Tuesday, June 28, 2011

Tudo o que você queria saber sobre camionetas... e tem vergonha de perguntar

Quem é que aqui odeia autocarros?

Quero ver mãos no ar...

Ena tantas!

São cá dos meus!

Odeio autocarros sim senhor e não tenho vergonha nenhuma de gritá-lo aos sete ventos. Aliás, já o fiz aqui mesmo neste canto internético obscuro há uns quantos anos atrás, num post bem velhinho. Na altura, apelidei-os singelamente de "carripanas de Satanás" e quem tem de andar neles todos os dias não pode deixar de dar-me razão.

Se por outro lado aparecer alguém activista das vis transportadoras de gado humano a mandar-me enfiar as opiniões onde o sol não brilha, a existência de tais criaturas faz com que possa dizer que na minha vida já vi de tudo, a par do clássico porco a andar de bicicleta.

Bom, mas não quero alongar-me demasiado sobre o assunto. Aquilo que me traz aqui hoje é algo ligeiramente diferente...

Dado este meu ódio de estimação não é senão irónico quando me vejo, por razões profissionais, a ir e vir a Beja todas as semanas de camioneta. Não que tenha sido a minha primeira escolha, a camioneta. É que fazer a viagem de carro obrigar-me-ia a passar boa parte do mês sem ter mais do que aquelas folhas velhas de alface que ficam caídas no chão dos supermercados para comer, por não sobrar qualquer dinheiro depois da gasolina e das portagens... E parece que também houve alguém genial que achou que haver comboios para Beja era coisa de finórios e que o melhor era acabar com essas mordomias do catano.

Restou-me a porra da camioneta.

Que, diga-se de passagem, é perigosamente semelhante com "aquele que não dizemos o nome".

Três horas e meia para lá, três horas e meia para cá, sete horas no final do dia... Nem interessa o que vou lá fazer, tanto sacrifício devia valer-me já a canonização e a definição de mártir. Aqui entre nós, não sei bem que benefício me trariam estes títulos ou se me ajudariam a arranjar emprego, mas com certeza não hão-de prejudicar o meu curriculum vitae. Conto é com vocês para tratarem das papeladas com o Vaticano que eu sinto muito cansaço.

Ora bem, o que tenho eu a concluir depois de quase dois meses nestas andanças?

1.
Eu não sou homem suficiente para andar de camioneta. Isto, tal qual. Nos dias de viagem, chego à rodoviária por volta das 6h30. Só para verem a estaleca deste menino. Estaleca que nada tem a ver com virilidade, diga-se. Depois de comprar o bilhete dirijo-me para o café onde bebo a primeira bica do dia. Recentemente, numa destas minhas incursões matinais à cafeína testemunhei a acção de um homem negro que, abrindo a goela como uma avestruz, espetou um copanázio de brandy no bucho mais depressa do que me levou a dizer "CUIDADO, VAI EXPLODIR!!!" Com um cartão de visita destes, tomei logo respeito às camionetas e às pessoas que as frequentam. Sei que sou apenas um estagiário nisto do "camionetismo" (está inventada a palavra) porque se me atrevesse a fazer escorregar uma pomada daquelas pela traqueia adentro assim de manhãzinha faria o caminho de volta borrando-me e largando golfadas de vómito a cada passo até à porta do veículo. Um percurso assim não seria nada honroso e condenar-me-ia a ser gozado em cada viagem.

2.
A malta olha de lado para os betinhos que gostam de sentar-se nos lugares que estão no bilhete. Fosse aquilo uma escola C+S e não uma camioneta, muito calduço havia de assentar no pescoçame de quem andasse com o papelinho na mão à procura do estofo correcto. Eu sei porque fazia isso no início até uma velha me mostrar os caninos da dentadura, rosnando em ameaça. Eu disse-lhe que era só enquanto as outras pessoas não se sentavam, por uma questão de respeito pelo próximo e para não estar a ocupar a cadeira de alguém. Mas ela começou a resmungar, dizendo que era estúpido eu querer aproximar-me a menos de meio metro de uma pessoa sendo que a camioneta ia vazia. E tinha a sua razão, o raio da velha. De facto, só um tarado gerondófilo faria tal coisa... Ou então um palerma como eu. Contive-me uns segundos mais ao seu lado, suando abundantemente da testa, à espera do momento certo para sair daquele que era afinal de contas o lugar que me estava destinado pelo bilhete e ir para um dos outros lugares vazios. Até que, ligeiro como um esquilo, ou então tão ligeiro quanto o meu corpo me permite ser, saltei do lugar e fugi sem olhar para trás, procurando ignorar um resmungar ainda mais intenso da velha morcega. Serviu-me de emenda e nunca mais me sentei no meu lugar. A isto chama-se aprender.

