Friday, January 6, 2012

Vai tudo correr bem

Ora então feliz ano novo, com muita saúde e alegria, e que ao contrário do que se diz ou prevê 2012 seja um ano de viragem e que traga só coisas boas.

...

Todos sabemos que é aldrabice mas não nos custa nada manter o teatrinho e fazer de conta que acreditamos nisto.

Se há coisa que o ser humano faz bem, além de violar crianças pequenas e matar focas à paulada, é fazer de conta. Mas por muito que isso aconteça, a verdade é que - e não sei se já reservaram o fim do mundo para Novembro ou não - merecemos o que quer que aí venha acertar contas connosco. E eu sei do que falo porque isto do fim do mundo tem sido uma obsessão valente para mim...

Há uns anos atrás, estava eu em casa sem nada de especial para ocupar o meu tempo quando decidi que o melhor e mais sensato era assistir a um documentário sobre Nostradamus e as suas profecias no canal História. Não se passaram vinte minutos até estar deitado em posição fetal, debaixo da minha própria cama e sobre uma pilha de fezes, a fazer contas ao tempo que ainda me restava. Depois de recuperar do choque inicial, passei por uma fase de investigação que incluiu horas na net em fóruns repletos de "weirdos", conversas e debates com toda uma panóplia de indivíduos nem sempre na plena posse das suas capacidades mentais e até o confronto quase violento com um índio maia autêntico.

Sim, isto aconteceu.

Quando estive no México virei-me para o tipo e perguntei-lhe que trapalhada era aquela, como se a culpa fosse dele. A resposta foi apaziguadora mas pouco conclusiva: disse que era o fim de uma era temporal (uma espécie de balancete e fecho de contas) e que logo a seguir se iniciaria uma nova. Que não era nada que devesse temer e que os bandalhos de Hollywood é que estavam a tentar explorar o conceito até ao último dólar. Sim, tudo bem, mas...

... E O NOSTRADAMUS???!!!!

Onde é que aquele macaco foi buscar teorias que batem nas do raio dos índios?! Copiou?! Como é que um alquimista francês do século XVI sabia o que se andava a escrever nas pedras do outro lado do mundo?! E porque é que raio é que não se vêem alquimistas nos dias de hoje? A malta nova não quer pegar nisso? Porque é que não há licenciaturas em alquimia nas nossas universidades? E depois não querem que haja desemprego...

Bom, como claramente o meu guia mexicano nada sabia acerca de Nostradamus, não o incomodei mais com perguntas e deixei-o sossegado. Talvez tenha feito mal, se calhar devia ter insistido até que chegar a uma conclusão definitiva, mas escolhi ficar na dúvida... E assim vou passar todo este torturante ano até saber o desfecho das coisas.

Mas também, convenhamos, o que é o fim do mundo?

Eu costumo andar de cabeça rapada. Dá-me style.
E também como já não tenho muito cabelo poupo-me ao ridículo de andar a imitar o Donald Trump por São Domingos de Rana, onde trabalho. Até porque Trump e São Domingos são coisas que não combinam, tipo queijo ralado e mousse de chocolate. Mas estou a divagar...

Quem me costuma rapar o pêlo é a minha mulher e num destes dias ela não estava em casa. Como eu queria o cabelo rapado decidi fazê-lo sozinho pela primeira vez até perceber que não era capaz de o fazer em condições. Como a maioria dos comuns mortais tenho especial dificuldade em chegar com a máquina a todos os pontos da cabeça e não entendo como certos freaks conseguem fazê-lo. Fiquei com a cabeça coberta de tufos, alguns maiores do que outros, alguns agarrados ao coro cabeludo, outros pendentes, como um psicopata esquizofrénico ou um texugo com lepra. Mas deixei-me estar porque sabia que ela ia chegar mais hora menos hora e finalizar o serviço em condições. Pus-me a secar a loiça e tudo. Até que ouvi um ruído nas escadas, junto ao meu patamar...

E me lembrei...

... que se alguem batesse à porta eu estaria completamente e "contranaturamente" FORNICADO!

As opções não eram muitas e as que haviam não era geniais.
Caso alguém batesse à porta, eu podia...


1.

Não abrir e ficar em silêncio como um troll assassino, à espera que a pessoa desistisse e fosse embora. Isto seria particularmente estranho dado que eu andava a fazer barulho com os pratos e as luzes estavam acesas. Se fosse algum tipo da TV Cabo deixava-o carregar no botão até fazer sangue mas se algum vizinho precisasse de alguma coisa era chato deixá-lo a tocar sabendo que havia gente em casa. Uma vez mais, preocupo-me porque já não moro no prédio de Benfica. Na altura, se me batessem à porta a pedir ajuda porque tinham a casa a arder eu era o primeiro a ir ao talho comprar costeletas para fazer um churrasco.


2.

Abrir a porta de boné ou com qualquer outro chapéu colocado na pinha (penso que de todas opções o boné ainda é o menos ridículo). Mas quem é que anda em casa de boné às oito da noite??? Penso que se algum vizinho me visse assim rapidamente a minha reputação no prédio mudaria para "aquele rapaz deficiente do último andar que mora com a irmã" ou alguma coisa do género...


3.

Abrir a porta e esperar que fosse o vizinho a sentir-se desconfortável por ter incomodado uma pessoa visivelmente doente. Pensando bem, esta acabava mesmo por ser a melhor opção porque habitualmente com o sentimento de pena vem uma valente dose de solidariedade. Talvez começasse a ser usual virem oferecer-me tachos de sopa, mantinhas e algo mais que me ajudasse a passar um Inverno quentinho... Acabou por ser uma oportunidade perdida.


Feitas as contas, foi falso alarme. Ninguém tocou e a coisa ficou por ali. A minha mulher chegou a casa, aterrorizou-se com a minha figura decrépita mas rapidamente tratou do assunto.

Agora, fim do mundo que se preze para mim é isto. É um gajo aperceber-se que fez uma coisa de tal maneira estúpida que aconteça o que acontecer o normal é pagar a factura com tamanhos juros que a vida nunca mais há-de ser igual.

No fundo, é isso que nos espera a todos.
Mas ao invés da credibilidade no prédio em que moramos e dos vizinhos se rirem de nós nas costas, o risco é mesmo isto tudo dar o berro.

2011 teve muitas coisas más: guerra, fome, corrupção, as consequências disso tudo... Também teve coisas boas como terem limpado o sêbo ao Carlos Castro mas infelizmente isso não chega. Era preciso ter-se feito mais em prol da humanidade para contrabalançar.

2012 promete toda esta bandalheira e muito mais, como a sequela de um filme chunga do Van Damme. Eu nem me importo porque até aprecio bandalheira mas o que me continua a lixar é o ordinário do Nostradamus que me está aqui preso no goto. Tenho-lhe cá uma sede que se o apanho meto-lhe a alquimia onde o sol não brilha...

Enfim, pode não parece mas até estou bem disposto.

E, desde que não me ponha a ver o canal História, vai tudo correr bem.

Tuesday, November 8, 2011

DECLARAÇÃO DE GUERRA AOS MEUS GATOS

Ao oitavo dia do mês de Novembro de 2011, eu, Saguim, declaro por minha honra a abertura das hostilidades para com os dois demónios felinos que habitam em minha residência sem qualquer abertura a negociações ou a diplomacia. Estou em plena posse das minhas faculdades mentais e perfeitamente consciente de que tal confronto provocará casualidades mas estou disposto a correr o risco, a bem da humanidade, da paz no mundo e dos meus sofás.

Por Marte, deus da guerra, prometo que tombarão em batalha! Ai tombarão tombarão!

Esta Declaração é assim dirigida a dois indivíduos de orelhas triangulares, aqueles que, daqui em diante, apelidarei de meus inimigos mortais... ou mais simplesmente de bandalhos.

a) MARISCO. Pelagem branca e cinzenta. Nariz cor de rosa como o de um porco. Barriga proeminente por enfardar como um bruto a ração que trabalho de sol a sol para lhe comprar. Se pudesse ou soubesse como, tenho a certeza que me arrotaria na cara depois de cada refeição, entre outras coisas piores. Tenho documentos que provam que se trata efectivamente do Anticristo embora o Vaticano não queira, porque tem medo, confirmar esta verdade. É manhoso, o c****o! É manhoso! A sua influência na minha vida é fácil de calcular em euros por tudo aquilo que esfrangalha / avacalha propositadamente. A saber, em jeito de inventário, caso seja no futuro condenado a pagar-me uma qualquer indemnização:


1) A porta da cozinha.

2) Três rolos de papel de cozinha e meio.

3) O sofá da sala.

4) O tapete da sala.

5) O batente da porta da sala.

6) A colcha da cama.

7) O batente da porta do quarto

8) O tapete tunisino que tenho na parede.

9) Um outro tapete, mas agora de rato.

10) O teclado do computador da minha mulher.

11) O cabo do meu disco externo.

12) O cabo do transformador da aparafusadora do IKEA.

