Sunday, March 27, 2011

Escolhas da treta

A vida é feita de escolhas, lá diz o cliché.
Atenção que não estou a referir-me a um indivíduo francês com esse nome, mas sim ao lugar comum, a um conceito batidíssimo que se faz repetir há anos e anos.

Mas a vida é, de facto, feita de escolhas.
E eu, com impressionante recorrência, escolho mal.

Não digo sempre, há alturas em que acerto como no dia em que escolhi a mulher com quem partilho a vida ou no momento em que achei que era rabichola ter demasiado cabelo e optei pela calvície. Em ambas as situações, considero que movi a peça certa do xadrez.

No entanto, não consigo lembrar-me do número absurdo de vezes que, tendo perante mim um quadro de 50/50, optei pelo resultado que se revelou mais catastrófico. Exemplos concretos, existem e muitos. Mas eu prefiro relatar os dois que estão mais fresquinhos...

Quanto ao primeiro, estava eu a ver TV no sossego do meu lar...
Ok, esqueçam esta última parte porque no meu lar raramente há disso. A ideia mais realista que tenho de sossego entre quatro paredes é quando a gata está tão exausta de me f***r o juízo que jaz inerte, de patas voltadas e olhos abertos, ofegante como uma bomba de tirar água, a recuperar o fôlego antes de me voltar a azucrinar o juízo até ao limiar da insanidade. São esses quinze minutos diários aqueles que compõem a minha ideia de... sossego.

Mas pronto, num desses deliciosos intervalos vi um anúncio que promovia a nova cerveja Sagres Preta com sabor a chocolate.

Que imensa idiotice, pensei eu.

Que brutal atrocidade, reflecti.

QUE BESTIAL MARAVILHA QUE TENHO DE SABOREAR O QUANTO ANTES, concluí!!!

Pois é, na verdade eu sou como as avestruzes. Adoro coisas brilhantes e raras são as vezes que não vou lá meter o bico. Além disso, há quem diga que entre mim e os apalermados passarocos, o cérebrozinho é de tamanho idêntico. E às pessoas que dizem isso está prometida uma bicada nos cornos.

Adiante...
Depois do momento divino em que visualizei a publicidade à cerveja, contaram-se pelos dedos de uma mão os segundos que demorei a sorver às goladas o misterioso néctar.

Foi logo na próxima sessão de compras semanal com a minha mulher, já estávamos nós na caixa a meter as mercearias nos sacos quando me lembrei do importante item em falta e dei uma corrida até aos escaparates das cervejas. Surgi com um pack de seis, sorridente e feliz da vida. Disse que não podia esperar muito mais para provar o tesourinho.

"Olhe que pode levar só uma garrafa... Se é só para provar...", disse a senhora da caixa, deixando fluir a voz da experiência.

" Não senhora, que depois aproveito e partilho com amigos...", disse eu, confiante da minha escolha.

...

Experimentei.

E sou agora capaz de declarar...

... com toda a legitimidade e conhecimento de causa...

... que é talvez a MIXÓRDIA MAIS MAL SABOROSA QUE JÁ ALGUMA VEZ ME PASSOU PELA TRAQUEIA!!!

...

Atenção que eu não posso comprovar em absoluto a seguinte comparação.
Mas o sabor desta beberragem será apenas comparável ao da URINA INFECTADA DE UM ALCOÓLICO DIABÉTICO!

Tem álcool... Tem um travo a cerveja... É doce... Tem um travo a chocolate... É horrível... Tem um travo a fezes...

E agora tenho aqui mais cinco garrafas destas no frigorífico sem que ninguém no seu perfeito juízo lhes queira pegar! Não vou oferecer isto a amigo nenhum porque seria o equivalente a oferecer-lhe o quisto lancetado de um morcego: é fedorento e não serve para nada. Mas, ao mesmo tempo, esta porcaria custou dinheiro e custa-me enfiá-la assim no lixo sem mais nem menos...

Enfim, cruel dilema.

Mas não tão cruel como o jantar de ontem.

Ok, agora as pessoas mais maldosas dirão "este agora pensa que, depois do que aconteceu com o Barra do Quanza, basta vir falar de restaurantes p'ró blogue para que tudo se resolva de maneira airosa e receba convites simpáticos para jantar à pala"...

Pessoas maldosas, atentem nas minhas palavras:

EU NÃO VOLTO A ESTE RESTAURANTE NEM QUE ME SIRVAM SUSHI ENROLADO EM NOTAS DE QUINHENTOS, COM A JESSICA ALBA A MASSAJAR-ME OS PÉS COM ÓLEO JOHNSON E A CHAMAR-ME "COMANDANTE", OK?!

Nem pó!

Passou-se o seguinte: ontem, depois de um evento, fui jantar com amigos. Como éramos muitos, e estávamos na zona da Avenida da Liberdade, sugeri que fossemos ao restaurante Indian Palace no Largo do Carmo. Não que o restaurante seja nada por aí além mas era o único que estava a ver acolher um grupo tão grande assim sem marcação prévia. Portanto, fiz a minha escolha e transmiti-a aos meus camaradas, colocando assim a cabeça no cadafalso.

Lá fomos e lá entrámos. E o início até nem fazia augurar nada de muito mau... apenas dez minutos até que nos sentassem. A malta ria e partilhava, bem disposta, que já tinha apetite. A malta desconhecia aquilo para que estava guardada.

As ementas demoraram mais de meia hora a vir. À terceira vez que perguntei por elas, disse-me o indivíduo que "estavam ocupadas". Aí, eu acalmei e percebi tudo. Para quem não sabe, ser ementa não é para todos, é uma ocupação exigente. Uma vez estive junto a uma ementa durante quinze minutos e não imaginam o número de telefonemas e de mails que ela recebeu, isto enquanto fazia a contabilidade de um sujeito de Odivelas e elaborava o programa de um grupo excursionista da Amora. Portanto, constata-se por este exemplo que "ementas ocupadas" é o que p'raí mais há.

Depois de três imperiais no bucho e de parte dos sorrisos já ter abandonado as faces da malta... lá vieram meia dúzia de ementas todas ao mesmo tempo. Isto enquanto os empregados corriam literalmente para a frente e para trás como se fosse hora de ponta em Bombaim ou o final de um filme de Bollywood. Eu já não sabia se havia de escolher o jantar ou de aplaudir o espectáculo.

Mas, enfim... Escolhemos, pedimos e...

... esperámos até perto da MEIA NOITE para começar a comer.

...

Meia noite.

Das duas uma: ou o serviço é mau ou esperaram que fosse nove da noite na Índia para servir a nossa refeição. De qualquer das formas, foi importante para nós comermos ao mesmo tempo de um qualquer estofador chamado Sangita... Depois ficámos foi com jet lag.

Outra das razões do atraso devia ser o método de lavagem da loiça, porque pelo estado encardido dos pratos sou forçado a acreditar que os mesmo foram lavados no Ganges. Por isso, isto de andar sempre com sacas cheias de loiça para os aviões, p'raqui e p'rali, deve levar o seu tempo... Enfim, ca nojo.

Já a mastigar, por entre uma garfada ou outra, ainda tivemos de lutar com um tipo que queria à força vender-nos uns óculos de plástico roxo que davam luzes das hastes. Não foi tarefa fácil.
Sedentos de alimento e dada a ausência de colheres, todos raspávamos sôfregamente com os garfos as pequenas malgas de molhenga que constituía o nosso jantar.

Todos? Não.

Um dos nossos amigos resistia ainda e sempre ao invasor... Ou seja, o prato dele demorou extra-tempo a chegar e quando chegou veio com outro nome e com outros ingredientes completamente diferentes do pedido original. Marchou, tal era a fome. Mas só marchou metade porque a cena tinha mais picante do que a Cicciolina quando se orientou com o cavalo... Apenas deu para enganar a larica.

No final, como se a minha escolha de restaurante não tivesse sido já suficientemente negra ainda houve improviso e discussão porque o tal prato que não veio diziam os indianos que veio e o que veio, e que quase rebentara as gengivas do nosso amigo à base de piri-piri, ao que parece também continha borrego e era caro como cornos.

Ainda tivemos de ver o indiano apontar para o nosso amigo e gritar "BORREGO!" em plenos pulmões como se nós estivessemos a negar que ele o tivesse comido... Um insulto que poderia muito bem ter dado início a um verdadeiro conflito "a la Martim Moniz".

Apenas quando uns de nós começaram a perder a cabeça e ameaçaram pedir o livro de reclamações os ânimos serenaram e foi tudo para casa com fome mas sem ter sido demasiado roubado...

...

Enfim, "cerveja preta com chocolate" e "Indian Palace"... Duas escolhas erradas que podiam muito bem servir-me de lição mas que, sei bem, serão apenas mais duas achas para a lareira na qual arderei eternamente.

By the way, diz que dou uma bonita chama.

E que com um cházinho e uma mantinha nos joelhos, proporciono momentos muito zen.

Valha-nos isso.

Saturday, March 12, 2011

Com jeito vai...

Hoje foi um dia especial.

Estive presente na manifestação da "geração à rasca", que levou vários milhares de pessoas a inundarem as principais ruas da cidade e do país. Segundo os manifestantes, só em Lisboa estiveram cerca de 300 mil. Segundo certos meios de comunicação estiveram entre 100 e 200 mil. Já a PSP diz que estiveram 3 ou 4. E uma era coxa. Portanto, o mais sensato é apontar para o meio termo.

O povo saiu à rua num dia assim. E, mais uma vez, quem anda de autocarro sabe do que falo, o povo não tomou duche de manhã.

De qualquer maneira foi bonito de ver, malta mais e menos informada a marcar presença num protesto que se quer o primeiro de muitos, verbalizando a insatisfação perante a pouca vergonha que por aí se passa, os constantes abusos a um povo, mais do que uma geração um povo, que é pacífico por natureza mas que não pode NUNCA tornar-se apático. Por tudo isto foi importante ver a malta que achou bem dedicar uma tarde de Sábado a algo mais do que ao seu próprio umbigo, não só por si mas também pelos outros. O povo pode cheirar a morto mas está bem vivo!

Por falar em cheiros, de boa qualidade o incenso que pairava no ar por aquelas paragens, hem? Não chegou para trazer um clima verdadeiramente zen à Avenida da Liberdade, pelo menos para mim, mas valeu a intenção.

Bom, o ajuntamento, como era sabido, começou às 15h na Rotunda do Marquês do Pombal. Estava tanta gente que por momentos pensei que o Benfica tinha voltado a ganhar o campeonato e que lá ia o marquês levar com um cachecol enfaixado na peruca. Mas depois concluí que se assim tivesse sido estariam mais do dobro das pessoas. E é assim que deve ser.

Depois, olhei para o céu e avistei um helicóptero que nos rodeava. Por momentos senti-me grato por estar em Portugal e não na Líbia a comer com um balázio na testa. Geração à rasca é de facto chato mas afigura-se-me que ostentar um buraco no crânio também tem as suas desvantagens. Adiante...

Os "Homens da Luta", personagens humorísticas interpretadas por Jel e irmão, lá estavam em pleno espectáculo. Não posso dizer que seja fã do Jel, pelo menos daquilo que conheço do seu trabalho, mas na variedade de estilos e figuras que encarnou esta deve ser aquela à qual acho mais piada. É uma caricatura, um cliché do revolucionário "tuga" inspirado em figuras do passado, um boneco que se quer fazer ouvir, quer fazer valer o direito à liberdade de expressão mas sem grande mensagem. Muito bem construído e na melhor altura, diga-se.

E eu até acho bem que eles tenham ganho o Festival da Canção, embora não me ocorra agora nada menos importante do que isso. Há quem tenha feito petições para impedir estes "palhaços" de irem para o estrangeiro envergonhar Portugal. E isto eu até compreendo. Os estrangeiros que ficaram tão bem impressionados com os nossos Rui Bandeira, Dina, Luciana Abreu e indivíduo de quem já ninguém se lembra, Tó Cruz, só para citar alguns nomes, agora devem "virar o boneco" quando virem este circo a invadir a Eurovisão.

No entanto, o povo gosta de desvirtuar.
É isso e jogar à batota ou mastigar com a boca aberta.
Mas quando não está a fazer isso está a desvirtuar.
Aquilo que deveria ser apenas um número cómico está a tornar-se no próprio conceito da tal "geração à rasca", o hino que move esta multidão. E isso é mesmo muito preocupante.

"QUEREMOS CERVEJA E TREMOÇOS" não é mensagem, caros amigos.

"MÃE, ESTOU À RASCA PORQUE O PAI SÓ ME DEU 10€" é parvoíce, companheiros.

"QUEM NÃO SALTA É DO GOVERNO" também não faz muito sentido, compinchas.