3.
Há malta que não sabe lidar com o enjoo. Pura e simplesmente, não sabe. Quando eu estou enjoado enterro dois dedos na garganta e trato do assunto à boa e velha maneira pirata. Não é nenhum drama nem ninguém morre por causa disso. No outro dia, a meio caminho para Beja, a camioneta parou e o condutor dirigiu-se até meio do veículo para auxiliar um passageiro em dificuldades. Era uma pensionista que estava prestes a vomitar, enjoada como uma vaca no matadouro e que, como não podia deixar de ser, aproveitava para desempenhar um longo papel dramático numa peça de sua autoria. Estivesse lá o La Féria e começava tudo a cantar e a dançar, erguendo a velha em braços de onde saltavam triunfantes a Anabela e o Carlos Quintas. Anyway... a mulher mostrava o seu mais profundo mal-estar através do balido monocórdico e inquietante:

Ai...

Ai...

Ai...

- Quer água, minha senhora? (perguntava o estúpido do motorista que devia estar a fazer a porra do seu trabalho e a levar-me para Beja de modo a poder fazer o meu)

Ai...

Ai...

Ai...

- Ela disse que ia para um funeral e que mal tinha dormido... Está mal disposta. (comentava uma velha que não conhecia a outra mas que fazia questão de relatar para todos os passageiros as conversas que tinham partilhado desde o início da viagem, por irem lado-a-lado)

Ai...

Ai...

Ai...

- Olhe eu acho bem que já não vá a funeral nenhum porque senão ainda fica lá também! (dizia a velha número dois enquanto agarrava num saco de plástico que já continha no interior o vomitado da velha número 1, e quiçá também a sua dentadura. Aqui, tive de me rir).

Ai...

Ai...

Ai...

Ai...

Tive vontade de me levantar do lugar e tirar a mulher do sofrimento apertando-lhe o gargomil. "AI AI AI O QUÊ?! PORRA! VOMITA COMO UM CÃO E MIJA COMO UM HOMEM A SEGUIR QUE EU TENHO DE IR TRABALHAR!!!" (não sei bem porque lhe gritaria tal coisa mas foi o que me ocorreu). Enfim, a velha lá se sentiu melhor e pudemos seguir viagem. Sem ser preciso aviar-lhe uma ou duas chapadas, o que acabou por ser mais simpático. Mas não ganhei para o susto.

4.
Existem camionetas melhores do que outras. De manhã costumo sempre comprar o bilhete de ida e de volta, mas como hoje por exemplo me despachei mais cedo, antecipei um pouco o regresso trocando a passagem na bilheteira. E a verdade é que acertei em cheio! A camioneta das 17h não só tem rede wireless para os passageiros como tem uma TV e até uma hospedeira.... Tipo as dos aviões. Calculo que aquelas que vão trabalhar para a Rede Expressos sejam as que chumbaram nos exames da TAP. A malta que anda de camioneta é que tem de levar com o refugo. No entanto, é engraçado ver a forma como ela fazia o seu trabalho fantasiando que estava numa aeronave. A maneira como fazia os anúncios por microfone aos passageiros, a forma como nos oferecia sandes prontas a comer, a doçura com que me pediu que baixasse o som dos meus phones... Confesso que esta não percebi. A música que estava a ouvir estava demasiado alta. Como se eu fosse um daqueles mitras com o rádio ao ombro a ouvir kizomba. Eu estava muito sossegadinho com o meu mp3 no bolso a ouvir a minha música, sem chatear ninguém e tive de baixar o som porque segundo a tipa "estava demasiado alto". Das duas uma, ou foi só p'ra me chatear (hipótese muito viável) ou então faz parte de um novo serviço de "saúde e cuidado". As hospedeiras das camionetas têm não só de se certificar que temos tudo o que precisamos para uma viagem confortável como também não avacalhamos os tímpanos com o ruído. 'Tá giro! Giro giro também era ver esta alminha ao lado do condutor da camioneta. Uma na base da carreira de hospedeira, outro no topo da carreira de motorista de camionetas. Cada um tem o que merece...