13) Um lápis, uma caneta e mais material de escritório diverso.

14) O meu sistema nervoso.


Serve a presente missiva também para alertar acerca das tácticas persuasivas do inimigo. É importante ser impermeável ao ronronar e ao aspecto fofo da besta sempre que está "com soninho e quer colo". A total indiferença a esta estratégia vil atribui à partida uma vantagem de 50% no confronto bélico.


Pontos fortes:

- É notavelmente atlético e rápido.

- Tem garras e dentes que aleijam razoavelmente.

- O seu poder de persuação demoníaca pode influenciar a opinião exterior, nomeadamente vizinhos e familiares.


Pontos fracos:

- É burro.

- Não tem lá muita força.

- É brutalmente curioso, lá está, devido à burrice.


Feito este balanço, a vitória deverá ser garantida dentro de poucas semanas, depois de confrontos que adivinho ferozes. O ordinário é burro, disso não resta a mais pequena dúvida. Qualquer pequeno som ou movimento atraem a sua atenção e conduzem-no aos mais variados perigos como uma flauta de Hamelin. O Natal está próximo e a montagem da árvore não promete nada de bom ou de tranquilo. Aproveitando esse facto, regarei o amontoado de piaçabas verdes a que chamo de pinheiro de Natal com querosene e colocarei um rastilho que acenderei em tempo útil. Atraído pelas faíscas, com aquele ar aparvalhado típico das avestruzes (que também não podem ver nada brilhante) que lhe é característico, estou certo que com sorte terei marisco flambé para a ceia. Cheque-mate, eu ganho.


One down, one to go.


b) JACKIE. Pelagem negra. Espírito gótico e/ou satânico. A maior fabricante de pêlo do mundo em título e a principal responsável pela minha casa parecer, ao final de cada semana, uma casa de alterne romena. Em ruínas. Este é, sem sombra de dúvidas, o adversário mais poderoso e difícil de derrotar. Enquanto que o outro palhaço todos os dias me espanta com a sua estupidez e alegria em ser tão mau, esta destrói-me a alma aos poucos e faz-me questionar acerca da minha própria existência, do meu valor como ser humano. O outro arranha-me a mobília, esta arranha-me a psique. Ah e também aprecia mictar e defecar, chamemos-lhe assim, onde bem lhe apetece. E diz-se ela uma senhora. A saber:


1) No sofá da sala.

2) Na banheira.

3) No sofá do escritório.

4) No chão do escritório.

5) Na minha cama (graças a Deus pela capa de colchão impermeável que a minha santa sogra se lembrou de nos oferecer em tempo útil).


Por causa deste morcego dos infernos somos obrigados a viver numa casa com as portas todas fechadas, como um caixão com assoalhadas. Por causa desta coisa ruim, temos de estar constantemente em sobressalto, a limpar e a desinfectar coisas dos mais variados materiais e tecidos. E até foi por causa deste espírito do mal que decidimos trazer o outro gato lá para casa... E penso que já todos percebemos como é que isso resultou.

A bicha continua a fazer as mesmas trafulhices que fazia antes e talvez até mais. Os dois fuinhas não se dão propriamente mal mas a única forma que têm de interagir ou de "brincar", como certamente pensam naquelas cabecinhas dementes, é de tal forma violenta e abrutalhada que deixou de ser permitido a crianças visitarem a minha casa (atenção, não é que tivesse o hábito de levar crianças para lá, não me interpretem mal).

Entretanto uma amiga nossa enviou-nos uns links na net que provam que o inimigo talvez tenha uma patologia ao nível psicológico. Mas eu acho que isso tudo é treta. Acho que faz tudo parte de um plano pérfido para me expulsar, a mim e à minha mulher, e poder impor finalmente a sua PAX DIABOLICA com muitas missas negras e outras merdas que ela lá quer fazer. No desespero por resolver-lhe o problema e trazer-lhe maior qualidade de vida, acedi até a conceder-lhe um dos quartos que não foi ainda arrumado. Para que pudesse fugir da agitação do outro, tivesse a sua wc privada e pudesse relaxar em sossego. Mas será que isso ajudou? Não! Nunca! Continua a fazer o mesmo e a levar-me aos 80€ de cada vez sempre que vai ao médico. A galdéria!


Pontos fortes:

- Consegue camuflar-se no escuro.

- Tem garras e dentes que aleijam mais do que razoavelmente.

- Não tem compaixão pelos outros seres vivos.


Pontos fracos:

- A sua adoração por biscoitos de gato.

- A dificuldade que terá em aliar-se ao outro, caso fiquem encurralados.

- O seu espírito negro e depressivo, que pode virar-se contra ela.


Feitas as contas, será um adversário bem mais complicado de derrotar mas estou certo que no final a contenda ser-me-á favorável. O outro é pegar-lhe fogo e está o assunto resolvido. Esta terá de provar do seu próprio remédio por todas as vezes que me obrigou, a mim e à minha mulher, a passar noites em claro em busca de uma solução para os seus problemas existenciais, de uma forma milagrosa de lhe trazer felicidade, de aliviar-lhe as maleitas e as feridas na alma. Não, uma maldade assim só pode ser enfrentada pelas mesmas armas!

Tenciono arranjar audiobooks da obra completa do pensador francês Michel Focault, com especial ênfase nos livros "A Sociedade Punitiva", "A Hermenêutica do Sujeito" e "A Microfísica do Poder". Depois deixo-os a tocar em altos berros quando vou trabalhar de manhã, não antes de lhe mijar valentemente na tijela da comida para que saiba o que custa. Tenho a certeza que ao fim da primeira semana, a quantidade de caraminholas que terá na cabeça farão com que finalmente chegue a um ponto de não retorno: tornar-se na gata submissa, pacata e avessa a qualquer coisa que me chateie os cornos que sempre desejei que fosse... ou não aguentar e pôr cobro à sua existência enforcando-se com uma das meias da minha mulher.

Nos dias que correm, qualquer das soluções me serve.

...

Assim sendo, e porque nunca é demais recordar, ao oitavo dia do mês de Novembro de 2011, eu, Saguim, declaro por minha honra a abertura das hostilidades para com os dois demónios felinos que habitam em minha residência.

Agora é só imprimir isto, espalhar pela casa...

... e esperar a porra da retaliação.

Sunday, October 16, 2011

Tudo o que é bom um dia acaba

Tudo o que é bom um dia acaba.

O velho cliché que pode valer para os nossos subsídios de férias e de Natal aplica-se agora às minhas próprias férias. Acabaram e amanhã volto ao trabalho. E não escondo que a ideia de tornar a contribuir para uma economia e para um estado que me rouba como se eu fosse novamente o puto gordo no recreio da escola, não me parece nada apelativa. É que às tantas nem se trata tanto de criminalidade mas mais de bullying, tanto que estou farto de levar na tromba com toda uma panóplia de medidas, percentagens e impostos dos quais muitas vezes nem sequer percebo as siglas. Mas enfim, depois de duas semanas em intenso período de relax acho que não vale a pena estar já a emporcalhar a mente com este tipo de pensamentos e a desafiar o braço esquerdo que começa a formigar...

Não muito depois do nosso super-mentiroso Primeiro Ministro (pronto, lá vou eu outra vez...) anunciar as novas medidas de austeridade, já estava eu a fazer as malas para me fazer à estrada. Na realidade, tudo não passou de uma coincidência mas não escondo que acabou por ser uma p**a de uma coincidência. Enquanto o desgraçado dizia solenemente na TV "Eu peço desculpa mas na realidade nós já não somos tão soberanos quanto eu pensava e agora quem manda é aquela malta que nos quer comprar as empresas, que vamos privatizar à papo-seco, assim a preço de saldo e por isso em vez de tentarmos impulsionar a economia com medidas de incentivo vamos afundá-la ainda mais para enriquecer os nossos donos que detonam isto tudo se não nos portarmos bem..." (talvez não o tenha dito precisamente com estas palavras mas o conteúdo, não me venham com tretas, era este)... Enquanto ele dizia isso eu ouvia "Saguim, minha besta, arruma já os trapos e volta p'ra casa que isto vai ficar pior e ainda te vais arrepender amargamente dos dias que andaste a comer e a beber que nem um porco a sovar! Vá, desanda mazé!" E eu, porque gosto pouco de ouvir falar mal, desandei.

Mas, voltando um pouco atrás... Depois da viagem à Madeira fui passar uns dias a Ferrel, perto do Baleal, uma terra que ficou conhecida porque há uns anos quiseram lá fazer uma central nuclear. Nessa altura, o povo juntou-se para dizer que se fossem p'rá frente com aquilo podiam ter a certeza que iria haver sarrabulho dos antigos. E como o pessoal que usa gravata gosta pouco de sarrabulhos, até porque lhes deixa umas nódoas nas camisas que não saem nem por nada, e preza convenientemente a permanência dos testículos no sítio de origem, desistiu da central nuclear para gáudio dos ferrelenses. Afinal de contas, estavam a lidar com malta que se junta todos os anos para organizar uma corrida de burros à volta da igreja. Portanto, gente que não é p'ra brincadeiras.

