Friday, October 7, 2011

Prá frente, sempre!

Ora então, dei por mim e estava visivelmente cansado...

Depois de meses e meses a labutar como uma criança de cinco anos no Bangladesh, concluí que precisava mesmo de um merecido período de férias. E daqueles longe da internet, do telemóvel e até da TV e da Playstation... Absolutamente nada a povoar a minha imaginação além dos meus próprios pensamentos dementes. No fundo, aquilo que o meu corpo e mente exigiam era o mais inócuo e sepulcral sossego, daqueles que só a gruta mais inóspita, o buraco mais denso e profundo conseguem proporcionar. Portanto, acabei por ir prá Madeira.

Não que seja a altura mais pacata para lá ir... Sei bem que não é.
Depois da descoberta da dívida que o Governo Regional acumulou durante uma catrefada de anos, e até tentou encobrir no início do levantar deste processo manhoso, dia sim dia não o Alberto João decide vir berrar qualquer disparate em público como mais uma tentativa de atirar areia para os olhos daquela gente... E atenção que isso é coisa para aleijar! Durante a minha estadia percebi que a areia na Madeira é preta e grossa como um comboio na linha de Sintra. Mas enfim, o homem berra como se não houvesse amanhã e nem sequer está muito enervado quando o faz. Berra porque é assim que ele comunica. Ele e todos os que sofrem do conhecido síndrome de Valentim Loureiro, claro. Por um lado, não há dúvida que AJ tem as suas falências mas por outro também é certo que realizou obra por toda a ilha. Eu continuo a duvidar bastante que tenha sido ele a acartar o cimento e a tijoleira pelos montes e vales mas enfim... Que o homem tem a educação de um trolha lá isso tem.

Mas a verdade é que é raro o estabelecimento ou o edifício que não tenha à porta uma placa a dizer que foi inaugurado no dia tal do ano tal pelo ilustre presidente do Governo Regional da Madeira. Estas placas são às pazadas. Tanto que a dada altura até fiquei surpreendido por não ver miúdas também elas com placas ao pescoço a dizer que foram inauguradas aos dezoito anos por AJ. Certamente que vontade não lhe havia de faltar.

Bom, mas voltemos à Madeira propriamente dita... É muito bela, não haja dúvida.

Tem um grande inconveniente. Toda a ilha apresenta um declive de, mais ou menos, 90º. E é sempre a subir.

Lá, não se passeia. Quanto muito escala-se.

Os Madeirenses têm as suas panças, sim senhor. Gorduras a adejar debaixo dos braços, ora muito bem. Mas todos ostentam uns gémeos tão sólidos e definidos que fariam Jean Claude Van Damme chorar de inveja como uma noviça açoitada.

Já eu, durante a minha estadia, não demorei dois dias a sentir as mais agudas das dores nas pernas, passando grande parte do tempo restante a deslocar-me em ziguezague, como um leproso em fase terminal, gemendo a cada passada. Mas porra, se valeu a pena...

Toda a ilha me fez lembrar a Suíça. Não tanto a parte do yoddle e dos bancos mas mais no que concerne ao queijo. Eu sei que nos dias que correm se fala muito de buracos e tal mas, sejamos francos, aquilo está tudo esburacado. São tantos os túneis que povoam a Madeira que quase me fazem crer que esta tem caruncho. Depois, temos um problema. Há efectivamente um Centro de Saúde e uma Escola em cada terrinha, isso há. Mas com os túneis todos acabam por haver estabelecimentos com malta efectiva a trabalhar e a ganhar do belo, a cinco minutos uns dos outros. Portanto, não é preciso ser nenhum yoda em economia para perceber que isto mais tarde ou mais cedo ia dar chispalhada...

E depois há a descida dos cestos. Para quem não sabe é quando nos enfiamos em tobogãs de vime e somos empurrados ilha abaixo por corpulentos madeirenses que, a julgar pelo aspecto e pelas tatuagens nos antebraços, de bom grado nos espetariam de frente no primeiro penhasco se não soubessem que seriam judicialmente punidos por isso. Pode ser um tanto arcaico e até um pouco aparvalhado mas a verdade é que é também bastante divertido. Principalmente depois de passarmos pela experiência e continuarmos a ostentar os dentes da frente.

Há também o Museu da Baleia do Caniçal. Um verdadeiro santuário dividido em dois momentos. No primeiro é-nos dado a sentir um verdadeiro espectáculo de carnificina onde, e juntamente com o suave aroma de sangue e vísceras de baleia, podemos observar como durante décadas a malta da Madeira perseguiu e cortou às postas todos os cachalotes a que conseguiu deitar a unha. Já no segundo, mostram como entretanto se arrependeram e agora os estudam e lhes dão festinhas... Não deixa de ser um contraste um tanto ou quanto abrupto mas acho que resulta.

Além disso há ainda o artesanato de vime da Camacha, o vinho da Madeira, as piscinas naturais de água choca e com cheiro a mijo de Porto de Moniz (nas quais, e com plena consciência que com isso reduzi substancialmente a minha esperança de vida, mergulhei), a poncha, os maracujás, as espetadas...

Tudo coisas espectaculares.

Mas não tão espectaculares como a propaganda eleitoral para as votações que se avizinham.

Ao contrário do que eu pensava, não é só o PPD-PSD que pode promover os seus candidatos. Mas, tal como eu pensava, os outros partidos parecem gozar de substancialmente menos espaço para esse efeito. Há várias situações onde um gigante e titânico AJ, emplastrado num outdoor, aparece rodeado daquilo que parecem pequenos anõezinhos compostos pelos outros candidatos, impressos em cartazes de muito menores dimensões. Pode não ser muito justo mas o efeito é deveras engraçado.

De certa forma, esta diferença de escalas até acaba por castigar a falta de originalidade nos "gritos de guerra" daqueles que pretendem, afinal de contas, fazer um assalto ao poder: "Para salvar a Madeira" diz o aborrecido PS, "Acreditamos nos Madeirenses" diz a maçuda CDU, "ELE NÃO É A MADEIRA!" grita o sempre alarve Bloco de Esquerda enquanto exibe uma foto do olhar sinistro de AJ. Tudo tretas previsíveis e pouco estimulantes, diga-se. Ah e o maluco do Coelho que agora é do Partido Trabalhista também diz qualquer coisa... mas a verdade é que ninguém lhe presta muita atenção.

Seria de prever que numa altura como esta, com tanto fervilhar de emoções e de graves acontecimentos a virem a público, as coisas estivessem menos cinzentas. Mas, verdade seja dita, o único a apresentar uma abordagem objectiva e original foi, uma vez mais, o inevitável PPD-PSD.

Uma beleza apenas comparável à vista da marina do Funchal. Lindo, lindo, lindo.

O lema é : PRÁ FRENTE, SEMPRE! MADEIRA, SEMPRE!

Okay...

Como pano de fundo, há um inebriante gradient do azul para o amarelo e do amarelo para o azul. São as cores da Madeira, 'tá certo, até aí percebo... E o degradé dá-lhe aquele toque de modernidade que nenhum outro partido conseguiu atingir. E depois admirem-se que o homem não saia do poleiro! PRÁ FRENTE, indeed.

Ainda em relação ao slogan, não há maneira de o ler sem que na minha cabeça soe a voz de AJ a berrá-lo. E talvez para isso muito contribua a fotografia do próprio, estampada em cima do gradient, acentuando assim o efeito espectacular.


Sobre a figura de AJ, três aspectos:

- É notório que não tem qualquer pescoço. Do colarinho é espargida uma massa amarelo-rosada que, apesar de algo disforme, adquire um formato que se assemelha a uma cabeça... Assim como aquelas seringas dos bolos a expelir recheio.

- Todo e qualquer sujeito que procure tapar a careca com uns escassos e ralos fiapos de cabelo grisalho merece toda a minha admiração. Não é novidade para ninguém que, em pleno séc. XXI, este truque patético não causa qualquer ilusão (se é que alguma vez causou...) Por isso, quando um bravo se mantém irredutível na defesa desta técnica trompe l'oeil capilar e não se importa de assim aparecer em público, na TV e nos jornais, não me venham cá com AMI's nem com Médicos Sem Fronteiras mas coragem para mim é isto. Tudo o resto é panascaria.

- Urge ainda apontar que nesta foto de AJ não se vê o branco dos olhos. Todo o seu globo ocular aparece preenchido de um negro baço, como os olhos dos tubarões. E é por isso que, se eu fosse Madeirense, nenhum outro candidato me pareceria mais afável e digno de confiança.


Posto isto, não descansei até encontrar um boletim desta campanha com as propostas para o novo mandato. Boletim esse que, e com sacrifício pessoal, resgatei de uma pilha de caca de pombo. Tudo pela liberdade de informação, meus caros. Tudo pela liberdade de informação.

Aquilo que li e que estou prestes a partilhar foi alarmante e esclarecedor.

Antes eu tinha a impressão que AJ era uma espécie de tio bêbado que aparecia nas reuniões de família a gritar obscenidades às quais ninguém dava muita importância entre os olhares cruzados de desconforto. No final, alguém lhe passava uma nota de cinquenta euros para ir comprar mais vinho, ele ia à vida dele e as pessoas normais continuavam a conviver. Dantes eu pensava isto. Depois de ler o boletim, acho que tenho a certeza.

Mas antes de me ir embora e regressar às férias, gostava de aqui vos deixar um cheirinho... Assim só p'ra não dizerem que guardo tudo para mim. Ora então cá vai...


MANIFESTO DO PSD AO POVO DE FUNCHAL (Ui um manifesto... Isto promete. "Morra o Cont'nente morra, Pim!" Capaz de ser mais ou menos isto que nos espera)

AOS MADEIRENSES E PORTOSSANTENSES:

O Povo Madeirense vai eleger o Governo que terá de aguentar o período mais duro desde que a Democracia e a Autonomia Política nasceram com a Constituição de 1976. (Boa, estão a falar de Constituição... Dados os acontecimentos recentes e o avacalhar da mesma, tem de ser bom!)

Os Madeirenses e os Portossantenses vão eleger o Governo Regional que terá de Os conduzir e defender o melhor possível, face à situação gravíssima que os socialistas criaram (O BANDIDO DO SÓCRAS!), que provocou Portugal ficar sob mando estrangeiro (O MALDITO INVASOR!) e, se quiser comer (Quem? Portugal?), ter de aplicar a política que nos foi imposta pela vergonhosa tutela internacional a que chegámos (Como se atreve o FMI a impor políticas?? Não temos cá quem o faça tão bem? Alguém da Madeira, por exemplo...)

Um Governo Regional que terá de demonstrar capacidade para conduzir o arquipélago nas dificílimas situações que, por caírem sobre Portugal, infelizmente caiem também sobre os Madeirenses e os Portossantenses, embora tal não seja justo em relação a um povo que sempre discordou do que se passava, que foi sempre oposição ao próprio sistema político, que sempre alertou Lisboa para os erros desta (Infelizmente o sotaque Madeirense é cerrado e Lisboa não percebeu... De qualquer maneira, o tal "povo", chamemos assim ao governo de AJ, acabou por perder alguma legitimidade no assunto "poupança" quando apresentou um buraco do tamanho da defesa do Sporting).

Portanto, o que agora está em jogo para os Madeirenses e os Portossanteneses (Ok, é preciso estar sempre a repetir o mesmo???), é escolher um Presidente de um Governo Regional que, com o novo Executivo que formar, dê garantias de hábil e inteligentemente enfrentar a situação complicadíssima em que os socialistas nos mergulharam. (MAS QUEM, MEU DEUS?! Se ao menos houvesse um indivíduo grosseiro que só sabe falar a berrar e usar técnicas de inimigo público e de mania da perseguição a la regimes ditatoriais da primeira metade do século XX... MAS ONDE ENCONTRAR TAL PERSONALIDADE?!)

(...)

Depois seguem-se parágrafos intermináveis, praticamente todos eles a dizerem o mesmo, estilo aquelas gravações em loop do filme 1984, a fomentar o ódio pelos socialistas e a glorificar a obra feita pelo actual Governo Regional. Glorificação essa que chega ao ponto de dizer que:

Seria uma covardia, Alberto João Jardim recuar ou desistir no presente quadro. Sabe ao que se arrisca, dadas as dificuldades que vamos ter pela frente, risco de saúde inclusive, quando era mais fácil abandonar ante o que aí vem, levando consigo os sucessos e transformações que conseguiu. (Portanto, estamos na iminência de coroar aqui um mártir. A avaliar por estas palavras pouco falta para AJ vestir um colete de bombas e atirar-se heroicamente para a entrada do buraco orçamental, esperando que a consequente queda de rochas o tape para sempre. Pode ser fantasioso mas não condenem um homem por sonhar acordado...).

