podia arriscar perder era aquilo que ele acreditava ser o seu bom juízo.
Havia quem dissesse que o homem não apanhava camioneta nenhuma, que era tudo mentira. Ia com a prancha até ao jardim da Casa da Moeda e lá ficava sentado num banco a tarde toda a falar com os polegares. Mas lá está, nunca pude comprovar portanto até ver não passam de boatos.
Se o surf tinha este importante papel na sua rotina já recolher lixo dos passeios não era digno de menor afecto. Consegui espreitar um dia pela janela da sua casa e havia tralha até ao tecto. Cartões, electrodomésticos usados, caixas, peças de todos os tamanhos e feitios... havia de tudo naquele barraco menos uma limpeza semanal. Muitas e muitas vezes vinha ele da feira da ladra carregado de computadores velhos e de livralhada, coisas que ele inventava para gastar o dinheiro. Gostava de falar das suas invenções e das suas ideias inovadoras. Ideias essas que eram invariavelmente um suceder alucinante de palhaçada.
Um dia, apareceu na rua com a cara coberta de natas a pingar para o chão. Aproximou-se orgulhosamente dos meus pais a dizer que aquilo fazia muito bem à pele, que era uma espécie de projecto que ele estava a desenvolver. Era com este tipo de assuntos que ele gostava de abordar as pessoas e deixá-las num misto de desconforto e pânico.
Outra altura houve em que Jean Jacques apregoava as virtudes de "andar" na saúde humana. Tinha lido uma qualquer entrevista com a Rosa Mota (sim, porque nada melhor do que uma criatura que se assemelha a um esqueleto ambulante para servir de guru da "boa vida") e que, de acordo com as suas contas, todas as pessoas deviam andar cerca de 18 horas por dia. E batia-se com esta estupidez como se a sua existência dependesse disso... Abençoado.
Ora, quando vi na televisão que tencionam fechar a mais emblemática maternidade lisboeta, e quem sabe do país, o meu pensamento imediato foi: "MAS COMO É QUE O JEAN JACQUES CHEGOU AO GOVERNO?!"
Porque isto cheira-me a ideia genial lá do bicho.
Ou dele ou de indivíduos do mesmo calibre...
Mas enquanto cidadão não escondo o meu desconforto em ser governado por gente que na intimidade enche a cara com natas, se lança ao mar com pranchas de esferovite e emplastra chaços com cimento... Se é para perdermos de vez a identidade nacional então mais vale fazer algo ainda mais revolucionário como prender de vez governantes criminosos como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro ou Isaltino Morais... Isso sim, era caso para pararmos tudo e chegarmos à conclusão que estávamos a deixar de ser Portugal. Agora fechar o raio da Maternidade, às tantas nem a besta do Jean Jacques nos seus sonhos mais mórbidos se lembraria de tal coisa.
Neste momento, vivo num sítio demasiado normal mas não nego que sinto falta de pequenas idiossincrasias inofensivas... Não encontro idiotas na minha rua mas basta ligar a televisão e lá estão eles. A decidir por mim e pelos meus, muitas vezes contrariamente àquilo que prometeram.
Assim, antes o Jean Jacques que não fazia mal a ninguém...
Excepto à minha mãe que teve de comprar uns limpa pára-brisas novos.
Wednesday, April 11, 2012
Friday, March 9, 2012
Melhor assim
Há uns meses atrás, confessei neste mesmo blog, nomeadamente aqui, que tinha começado a ir ao ginásio. Não que este invólucro estupendo a que chamo de corpo não seja já de si perfeito mas enfim, cheguei à conclusão que uma boa maneira de gastar o tempo livre era correr em cima de um tapete rolante que não sai do sítio e acartar com pesos que não precisam de ir a lado nenhum. É portanto deste nível de estupidez que estamos a falar.
Ok, estava um bocado gordo e resolvi tomar uma atitude. Neste momento continuo gordo mas ao menos estou mais rijo. A olho nu pode não fazer grande diferença mas a mim dá-me grande satisfação saber que agora já posso ir para a frente das manifestações chamar nomes feios às mães dos polícias sem que as balas de borracha me aleijem. Não é coisa que alguma vez tenha feito ou que tencione fazer mas ainda assim... agora é uma hipótese.
A brincar a brincar já lá estou há mais de meio ano, a ir duas vezes por semana, e já consegui que o monitor me tratasse por tu (para perceber esta, lamento mas é mesmo preciso ler o texto anterior). Não sei se ele foi à minha ficha e percebeu que não nasci nos anos sessenta como originalmente pensava ou se os meus esforços por usar o vocabulário da malta nova deram resultado. Se assim foi, os meus agradecimentos aos génios criativos que inventaram palavras como "Mámen", "baril", "tótil" e "fónix". Bem hajam.
Ora, como em todos os sítios, há coisas que gosto e outras que não gosto no ginásio que frequento. Gosto do sentimento com que fico depois de sair de lá. Não aquele com que vou para lá, não tudo o que sinto durante o tempo de tort... de exercício mas depois, quando já estou com a malinha às costas e a abandonar o edifício. Saio sempre com uma noção de dever cumprido, como se tivesse desmantelado uma bomba num orfanato cheio de focas bebés do Ártico. Também orfãs, claro está. E a magia da coisa é que não preciso de fazer nada tão complicado para ficar com aquele sentimento de "campeão". Basta-me passar hora e meia a arfar como um boi cavalo e a questionar-me se o formigueiro no braço esquerdo é a morte que se aproxima ou apenas comichão. Portanto, isto é claramente um aspecto positivo.
Claro que há a saúde e todas essas paneleirices... Mas como eu acredito que daqui a vinte anos vamos ser todos metade robôs, tendo substituido as partes podres do nosso corpo por maravilhas da tecnologia capazes de as imitar e até superar, não é com certeza por isso que me presto a todo aquele sofrimento. E digo sofrimento porque aquilo que eu passo não se limita apenas às sevícias auto-infligidas... Não há minuto de treino que não esteja a odiar alguém. Sim, ODIAR.
Sei bem a força que a palavra tem e também sei que não há grande razão para ser aplicada a desconhecidos, a menos que tenham feito mal à nossa família ou sejam adeptos do FCP. Mas a verdade, e não me orgulho disso, é que realmente aquela malta me dá a volta aos nervos... E principalmente um indivíduo em particular...
Antes de mais, que fique bem claro que não tenho absolutamente nada contra a homossexualidade. Aliás, acho que já aqui o referi várias vezes. Só há duas coisas que me enervam na onda gay: quando há palhaçada e quando o sujeito ou sujeita em questão não são necessariamente gays mas fazem toda uma panóplia de coisas dessa mesma natureza sem se aperceberem. Assim, segundo este contexto, aqui vai uma pequena lista de coisas que me enervam no tipo que vos falo:
- o corte de cabelo à bailarino (aquele que é mais curto dos lados e deixa uma franja frisada a bambolear à frente dos olhos, como se se transportasse um esquilo morto emplastrado na testa).
- a musculatura desnecessária (já não ambicionamos tomar terras aos mouros, é preciso que se saiba...)
- a camisola de alças de spandex.
- o facto de estar sempre acompanhado por dois outros indivíduos consideravelmente mais enfezados, para quem com certeza é qualquer coisa de Deus Apolo.
- o facto de monopolizar durante horas duas das máquinas que estão no meu plano de treino.
- a estupidez característica da adolescência.
- os seios.
...
Sim, os seios.
Não se enquadra com o resto da descrição, pois não? Mas é verdade, meus amigos.
O rapaz faz concorrência à Samantha Fox nos seus anos dourados.
E isso provoca-me muita espécie.
Calculo que haja uma fase durante o crescimento, principalmente naquele que envolve treino de musculação diário como o imberbe faz, em que se chega a um ponto em que se tem de optar entre continuar a desenvolver os músculos do peito ou procurar emprego como ama de leite. Se fosse eu escolheria a primeira opção, mas ele claramente optou pela segunda.
Seios!
Atenção que estou a falar de copa D para cima. E cada mês que passa a coisa piora um pouco.