Dias bem passados que foram esses, sim senhor...
Mas o grand finale estava para vir em grande estilo: dois dias num Hotel das Caldas de Monchique, daqueles com Spa e tudo. Toma, embrulha e não digas que vens daqui!

Antes demais, convém referir, que este menino que vos escreve NUNCA tinha entrado numa sauna. NUNCA tinha tomado um banho turco. NUNCA tinha levado uma massagem.
E não posso dizer que houvesse uma grande razão para ser assim... Penso que era apenas mais um caso flagrante de falta de categoria. É que eu definitivamente não tenho categoria para essas coisas. Eu é mais bejeca na mão, tremoços no bucho e os argentinos do Benfica a ganhar na TV. Mainada!

Posto isto: óleos relaxantes, piscinas de hidromassagem e ropõezinhos brancos são coisas de rabixo. Mas como também considero que qualquer homem tem direito aos seus momentos mais rabixos, e tendo eu uma mulher ao lado para anular quaisquer conotações menos viris, lá acedi a experimentar.

No entanto, um problema. Ao chegarmos ao Hotel, constatei algo que poderia já ter sido entendido mais cedo caso eu tivesse feito um exercício mental simples.

Termas = Pensionistas

Viram? Eu disse que era simples.

Portanto, só velhos.

Eu não tenho nada contra eles. Até porque, se tiver sorte, mais tarde ou mais cedo farei parte do clube e depois tudo o que não preciso é de uma horda de indivíduos a cravarem-me as dentaduras nos lóbulos das orelhas, como vingança por tudo aquilo que lhes desdisse. Mas enfim, eu ainda estou numa outra fase da vida e custa-me ver um snack-bar a fechar às 17h. É certo e sabido que os pensionistas às 19h já estão a "cabecear" em frente à TV, abençoados sejam, mas eu ainda não. Só a partir das 22h é que penso em aquecer a água para me ir deitar...

Na primeira noite o desafio foi encontrar um sítio para comer. O restaurante do Hotel era um pouco caro demais e, pelas regras instituídas, devia fechar a meio da tarde... Por isso, vimo-nos forçados a encontrar soluções. Estúpido como já me habituei a ser, entrei por uma pensão adentro, a única num raio de 50 km, atraído pelos preços convidativos da carta que se encontrava exposta na rua. Mas quando me deparei com o ambiente tétrico do interior do edifício, ambiente esse que faria o próprio Drácula verter uma gotinha de pânico, e constatando que nenhum ente vivo se encontrava na recepção nem ao seu redor, dei meia volta e regressei para junto da minha mulher que, sempre mais ajuizada do que eu, estava certa que aquela não era uma boa ideia.

Até que surgiu uma pessoa. Do sexo feminino. E me convidou a entrar...

Entre risos e gorgolejos de nervos, lá acedi ao chamamento da "senhora", chamemos-lhe assim, e entrei na sala de refeições, seguido por uma mulher contrariada e lixada da vida por eu ter vergonha de me livrar airosamente de situações como aquela. A sala de jantar era tudo aquilo que se poderia esperar de um sítio como aquele. Mobília escura e antiga, uma enorme e horrenda natureza morta na parede, luz eléctrica a imitar a de velas e apenas duas criaturas, também elas idosas, a acabar a refeição num dos cantos da sala... Ah e música de orgão daquelas dos vampiros a soar não percebi muito bem vinda de onde! Isto, tal qual.

Bom, tentando contrariar a palidez dos nossos rostos, comemos, bebemos, ignorámos um gato assustador que passou o jantar inteiro ao nosso lado a olhar p'ra nós, orámos a Satanás, sacrificámos uma virgem e voltámos para o nosso quarto. Bom, a parte da virgem e do diabo é mentira mas a do gato juro que é verdade. No entanto, estando de férias, tudo é p'ra aceitar com particular ligeireza. Não é um jantar "especial" que marca as nossas férias.

O que marca as nossas férias é mesmo o raio do Spa!

Bom, eu já expliquei que não tenho categoria, que não é a minha praia e essas coisas todas... Portanto já fiz um build-up para aquilo que aí vem. Ao segundo dia nas Caldas de Monchique, eu e a minha mulher marcámos uma massagem para dois, massagem essa que nos dava direito a usufruir do complexo termal. Portanto, de manhãzinha fomos logo p'ra lá. Na piscina estavam duas velhas e um gay, coisa que não me fez sentir particularmente à vontade. Nem a mim nem a eles, diga-se, porque os minutos que se seguiram pautaram por uma série de olhares fixos e de grande estranheza. Dentro da piscina, a velha 1 olhava fixamente para a minha mulher que, por sua vez, olhava fixamente para o vazio. Eu olhava fixamente para a frente, de modo a poder ver toda a gente pelos periféricos e percebia que o gay, por alguma razão bizarra, também olhava fixamente para mim. Isto enquanto a velha 2 olhava fixamente para o gay, talvez porque ele a estivesse a orientar enquanto ela fazia um qualquer exercício de reabilitação, talvez porque fantasiasse acerca de sexo gerontófilo com homossexuais... Enfim, não sei. Isto tudo no mais profundo e desconfortável silêncio. Até eu e a minha mulher decidirmos abandonar o local...

Seguiu-se o banho turco e a sauna. O primeiro mais agradável que o outro, verdade seja dita. Não que eu não tivesse curiosidade de saber o que sentiriam os frangos no interior de um forno (se é que um bicho esfolado e decapitado pode realmente sentir alguma coisa...), mas a ausência de colorau barrado nas minhas costas impediu-me de concretizar a experiência em pleno. Já o banho turco está longe de ser um banho e também não percebo porque lhe chamam turco mas parece-me que resulta. Resultava ainda melhor se a velha 2 da piscina não tivesse vindo atrás de nós, enfiado dentro da cabine connosco e começado a ressonar como um elefante marinho com os copos... Mas ao menos deu-me vontade de repetir.

E foi assim, entre experiências como estas, que chegou o momento da tal massagem.
Momento esse que, convém lembrar, foi também para mim uma primeira vez.

Quando avistei o dueto de massagistas, não vou negar que senti um certo alívio. Temia que fossem homens. Primeiro porque, não sendo de todo homofóbico, há um certo tipo de contacto físico que gosto de evitar com indivíduos do mesmo sexo. E segundo porque também tenho tendência para querer evitar que tenham esse mesmo tipo de contacto com a minha mulher. Assim só p'ra manter as coisas dentro do razoável e do limpinho.

Aproximámo-nos da sala e reparei que uma das massagistas tinha um sorriso significativamente mais aberto do que a outra. Portanto, percebi logo quem é que devia ter perdido a aposta e ficado comigo.

A massagem era de corpo inteiro e a menina achou boa ideia colocar-me duas coisas, que não cheguei a perceber o que eram, nos olhos. Lembrei-me dos romanos que colocavam moedas nos olhos dos mortos para os gajos darem ao barqueiro que os levava para o inferno ou lá o que era... Mas duvido bastante que uma coisa tivesse a ver com a outra. Imagino que fossem pétalas ou algo do género... O que devia dar-me um ar ainda menos digno, deitado naquela marquesa. Mas adiante...

Depois, a mulher colocou-me uma almofada por baixo das pernas para facilitar o seu trabalho. E foi aqui que começaram os meus problemas. Uma pessoa normal tem os pés p'rá frente. Um tipo como eu tem os pés pr'a fora à Charlot. Portanto, o que tínhamos agora era um indivíduo anafado (penso que podemos dizer assim) vestido com uns calções de banho com flores à havaiana, pétalas nos olhos e as pernas abertas elevadas e pés p'ra fora como se estivesse a dar à luz. E era esperado que eu relaxasse e ignorasse tudo isto.

Escusado será dizer que estava uma pilha.
Os pensamentos a sucederem-se a mil à hora.

Quando a massagista começou a mexer-me nos pés lembrei-me que teria sido boa ideia ter cortado as unhas no dia anterior. Tinha aparado as das mãos mas (que raio, estava de férias!) a preguiça impedira-me de fazer o mesmo com as outras. Penso que esta situação não fez maravilhas pelo trabalho da massagista que usava toda a sua destreza para conseguir cumprir a tarefa sem se cortar e apanhar tétano. Dedilhava como uma pianista russa enquanto eu procurava protegê-la, afastando tanto quanto possível as garras das suas mãos.

O resto do tempo, não posso dizer que tenha corrido mal. Fui untado dos pés à cabeça como uma enguia de escabeche, e massajado com todas as forças que a mulher tinha para atacar um corpo como este. Não se saiu mal mas digamos que para ela o dia de trabalho deve ter acabado por ali...