Os "Homens da Luta" dizem que "Luta é Alegria", e aquilo que devia começar e acabar no sketch cómico acaba por ser assumido como verdade para parte dos jovens manifestantes. Para mim, não é nada disso. Para mim, luta é alegria quando já se conseguiram vitórias, quando há algo para festejar. Neste momento, a luta é desespero, é frustração e é a esperança que começa a faltar. Neste momento, fazer da luta alegria é aparvalhar... e é retirar credibilidade a um momento muito sério que tem obrigatoriamente de ser de viragem.

Mas claro que é sempre importante sorrir. E para isso muito contribui sempre o alegre cortejo dos skinheads, uma simpatia para quem com eles priva e uma lufada de ar fresco em qualquer festa. Chegam, agitam as suas bandeiras, cantam o hino alegremente e lá vão eles espalhar a "boa nova" para outras paragens. Bem hajam, abençoados.

E é a aturar a estupidez/ignorância de uns e a apoiar a vontade/determinação de outros que chegamos à Praça dos Restauradores. Entre a multidão reparo num cartaz que jura "saudade" a Staline, a quem carinhosamente apelida de "Zé". Um Zé que, na História, é directamente responsável pela morte de milhões de seres humanos, entre torturas e coisas piores... pode ser um pormenor mas, não me lixem, é um pormenor relevante.

Isto leva-me a pensar na clara apetência que os portugueses têm pelos bandidos. É cá uma paixão que lhes temos, que até faz "borboletas no estômago". Então diz que na (re)tomada de posse do Presidente da República lá esteve o Valentim Loureiro e o Isaltino Morais. Tudo boa gente. Ah e parece que os Irmãos Metralha, o Hannibal Lecter e o Darth Vader também foram convidados mas já tinham outros compromissos relativos à criminalidade. Fica para a próxima, de certeza.

Nos Restauradores avistam-se também alguns burgueses que apreciam o espectáculo das varandas dos hotéis. Sei bem que a sua vontade era ir buscar potes de azeite a ferver e derramá-los sobre a plebe, como nos bons velhos tempos, mas fico grato que tenham abdicado desse "direito". É que o azeite a ferver é uma chatice para tirar da roupa, são nódoas que não saem nem por nada, e eu detesto ver a minha mulher a esfregar-me o casaco pela tarde fora.

No Rossio, acabam então as "festividades". O Falâncio toca os últimos acordes na viola, a freakalhada dá os últimos goles nas litrosas e um indivíduo idoso efectua uma dança de acasalamento perante a vendedora de uma loja de pronto-a-vestir. Portugal é isto, não vale a pena negar.

Mas uma vez mais repito: esteve lá muita gente e isso é animador.
Para a semana há nova manifestação, desta vez organizada pela CGTP, mais ou menos pelas mesmas razões. Agora é ver quem vai voltar a ir e quem vai usar a desculpa de que como já foi hoje ganhou o direito de voltar a dedicar-se ao umbigo. É que mexer com as coisas exige empenho, dedicação, não é picar o ponto uma vez e achar que se ganhou alguma espécie de status.

Agora vou dormir, que hoje inalei mais incenso do que um hindu em hora de ponta.

Wednesday, February 23, 2011

Até que a morte os separe

Bom, já não vale a pena tentar ocultar por muito mais tempo aquilo que é evidente.

A minha gata arranjou namorado.

Sei que poucas coisas na vida me prepararam para isto, mais dia menos dia vou ter de a chamar à parte para termos "a conversa", mas pai é pai e eu só tenho de dar o meu melhor nessa matéria. Bem vistas as coisas, este relacionamento só me causa verdadeiro transtorno por volta das 6h30 da manhã, quando a bicha decide vir agredir-me os tímpanos à base de guinchadeira, para que lhe abra a porta da marquise e a deixe ir para junto do seu amor. Então, o que acontece é que eu me levanto com o aspecto e a disposição de um ogre ressacado, tento fazê-la parar de chiar com um ou dois biqueiros bem aviados, e quando dou por mim minutos mais tarde aos patardões à mobília, lá lhe faço a vontade e depois volto p'rá cama. É que esta brincadeira ainda aleija.

Portanto, posto isto não mais ouço o vil felino até à hora de me levantar para ir para o trabalho. É remédio santo.
Ela sobe para um escadote que está junto à parede e fica especada a olhar para o vidro que separa a marquise do prédio ao lado. Um vidro fosco, mas que antecipa a silhueta do seu mais que tudo.

E eu nem me importaria assim tanto se a sua paixão não fosse...

... na realidade...

...

...

UM POMBO MORTO!!!

...

...

Isto, tal qual.

Vamos lá esclarecer uma coisa antes demais: eu odeio pombos. De morte.
E atenção que este indivíduo, sendo pombo, até apresenta uma característica que eu valorizo neste tipo de passaredo. Que é estar morto.
Mas confesso que desejava melhor para a minha gata, uma relação que lhe perspectivasse um futuro e que, acima de tudo, não lhe obrigasse a andar com o tão desagradável odor a cadáver no pêlo.

Indiferente a este aspecto, TODO o tempo livre que a bicha tem é para ser passado de maneira inerte e lânguida a olhar para a desgraçada silhueta por detrás do vidro fosco. E isto é quando tem acesso à marquise. Quando não tem, prefere azucrinar-me o juízo deixando bem explícito que não está onde queria estar. Ou seja, a olhar para um estúpido pombo morto que, sejamos sinceros, não vai a lado nenhum.

Eu não percebo a malta nova de hoje em dia.
E também não percebo como é que alguém, por mais idiota que pareça ou por mais pontiagudas que sejam as suas orelhas, pode achar piada a pombos... É que das garras nojentas à ponta do bico, passando pela penugem encardida e à extraordinária expressão de atraso mental no olhar, estes bichos não trazem nada de alegre ou positivo à minha existência. Absolutamente ZERO.

E eu até acredito que hajam pombos a falar mal de mim também.
Mentira, não acredito nada nisto porque os pombos não falam.
De qualquer maneira, eles podem também não simpatizar comigo e por isso não me importava se entre nós houvesse um ou dois oceanos de distância.

Não vou chegar ao ponto de dizer que gostava de eliminar toda esta espécie da face da Terra. Acredito que este género de passarada sirva para alguma coisa, que tenha um qualquer importante papel no mundo como servir de acendalha para as lareiras ou de chop suey de frango nos restaurantes chineses, mas por favor que assim seja o mais longe de mim possível. Estaria até disposto, caso surgisse um projecto sério e com viabilidade, a permitir que substituissem todos estes animais na zona da grande Lisboa por cascavéis e víboras. Não me importava nada de estar a tomar café numa esplanada da Baixa e a sacudir cobras das calças ao mesmo tempo... Era um preço justo a pagar para correr com os imbecis pombos. O único problema seriam os idosos. Em vez de atirarem milho teriam de começar a arremessar ratinhos vivos nos jardins públicos, o que seria bizarro e, porque não dizê-lo, repugnante. Isto embora seja esta mais uma prova da má onda que é a pombaria. Apenas os efeitos regressivos e atordoantes da senilidade conseguem fazer com que um ser humano nutra algum afecto por eles. Portanto, estão a ver as peças...

E a minha gata perdida de amores por um destes bichos... Ainda por cima um que já bateu a bota há uns dias valentes! Haja estômago e paciência para aturar isto, senhores.

Ainda por cima o buraco fétido e imundo que este palerma escolheu para falecer... Não lembra ao diabo!
É nada mais nada menos que um espacinho minúsculo, de uns 2m por 20cm, que separa o prédio onde estou a viver da habitação ao lado. Um espaço que não serve para nada, mas que a existir estava-se bem de ver que era um convite à pombaria para fazer o seu pior. Em pouco tempo essa "miniatura de corredor" foi palco de defecação, camarata nocturna e leito de truca-truca para dezenas e dezenas de pombos. E este tipo de actividade, com o passar do tempo, gerou uma camada de caca, penas e sei lá mais o quê que nem quero imaginar, em cima da qual, estilo cereja no topo do bolo, foi assentar aquele que parecer ser o noivo da minha gata.

Bonito serviço.

É com este ramalhete de maravilhas que tenho de lidar no dia-a-dia.

Agora, se relativamente ao namoro da bicha não há muito que eu possa fazer, que é sabido que nestas idades se um tipo proíbe é pior a emenda que o soneto, já quanto ao facto de ter o cadáver de um pombo a desfazer-se perante a minha vista a coisa muda de figura. Vou mesmo ter de tomar providências...

Amanhã encarrego a minha mulher de tratar do assunto.

Wednesday, February 16, 2011

Enfim, uma pitada de jindungo

A vida tem coisas curiosas.

Não, não estou a referir-me aos indivíduos que costumam estar atrás das dunas a topar as gajas na praia. Falo dos pequenos pormenores que fazem a diferença no dia-a-dia e que dão um toque de especiarias à vivência de um tipo. Sei que há malta que não gosta particularmente de especiarias, longe de mim estar a querer comparar a existência a caril, mas para contar o que aconteceu penso que se adequa a imagem gastronómica.

Ora, quem lê este blogue sabe que para mim "Dia dos Namorados" e "Desastre" são dois conceitos muito amigos. Tal como relatei em Fevereiro do ano passado neste post, eu quis levar a minha mulher a jantar fora, ao restaurante Barra do Quanza em Belém, e no meio da ventania, do frio glaciar e da cascata incessante de água a embater-me na tromba, fui incapaz de encontrar o sítio e acabei a fungar e a comer pizza em casa. A sorte é que na altura tinha uma garrafa de tinto disponível e ao fim de três copos cheios parecia que não havia problema nenhum e que aquilo era um programa romântico como qualquer outro.

Passado praticamente um ano, e sendo que por causa deste episódio a minha mulher só voltou a dirigir-me a palavra há três meses, grande foi a minha surpresa quando recebi um comentário neste blog em nome do tal restaurante.

Rezava o seguinte:

"Caro Amigo, tomámos conhecimento da sua odisseia de 14 de Fevereiro de 2010 e decidimos que o mínimo que podíamos fazer era convidá-lo para uma “segunda tentativa”, esta por nossa conta (desta vez coroada de êxito, esperamos) e por isso tomámos a liberdade de desde já reservar uma mesa para duas pessoas para o próximo Dia dos Namorados, esperando que aceite o nosso convite o que muito nos honraria, um abraço, José Reis."

...

Confesso que inicialmente me cheirou a moscambilha. E bem feita, por sinal.
Da mesma maneira que, há uns tempos atrás, os meus colegas se entreteram a ir à minha página de Facebook e declarar-me fã de artistas tão exóticos como Justin Bieber, Adam Lambert ou Tokyo Hotel, a minha reacção imediata foi de achar que outro qualquer terrorista estava decidido a fazer-me passar por novo "massacre de São Valentim".

Já irado e prestes a fechar o portátil com violência, decidi olhar segunda vez para o comentário e lê-lo com mais atenção. Inclusivamente reparar num post-scriptum que me indicava o número para o qual devia ligar caso aceitasse o convite. E eu assim fiz...

Senhora - Estou sim, restaurante Barra do Quanza.

Eu - Estou. Eheh (nervoso) estou a ligar porque... (gaguejo) colocaram um comentário no meu blogue... Eheheh (mais nervoso)

Senhora - ...

Eu - Por causa do Dia dos Namorados do ano passado... (a suar) É para dizer que aceito o convite e confirmo a reserva... (soluço)

Senhora - Com certeza, como se chama?

Eu - Eheheh (mais nervos) André Oliveira.

Senhora - Ah sim! O casal que não conseguiu encontrar o restaurante. Muito bem, está confirmado. Obrigado e até dia 14.

Eu - Obrigado, bom dia.

...

...

Portanto...

...

O CASAL QUE NÃO CONSEGUIU ENCONTRAR O RESTAURANTE!!!

...

Era assim que eu era conhecido.

E, custa-me dizê-lo, com toda a razão... De facto, foi exactamente isso que aconteceu.
Não o casal, mas eu. EU não consegui encontrar o restaurante! Perdi-me em Lisboa, afinal de contas apenas a cidade em que vivi toda a minha vida, e condenei a minha cara-metade a um serão espartano e a uma gripe de duas semanas. Isto era o tipo de pessoa que eu era... Mas agora algo de surpreendente tinha acontecido e era-me dada a oportunidade de fazer as pazes com o universo e corrigir o erro cometido há um ano atrás. Era então altura de assumir que, a menos que um qualquer inimigo meu, talvez o urso cujo passatempo favorito é riscar-me o carro, se tivesse dado ao trabalho de criar uma conta no blogger com o nome do restaurante, clonar o número de telefone e imitar com perfeição a voz de uma senhora para me atender, afinal o convite sempre era verdadeiro. Portanto, uma boa notícia, uma especiaria perfumada no refogado do meu dia, e uma irrecusável chance de redenção.

Esperei pelo dia 14 como uma criança pequena espera pelo Natal.
Ou como o Padre Frederico espera pelo toque de saída de uma escola primária.
Enfim, com excitação e gulodice.