Segue-se mais conversa em como os socialistas ficaram a dever dinheiro à Madeira e/ou inclusivamente a roubaram e depois aquele que considero o parágrafo-rei deste maravilhoso boletim. Desde já aviso que é sublime. Ora então cá vai:

Depois de trinta e três anos, a Oposição está desesperada. Não captou pessoas com um mínimo de qualidade, alinhou contra o próprio Povo Madeirense, opôs-se sempre a tudo quanto era progresso, praticou um permanente bota-abaixo, não tem alternativas, só fascina os desordeiros, bêbados, drogados e vadios que infelizmente existem em diversas localidades.

...

Portanto...

Está aqui identificada a Oposição na Madeira.

Isto para que não restem dúvidas.

...

Não sei quanto a vocês mas eu leio isto e parece que ouço Chopin ao longe... De tão lírico e filosófico que é. E ao mesmo tempo também associo aos primórdios da minha infância, não sei se me faço entender. "Quem não gosta de mim é parvo", é comum ouvirmos no Jardim Escola. "Quem não gosta de nós é bêbado ou drogado!", parece que se ouve muito na Madeira. Mainada!

Bom, mais argumentação incendiária até ao fim e, a fechar a peça, 90% do boletim consiste de uma lista das chamadas INAUGURAÇÕES REALIZADAS NO CONCELHO DO FUNCHAL. Um verdadeiro "festival da tesoura".

Aqui encontramos um compêndio infindável com obras tão relevantes como a Creche de Santa Maria Maior, o Lar de Abrigo de Nossa Senhora de Fátima ou a Unidade de Hemodiálise do Hospital do Funchal e outras com consideravelmente menos relevo e até algum nível de suspeita como o Ginásio Big Body Gym, a Padaria Mariazinha II, o Crédito Predial Português (que não existe vai p'ra mais de dez anos) e a Discoteca Vespas. Se calhar não era suposto eu ler isto tudo até ao fim mas, que raio, tinha tempo e li.

E pronto, não vos chateio mais. Se calhar têm a sopa ao lume e de certeza muito mais que fazer.

Cheguei ontem da Madeira e ainda vou ter mais uma semana de férias por isso é possível que o meu período de descanso ainda me dê mais material para fazer pouco...

Eu perco-me para aqui a falar do AJ e de tudo e mais alguma coisa mas a verdade é que não sou nada melhor do que ele. Quando era miúdo roubei uns autocolantes das Tartarugas Ninja a um colega de escola e culpei um outro que usava óculos e tinha asma. Ele levou nos cornos e eu fiquei a ver, com um sorriso na cara. Portanto, em matéria de sem vergonhice não é qualquer um que me dá lições...

Mas entretanto, se viverem no Arquipélago, votem em consciência.
Se, por outro lado, viverem no Continente, rezem para que os outros o façam e a seguir tentem manter o emprego porque são os subsídios de Natal de todos que vão ajudar a pagar o tal buraco. No fundo, acaba por ser menos uma Wii ou um Castelo dos Gormiti que o mimado do vosso puto recebe. E ainda bem porque sem essa importante lição de vida quem sabe se não acabaria por tornar-se num adulto egocêntrico, em alguém com a mania das grandezas ou até, quem sabe...

... no Presidente de um Governo Regional.

Thursday, September 8, 2011

Ok, temos aqui um problema

Acredito que as balanças foram criadas com o objectivo de ajudar as pessoas a controlarem o seu peso e assim manterem uma melhor qualidade de vida.

Há quem acredite em Deus ou em vida extraterrestre. Eu acredito nisto. E acho que não há missão mais nobre para um aparelho.

É por estas e por outras que se me perguntarem se as balanças têm razão de existir e se não seria melhor ideia juntá-las todas a arder em sítios próprios como uma pira, num descampado ou no relvado do Estádio do Sporting, a minha resposta é "Não, senhor! Deixem-nas estar." e não se fala mais no assunto. Mas atenção: devem existir sobretudo para ajudar OS OUTROS, ok? Outra malta que não eu. Porque quando toca a mim a conversa já é diferente...

Nunca nenhuma balança me deu boas notícias. Nunca me colocou um sorriso na face, nunca me perguntou pela família ou deixou uma palavra amiga. Quando sou eu a pisar uma balança aquilo que vejo no mostrador é um misto de intensa agonia para que saia imediatamente (se um monte de plástico e parafusos tivesse a capacidade de berrar, berrava e bem) e a gentileza subtil de um coveiro embriagado a dar-me a terrível má nova de que estou gordo como um urso pardo com bócio. Sempre. Assim, e embora as respeite, também é por estas e por outras que evito relacionar-me com este tipo de maquinetas...

No outro dia, acompanhei uma amiga que não se estava a sentir bem a uma farmácia. Com o pretexto de que uma das razões do seu mal estar se devia ao seu estado de magreza extrema obriguei-a a subir para uma, lá está, balança, e a encarar assim a terrível verdade. No entanto, o papel impresso pelo "oráculo medidor de banha" veio provar que eu estava errado e que efectivamente a minha amiga estava em boa forma. A minha ideia de "magreza extrema" tinha sido portanto deturpada pela comparação com a minha pessoa sendo que é perfeitamente possível uma jovem adulta ter metade do meu tamanho e ser exactamente por isso que está com o peso ideal. Enfim...

O que consegui com a brincadeira foi ter de saltar logo a seguir para cima da plataforma. Achei que fazia sentido. Mas, como é evidente, arrependi-me nem um milésimo de segundo depois...

Primeiro a altura... 1,77 m

Até aqui tudo bem.
Nunca fui muito alto mas também não sou nenhum caga tacos. É uma altura que me permite chegar a um tupperware na última prateleira do armário da cozinha e ao mesmo tempo me impede de fazer figuras tristes no Portugal dos Pequenitos em Coimbra. Portanto, ao nível da altura, 5 estrelas.

Depois o peso... 96 kg

...

Ok, temos aqui um problema.

Não me interpretem mal, poderia até ser uma boa marca... caso eu pertencesse a uma qualquer ganadaria. Mas sendo eu humano e não tendo perspectivas de ser toureado num futuro próximo parece-me que tenho de fazer alguma coisa para impedir que qualquer dia os CTT me atribuam o meu próprio código postal.

Fui-me inscrever num ginásio. Pela 8340ª vez, mas ainda assim fui. A última aventura que tivera no mundo do desporto não fora propriamente brilhante e não me deixara as melhores recordações, como decerto se lembrarão devido a este testemunho. Em traços muito gerais: fui praticar natação livre para umas piscinas duma associação que trata malta com uma doença degenerativa nas costas. Na sua maior parte, idosos. E um dia tive conhecimento que estava um aviso no placard a dizer que já não era a primeira vez que eram encontradas fezes na água. Enfim, ainda não consigo escrever isto sem sofrer uma violenta contracção na traqueia mas não quis deixar de contextualizar.

Até porque agora a realidade é diferente. Num ginásio e a fazer cardio fitness, raios m'a partam se também encontro lá fezes!!!

Eu nem quero falar muito nisso que o Todo Poderoso ainda acha piada e aproveita para fazer das suas. É conhecido o seu bizarro entusiasmo por me lixar a vida e depois divertir-se às minhas custas, como se a minha existência fosse o seu reality show de palhaçada preferido. Tantas eras da História em que podia ter vivido e tive de aparecer logo quando o Velhote está no pico da senilidade...

Anyway...

Hoje foi o meu primeiro dia de exercício físico.
Sim, escrevo estas linhas depois de ter estado uma hora e meia a perceber o porquê do Cláudio Ramos recorrer à lipoaspiração sempre que quer eliminar a celulite do rabo. Mas eu com isto não pretendo descredibilizar a lipoaspiração, note-se. Conseguem-se os melhores resultados e não é preciso sofrer como uma noviça ao primeiro aborto. O problema é que eu sei que a mesma mão que assinaria o cheque deste tipo de cirurgias estaria também mais tarde a escolher vestidos na Bershka. E se as cores da Bershka me ficam mal...

Mas anyway outra vez...

Hoje foi o dia da avaliação.
Portanto, aquele em que conheço o meu plano de treinos para os próximos meses e compreendo que vou pagar com o sangue as pazadas de sushi e de vinhaça que emborquei desde nem eu sei quando. Ao ver o instrutor a preencher a tabela senti-me um Renato Seabra a ouvir a sentença. Se soube bem fazer o que fiz, não há dúvida que soube. Mas agora vou-me f***r à grande!

O instrutor era aquilo a que se chama na gíria de "um puto porreiro". Estivemos a falar sobre artes marciais talvez até mais tempo do que seria necessário mas eu intencionalmente decidi prolongar a conversa para roubar minutos ao massacre físico que estava prestar a abraçar. Reparei que ele insistia em tratar-me por você, e isso estava a incomodar-me bastante. Não tanto pela palavra em si, até porque era normal dado que tínhamos acabado de nos conhecer, mas pela forma como a dizia. Como se eu fosse muito muito mais velho... Ora se eu tenho 28 e ele não devia ter mais de 25, parece-me que 3 anos de diferença não justificavam aqueles salamaleques todos. E não era só o "você", eram os cuidados todos que ele tinha com o meu historial clínico e em especial com a condição cardíaca. Como se eu andasse a gritar "enfarte do miocárdio" por todos os poros...

Enfim, chateou-me.

Inaugurei logo o novo "plano de terror" com quinze minutinhos de bicicleta.
Até me virem dizer que aquela era onde costumavam andar as mulheres e os obesos.

Começava bem...

No entanto, como tecnicamente até me insiro na segunda categoria, deixei-me estar e acabei o exercício.

O resto do treino foi uma divertida sucessão de dor, arrependimento e mágoa. Se fosse uma cantiga era sem dúvida "O Fado da Lontra" mas como não era acabou por ser apenas uma breve amostra de algo que vai fazer parte da minha vida pelo menos durante os próximos meses. Não me queixo, ainda bem que posso dar-me ao luxo de pagar por exercício em condições. Mas também não posso evitar de pensar em todo o dinheiro que se investe, por exemplo, a incentivar os estúpidos casais de pandas a querer mocar e no tão pouco que se aplica em tornar o real enchimento do bandulho num método de emagrecimento. São prioridades...

À saída do ginásio, e como não podia deixar de ser, aqui o campeão tinha de deixar o seu extraordinário carimbo de super-palermice em forma de pièce de résistance. Não bastava sair do recinto branco e encharcado como uma foca do Ártico atordoada... havia mesmo de deixar uma impressão memorável.

Uma vez mais, o jovem instrutor abordou-me para perguntar como tinha corrido o treino... se me estava a sentir bem... se me aguentava...

Você, você, você...

A sua saúde, a sua saúde, a sua saúde...

O coração, o coração, o coração...

...

Até que eu...

Decidi dizer a coisa mais incrivelmente IDIOTA...

Que alguma vez alguém poderia ter dito em qualquer situação...

Em qualquer país do mundo...

Em qualquer momento da História Universal...

...

Perante todo este cenário de formalidades, virei-me para o puto e disse...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

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...

...

...

...

TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO...

...

...

...

...

MAS NO QUE É QUE RAIO ESTAVA EU A PENSAR?!!



PORRA!!! FIZERAM-ME UMA LOBOTOMIA E NINGUÉM ME DISSE?!



"TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO?!!!" WHAT DA FUCK?!!!



ISTO É O TIPO DE COISAS QUE SE ESPERA OUVIR DE UM TIPO COM SUSPENSÓRIOS E UM DAQUELES BONÉS COM UMA HÉLICE...



CA GRANDESSÍSSIMA ESTUPIDEZ!!!



"QUE EU TAMBÉM SOU NOVO..." OH MEU DEUS! QUE ATRASADO MENTAL!



Este tipo de merdas faz-me lembrar outra das minhas festas de anos em casa quando a mãe de uma amiga minha, a tal que era convidada todos os anos, trouxe o filho mais novo, que não tinha sido convidado, só porque não lhe apetecia ficar a tomar conta dele.

Então, mal os meus pais abriram a porta e a minha amiga entrou para brincar connosco, a mulher empurrou o miúdo na mesma direcção e empunhando um saco manhoso de miniaturas de aviões de guerra coloridos, afirmou:

- O menino também vem porque também traz prenda!

Nessa altura apeteceu-me introduzir-lhe pelo recto os horrendos aviões, um por um!
Não só à gaja que dizia isto mas também ao desgraçado do puto que tinha a cabeça esférica e vermelha, semelhante a um queijo Limiano, prestes a explodir de vergonha.

MESMO ESSE EPISÓDIO NÃO SE EQUIPARA EM TERMOS DE IMBECILIDADE À MINHA BRILHANTE SAÍDA.

...

Enfim, estou cansado.
Não tanto do exercício mas fundamentalmente disto. Ainda assim há mais soluções para aqueles que têm excesso de peso do que para os que falam sem pensar. Isso é que era um desporto a sério e que só por si faria maravilhas no meu futuro.