No final, disse-me docemente ao ouvido que a massagem tinha terminado e que podia levantar-me ao meu ritmo. Eu, como o meu ritmo é sempre... Como é que se diz... Ah sim, aparvalhado e à bruta, levantei-me para o lado errado da marquesa, aquele onde não estavam os meus chinelos, coisa que podia ter-me saído muito cara. A mim e ao reconstrutor facial da massagista que estava do outro lado.

Ora, esquecendo-me que estava coberto de óleo e portanto escorregadio como aquele americano que foi preso em Sintra, foi num misto de desequilíbrio e de passos de dança à Fred Astaire (se o Fred Astaire fosse bêbado) que fiz a viagem de 180º até aos chinelos, quase, QUASE, esbardalhando-me para cima da pobre massagista.

Ao recuperar a compostura, e perante o olhar de pânico da jovem, disse que até tinha ficado tonto perante o brilhantismo da sua massagem e saí dali p'ra fora, rumo ao quarto do Hotel.

Enfim...

São estas as memórias que levo para o retomar da labuta, do lufa-lufa do dia-a-dia e dos assaltos à mão armada do nosso Primeiro Ministro (que sabe bem o que isso é porque desde os seus tenros 37 aninhos que anda a papar filmes semelhantes no mercado de trabalho). E não são memórias nada más, atendendo àquilo que espera a maioria dos portugueses.

A verdade é que o Natal já não é p'ra todos.
Assim como não é p'ra todos ter um Ângelo Correia como anjinho da guarda (ai o braço esquerdo...)! Mas é em alturas como estas que temos de aprender a patinar, nem que alarvemente... Contrariar o visco e o sebum dos mentirosos e dos corruptos...

Para tentar chegar, sãos e salvos...

... ao grande par de chinelos...

Que é a felicidade.

Friday, October 7, 2011

Prá frente, sempre!

Ora então, dei por mim e estava visivelmente cansado...

Depois de meses e meses a labutar como uma criança de cinco anos no Bangladesh, concluí que precisava mesmo de um merecido período de férias. E daqueles longe da internet, do telemóvel e até da TV e da Playstation... Absolutamente nada a povoar a minha imaginação além dos meus próprios pensamentos dementes. No fundo, aquilo que o meu corpo e mente exigiam era o mais inócuo e sepulcral sossego, daqueles que só a gruta mais inóspita, o buraco mais denso e profundo conseguem proporcionar. Portanto, acabei por ir prá Madeira.

Não que seja a altura mais pacata para lá ir... Sei bem que não é.
Depois da descoberta da dívida que o Governo Regional acumulou durante uma catrefada de anos, e até tentou encobrir no início do levantar deste processo manhoso, dia sim dia não o Alberto João decide vir berrar qualquer disparate em público como mais uma tentativa de atirar areia para os olhos daquela gente... E atenção que isso é coisa para aleijar! Durante a minha estadia percebi que a areia na Madeira é preta e grossa como um comboio na linha de Sintra. Mas enfim, o homem berra como se não houvesse amanhã e nem sequer está muito enervado quando o faz. Berra porque é assim que ele comunica. Ele e todos os que sofrem do conhecido síndrome de Valentim Loureiro, claro. Por um lado, não há dúvida que AJ tem as suas falências mas por outro também é certo que realizou obra por toda a ilha. Eu continuo a duvidar bastante que tenha sido ele a acartar o cimento e a tijoleira pelos montes e vales mas enfim... Que o homem tem a educação de um trolha lá isso tem.

Mas a verdade é que é raro o estabelecimento ou o edifício que não tenha à porta uma placa a dizer que foi inaugurado no dia tal do ano tal pelo ilustre presidente do Governo Regional da Madeira. Estas placas são às pazadas. Tanto que a dada altura até fiquei surpreendido por não ver miúdas também elas com placas ao pescoço a dizer que foram inauguradas aos dezoito anos por AJ. Certamente que vontade não lhe havia de faltar.

Bom, mas voltemos à Madeira propriamente dita... É muito bela, não haja dúvida.

Tem um grande inconveniente. Toda a ilha apresenta um declive de, mais ou menos, 90º. E é sempre a subir.

Lá, não se passeia. Quanto muito escala-se.

Os Madeirenses têm as suas panças, sim senhor. Gorduras a adejar debaixo dos braços, ora muito bem. Mas todos ostentam uns gémeos tão sólidos e definidos que fariam Jean Claude Van Damme chorar de inveja como uma noviça açoitada.

Já eu, durante a minha estadia, não demorei dois dias a sentir as mais agudas das dores nas pernas, passando grande parte do tempo restante a deslocar-me em ziguezague, como um leproso em fase terminal, gemendo a cada passada. Mas porra, se valeu a pena...

Toda a ilha me fez lembrar a Suíça. Não tanto a parte do yoddle e dos bancos mas mais no que concerne ao queijo. Eu sei que nos dias que correm se fala muito de buracos e tal mas, sejamos francos, aquilo está tudo esburacado. São tantos os túneis que povoam a Madeira que quase me fazem crer que esta tem caruncho. Depois, temos um problema. Há efectivamente um Centro de Saúde e uma Escola em cada terrinha, isso há. Mas com os túneis todos acabam por haver estabelecimentos com malta efectiva a trabalhar e a ganhar do belo, a cinco minutos uns dos outros. Portanto, não é preciso ser nenhum yoda em economia para perceber que isto mais tarde ou mais cedo ia dar chispalhada...

E depois há a descida dos cestos. Para quem não sabe é quando nos enfiamos em tobogãs de vime e somos empurrados ilha abaixo por corpulentos madeirenses que, a julgar pelo aspecto e pelas tatuagens nos antebraços, de bom grado nos espetariam de frente no primeiro penhasco se não soubessem que seriam judicialmente punidos por isso. Pode ser um tanto arcaico e até um pouco aparvalhado mas a verdade é que é também bastante divertido. Principalmente depois de passarmos pela experiência e continuarmos a ostentar os dentes da frente.

Há também o Museu da Baleia do Caniçal. Um verdadeiro santuário dividido em dois momentos. No primeiro é-nos dado a sentir um verdadeiro espectáculo de carnificina onde, e juntamente com o suave aroma de sangue e vísceras de baleia, podemos observar como durante décadas a malta da Madeira perseguiu e cortou às postas todos os cachalotes a que conseguiu deitar a unha. Já no segundo, mostram como entretanto se arrependeram e agora os estudam e lhes dão festinhas... Não deixa de ser um contraste um tanto ou quanto abrupto mas acho que resulta.

Além disso há ainda o artesanato de vime da Camacha, o vinho da Madeira, as piscinas naturais de água choca e com cheiro a mijo de Porto de Moniz (nas quais, e com plena consciência que com isso reduzi substancialmente a minha esperança de vida, mergulhei), a poncha, os maracujás, as espetadas...

Tudo coisas espectaculares.

Mas não tão espectaculares como a propaganda eleitoral para as votações que se avizinham.

Ao contrário do que eu pensava, não é só o PPD-PSD que pode promover os seus candidatos. Mas, tal como eu pensava, os outros partidos parecem gozar de substancialmente menos espaço para esse efeito. Há várias situações onde um gigante e titânico AJ, emplastrado num outdoor, aparece rodeado daquilo que parecem pequenos anõezinhos compostos pelos outros candidatos, impressos em cartazes de muito menores dimensões. Pode não ser muito justo mas o efeito é deveras engraçado.

De certa forma, esta diferença de escalas até acaba por castigar a falta de originalidade nos "gritos de guerra" daqueles que pretendem, afinal de contas, fazer um assalto ao poder: "Para salvar a Madeira" diz o aborrecido PS, "Acreditamos nos Madeirenses" diz a maçuda CDU, "ELE NÃO É A MADEIRA!" grita o sempre alarve Bloco de Esquerda enquanto exibe uma foto do olhar sinistro de AJ. Tudo tretas previsíveis e pouco estimulantes, diga-se. Ah e o maluco do Coelho que agora é do Partido Trabalhista também diz qualquer coisa... mas a verdade é que ninguém lhe presta muita atenção.

Seria de prever que numa altura como esta, com tanto fervilhar de emoções e de graves acontecimentos a virem a público, as coisas estivessem menos cinzentas. Mas, verdade seja dita, o único a apresentar uma abordagem objectiva e original foi, uma vez mais, o inevitável PPD-PSD.

Uma beleza apenas comparável à vista da marina do Funchal. Lindo, lindo, lindo.

O lema é : PRÁ FRENTE, SEMPRE! MADEIRA, SEMPRE!

Okay...

Como pano de fundo, há um inebriante gradient do azul para o amarelo e do amarelo para o azul. São as cores da Madeira, 'tá certo, até aí percebo... E o degradé dá-lhe aquele toque de modernidade que nenhum outro partido conseguiu atingir. E depois admirem-se que o homem não saia do poleiro! PRÁ FRENTE, indeed.

Ainda em relação ao slogan, não há maneira de o ler sem que na minha cabeça soe a voz de AJ a berrá-lo. E talvez para isso muito contribua a fotografia do próprio, estampada em cima do gradient, acentuando assim o efeito espectacular.