Neste momento, e só à conta dos pesos, o rapaz pode orgulhar-se de ter mais mamas do que a Cameron Diaz, a Keira Knightley e a Kylie Minogue todas juntas. Agora pensando bem, talvez isso não seja bem motivo de orgulho mas ainda assim não deixa de ser verdade.
Seios!
Escusado será dizer que com a costumeira camisola de alças de spandex, e tendo a sensatez e a vergonha na cara de ainda não usar sutiã, aquilo salta e pulula à vista de todos num espectáculo de luz e cor a que nenhum ser humano com um pingo de bondade no coração devia ter de assistir.
Mas o rapaz gosta do look. E, ao que parece, aqueles que o acompanham também gostam.
Mal ele chega ao local de treino assenta logo arraiais nas duas máquinas que me interessam, com os companheiros aos pulinhos atrás de si. Como tem a compleição física de um gorila prateado trata logo de apetrechar os halteres com qualquer coisa como uma meia dúzia de toneladas de cada lado, perante a excitação dos tais companheiros. Depois, a rotina é sempre a mesma: levanta duas vezes, admira-se ao espelho durante dez minutos, levanta mais duas vezes, mete os seios para dentro da camisola de spandex e admira-se ao espelho durante mais dez minutos, e assim se passa uma tarde bem passada.
O problema é que eu preciso de usar aquela porra daquelas máquinas! E ainda por cima só demoro um quarto de hora!
Mas com o senhor Nereida Gallardo a passear-se à frente do espelho, sempre seguido de perto pelas suas duas concubinas, torna-se muito difícil!
Claro que podia aproveitar um desses momentos narcísicos de auto-contemplação para fazer o meu exercício num instante. Mas como ele deixa mais ou menos um Fernando Mendes em peso de cada lado do haltere, teria de retirar aquilo tudo disco a disco para poder levantar os meus quarenta quilinhos da praxe. Raisparta o miúdo, pá!
Outra coisa que me irrita nele é a atitude durante o banho. Não que costume tomá-lo com ele, Deus me livre e guarde, mas a verdade é que ele também não o toma sozinho. Toma-o na companhia de um dos seus lacaios e deve ser à vez porque não é sempre o mesmo. Eu nem acredito que façam porcarias na cabine do duche, até quero crer do fundo do coração que é para poupar tempo porque naquela estrumeira de ginásio que partilhamos só há mesmo dois chuveiros. Mas ainda assim é muito esquisito. Mesmo muito... E principalmente porque passam o tempo todo a cantar, a gritar e a imitar sons de bichos selvagens. A alguns pode ser apenas a estupidez característica da idade mas eu temo que seja algo substancialmente pior.
Reparei também que tanto ele como os outros tomam banhinho de calções. Abençoados. Deve ser a maneira de se convencerem que não há nada gay em partilharem um espaço de um metro e meio quadrado enquanto ensaboam braços, pernas e seios. Meio metro quadrado esse que, partilhado com um boizanas como o nosso amigo fica bastante mais apertado... Mas não há nada de rabiças nesse momento, não senhor... Como poderia haver se estão a usar calções?
Bom, esta conversa está a deixar-me mal disposto.
Eu só queria chegar, cumprir o meu plano de treino e voltar rapidamente para casa.
Para a minha vida cristã, junto da minha mulher, dos meus gatos e dos meus valores morais inflexíveis.
Dispensava de bom grado todo aquele freakshow. Ainda por cima proporcionado por um sujeito que se quisesse me esmagava o crânio com dois dedos do pé.
Todavia, ele tem seios de mulher e eu, até ver, ainda não.
Por isso, parece-me que estou melhor assim.
Tuesday, February 28, 2012
De fronha lavada
Pois é, vai-se a ver e este blogue decidiu tomar banho.
Já era altura e os blogues vizinhos começavam a queixar-se do cheiro a bedum.
Como tal, decidi dar-lhe uma ensaboadela com sabão macaco (ironia das ironias) e ditar novas regras para não se passar o mesmo de Futuro.
Primeiro, passa a ter um cabeçalho espectacular feito pelo meu bom amigo e valoroso artista Pedro Carvalho. Pedro esse que tem neste preciso momento um perú recheado a caminho, via CTT, como agradecimento por esta pérola.
Segundo, acho que me vai apetecer variar um bocado as coisas que vou chutando para aqui... É capaz de deixar de ser pura e exclusivamente os textos do costume para ter outros textos mais curtos, umas tiras de BD que andava a fazer e quem sabe até fotos de cachorrinhos.
...
Ok, esqueçam os cachorrinhos.
...
Por falar em animais de estimação, é cada vez mais evidente que o meu gato bate na minha gata e não a deixa comer, nem beber, nem descansar em paz.
É muito controlador.
Amanhã ligo p'ra APAV.
Ou então ponho-lhe Dulcolax na ração.
Há-de ser uma das duas.
Wednesday, February 15, 2012
Problema sério é isto
Antes que digam alguma coisa, tenho andado desaparecido já sei...
Escusam de bater no ceguinho que isto do tempo perdido já não se recupera, portanto vamos é recomeçar de onde estávamos, sim?
O que aconteceu foi que durante umas semanas a vida deixou de ter piada. Assim, tal qual.
Uma série de eventos infelizes assassinou-me o sorriso do rosto sem dó nem piedade. Mas passada a tormenta, o "Duarte Lima dos sorrisos" foi detido (apenas uma inteligente metáfora, o que se passou nada teve a ver com Maricá) e a alegria voltou a fluir na cabecinha aqui do vosso amigo. O que para muita gente estava a ser um merecido descanso assim termina e dá lugar ao chorrilho de patacoadas do costume. É a vidinha, caríssimos.
Ora bom, há semanas a nossa amiga Moody's baixou o rating de Portugal (surpresa chocante) para um nível de "lixo" ainda mais subterrâneo. Além disso, constatei que estou cada vez mais careca. Portanto, que se lixe a economia que eu tenho problemas sérios com que me preocupar.
Estou cada vez mais calvo e isso é uma coisa que me chateia solenemente. Principalmente porque não faz sentido o ser humano perder pêlo na cabeça, dado que é das poucas zonas do corpo que se mantêm quase sempre a descoberto, ao contrário do resto que costuma estar tapado (atenção que esta regra é apenas aplicável a todos os seres humanos que não são a Ana Malhoa, a Cicciolina ou o João Jardim). Portanto, a mensagem que fazemos passar aos nossos genes é que de facto JÁ NÃO PRECISAMOS de pêlo no tronco e nos membros porque entretanto arranjámos roupa para nos aquecer e proteger do mosquedo. Por outro lado, na cabeça precisamos, porque além de tapar o sol e enganar o frio também serve para nos dar o chamado style. Ninguém no seu perfeito juízo se preocupa em fazer permanentes nas pernas ou trancinhas nos pêlos das costas, pois não? Então...
O povo diz que "é dos carecas que elas gostam mais".
Mas, como é sabido, o povo é estúpido. Portanto, fico na mesma.
É verdade que a minha mulher diz que gosta de mim assim mas também não é menos verdade que cada ano que passa está mais míope. Eu podia sabotar as idas dela ao oftalmologista mas prefiro untar-lhe convenientemente as lentes dos óculos com graxa sempre que ela não está por perto para perpetuar a boa imagem que ainda tenho junto dela. Não me interpretem mal, bem sei que a verdadeira beleza está no interior das pessoas. Mas esta regra só se aplica se as pessoas não forem carecas.
Quando era adolescente tinha pavor de perder o cabelo. Diziam-me que se o deixasse crescer como queria, cedo enfraqueceria e cairia. Eu não ouvi estes sábios conselhos e adoptei visuais, na falta de melhor termo, super espectaculares! Cabelo pelos ombros, rabo de cavalo, fita na cabeça, you name it... E foi precisamente quando me cansei de brincar às Spice Girls e comecei a rapar o cabelo à homem que comecei a ficar sem ele. Portanto, vocês façam a porra da matemática!