* suspiro *

Tuesday, August 2, 2011

EHPÁ DANCEM!!!

Ora bem, então parece que o Saguim habita um novo galho.
Sim, é verdade. As macacadas mudaram-se definitivamente para outro sítio há duas semanas.

Já não há vizinho cornudo. Já não há discussões entre marginais na paragem do autocarro. Já não há ordinário riscador de carros...

E até hoje também não havia gás.

Há bocado ligaram-me a dizer que já há, mas eu sou como São Tomé: ver para crer. A grande generalidade do público deve estar agora a pensar que, como não havia gás, estive este tempo todo sem tomar banho. Falo daquela generalidade do público que tem o odor apurado e que lida comigo diariamente. Porém, não há suposição mais falsa. O banho tem sido "à chinês" com a ajuda de uma panela de água quente e de dois alguidares. Felizmente, isto é o mais próximo que já estive do Terceiro Mundo. Bom, houve também aquela vez que passei a dois metros de um autocarro dos Super Dragões mas isso é outra conversa...

Parecendo que não, isto de não ter água quente para tomar banho faz alguma diferença. Há sempre quem diga que agora é Verão e que não custa nada tomar um duche de água fria mas como essas pessoas são imbecis, a sua opinião não pode ser levada a sério. Eu posso não conhecer muita coisa mas conheço o meu corpo o suficiente para saber que a cada duche gelado há funções fisiológicas que perco para sempre. Eu sei disso porque, em total desespero, tentei fazê-lo há uns dias. E agora sou incapaz de conter o fluxo de ranho sempre que estou perto de um rádio a pilhas. Enfim...

A casa nova é inovadora a vários níveis relativamente à de Benfica (e nem sequer estou a falar da ausência dos cornos do vizinho do lado marcados na parede da sala). A vizinhança é pacata e bem disposta. Quando dou os bons dias e boas tardes a alguém, a resposta que obtenho não é nenhum grunhido cavernoso e/ou uma valente bufa na minha direcção. Respondem na mesma moeda e volta e meia até sorriem... SORRIEM! Eu sei que é difícil explicar a minha alegria mas por favor tentem. Quanto ao barulho, anteontem um amigo deslocou-se lá a casa para fazer uns buracos com o black&decker e às 21h ainda estava a malhar no estuque como um moicano. Ninguém reclamou, ninguém insultou, ninguém disse absolutamente nada. O que me leva a concluir que desta vez o cigano devo ser mesmo eu.

Também não há nenhum restaurante de sushi ao virar da esquina, o que só por si deve permitir que consiga pagar o empréstimo ao banco até ao fim. São coisas como estas que quase me fazem esquecer os 9 meses que penei à espera que o processo das obras acabasse para finalmente recuperar todos os meus pertences e roupas. Esta última parte foi mesmo um problema. Nunca pensei estar tanto tempo à espera e portanto pus de parte uma ínfima parte do amontoado de trapos incoerente a que chamo de "a minha roupa". A dada altura, tentei todas as combinações possíveis, e algumas bem ridículas devo acrescentar, o que proporcionou olhares de pena dos meus colegas de trabalho e sorrisos nervosos da minha parte. Mas tudo isso está para trás das costas.

Até a gata está mais calma e dócil. Claro que para isso também muito contribui o milagroso efeito dos antidepressivos mas de qualquer maneira gosto de acreditar que ela aprova o novo poiso. Por falar em antidepressivos, parece que as ordens do veterinário são para começar a parar por esta altura. Eu estou renitente, até porque aprecio dormir entre as 5h até às 8h, mas também não posso estar a drogar um animal só para garantir o meu conforto. Ou posso...?

As coisas estão lentamente a ir ao lugar. E parece tudo tão bem que o santo começa a desconfiar. Qualquer dia abro a porta da casa e está um corcunda a arrastar um cadáver para a casa ao lado, ou assim. Sinto que alguma coisa de terrível está para acontecer, que estou apenas iludido sem querer ver o buraco fétido e lamacento onde me fui enterrar, mas vou ter de esperar mais alguns dias para ter a certeza. As coisas também não podem ser sempre à minha vontade. Aprendi isso em criança, numa das minhas festas de anos em casa...

(música e efeitos visuais indicativos de flashback)

Naquela altura, a minha lista de convidados contava com 19 rapazes e uma só rapariga (normalmente era a mais feia da turma porque era insuspeita, não podia correr o risco de convidar uma gira porque depois toda a gente ia achar que eu gostava dela. Todos nos protegíamos criteriosamente nesse aspecto). Houve um ano em que em vez de uma convidei duas, o que era só por si um grande acontecimento, e decidi que iria organizar um concurso de dança em minha casa. Um concurso de dança com 18 rapazes e 2 raparigas. Adivinhava-se espectáculo.

Vai daí, preparei uma cassete com uma cuidada compilação de música de dança. Recorri ao que tinha em casa. Queen, portanto. Uma banda que animava as discotecas pelo mundo fora...

Ok, recapitulemos: um rácio absolutamente desequilibrado de miúdos e miúdas com o fenomenal elo de ligação de um tipo de música que, tipo, não dá para dançar.

E eu sempre a achar que a ideia era genial.

No dia da festa de aniversário, eliminei logo o primeiro problema ao seleccionar dois rapazes da minha preferência. Os outros todos podiam enfiar os croquetes e os rissóis de camarão no cu porque eu tinha um concurso de dança para promover. O júri era eu, claro. Só. Isso nem se questionava.

Enfiei-me no quarto com os dois casais, vermelhos como tomates e envergonhados como noviças no Cinema Olympia, e coloquei a cassete dos Queen a tocar. Eles, parados a olhar uns para os outros, tentaram dizer-me que tinham dificuldade em dançar ao som daquele tipo de música. Eu mandei-os improvisar e fui sentar-me junto á parede com um bloco e uma caneta nas mãos (suponho que para dar notas) e com um sorriso entusiasmado na cara.

Eles não dançavam.

Formando dois pares, com os "bailarinos" de frente um para o outro, flectiam nervosamente os joelhos e mexiam as mãos de forma descoordenada. Só para deixar satisfeito o aniversariamente que começava a ficar irritado com tamanha falta de jeito.

As queixas eram muitas... Que não estavam a sentir o ritmo. Que não lhes apetecia. Que não era o momento certo. E os minutos sucediam-se fazendo abater-se sobre o quarto um denso manto de desconforto e ira.

A dada altura, passei-me da marmita. Aquilo era demais.

Perante a passividade dos meus convidados berrei com todas as forças que as minha jovens artérias me proporcionavam:

- EHPÁ DANCEM!!!

...

...

...

(piscar de olhos)

...

...

(as lágrimas a escorrer silenciosamente pelas caras dos meus amigos)

...

...

(gemidos surdos)

...

...

(mais flectir nervoso de joelhos e movimento descoordenado de mãos, agora com maior intensidade).

...

- Bom, isto não está a resultar. Vamos mas é voltar para junto dos outros. - acabei por concluir eu, perante a debandada mais rápida de seres humanos que alguma vez testemunhei.


(música e efeitos visuais indicativos de fim de flashback)


Nessa mesma noite o meu pai explicou-me que o que fizera fora extremamente desumano.

Extremamente.

Fosse o meu pai Staline ou Mussolini acredito que o teria enchido de orgulho. Mas como não era, nem nunca foi, a reacção foi de grande preocupação e, porque não dizê-lo, de algum medo.

De facto, ele tinha toda a razão. Em que é que eu estaria a pensar... "EHPÁ DANCEM!!!"??? E o teatro todo antes... Mais valia ter acrescentado "PALHAÇOS" também. Já que estava com a mão na massa. "EHPÁ DANCEM, PALHAÇOS!!!" Ao menos teria sido coerente do princípio ao fim.

Bom, esse foi um momento de viragem, a partir daí jurei não me impor demasiado a ninguém.
E sei que a vida não me dá obrigatoriamente aquilo que acho que devo ter.

Por isso, parece que agora corre tudo muito bem com a casa e tal.

Mas se as coisas derem para o torto, de nada me valerá voltar a berrar "EHPÁ DANCEM!!!"

Ou valerá...?

Tuesday, June 28, 2011

Tudo o que você queria saber sobre camionetas... e tem vergonha de perguntar

Quem é que aqui odeia autocarros?

Quero ver mãos no ar...

Ena tantas!

São cá dos meus!

Odeio autocarros sim senhor e não tenho vergonha nenhuma de gritá-lo aos sete ventos. Aliás, já o fiz aqui mesmo neste canto internético obscuro há uns quantos anos atrás, num post bem velhinho. Na altura, apelidei-os singelamente de "carripanas de Satanás" e quem tem de andar neles todos os dias não pode deixar de dar-me razão.

Se por outro lado aparecer alguém activista das vis transportadoras de gado humano a mandar-me enfiar as opiniões onde o sol não brilha, a existência de tais criaturas faz com que possa dizer que na minha vida já vi de tudo, a par do clássico porco a andar de bicicleta.

Bom, mas não quero alongar-me demasiado sobre o assunto. Aquilo que me traz aqui hoje é algo ligeiramente diferente...

Dado este meu ódio de estimação não é senão irónico quando me vejo, por razões profissionais, a ir e vir a Beja todas as semanas de camioneta. Não que tenha sido a minha primeira escolha, a camioneta. É que fazer a viagem de carro obrigar-me-ia a passar boa parte do mês sem ter mais do que aquelas folhas velhas de alface que ficam caídas no chão dos supermercados para comer, por não sobrar qualquer dinheiro depois da gasolina e das portagens... E parece que também houve alguém genial que achou que haver comboios para Beja era coisa de finórios e que o melhor era acabar com essas mordomias do catano.

Restou-me a porra da camioneta.

Que, diga-se de passagem, é perigosamente semelhante com "aquele que não dizemos o nome".

Três horas e meia para lá, três horas e meia para cá, sete horas no final do dia... Nem interessa o que vou lá fazer, tanto sacrifício devia valer-me já a canonização e a definição de mártir. Aqui entre nós, não sei bem que benefício me trariam estes títulos ou se me ajudariam a arranjar emprego, mas com certeza não hão-de prejudicar o meu curriculum vitae. Conto é com vocês para tratarem das papeladas com o Vaticano que eu sinto muito cansaço.

Ora bem, o que tenho eu a concluir depois de quase dois meses nestas andanças?

1.
Eu não sou homem suficiente para andar de camioneta. Isto, tal qual. Nos dias de viagem, chego à rodoviária por volta das 6h30. Só para verem a estaleca deste menino. Estaleca que nada tem a ver com virilidade, diga-se. Depois de comprar o bilhete dirijo-me para o café onde bebo a primeira bica do dia. Recentemente, numa destas minhas incursões matinais à cafeína testemunhei a acção de um homem negro que, abrindo a goela como uma avestruz, espetou um copanázio de brandy no bucho mais depressa do que me levou a dizer "CUIDADO, VAI EXPLODIR!!!" Com um cartão de visita destes, tomei logo respeito às camionetas e às pessoas que as frequentam. Sei que sou apenas um estagiário nisto do "camionetismo" (está inventada a palavra) porque se me atrevesse a fazer escorregar uma pomada daquelas pela traqueia adentro assim de manhãzinha faria o caminho de volta borrando-me e largando golfadas de vómito a cada passo até à porta do veículo. Um percurso assim não seria nada honroso e condenar-me-ia a ser gozado em cada viagem.

2.
A malta olha de lado para os betinhos que gostam de sentar-se nos lugares que estão no bilhete. Fosse aquilo uma escola C+S e não uma camioneta, muito calduço havia de assentar no pescoçame de quem andasse com o papelinho na mão à procura do estofo correcto. Eu sei porque fazia isso no início até uma velha me mostrar os caninos da dentadura, rosnando em ameaça. Eu disse-lhe que era só enquanto as outras pessoas não se sentavam, por uma questão de respeito pelo próximo e para não estar a ocupar a cadeira de alguém. Mas ela começou a resmungar, dizendo que era estúpido eu querer aproximar-me a menos de meio metro de uma pessoa sendo que a camioneta ia vazia. E tinha a sua razão, o raio da velha. De facto, só um tarado gerondófilo faria tal coisa... Ou então um palerma como eu. Contive-me uns segundos mais ao seu lado, suando abundantemente da testa, à espera do momento certo para sair daquele que era afinal de contas o lugar que me estava destinado pelo bilhete e ir para um dos outros lugares vazios. Até que, ligeiro como um esquilo, ou então tão ligeiro quanto o meu corpo me permite ser, saltei do lugar e fugi sem olhar para trás, procurando ignorar um resmungar ainda mais intenso da velha morcega. Serviu-me de emenda e nunca mais me sentei no meu lugar. A isto chama-se aprender.