E quando ele chegou vinha com o carimbo de qualidade do dia homónimo do ano passado: escuro e com um temporal a cavalo. Maravilha, pensei eu. Os fantasmas do passado voltavam para me assombrar. Mas eu não conseguiria continuar a viver se não os exorcizasse de vez. E isso por uma variedade de razões:

1.
Eu próprio levaria o carro dispensando assim um qualquer seboso com carteira de taxista. Portanto, EU seria o meu próprio seboso! Bem sei que à partida e para quem conhece a minha condução, este item mais parece um ponto contra do que a favor. No entanto, e até ver, o carro sempre podia tornar-se num sólido abrigo em plena intempérie, caso alguma coisa corresse mal. E o risco, convém dizê-lo, era elevado.

2.
Desta vez, contaria com a ajuda do GPS. Sim, mais um objecto com uma eficácia questionável quando falamos da minha pessoa. Afinal de contas, e para quem se lembra, também no ano de 2010 sucedeu isto. Por outro lado, convém referir que eu até me entendo com a vil maquineta quando tenho um co-piloto ao meu lado. Preciso de alguém para operar o GPS e para filtrar as indicações que ele me dá. Quando isso acontece, a nossa relação já corre menos mal. Mas ainda assim longe de correr bem...

3.
Pedi à minha mulher para ir ao Google Maps e imprimir o percurso que vai do trabalho dela em Santos até ao restaurante. Eu iria lá buscá-la e seguiríamos a partir dali. O percurso impresso seria a "cereja no topo do bolo" e a garantia que nada, mas mesmo NADA, poderia falhar desta vez.


Vai daí, mal saí do trabalho a missão começou logo mal.

Parei na bomba para pôr gasolina e constatei imediatamente que a ventania conduzia a chuva de modo a que esta se me emplastrasse com violência na cabeça e nas costas. Dizem que a natureza é sábia mas comigo é sempre uma besta. São feitios...

Eu que até tinha tido o cuidado de vestir uma roupinha melhor, estava agora encharcado mesmo antes sequer de me pôr à procura do que quer que fosse... É o que se chama abrir com chave d'ouro. Sim, sentia o frio a entranhar-se-me nos ossos... Mas havia alguma maneira de eu ter a mangueira a espichar gasolina sem me submeter àquele flagelo? Não, pois não?

Ensopado que nem um pinto lá me enfiei na viatura e pus-me a caminho para ir buscar a minha mulher. Mulher essa que, quando cheguei, também me esperava, ensopada, à porta do emprego. "Isto está a correr tão bem...", pensei eu. E estava.

Depois, confesso que tremi. Uma primeira tentativa frustrada de dar com a rua do local fez-me duvidar de que toda aquela panóplia resultasse. Pior que isso, fez-me reviver todo o drama do ano passado e a eventualidade de um possível divórcio. Uma mulher, por muito paciente que seja, tem limites, e eu insisto em abusar deles todos!

Voltei para trás e tentei fazer o percurso pela segunda vez. Recapitulemos: a ideia era ir de Santos para Belém, mas do lado do rio. E foi quando dei por mim e estava a caminho de Campo de Ourique que disse para o lado:

- Sabes, às tantas nós não merecemos que nos convidem para jantar nenhum... A sério, a verdade, por muito que nos custe, é que somos estúpidos. - ainda mais perto de Campo de Ourique. - Estúpidos que dá dó! Às tantas não merecemos sequer jantar hoje...

Eu disse-lhe isto sem que ela comentasse. E ela fez-me um verdadeiro favor em abster-se, acreditem. Bem sei que se o não o tivesse feito, o chorrilho de palavrões seria tal que nem o "Dicionário Universal Jorge Jesus" lhe faria frente. Calou-se e isso de certa forma ofendeu-me. De tal maneira, que gerou em mim uma reacção intempestiva...

Enchi o peito de ar. Reprogramei a porra do GPS. Chamei a mim a ajuda divina de Santo Onofre e das ceroulas da velha do cabelo roxo e persegui o meu destino como se a minha vida dependesse disso. E pelo olhar raiado de sangue da minha mulher, vai-se a ver e até dependia...

Lá dei com o Barra do Quanza.

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(Obrigado)

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(Obrigado)

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(Pronto, já chega)

...

Caso hajam para aí mais totós como eu, convém dizer que o restaurante tem um recém-criado site que esclarece todas as dúvidas acerca da sua localização. Agora sim!

O restaurante serve um misto de comida brasileira e africana e, tal como eu suspeitava, é muito bom. Não só pelos sabores mas também por estar onde está, apesar de ter sido precisamente isso que me impediu de o conhecer mais cedo. Mas além da comida e do sítio, recomendo o Barra do Quanza também pela "boa onda" que demonstraram relativamente ao meu texto e pela simpatia com que me receberam. Não tive a oportunidade de cumprimentar o José Reis que teve a amabilidade de colocar o comentário aqui no blogue mas pude dar um "bacalhau" ao Carlos Moral, chefe cozinheiro, e de lhe dizer que estava tudo uma delícia. E não é por não ter pago, atenção. Posso não saber cozinhar mas sei devorar como poucos. E quem me conhece sabe bem que é verdade.

Pretendo lá voltar com amigos, agora que já sei onde fica, e desta vez para fazer despesa, claro. Porque uma boa "casa", um produto de qualidade e um espírito positivo é o melhor marketing que se pode fazer. Sem pretenciosismos nem caganças. Para mim, é assim um bom restaurante.

E já agora acabo este post com algo que me aconteceu há uns dias e que constitui, por si só, a antítese disto mesmo...

Fui a um outro restaurante ver o Benfica espetar dois ao Porto para a Taça de Portugal. Até aqui tudo jóia. Na ementa vi um prato chamado "Arroz de Lombinhos de Caranguejo do Alasca". Pensei para comigo "Quem é o anormal que vai pedir uma coisa destas...?". Sorri de troça. Veio o empregado. Pedi esse mesmo prato e uma imperial. E o que veio para a mesa foi arroz de marisco ordinário e insosso. Tal qual. Nem lombinhos, nem caranguejo e, escusado será dizer, nem Alasca. Assim, não me admirou que o empregado passasse o resto do serão a perguntar se eu queria mais cerveja. Pudera. Não fosse estar toldado pelo álcool e tinha-lhe enfiado um dos camarões ressequidos onde o sol não brilha...

Tuesday, January 25, 2011

Manifesto anti-suíno atrasado mental que me riscou o carro pela segunda vez

BASTA PUM BASTA!

Fosse a Terra mil vezes maior, mais os continentes, oceanos, rios e mares, e havias de arranjar maneira de ainda assim me encontrar e fazer o que fazes melhor: lixar-me a vida com F grande! Meu pulha de merda. Meu suíno atrasado mental.

Porque o fazes não sei.
Só sei que hoje ao chegar ao carro vi nova e enormíssima carrada de bosta em forma de riscalhada em cheio no capô. Eu, que há uns meses culpei o vizinho cornudo, o idoso incontinente e o violador de Telheiras de um outro risco que se exibia, e exibe, em ambas as portas do lado do condutor... Não há dúvida que estas novas evidências deixam estes desgraçados de fora da equação.

Foste tu! Sempre tu.
E não te importaste de gastar do teu deprimente e miserável vencimento para meter umas quantas gotas de combustível na tua caranguejola mecânica e apanhar a A5 para ir de Benfica a Paço d'Arcos repetir a gracinha... Que não tem gracinha nenhuma.

Não sei quem és. Mas mereces morrer.

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

Deus, até à data pouco Vos pedi.
Direi mesmo que tirando causas mais nobres como todos os prémios do euromilhões ou uma ou outra vitória do Benfica a minha comunicação convosco tem sido reduzida à absoluta nulidade. Mas hoje, jogo-me a Vossos pés, servil e humilde, para Vos implorar algo que até nem é para mim. É PARA ESTA BESTA SODOMITA QUE RESPIRA O MESMO AR QUE EU!

Fazei com que um Mandingo de dois metros comece a violá-lo hoje e acabe apenas em 2014 aquando dos Santos Populares... 24 horas por dia à bruta. Sem parar para comer nem para dormir. Fazei isso, por misericórdia.

Dai-lhe por favor uma dor de barriga tão grande, mas tão grande, que expluda e se desfaça em trampa em frente das pessoas que mais estima. E que estas levem vinte anos a conseguir tirar a merda seca da pele. Por muito que esfreguem.

Ordenai a leões, panteras e tigres que o devorem ainda vivo mas sem o auxílio de garras e dentes. Que o comam com colheres de chá. E que demorem o tempo que precisarem.

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

Eu que trabalho, que pago impostos, que me oriento.
Eu que estaciono nos lugares para isso destinados, recusando-me a barrar o caminho em cima do passeio aos mais debilitados, aos idosos, aos paralíticos.
Eu que, com a minha mulher, só tenho um carro. E estimo-o como se fosse parte da família.

E ainda assim tenho de chegar de manhã e ver aquilo que parece um grotesco e abrutalhado "4" toscamente gravado em cheio no capô?!

4 MURRAÇAS TE PREGARIA EU BEM NO ALTO DA PINHA SE TE APANHASSE, DEMÓNIO APANASCADO DOS INFERNOS!!!

4 EXTINTORES TE ENFIARIA EU NO CU E AINDA ASSIM TE OBRIGARIA A IR DAQUI A SANTIAGO DE COMPOSTELA EM PASSO DE CORRIDA!!!

4 ANOS A ARDER NUM ASSADOR DE CHOURIÇOS GIGANTE ERA O QUE MERECIAS, ENQUANTO TE BANHAVA COM ÁLCOOL ETÍLICO DE 30 EM 30 SEGUNDOS!!!

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

És o pus que brota da gangrena da Terra.

És a substância pastosa e fedorenta que sai de um umbigo mal lavado.

És a parte rija da escarreta de um tuberculoso.

És a ténia que se bamboleia no intestino de um boi.

Tu, meu animal, METES-ME NOJO!
E O QUE É DEMAIS É DEMAIS.

PÁRA DE ME RISCAR O CARRO!
Já não tem piada. Aliás, nunca teve. No humor, tal como em tudo, não vales nada.
Péssimo timming, péssimo registo, péssimas punchlines.
Tu fazes "Os Malucos do Riso" parecerem o Ricky Gervais. De tão merdoso e infeliz que és.

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

Sei que não é bonito desejar a morte de alguém. De alguém que não sejas tu.
Desejo do fundo do coração que faleças em circunstâncias mesmo muito violentas. Tu, os teus familiares, os teus amigos e toda a gente que te conheça ou que já se tenha cruzado contigo na rua.

Isto excepto eu, os meus familiares e os meus amigos, é claro.

E de bom grado traçaria também eu um risco em todas as gerações que te antecederam, vil e asquerosa lontra! Eliminá-los-ia até aos dinossauros se preciso fosse. E era com alegria que enterraria os caninos na célula que originou a tua pérfida linhagem.

QUERO TANTO QUE MORRAS!!!

E ainda assim, mesmo sendo tu o peido bafiento da Humanidade, há quem te faça o jantar. E quem te cosa as meias. E quem te corte o cabelo.
Que morram também, afogados em enxofre!

E para que saibas, besta quadrada, inimigo declarado, cão pestilento e leproso, estarei com atenção às tuas movimentações. Descobrirei quem és nem que por isso perca casa, emprego e mulher. Porque não se testam os limites de um homem como tu o fizeste. Não se deixam assim centenas de euros para pagar sem ao mesmo tempo assinar um duelo que, da minha parte, será até à morte... CUSTA SABER NÃO CUSTA, COBARDE?!

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

És valente no escuro de uma rua à noite não és, espécie de morcego mongolóide?!

Riscas-me o carro e vais para casa dormir. Sem crises de consciência. Sem problemas de maior. Vais dormir, simplesmente.

Oh que alegria me daria lançar sobre a tua cama uma chuva de napalm. Ver-te a correr em chamas, tu, a tua mulher e os teus filhos, e apagar-vos as chamas do corpo num acto piedoso. PARA VOS PEGAR FOGO OUTRA VEZ COM AINDA MAIS INTENSIDADE!!!

Hei-de tocar concertina e fazer sapateado em cima da tua campa enquanto declamo estrofes ordinárias insultando a tua mãe.

Hei-de comer o cerebelo dos teus filhos enquanto brindo com um belo Chianti, ao som de Miles Davis.

Hei-de servir o teu cão recheado com nêsperas, ainda vivo e a respirar, a uma família de etíopes famintos.

Hei-de odiar-te até ao fim dos meus dias.
E só espero que a energia de todo este ódio te cause para já e pelo menos, um fulminante AVC.

MORRA O PORCO MORRA! PIM!