Esta teoria do cortar o cabelo para não se ficar careca é verdadeiramente parva. Assim como são parvas as ampolas, os tratamentos e os champôs especiais... Aceitem que quando o puto nasce já lhe está escrito na tromba que mais tarde irá ter um coro cabeludo igual àquele com que veio ao mundo. E tudo mais, lá diz a canção, são tretas.
Há uns tempos atrás, em conversa com amigos, cheguei à conclusão que a calvície está directamente ligada à virilidade do indivíduo. Ou seja, não há homossexuais carecas. Eu sei que parece ser uma declaração bombástica, principalmente para os mais desatentos, mas se não concordam basta pensarem um pouco e dizerem um.
- George Michael: cabeludo.
- Ricky Martin: cabeludo.
- O puto dos Tokyo Hotel: cabeludo.
- Os tipos que bebem descafeinados: cabeludos.
...
As excepções contam-se pelos dedos da mão de um amputado, senhores.
Eu sei que estes factos irrefutáveis deviam fazer-me sentir melhor mas nem por isso... De qualquer maneira, eu sei que tenho de olhar para isto como uma etapa natural da vida. Ainda assim há malta sem cabelo que consegue ter charme e estilo. Mas, por muito que me esforce, a verdade é que não sou nenhum Jason Statham, nenhum Bruce Willis, nenhum José Raposo... Tenho de assumir a minha condição e continuar a rapar a cabeça como se estivesse no corredor da morte, para não ficar ridículo. É esta a minha vida e devo gostar dela assim.
Mas faço-o sob protesto!
Porque me custa viver numa sociedade que dedica parte das suas preocupações, ainda que pequena, à preservação das espécies em perigo e à prevenção do aquecimento global mas é incapaz de fazer com que um tipo deixe de ser careca! Ficam revoltados que se acabe com o Ministério da Cultura mas ninguém levanta a voz por não haver um Ministério da Calvície, totalmente dedicado à resolução deste flagelo. Toda a gente fala em minorias mas ninguém olha para esta! E depois admiram-se que venha a Moody's baixar-nos o rating!
Porque, para haver uma revolução é preciso virilidade.
E a virilidade, como comprovado há pouco, está nos carecas.
Portanto, é altura de deixar de me preocupar e ir ali olear a arma.
O povo diz que "é dos carecas que elas gostam mais".
Mas, como é sabido, o povo é estúpido. Portanto, fico na mesma.
É verdade que a minha mulher diz que gosta de mim assim mas também não é menos verdade que cada ano que passa está mais míope. Eu podia sabotar as idas dela ao oftalmologista mas prefiro untar-lhe convenientemente as lentes dos óculos com graxa sempre que ela não está por perto para perpetuar a boa imagem que ainda tenho junto dela. Não me interpretem mal, bem sei que a verdadeira beleza está no interior das pessoas. Mas esta regra só se aplica se as pessoas não forem carecas.
Quando era adolescente tinha pavor de perder o cabelo. Diziam-me que se o deixasse crescer como queria, cedo enfraqueceria e cairia. Eu não ouvi estes sábios conselhos e adoptei visuais, na falta de melhor termo, super espectaculares! Cabelo pelos ombros, rabo de cavalo, fita na cabeça, you name it... E foi precisamente quando me cansei de brincar às Spice Girls e comecei a rapar o cabelo à homem que comecei a ficar sem ele. Portanto, vocês façam a porra da matemática!
Esta teoria do cortar o cabelo para não se ficar careca é verdadeiramente parva. Assim como são parvas as ampolas, os tratamentos e os champôs especiais... Aceitem que quando o puto nasce já lhe está escrito na tromba que mais tarde irá ter um coro cabeludo igual àquele com que veio ao mundo. E tudo mais, lá diz a canção, são tretas.
Há uns tempos atrás, em conversa com amigos, cheguei à conclusão que a calvície está directamente ligada à virilidade do indivíduo. Ou seja, não há homossexuais carecas. Eu sei que parece ser uma declaração bombástica, principalmente para os mais desatentos, mas se não concordam basta pensarem um pouco e dizerem um.
- George Michael: cabeludo.
- Ricky Martin: cabeludo.
- O puto dos Tokyo Hotel: cabeludo.
- Os tipos que bebem descafeinados: cabeludos.
...
As excepções contam-se pelos dedos da mão de um amputado, senhores.
Eu sei que estes factos irrefutáveis deviam fazer-me sentir melhor mas nem por isso... De qualquer maneira, eu sei que tenho de olhar para isto como uma etapa natural da vida. Ainda assim há malta sem cabelo que consegue ter charme e estilo. Mas, por muito que me esforce, a verdade é que não sou nenhum Jason Statham, nenhum Bruce Willis, nenhum José Raposo... Tenho de assumir a minha condição e continuar a rapar a cabeça como se estivesse no corredor da morte, para não ficar ridículo. É esta a minha vida e devo gostar dela assim.
Mas faço-o sob protesto!
Porque me custa viver numa sociedade que dedica parte das suas preocupações, ainda que pequena, à preservação das espécies em perigo e à prevenção do aquecimento global mas é incapaz de fazer com que um tipo deixe de ser careca! Ficam revoltados que se acabe com o Ministério da Cultura mas ninguém levanta a voz por não haver um Ministério da Calvície, totalmente dedicado à resolução deste flagelo. Toda a gente fala em minorias mas ninguém olha para esta! E depois admiram-se que venha a Moody's baixar-nos o rating!
Porque, para haver uma revolução é preciso virilidade.
E a virilidade, como comprovado há pouco, está nos carecas.
Portanto, é altura de deixar de me preocupar e ir ali olear a arma.
Friday, January 6, 2012
Vai tudo correr bem
Ora então feliz ano novo, com muita saúde e alegria, e que ao contrário do que se diz ou prevê 2012 seja um ano de viragem e que traga só coisas boas.
...
Todos sabemos que é aldrabice mas não nos custa nada manter o teatrinho e fazer de conta que acreditamos nisto.
Se há coisa que o ser humano faz bem, além de violar crianças pequenas e matar focas à paulada, é fazer de conta. Mas por muito que isso aconteça, a verdade é que - e não sei se já reservaram o fim do mundo para Novembro ou não - merecemos o que quer que aí venha acertar contas connosco. E eu sei do que falo porque isto do fim do mundo tem sido uma obsessão valente para mim...
Há uns anos atrás, estava eu em casa sem nada de especial para ocupar o meu tempo quando decidi que o melhor e mais sensato era assistir a um documentário sobre Nostradamus e as suas profecias no canal História. Não se passaram vinte minutos até estar deitado em posição fetal, debaixo da minha própria cama e sobre uma pilha de fezes, a fazer contas ao tempo que ainda me restava. Depois de recuperar do choque inicial, passei por uma fase de investigação que incluiu horas na net em fóruns repletos de "weirdos", conversas e debates com toda uma panóplia de indivíduos nem sempre na plena posse das suas capacidades mentais e até o confronto quase violento com um índio maia autêntico.
Sim, isto aconteceu.
Quando estive no México virei-me para o tipo e perguntei-lhe que trapalhada era aquela, como se a culpa fosse dele. A resposta foi apaziguadora mas pouco conclusiva: disse que era o fim de uma era temporal (uma espécie de balancete e fecho de contas) e que logo a seguir se iniciaria uma nova. Que não era nada que devesse temer e que os bandalhos de Hollywood é que estavam a tentar explorar o conceito até ao último dólar. Sim, tudo bem, mas...
... E O NOSTRADAMUS???!!!!
Onde é que aquele macaco foi buscar teorias que batem nas do raio dos índios?! Copiou?! Como é que um alquimista francês do século XVI sabia o que se andava a escrever nas pedras do outro lado do mundo?! E porque é que raio é que não se vêem alquimistas nos dias de hoje? A malta nova não quer pegar nisso? Porque é que não há licenciaturas em alquimia nas nossas universidades? E depois não querem que haja desemprego...