3.
Há malta que não sabe lidar com o enjoo. Pura e simplesmente, não sabe. Quando eu estou enjoado enterro dois dedos na garganta e trato do assunto à boa e velha maneira pirata. Não é nenhum drama nem ninguém morre por causa disso. No outro dia, a meio caminho para Beja, a camioneta parou e o condutor dirigiu-se até meio do veículo para auxiliar um passageiro em dificuldades. Era uma pensionista que estava prestes a vomitar, enjoada como uma vaca no matadouro e que, como não podia deixar de ser, aproveitava para desempenhar um longo papel dramático numa peça de sua autoria. Estivesse lá o La Féria e começava tudo a cantar e a dançar, erguendo a velha em braços de onde saltavam triunfantes a Anabela e o Carlos Quintas. Anyway... a mulher mostrava o seu mais profundo mal-estar através do balido monocórdico e inquietante:

Ai...

Ai...

Ai...

- Quer água, minha senhora? (perguntava o estúpido do motorista que devia estar a fazer a porra do seu trabalho e a levar-me para Beja de modo a poder fazer o meu)

Ai...

Ai...

Ai...

- Ela disse que ia para um funeral e que mal tinha dormido... Está mal disposta. (comentava uma velha que não conhecia a outra mas que fazia questão de relatar para todos os passageiros as conversas que tinham partilhado desde o início da viagem, por irem lado-a-lado)

Ai...

Ai...

Ai...

- Olhe eu acho bem que já não vá a funeral nenhum porque senão ainda fica lá também! (dizia a velha número dois enquanto agarrava num saco de plástico que já continha no interior o vomitado da velha número 1, e quiçá também a sua dentadura. Aqui, tive de me rir).

Ai...

Ai...

Ai...

Ai...

Tive vontade de me levantar do lugar e tirar a mulher do sofrimento apertando-lhe o gargomil. "AI AI AI O QUÊ?! PORRA! VOMITA COMO UM CÃO E MIJA COMO UM HOMEM A SEGUIR QUE EU TENHO DE IR TRABALHAR!!!" (não sei bem porque lhe gritaria tal coisa mas foi o que me ocorreu). Enfim, a velha lá se sentiu melhor e pudemos seguir viagem. Sem ser preciso aviar-lhe uma ou duas chapadas, o que acabou por ser mais simpático. Mas não ganhei para o susto.

4.
Existem camionetas melhores do que outras. De manhã costumo sempre comprar o bilhete de ida e de volta, mas como hoje por exemplo me despachei mais cedo, antecipei um pouco o regresso trocando a passagem na bilheteira. E a verdade é que acertei em cheio! A camioneta das 17h não só tem rede wireless para os passageiros como tem uma TV e até uma hospedeira.... Tipo as dos aviões. Calculo que aquelas que vão trabalhar para a Rede Expressos sejam as que chumbaram nos exames da TAP. A malta que anda de camioneta é que tem de levar com o refugo. No entanto, é engraçado ver a forma como ela fazia o seu trabalho fantasiando que estava numa aeronave. A maneira como fazia os anúncios por microfone aos passageiros, a forma como nos oferecia sandes prontas a comer, a doçura com que me pediu que baixasse o som dos meus phones... Confesso que esta não percebi. A música que estava a ouvir estava demasiado alta. Como se eu fosse um daqueles mitras com o rádio ao ombro a ouvir kizomba. Eu estava muito sossegadinho com o meu mp3 no bolso a ouvir a minha música, sem chatear ninguém e tive de baixar o som porque segundo a tipa "estava demasiado alto". Das duas uma, ou foi só p'ra me chatear (hipótese muito viável) ou então faz parte de um novo serviço de "saúde e cuidado". As hospedeiras das camionetas têm não só de se certificar que temos tudo o que precisamos para uma viagem confortável como também não avacalhamos os tímpanos com o ruído. 'Tá giro! Giro giro também era ver esta alminha ao lado do condutor da camioneta. Uma na base da carreira de hospedeira, outro no topo da carreira de motorista de camionetas. Cada um tem o que merece...


E assim tem sido a minha vida, além de tudo o resto.
Ansiando que estas conclusões me ajudem a sobreviver àquilo que ainda aí vem.

E que um dia, quem sabe, consiga o financiamento para acabar de vez com tudo aquilo que se assemelhe a um pérfido e fedorento autocarro. Eu mando mails mas não me respondem.

Sovinas...

Thursday, June 16, 2011

5 perguntinhas muito breves

Eu sei que tenho aparecido pouco neste nosso convívio... Por favor não batam mais no ceguinho, ok?

Sei também que poucas coisas vos fizeram mais felizes nas últimas semanas do que não receber os meus sempre aborrecidos mails a sugerir para aqui virem ler disparate... Enfim, lamento retirar os sorrisos relaxados das vossas faces e chamar novamente à vossa atenção para coisas que são estúpidas e não têm interesse nenhum.

Tenho andado ausente porquê?!

Precisamente pelas perguntas que marinam na minha cabeça e para as quais não encontro resposta. Isso é daquelas coisas que me tiram o sono, me roubam o cabelo (quem está perto de mim sabe do que falo... há pastagens na Etiópia mais férteis do que o meu couro cabeludo neste momento) e fazem tremelicar o olho esquerdo sempre que muda a hora. Ando cansado e com relativo stress.

E por isso, por estar tão perto da insanidade, considero mais interessante passar o dia com dois copos de iogurte enfiados nas orelhas do que vir para aqui desabafar com um ecrã de computador.

Mas dizia eu que nos últimos tempos estava a ser assombrado por perguntas, não era?
Bom, então aqui vão elas:

5 PERGUNTINHAS MUITO BREVES QUE ME ESTÃO A ROUBAR O JUÍZO

1.
Porque é que, quando eu era miúdo, não podia ver os filmes do Robocop?

Porquê?!
É que eu via os outros todos... Mais e menos violentos. Via os Seagals, os Norris, os Van Dammes, os Stallones e os Schwarzennegers da vida... Porque não o raio do Robocop?! Ainda hoje não percebo qual era o critério do meu pai (por favor explica-me!) mas o que é certo é que só recentemente vi o raio do filme e continuo sem perceber. Ok, tem violência gratuita (sem contarmos com o dinheiro gasto no DVD, claro). Ok, tem partes ordinárias. Ok, tem alguma estupidez. Mas esses três ingredientes, sejamos sinceros, FORAM só por si os anos 90... Quem é que se lembra do "Big Show Sic"? Tinha tudo isto e muito mais! O facto de me ter sido negado o visionamento dos filmes do "Robocop" tem-me tirado o sono por duas razões: porque o conteúdo dos mesmos não era em nada inferior a qualquer dos seriados da autoria do Ediberto Lima e porque é cada vez mais evidente que não me resta grande sanidade nesta bola de bilhar parcamente peluda a que chamo de cabeça.

2.
Porque é que, quando eu era miúdo, não me deixavam comer Suissinhos?

Outra...
Eu sei que como adulto deviam haver mais coisas com que me entreter. Mas só muito recentemente é que comi o meu primeiro Suissinho e isso temos de convir que é deprimente. Deprimente, sobretudo, também por duas razões: porque não há grande razão para mo terem negado no passado e porque é preciso lata e zero de amor próprio para um indivíduo da minha idade e tamanho sair do Pingo Doce com um Suissinho na mão. Vamos lá ver uma coisa: quando eu era pequeno, o conceito de alimento para mim era abrangente. Muito abrangente. Comia TUDO e DE TUDO... tendo especial cuidado para não ingerir coisas saudáveis ou que de uma certa forma me fizessem bem ao organismo. Nisso sempre fui criterioso, não vou mentir. Na altura, talvez achassem que o Suissinho era demasiado nutritivo e que, tendo eu aos 6 anos a compleição de um búfalo adulto, não precisava de mais energia e/ou gordura. Ok, respeito isso... Embora não tenha a certeza que fosse essa a verdadeira razão. Não foi fácil chegar aos 28 anos sem saber ao que sabia aquilo. Agora já sei mas continua a assombrar-me. Malditos queijos!

3.
Porque é que eu comprei uma casa há 8 meses e ainda não estou lá a morar?

Bom, esta é a questão fulcral e aquela que me está a fazer enlouquecer a passos largos. Não é do meu feitio apontar dedos e responsabilizar gente. Mas a culpa é da minha mulher! Ok, talvez não seja só dela... Acho que é um pouco de toda a gente, de todos os seres vivos do mundo que de alguma forma se perfilaram com uma estúpida conjuntura de astros e forças gravitacionais (não sei do que estou a falar mas mais vale aproveitar o embalo e terminar este raciocínio idiota) para que simplesmente não fosse possível usufruir do imóvel que vou andar a pagar até transportar uma algália quando quiser ir ao cinema. Foi o empréstimo, foi a compra, foram as obras, foram os materiais, foi tudo e mais um par de botas. E agora parece que está quase mas claro que eu já não acredito nisso... Daqui a 15 anos se for vivo, pode ser que possa começar a colocar lá os meus tarecos.

4.
Porque é que a minha gata anda feita um docinho conventual?

Esta é fácil: porque está a tomar anti-depressivos.
E confesso que nunca fui tão feliz. A paz impera.
Parece que a bicha começou a bater mal por ter saído da casa de Benfica, onde o vizinho cornudo gostava de enfiar valentes marradas na parede sempre que os decibéis subiam acima do limite estabelecido pelos mosteiros na Idade Média, e transitado para a casa onde estamos em Paço de Arcos. Ao que parece os gatos gostam pouco de mudanças e ficam stressados quando os obrigamos a conhecer um novo ambiente. Não gostar de mudanças eu compreendo, agora ficar passado dos carretos por ter abandonado Benfica onde o conceito de dar os bons dias ao vizinho era escarrar-lhe na cara e urinar-lhe na caixa de correio, já me parece um pouco absurdo. Eu tentei dar-lhe algumas sessões de psicanálise mas como sou contra bater em animais desisti quando acabei por lhe partir uma vassoura no lombo. Os anti-depressivos foram o estágio seguinte, receitados pela veterinária que, mesmo tendo uma arma apontada à cabeça, conseguiu manter a calma e apresentar uma caligrafia perceptível. Portanto, aqueles que dizem que a "letra de médico é ilegível" deviam era calar o bico.

5.
Porque é que duas das perguntas que me assombram remetem ao passado e as outras duas ao presente?

Por razão nenhuma em especial... Estou é a trabalhar demais e, embora agora esteja de férias, continuo a acordar cedo para tratar de assuntos da casa e a bulir sempre que paro. Portanto, neste momento no meu cérebro não há passado nem futuro, há é uma grande bola de cenas, tipo uma miga alentejana gigante, onde se mescla informação. Agora, como é que isto se organiza já é outro assunto completamente diferente para o qual era necessário criar um departamento próprio. Para isso e para o chinês do Futre, que o episódio não está esquecido. Mas lá iremos que isto tem de ser uma coisa de cada vez. Mais uma ou duas semanas, dizem eles, já estarei na nova morada. E depois tudo será diferente. Ou não...

Friday, May 20, 2011

O MUNDO VAI ACABAR... e eu não tenho roupa decente para vestir!

Ora então parece que hoje, dia 21 de Maio de 2011, é o Dia do Juízo Final.
Digo isto mas atenção que não é o fim do mundo... Esse vai ser uns meses depois, no dia 21 de Outubro!

O Juízo Final é só uma espécie de ordem de despejo que vamos receber do senhorio-mor (para quem é burro e não percebe metáforas, estou a falar de Deus). Senhorio esse que, escusado será dizer, está farto de ouvir o disco do Toy que pomos a tocar em altos berros às tantas da madrugada, dia após dia desde há milhares de anos. Os últimos que fizeram isso têm agora as ossadas a apanhar pó em museus como o da Lourinhã e enfeitam a maior parte das lancheiras dos miúdos do ensino primário (uma vez mais a metáfora, burros do catano, falo de dinossauros). A grande verdade é que andamos há demasiado tempo a f***r de cima abaixo este T2+1 a que chamamos Planeta Terra. E por isso não O condeno. Se fosse eu o dono disto tinha corrido com esta cambada logo na semana 1. Era ver o primeiro macaco a desenhar uma cabra em Foz Côa e levavam todos um chuto no cu dali p'ra fora por vandalismo...

Bom, quando vi na net a notícia de que hoje (mais logo, espero eu) as almas seriam julgadas e basicamente seria separado o trigo do joio, a minha reacção foi espontânea e imediata... Qualquer coisa como: "Atenção que também eu fiquei triste com o facto do Benfica ter ganho apenas uma mísera, e ranhosa se me permitem acrescentar, Taça da Liga, mas ficar tão desgostoso ao ponto de começar a apregoar o Fim dos Tempos parece-me um bocado extremo. Para o ano o Jesus compra mais cinco argentinos e a coisa resolve-se..."