Thursday, January 20, 2011

Os animais são más pessoas

Encontro-me neste preciso momento a escrever no meu portátil, enfiadinho na cama porque apanhei p'raí uma carraspana exótica difícil de identificar. Na dúvida, chamo-lhe virose. Um velho truque que os médicos utilizam quando não sabem o que é que um gajo tem. Ou dizem que não tem nada e arriscam-se a levar com um processo se o indivíduo patinar ou dizem que é uma virose e aconteça o que acontecer estão safos. Malta esperta, os médicos.

Mas não é disso que quero falar hoje...

Enquanto procuro equilibrar o computador no colo, fazendo com que a máxima percentagem do meu corpo esteja debaixo das cobertas e a apanhar o tradicional e muito terapêutico "quente", a minha gata está aos gritos e às cabeçadas à mobília do hall de entrada.

Porquê?
Porque sim.
Porque pode.

Claro que podia ter algum respeito pela minha condição enferma, assim como podia respeitar o meu sono e o da minha cara metade quando decide acordar-nos todo o santo dia de manhã com miados e lamúrias. A minha gata parece-me uma daquelas ciganas romenas que não larga as pessoas nem por nada, cheia de pieguices, a pedir esmola. A diferença é que a minha gata não pede esmola, ela não quer saber disso. Na verdade não quer nada. A não ser chatear.

Eu gosto de bichos mas desconfio que eles não vão muito com a minha cara.
Além do mais não os entendo. Invariavelmente a nossa relação acaba por seguir no caminho do absurdo, como um sketch sem piada de uns quaisquer "Malucos do Riso" finlandeses... Aprecio animais assim como aprecio as pinturas do Miró: faz-me sentir bem cá dentro mas não percebo patavina do que se está a passar.

A minha gata é apenas um dos exemplos.
Veio cá para casa como gato. Foi assim que a apresentaram e foi assim que ela se comportou nos primeiros meses. Enchia-me de orgulho. Finalmente tinha junto a mim um astuto companheiro de brincadeiras, outro macho com quem beber uma bejeca fresca ao final do dia e falar de bola. Ah e também o adereço ideal para as minhas imitações de vilão de James Bond... Mas isso já prometi que não voltaria a fazer. Pelo menos não em público.

Um belo dia vou ao veterinário e ele dá-me a notícia de que o que tinha em mãos não era na realidade um magnífico e viril exemplar macho mas sim uma fêmea com um corpo um pouco mais masculino. Uma espécie de Dina, a cantora de "Amor de Água Fresca", mas em gato. E eu tudo bem. Tal qual Nené, a antiga vedeta do Benfica que não sujava os calções, que um dia descobriu que o que tinha em casa não era bem aquilo que esperava, aceitei o que o destino me oferecia e perdoei as mentiras e os enganos protagonizados pela criatura. Perdoei mas não esqueci, claro está.

Os animais são más pessoas, a verdade é essa. Não é à toa que lhes chamam "animais"...
É que uma boa percentagem deles são umas verdadeiras bestas!

Convém não esquecer que damos cama e comida a esta ingrata de bigodes! E só não damos roupa lavada porque a quantidade de pêlo que ela produz e perde todos os dias dava para começar um negócio de mantas. Escusado será descrever as maravilhas que este isto faz pela higiene aqui do poiso...

Até porque não é só a gata que cá mora. Damos também guarida a uma coelha que, à falta de melhor termo, é aquilo que de mais semelhante conheço com o próprio anticristo.

Relembro também (peço desculpa por estar a desbobinar tanta coisa a meu favor mas é hora de dizer algumas verdades a estas duas) que fui comprar a sacana das orelhas compridas a um shopping manhoso e que ela na altura tinha mais sarna que uma prostituta em Saigão. Mas será que isso me demoveu? Não, senhores. Não é esse o tipo de pessoa que eu sou. Levei-a na mesma, ofereci-a à minha mulher e foi com muito orgulho que a vi durante meses a tratar a doença da coelha, a levá-la ao veterinário, a aplicar-lhe remédio nas chagas, a comprar-lhe os medicamentos, etc. O tipo de coisa que me devia fazer estar num pedestal aos olhos do bicho... Mas não é isso que acontece.

Odeia-me de morte.
Olha para mim de lado com um esgar de "Se te apanho a dormir, arranco-te a jugular à dentada e faço ninho no teu fígado ó filha da p**a!!!"
Eu faço que não é nada comigo mas sei bem que a única coisa que garante a minha segurança é o simples facto de ter mais de dez vezes o tamanho dela. Parecendo que não, faz diferença.

Mas ao menos a coelha tenta-me morder apenas em situações triviais como quando me chego demasiado perto da gaiola ou quando estou a tentar enfiá-la dentro de uma panela de água a ferver. Isso eu compreendo. Agora a gata devia saber melhor. Devia ter a noção que às 6:30 da manhã as pessoas estão na altura mais gostosa do soninho. Exactamente naquela fase em que faz muita diferença ter um animal aos guinchos no quarto ou a raspar com as unhas nas portas do armário. Às 6:30, fazerem-me este tipo de coisas é equivalente a servirem-me um pequeno almoço de café com leite e testículos de boi. Muito desagradável.

Confesso que já perdi a cabeça por uma vez ou outra e arremessei o chinelo contra o demónio. Sempre sem sucesso porque, no fundo, é isso mesmo que ela quer. Que eu me descontrole e passe a ser mais um a usar pijama mesmo durante o dia e a tomar as refeições por uma palhinha. Mas eu recuso-me a dar-lhe esse gostinho.

Vale a pena recuar até aos anos 90 quando, ainda em casa de meus pais, tive um pequeno peixinho cor de laranja chamado Aníbal. O peixe tinha este nome por duas razões fundamentais: primeiro porque sendo laranja fazia sentido que tivesse o primeiro nome do conhecido político do PSD, e actual Presidente da República, Cavaco Silva e segundo porque na altura eu era AINDA mais estúpido do que sou hoje. Era Aníbal, o peixinho. E rodopiava no seu aquário de balão todo o santo dia. Que mais havia para fazer ali? O comportamento obsessivo do animal não era mais do que compreensível, diga-se.

Vai daí, uma manhã, encontrei o Aníbal inerte no chão. Deitado de lado, ainda com um movimento leve de barbatanas, fazendo antever que não teria sido há muito que saltara do aquário, feito idiota, tendo ido parar às tábuas do soalho.

Grito mudo.

Pânico.

O meu Aníbal, quase morto.

O meu animal de estimação.

...

Peguei nele com jeitinho.

Icei-o do chão.

E depositei-o de novo na sua casa de vidro.

Ainda vivia, o malandro.

...

Podia ser uma bonita história com final feliz não fosse o desgraçado ter ficado com metade do corpo colada ao chão. Nesse momento, assemelhava-se muitíssimo ao vilão Two-Face, das histórias do Batman, e o seu aspecto era deveras grotesco. Do lado direito, vigoroso como sempre: olho brilhante, barbatana vivaça, escamas impecáveis. Do lado esquerdo, um cadáver autêntico: nem olho, nem barbatana, nem escamas nem nada de nada. O Aníbal era agora um ser "especial" e nem o facto de apenas conseguir nadar em 360º por só ter uma barbatana me fez desitir dele. E assim foi até ao dia em que partiu. Ou seja, o dia seguinte.

Bom, esta história de terror toda p'ra quê?
Nem eu sei bem.

Acho que era para provar que sou um tipo porreiro para os animais em geral e eles, em geral, são maus para mim. Para mim e para a grande maioria das pessoas, é importante referir. Falemos de pandas, por exemplo. Os bichos há décadas que dão a dica que não estão interessados em continuar por aqui, que estão prontos para o estágio seguinte da existência. Basicamente, desistiram de pinar. E não há um dia que passe que os chineses não vão lá espicaçar os ursos, mostrando-lhes vídeos pornográficos e citando-lhes poemas lascivos. Querem à força ter mais pandas no mundo, nem que tenham de matar todos os pandas para consegui-lo.

Curiosa a forma como os animais conseguem lixar o sistema.
E fazem-no conscientemente, não me venham com cantigas a dizer que os bichos são ingénuos e todos uns santinhos. Eles sabem o que fazem e se o fazem é porque de alguma forma o merecemos. Pelo pardieiro em que conseguimos transformar este planeta, merecemo-lo sem dúvida. Aí tenho de dizer também eu mea culpa.

E talvez por isso nem tenha ficado muito ofendido quando em plena agitação matinal arremessei a minha pantufa... E entre um ou outro flash ensonado... Penso ter visto a minha gata virar-se para mim e fazer um gesto feio com a pata.

Definitivamente, acho que estamos em guerra.

Thursday, January 6, 2011

Isto promete...

Com que então ouvi dizer que andava por aí um ano novo...
Diz que se chama 2011. E também diz que promete invadir-nos o recto tal qual um supositório XXL. Isto é o que se diz.
Assim à primeira vista, 2011 parece-me aqueles putos que ainda nem sequer falam mas já auguram vir a ser uns marginais do pior, que um gajo olha para eles e não há dúvida que aos doze anos já fizeram dois filhos à educadora de infância e um ao psicólogo da casa de correcção. O novo ano, embora ainda recém-nascido, não engana ninguém. Vai ser uma besta!

Como eu já sabia disto tudo mesmo antes de olhar para o imberbe na cara, decidi fugir para bem longe na passagem de ano. Para um local tão estranho e inóspito que nem o mais astuto dos anos me encontraria... Há que dizer que 1986 esteve lá muito perto, mas não conseguiu ir além da estação de serviço de Viseu. Isto porque se enganou e pôs gasóleo em vez de gasolina no depósito. E, como todos sabemos, a partir da década de 80, os anos passaram a andar a Sem Chumbo 95.

Bom, estupidez extrema aparte, convém desvendar desde já que decidi ir passar o fim de ano a Bragança.

Sim, a Bragança que fica no extremo norte de Portugal.

Isto porque, à falta de melhores termos, sou um erudito incorrigível, sedento por cultura, partindo em busca das mais ancestrais tradições pagãs das aldeias no acolher do novo ano. E também porque me interessava bastante encher o bandulho à grande e à transmontana. Digamos que tudo contribuiu um bocadinho, vá.

Uma das tradições da região é a chamada "Festa dos Rapazes", em que jovens solteiros saem das suas casas de garrafa de aguardente em punho, cantando e dançando, na ânsia de impressionar as mulheres. E, pensando bem, a diferença entre um grupo de "jovens solteiros" e outro de "alcoólicos exibicionistas" acaba por ser uma e só uma palavra: tradição. É que também já assisti a tradições deste género no Bairro Alto, por exemplo. E, escusado será dizer que nenhuma delas acabou bem.

Mas eu lá fui. E confesso que não foi fácil explicar a alguns amigos meus que ia fazer centenas de quilómetros para ir a uma "festa de rapazes". Mesmo dizendo que a minha mulher iria naturalmente comigo, houve olhares de soslaio que eu preferia que não tivessem acontecido. Enfim, lá fui. E convém dizer que Bragança é longe p'ra c*****o. Demora-se quase um dia inteiro a lá chegar! E eu pensava que isto só acontecia no tempo dos reis...

Alojamento? Hotel Íbis.
Sim, porque se é para festejar o fim de ano, não se olha a despesas. Só do bom e do melhor aqui p'ró campeão.

Bragança em si é interessante. E em mim acabou por ser interessante também.
Não havia muita gente na rua, apesar de não estar muito frio, o que me levou a desconfiar de um de dois cenários possíveis: ou as pessoas estavam todas na parte boa da cidade, parte essa que acabei por não ver, ou então andava tudo a fugir de mim que não faço a barba há quase um mês.
Seja como for, tive sempre a ideia de estar a explorar um cenário de um filme em que faltavam claramente os figurantes. E os poucos que havia, repetiam-se: vi o mesmo casal mais do que uma vez, o que me leva a crer que até na longa metragem que é a minha vida se começam a sentir cortes orçamentais. Os mesmos tipos que fazem de donos do restaurante onde vou almoçar são forçados a correr, colocando bigodes e fardas ao mesmo tempo, para fazerem de agentes da GNR que me irão fazer parar numa operação stop mais à frente. E provavelmente multar-me pelo vinho que me serviram há uma hora atrás. Enfim, tudo isto é muito confuso.

O jantar de fim de ano foi agradável, como são todos na companhia da minha linda mulher (uma das resoluções de ano novo, como já devem ter reparado, é convencê-la a fazer mais vezes sushi). Depois de sairmos do restaurante, às 23h, partimos em busca do local da "animação". Não havia. Quer dizer, local havia, não me interpretem mal. Haviam vários até, que Bragança não é assim tão pequena. Mas "animação" nem vê-la.

O que é que se faz quando falta meia hora para a passagem do ano e não se encontra mais de 6 pessoas juntas em lado nenhum? Vai-se para o castelo, claro está.