Bom, como claramente o meu guia mexicano nada sabia acerca de Nostradamus, não o incomodei mais com perguntas e deixei-o sossegado. Talvez tenha feito mal, se calhar devia ter insistido até que chegar a uma conclusão definitiva, mas escolhi ficar na dúvida... E assim vou passar todo este torturante ano até saber o desfecho das coisas.
Mas também, convenhamos, o que é o fim do mundo?
Eu costumo andar de cabeça rapada. Dá-me style.
E também como já não tenho muito cabelo poupo-me ao ridículo de andar a imitar o Donald Trump por São Domingos de Rana, onde trabalho. Até porque Trump e São Domingos são coisas que não combinam, tipo queijo ralado e mousse de chocolate. Mas estou a divagar...
Quem me costuma rapar o pêlo é a minha mulher e num destes dias ela não estava em casa. Como eu queria o cabelo rapado decidi fazê-lo sozinho pela primeira vez até perceber que não era capaz de o fazer em condições. Como a maioria dos comuns mortais tenho especial dificuldade em chegar com a máquina a todos os pontos da cabeça e não entendo como certos freaks conseguem fazê-lo. Fiquei com a cabeça coberta de tufos, alguns maiores do que outros, alguns agarrados ao coro cabeludo, outros pendentes, como um psicopata esquizofrénico ou um texugo com lepra. Mas deixei-me estar porque sabia que ela ia chegar mais hora menos hora e finalizar o serviço em condições. Pus-me a secar a loiça e tudo. Até que ouvi um ruído nas escadas, junto ao meu patamar...
E me lembrei...
... que se alguem batesse à porta eu estaria completamente e "contranaturamente" FORNICADO!
As opções não eram muitas e as que haviam não era geniais.
Caso alguém batesse à porta, eu podia...
1.
Não abrir e ficar em silêncio como um troll assassino, à espera que a pessoa desistisse e fosse embora. Isto seria particularmente estranho dado que eu andava a fazer barulho com os pratos e as luzes estavam acesas. Se fosse algum tipo da TV Cabo deixava-o carregar no botão até fazer sangue mas se algum vizinho precisasse de alguma coisa era chato deixá-lo a tocar sabendo que havia gente em casa. Uma vez mais, preocupo-me porque já não moro no prédio de Benfica. Na altura, se me batessem à porta a pedir ajuda porque tinham a casa a arder eu era o primeiro a ir ao talho comprar costeletas para fazer um churrasco.
2.
Abrir a porta de boné ou com qualquer outro chapéu colocado na pinha (penso que de todas opções o boné ainda é o menos ridículo). Mas quem é que anda em casa de boné às oito da noite??? Penso que se algum vizinho me visse assim rapidamente a minha reputação no prédio mudaria para "aquele rapaz deficiente do último andar que mora com a irmã" ou alguma coisa do género...
3.
Abrir a porta e esperar que fosse o vizinho a sentir-se desconfortável por ter incomodado uma pessoa visivelmente doente. Pensando bem, esta acabava mesmo por ser a melhor opção porque habitualmente com o sentimento de pena vem uma valente dose de solidariedade. Talvez começasse a ser usual virem oferecer-me tachos de sopa, mantinhas e algo mais que me ajudasse a passar um Inverno quentinho... Acabou por ser uma oportunidade perdida.
Feitas as contas, foi falso alarme. Ninguém tocou e a coisa ficou por ali. A minha mulher chegou a casa, aterrorizou-se com a minha figura decrépita mas rapidamente tratou do assunto.
Agora, fim do mundo que se preze para mim é isto. É um gajo aperceber-se que fez uma coisa de tal maneira estúpida que aconteça o que acontecer o normal é pagar a factura com tamanhos juros que a vida nunca mais há-de ser igual.
No fundo, é isso que nos espera a todos.
Mas ao invés da credibilidade no prédio em que moramos e dos vizinhos se rirem de nós nas costas, o risco é mesmo isto tudo dar o berro.
2011 teve muitas coisas más: guerra, fome, corrupção, as consequências disso tudo... Também teve coisas boas como terem limpado o sêbo ao Carlos Castro mas infelizmente isso não chega. Era preciso ter-se feito mais em prol da humanidade para contrabalançar.
2012 promete toda esta bandalheira e muito mais, como a sequela de um filme chunga do Van Damme. Eu nem me importo porque até aprecio bandalheira mas o que me continua a lixar é o ordinário do Nostradamus que me está aqui preso no goto. Tenho-lhe cá uma sede que se o apanho meto-lhe a alquimia onde o sol não brilha...
Enfim, pode não parece mas até estou bem disposto.
E, desde que não me ponha a ver o canal História, vai tudo correr bem.
...
Todos sabemos que é aldrabice mas não nos custa nada manter o teatrinho e fazer de conta que acreditamos nisto.
Se há coisa que o ser humano faz bem, além de violar crianças pequenas e matar focas à paulada, é fazer de conta. Mas por muito que isso aconteça, a verdade é que - e não sei se já reservaram o fim do mundo para Novembro ou não - merecemos o que quer que aí venha acertar contas connosco. E eu sei do que falo porque isto do fim do mundo tem sido uma obsessão valente para mim...
Há uns anos atrás, estava eu em casa sem nada de especial para ocupar o meu tempo quando decidi que o melhor e mais sensato era assistir a um documentário sobre Nostradamus e as suas profecias no canal História. Não se passaram vinte minutos até estar deitado em posição fetal, debaixo da minha própria cama e sobre uma pilha de fezes, a fazer contas ao tempo que ainda me restava. Depois de recuperar do choque inicial, passei por uma fase de investigação que incluiu horas na net em fóruns repletos de "weirdos", conversas e debates com toda uma panóplia de indivíduos nem sempre na plena posse das suas capacidades mentais e até o confronto quase violento com um índio maia autêntico.
Sim, isto aconteceu.
Quando estive no México virei-me para o tipo e perguntei-lhe que trapalhada era aquela, como se a culpa fosse dele. A resposta foi apaziguadora mas pouco conclusiva: disse que era o fim de uma era temporal (uma espécie de balancete e fecho de contas) e que logo a seguir se iniciaria uma nova. Que não era nada que devesse temer e que os bandalhos de Hollywood é que estavam a tentar explorar o conceito até ao último dólar. Sim, tudo bem, mas...
... E O NOSTRADAMUS???!!!!
Onde é que aquele macaco foi buscar teorias que batem nas do raio dos índios?! Copiou?! Como é que um alquimista francês do século XVI sabia o que se andava a escrever nas pedras do outro lado do mundo?! E porque é que raio é que não se vêem alquimistas nos dias de hoje? A malta nova não quer pegar nisso? Porque é que não há licenciaturas em alquimia nas nossas universidades? E depois não querem que haja desemprego...
Bom, como claramente o meu guia mexicano nada sabia acerca de Nostradamus, não o incomodei mais com perguntas e deixei-o sossegado. Talvez tenha feito mal, se calhar devia ter insistido até que chegar a uma conclusão definitiva, mas escolhi ficar na dúvida... E assim vou passar todo este torturante ano até saber o desfecho das coisas.
Mas também, convenhamos, o que é o fim do mundo?
Eu costumo andar de cabeça rapada. Dá-me style.
E também como já não tenho muito cabelo poupo-me ao ridículo de andar a imitar o Donald Trump por São Domingos de Rana, onde trabalho. Até porque Trump e São Domingos são coisas que não combinam, tipo queijo ralado e mousse de chocolate. Mas estou a divagar...
Quem me costuma rapar o pêlo é a minha mulher e num destes dias ela não estava em casa. Como eu queria o cabelo rapado decidi fazê-lo sozinho pela primeira vez até perceber que não era capaz de o fazer em condições. Como a maioria dos comuns mortais tenho especial dificuldade em chegar com a máquina a todos os pontos da cabeça e não entendo como certos freaks conseguem fazê-lo. Fiquei com a cabeça coberta de tufos, alguns maiores do que outros, alguns agarrados ao coro cabeludo, outros pendentes, como um psicopata esquizofrénico ou um texugo com lepra. Mas deixei-me estar porque sabia que ela ia chegar mais hora menos hora e finalizar o serviço em condições. Pus-me a secar a loiça e tudo. Até que ouvi um ruído nas escadas, junto ao meu patamar...