No entanto, ao ler um artigo do Semanário Sol, reparei na frase inicial que rezava o seguinte: "Um movimento cristão norte-americano anunciou o 'fim do mundo' para 21 de Maio próximo, um ano e meio mais cedo do que a data 'prevista' pelo calendário maia: 21 de Dezembro de 2012 (...)"

Aqui, toda a minha perspectiva mudou de imediato.

Em primeiro lugar, se é um movimento cristão a dizer é porque é com certeza verdade.

Então norte-americano é a cereja no topo do bolo no que diz respeito a malta que não saberia mentir mesmo que quisesse. Isso e ninguém melhor do que indivíduos que acham que Portugal é um resort na Riviera Maya para dizer com exactidão uma coisa que nem o mais sábio dos sábios soube algum dia anunciar.

Mas há uma coisa que irrita no meio desta história toda. Os americanos têm sempre de ser os primeiros em tudo. Foram os primeiros a fazer de conta que foram à Lua, os primeiros a chamar desporto a um bando de bisontes com capacetes a correr agarrados a um melão e agora tiveram de roubar o protagonismo aos desgraçados dos índios (como se não bastasse todo o mal que lhes fizeram no passado) e anunciar o Fim do Mundo para um ano antes.

Além do mais é falta de consideração à minha pessoa. Ando eu a preparar-me física e psicologicamente para acabar em grande estilo em 2012, a treinar números de sapateado e a ver espectáculos do La Féria de enfiada, e agora tenho de antecipar todo um programa de festas porque os meninos querem ser eles a dizer quando é que acaba e quando é que não acaba.

Canalhas!

Ah e o dia do Juízo Final hoje também é uma rica prenda, sim senhor.
Penso que consiste num princípio muito básico: quem for crente é sugado pelos céus a grande velocidade.

...

Peço desculpa, mas não há maneira menos idiota de explicar isto.

...

As pessoas boas vão voar todas na vertical como se tivessem um míssil enfiado no rabo... E aquelas que estiverem dentro de casa suponho que, além de ficarem surpresas pelo súbito chamamento divino, também levarão com uma carrada de estuque emplastrada na testa que não será brincadeira. Mas enfim, serão salvas. E não é para isso que vivemos?

Já os outros ficarão aqui a ser julgados.
E o facto de eu quase de certeza me inserir nesse grupo deixa-me deveras inquieto.

É que a minha casa está em obras e eu tenho grande parte dos meus pertences em caixas de cartão. Significa que as minhas melhores roupas estão guardadas e não tenho nada decente para levar a tribunal. Já gente para me defender não estou minimamente preocupado, porque com o resgate das boas almas e a permanência de todas as más o que não deve faltar p'raí são juízes e advogados à procura de uma oportunidade. Agora, sem um fatinho minimamente como deve ser prefiro ficar em casa e fazer um requerimento por escrito para ser julgado noutra altura... Enfim, não me convinha nada estar com este tipo de problemas agora, francamente.

De qualquer maneira, até fico agradecido a mim próprio por pertencer à turma dos condenados. É que eu tenho um terrível problema de vertigens e se me sacassem por aí acima era bem capaz de me dar uma síncope antes de chegar às portas douradas de São Pedro. Isso ou despedir-me deste mundo de forma inglória e até vergonhosa, borrando-me vigorosamente pelos céus acima... Assim, posso ficar mal acompanhado com os outros bandalhos todos mas ao menos tenhos os pézinhos na terra.

Terminado o Juízo Final, calculo que no telejornal das 20h já saiam os primeiros resultados: quem foi, quem não foi, quem arderá no inferno eternamente, quem absolveu o Pinto da Costa... Ao menos espero que não faltem fofocas e mexericos até Outubro quando é suposto irmos todos desta p'ra melhor.

Outubro esse que, convém dizê-lo, também é um péssimo mês para acabarem com isto. Ou ao menos façam-no depois das minhas férias que são durante esse mês. Seria terrível estar a bebericar cocktails em Havana ou na Fonte da Telha e vir um indivíduo trazer-me a conta e dizer-me para pagar depressa porque o estabelecimento vai fechar e o mundo também. Não sei quanto aos outros, mas eu ando a trabalhar o ano inteiro como um cão e isto custar-me-ia muito ouvir.

Enfim, agora já não há muito a fazer...
Tinha coisas combinadas para o Natal deste ano e para Janeiro de 2012 e vou ter de desmarcar tudo por causa do raio dos fanáticos religiosos! Não há quem lhes enfie duas murraças na tromba e aplique um rotativo à Van Damme. Depois disso o Fim do Mundo já não lhes pareceria tão mau.

Quanto a mim, o que tiver de vir virá.
Pelo sim pelo não o melhor é continuar a escovar os dentes porque as cáries não são bichezas para terem medo cá de Apocalipses... O melhor é ir vivendo e ter juízo...

...

... Final!

(risos e aplausos)

Thursday, April 28, 2011

62 Considerações acerca dos últimos dias

Eu fiz parte do grosso magote de pessoas que decidiram aproveitar as mini-férias da Páscoa para ir desopilar por aí...

Primeiro porque se é para desopilar, aqui o menino desopila sempre em grande estilo. Depois porque com os FMI's a dar-nos na pá, o Benfica a levar na pá e o stress do dia-a-dia a esgotar-me a pá (não tenho bem a certeza do que isto quer dizer mas agora está dito está dito)... Estava mesmo a precisar de me pôr a milhas desta trapalhada toda.

Assim, tenho obviamente considerações a tecer acerca dos últimos dias, da viagem e não só. E vai em jeito de lista que isto tudo misturado não dá texto nenhum que se preze...

É assim...


- Faço-me à estrada logo na noite da 5ª feira, depois do trabalho. Isto enquanto parece que Deus está determinado a afogar a Terra em chuva só para se entreter.

- Cago na chuva porque me rio na cara do perigo e, sempre que posso, efectuo valentes manguitos aos maricas que decidem esperar pela manhã seguinte para fazer a viagem em segurança...

- Antes de ir, janto num restaurante ao pé de casa e, perante a incapacidade da minha mulher em comer dois dos bifes de perú da sua travessa, peço para os levar embrulhados na esperança de encontrar um cãozinho abandonado e faminto mais tarde.

- A empregada do restaurante fica claramente a pensar que os bifes são p'ra mim e que eu sou deprimente... Mas no fundo ela é que serve à mesa num restaurante manhoso e não eu.

- Sendo que vou eu a conduzir, a minha mulher acha boa ideia levar os bifes no banco de trás ao invés de os colocar na bagageira.

- O que, aliado ao facto de não podermos abrir as janelas por causa da chuva, abençoa a viagem com o sempre inebriante e agradável pivete a alho.

- O destino: Zambujeira do Mar. O condutor: eu. O que é que isto está a pedir? Sarilho, evidentemente.

- Depois de andarmos perdidos durante uma série de quilómetros, chegando a Odemira vemos a estrada cortada porque... sim.

- Se era boa ideia colocar um aviso uma meia hora atrás: ERA! Mas não era a mesma coisa porque assim não andávamos nós às voltas no Alentejo profundo de madrugada...

- Chove na Zambujeira. Não conseguimos deixar de antever os belos dias de praia que nos esperam.

- Cães abandonados e famintos nem vê-los. Deixamos os bifes na bagageira do carro e vamos dormir.

- Dilúvio até de manhã!

- Dia 2: o tempo está rafeiro mas já se aguenta melhor. A TV só tem os canais nacionais, o que me permite assistir a uma inteligente conversa entre Manuel Luís Goucha, Cinha Jardim, Lili Caneças e outra velha que nunca vi mais gorda. O ponto alto é quando esta última diz a palavra "merda" gratuitamente. O público ri e aplaude.

- Assim, depois de vomitar o pequeno almoço, faço uma visita de reconhecimento pela Zambujeira.

- Não há cães abandonados.

- Nem famintos, tão pouco.

- Ainda assim, vamos resgatar os bifes à bagageira do carro e dirigimo-nos para a zona da praia com a intenção de almoçar.

- No final da refeição, reparamos que o vinho não vem na conta.

- O meu primeiro pensamento é de que se trata de cortesia da casa, dado que sou uma celebridade.

- O meu segundo pensamento é que confundo muitas vezes o conceito de celebridade com o de palerma e, como tal, continua a não haver razão para a porra do vinho não estar na conta.

- Porque inegavelmente sou um palerma, alerto para o lapso.

- Pedem-me desculpas (?????) e acrescentam o valor à conta.

- Pago e vou-me embora. Com o almoço a bailar-me no estômago ainda por causa do programa da manhã da TVI...

- Uns metros à frente a minha mulher apercebe-se que deixou os bifes embrulhados na mesa do restaurante.

- Dá-me um valente chilique derivado da vergonha e, entre guinchos animalescos e espasmos musculares, fujo para longe.

- Portanto, o que se passou foi o seguinte: não só chamei à atenção por não ter pago o suficiente como ainda lhes deixei dois bifes para abater na despesa. No que toca a restaurantes, sou um cliente de sonho.

- Mesmo não estando tempo para isso, vamos até à praia e deitamo-nos na areia.

- Para saltar dali minutos mais tarde porque começa a chover outra vez.

- No entanto, o breve contacto entre os nossos casacos e a areia húmida é o suficiente para os deixar para o resto das férias com o fétido aroma a urina de qualquer ser que não o humano.

- Coisa que não contribui para a nossa popularidade nos restantes dias.

- À noite, vejo pela primeira vez o "Portugal tem Talento" e logo a grande final.

- Bárbara Guimarães entra em palco mascarada de Lady Gaga e participa numa interessante e exótica coreografia.

- Quanto a isto, dois aspectos: a mulher apresenta sinais inquestionáveis de insanidade e alguém lhe devia dizer que fazer playback com a boca p'ró lado não é sexy... é sinal de que se teve um AVC.

- Dilúvio até de manhã!

- Apercebo-me que o filho mais velho da falecida princesa Diana se vai casar porque não se fala de outra coisa na TV.

- Constato que o puto tem melhor gosto para as mulheres do que o pai, que por livre e espontânea vontade entregou o coração a um estafermo que parece ter apanhado com uma betoneira em cheio no trombil.

- Lembro-me que o Carlos e a Diana eram um casal intrigante. Ela confessou tê-lo traído com alguns tipos, nomeadamente militares. Ele enganou-a repetidas vezes com aquele aborto mal parido de ogre e, mais tarde e já viúvo, até casou com a criatura.

- Portanto, na minha maneira de ver as coisas, há um nome para cada um. Princesa Diana: adúltera. Príncipe Carlos: maluco dos cornos!

- Mas pronto, o filho agora, e apesar de estar a ficar careca, diz que vai casar-se muito em breve. E parece que um dos enviados especiais da TVI a Londres para fazer a cobertura do acontecimento vai ser Manuel Luís Goucha.

- A TVI arrisca-se assim a nunca mais poder pisar solo inglês... Mas admiro a iniciativa e a coragem.

- Além de boa televisão, os dias que se seguem trazem também boa comida.

- Falo de migas com entrecosto, salada de polvo, choquinhos fritos e feijoada de búzios.

- Falo também do bom e velho Guronsan para ajudar a digerir estas zurrapas.

- O Benfica ganha a Taça da Liga o que, para ser sincero, não me faz assim grande diferença. É só mais um tareco para eles lá terem a apanhar pó. E ainda por cima a taça é preta, onde se nota ainda mais a sujidade.

- Se fosse eu, quando fosse jantar depois do jogo deixava-a no restaurante como deixei os bifes. Sempre era menos uma coisa a empatar.

- Sei que estou a ser mau, que é sempre melhor ganhar do que perder. Mas depois do desaire na Taça de Portugal permitam-me o direito à crueldade.

- Os díluvios amainam... No dia do regresso está um maravilhoso sol de Verão.

- Fico emocionado pela forma engalanada como a vila decide despedir-se de mim. Tanto que me apetece lá detonar uma bomba como agradecimento.

- Tenho ainda tempo de ver a actriz Guida Maria a interromper uma das suas peças dedicadas à vagina e a deslocar-se a um estúdio de televisão para comentar a actualidade.

- Constato pela primeira vez que prefiro ver uma mulher de 50 anos a falar de orgãos sexuais do que a exprimir opiniões...

- Aparentemente quando não está a falar com ou de vaginas, Guida Maria está a dizer merda.

- Estava consternada por ver tanta gente a ir de férias, a rumar ao Sul, em tempos de crise. "Parece que a crise afinal é só em minha casa", exclamava ela em tom esganiçado.

- Melhor seria se as pessoas ficassem todas em casa a contar os tostões, não gastassem dinheiro nenhum e a nossa economia estagnasse... Isso é que era de valor.

- Mas no fundo sou obrigado a concordar com ela. Este ponto de vista prova que há de facto uma crise intelectual que reina em sua casa... Já vaginas há com fartura e ainda bem, que o bom teatro não vive sem elas.