Na zona do castelo de Bragança, além de três pensionistas embriagados que aqueciam as mãos ao calor de uma grande fogueira, ou madeiro como lhe chamam por lá, estava também um super deprimente grupo de saloios que claramente viu pela primeira vez o passar do ano fora da casa dos pais. E se estavam bêbados, os imbecis... Pelo menos os guinchos que as moças soltavam, muralha fora, a isso apontavam. Ou era bebedeira ou era cio. E eu desejei ardentemente pela primeira hipótese.

Às 23h45 apeteceu-me urinar, não vou mentir. E na ausência de casa de banho a solução foi a muralha do castelo. Portanto, acabei 2010 como um javardo que mija para cima do património nacional e iniciei 2011 como o único indivíduo lúcido entre uma trupe de cavalgaduras bêbadas (excluindo a minha linda mulher, é claro. Eu já disse que ela é linda? Ah pois disse. Bom, mas nunca é demais repetir...)

Chegando a altura da contagem decrescente, como é óbvio cada um contou para o seu lado. Eu decidi não ligar a isso porque é certo que não há nada mais espalhafatoso que uma valente catrefada de fogo de artifício para indicar a meia noite.

4...

3...

2...

1...

PÁ (foguete)

PÁ (foguete)

...

...

...

E mais nada.

Acabou-se a festa.
Dois foguetes, xixi, cama. Foi mais ou menos esta a mensagem que Bragança quis passar.

E eu tudo bem... Como não gosto de contrariar ninguém, e muito menos uma cidade, assim fiz. Afinal de contas, havia uma suite no espanpanante Íbis a chamar por mim.

No dia seguinte, a minha linda mulher (gosto mais do sushi com abacate do que com pepino, é bom não esquecer) amanheceu a mostrar-me uma lista das aldeias envolventes e das suas tradições de fim de ano. Afinal a Festa dos Rapazes era mais na altura do Dia de Reis, coisa que muito me teria aborrecido caso eu fosse um homossexual ensandecido e sedento por privar com adolescentes ébrios de faces rosadas. Porém, como evidentemente não sou nada disso, pelo menos da última vez que olhei para o BI, essa "desfeita" foi-me completamente indiferente.

A boa notícia é que não faltavam rituais por aquelas terrinhas fora.
A má notícia é que os mais giros aconteciam nas aldeias que estavam mais longe.

Portanto, lá nos metemos no carro. Prestes a fazer oitenta quilómetros para ver tipos mascarados a fazer macacadas. Não me ocorre melhor maneira de começar o novo ano.
Quando chegámos à primeira paragem, não só não se viam macacadas como também não se via ninguém nas ruas. "Que surpresa chocante! E isto que estava a correr tão bem...", pensei eu. Ao sairmos da viatura, eu e a minha mulher ficámos em silêncio a olhar para a igreja local. Para isso e para o conta-quilómetros do nosso carro, que em dois dias tinha feito o equivalente a cinco voltas à Sibéria sem atalhos. Foi então que começámos a ouvir um som característico, o som das gaitas de foles. A festa estava a decorrer e não podia estar longe! Aquilo era tão pequeno que nada era longe. Corremos que nem loucos, de máquina fotográfica em punho, livres como crianças para ver o maravilhoso espectáculo pagão que 2011 nos reservava.

A música inebriante. Tão linda. Tão melodiosa.

Corríamos, entusiasmados.

Cada vez mais perto.

Linda, a música.

Linda, a minha mulher, a correr.

Ofegante, obeso, também eu corria.

Mais perto.

Música.

Mulher.

Obeso.

Corrida.

A festa era já ao virar da esquina.

Estávamos lá quase!!!

Virámos a esquina...

Acabou!

...

...

Foi mais ou menos isto.
Metemo-nos no carro e fomos embora.

Ainda visitámos mais uma aldeia para ver um tipo com pinta de ex-toxicodependente vestido de diabo, ou lá o que era, a bambolear-se em troca de uma ou duas moedas. Nada que não se veja em Arroios durante o ano todo, diga-se. Por isso, metemo-nos novamente no carro e voltámos para Bragança.

E foi assim, em traços muito gerais, que entrei no novo ano.
Claro que fora isto, passeei muito, comi e bebi como deve ser, partilhei momentos especiais com a minha mulher, que é linda, by the way, e fiquei a conhecer coisas que não conhecia. Escusava era de ter ido p'ra tão longe, porra! Mas agora já está, já está...

Não sei se entrei em 2011 com o pé direito se com o pé esquerdo. Seja como for, sei que devo ter entrado com ambos os pés nos pedais do carro porque pouco mais fiz no fim de semana.

Quanto aos rapazes da Festa dos Rapazes, não sei se já a organizaram ou não mas procurem não se embebedar demasiado sob pena de acordarem de manhã ao lado do Manel da Drogaria. Isso ou na cama da velha do cabelo roxo que mora no prédio onde eu trabalho... Já falei sobre ela no passado.

Afinal de contas nem toda a gente pode ter a minha sorte e acordar todos os dias ao lado de uma mulher que é linda...

E que bem que ela faz sushi!

Sunday, December 26, 2010

Então esse Natal? Lá foi...

- Então esse Natal? – pergunta-me um ou outro conhecido, ao passar por mim na rua.

- Lá foi… - respondo eu, enquanto atravesso para o passeio contrário, evitando assim o arrastar da conversa.


Não que tenha algum tipo de aversão a falar sobre a quadra. Ou mesmo que tenha aversão à quadra em si. Custa-me é participar em conversa de chacha.

Quando as pessoas perguntam “Então esse Natal” é de um “Lá foi…” que estão à espera, e não de “Fui p’ra cama à beira do vómito, com azevias até à boca do esófago!” ou “Tive um claro prejuízo no balanço das prendas recebidas e oferecidas…” ou até de “Estive a uma unha negra de arrancar a garganta de um dos meus primos à dentada”. Não que eu sinta vontade de dar uma destas respostas mas sei que pode ser a realidade para algumas pessoas.

A verdade é que ninguém é verdadeiramente sincero no “troco” que dá às questões sobre o Natal e a razão é simples: tirando aquela malta que detesta mesmo a época natalícia e que se recusa a celebrá-la, como o velhaco Gargamel dos estrunfes ou os judeus, o resto sente que dizer mal do Natal é dizer mal da família, das crianças e, acima de tudo, da paz no mundo.

Nada mais falso, diga-se. Um tipo pode perfeitamente detestar a família, desprezar as crianças e cuspir na paz no mundo e continuar a apreciar o Natal. Cada coisa é uma coisa.

Os católicos gostam do Natal porque, no fundo, estão a celebrar o aniversário de alguém que veneram. E fazem-no no conforto do lar, junto ao calor da lareira, em sossego com aqueles que lhes são importantes. Nada de “E se Jesus quer ser cá da malta...”, não é um desses aniversários. É uma festa mais íntima em que, por regra, à uma da manhã está tudo "a aquecer a água para se ir deitar" (como eu amo esta expressão...)

Depois também há quem, como eu, não seja católico mas veja no Natal uma espécie de festival temático anual, com algumas particularidades tradicionais interessantes, sabores regionais de primeira linha e músicas alegres. Claro que não podemos generalizar e achar que todos os sabores regionais feitos nesta quadra são de primeira linha ou que os milhões de cantigas natalícias aconchegam mas... Acho que me faço entender. A média acaba por ser quase sempre bastante positiva. E a média é que importa.

No entanto, há coisas no Natal que são, à falta de melhor termo, enormemente insuportáveis.
Mesmo muito!
E era um favor que me faziam se para o ano todas elas deixassem de existir.
Acho que tornaria o Natal uma época ainda mais intensa com um índice de aceitação mais próxima dos 100%, mais campanhas de solidariedade para ajudar os desgraçadinhos que fazemos questão de ignorar o resto do ano e mais gestos de carinho para com familiares a quem depois não atendemos o telefone. Tudo para o melhor, portanto.

Para dar um avançozinho aos trabalhos, que isto de limar arestas é coisa que leva algum tempo, principalmente quando falamos do Natal, deixo aqui uma lista completa daquilo que, a meu ver, deveria deixar de existir. E notem que quando digo "a meu ver" é o mesmo que não dissesse nada. Porque como vejo muito bem, quase tanto como a águia que foi despedida pelo Benfica (sempre a inovar, este glorioso), isto deixa de ser opinião. É uma lista daquilo que não devia transitar para o Natal de 2011 e mainada! Aqui vai ela:



LISTA DAS COISAS QUE SE VERIFICARAM NO NATAL DE 2010, ASSIM COMO SE VERIFICAM TODOS OS NATAIS, E QUE CONVINHA NÃO SE REPETIREM EM 2011.


1.
A MALDITA CANTIGA DO CORO DE SANTO AMARO DE OEIRAS

Aos 28 anos, penso que cheguei a um ponto em que já não consigo traduzir por palavras o tumulto interior que sinto quando ouço esta vil cantilena. Há uma ou duas expressões em swahili que estão lá muito perto, uma outra em cantonês, mas nenhuma faz real justiça...

QUE CANCRO ATROZ! Na falta de melhor foi esta...
Será que não há mais nenhuma música que crianças pequenas possam cantar para enternecer a porra dos corações?! Em dezenas de anos não houve um campeão qualquer que se chegou à frente e disse "Ehpá tudo muito bem, o Coro de Santo Amaro de Oeiras e tal, mas isto já é um bocado demais e está na hora dos putos cantarem outra coisa..." NUNCA! COMO É QUE ISTO NUNCA ACONTECEU?!

Isto para não falar no estranho que é termos visto a mesma música, a exacta mesma gravação, a ser "cantada" em playback durante anos por crianças diferentes. Os mesmos versos, a mesma voz, na boca de dezenas de miúdas diferentes, de várias formas, raças e feitios, no mais mal engendrado truque de ilusionismo de sempre. A mim não me enganam eles. Eu já cantei uma vez num karaoke e sei bem do que falo.

Não sei onde andam os miúdos originais que cantaram aquilo mas afigura-se-me que hoje serão mais velhos do que eu. E aqueles que não estão presos terão certamente na cabeça um capacete de eléctrodos...

Portanto, a minha primeira exigência está em abolirem de vez esta canção, ok? Não é preciso nada demais, apenas queimar todas as cópias já feitas, os originais e as pautas e arrancar o coração pelas costas a qualquer um que comece a trauteá-la no futuro. Se houver organização e rigor a coisa faz-se.


2.
AS CASCAS DE LARANJA NO BOLO REI

Está bem de ver como é que isto aconteceu. Uma Filipa Vá Com Deus qualquer andava toda atarefada a fazer bolos rei, uns atrás dos outros, quando sem querer despejou o balde das cascas para dentro da massa. Depois de perceber a burrada que tinha feito e de berrar alto e bom som o "Manual de Ética e de Bons Costumes dos Mangas de Alfama", concluiu que tinha apenas duas soluções: ou admitia o erro, deitava tudo para o lixo e passava o Natal a caldos Knorr por causa do prejuízo ou deixava aquilo ficar e dizia que agora se comiam cascas caramelizadas no estrangeiro.

Como esta é a frase que mais convence os portugueses... A coisa pegou. E apesar de toda a gente fazer uma careta quando mastiga o sabor acre da casca de laranja, todos continuam a comer.

Vá lá ver uma coisa...

HÁ UM NOME PARA AS CRIATURAS QUE COMEM CASCAS DE LARANJA.

E O NOME É PORCO.

Os porcos é que comem as cascas todas, os caroços e tudo mais que se atire para a pocilga. Se por baixo das cascas estiver um bolo rei também não são eles que se vão queixar.

Portanto, vamos lá fazer um resumo...

Pinhões OK

Passas OK

Fruta cristalizada OK

Cascas de Laranja NÃO

...

Portanto, a minha segunda exigência está em manterem o lixo onde ele pertence: no caixote. Deixem as iguarias na composição do bolo, sim senhor. Bolo esse que é delicioso, não há dúvida. Agora meterem-lhe cascas por cima é o mesmo que cobrirem a Soraia Chaves de vomitado. Faço-me entender?


3.
A LEOPOLDINA

Sim, eu sei que é um pouco contrasenso falar da Leopoldina e não falar da recém-criada Popota. No entanto, esta segunda tem em si um certo carácter "slutty" que me atrai bastante. E como tenho muito respeito pelas pêgas em geral prefiro dirigir o meu ódio à pássara e apenas à pássara.

Já não há paciência para a história do "mundo encantado dos brinquedos" e para as operações plásticas que a bicha faz de ano para ano. Antes parecia um frango voador com obstipação, agora parece a Angelina Jolie com cabeça de avestruz. O formato muda mas a bizarria continua. Acho mal é chatearem a Lili Caneças por parecer um boneco de cêra e nem abordarem as intervenções cirúrgicas da pássara maldita. E quem diz a Cinha Jardim diz a Leopoldina. Enfim...