Sobre a figura de AJ, três aspectos:

- É notório que não tem qualquer pescoço. Do colarinho é espargida uma massa amarelo-rosada que, apesar de algo disforme, adquire um formato que se assemelha a uma cabeça... Assim como aquelas seringas dos bolos a expelir recheio.

- Todo e qualquer sujeito que procure tapar a careca com uns escassos e ralos fiapos de cabelo grisalho merece toda a minha admiração. Não é novidade para ninguém que, em pleno séc. XXI, este truque patético não causa qualquer ilusão (se é que alguma vez causou...) Por isso, quando um bravo se mantém irredutível na defesa desta técnica trompe l'oeil capilar e não se importa de assim aparecer em público, na TV e nos jornais, não me venham cá com AMI's nem com Médicos Sem Fronteiras mas coragem para mim é isto. Tudo o resto é panascaria.

- Urge ainda apontar que nesta foto de AJ não se vê o branco dos olhos. Todo o seu globo ocular aparece preenchido de um negro baço, como os olhos dos tubarões. E é por isso que, se eu fosse Madeirense, nenhum outro candidato me pareceria mais afável e digno de confiança.


Posto isto, não descansei até encontrar um boletim desta campanha com as propostas para o novo mandato. Boletim esse que, e com sacrifício pessoal, resgatei de uma pilha de caca de pombo. Tudo pela liberdade de informação, meus caros. Tudo pela liberdade de informação.

Aquilo que li e que estou prestes a partilhar foi alarmante e esclarecedor.

Antes eu tinha a impressão que AJ era uma espécie de tio bêbado que aparecia nas reuniões de família a gritar obscenidades às quais ninguém dava muita importância entre os olhares cruzados de desconforto. No final, alguém lhe passava uma nota de cinquenta euros para ir comprar mais vinho, ele ia à vida dele e as pessoas normais continuavam a conviver. Dantes eu pensava isto. Depois de ler o boletim, acho que tenho a certeza.

Mas antes de me ir embora e regressar às férias, gostava de aqui vos deixar um cheirinho... Assim só p'ra não dizerem que guardo tudo para mim. Ora então cá vai...


MANIFESTO DO PSD AO POVO DE FUNCHAL (Ui um manifesto... Isto promete. "Morra o Cont'nente morra, Pim!" Capaz de ser mais ou menos isto que nos espera)

AOS MADEIRENSES E PORTOSSANTENSES:

O Povo Madeirense vai eleger o Governo que terá de aguentar o período mais duro desde que a Democracia e a Autonomia Política nasceram com a Constituição de 1976. (Boa, estão a falar de Constituição... Dados os acontecimentos recentes e o avacalhar da mesma, tem de ser bom!)

Os Madeirenses e os Portossantenses vão eleger o Governo Regional que terá de Os conduzir e defender o melhor possível, face à situação gravíssima que os socialistas criaram (O BANDIDO DO SÓCRAS!), que provocou Portugal ficar sob mando estrangeiro (O MALDITO INVASOR!) e, se quiser comer (Quem? Portugal?), ter de aplicar a política que nos foi imposta pela vergonhosa tutela internacional a que chegámos (Como se atreve o FMI a impor políticas?? Não temos cá quem o faça tão bem? Alguém da Madeira, por exemplo...)

Um Governo Regional que terá de demonstrar capacidade para conduzir o arquipélago nas dificílimas situações que, por caírem sobre Portugal, infelizmente caiem também sobre os Madeirenses e os Portossantenses, embora tal não seja justo em relação a um povo que sempre discordou do que se passava, que foi sempre oposição ao próprio sistema político, que sempre alertou Lisboa para os erros desta (Infelizmente o sotaque Madeirense é cerrado e Lisboa não percebeu... De qualquer maneira, o tal "povo", chamemos assim ao governo de AJ, acabou por perder alguma legitimidade no assunto "poupança" quando apresentou um buraco do tamanho da defesa do Sporting).

Portanto, o que agora está em jogo para os Madeirenses e os Portossanteneses (Ok, é preciso estar sempre a repetir o mesmo???), é escolher um Presidente de um Governo Regional que, com o novo Executivo que formar, dê garantias de hábil e inteligentemente enfrentar a situação complicadíssima em que os socialistas nos mergulharam. (MAS QUEM, MEU DEUS?! Se ao menos houvesse um indivíduo grosseiro que só sabe falar a berrar e usar técnicas de inimigo público e de mania da perseguição a la regimes ditatoriais da primeira metade do século XX... MAS ONDE ENCONTRAR TAL PERSONALIDADE?!)

(...)

Depois seguem-se parágrafos intermináveis, praticamente todos eles a dizerem o mesmo, estilo aquelas gravações em loop do filme 1984, a fomentar o ódio pelos socialistas e a glorificar a obra feita pelo actual Governo Regional. Glorificação essa que chega ao ponto de dizer que:

Seria uma covardia, Alberto João Jardim recuar ou desistir no presente quadro. Sabe ao que se arrisca, dadas as dificuldades que vamos ter pela frente, risco de saúde inclusive, quando era mais fácil abandonar ante o que aí vem, levando consigo os sucessos e transformações que conseguiu. (Portanto, estamos na iminência de coroar aqui um mártir. A avaliar por estas palavras pouco falta para AJ vestir um colete de bombas e atirar-se heroicamente para a entrada do buraco orçamental, esperando que a consequente queda de rochas o tape para sempre. Pode ser fantasioso mas não condenem um homem por sonhar acordado...).

Segue-se mais conversa em como os socialistas ficaram a dever dinheiro à Madeira e/ou inclusivamente a roubaram e depois aquele que considero o parágrafo-rei deste maravilhoso boletim. Desde já aviso que é sublime. Ora então cá vai:

Depois de trinta e três anos, a Oposição está desesperada. Não captou pessoas com um mínimo de qualidade, alinhou contra o próprio Povo Madeirense, opôs-se sempre a tudo quanto era progresso, praticou um permanente bota-abaixo, não tem alternativas, só fascina os desordeiros, bêbados, drogados e vadios que infelizmente existem em diversas localidades.

...

Portanto...

Está aqui identificada a Oposição na Madeira.

Isto para que não restem dúvidas.

...

Não sei quanto a vocês mas eu leio isto e parece que ouço Chopin ao longe... De tão lírico e filosófico que é. E ao mesmo tempo também associo aos primórdios da minha infância, não sei se me faço entender. "Quem não gosta de mim é parvo", é comum ouvirmos no Jardim Escola. "Quem não gosta de nós é bêbado ou drogado!", parece que se ouve muito na Madeira. Mainada!

Bom, mais argumentação incendiária até ao fim e, a fechar a peça, 90% do boletim consiste de uma lista das chamadas INAUGURAÇÕES REALIZADAS NO CONCELHO DO FUNCHAL. Um verdadeiro "festival da tesoura".

Aqui encontramos um compêndio infindável com obras tão relevantes como a Creche de Santa Maria Maior, o Lar de Abrigo de Nossa Senhora de Fátima ou a Unidade de Hemodiálise do Hospital do Funchal e outras com consideravelmente menos relevo e até algum nível de suspeita como o Ginásio Big Body Gym, a Padaria Mariazinha II, o Crédito Predial Português (que não existe vai p'ra mais de dez anos) e a Discoteca Vespas. Se calhar não era suposto eu ler isto tudo até ao fim mas, que raio, tinha tempo e li.

E pronto, não vos chateio mais. Se calhar têm a sopa ao lume e de certeza muito mais que fazer.

Cheguei ontem da Madeira e ainda vou ter mais uma semana de férias por isso é possível que o meu período de descanso ainda me dê mais material para fazer pouco...

Eu perco-me para aqui a falar do AJ e de tudo e mais alguma coisa mas a verdade é que não sou nada melhor do que ele. Quando era miúdo roubei uns autocolantes das Tartarugas Ninja a um colega de escola e culpei um outro que usava óculos e tinha asma. Ele levou nos cornos e eu fiquei a ver, com um sorriso na cara. Portanto, em matéria de sem vergonhice não é qualquer um que me dá lições...

Mas entretanto, se viverem no Arquipélago, votem em consciência.
Se, por outro lado, viverem no Continente, rezem para que os outros o façam e a seguir tentem manter o emprego porque são os subsídios de Natal de todos que vão ajudar a pagar o tal buraco. No fundo, acaba por ser menos uma Wii ou um Castelo dos Gormiti que o mimado do vosso puto recebe. E ainda bem porque sem essa importante lição de vida quem sabe se não acabaria por tornar-se num adulto egocêntrico, em alguém com a mania das grandezas ou até, quem sabe...

... no Presidente de um Governo Regional.

Thursday, September 8, 2011

Ok, temos aqui um problema

Acredito que as balanças foram criadas com o objectivo de ajudar as pessoas a controlarem o seu peso e assim manterem uma melhor qualidade de vida.