E me lembrei...
... que se alguem batesse à porta eu estaria completamente e "contranaturamente" FORNICADO!
As opções não eram muitas e as que haviam não era geniais.
Caso alguém batesse à porta, eu podia...
1.
Não abrir e ficar em silêncio como um troll assassino, à espera que a pessoa desistisse e fosse embora. Isto seria particularmente estranho dado que eu andava a fazer barulho com os pratos e as luzes estavam acesas. Se fosse algum tipo da TV Cabo deixava-o carregar no botão até fazer sangue mas se algum vizinho precisasse de alguma coisa era chato deixá-lo a tocar sabendo que havia gente em casa. Uma vez mais, preocupo-me porque já não moro no prédio de Benfica. Na altura, se me batessem à porta a pedir ajuda porque tinham a casa a arder eu era o primeiro a ir ao talho comprar costeletas para fazer um churrasco.
2.
Abrir a porta de boné ou com qualquer outro chapéu colocado na pinha (penso que de todas opções o boné ainda é o menos ridículo). Mas quem é que anda em casa de boné às oito da noite??? Penso que se algum vizinho me visse assim rapidamente a minha reputação no prédio mudaria para "aquele rapaz deficiente do último andar que mora com a irmã" ou alguma coisa do género...
3.
Abrir a porta e esperar que fosse o vizinho a sentir-se desconfortável por ter incomodado uma pessoa visivelmente doente. Pensando bem, esta acabava mesmo por ser a melhor opção porque habitualmente com o sentimento de pena vem uma valente dose de solidariedade. Talvez começasse a ser usual virem oferecer-me tachos de sopa, mantinhas e algo mais que me ajudasse a passar um Inverno quentinho... Acabou por ser uma oportunidade perdida.
Feitas as contas, foi falso alarme. Ninguém tocou e a coisa ficou por ali. A minha mulher chegou a casa, aterrorizou-se com a minha figura decrépita mas rapidamente tratou do assunto.
Agora, fim do mundo que se preze para mim é isto. É um gajo aperceber-se que fez uma coisa de tal maneira estúpida que aconteça o que acontecer o normal é pagar a factura com tamanhos juros que a vida nunca mais há-de ser igual.
No fundo, é isso que nos espera a todos.
Mas ao invés da credibilidade no prédio em que moramos e dos vizinhos se rirem de nós nas costas, o risco é mesmo isto tudo dar o berro.
2011 teve muitas coisas más: guerra, fome, corrupção, as consequências disso tudo... Também teve coisas boas como terem limpado o sêbo ao Carlos Castro mas infelizmente isso não chega. Era preciso ter-se feito mais em prol da humanidade para contrabalançar.
2012 promete toda esta bandalheira e muito mais, como a sequela de um filme chunga do Van Damme. Eu nem me importo porque até aprecio bandalheira mas o que me continua a lixar é o ordinário do Nostradamus que me está aqui preso no goto. Tenho-lhe cá uma sede que se o apanho meto-lhe a alquimia onde o sol não brilha...
Enfim, pode não parece mas até estou bem disposto.
E, desde que não me ponha a ver o canal História, vai tudo correr bem.
Tuesday, November 8, 2011
DECLARAÇÃO DE GUERRA AOS MEUS GATOS
Ao oitavo dia do mês de Novembro de 2011, eu, Saguim, declaro por minha honra a abertura das hostilidades para com os dois demónios felinos que habitam em minha residência sem qualquer abertura a negociações ou a diplomacia. Estou em plena posse das minhas faculdades mentais e perfeitamente consciente de que tal confronto provocará casualidades mas estou disposto a correr o risco, a bem da humanidade, da paz no mundo e dos meus sofás.
Por Marte, deus da guerra, prometo que tombarão em batalha! Ai tombarão tombarão!
Esta Declaração é assim dirigida a dois indivíduos de orelhas triangulares, aqueles que, daqui em diante, apelidarei de meus inimigos mortais... ou mais simplesmente de bandalhos.
a) MARISCO. Pelagem branca e cinzenta. Nariz cor de rosa como o de um porco. Barriga proeminente por enfardar como um bruto a ração que trabalho de sol a sol para lhe comprar. Se pudesse ou soubesse como, tenho a certeza que me arrotaria na cara depois de cada refeição, entre outras coisas piores. Tenho documentos que provam que se trata efectivamente do Anticristo embora o Vaticano não queira, porque tem medo, confirmar esta verdade. É manhoso, o c****o! É manhoso! A sua influência na minha vida é fácil de calcular em euros por tudo aquilo que esfrangalha / avacalha propositadamente. A saber, em jeito de inventário, caso seja no futuro condenado a pagar-me uma qualquer indemnização:
1) A porta da cozinha.
2) Três rolos de papel de cozinha e meio.
3) O sofá da sala.
4) O tapete da sala.
5) O batente da porta da sala.
6) A colcha da cama.
7) O batente da porta do quarto
8) O tapete tunisino que tenho na parede.
9) Um outro tapete, mas agora de rato.
10) O teclado do computador da minha mulher.
11) O cabo do meu disco externo.
12) O cabo do transformador da aparafusadora do IKEA.
13) Um lápis, uma caneta e mais material de escritório diverso.
14) O meu sistema nervoso.
Serve a presente missiva também para alertar acerca das tácticas persuasivas do inimigo. É importante ser impermeável ao ronronar e ao aspecto fofo da besta sempre que está "com soninho e quer colo". A total indiferença a esta estratégia vil atribui à partida uma vantagem de 50% no confronto bélico.
Pontos fortes:
- É notavelmente atlético e rápido.
- Tem garras e dentes que aleijam razoavelmente.
- O seu poder de persuação demoníaca pode influenciar a opinião exterior, nomeadamente vizinhos e familiares.
Pontos fracos:
- É burro.
- Não tem lá muita força.
- É brutalmente curioso, lá está, devido à burrice.
Feito este balanço, a vitória deverá ser garantida dentro de poucas semanas, depois de confrontos que adivinho ferozes. O ordinário é burro, disso não resta a mais pequena dúvida. Qualquer pequeno som ou movimento atraem a sua atenção e conduzem-no aos mais variados perigos como uma flauta de Hamelin. O Natal está próximo e a montagem da árvore não promete nada de bom ou de tranquilo. Aproveitando esse facto, regarei o amontoado de piaçabas verdes a que chamo de pinheiro de Natal com querosene e colocarei um rastilho que acenderei em tempo útil. Atraído pelas faíscas, com aquele ar aparvalhado típico das avestruzes (que também não podem ver nada brilhante) que lhe é característico, estou certo que com sorte terei marisco flambé para a ceia. Cheque-mate, eu ganho.
One down, one to go.
b) JACKIE. Pelagem negra. Espírito gótico e/ou satânico. A maior fabricante de pêlo do mundo em título e a principal responsável pela minha casa parecer, ao final de cada semana, uma casa de alterne romena. Em ruínas. Este é, sem sombra de dúvidas, o adversário mais poderoso e difícil de derrotar. Enquanto que o outro palhaço todos os dias me espanta com a sua estupidez e alegria em ser tão mau, esta destrói-me a alma aos poucos e faz-me questionar acerca da minha própria existência, do meu valor como ser humano. O outro arranha-me a mobília, esta arranha-me a psique. Ah e também aprecia mictar e defecar, chamemos-lhe assim, onde bem lhe apetece. E diz-se ela uma senhora. A saber:
1) No sofá da sala.
2) Na banheira.
3) No sofá do escritório.
4) No chão do escritório.
5) Na minha cama (graças a Deus pela capa de colchão impermeável que a minha santa sogra se lembrou de nos oferecer em tempo útil).
Por causa deste morcego dos infernos somos obrigados a viver numa casa com as portas todas fechadas, como um caixão com assoalhadas. Por causa desta coisa ruim, temos de estar constantemente em sobressalto, a limpar e a desinfectar coisas dos mais variados materiais e tecidos. E até foi por causa deste espírito do mal que decidimos trazer o outro gato lá para casa... E penso que já todos percebemos como é que isso resultou.