- Ainda cedo, para não apanhar trânsito, o regresso...

- É a vez da minha mulher assumir o volante. Tudo corre bem até passarmos por alguns campos de pasto onde se encontram vacas.

- A minha mulher adora bichos. Fica embevecida a olhar p'ra eles...

- P'ra eles e não p'rá estrada, onde se dirige a grande velocidade na direcção de um veículo parado.

- Berro como se estivesse a dar à luz.

- Os meus olhos do tamanho de pratos de sobremesa.

- Ela apercebe-se a tempo de evitar o nosso falecimento.

- E é encharcado em urina que regresso a casa duas horas e picos depois.


FIM

Monday, April 11, 2011

Eu por outros lados


Então não é que em amena passeata pelo mundo da internet fui dar com um boneco da autoria da minha amiga ilustradora e muito talentosa artista Mariana Perry, a partir do meu último texto "Eu por cá"?

Bem verdade, sim senhor. Muito lhe agradeço a gentileza.

Retribuo com um elogio ('Tá do catano, Mariana!) e com alguma publicidade ao seu excelente trabalho. Checkem o seu blogue de ilustração, o de BD e o Behance. É do melhor!

Saturday, April 9, 2011

Eu por cá

Enquanto escrevo estas linhas o meu amor está provavelmente a passar momentos inolvidáveis de diversão infantil na Eurodisney...

Sim, aquela que fica em Paris de França.
Na empresa onde ela trabalha acharam que era boa ideia comemorar o aniversário levando toda a gente para lá... E, até aí, estou plenamente de acordo. Acho que é de valor.

Só que às vezes bate aquela saudade...
Parece que foi ontem que a senti partir de madrugada para esse pássaro alado com penugem de metal a quem as pessoas civilizadas chamam de avião. E sim, parabéns àqueles que detectaram a piada fácil, foi mesmo ontem.

No meu coração parece que foi há mais tempo, tal é o sentimento que nutro por esta mulher.
Em momentos como este apetece-me encher o peito de ar, correr como doido até à janela aqui de casa, abri-la com um empurrão animalesco e gritar a plenos pulmões:

- O QUE É QUE EU COMO?!

...

...

É, que... E, por favor, não me interpretem mal que eu não sou nada machista... Sou é muito pouco hábil no que diz respeito à nobre arte da culinária. É certo que já fui mais esforçado no passado, não vou negar isso, mas a minha tendência natural para a trapalhice numa actividade que incide num sentido tão picuinhas como o paladar, esta minha coordenação motora digna de um cabeçudo do Carnaval de Torres revela-se um verdadeiro desastre. Relembro com algum saudosismo os telefonemas que fazia à minha avó na busca abnegada por receitas, dicas, qualquer coisa que me fizesse mostrar a porra de um lado sensível à minha mulher e assim convencê-la a ficar comigo!!!

Mas as coisas nem sempre corriam bem... Aliás, raramente...
Uma das vezes, a minha querida avó ensinou-me via telefone a fazer bifes marinados em vinho tinto. E eu, bruto que nem uma bigorna de vinte toneladas, lá fui à garrafeira de casa dos meus pais e fiz tal e qual ela me tinha instruído. Apenas na altura em que a minha cara-metade se queixou que os bifes tinham um sabor estranho eu comecei a desconfiar de que algo de errado se passava com eles.

Na verdade, não tinham um sabor nada estranho... Se esse sabor pertencesse a um torrão de Alicante encharcado em caramelo!

Estavam doces como tudo.
E o mistério foi rapidamente solucionado quando percebi que não tinha sido com vinho que tinha marinado o raio dos bifes... mas sim com jeropiga.

O resultado não é tão brilhante quanto possam pensar...

Mas sem querer assumir o erro, forcei-nos a acabar a refeição dizendo que era exactamente aquilo que queria fazer e que o sabor agridoce dos bifes (mais doce do que agri é certo) era fruto de uma receita exótica que eu tinha querido experimentar.

Graças a Deus que havia guronsan disponível na caixa dos medicamentos porque as horas que se seguiram foram tudo menos agradáveis...

A partir daí tanto eu como ela percebemos que há tarefas para as quais definitivamente não sou talhado. Ela é dotada de um talento mais do que razoável para a cozinha. Eu sou excepcionalmente bom a espojar-me no sofá e a jogar playstation. Não são tarefas fáceis mas alguém tem de as fazer.

Por essas e por outras ela faz-me falta.
Mas não deixo de me sentir contente por saber que se está a divertir. Isto embora eu também não esteja nada mal servido aqui em Paço de Arcos...

A Eurodisney tem um rato.
E eu só cá em casa tenho uma gata e uma coelha.
Portanto, em bichezas de orelhas proeminentes já estou a ganhar.

Lá, têm o Pato Donald.
E aqui à volta há pombaria que nunca mais acaba.
Não se vestem à marinheiro mas cagam os prédios como se fizessem parte das tropas especiais. Também aí está ela por ela.

Finalmente, parece que também há por lá a montanha russa do Indiana Jones.
E eu aqui perto tenho o SATU do Oeiras Parque.
Pronto, aí tenho de dar o braço a torcer... Adrenalina é coisa que não abunda naquela carruagem. Mas ao menos vou mais à larga porque aquilo está sempre vazio. Por isso acaba por compensar.

Enfim, ela por lá e eu por cá com todas as minhas limitações.
Limitações essas que não são assim tantas... É importante deixar aqui bem explícito que não preciso da ajuda de ninguém para me vestir ou para tomar banho. Isto embora há quem diga que não me fazia falta nenhuma uma mãozinha na hora de escolher os trapos que ostento no corpo, no dia-a-dia, dada a combinação de cores e de tecidos. O que para mim é avant-garde para os outros é apenas bizarro. Eu bem tento explicar que todos os grandes génios sofreram no seu tempo e que se calhar as gerações vindouras ainda hão-de dar-me razão mas nem eu próprio acredito muito nisso... É apenas algo que digo.

No fundo, e a ausência da minha mulher faz-me compreender isso, sou como um porquinho-da-índia que não deve ser deixado sozinho sem ração na tigela nem água no bebedouro. Portanto, se algo me acontecer entretanto, se começar a ficar com o pêlo pouco sedoso ou com os incisivos a lascar a culpa é dela e só dela!

Pelo sim pelo não, vou dedicar o dia de amanhã a roer-lhe os objectos de uso pessoal.

Aposto que tão cedo não repete a gracinha...

Sunday, March 27, 2011

Escolhas da treta

A vida é feita de escolhas, lá diz o cliché.
Atenção que não estou a referir-me a um indivíduo francês com esse nome, mas sim ao lugar comum, a um conceito batidíssimo que se faz repetir há anos e anos.

Mas a vida é, de facto, feita de escolhas.
E eu, com impressionante recorrência, escolho mal.

Não digo sempre, há alturas em que acerto como no dia em que escolhi a mulher com quem partilho a vida ou no momento em que achei que era rabichola ter demasiado cabelo e optei pela calvície. Em ambas as situações, considero que movi a peça certa do xadrez.

No entanto, não consigo lembrar-me do número absurdo de vezes que, tendo perante mim um quadro de 50/50, optei pelo resultado que se revelou mais catastrófico. Exemplos concretos, existem e muitos. Mas eu prefiro relatar os dois que estão mais fresquinhos...

Quanto ao primeiro, estava eu a ver TV no sossego do meu lar...
Ok, esqueçam esta última parte porque no meu lar raramente há disso. A ideia mais realista que tenho de sossego entre quatro paredes é quando a gata está tão exausta de me f***r o juízo que jaz inerte, de patas voltadas e olhos abertos, ofegante como uma bomba de tirar água, a recuperar o fôlego antes de me voltar a azucrinar o juízo até ao limiar da insanidade. São esses quinze minutos diários aqueles que compõem a minha ideia de... sossego.

Mas pronto, num desses deliciosos intervalos vi um anúncio que promovia a nova cerveja Sagres Preta com sabor a chocolate.

Que imensa idiotice, pensei eu.

Que brutal atrocidade, reflecti.

QUE BESTIAL MARAVILHA QUE TENHO DE SABOREAR O QUANTO ANTES, concluí!!!

Pois é, na verdade eu sou como as avestruzes. Adoro coisas brilhantes e raras são as vezes que não vou lá meter o bico. Além disso, há quem diga que entre mim e os apalermados passarocos, o cérebrozinho é de tamanho idêntico. E às pessoas que dizem isso está prometida uma bicada nos cornos.

Adiante...
Depois do momento divino em que visualizei a publicidade à cerveja, contaram-se pelos dedos de uma mão os segundos que demorei a sorver às goladas o misterioso néctar.

Foi logo na próxima sessão de compras semanal com a minha mulher, já estávamos nós na caixa a meter as mercearias nos sacos quando me lembrei do importante item em falta e dei uma corrida até aos escaparates das cervejas. Surgi com um pack de seis, sorridente e feliz da vida. Disse que não podia esperar muito mais para provar o tesourinho.

"Olhe que pode levar só uma garrafa... Se é só para provar...", disse a senhora da caixa, deixando fluir a voz da experiência.

" Não senhora, que depois aproveito e partilho com amigos...", disse eu, confiante da minha escolha.

...

Experimentei.

E sou agora capaz de declarar...

... com toda a legitimidade e conhecimento de causa...

... que é talvez a MIXÓRDIA MAIS MAL SABOROSA QUE JÁ ALGUMA VEZ ME PASSOU PELA TRAQUEIA!!!

...

Atenção que eu não posso comprovar em absoluto a seguinte comparação.
Mas o sabor desta beberragem será apenas comparável ao da URINA INFECTADA DE UM ALCOÓLICO DIABÉTICO!

Tem álcool... Tem um travo a cerveja... É doce... Tem um travo a chocolate... É horrível... Tem um travo a fezes...

E agora tenho aqui mais cinco garrafas destas no frigorífico sem que ninguém no seu perfeito juízo lhes queira pegar! Não vou oferecer isto a amigo nenhum porque seria o equivalente a oferecer-lhe o quisto lancetado de um morcego: é fedorento e não serve para nada. Mas, ao mesmo tempo, esta porcaria custou dinheiro e custa-me enfiá-la assim no lixo sem mais nem menos...

Enfim, cruel dilema.

Mas não tão cruel como o jantar de ontem.

Ok, agora as pessoas mais maldosas dirão "este agora pensa que, depois do que aconteceu com o Barra do Quanza, basta vir falar de restaurantes p'ró blogue para que tudo se resolva de maneira airosa e receba convites simpáticos para jantar à pala"...

Pessoas maldosas, atentem nas minhas palavras:

EU NÃO VOLTO A ESTE RESTAURANTE NEM QUE ME SIRVAM SUSHI ENROLADO EM NOTAS DE QUINHENTOS, COM A JESSICA ALBA A MASSAJAR-ME OS PÉS COM ÓLEO JOHNSON E A CHAMAR-ME "COMANDANTE", OK?!

Nem pó!

Passou-se o seguinte: ontem, depois de um evento, fui jantar com amigos. Como éramos muitos, e estávamos na zona da Avenida da Liberdade, sugeri que fossemos ao restaurante Indian Palace no Largo do Carmo. Não que o restaurante seja nada por aí além mas era o único que estava a ver acolher um grupo tão grande assim sem marcação prévia. Portanto, fiz a minha escolha e transmiti-a aos meus camaradas, colocando assim a cabeça no cadafalso.

Lá fomos e lá entrámos. E o início até nem fazia augurar nada de muito mau... apenas dez minutos até que nos sentassem. A malta ria e partilhava, bem disposta, que já tinha apetite. A malta desconhecia aquilo para que estava guardada.

As ementas demoraram mais de meia hora a vir. À terceira vez que perguntei por elas, disse-me o indivíduo que "estavam ocupadas". Aí, eu acalmei e percebi tudo. Para quem não sabe, ser ementa não é para todos, é uma ocupação exigente. Uma vez estive junto a uma ementa durante quinze minutos e não imaginam o número de telefonemas e de mails que ela recebeu, isto enquanto fazia a contabilidade de um sujeito de Odivelas e elaborava o programa de um grupo excursionista da Amora. Portanto, constata-se por este exemplo que "ementas ocupadas" é o que p'raí mais há.

Depois de três imperiais no bucho e de parte dos sorrisos já ter abandonado as faces da malta... lá vieram meia dúzia de ementas todas ao mesmo tempo. Isto enquanto os empregados corriam literalmente para a frente e para trás como se fosse hora de ponta em Bombaim ou o final de um filme de Bollywood. Eu já não sabia se havia de escolher o jantar ou de aplaudir o espectáculo.

Mas, enfim... Escolhemos, pedimos e...

... esperámos até perto da MEIA NOITE para começar a comer.