Há quem acredite em Deus ou em vida extraterrestre. Eu acredito nisto. E acho que não há missão mais nobre para um aparelho.

É por estas e por outras que se me perguntarem se as balanças têm razão de existir e se não seria melhor ideia juntá-las todas a arder em sítios próprios como uma pira, num descampado ou no relvado do Estádio do Sporting, a minha resposta é "Não, senhor! Deixem-nas estar." e não se fala mais no assunto. Mas atenção: devem existir sobretudo para ajudar OS OUTROS, ok? Outra malta que não eu. Porque quando toca a mim a conversa já é diferente...

Nunca nenhuma balança me deu boas notícias. Nunca me colocou um sorriso na face, nunca me perguntou pela família ou deixou uma palavra amiga. Quando sou eu a pisar uma balança aquilo que vejo no mostrador é um misto de intensa agonia para que saia imediatamente (se um monte de plástico e parafusos tivesse a capacidade de berrar, berrava e bem) e a gentileza subtil de um coveiro embriagado a dar-me a terrível má nova de que estou gordo como um urso pardo com bócio. Sempre. Assim, e embora as respeite, também é por estas e por outras que evito relacionar-me com este tipo de maquinetas...

No outro dia, acompanhei uma amiga que não se estava a sentir bem a uma farmácia. Com o pretexto de que uma das razões do seu mal estar se devia ao seu estado de magreza extrema obriguei-a a subir para uma, lá está, balança, e a encarar assim a terrível verdade. No entanto, o papel impresso pelo "oráculo medidor de banha" veio provar que eu estava errado e que efectivamente a minha amiga estava em boa forma. A minha ideia de "magreza extrema" tinha sido portanto deturpada pela comparação com a minha pessoa sendo que é perfeitamente possível uma jovem adulta ter metade do meu tamanho e ser exactamente por isso que está com o peso ideal. Enfim...

O que consegui com a brincadeira foi ter de saltar logo a seguir para cima da plataforma. Achei que fazia sentido. Mas, como é evidente, arrependi-me nem um milésimo de segundo depois...

Primeiro a altura... 1,77 m

Até aqui tudo bem.
Nunca fui muito alto mas também não sou nenhum caga tacos. É uma altura que me permite chegar a um tupperware na última prateleira do armário da cozinha e ao mesmo tempo me impede de fazer figuras tristes no Portugal dos Pequenitos em Coimbra. Portanto, ao nível da altura, 5 estrelas.

Depois o peso... 96 kg

...

Ok, temos aqui um problema.

Não me interpretem mal, poderia até ser uma boa marca... caso eu pertencesse a uma qualquer ganadaria. Mas sendo eu humano e não tendo perspectivas de ser toureado num futuro próximo parece-me que tenho de fazer alguma coisa para impedir que qualquer dia os CTT me atribuam o meu próprio código postal.

Fui-me inscrever num ginásio. Pela 8340ª vez, mas ainda assim fui. A última aventura que tivera no mundo do desporto não fora propriamente brilhante e não me deixara as melhores recordações, como decerto se lembrarão devido a este testemunho. Em traços muito gerais: fui praticar natação livre para umas piscinas duma associação que trata malta com uma doença degenerativa nas costas. Na sua maior parte, idosos. E um dia tive conhecimento que estava um aviso no placard a dizer que já não era a primeira vez que eram encontradas fezes na água. Enfim, ainda não consigo escrever isto sem sofrer uma violenta contracção na traqueia mas não quis deixar de contextualizar.

Até porque agora a realidade é diferente. Num ginásio e a fazer cardio fitness, raios m'a partam se também encontro lá fezes!!!

Eu nem quero falar muito nisso que o Todo Poderoso ainda acha piada e aproveita para fazer das suas. É conhecido o seu bizarro entusiasmo por me lixar a vida e depois divertir-se às minhas custas, como se a minha existência fosse o seu reality show de palhaçada preferido. Tantas eras da História em que podia ter vivido e tive de aparecer logo quando o Velhote está no pico da senilidade...

Anyway...

Hoje foi o meu primeiro dia de exercício físico.
Sim, escrevo estas linhas depois de ter estado uma hora e meia a perceber o porquê do Cláudio Ramos recorrer à lipoaspiração sempre que quer eliminar a celulite do rabo. Mas eu com isto não pretendo descredibilizar a lipoaspiração, note-se. Conseguem-se os melhores resultados e não é preciso sofrer como uma noviça ao primeiro aborto. O problema é que eu sei que a mesma mão que assinaria o cheque deste tipo de cirurgias estaria também mais tarde a escolher vestidos na Bershka. E se as cores da Bershka me ficam mal...

Mas anyway outra vez...

Hoje foi o dia da avaliação.
Portanto, aquele em que conheço o meu plano de treinos para os próximos meses e compreendo que vou pagar com o sangue as pazadas de sushi e de vinhaça que emborquei desde nem eu sei quando. Ao ver o instrutor a preencher a tabela senti-me um Renato Seabra a ouvir a sentença. Se soube bem fazer o que fiz, não há dúvida que soube. Mas agora vou-me f***r à grande!

O instrutor era aquilo a que se chama na gíria de "um puto porreiro". Estivemos a falar sobre artes marciais talvez até mais tempo do que seria necessário mas eu intencionalmente decidi prolongar a conversa para roubar minutos ao massacre físico que estava prestar a abraçar. Reparei que ele insistia em tratar-me por você, e isso estava a incomodar-me bastante. Não tanto pela palavra em si, até porque era normal dado que tínhamos acabado de nos conhecer, mas pela forma como a dizia. Como se eu fosse muito muito mais velho... Ora se eu tenho 28 e ele não devia ter mais de 25, parece-me que 3 anos de diferença não justificavam aqueles salamaleques todos. E não era só o "você", eram os cuidados todos que ele tinha com o meu historial clínico e em especial com a condição cardíaca. Como se eu andasse a gritar "enfarte do miocárdio" por todos os poros...

Enfim, chateou-me.

Inaugurei logo o novo "plano de terror" com quinze minutinhos de bicicleta.
Até me virem dizer que aquela era onde costumavam andar as mulheres e os obesos.

Começava bem...

No entanto, como tecnicamente até me insiro na segunda categoria, deixei-me estar e acabei o exercício.

O resto do treino foi uma divertida sucessão de dor, arrependimento e mágoa. Se fosse uma cantiga era sem dúvida "O Fado da Lontra" mas como não era acabou por ser apenas uma breve amostra de algo que vai fazer parte da minha vida pelo menos durante os próximos meses. Não me queixo, ainda bem que posso dar-me ao luxo de pagar por exercício em condições. Mas também não posso evitar de pensar em todo o dinheiro que se investe, por exemplo, a incentivar os estúpidos casais de pandas a querer mocar e no tão pouco que se aplica em tornar o real enchimento do bandulho num método de emagrecimento. São prioridades...

À saída do ginásio, e como não podia deixar de ser, aqui o campeão tinha de deixar o seu extraordinário carimbo de super-palermice em forma de pièce de résistance. Não bastava sair do recinto branco e encharcado como uma foca do Ártico atordoada... havia mesmo de deixar uma impressão memorável.

Uma vez mais, o jovem instrutor abordou-me para perguntar como tinha corrido o treino... se me estava a sentir bem... se me aguentava...

Você, você, você...

A sua saúde, a sua saúde, a sua saúde...

O coração, o coração, o coração...

...

Até que eu...

Decidi dizer a coisa mais incrivelmente IDIOTA...

Que alguma vez alguém poderia ter dito em qualquer situação...

Em qualquer país do mundo...

Em qualquer momento da História Universal...

...

Perante todo este cenário de formalidades, virei-me para o puto e disse...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO...

...

...

...

...

MAS NO QUE É QUE RAIO ESTAVA EU A PENSAR?!!



PORRA!!! FIZERAM-ME UMA LOBOTOMIA E NINGUÉM ME DISSE?!



"TRATA-ME POR TU, QUE EU TAMBÉM SOU NOVO?!!!" WHAT DA FUCK?!!!



ISTO É O TIPO DE COISAS QUE SE ESPERA OUVIR DE UM TIPO COM SUSPENSÓRIOS E UM DAQUELES BONÉS COM UMA HÉLICE...



CA GRANDESSÍSSIMA ESTUPIDEZ!!!



"QUE EU TAMBÉM SOU NOVO..." OH MEU DEUS! QUE ATRASADO MENTAL!



Este tipo de merdas faz-me lembrar outra das minhas festas de anos em casa quando a mãe de uma amiga minha, a tal que era convidada todos os anos, trouxe o filho mais novo, que não tinha sido convidado, só porque não lhe apetecia ficar a tomar conta dele.

Então, mal os meus pais abriram a porta e a minha amiga entrou para brincar connosco, a mulher empurrou o miúdo na mesma direcção e empunhando um saco manhoso de miniaturas de aviões de guerra coloridos, afirmou:

- O menino também vem porque também traz prenda!