E assim tem sido a minha vida, além de tudo o resto.
Ansiando que estas conclusões me ajudem a sobreviver àquilo que ainda aí vem.

E que um dia, quem sabe, consiga o financiamento para acabar de vez com tudo aquilo que se assemelhe a um pérfido e fedorento autocarro. Eu mando mails mas não me respondem.

Sovinas...

Thursday, June 16, 2011

5 perguntinhas muito breves

Eu sei que tenho aparecido pouco neste nosso convívio... Por favor não batam mais no ceguinho, ok?

Sei também que poucas coisas vos fizeram mais felizes nas últimas semanas do que não receber os meus sempre aborrecidos mails a sugerir para aqui virem ler disparate... Enfim, lamento retirar os sorrisos relaxados das vossas faces e chamar novamente à vossa atenção para coisas que são estúpidas e não têm interesse nenhum.

Tenho andado ausente porquê?!

Precisamente pelas perguntas que marinam na minha cabeça e para as quais não encontro resposta. Isso é daquelas coisas que me tiram o sono, me roubam o cabelo (quem está perto de mim sabe do que falo... há pastagens na Etiópia mais férteis do que o meu couro cabeludo neste momento) e fazem tremelicar o olho esquerdo sempre que muda a hora. Ando cansado e com relativo stress.

E por isso, por estar tão perto da insanidade, considero mais interessante passar o dia com dois copos de iogurte enfiados nas orelhas do que vir para aqui desabafar com um ecrã de computador.

Mas dizia eu que nos últimos tempos estava a ser assombrado por perguntas, não era?
Bom, então aqui vão elas:

5 PERGUNTINHAS MUITO BREVES QUE ME ESTÃO A ROUBAR O JUÍZO

1.
Porque é que, quando eu era miúdo, não podia ver os filmes do Robocop?

Porquê?!
É que eu via os outros todos... Mais e menos violentos. Via os Seagals, os Norris, os Van Dammes, os Stallones e os Schwarzennegers da vida... Porque não o raio do Robocop?! Ainda hoje não percebo qual era o critério do meu pai (por favor explica-me!) mas o que é certo é que só recentemente vi o raio do filme e continuo sem perceber. Ok, tem violência gratuita (sem contarmos com o dinheiro gasto no DVD, claro). Ok, tem partes ordinárias. Ok, tem alguma estupidez. Mas esses três ingredientes, sejamos sinceros, FORAM só por si os anos 90... Quem é que se lembra do "Big Show Sic"? Tinha tudo isto e muito mais! O facto de me ter sido negado o visionamento dos filmes do "Robocop" tem-me tirado o sono por duas razões: porque o conteúdo dos mesmos não era em nada inferior a qualquer dos seriados da autoria do Ediberto Lima e porque é cada vez mais evidente que não me resta grande sanidade nesta bola de bilhar parcamente peluda a que chamo de cabeça.