"- Mas como seria possível acabarem com a Leopoldina, Saguim?! Ela é um ídolo para as crianças!" exclamam as vozes na minha cabeça, com bastante estupidez.

Uma criatura amarela com olhos esbugalhados.... Um ídolo para as crianças.
Na minha terra, quem é amarelo e tem olhos esbugalhados é toxicodependente. Não é avestruz.
E que eu saiba, ser ídolo para as crianças não é o objectivo de nenhum deles. Pelo menos não à primeira vista. Parecem-me bem mais preocupados com outras coisas.

Portanto, é para acabar sim. Só enerva! "Ah e tal comprem os brinquedos manhosos da pássara que nós damos metade para os Hospitais e fazemos o favor de ficar com a outra metade para nós... Caso seja preciso ir à bica ou assim..." Por favor, já chega!


4.
O NATAL DOS HOSPITAIS

Que é, ao contrário daquilo que muitos pensam, a principal causa de morte em Portugal Continental. O momento em que todas as enfermeiras se esquecem de dar os medicamentos aos pacientes, a altura em que se desligam todas as máquinas dos Cuidados Intensivos para alimentar a mesa de mistura da banda do Marco Paulo. Mais letal do que uma pasta de dentes chinesa.

Além disso, há também o carácter ALTAMENTE DEPRIMENTE que se encerra no nome "Natal dos Hospitais". Ok, eles estão lá fechados e muitos não voltarão a ver a luz do dia. Sabemos disso tudo. Por isso em vez de lhe chamarem literalmente aquilo que é, podiam chamar-lhe "Natal da malta com boa saúde", "Natal dos indivíduos que qualquer dia ainda vão aos Jogos Olímpicos" ou "Natal dos tipos que, saindo das cadeiras de rodas, ainda se portariam muito bem na cama com a Helena Coelho"... Enfim, só para dar umas ideias.

Agora, "Natal dos Hospitais" parece-me desadequado. No nome e no formato. Há artistas que hoje em dia só fazem aquilo, chega a ser mais importante para eles do que para os próprios doentes. É o seu Rock in Rio. E isso chega a ser mais triste do que aquele conto do Hans Christian Andersen em que uma miúda queima fósforo após fósforo até patinar no gelo (e atenção que neste caso, patinar significa mesmo morrer).

Portanto, já era altura de acabarem também com isso e devolverem a alegria à quadra. Assim como assim, ninguém se lembra que há gente nos hospitais quando se está a encher o bucho com sonhos e filhozes. A menos que se coma tanto que se tenha de ir a um. Mas isso também já não me acontece há alguns anos...


5.
GATOS NO NATAL

Deixei esta para o fim por ser a mais pessoal e também aquela que à partida pode indicar às pessoas que o meu estado mental não é o mais são. Se eu tivesse colocado este ponto no princípio, no lugar de todo o discurso coerente e muito correcto que tive até agora, dificilmente leriam até ao fim. Mas pronto, é mais ou menos isto: no Natal, os gatos deviam ir de férias para longe. Tipo Palma de Maiorca ou Lloret del Mar, como fazem os estudantes nas viagens de finalistas.

Isto porque os gatos, como é sabido, adoram os enfeites que penduramos na árvore. Adoram.
Mas adoram-nos mais no chão do que nos ramos, o que torna a convivência entre felinos e árvores de Natal quase impossível. A menos que se tomem as devidas precauções...
No ano passado eu tomei-as e não tivesse hoje quase todos os meus pertences em caixas de cartão voltaria a tomá-las.

Ouvi dizer que os gatos não gostavam do cheiro a citrinos. Vai daí, comprei um detergente com aroma a limão, preparei uma solução com água e borrifei a árvore toda. Coisa que até podia ter corrido mal porque as luzes já estavam ligadas. Mas enfim, lá a borrifei na mesma.

Não resultou. A gata continuava a violentar a árvore.

Vai daí, decidi deixar os produtos artificiais de lado e apostei na "real thing". Peguei num limão, cortei-lhe tiras de casca e pendurei-as nos ramos, como se de enfeites se tratassem.

Não resultou. A gata divertia-se a roer os ramos e a dar patadas nas bolas.

Irritei-me. Fui buscar o piri-piri e untei as pontas dos ramos. Sorriso demoníaco no rosto. Em pleno Natal.

Resultou mais ou menos. Ela apercebeu-se que roer os ramos talvez já não fosse grande ideia mas continuava a disparar grandes murraças nos enfeites.

Era preciso algo mais. Algo que a mantivesse à distância.

Pimenta. Muita.
A árvore ficou assente em pó branco. Tanto que parecia neve... E o Natal prosseguiu, mais calmo do que nunca.

Foi, porém, uma solução de recurso. Nada me garante que a minha gata não está numa dieta intensiva de especiarias, ela passa muito tempo sozinha durante o dia, preparando-se para um novo frente-a-frente com a árvore que está agora empacotada algures. De bom grado lhe pagava um fim de semana no Íbis para me poupar a tal chatice.



E é isto. Tudo o resto pode continuar, com peso e medida claro está, que não me importo.

Agora é começar a pensar no Natal do ano que vem, que a malta não se safa sem Natais.
Eu nem tirava as luzes das ruas que era para não se perder o espírito.
E admiro a postura do Sporting por estar em "modo Natal" desde o início da época.

Se não é o Sporting a dar o exemplo...

Tuesday, December 14, 2010

E agora algo completamente repugnante

No prédio onde eu trabalho mora uma senhora de idade.

Coisa que, até ver, não tem nada de mal.
Se calhar até lá mora mais do que uma, mas esta digamos que tem aquele toquezinho de bizarria e, porque não dizê-lo, de repugnância, que lhe dá bastante destaque.

Para começar tem o cabelo roxo.
O que não é assim tão original. Muitas e muitas velhotas da mesma geração decidem chocar a malta nova e levantar assim o dedo médio para o mundo. Os punks usam pulseiras com picos, a malta do rock usa calças de cabedal, os anões usam escadotes e as pensionistas, algumas, preferem expressar-se através da cabeleira. A mim não me faz confusão. Não percebo a mensagem mas também não entro em conflitos por causa disso. E se o problema fosse só este nem sequer valia a pena estarmos aqui a falar.

A idosa que vive no prédio onde labuto...

Eu já tinha percebido que a velha gostava de palheta. Não foi uma nem duas vezes que me apanhou na escada e aproveitou a oportunidade para trocar impressões acerca do estado do tempo ou de como os vizinhos são "gente que não interessa". Eu fui obrigado a concordar dado que o único vizinho que conhecia era de facto ela e ela, de facto, não me interessava. Nem ela nem o cabelo roxo que a avaliar pela solidez e pelo aspecto mate, não deve ver água há uma catrefada de meses. Mas enfim, sempre sem perder a gentileza e o sorriso amarelo na cara, a minha maneira de lidar com esta situação era passar por ela tão rápido que quase lhe fazia saltar a dentadura contra a parede, com a força do vento.

Coisa que não me impediu, ainda assim, de passar por alguns dissabores.
O primeiro, ainda conhecia mal a peça, aconteceu quando eu e um colega nos preparávamos para entrar no prédio, cruzando-nos com a velha no hall de entrada. Ofuscado pelo fedor da carapinha roxa, passei depois pela porta dela e reparei que a tinha deixado aberta. Confesso que a minha reacção inicial foi de entrar-lhe por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e depois incriminar o meu amigo. Mas como tive medo que ele me lixasse primeiro, que isto hoje não se pode confiar em ninguém, concentrei-me antes na minha segunda reacção: entrar por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e acertar-lhe com um candelabro na testa quando voltasse, para que não houvesse nada que me associasse ao sucedido. Porém, também isso ficou por fazer. Primeiro porque nasciam em mim sérias dúvidas que houvesse naquela casa ouro e pratas. Plástico talvez. Rançoso. Agora ouro e pratas, afigurava-se-me pouco provável. Depois porque com o capacete roxo, seria preciso bem mais do que um candelabro para lhe abrir um lenho fatal na tola. Assim, deixei-me estar.

E assim fiquei, a ouvir os apelos samaritanos do colega que me acompanhava, preocupado que um qualquer bandido depenasse o que havia para depenar do burgo da velha. Farto daquele choramingar, acedi a chamá-la de volta e alertá-la para o lapso. Ele lá foi e eu fiquei na escada à espera, apenas para partilhar os louros da boa acção. Quando a velha voltou, decidiu exprimir os seus melhores agradecimentos convidando-nos, a mim e a ele, para entrar e TOMAR UMA BEBIDA...

...

...

... até insistiu e tudo...

...

Vá lá ver... Não estamos a falar de nenhuma cota toda p'rá frentex e ainda p'rás curvas. Não que isso fizesse alguma diferença porque sou muito fiel à minha mulher e tudo (até porque ela lê o blogue) mas não é de todo disso que estamos a falar. Falamos sim de uma avó, que eu agradeço aos céus não ser a minha, mas ainda assim aquela que podia ser a avó de alguém.

Se queremos entrar para tomar uma bebida?!

Os dois de uma vez?!

Então e a velha não ia sair?!!!

Bom, esperei que o silêncio e o ridículo da situação recusassem o convite por mim e voltei para o trabalho. Sendo que os primeiros quinze minutos do horário laboral foram passados a esfregar as mãos com pedra-pomes e a cuspir vigorosamente para o lavatório da casa de banho de serviço.

Eu nem faço ideia do tipo de bebidas que a anciã teria para me oferecer, além do copo de água onde demolha a dentadura durante a noite, claro. De qualquer maneira para levar a dela avante comigo era bom que tivesse alguns barris de aguardente da boa, que só em coma alcóolico e com uma pipa emplastrada na nuca é que eu lhe fazia a vontade. Enfim, ele há coisas...

Passaram-se algumas semanas até que a voltasse a ver. Para isso muito contribuiu a minha faceta de roedor nocturno, fugindo vigorosamente sempre que o mais ténue ruído soava na escada do prédio. Mas não podia evitá-la para sempre. Não a ela.

Um dia, estava eu a praticar natação na piscina que também já mencionei num post anterior (pelas piores razões, diga-se), quando um camarada meu se sentiu mal e foi necessário que eu fosse buscar a carteira dele ao escritório. Nessa altura fiz aquilo que qualquer bom amigo faria: exigi o respectivo pagamento pelo serviço e lá fui acudi-lo. Quando entrei no prédio, espavorido, quem estava lá? Eu acho que vocês sabem quem.

Sorrateira como um traque num elevador, pairou sobre mim apanhando-me completamente desprevenido. Também ela queria a minha ajuda. Mas desta vez, diz que era PARA LHE ABRIR A PANELA DE PRESSÃO.

...

Eu não sei que tipo de pessoa anda à coca dos indivíduos que passam à porta para lhes pedir que "lhe abram a panela de pressão". E escrevo-o entre aspas porque para mim não é mais do que um eufemismo. Se eu tivesse acedido a ir abrir-lhe "a panela de pressão", nada me garantia que dias depois não fosse chamado a abrir-lhe "a pressão da panela" e convenhamos que tudo se iria encaminhar para a abertura da sua própria pressão. O que já seria demais para mim. Tanto que não fui capaz de recusar-lhe auxílio. Afinal de contas tratava-se de um pedido de ajuda e não de um convite ordinário, como era claramente o anterior.

Então, voltei a fazer aquilo que se esperaria de uma pessoa de bem. Pedi-lhe para esperar, fui buscar a carteira do meu amigo que estava a contar com ela, saí novamente do prédio e, com todo o altruísmo que me reconhecem, liguei ao meu colega, o mesmo da outra vez, para ir lá assistir a velha. Não gosto de faltar a ninguém e muito menos àqueles que precisam.

Ele lá foi mas parece que se fartou de tocar à porta sem que ela lha tivesse aberto. Provavelmente, desiludida com a troca, o que se compreende perfeitamente. Só que eu não chego para todas e o mundo terá de aprender a lidar com isso.

Bom, feitas as contas, ela continua aí. E estes dois episódios, apesar de perturbadores não me teriam incomodado assim tanto se, para além do cabelo roxo, a velha não ostentasse com frequência um espectacularmente encardido roupão com padrão de flores. Como aquelas toalhas de plástico para a mesa de cozinha mas para vestir.

Eu sei que ela deve pensar que fica um verdadeiro Hugh Hefner no feminino, isto partindo do princípio que o Hugh Hefner atrai de alguma forma as dezenas de badalhocas que estão sempre à volta dele, mas a única coisa que consegue com aquilo é atrair a mesma quantidade de mosquedo que um javali em Xabregas. Ok, digamos só Xabregas. Já chega para provar o meu ponto de vista.

Mete impressão, disso não há dúvidas.
Não é bonito de se ver, nem de perto nem de longe.
Os encontros entre nós parecem saídos de um filme de David Lynch mas misturados com cenas daquele tipo que aparece na televisão a dizer que sobrevive nos piores sítios e nas piores condições, enquanto come larvas e merda de elefante. Sim, tudo isso é verdade.