Nessa altura apeteceu-me introduzir-lhe pelo recto os horrendos aviões, um por um!
Não só à gaja que dizia isto mas também ao desgraçado do puto que tinha a cabeça esférica e vermelha, semelhante a um queijo Limiano, prestes a explodir de vergonha.

MESMO ESSE EPISÓDIO NÃO SE EQUIPARA EM TERMOS DE IMBECILIDADE À MINHA BRILHANTE SAÍDA.

...

Enfim, estou cansado.
Não tanto do exercício mas fundamentalmente disto. Ainda assim há mais soluções para aqueles que têm excesso de peso do que para os que falam sem pensar. Isso é que era um desporto a sério e que só por si faria maravilhas no meu futuro.

* suspiro *

Tuesday, August 2, 2011

EHPÁ DANCEM!!!

Ora bem, então parece que o Saguim habita um novo galho.
Sim, é verdade. As macacadas mudaram-se definitivamente para outro sítio há duas semanas.

Já não há vizinho cornudo. Já não há discussões entre marginais na paragem do autocarro. Já não há ordinário riscador de carros...

E até hoje também não havia gás.

Há bocado ligaram-me a dizer que já há, mas eu sou como São Tomé: ver para crer. A grande generalidade do público deve estar agora a pensar que, como não havia gás, estive este tempo todo sem tomar banho. Falo daquela generalidade do público que tem o odor apurado e que lida comigo diariamente. Porém, não há suposição mais falsa. O banho tem sido "à chinês" com a ajuda de uma panela de água quente e de dois alguidares. Felizmente, isto é o mais próximo que já estive do Terceiro Mundo. Bom, houve também aquela vez que passei a dois metros de um autocarro dos Super Dragões mas isso é outra conversa...

Parecendo que não, isto de não ter água quente para tomar banho faz alguma diferença. Há sempre quem diga que agora é Verão e que não custa nada tomar um duche de água fria mas como essas pessoas são imbecis, a sua opinião não pode ser levada a sério. Eu posso não conhecer muita coisa mas conheço o meu corpo o suficiente para saber que a cada duche gelado há funções fisiológicas que perco para sempre. Eu sei disso porque, em total desespero, tentei fazê-lo há uns dias. E agora sou incapaz de conter o fluxo de ranho sempre que estou perto de um rádio a pilhas. Enfim...

A casa nova é inovadora a vários níveis relativamente à de Benfica (e nem sequer estou a falar da ausência dos cornos do vizinho do lado marcados na parede da sala). A vizinhança é pacata e bem disposta. Quando dou os bons dias e boas tardes a alguém, a resposta que obtenho não é nenhum grunhido cavernoso e/ou uma valente bufa na minha direcção. Respondem na mesma moeda e volta e meia até sorriem... SORRIEM! Eu sei que é difícil explicar a minha alegria mas por favor tentem. Quanto ao barulho, anteontem um amigo deslocou-se lá a casa para fazer uns buracos com o black&decker e às 21h ainda estava a malhar no estuque como um moicano. Ninguém reclamou, ninguém insultou, ninguém disse absolutamente nada. O que me leva a concluir que desta vez o cigano devo ser mesmo eu.

Também não há nenhum restaurante de sushi ao virar da esquina, o que só por si deve permitir que consiga pagar o empréstimo ao banco até ao fim. São coisas como estas que quase me fazem esquecer os 9 meses que penei à espera que o processo das obras acabasse para finalmente recuperar todos os meus pertences e roupas. Esta última parte foi mesmo um problema. Nunca pensei estar tanto tempo à espera e portanto pus de parte uma ínfima parte do amontoado de trapos incoerente a que chamo de "a minha roupa". A dada altura, tentei todas as combinações possíveis, e algumas bem ridículas devo acrescentar, o que proporcionou olhares de pena dos meus colegas de trabalho e sorrisos nervosos da minha parte. Mas tudo isso está para trás das costas.

Até a gata está mais calma e dócil. Claro que para isso também muito contribui o milagroso efeito dos antidepressivos mas de qualquer maneira gosto de acreditar que ela aprova o novo poiso. Por falar em antidepressivos, parece que as ordens do veterinário são para começar a parar por esta altura. Eu estou renitente, até porque aprecio dormir entre as 5h até às 8h, mas também não posso estar a drogar um animal só para garantir o meu conforto. Ou posso...?

As coisas estão lentamente a ir ao lugar. E parece tudo tão bem que o santo começa a desconfiar. Qualquer dia abro a porta da casa e está um corcunda a arrastar um cadáver para a casa ao lado, ou assim. Sinto que alguma coisa de terrível está para acontecer, que estou apenas iludido sem querer ver o buraco fétido e lamacento onde me fui enterrar, mas vou ter de esperar mais alguns dias para ter a certeza. As coisas também não podem ser sempre à minha vontade. Aprendi isso em criança, numa das minhas festas de anos em casa...

(música e efeitos visuais indicativos de flashback)

Naquela altura, a minha lista de convidados contava com 19 rapazes e uma só rapariga (normalmente era a mais feia da turma porque era insuspeita, não podia correr o risco de convidar uma gira porque depois toda a gente ia achar que eu gostava dela. Todos nos protegíamos criteriosamente nesse aspecto). Houve um ano em que em vez de uma convidei duas, o que era só por si um grande acontecimento, e decidi que iria organizar um concurso de dança em minha casa. Um concurso de dança com 18 rapazes e 2 raparigas. Adivinhava-se espectáculo.

Vai daí, preparei uma cassete com uma cuidada compilação de música de dança. Recorri ao que tinha em casa. Queen, portanto. Uma banda que animava as discotecas pelo mundo fora...

Ok, recapitulemos: um rácio absolutamente desequilibrado de miúdos e miúdas com o fenomenal elo de ligação de um tipo de música que, tipo, não dá para dançar.

E eu sempre a achar que a ideia era genial.

No dia da festa de aniversário, eliminei logo o primeiro problema ao seleccionar dois rapazes da minha preferência. Os outros todos podiam enfiar os croquetes e os rissóis de camarão no cu porque eu tinha um concurso de dança para promover. O júri era eu, claro. Só. Isso nem se questionava.

Enfiei-me no quarto com os dois casais, vermelhos como tomates e envergonhados como noviças no Cinema Olympia, e coloquei a cassete dos Queen a tocar. Eles, parados a olhar uns para os outros, tentaram dizer-me que tinham dificuldade em dançar ao som daquele tipo de música. Eu mandei-os improvisar e fui sentar-me junto á parede com um bloco e uma caneta nas mãos (suponho que para dar notas) e com um sorriso entusiasmado na cara.

Eles não dançavam.

Formando dois pares, com os "bailarinos" de frente um para o outro, flectiam nervosamente os joelhos e mexiam as mãos de forma descoordenada. Só para deixar satisfeito o aniversariamente que começava a ficar irritado com tamanha falta de jeito.

As queixas eram muitas... Que não estavam a sentir o ritmo. Que não lhes apetecia. Que não era o momento certo. E os minutos sucediam-se fazendo abater-se sobre o quarto um denso manto de desconforto e ira.

A dada altura, passei-me da marmita. Aquilo era demais.

Perante a passividade dos meus convidados berrei com todas as forças que as minha jovens artérias me proporcionavam:

- EHPÁ DANCEM!!!

...

...

...

(piscar de olhos)

...

...

(as lágrimas a escorrer silenciosamente pelas caras dos meus amigos)

...

...

(gemidos surdos)

...

...

(mais flectir nervoso de joelhos e movimento descoordenado de mãos, agora com maior intensidade).

...

- Bom, isto não está a resultar. Vamos mas é voltar para junto dos outros. - acabei por concluir eu, perante a debandada mais rápida de seres humanos que alguma vez testemunhei.


(música e efeitos visuais indicativos de fim de flashback)


Nessa mesma noite o meu pai explicou-me que o que fizera fora extremamente desumano.

Extremamente.

Fosse o meu pai Staline ou Mussolini acredito que o teria enchido de orgulho. Mas como não era, nem nunca foi, a reacção foi de grande preocupação e, porque não dizê-lo, de algum medo.

De facto, ele tinha toda a razão. Em que é que eu estaria a pensar... "EHPÁ DANCEM!!!"??? E o teatro todo antes... Mais valia ter acrescentado "PALHAÇOS" também. Já que estava com a mão na massa. "EHPÁ DANCEM, PALHAÇOS!!!" Ao menos teria sido coerente do princípio ao fim.

Bom, esse foi um momento de viragem, a partir daí jurei não me impor demasiado a ninguém.
E sei que a vida não me dá obrigatoriamente aquilo que acho que devo ter.

Por isso, parece que agora corre tudo muito bem com a casa e tal.

Mas se as coisas derem para o torto, de nada me valerá voltar a berrar "EHPÁ DANCEM!!!"

Ou valerá...?

Tuesday, June 28, 2011

Tudo o que você queria saber sobre camionetas... e tem vergonha de perguntar

Quem é que aqui odeia autocarros?