2.
Porque é que, quando eu era miúdo, não me deixavam comer Suissinhos?

Outra...
Eu sei que como adulto deviam haver mais coisas com que me entreter. Mas só muito recentemente é que comi o meu primeiro Suissinho e isso temos de convir que é deprimente. Deprimente, sobretudo, também por duas razões: porque não há grande razão para mo terem negado no passado e porque é preciso lata e zero de amor próprio para um indivíduo da minha idade e tamanho sair do Pingo Doce com um Suissinho na mão. Vamos lá ver uma coisa: quando eu era pequeno, o conceito de alimento para mim era abrangente. Muito abrangente. Comia TUDO e DE TUDO... tendo especial cuidado para não ingerir coisas saudáveis ou que de uma certa forma me fizessem bem ao organismo. Nisso sempre fui criterioso, não vou mentir. Na altura, talvez achassem que o Suissinho era demasiado nutritivo e que, tendo eu aos 6 anos a compleição de um búfalo adulto, não precisava de mais energia e/ou gordura. Ok, respeito isso... Embora não tenha a certeza que fosse essa a verdadeira razão. Não foi fácil chegar aos 28 anos sem saber ao que sabia aquilo. Agora já sei mas continua a assombrar-me. Malditos queijos!

3.
Porque é que eu comprei uma casa há 8 meses e ainda não estou lá a morar?

Bom, esta é a questão fulcral e aquela que me está a fazer enlouquecer a passos largos. Não é do meu feitio apontar dedos e responsabilizar gente. Mas a culpa é da minha mulher! Ok, talvez não seja só dela... Acho que é um pouco de toda a gente, de todos os seres vivos do mundo que de alguma forma se perfilaram com uma estúpida conjuntura de astros e forças gravitacionais (não sei do que estou a falar mas mais vale aproveitar o embalo e terminar este raciocínio idiota) para que simplesmente não fosse possível usufruir do imóvel que vou andar a pagar até transportar uma algália quando quiser ir ao cinema. Foi o empréstimo, foi a compra, foram as obras, foram os materiais, foi tudo e mais um par de botas. E agora parece que está quase mas claro que eu já não acredito nisso... Daqui a 15 anos se for vivo, pode ser que possa começar a colocar lá os meus tarecos.

4.
Porque é que a minha gata anda feita um docinho conventual?

Esta é fácil: porque está a tomar anti-depressivos.
E confesso que nunca fui tão feliz. A paz impera.
Parece que a bicha começou a bater mal por ter saído da casa de Benfica, onde o vizinho cornudo gostava de enfiar valentes marradas na parede sempre que os decibéis subiam acima do limite estabelecido pelos mosteiros na Idade Média, e transitado para a casa onde estamos em Paço de Arcos. Ao que parece os gatos gostam pouco de mudanças e ficam stressados quando os obrigamos a conhecer um novo ambiente. Não gostar de mudanças eu compreendo, agora ficar passado dos carretos por ter abandonado Benfica onde o conceito de dar os bons dias ao vizinho era escarrar-lhe na cara e urinar-lhe na caixa de correio, já me parece um pouco absurdo. Eu tentei dar-lhe algumas sessões de psicanálise mas como sou contra bater em animais desisti quando acabei por lhe partir uma vassoura no lombo. Os anti-depressivos foram o estágio seguinte, receitados pela veterinária que, mesmo tendo uma arma apontada à cabeça, conseguiu manter a calma e apresentar uma caligrafia perceptível. Portanto, aqueles que dizem que a "letra de médico é ilegível" deviam era calar o bico.

5.
Porque é que duas das perguntas que me assombram remetem ao passado e as outras duas ao presente?

Por razão nenhuma em especial... Estou é a trabalhar demais e, embora agora esteja de férias, continuo a acordar cedo para tratar de assuntos da casa e a bulir sempre que paro. Portanto, neste momento no meu cérebro não há passado nem futuro, há é uma grande bola de cenas, tipo uma miga alentejana gigante, onde se mescla informação. Agora, como é que isto se organiza já é outro assunto completamente diferente para o qual era necessário criar um departamento próprio. Para isso e para o chinês do Futre, que o episódio não está esquecido. Mas lá iremos que isto tem de ser uma coisa de cada vez. Mais uma ou duas semanas, dizem eles, já estarei na nova morada. E depois tudo será diferente. Ou não...

Friday, May 20, 2011

O MUNDO VAI ACABAR... e eu não tenho roupa decente para vestir!

Ora então parece que hoje, dia 21 de Maio de 2011, é o Dia do Juízo Final.
Digo isto mas atenção que não é o fim do mundo... Esse vai ser uns meses depois, no dia 21 de Outubro!