...

Meia noite.

Das duas uma: ou o serviço é mau ou esperaram que fosse nove da noite na Índia para servir a nossa refeição. De qualquer das formas, foi importante para nós comermos ao mesmo tempo de um qualquer estofador chamado Sangita... Depois ficámos foi com jet lag.

Outra das razões do atraso devia ser o método de lavagem da loiça, porque pelo estado encardido dos pratos sou forçado a acreditar que os mesmo foram lavados no Ganges. Por isso, isto de andar sempre com sacas cheias de loiça para os aviões, p'raqui e p'rali, deve levar o seu tempo... Enfim, ca nojo.

Já a mastigar, por entre uma garfada ou outra, ainda tivemos de lutar com um tipo que queria à força vender-nos uns óculos de plástico roxo que davam luzes das hastes. Não foi tarefa fácil.
Sedentos de alimento e dada a ausência de colheres, todos raspávamos sôfregamente com os garfos as pequenas malgas de molhenga que constituía o nosso jantar.

Todos? Não.

Um dos nossos amigos resistia ainda e sempre ao invasor... Ou seja, o prato dele demorou extra-tempo a chegar e quando chegou veio com outro nome e com outros ingredientes completamente diferentes do pedido original. Marchou, tal era a fome. Mas só marchou metade porque a cena tinha mais picante do que a Cicciolina quando se orientou com o cavalo... Apenas deu para enganar a larica.

No final, como se a minha escolha de restaurante não tivesse sido já suficientemente negra ainda houve improviso e discussão porque o tal prato que não veio diziam os indianos que veio e o que veio, e que quase rebentara as gengivas do nosso amigo à base de piri-piri, ao que parece também continha borrego e era caro como cornos.

Ainda tivemos de ver o indiano apontar para o nosso amigo e gritar "BORREGO!" em plenos pulmões como se nós estivessemos a negar que ele o tivesse comido... Um insulto que poderia muito bem ter dado início a um verdadeiro conflito "a la Martim Moniz".

Apenas quando uns de nós começaram a perder a cabeça e ameaçaram pedir o livro de reclamações os ânimos serenaram e foi tudo para casa com fome mas sem ter sido demasiado roubado...

...

Enfim, "cerveja preta com chocolate" e "Indian Palace"... Duas escolhas erradas que podiam muito bem servir-me de lição mas que, sei bem, serão apenas mais duas achas para a lareira na qual arderei eternamente.

By the way, diz que dou uma bonita chama.

E que com um cházinho e uma mantinha nos joelhos, proporciono momentos muito zen.

Valha-nos isso.

Saturday, March 12, 2011

Com jeito vai...

Hoje foi um dia especial.

Estive presente na manifestação da "geração à rasca", que levou vários milhares de pessoas a inundarem as principais ruas da cidade e do país. Segundo os manifestantes, só em Lisboa estiveram cerca de 300 mil. Segundo certos meios de comunicação estiveram entre 100 e 200 mil. Já a PSP diz que estiveram 3 ou 4. E uma era coxa. Portanto, o mais sensato é apontar para o meio termo.

O povo saiu à rua num dia assim. E, mais uma vez, quem anda de autocarro sabe do que falo, o povo não tomou duche de manhã.

De qualquer maneira foi bonito de ver, malta mais e menos informada a marcar presença num protesto que se quer o primeiro de muitos, verbalizando a insatisfação perante a pouca vergonha que por aí se passa, os constantes abusos a um povo, mais do que uma geração um povo, que é pacífico por natureza mas que não pode NUNCA tornar-se apático. Por tudo isto foi importante ver a malta que achou bem dedicar uma tarde de Sábado a algo mais do que ao seu próprio umbigo, não só por si mas também pelos outros. O povo pode cheirar a morto mas está bem vivo!

Por falar em cheiros, de boa qualidade o incenso que pairava no ar por aquelas paragens, hem? Não chegou para trazer um clima verdadeiramente zen à Avenida da Liberdade, pelo menos para mim, mas valeu a intenção.

Bom, o ajuntamento, como era sabido, começou às 15h na Rotunda do Marquês do Pombal. Estava tanta gente que por momentos pensei que o Benfica tinha voltado a ganhar o campeonato e que lá ia o marquês levar com um cachecol enfaixado na peruca. Mas depois concluí que se assim tivesse sido estariam mais do dobro das pessoas. E é assim que deve ser.

Depois, olhei para o céu e avistei um helicóptero que nos rodeava. Por momentos senti-me grato por estar em Portugal e não na Líbia a comer com um balázio na testa. Geração à rasca é de facto chato mas afigura-se-me que ostentar um buraco no crânio também tem as suas desvantagens. Adiante...

Os "Homens da Luta", personagens humorísticas interpretadas por Jel e irmão, lá estavam em pleno espectáculo. Não posso dizer que seja fã do Jel, pelo menos daquilo que conheço do seu trabalho, mas na variedade de estilos e figuras que encarnou esta deve ser aquela à qual acho mais piada. É uma caricatura, um cliché do revolucionário "tuga" inspirado em figuras do passado, um boneco que se quer fazer ouvir, quer fazer valer o direito à liberdade de expressão mas sem grande mensagem. Muito bem construído e na melhor altura, diga-se.

E eu até acho bem que eles tenham ganho o Festival da Canção, embora não me ocorra agora nada menos importante do que isso. Há quem tenha feito petições para impedir estes "palhaços" de irem para o estrangeiro envergonhar Portugal. E isto eu até compreendo. Os estrangeiros que ficaram tão bem impressionados com os nossos Rui Bandeira, Dina, Luciana Abreu e indivíduo de quem já ninguém se lembra, Tó Cruz, só para citar alguns nomes, agora devem "virar o boneco" quando virem este circo a invadir a Eurovisão.

No entanto, o povo gosta de desvirtuar.
É isso e jogar à batota ou mastigar com a boca aberta.
Mas quando não está a fazer isso está a desvirtuar.
Aquilo que deveria ser apenas um número cómico está a tornar-se no próprio conceito da tal "geração à rasca", o hino que move esta multidão. E isso é mesmo muito preocupante.

"QUEREMOS CERVEJA E TREMOÇOS" não é mensagem, caros amigos.

"MÃE, ESTOU À RASCA PORQUE O PAI SÓ ME DEU 10€" é parvoíce, companheiros.

"QUEM NÃO SALTA É DO GOVERNO" também não faz muito sentido, compinchas.

Os "Homens da Luta" dizem que "Luta é Alegria", e aquilo que devia começar e acabar no sketch cómico acaba por ser assumido como verdade para parte dos jovens manifestantes. Para mim, não é nada disso. Para mim, luta é alegria quando já se conseguiram vitórias, quando há algo para festejar. Neste momento, a luta é desespero, é frustração e é a esperança que começa a faltar. Neste momento, fazer da luta alegria é aparvalhar... e é retirar credibilidade a um momento muito sério que tem obrigatoriamente de ser de viragem.

Mas claro que é sempre importante sorrir. E para isso muito contribui sempre o alegre cortejo dos skinheads, uma simpatia para quem com eles priva e uma lufada de ar fresco em qualquer festa. Chegam, agitam as suas bandeiras, cantam o hino alegremente e lá vão eles espalhar a "boa nova" para outras paragens. Bem hajam, abençoados.

E é a aturar a estupidez/ignorância de uns e a apoiar a vontade/determinação de outros que chegamos à Praça dos Restauradores. Entre a multidão reparo num cartaz que jura "saudade" a Staline, a quem carinhosamente apelida de "Zé". Um Zé que, na História, é directamente responsável pela morte de milhões de seres humanos, entre torturas e coisas piores... pode ser um pormenor mas, não me lixem, é um pormenor relevante.

Isto leva-me a pensar na clara apetência que os portugueses têm pelos bandidos. É cá uma paixão que lhes temos, que até faz "borboletas no estômago". Então diz que na (re)tomada de posse do Presidente da República lá esteve o Valentim Loureiro e o Isaltino Morais. Tudo boa gente. Ah e parece que os Irmãos Metralha, o Hannibal Lecter e o Darth Vader também foram convidados mas já tinham outros compromissos relativos à criminalidade. Fica para a próxima, de certeza.

Nos Restauradores avistam-se também alguns burgueses que apreciam o espectáculo das varandas dos hotéis. Sei bem que a sua vontade era ir buscar potes de azeite a ferver e derramá-los sobre a plebe, como nos bons velhos tempos, mas fico grato que tenham abdicado desse "direito". É que o azeite a ferver é uma chatice para tirar da roupa, são nódoas que não saem nem por nada, e eu detesto ver a minha mulher a esfregar-me o casaco pela tarde fora.

No Rossio, acabam então as "festividades". O Falâncio toca os últimos acordes na viola, a freakalhada dá os últimos goles nas litrosas e um indivíduo idoso efectua uma dança de acasalamento perante a vendedora de uma loja de pronto-a-vestir. Portugal é isto, não vale a pena negar.

Mas uma vez mais repito: esteve lá muita gente e isso é animador.
Para a semana há nova manifestação, desta vez organizada pela CGTP, mais ou menos pelas mesmas razões. Agora é ver quem vai voltar a ir e quem vai usar a desculpa de que como já foi hoje ganhou o direito de voltar a dedicar-se ao umbigo. É que mexer com as coisas exige empenho, dedicação, não é picar o ponto uma vez e achar que se ganhou alguma espécie de status.

Agora vou dormir, que hoje inalei mais incenso do que um hindu em hora de ponta.

Wednesday, February 23, 2011

Até que a morte os separe

Bom, já não vale a pena tentar ocultar por muito mais tempo aquilo que é evidente.

A minha gata arranjou namorado.

Sei que poucas coisas na vida me prepararam para isto, mais dia menos dia vou ter de a chamar à parte para termos "a conversa", mas pai é pai e eu só tenho de dar o meu melhor nessa matéria. Bem vistas as coisas, este relacionamento só me causa verdadeiro transtorno por volta das 6h30 da manhã, quando a bicha decide vir agredir-me os tímpanos à base de guinchadeira, para que lhe abra a porta da marquise e a deixe ir para junto do seu amor. Então, o que acontece é que eu me levanto com o aspecto e a disposição de um ogre ressacado, tento fazê-la parar de chiar com um ou dois biqueiros bem aviados, e quando dou por mim minutos mais tarde aos patardões à mobília, lá lhe faço a vontade e depois volto p'rá cama. É que esta brincadeira ainda aleija.

Portanto, posto isto não mais ouço o vil felino até à hora de me levantar para ir para o trabalho. É remédio santo.
Ela sobe para um escadote que está junto à parede e fica especada a olhar para o vidro que separa a marquise do prédio ao lado. Um vidro fosco, mas que antecipa a silhueta do seu mais que tudo.

E eu nem me importaria assim tanto se a sua paixão não fosse...

... na realidade...

...

...

UM POMBO MORTO!!!

...

...

Isto, tal qual.

Vamos lá esclarecer uma coisa antes demais: eu odeio pombos. De morte.
E atenção que este indivíduo, sendo pombo, até apresenta uma característica que eu valorizo neste tipo de passaredo. Que é estar morto.
Mas confesso que desejava melhor para a minha gata, uma relação que lhe perspectivasse um futuro e que, acima de tudo, não lhe obrigasse a andar com o tão desagradável odor a cadáver no pêlo.

Indiferente a este aspecto, TODO o tempo livre que a bicha tem é para ser passado de maneira inerte e lânguida a olhar para a desgraçada silhueta por detrás do vidro fosco. E isto é quando tem acesso à marquise. Quando não tem, prefere azucrinar-me o juízo deixando bem explícito que não está onde queria estar. Ou seja, a olhar para um estúpido pombo morto que, sejamos sinceros, não vai a lado nenhum.

Eu não percebo a malta nova de hoje em dia.
E também não percebo como é que alguém, por mais idiota que pareça ou por mais pontiagudas que sejam as suas orelhas, pode achar piada a pombos... É que das garras nojentas à ponta do bico, passando pela penugem encardida e à extraordinária expressão de atraso mental no olhar, estes bichos não trazem nada de alegre ou positivo à minha existência. Absolutamente ZERO.

E eu até acredito que hajam pombos a falar mal de mim também.
Mentira, não acredito nada nisto porque os pombos não falam.
De qualquer maneira, eles podem também não simpatizar comigo e por isso não me importava se entre nós houvesse um ou dois oceanos de distância.