Quero ver mãos no ar...

Ena tantas!

São cá dos meus!

Odeio autocarros sim senhor e não tenho vergonha nenhuma de gritá-lo aos sete ventos. Aliás, já o fiz aqui mesmo neste canto internético obscuro há uns quantos anos atrás, num post bem velhinho. Na altura, apelidei-os singelamente de "carripanas de Satanás" e quem tem de andar neles todos os dias não pode deixar de dar-me razão.

Se por outro lado aparecer alguém activista das vis transportadoras de gado humano a mandar-me enfiar as opiniões onde o sol não brilha, a existência de tais criaturas faz com que possa dizer que na minha vida já vi de tudo, a par do clássico porco a andar de bicicleta.

Bom, mas não quero alongar-me demasiado sobre o assunto. Aquilo que me traz aqui hoje é algo ligeiramente diferente...

Dado este meu ódio de estimação não é senão irónico quando me vejo, por razões profissionais, a ir e vir a Beja todas as semanas de camioneta. Não que tenha sido a minha primeira escolha, a camioneta. É que fazer a viagem de carro obrigar-me-ia a passar boa parte do mês sem ter mais do que aquelas folhas velhas de alface que ficam caídas no chão dos supermercados para comer, por não sobrar qualquer dinheiro depois da gasolina e das portagens... E parece que também houve alguém genial que achou que haver comboios para Beja era coisa de finórios e que o melhor era acabar com essas mordomias do catano.

Restou-me a porra da camioneta.

Que, diga-se de passagem, é perigosamente semelhante com "aquele que não dizemos o nome".

Três horas e meia para lá, três horas e meia para cá, sete horas no final do dia... Nem interessa o que vou lá fazer, tanto sacrifício devia valer-me já a canonização e a definição de mártir. Aqui entre nós, não sei bem que benefício me trariam estes títulos ou se me ajudariam a arranjar emprego, mas com certeza não hão-de prejudicar o meu curriculum vitae. Conto é com vocês para tratarem das papeladas com o Vaticano que eu sinto muito cansaço.

Ora bem, o que tenho eu a concluir depois de quase dois meses nestas andanças?

1.
Eu não sou homem suficiente para andar de camioneta. Isto, tal qual. Nos dias de viagem, chego à rodoviária por volta das 6h30. Só para verem a estaleca deste menino. Estaleca que nada tem a ver com virilidade, diga-se. Depois de comprar o bilhete dirijo-me para o café onde bebo a primeira bica do dia. Recentemente, numa destas minhas incursões matinais à cafeína testemunhei a acção de um homem negro que, abrindo a goela como uma avestruz, espetou um copanázio de brandy no bucho mais depressa do que me levou a dizer "CUIDADO, VAI EXPLODIR!!!" Com um cartão de visita destes, tomei logo respeito às camionetas e às pessoas que as frequentam. Sei que sou apenas um estagiário nisto do "camionetismo" (está inventada a palavra) porque se me atrevesse a fazer escorregar uma pomada daquelas pela traqueia adentro assim de manhãzinha faria o caminho de volta borrando-me e largando golfadas de vómito a cada passo até à porta do veículo. Um percurso assim não seria nada honroso e condenar-me-ia a ser gozado em cada viagem.

2.
A malta olha de lado para os betinhos que gostam de sentar-se nos lugares que estão no bilhete. Fosse aquilo uma escola C+S e não uma camioneta, muito calduço havia de assentar no pescoçame de quem andasse com o papelinho na mão à procura do estofo correcto. Eu sei porque fazia isso no início até uma velha me mostrar os caninos da dentadura, rosnando em ameaça. Eu disse-lhe que era só enquanto as outras pessoas não se sentavam, por uma questão de respeito pelo próximo e para não estar a ocupar a cadeira de alguém. Mas ela começou a resmungar, dizendo que era estúpido eu querer aproximar-me a menos de meio metro de uma pessoa sendo que a camioneta ia vazia. E tinha a sua razão, o raio da velha. De facto, só um tarado gerondófilo faria tal coisa... Ou então um palerma como eu. Contive-me uns segundos mais ao seu lado, suando abundantemente da testa, à espera do momento certo para sair daquele que era afinal de contas o lugar que me estava destinado pelo bilhete e ir para um dos outros lugares vazios. Até que, ligeiro como um esquilo, ou então tão ligeiro quanto o meu corpo me permite ser, saltei do lugar e fugi sem olhar para trás, procurando ignorar um resmungar ainda mais intenso da velha morcega. Serviu-me de emenda e nunca mais me sentei no meu lugar. A isto chama-se aprender.

3.
Há malta que não sabe lidar com o enjoo. Pura e simplesmente, não sabe. Quando eu estou enjoado enterro dois dedos na garganta e trato do assunto à boa e velha maneira pirata. Não é nenhum drama nem ninguém morre por causa disso. No outro dia, a meio caminho para Beja, a camioneta parou e o condutor dirigiu-se até meio do veículo para auxiliar um passageiro em dificuldades. Era uma pensionista que estava prestes a vomitar, enjoada como uma vaca no matadouro e que, como não podia deixar de ser, aproveitava para desempenhar um longo papel dramático numa peça de sua autoria. Estivesse lá o La Féria e começava tudo a cantar e a dançar, erguendo a velha em braços de onde saltavam triunfantes a Anabela e o Carlos Quintas. Anyway... a mulher mostrava o seu mais profundo mal-estar através do balido monocórdico e inquietante:

Ai...

Ai...

Ai...

- Quer água, minha senhora? (perguntava o estúpido do motorista que devia estar a fazer a porra do seu trabalho e a levar-me para Beja de modo a poder fazer o meu)

Ai...

Ai...

Ai...

- Ela disse que ia para um funeral e que mal tinha dormido... Está mal disposta. (comentava uma velha que não conhecia a outra mas que fazia questão de relatar para todos os passageiros as conversas que tinham partilhado desde o início da viagem, por irem lado-a-lado)

Ai...

Ai...

Ai...

- Olhe eu acho bem que já não vá a funeral nenhum porque senão ainda fica lá também! (dizia a velha número dois enquanto agarrava num saco de plástico que já continha no interior o vomitado da velha número 1, e quiçá também a sua dentadura. Aqui, tive de me rir).

Ai...

Ai...

Ai...

Ai...

Tive vontade de me levantar do lugar e tirar a mulher do sofrimento apertando-lhe o gargomil. "AI AI AI O QUÊ?! PORRA! VOMITA COMO UM CÃO E MIJA COMO UM HOMEM A SEGUIR QUE EU TENHO DE IR TRABALHAR!!!" (não sei bem porque lhe gritaria tal coisa mas foi o que me ocorreu). Enfim, a velha lá se sentiu melhor e pudemos seguir viagem. Sem ser preciso aviar-lhe uma ou duas chapadas, o que acabou por ser mais simpático. Mas não ganhei para o susto.

4.
Existem camionetas melhores do que outras. De manhã costumo sempre comprar o bilhete de ida e de volta, mas como hoje por exemplo me despachei mais cedo, antecipei um pouco o regresso trocando a passagem na bilheteira. E a verdade é que acertei em cheio! A camioneta das 17h não só tem rede wireless para os passageiros como tem uma TV e até uma hospedeira.... Tipo as dos aviões. Calculo que aquelas que vão trabalhar para a Rede Expressos sejam as que chumbaram nos exames da TAP. A malta que anda de camioneta é que tem de levar com o refugo. No entanto, é engraçado ver a forma como ela fazia o seu trabalho fantasiando que estava numa aeronave. A maneira como fazia os anúncios por microfone aos passageiros, a forma como nos oferecia sandes prontas a comer, a doçura com que me pediu que baixasse o som dos meus phones... Confesso que esta não percebi. A música que estava a ouvir estava demasiado alta. Como se eu fosse um daqueles mitras com o rádio ao ombro a ouvir kizomba. Eu estava muito sossegadinho com o meu mp3 no bolso a ouvir a minha música, sem chatear ninguém e tive de baixar o som porque segundo a tipa "estava demasiado alto". Das duas uma, ou foi só p'ra me chatear (hipótese muito viável) ou então faz parte de um novo serviço de "saúde e cuidado". As hospedeiras das camionetas têm não só de se certificar que temos tudo o que precisamos para uma viagem confortável como também não avacalhamos os tímpanos com o ruído. 'Tá giro! Giro giro também era ver esta alminha ao lado do condutor da camioneta. Uma na base da carreira de hospedeira, outro no topo da carreira de motorista de camionetas. Cada um tem o que merece...


E assim tem sido a minha vida, além de tudo o resto.
Ansiando que estas conclusões me ajudem a sobreviver àquilo que ainda aí vem.

E que um dia, quem sabe, consiga o financiamento para acabar de vez com tudo aquilo que se assemelhe a um pérfido e fedorento autocarro. Eu mando mails mas não me respondem.

Sovinas...