O Juízo Final é só uma espécie de ordem de despejo que vamos receber do senhorio-mor (para quem é burro e não percebe metáforas, estou a falar de Deus). Senhorio esse que, escusado será dizer, está farto de ouvir o disco do Toy que pomos a tocar em altos berros às tantas da madrugada, dia após dia desde há milhares de anos. Os últimos que fizeram isso têm agora as ossadas a apanhar pó em museus como o da Lourinhã e enfeitam a maior parte das lancheiras dos miúdos do ensino primário (uma vez mais a metáfora, burros do catano, falo de dinossauros). A grande verdade é que andamos há demasiado tempo a f***r de cima abaixo este T2+1 a que chamamos Planeta Terra. E por isso não O condeno. Se fosse eu o dono disto tinha corrido com esta cambada logo na semana 1. Era ver o primeiro macaco a desenhar uma cabra em Foz Côa e levavam todos um chuto no cu dali p'ra fora por vandalismo...

Bom, quando vi na net a notícia de que hoje (mais logo, espero eu) as almas seriam julgadas e basicamente seria separado o trigo do joio, a minha reacção foi espontânea e imediata... Qualquer coisa como: "Atenção que também eu fiquei triste com o facto do Benfica ter ganho apenas uma mísera, e ranhosa se me permitem acrescentar, Taça da Liga, mas ficar tão desgostoso ao ponto de começar a apregoar o Fim dos Tempos parece-me um bocado extremo. Para o ano o Jesus compra mais cinco argentinos e a coisa resolve-se..."

No entanto, ao ler um artigo do Semanário Sol, reparei na frase inicial que rezava o seguinte: "Um movimento cristão norte-americano anunciou o 'fim do mundo' para 21 de Maio próximo, um ano e meio mais cedo do que a data 'prevista' pelo calendário maia: 21 de Dezembro de 2012 (...)"

Aqui, toda a minha perspectiva mudou de imediato.

Em primeiro lugar, se é um movimento cristão a dizer é porque é com certeza verdade.

Então norte-americano é a cereja no topo do bolo no que diz respeito a malta que não saberia mentir mesmo que quisesse. Isso e ninguém melhor do que indivíduos que acham que Portugal é um resort na Riviera Maya para dizer com exactidão uma coisa que nem o mais sábio dos sábios soube algum dia anunciar.

Mas há uma coisa que irrita no meio desta história toda. Os americanos têm sempre de ser os primeiros em tudo. Foram os primeiros a fazer de conta que foram à Lua, os primeiros a chamar desporto a um bando de bisontes com capacetes a correr agarrados a um melão e agora tiveram de roubar o protagonismo aos desgraçados dos índios (como se não bastasse todo o mal que lhes fizeram no passado) e anunciar o Fim do Mundo para um ano antes.

Além do mais é falta de consideração à minha pessoa. Ando eu a preparar-me física e psicologicamente para acabar em grande estilo em 2012, a treinar números de sapateado e a ver espectáculos do La Féria de enfiada, e agora tenho de antecipar todo um programa de festas porque os meninos querem ser eles a dizer quando é que acaba e quando é que não acaba.

Canalhas!

Ah e o dia do Juízo Final hoje também é uma rica prenda, sim senhor.
Penso que consiste num princípio muito básico: quem for crente é sugado pelos céus a grande velocidade.

...

Peço desculpa, mas não há maneira menos idiota de explicar isto.

...

As pessoas boas vão voar todas na vertical como se tivessem um míssil enfiado no rabo... E aquelas que estiverem dentro de casa suponho que, além de ficarem surpresas pelo súbito chamamento divino, também levarão com uma carrada de estuque emplastrada na testa que não será brincadeira. Mas enfim, serão salvas. E não é para isso que vivemos?

Já os outros ficarão aqui a ser julgados.
E o facto de eu quase de certeza me inserir nesse grupo deixa-me deveras inquieto.