A bicha continua a fazer as mesmas trafulhices que fazia antes e talvez até mais. Os dois fuinhas não se dão propriamente mal mas a única forma que têm de interagir ou de "brincar", como certamente pensam naquelas cabecinhas dementes, é de tal forma violenta e abrutalhada que deixou de ser permitido a crianças visitarem a minha casa (atenção, não é que tivesse o hábito de levar crianças para lá, não me interpretem mal).
Entretanto uma amiga nossa enviou-nos uns links na net que provam que o inimigo talvez tenha uma patologia ao nível psicológico. Mas eu acho que isso tudo é treta. Acho que faz tudo parte de um plano pérfido para me expulsar, a mim e à minha mulher, e poder impor finalmente a sua PAX DIABOLICA com muitas missas negras e outras merdas que ela lá quer fazer. No desespero por resolver-lhe o problema e trazer-lhe maior qualidade de vida, acedi até a conceder-lhe um dos quartos que não foi ainda arrumado. Para que pudesse fugir da agitação do outro, tivesse a sua wc privada e pudesse relaxar em sossego. Mas será que isso ajudou? Não! Nunca! Continua a fazer o mesmo e a levar-me aos 80€ de cada vez sempre que vai ao médico. A galdéria!
Pontos fortes:
- Consegue camuflar-se no escuro.
- Tem garras e dentes que aleijam mais do que razoavelmente.
- Não tem compaixão pelos outros seres vivos.
Pontos fracos:
- A sua adoração por biscoitos de gato.
- A dificuldade que terá em aliar-se ao outro, caso fiquem encurralados.
- O seu espírito negro e depressivo, que pode virar-se contra ela.
Feitas as contas, será um adversário bem mais complicado de derrotar mas estou certo que no final a contenda ser-me-á favorável. O outro é pegar-lhe fogo e está o assunto resolvido. Esta terá de provar do seu próprio remédio por todas as vezes que me obrigou, a mim e à minha mulher, a passar noites em claro em busca de uma solução para os seus problemas existenciais, de uma forma milagrosa de lhe trazer felicidade, de aliviar-lhe as maleitas e as feridas na alma. Não, uma maldade assim só pode ser enfrentada pelas mesmas armas!
Tenciono arranjar audiobooks da obra completa do pensador francês Michel Focault, com especial ênfase nos livros "A Sociedade Punitiva", "A Hermenêutica do Sujeito" e "A Microfísica do Poder". Depois deixo-os a tocar em altos berros quando vou trabalhar de manhã, não antes de lhe mijar valentemente na tijela da comida para que saiba o que custa. Tenho a certeza que ao fim da primeira semana, a quantidade de caraminholas que terá na cabeça farão com que finalmente chegue a um ponto de não retorno: tornar-se na gata submissa, pacata e avessa a qualquer coisa que me chateie os cornos que sempre desejei que fosse... ou não aguentar e pôr cobro à sua existência enforcando-se com uma das meias da minha mulher.
Por Marte, deus da guerra, prometo que tombarão em batalha! Ai tombarão tombarão!
Esta Declaração é assim dirigida a dois indivíduos de orelhas triangulares, aqueles que, daqui em diante, apelidarei de meus inimigos mortais... ou mais simplesmente de bandalhos.
a) MARISCO. Pelagem branca e cinzenta. Nariz cor de rosa como o de um porco. Barriga proeminente por enfardar como um bruto a ração que trabalho de sol a sol para lhe comprar. Se pudesse ou soubesse como, tenho a certeza que me arrotaria na cara depois de cada refeição, entre outras coisas piores. Tenho documentos que provam que se trata efectivamente do Anticristo embora o Vaticano não queira, porque tem medo, confirmar esta verdade. É manhoso, o c****o! É manhoso! A sua influência na minha vida é fácil de calcular em euros por tudo aquilo que esfrangalha / avacalha propositadamente. A saber, em jeito de inventário, caso seja no futuro condenado a pagar-me uma qualquer indemnização:
1) A porta da cozinha.
2) Três rolos de papel de cozinha e meio.
3) O sofá da sala.
4) O tapete da sala.
5) O batente da porta da sala.
6) A colcha da cama.
7) O batente da porta do quarto
8) O tapete tunisino que tenho na parede.
9) Um outro tapete, mas agora de rato.
10) O teclado do computador da minha mulher.
11) O cabo do meu disco externo.
12) O cabo do transformador da aparafusadora do IKEA.
13) Um lápis, uma caneta e mais material de escritório diverso.
14) O meu sistema nervoso.
Serve a presente missiva também para alertar acerca das tácticas persuasivas do inimigo. É importante ser impermeável ao ronronar e ao aspecto fofo da besta sempre que está "com soninho e quer colo". A total indiferença a esta estratégia vil atribui à partida uma vantagem de 50% no confronto bélico.
Pontos fortes:
- É notavelmente atlético e rápido.
- Tem garras e dentes que aleijam razoavelmente.
- O seu poder de persuação demoníaca pode influenciar a opinião exterior, nomeadamente vizinhos e familiares.
Pontos fracos:
- É burro.
- Não tem lá muita força.
- É brutalmente curioso, lá está, devido à burrice.
Feito este balanço, a vitória deverá ser garantida dentro de poucas semanas, depois de confrontos que adivinho ferozes. O ordinário é burro, disso não resta a mais pequena dúvida. Qualquer pequeno som ou movimento atraem a sua atenção e conduzem-no aos mais variados perigos como uma flauta de Hamelin. O Natal está próximo e a montagem da árvore não promete nada de bom ou de tranquilo. Aproveitando esse facto, regarei o amontoado de piaçabas verdes a que chamo de pinheiro de Natal com querosene e colocarei um rastilho que acenderei em tempo útil. Atraído pelas faíscas, com aquele ar aparvalhado típico das avestruzes (que também não podem ver nada brilhante) que lhe é característico, estou certo que com sorte terei marisco flambé para a ceia. Cheque-mate, eu ganho.
One down, one to go.
b) JACKIE. Pelagem negra. Espírito gótico e/ou satânico. A maior fabricante de pêlo do mundo em título e a principal responsável pela minha casa parecer, ao final de cada semana, uma casa de alterne romena. Em ruínas. Este é, sem sombra de dúvidas, o adversário mais poderoso e difícil de derrotar. Enquanto que o outro palhaço todos os dias me espanta com a sua estupidez e alegria em ser tão mau, esta destrói-me a alma aos poucos e faz-me questionar acerca da minha própria existência, do meu valor como ser humano. O outro arranha-me a mobília, esta arranha-me a psique. Ah e também aprecia mictar e defecar, chamemos-lhe assim, onde bem lhe apetece. E diz-se ela uma senhora. A saber:
1) No sofá da sala.
2) Na banheira.
3) No sofá do escritório.
4) No chão do escritório.
5) Na minha cama (graças a Deus pela capa de colchão impermeável que a minha santa sogra se lembrou de nos oferecer em tempo útil).
Por causa deste morcego dos infernos somos obrigados a viver numa casa com as portas todas fechadas, como um caixão com assoalhadas. Por causa desta coisa ruim, temos de estar constantemente em sobressalto, a limpar e a desinfectar coisas dos mais variados materiais e tecidos. E até foi por causa deste espírito do mal que decidimos trazer o outro gato lá para casa... E penso que já todos percebemos como é que isso resultou.
A bicha continua a fazer as mesmas trafulhices que fazia antes e talvez até mais. Os dois fuinhas não se dão propriamente mal mas a única forma que têm de interagir ou de "brincar", como certamente pensam naquelas cabecinhas dementes, é de tal forma violenta e abrutalhada que deixou de ser permitido a crianças visitarem a minha casa (atenção, não é que tivesse o hábito de levar crianças para lá, não me interpretem mal).