Mas AINDA ASSIM nada se compara com o que esta velha apresenta como bandeira, a assinalar a sua janela na fachada do prédio. Uma peça de roupa que ela insiste em pendurar regularmente na corda e que é, só por si, significativa de todo um estilo de vida.

Algo que faria a pêra do Malato assemelhar-se ao decote da Rita Pereira.

Algo que tornaria a sardanisca do inferno numa bandeja de sushi.

Algo que transformaria o Justin Bieber numa mulher a sério.

...

Falo de...

... nada mais nada menos...

... do que umas calças de pijama...

... COMPLETAMENTE CAGADAS!!!

...

Ehpá, completamente.

...

E ali à entrada do prédio para toda a gente esbarrar.
Como se não bastasse TUDO O RESTO, ainda mais isto.

Um exemplo de honestidade, convenhamos. A velha não está ali para enganar ninguém. Com um cartão de visita daqueles só se presta ao serviço quem quer. E depois não diga que ela não avisou. Ao menos neste aspecto, há que enaltecer a senhora.

Bom, eu não só não me presto ao serviço como começo a ter falta de estratégias ninja para me escapar ao confronto. Ainda não experimentei o clássico rotativo na boca "à Van Damme" mas algo me diz que se o tentasse eu me aleijaria bem mais do que ela. Assim, resta-me pegar-lhe fogo às fétidas ceroulas penduradas e esperar que o incêncio consuma o resto do covil.

O problema é que depois o incêndio alastrava-se para o edifício e eu ficava sem escritório para trabalhar...

Mas também quem é que gosta de trabalhar?

Sunday, December 5, 2010

A Sardanisca do Inferno (e outras questões muito relevantes)

Eu espero sinceramente que o mundo não acabe em 2012.

...

Digo isto não porque nutra qualquer apreço pela Humanidade mas porque, depois do período terrível de mudanças e de pré-obras em que me encontro, ver o mundo acabar pouco tempo depois seria uma tremenda desilusão. O mínimo que poderiam fazer quando isto amainasse era garantir paz no mundo, a retoma económica deste país e consequente pontapé no cu ao Sócrates e aos restantes (que só querem é poleiro), um bom poleiro para mim e o título de campeão nacional para o Benfica. Julgo que não é pedir muito depois da trabalheira que isto está a dar.

Esvaziar a casa de Benfica revelou-se um verdadeiro pesadelo.
Primeiro, empacotou-se a titânica quantidade de tralha que só eu e certos roedores da América Central conseguimos acumular. Depois, encheram-se as divisões e o corredor com estas mesmas caixas, criando um elaborado labirinto no qual a minha gata fez questão de desaparecer durante dias a fio. Na dúvida se estaria viva ou morta, dei por mim a atirar punhados de granulado para o monte de caixotins, na esperança que ela desse com o alimento e conseguisse aguentar-se por mais algumas horas. Enfim, um autêntico pardieiro.

É possível que o bovino do vizinho da seita anti-ruído tenha dado forte e feio com a cornamenta na parede, queixando-se das arrumações, mas a verdade é que nem dei por isso. Estava quase literalmente afogado em mobílias desmontadas, caixas empilhadas e muito mas muito cotão.

Entretanto as mudanças fizeram-se... nunca mais volto à casa de Benfica!
Vou até mais longe e digo que a única coisa que me vai fazer regressar àquela zona vai ser o fantástico restaurante de sushi que se houvesse justiça no mundo tinha a minha fotografia em grande na parede. É que nos últimos dois anos e meio sinto que peguei naquilo que era um reles boteco de peixe crú e transformei num dos mais requisitados "spots" no que diz respeito a cozinha japonesa. Aquilo agora está sempre cheio! E a maioria dos clientes fui eu que lá levei. Podia ficar ofendido com a falta de reconhecimento e deixar de lá ir. Mas como sempre fui mais guloso do que orgulhoso, continuo a encher a pança à base de salmãozinho que é uma beleza.

Anyway...

Um dia antes de abandonar definitivamente o santuário silencioso da Rua da Venezuela, guardado pelo cruel minotauro com penteado "à f*****e" que mora na casa ao lado, aconteceu um episódio curioso. Depois de ter estado praticamente um ano sem intercomunicador, coisa que o senhorio fazia gala em não mandar arranjar e que suscitou um espectacular abaixo assinado de todos os meus vizinhos, uma semana antes de me ir embora o bicho estava como novo.

"Está giro." - pensei eu.

Depois de meses e meses a ter de descer as escadas para abrir a porta do prédio às minhas visitas, coisa muito fashion e que se vê muito no estrangeiro nomeadamente no terceiro mundo, depois disso tudo o problema estava agora solucionado.

Na última noite passada no "cenário de guerra", eu e a minha mulher, aproveitando o desaparecimento da comida, dos utensílios de cozinha, dos nossos animais de estimação perdidos entre os escombros, e até da pachorra para cozinhar, decidimos mandar vir uma pizza.

TRRRRRRRRIMMMMMM!!! - ela chegou.

A minha mulher caminhou confiante em direcção ao intercomunicador que já se encontrava operacional.

Sorriso tranquilo no rosto.

Carregou no botão satisfeita de poder gozar o luxo que é não ter de descer em pijama para abrir a porta do prédio ao homem das pizzas. Ao frio.

O botão funcionou e a porta abriu-se.

ZZZZZZAAAAAAAAPPPPPPPPPP (para quem não sabe é o som tradicional do interruptor das portas).

Som esse que devia começar e acabar em poucos segundos não devia?

Pois devia.

Mas este começou e não acabou.

O barulho manteve-se sem parar. E era mais do que óbvio que após um ano com aquilo estragado a família saguim preparava-se para uma última gracinha...

O zunido soava a bom soar, sem interrupção. Talvez o botão estivesse colado...

Desmontei o intercomunicador. Constatei que não percebia nada de electrónica. Voltei a montar o aparelho.

E a barulheira infernal na escada...
A acusar-nos violentamente de termos feito m***a! Mas na realidade tudo o que a minha mulher fez foi carregar num botão. E tudo o que eu fiz foi abrir a boca e esperar que nela viesse aterrar uma fatia de pizza.

Deixámo-nos estar no sossego do nosso lar em pedaços. A saborear a nossa refeição.

Isto enquanto no hall do prédio soava uma chinfrineira equivalente ao recolher obrigatório num Gulag.

A dada altura, ouviu-se barulho lá em baixo. Algumas pancadas. E tudo ficou silencioso.

Convenci-me rapidamente que o vizinho do lado tinha resolvido o problema com os cornos. E, como tal, deixei-me ficar, mais confortável com a minha consciência.

No dia seguinte, em plena lufa-lufa das mudanças, a vizinha da frente cumprimentou-nos, a mim e à minha mulher, com um sorriso. Coisa nunca vista. Para uns, tal gesto poderia significar cortesia mas para mim tudo não passava da vontade cada vez mais consumada de nos ver pelas costas.

"Já viram o que aqui fizeram ontem?", perguntou ela. "Não, não.", respondemos nós. "Alguém carregou no intercomunicador e aquilo ficou a fazer barulho uma data de tempo...", disse ela. "Ah, sim?", perguntámos nós. "Sim.", respondeu ela. "E depois houve alguém que cortou aqui os fios da porta e por isso estamos sem intercomunicador outra vez.", acrescentou ela. "Parece impossível...", dissemos nós. "É um prédio de selvagens, sabe?", criticou ela. "Por isso é que nos vamos embora.", concluímos nós.

No final da conversa, a ex-vizinha ainda disse que tinha pena que saíssemos dali. Que nos achava um casal muito simpático. Observação curiosa, dado que ao longo deste tempo nos fartou de lançar grunhidos e olhares de carneiro mal morto. Mas de qualquer forma soube bem abandonar o prédio com um elogio. Isso e deixá-lo definitivamente entregue aos selvagens.

Vai daí, dois terços das coisas foram para a casa nova que ainda aguarda as obras.
E o terço final veio connosco para uma casa pertencente à minha família, em Paço d'Arcos.

Embora não esteja cá ninguém a morar, a casa mantém-se habitável e pronta para qualquer necessidade. E dado que se não viesse morar agora para aqui ou ficava a dormir em cima de pilhas de ladrilho na nova residência ou montava uma tenda debaixo do viaduto Duarte Pacheco... podemos dizer que é mesmo necessário. Isto embora seja uma solução temporária.

Na primeira noite aqui, e depois da má experiência com as pizzas ainda em Benfica, que para além de terem arruinado com o intercomunicador também arruinaram com o meu sistema digestivo pelos simples facto de "saberem mal como tudo", decidimos fazer hambúrgueres de atum.

Ao verificar que os mesmos estavam a libertar algum fumo, lembrei-me de ligar o extractor que se encontrava por cima do fogão.

RRRRRRRÁ - soou o velho aparelho enquanto cuspia um estranho projéctil contra a minha mão.

...

Pausa para compreender o que se tinha passado.

...

Nova pausa para dirigir o olhar para o tal projéctil arremessado pelo extractor.

...

Tempo agora de gritar como uma menina e sentir-me horrorizado com o sucedido.

...

O que tinha sido arremessado contra a minha mão, era nada mais nada menos do que...

...

...

... O CADÁVER RESSEQUIDO E DISFORME DE UMA SARDANISCA!!!

...

...

Sim, leram bem.

Uma espécie de Tutankamon das osgas que, prevendo o fim cada vez mais próximo, decidiu largar o peido mestre entre as pás do extractor cá de casa.
Após ter-me tocado na mão, repousava a escassos centímetros daquele que iria ser o meu jantar.

Com a ajuda de folhas de papel e à maior distância que o corpo humano consegue funcionar, lá coloquei o "freakshow" no lixo. E escusado será dizer que rezei a todos os santinhos para que a gata não fosse lá buscá-lo e vir colocar-mo de novo no colo. Isso ou aparecer-me durante a noite a roer o repugnante cadáver como se de um pretzel se tratasse.

Enfim, felizmente nenhuma destas visões aterrorizadoras se confirmou. A Sardanisca do Inferno até ver foi exorcizada e não se têm verificado problemas de maior.

Agora, até as obras na casa nova estarem prontas ainda temos muito que penar.
A Benfica desejo um futuro à sua medida, sem rancores, principalmente para aqueles que me chatearam ou me prejudicaram de alguma forma. Sem qualquer tipo de sentimentos negativos ou de prisões com o passado, lhes desejo do fundo do coração que lhes nasça um feto no cimo da cabeça e que não os deixe dormir durante a noite, cantando o repertório completo do Nelson Ned over and over again...

Quanto a Paço d'Arcos, infelizmente vai ter de levar comigo durante uns meses.
O que, sejamos francos, não é assim tão mau quanto isso.

Se formos a ver bem até há coisas piores...

E quase todas elas envolvem cadáveres secos de sardanisca.

Sunday, November 21, 2010

Darwin para Totós

Quem já leu Darwin, quem percebe alguma coisa de Evolução ou lê outra coisa que não seja a Tv Guia sabe que só existem 2 tipos de seres humanos: os Caçadores e os Recolectores.

Ora, eu nunca li Darwin nem percebo mais de Evolução do que o comum dos mortais mas achei que dava mais credibilidade à minha tese se começasse o texto desta forma.
Chamem-lhe má fé, chamem-lhe estupidez, mas de qualquer maneira está na altura de pormos as Tv Guias de lado e reflectirmos um pouco sobre esta ideia.

Caçadores e Recolectores.

Há quem diga que foi assim, no Passado. Tipo, há milhares de anos.
Eu não sou capaz de comprovar porque não era nascido. Mas o Manuel de Oliveira era e foi mais ou menos nessa altura que idealizou o "Aniki Bóbó". Só que a malta na altura era burra e não ia ao cinema.

Bom, falo em caça e em recolecção para definir a relação que as pessoas têm com os seus pertences. Os Caçadores são aqueles que quando querem alguma coisa, falemos apenas de bens essenciais à vida como uma casa para viver ou a última versão do PES para a Playstation 3, lutam, trabalham, suam e sangram para a conseguir. Porém, quando finalmente atingem o seu objectivo, desfrutam do seu pertence e quando acabam pouco se importam com o que lhe acontece. Se se perder, perdeu. Se se estragar, estragou. Se, digamos, uma gata ou uma coelha roer, roeu. E está-se assim muito bem.
Os Recolectores já são diferentes. Para conseguirem cumprir o seus desejos muitas vezes aplicam o mesmo esforço do que os Caçadores mas quando têm nas suas mãos o tão anciado prémio... Guardam-no. Protegem-no. Nunca se livram dele. E, muitas vezes. coleccionam-no.

Eu sou um Recolector.