Não vou chegar ao ponto de dizer que gostava de eliminar toda esta espécie da face da Terra. Acredito que este género de passarada sirva para alguma coisa, que tenha um qualquer importante papel no mundo como servir de acendalha para as lareiras ou de chop suey de frango nos restaurantes chineses, mas por favor que assim seja o mais longe de mim possível. Estaria até disposto, caso surgisse um projecto sério e com viabilidade, a permitir que substituissem todos estes animais na zona da grande Lisboa por cascavéis e víboras. Não me importava nada de estar a tomar café numa esplanada da Baixa e a sacudir cobras das calças ao mesmo tempo... Era um preço justo a pagar para correr com os imbecis pombos. O único problema seriam os idosos. Em vez de atirarem milho teriam de começar a arremessar ratinhos vivos nos jardins públicos, o que seria bizarro e, porque não dizê-lo, repugnante. Isto embora seja esta mais uma prova da má onda que é a pombaria. Apenas os efeitos regressivos e atordoantes da senilidade conseguem fazer com que um ser humano nutra algum afecto por eles. Portanto, estão a ver as peças...

E a minha gata perdida de amores por um destes bichos... Ainda por cima um que já bateu a bota há uns dias valentes! Haja estômago e paciência para aturar isto, senhores.

Ainda por cima o buraco fétido e imundo que este palerma escolheu para falecer... Não lembra ao diabo!
É nada mais nada menos que um espacinho minúsculo, de uns 2m por 20cm, que separa o prédio onde estou a viver da habitação ao lado. Um espaço que não serve para nada, mas que a existir estava-se bem de ver que era um convite à pombaria para fazer o seu pior. Em pouco tempo essa "miniatura de corredor" foi palco de defecação, camarata nocturna e leito de truca-truca para dezenas e dezenas de pombos. E este tipo de actividade, com o passar do tempo, gerou uma camada de caca, penas e sei lá mais o quê que nem quero imaginar, em cima da qual, estilo cereja no topo do bolo, foi assentar aquele que parecer ser o noivo da minha gata.

Bonito serviço.

É com este ramalhete de maravilhas que tenho de lidar no dia-a-dia.

Agora, se relativamente ao namoro da bicha não há muito que eu possa fazer, que é sabido que nestas idades se um tipo proíbe é pior a emenda que o soneto, já quanto ao facto de ter o cadáver de um pombo a desfazer-se perante a minha vista a coisa muda de figura. Vou mesmo ter de tomar providências...

Amanhã encarrego a minha mulher de tratar do assunto.

Wednesday, February 16, 2011

Enfim, uma pitada de jindungo

A vida tem coisas curiosas.

Não, não estou a referir-me aos indivíduos que costumam estar atrás das dunas a topar as gajas na praia. Falo dos pequenos pormenores que fazem a diferença no dia-a-dia e que dão um toque de especiarias à vivência de um tipo. Sei que há malta que não gosta particularmente de especiarias, longe de mim estar a querer comparar a existência a caril, mas para contar o que aconteceu penso que se adequa a imagem gastronómica.

Ora, quem lê este blogue sabe que para mim "Dia dos Namorados" e "Desastre" são dois conceitos muito amigos. Tal como relatei em Fevereiro do ano passado neste post, eu quis levar a minha mulher a jantar fora, ao restaurante Barra do Quanza em Belém, e no meio da ventania, do frio glaciar e da cascata incessante de água a embater-me na tromba, fui incapaz de encontrar o sítio e acabei a fungar e a comer pizza em casa. A sorte é que na altura tinha uma garrafa de tinto disponível e ao fim de três copos cheios parecia que não havia problema nenhum e que aquilo era um programa romântico como qualquer outro.

Passado praticamente um ano, e sendo que por causa deste episódio a minha mulher só voltou a dirigir-me a palavra há três meses, grande foi a minha surpresa quando recebi um comentário neste blog em nome do tal restaurante.

Rezava o seguinte:

"Caro Amigo, tomámos conhecimento da sua odisseia de 14 de Fevereiro de 2010 e decidimos que o mínimo que podíamos fazer era convidá-lo para uma “segunda tentativa”, esta por nossa conta (desta vez coroada de êxito, esperamos) e por isso tomámos a liberdade de desde já reservar uma mesa para duas pessoas para o próximo Dia dos Namorados, esperando que aceite o nosso convite o que muito nos honraria, um abraço, José Reis."

...

Confesso que inicialmente me cheirou a moscambilha. E bem feita, por sinal.
Da mesma maneira que, há uns tempos atrás, os meus colegas se entreteram a ir à minha página de Facebook e declarar-me fã de artistas tão exóticos como Justin Bieber, Adam Lambert ou Tokyo Hotel, a minha reacção imediata foi de achar que outro qualquer terrorista estava decidido a fazer-me passar por novo "massacre de São Valentim".

Já irado e prestes a fechar o portátil com violência, decidi olhar segunda vez para o comentário e lê-lo com mais atenção. Inclusivamente reparar num post-scriptum que me indicava o número para o qual devia ligar caso aceitasse o convite. E eu assim fiz...

Senhora - Estou sim, restaurante Barra do Quanza.

Eu - Estou. Eheh (nervoso) estou a ligar porque... (gaguejo) colocaram um comentário no meu blogue... Eheheh (mais nervoso)

Senhora - ...

Eu - Por causa do Dia dos Namorados do ano passado... (a suar) É para dizer que aceito o convite e confirmo a reserva... (soluço)

Senhora - Com certeza, como se chama?

Eu - Eheheh (mais nervos) André Oliveira.

Senhora - Ah sim! O casal que não conseguiu encontrar o restaurante. Muito bem, está confirmado. Obrigado e até dia 14.

Eu - Obrigado, bom dia.

...

...

Portanto...

...

O CASAL QUE NÃO CONSEGUIU ENCONTRAR O RESTAURANTE!!!

...

Era assim que eu era conhecido.

E, custa-me dizê-lo, com toda a razão... De facto, foi exactamente isso que aconteceu.
Não o casal, mas eu. EU não consegui encontrar o restaurante! Perdi-me em Lisboa, afinal de contas apenas a cidade em que vivi toda a minha vida, e condenei a minha cara-metade a um serão espartano e a uma gripe de duas semanas. Isto era o tipo de pessoa que eu era... Mas agora algo de surpreendente tinha acontecido e era-me dada a oportunidade de fazer as pazes com o universo e corrigir o erro cometido há um ano atrás. Era então altura de assumir que, a menos que um qualquer inimigo meu, talvez o urso cujo passatempo favorito é riscar-me o carro, se tivesse dado ao trabalho de criar uma conta no blogger com o nome do restaurante, clonar o número de telefone e imitar com perfeição a voz de uma senhora para me atender, afinal o convite sempre era verdadeiro. Portanto, uma boa notícia, uma especiaria perfumada no refogado do meu dia, e uma irrecusável chance de redenção.

Esperei pelo dia 14 como uma criança pequena espera pelo Natal.
Ou como o Padre Frederico espera pelo toque de saída de uma escola primária.
Enfim, com excitação e gulodice.

E quando ele chegou vinha com o carimbo de qualidade do dia homónimo do ano passado: escuro e com um temporal a cavalo. Maravilha, pensei eu. Os fantasmas do passado voltavam para me assombrar. Mas eu não conseguiria continuar a viver se não os exorcizasse de vez. E isso por uma variedade de razões:

1.
Eu próprio levaria o carro dispensando assim um qualquer seboso com carteira de taxista. Portanto, EU seria o meu próprio seboso! Bem sei que à partida e para quem conhece a minha condução, este item mais parece um ponto contra do que a favor. No entanto, e até ver, o carro sempre podia tornar-se num sólido abrigo em plena intempérie, caso alguma coisa corresse mal. E o risco, convém dizê-lo, era elevado.

2.
Desta vez, contaria com a ajuda do GPS. Sim, mais um objecto com uma eficácia questionável quando falamos da minha pessoa. Afinal de contas, e para quem se lembra, também no ano de 2010 sucedeu isto. Por outro lado, convém referir que eu até me entendo com a vil maquineta quando tenho um co-piloto ao meu lado. Preciso de alguém para operar o GPS e para filtrar as indicações que ele me dá. Quando isso acontece, a nossa relação já corre menos mal. Mas ainda assim longe de correr bem...

3.
Pedi à minha mulher para ir ao Google Maps e imprimir o percurso que vai do trabalho dela em Santos até ao restaurante. Eu iria lá buscá-la e seguiríamos a partir dali. O percurso impresso seria a "cereja no topo do bolo" e a garantia que nada, mas mesmo NADA, poderia falhar desta vez.


Vai daí, mal saí do trabalho a missão começou logo mal.

Parei na bomba para pôr gasolina e constatei imediatamente que a ventania conduzia a chuva de modo a que esta se me emplastrasse com violência na cabeça e nas costas. Dizem que a natureza é sábia mas comigo é sempre uma besta. São feitios...

Eu que até tinha tido o cuidado de vestir uma roupinha melhor, estava agora encharcado mesmo antes sequer de me pôr à procura do que quer que fosse... É o que se chama abrir com chave d'ouro. Sim, sentia o frio a entranhar-se-me nos ossos... Mas havia alguma maneira de eu ter a mangueira a espichar gasolina sem me submeter àquele flagelo? Não, pois não?

Ensopado que nem um pinto lá me enfiei na viatura e pus-me a caminho para ir buscar a minha mulher. Mulher essa que, quando cheguei, também me esperava, ensopada, à porta do emprego. "Isto está a correr tão bem...", pensei eu. E estava.

Depois, confesso que tremi. Uma primeira tentativa frustrada de dar com a rua do local fez-me duvidar de que toda aquela panóplia resultasse. Pior que isso, fez-me reviver todo o drama do ano passado e a eventualidade de um possível divórcio. Uma mulher, por muito paciente que seja, tem limites, e eu insisto em abusar deles todos!

Voltei para trás e tentei fazer o percurso pela segunda vez. Recapitulemos: a ideia era ir de Santos para Belém, mas do lado do rio. E foi quando dei por mim e estava a caminho de Campo de Ourique que disse para o lado:

- Sabes, às tantas nós não merecemos que nos convidem para jantar nenhum... A sério, a verdade, por muito que nos custe, é que somos estúpidos. - ainda mais perto de Campo de Ourique. - Estúpidos que dá dó! Às tantas não merecemos sequer jantar hoje...

Eu disse-lhe isto sem que ela comentasse. E ela fez-me um verdadeiro favor em abster-se, acreditem. Bem sei que se o não o tivesse feito, o chorrilho de palavrões seria tal que nem o "Dicionário Universal Jorge Jesus" lhe faria frente. Calou-se e isso de certa forma ofendeu-me. De tal maneira, que gerou em mim uma reacção intempestiva...

Enchi o peito de ar. Reprogramei a porra do GPS. Chamei a mim a ajuda divina de Santo Onofre e das ceroulas da velha do cabelo roxo e persegui o meu destino como se a minha vida dependesse disso. E pelo olhar raiado de sangue da minha mulher, vai-se a ver e até dependia...

Lá dei com o Barra do Quanza.

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(Obrigado)

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(Pronto, já chega)

...

Caso hajam para aí mais totós como eu, convém dizer que o restaurante tem um recém-criado site que esclarece todas as dúvidas acerca da sua localização. Agora sim!

O restaurante serve um misto de comida brasileira e africana e, tal como eu suspeitava, é muito bom. Não só pelos sabores mas também por estar onde está, apesar de ter sido precisamente isso que me impediu de o conhecer mais cedo. Mas além da comida e do sítio, recomendo o Barra do Quanza também pela "boa onda" que demonstraram relativamente ao meu texto e pela simpatia com que me receberam. Não tive a oportunidade de cumprimentar o José Reis que teve a amabilidade de colocar o comentário aqui no blogue mas pude dar um "bacalhau" ao Carlos Moral, chefe cozinheiro, e de lhe dizer que estava tudo uma delícia. E não é por não ter pago, atenção. Posso não saber cozinhar mas sei devorar como poucos. E quem me conhece sabe bem que é verdade.

Pretendo lá voltar com amigos, agora que já sei onde fica, e desta vez para fazer despesa, claro. Porque uma boa "casa", um produto de qualidade e um espírito positivo é o melhor marketing que se pode fazer. Sem pretenciosismos nem caganças. Para mim, é assim um bom restaurante.

E já agora acabo este post com algo que me aconteceu há uns dias e que constitui, por si só, a antítese disto mesmo...

Fui a um outro restaurante ver o Benfica espetar dois ao Porto para a Taça de Portugal. Até aqui tudo jóia. Na ementa vi um prato chamado "Arroz de Lombinhos de Caranguejo do Alasca". Pensei para comigo "Quem é o anormal que vai pedir uma coisa destas...?". Sorri de troça. Veio o empregado. Pedi esse mesmo prato e uma imperial. E o que veio para a mesa foi arroz de marisco ordinário e insosso. Tal qual. Nem lombinhos, nem caranguejo e, escusado será dizer, nem Alasca. Assim, não me admirou que o empregado passasse o resto do serão a perguntar se eu queria mais cerveja. Pudera. Não fosse estar toldado pelo álcool e tinha-lhe enfiado um dos camarões ressequidos onde o sol não brilha...