Entretanto uma amiga nossa enviou-nos uns links na net que provam que o inimigo talvez tenha uma patologia ao nível psicológico. Mas eu acho que isso tudo é treta. Acho que faz tudo parte de um plano pérfido para me expulsar, a mim e à minha mulher, e poder impor finalmente a sua PAX DIABOLICA com muitas missas negras e outras merdas que ela lá quer fazer. No desespero por resolver-lhe o problema e trazer-lhe maior qualidade de vida, acedi até a conceder-lhe um dos quartos que não foi ainda arrumado. Para que pudesse fugir da agitação do outro, tivesse a sua wc privada e pudesse relaxar em sossego. Mas será que isso ajudou? Não! Nunca! Continua a fazer o mesmo e a levar-me aos 80€ de cada vez sempre que vai ao médico. A galdéria!
Pontos fortes:
- Consegue camuflar-se no escuro.
- Tem garras e dentes que aleijam mais do que razoavelmente.
- Não tem compaixão pelos outros seres vivos.
Pontos fracos:
- A sua adoração por biscoitos de gato.
- A dificuldade que terá em aliar-se ao outro, caso fiquem encurralados.
- O seu espírito negro e depressivo, que pode virar-se contra ela.
Feitas as contas, será um adversário bem mais complicado de derrotar mas estou certo que no final a contenda ser-me-á favorável. O outro é pegar-lhe fogo e está o assunto resolvido. Esta terá de provar do seu próprio remédio por todas as vezes que me obrigou, a mim e à minha mulher, a passar noites em claro em busca de uma solução para os seus problemas existenciais, de uma forma milagrosa de lhe trazer felicidade, de aliviar-lhe as maleitas e as feridas na alma. Não, uma maldade assim só pode ser enfrentada pelas mesmas armas!
Tenciono arranjar audiobooks da obra completa do pensador francês Michel Focault, com especial ênfase nos livros "A Sociedade Punitiva", "A Hermenêutica do Sujeito" e "A Microfísica do Poder". Depois deixo-os a tocar em altos berros quando vou trabalhar de manhã, não antes de lhe mijar valentemente na tijela da comida para que saiba o que custa. Tenho a certeza que ao fim da primeira semana, a quantidade de caraminholas que terá na cabeça farão com que finalmente chegue a um ponto de não retorno: tornar-se na gata submissa, pacata e avessa a qualquer coisa que me chateie os cornos que sempre desejei que fosse... ou não aguentar e pôr cobro à sua existência enforcando-se com uma das meias da minha mulher.
Nos dias que correm, qualquer das soluções me serve.
...
Assim sendo, e porque nunca é demais recordar, ao oitavo dia do mês de Novembro de 2011, eu, Saguim, declaro por minha honra a abertura das hostilidades para com os dois demónios felinos que habitam em minha residência.
Agora é só imprimir isto, espalhar pela casa...
... e esperar a porra da retaliação.
Sunday, October 16, 2011
Tudo o que é bom um dia acaba
Tudo o que é bom um dia acaba.
O velho cliché que pode valer para os nossos subsídios de férias e de Natal aplica-se agora às minhas próprias férias. Acabaram e amanhã volto ao trabalho. E não escondo que a ideia de tornar a contribuir para uma economia e para um estado que me rouba como se eu fosse novamente o puto gordo no recreio da escola, não me parece nada apelativa. É que às tantas nem se trata tanto de criminalidade mas mais de bullying, tanto que estou farto de levar na tromba com toda uma panóplia de medidas, percentagens e impostos dos quais muitas vezes nem sequer percebo as siglas. Mas enfim, depois de duas semanas em intenso período de relax acho que não vale a pena estar já a emporcalhar a mente com este tipo de pensamentos e a desafiar o braço esquerdo que começa a formigar...
Não muito depois do nosso super-mentiroso Primeiro Ministro (pronto, lá vou eu outra vez...) anunciar as novas medidas de austeridade, já estava eu a fazer as malas para me fazer à estrada. Na realidade, tudo não passou de uma coincidência mas não escondo que acabou por ser uma p**a de uma coincidência. Enquanto o desgraçado dizia solenemente na TV "Eu peço desculpa mas na realidade nós já não somos tão soberanos quanto eu pensava e agora quem manda é aquela malta que nos quer comprar as empresas, que vamos privatizar à papo-seco, assim a preço de saldo e por isso em vez de tentarmos impulsionar a economia com medidas de incentivo vamos afundá-la ainda mais para enriquecer os nossos donos que detonam isto tudo se não nos portarmos bem..." (talvez não o tenha dito precisamente com estas palavras mas o conteúdo, não me venham com tretas, era este)... Enquanto ele dizia isso eu ouvia "Saguim, minha besta, arruma já os trapos e volta p'ra casa que isto vai ficar pior e ainda te vais arrepender amargamente dos dias que andaste a comer e a beber que nem um porco a sovar! Vá, desanda mazé!" E eu, porque gosto pouco de ouvir falar mal, desandei.
Mas, voltando um pouco atrás... Depois da viagem à Madeira fui passar uns dias a Ferrel, perto do Baleal, uma terra que ficou conhecida porque há uns anos quiseram lá fazer uma central nuclear. Nessa altura, o povo juntou-se para dizer que se fossem p'rá frente com aquilo podiam ter a certeza que iria haver sarrabulho dos antigos. E como o pessoal que usa gravata gosta pouco de sarrabulhos, até porque lhes deixa umas nódoas nas camisas que não saem nem por nada, e preza convenientemente a permanência dos testículos no sítio de origem, desistiu da central nuclear para gáudio dos ferrelenses. Afinal de contas, estavam a lidar com malta que se junta todos os anos para organizar uma corrida de burros à volta da igreja. Portanto, gente que não é p'ra brincadeiras.
Dias bem passados que foram esses, sim senhor...
Mas o grand finale estava para vir em grande estilo: dois dias num Hotel das Caldas de Monchique, daqueles com Spa e tudo. Toma, embrulha e não digas que vens daqui!
Antes demais, convém referir, que este menino que vos escreve NUNCA tinha entrado numa sauna. NUNCA tinha tomado um banho turco. NUNCA tinha levado uma massagem.
E não posso dizer que houvesse uma grande razão para ser assim... Penso que era apenas mais um caso flagrante de falta de categoria. É que eu definitivamente não tenho categoria para essas coisas. Eu é mais bejeca na mão, tremoços no bucho e os argentinos do Benfica a ganhar na TV. Mainada!
Posto isto: óleos relaxantes, piscinas de hidromassagem e ropõezinhos brancos são coisas de rabixo. Mas como também considero que qualquer homem tem direito aos seus momentos mais rabixos, e tendo eu uma mulher ao lado para anular quaisquer conotações menos viris, lá acedi a experimentar.
No entanto, um problema. Ao chegarmos ao Hotel, constatei algo que poderia já ter sido entendido mais cedo caso eu tivesse feito um exercício mental simples.
Termas = Pensionistas
Viram? Eu disse que era simples.
Portanto, só velhos.
Eu não tenho nada contra eles. Até porque, se tiver sorte, mais tarde ou mais cedo farei parte do clube e depois tudo o que não preciso é de uma horda de indivíduos a cravarem-me as dentaduras nos lóbulos das orelhas, como vingança por tudo aquilo que lhes desdisse. Mas enfim, eu ainda estou numa outra fase da vida e custa-me ver um snack-bar a fechar às 17h. É certo e sabido que os pensionistas às 19h já estão a "cabecear" em frente à TV, abençoados sejam, mas eu ainda não. Só a partir das 22h é que penso em aquecer a água para me ir deitar...
Na primeira noite o desafio foi encontrar um sítio para comer. O restaurante do Hotel era um pouco caro demais e, pelas regras instituídas, devia fechar a meio da tarde... Por isso, vimo-nos forçados a encontrar soluções. Estúpido como já me habituei a ser, entrei por uma pensão adentro, a única num raio de 50 km, atraído pelos preços convidativos da carta que se encontrava exposta na rua. Mas quando me deparei com o ambiente tétrico do interior do edifício, ambiente esse que faria o próprio Drácula verter uma gotinha de pânico, e constatando que nenhum ente vivo se encontrava na recepção nem ao seu redor, dei meia volta e regressei para junto da minha mulher que, sempre mais ajuizada do que eu, estava certa que aquela não era uma boa ideia.