Já fui mais, há que dizê-lo. Mas é algo que me está na massa do sangue.
A minha tendência é para agrupar objectos semelhantes, assim como fazem certos chimpanzés em laboratórios de pesquisa. Só que a mim deixaram de me dar bananas como recompensa há alguns anos. Ainda assim, achei que estava na altura de homenagear a nobre arte do coleccionismo e escrever sobre as minhas colecções de sempre.

Já não começo nenhuma colecção há muitos anos. Há quem diga que amadureci mas eu acho que é por falta de tempo. Tenho acumulado gordura na pança mas isso dificilmente será uma colecção... Quando muito é um passatempo. Mas uma colecção implica outro tipo de directrizes. Anyway, como não podia deixar de ser, e porque este blogue vive muito de rankings, aqui ficam os Tops das minhas colecções. Dividi a contagem em dois, as normais e as anormais... Porquê? Vocês vão perceber porquê.


TOP 3 DAS COLECÇÕES, DIGAMOS NORMAIS, SE É QUE ALGUMA COLECÇÃO CONSEGUE SÊ-LO, MAS PRONTO ESTAS SERÃO MAIS SOCIALMENTE ACEITES DO QUE AS OUTRAS VÁ, DO VOSSO SEMPRE AMIGO SAGUIM.


1.
SELOS

Até aqui tudo normal, parece-me.

As colecções de selos existem há séculos, muita gente como deve ser as fez e convenhamos que não deixa de ser um investimento. É que isto é coisa para valer algum dinheiro. Não organizada como eu a tenho claro... Desta maneira calculo que não sirva p'ra nada. Tenho vários álbuns, cada um relativo a um continente, onde os selos estão divididos por países e pouco mais do que isso. Estou-me nas tintas para as séries, para os anos e para o raio que parta... aquilo está orientado por temazinhos e já é uma grande coisa!

No início organizava os selos com a ajuda de uma pinça.
Mas era só para fazer vista. Para dar estilo.
Todavia, como invariavelmente esta actividade deprimente decorria na solidão do meu lar, apercebi-me que não estava a impressionar ninguém. E então reformei a pinça.

Lembro-me que o pontapé de saída para ter decidido fazer uma colecção de selos foi ter sabido que o meu avô em tempos também tinha tido uma. Só que teve de vendê-la devido a problemas financeiros. Isto porque a dele, sim, valia alguma coisa. Lembro-me que depois de me ter contado isto lhe perguntei porque não tinha tirado umas fotos dos álbuns para guardar como recordação. Ele olhou para o puto estúpido que lhe tinha feito a pergunta estúpida e limitou-se a encolher os ombros, evitando olhar para a minha cara sorridente que achava ter focado um ponto importante. Enfim...


2.
ÍMANES PARA FRIGORÍFICO / COPINHOS DE SHOT

Dois enormérrimos clichés. E, para mim, dois gigantescos potes de areia movediça...
Quando comecei a viajar pelo mundo fora, visitando paraísos exóticos como Armação de Pêra ou Badajoz, impunha-se o exercer da minha tendência para a recolecção.

E como sou um indivíduo extremamente criativo, sempre em busca de ideias "fora da caixa" (como eu adoro esta expressão), nada melhor do que começar a comprar AQUILO QUE TODA A GENTE COMPRA PARA ASSINALAR A PRESENÇA NUM LOCAL. O problema é que como já viajo há alguns anos e comecei a fazer aquilo logo na primeira viagem, agora não consigo parar. Penso que, de alguma forma, estou a faltar ao respeito ao pequeno Saguim que comprou o primeiro íman ou o primeiro copo... E se eu não gosto de faltar ao respeito a ninguém, muito menos a mim próprio!

O que é que eu faço com estas lindíssimas peças de decoração?
Os ímanes, pasmem-se, estão na porta do frigorífico. Se dúvidas houvessem que sou bimbo, basta darem um salto aqui à cozinha do menino. Os copinhos de shot que NUNCA foram, são ou serão usados, estão num armário a apanhar pó.

Agradeço a Deus que a minha mulher ainda não se lembrou de implicar com isto.
Porque se algum dia o fizer vou ter de pô-la na rua.

É que mulher tenho uma, ímanes e copinhos tenho muitos. Em termos de colecção, a segunda ganha em quantidade.


3.
CROMOS

Estes felizmente já não colecciono. É que, verdade seja dita, aquilo dava uma trabalheira dos diabos. Era o ritual de comprar carteirinhas nos quiosques, cujos donos esfregavam as mãos de contentes quando me viam aproximar arrastando um adulto cabisbaixo pela mão. É preciso dizer que, à minha conta houve muito antigo proprietário de quiosque que se deu bem na vida. O Belmiro de Azevedo, por exemplo, tinha o dele junto à Tarantela no largo da Estefânia. E hoje nem uma lembrança no Natal nem nada. Enfim, feitios.

Depois da compra das carteirinhas seguia-se o abrir das mesmas e a felicidade incontrolável quando se encontrava um ou dois que não se tinha. Os outros engrossavam o molho dos repetidos que se prendiam com um elástico. Depois ainda implicava arte e engenho na altura de colar aquilo dentro dos limites da moldura respectiva, no álbum. Apesar de fazer muita coisa mal na altura (hoje já não faço nada mal como é evidente) era um verdadeiro mestre na colagem perfeita e sem mácula de cromos em cadernetas. Agora, o que é que isso me rendeu na vida? Pouco.

Talvez por isso, porque não é por saber colar bem crominhos num quadrado que mais depressa arranjo emprego, que me deixei de coleccionar cromos. Claro que isso não invalida que tenha aqui duas ou três Simaras de cadernetas (num mundo ideal, "Simara" seria uma unidade de medida de peso) a fazer as delícias dos bichos do papel. Mas como temos de ser uns p'rós outros...


Bom, adiante...


TOP 3 DAS COLECÇÕES, COMPLETAMENTE ANORMAIS, BIZARRAS, ESTAPAFÚRDIAS E TUDO MAIS DE ESTRANHO E LYNCHEANO QUE LHE QUEIRAM CHAMAR, DO VOSSO SEMPRE AMIGO SAGUIM.


1.
POSTAIS ILUSTRADOS

Além de todos os adjectivos acima descritos, esta colecção introduz-nos também o campo do incrivelmente DEPRIMENTE.

Postais ilustrados.

Em que é que eu estava a pensar quando decidi juntar umas micas numa pastinha e guardar tudo o que se enquadrava neste universo? A menos que estivesse nesse preciso momento a ser operado ao cérebro, com uma serra a separar-me os hemisférios, julgo que não tenho desculpa alguma.

Sim, eles ainda aqui estão. Na pastinha.
Coisas tão díspares como aqueles postais com bonecos horrivelmente ordinários que se vendem no Algarve, o sempre terno Topo Gigio ou uma ilustrações foleiras de, por exemplo, o "Outono".

Nunca mostrei isto a ninguém. Ao menos aí tive juízo.
Não que a colecção seja repulsiva de alguma forma mas é mesmo MESMO muito nonsense. Não é fácil explicar às pessoas que aquele que se lembrou de iniciar tal colecção, ou seja eu em puto, não era também possuidor do QI de um rato morto. É uma cantiga difícil de engolir.


2.
PORTA-CHAVES

Apercebo-me que praticamente TODAS estas colecções foram iniciadas em criança e que eu hoje sou apenas a vítima de um horrível legado pelo meu "eu" passado... Fui claro? Basicamente gostava de voltar atrás no tempo, mandar um banano em mim próprio e berrar-me ao ouvido "PÁRA DE ACUMULAR M***A, PÁ!!!" Talvez tivesse resultado. Mas cheira-me que nunca vou ter a certeza.

Bom, os porta-chaves. Um flagelo da minha vida actual.
Quando era miúdo vi uma fantástica reportagem do Canal 1 (como lhe chamavam na altura) sobre uma tasca que tinha o tecto coberto de camarões (os parafusos, não o marisco) que penduravam uma épica colecção de porta-chaves. De todas as formas e feitios. E como os clientes da Casa de Pasto já sabiam que o dono tinha esta, digamos, deficiência, traziam-lhe sempre novos cada vez que lá iam comer. E o dono punha mais camarões e pendurava mais porta-chaves no tecto. E toda a gente achava graça. Apesar de estarem a almoçar na iminência de lhes cair um sapo Cocas no guisado.

Aquilo que hoje me repugna antes maravilhava. Achei muito boa ideia. E imaginei que seria muito lindo ter um dia o tecto da minha casa coberto de camarões e uma colecção de porta-chaves ainda maior do que aquela.

Camaradas, só para vos dar um lamiré... Vamos admitir que eu não tinha mudado nada e continuava a pensar da mesma forma. O dia em que eu abordasse esse assunto junto da minha mulher era o dia em que passaria a ser conhecido como "o Eunuco de Benfica"... E mais não digo.

Feitas as contas, tenho duas enormes caixas cheias de porta-chaves até acima e não sei o que fazer com elas. Cómico é o facto de que sempre que preciso de um porta-chaves vou comprar. Podia tirar um qualquer da caixa mas aqueles pertencem à colecção. Colecção essa que eu já não quero mas que também não vou deitar fora... Até porque muitos dos itens me foram oferecidos e vieram de outros pontos do globo terrestre. Dilema, dilema, dilema...

Há uns anos atrás apercebi-me finalmente daquele que seria um destino digno para esta colecção: a doação a um qualquer Museu do porta-chaves. Em troca de uma ala com o meu nome, claro.

Só que não há nenhum.
Parece que o Estado acha que porta-chaves e cultura não estão bem no mesmo patamar.
É por isso que o Estado é estúpido. Por isso e por mais nada.


E chegámos então àquela que é a "pièce de résistance" desta conversa toda. A colecção mais bizarra de todos os tempos, fora da prisão ou do hospital psiquiátrico.

Pede-se às pessoas mais sensíveis que fechem esta janela e abram outra com o Noddy, por exemplo. Pede-se aos bravos que decidirem ficar para desligarem o som dos telemóveis e afastarem-se de objectos cortantes. Obrigado.

Então cá vamos a isto.

3.
É MELHOR NEM PÔR TÍTULO

Quando era miúdo (outra vez!!!) passava muito tempo sozinho em casa dos meus avós. Os meus avós tinham e têm, felizmente, um terraço no último andar de um prédio. Eu passava muito tempo nesse terraço a falar sozinho e a olhar para as moscas.

As moscas pousavam no muro do terraço, a apanhar sol. Eu olhava para elas e achava que a nossa convivência podia ser levada para um outro nível. Algo mais íntimo.

Daí, comecei a olhá-las com um frasco de vidro na mão. A conceber todo um plano maquiavélico. Elas é que esfregavam as patinhas ao sol mas eu é que estava a congeminar algo terrível. Elas não faziam ideia. Eu sorria, com o frasco na mão.

Após várias tentativas capturei uma, colocando o recipiente de cabeça para baixo. Arrastei-o sem o afastar da base até ao limite do muro e coloquei a mão debaixo, a tapar.

Fui buscar álcool etílico.
Às escondidas porque, vá-se lá saber porquê, a minha avó gostava pouco que eu brincasse com álcool, ou com fósforos, ou menos ainda com as duas coisas ao mesmo tempo. Mas logo por azar era com isso que eu mais gostava de me entreter...

Coloquei um pouco de álcool no frasco. Deitei-lhe fogo. Labareda súbita. Mosca carbonizada no fundo do frasco.

Depois retirei a mosca e com o auxílio de uma velha faca, cortei-lhe a cabeça e coloquei-a num pratinho de esmalte que os meus avós tinham. Achei tanta graça à ideia que comecei a fazer disso o meu hobby de fim de tarde. E a dada altura a minha colecção de "cabecinhas de mosca num prato de esmalte" fazia já inveja a muito bom assassino em série!

...

(pausa para aplausos)

...

(outra pausa para constatar que não houveram aplausos)

...

Tenho a recordar que aquilo que hoje se acha horrendo na altura era uma forma de passar o tempo como outra qualquer. É importante não esquecer que só haviam dois canais de televisão e o Eládio Clímaco aparecia mais do que seria desejável.

Bom, mas a verdade é que eu próprio acho que aquilo não era coisa que se fizesse. Não sei onde foi parar essa minha colecção mas desconfio que a minha avó a tenha confundido com insectos mortos e a tenha deitado para o lixo. Onde pertencia, convenhamos.

De qualquer forma, e dentro desta minha veia de recolector é a única colecção verdadeiramente original. Aquela que não deve haver muito mais gente no mundo a ter uma igual. Eu pelo menos assim o espero.

Para terminar, Caçador ou Recolector? Qual o melhor, afinal?

Parece-me que acaba por ser o Caçador.
Mais limpinho, mais organizado, mais apelativo para as gajas e, acima de tudo...

... com menos cheiro a mosca morta impregnado na roupa.