Até que surgiu uma pessoa. Do sexo feminino. E me convidou a entrar...
Entre risos e gorgolejos de nervos, lá acedi ao chamamento da "senhora", chamemos-lhe assim, e entrei na sala de refeições, seguido por uma mulher contrariada e lixada da vida por eu ter vergonha de me livrar airosamente de situações como aquela. A sala de jantar era tudo aquilo que se poderia esperar de um sítio como aquele. Mobília escura e antiga, uma enorme e horrenda natureza morta na parede, luz eléctrica a imitar a de velas e apenas duas criaturas, também elas idosas, a acabar a refeição num dos cantos da sala... Ah e música de orgão daquelas dos vampiros a soar não percebi muito bem vinda de onde! Isto, tal qual.
Bom, tentando contrariar a palidez dos nossos rostos, comemos, bebemos, ignorámos um gato assustador que passou o jantar inteiro ao nosso lado a olhar p'ra nós, orámos a Satanás, sacrificámos uma virgem e voltámos para o nosso quarto. Bom, a parte da virgem e do diabo é mentira mas a do gato juro que é verdade. No entanto, estando de férias, tudo é p'ra aceitar com particular ligeireza. Não é um jantar "especial" que marca as nossas férias.
O que marca as nossas férias é mesmo o raio do Spa!
Bom, eu já expliquei que não tenho categoria, que não é a minha praia e essas coisas todas... Portanto já fiz um build-up para aquilo que aí vem. Ao segundo dia nas Caldas de Monchique, eu e a minha mulher marcámos uma massagem para dois, massagem essa que nos dava direito a usufruir do complexo termal. Portanto, de manhãzinha fomos logo p'ra lá. Na piscina estavam duas velhas e um gay, coisa que não me fez sentir particularmente à vontade. Nem a mim nem a eles, diga-se, porque os minutos que se seguiram pautaram por uma série de olhares fixos e de grande estranheza. Dentro da piscina, a velha 1 olhava fixamente para a minha mulher que, por sua vez, olhava fixamente para o vazio. Eu olhava fixamente para a frente, de modo a poder ver toda a gente pelos periféricos e percebia que o gay, por alguma razão bizarra, também olhava fixamente para mim. Isto enquanto a velha 2 olhava fixamente para o gay, talvez porque ele a estivesse a orientar enquanto ela fazia um qualquer exercício de reabilitação, talvez porque fantasiasse acerca de sexo gerontófilo com homossexuais... Enfim, não sei. Isto tudo no mais profundo e desconfortável silêncio. Até eu e a minha mulher decidirmos abandonar o local...
Seguiu-se o banho turco e a sauna. O primeiro mais agradável que o outro, verdade seja dita. Não que eu não tivesse curiosidade de saber o que sentiriam os frangos no interior de um forno (se é que um bicho esfolado e decapitado pode realmente sentir alguma coisa...), mas a ausência de colorau barrado nas minhas costas impediu-me de concretizar a experiência em pleno. Já o banho turco está longe de ser um banho e também não percebo porque lhe chamam turco mas parece-me que resulta. Resultava ainda melhor se a velha 2 da piscina não tivesse vindo atrás de nós, enfiado dentro da cabine connosco e começado a ressonar como um elefante marinho com os copos... Mas ao menos deu-me vontade de repetir.
E foi assim, entre experiências como estas, que chegou o momento da tal massagem.
Momento esse que, convém lembrar, foi também para mim uma primeira vez.
Quando avistei o dueto de massagistas, não vou negar que senti um certo alívio. Temia que fossem homens. Primeiro porque, não sendo de todo homofóbico, há um certo tipo de contacto físico que gosto de evitar com indivíduos do mesmo sexo. E segundo porque também tenho tendência para querer evitar que tenham esse mesmo tipo de contacto com a minha mulher. Assim só p'ra manter as coisas dentro do razoável e do limpinho.
Aproximámo-nos da sala e reparei que uma das massagistas tinha um sorriso significativamente mais aberto do que a outra. Portanto, percebi logo quem é que devia ter perdido a aposta e ficado comigo.
A massagem era de corpo inteiro e a menina achou boa ideia colocar-me duas coisas, que não cheguei a perceber o que eram, nos olhos. Lembrei-me dos romanos que colocavam moedas nos olhos dos mortos para os gajos darem ao barqueiro que os levava para o inferno ou lá o que era... Mas duvido bastante que uma coisa tivesse a ver com a outra. Imagino que fossem pétalas ou algo do género... O que devia dar-me um ar ainda menos digno, deitado naquela marquesa. Mas adiante...
Depois, a mulher colocou-me uma almofada por baixo das pernas para facilitar o seu trabalho. E foi aqui que começaram os meus problemas. Uma pessoa normal tem os pés p'rá frente. Um tipo como eu tem os pés pr'a fora à Charlot. Portanto, o que tínhamos agora era um indivíduo anafado (penso que podemos dizer assim) vestido com uns calções de banho com flores à havaiana, pétalas nos olhos e as pernas abertas elevadas e pés p'ra fora como se estivesse a dar à luz. E era esperado que eu relaxasse e ignorasse tudo isto.
Escusado será dizer que estava uma pilha.
Os pensamentos a sucederem-se a mil à hora.
Quando a massagista começou a mexer-me nos pés lembrei-me que teria sido boa ideia ter cortado as unhas no dia anterior. Tinha aparado as das mãos mas (que raio, estava de férias!) a preguiça impedira-me de fazer o mesmo com as outras. Penso que esta situação não fez maravilhas pelo trabalho da massagista que usava toda a sua destreza para conseguir cumprir a tarefa sem se cortar e apanhar tétano. Dedilhava como uma pianista russa enquanto eu procurava protegê-la, afastando tanto quanto possível as garras das suas mãos.
O resto do tempo, não posso dizer que tenha corrido mal. Fui untado dos pés à cabeça como uma enguia de escabeche, e massajado com todas as forças que a mulher tinha para atacar um corpo como este. Não se saiu mal mas digamos que para ela o dia de trabalho deve ter acabado por ali...
No final, disse-me docemente ao ouvido que a massagem tinha terminado e que podia levantar-me ao meu ritmo. Eu, como o meu ritmo é sempre... Como é que se diz... Ah sim, aparvalhado e à bruta, levantei-me para o lado errado da marquesa, aquele onde não estavam os meus chinelos, coisa que podia ter-me saído muito cara. A mim e ao reconstrutor facial da massagista que estava do outro lado.
Ora, esquecendo-me que estava coberto de óleo e portanto escorregadio como aquele americano que foi preso em Sintra, foi num misto de desequilíbrio e de passos de dança à Fred Astaire (se o Fred Astaire fosse bêbado) que fiz a viagem de 180º até aos chinelos, quase, QUASE, esbardalhando-me para cima da pobre massagista.
Ao recuperar a compostura, e perante o olhar de pânico da jovem, disse que até tinha ficado tonto perante o brilhantismo da sua massagem e saí dali p'ra fora, rumo ao quarto do Hotel.
Enfim...
São estas as memórias que levo para o retomar da labuta, do lufa-lufa do dia-a-dia e dos assaltos à mão armada do nosso Primeiro Ministro (que sabe bem o que isso é porque desde os seus tenros 37 aninhos que anda a papar filmes semelhantes no mercado de trabalho). E não são memórias nada más, atendendo àquilo que espera a maioria dos portugueses.
A verdade é que o Natal já não é p'ra todos.
Assim como não é p'ra todos ter um Ângelo Correia como anjinho da guarda (ai o braço esquerdo...)! Mas é em alturas como estas que temos de aprender a patinar, nem que alarvemente... Contrariar o visco e o sebum dos mentirosos e dos corruptos...
Para tentar chegar, sãos e salvos...
... ao grande par de chinelos...
Que é a felicidade.
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