É que a minha casa está em obras e eu tenho grande parte dos meus pertences em caixas de cartão. Significa que as minhas melhores roupas estão guardadas e não tenho nada decente para levar a tribunal. Já gente para me defender não estou minimamente preocupado, porque com o resgate das boas almas e a permanência de todas as más o que não deve faltar p'raí são juízes e advogados à procura de uma oportunidade. Agora, sem um fatinho minimamente como deve ser prefiro ficar em casa e fazer um requerimento por escrito para ser julgado noutra altura... Enfim, não me convinha nada estar com este tipo de problemas agora, francamente.

De qualquer maneira, até fico agradecido a mim próprio por pertencer à turma dos condenados. É que eu tenho um terrível problema de vertigens e se me sacassem por aí acima era bem capaz de me dar uma síncope antes de chegar às portas douradas de São Pedro. Isso ou despedir-me deste mundo de forma inglória e até vergonhosa, borrando-me vigorosamente pelos céus acima... Assim, posso ficar mal acompanhado com os outros bandalhos todos mas ao menos tenhos os pézinhos na terra.

Terminado o Juízo Final, calculo que no telejornal das 20h já saiam os primeiros resultados: quem foi, quem não foi, quem arderá no inferno eternamente, quem absolveu o Pinto da Costa... Ao menos espero que não faltem fofocas e mexericos até Outubro quando é suposto irmos todos desta p'ra melhor.

Outubro esse que, convém dizê-lo, também é um péssimo mês para acabarem com isto. Ou ao menos façam-no depois das minhas férias que são durante esse mês. Seria terrível estar a bebericar cocktails em Havana ou na Fonte da Telha e vir um indivíduo trazer-me a conta e dizer-me para pagar depressa porque o estabelecimento vai fechar e o mundo também. Não sei quanto aos outros, mas eu ando a trabalhar o ano inteiro como um cão e isto custar-me-ia muito ouvir.

Enfim, agora já não há muito a fazer...
Tinha coisas combinadas para o Natal deste ano e para Janeiro de 2012 e vou ter de desmarcar tudo por causa do raio dos fanáticos religiosos! Não há quem lhes enfie duas murraças na tromba e aplique um rotativo à Van Damme. Depois disso o Fim do Mundo já não lhes pareceria tão mau.

Quanto a mim, o que tiver de vir virá.
Pelo sim pelo não o melhor é continuar a escovar os dentes porque as cáries não são bichezas para terem medo cá de Apocalipses... O melhor é ir vivendo e ter juízo...

...

... Final!

(risos e aplausos)

Thursday, April 28, 2011

62 Considerações acerca dos últimos dias

Eu fiz parte do grosso magote de pessoas que decidiram aproveitar as mini-férias da Páscoa para ir desopilar por aí...

Primeiro porque se é para desopilar, aqui o menino desopila sempre em grande estilo. Depois porque com os FMI's a dar-nos na pá, o Benfica a levar na pá e o stress do dia-a-dia a esgotar-me a pá (não tenho bem a certeza do que isto quer dizer mas agora está dito está dito)... Estava mesmo a precisar de me pôr a milhas desta trapalhada toda.

Assim, tenho obviamente considerações a tecer acerca dos últimos dias, da viagem e não só. E vai em jeito de lista que isto tudo misturado não dá texto nenhum que se preze...

É assim...


- Faço-me à estrada logo na noite da 5ª feira, depois do trabalho. Isto enquanto parece que Deus está determinado a afogar a Terra em chuva só para se entreter.

- Cago na chuva porque me rio na cara do perigo e, sempre que posso, efectuo valentes manguitos aos maricas que decidem esperar pela manhã seguinte para fazer a viagem em segurança...

- Antes de ir, janto num restaurante ao pé de casa e, perante a incapacidade da minha mulher em comer dois dos bifes de perú da sua travessa, peço para os levar embrulhados na esperança de encontrar um cãozinho abandonado e faminto mais tarde.

- A empregada do restaurante fica claramente a pensar que os bifes são p'ra mim e que eu sou deprimente... Mas no fundo ela é que serve à mesa num restaurante manhoso e não eu.

- Sendo que vou eu a conduzir, a minha mulher acha boa ideia levar os bifes no banco de trás ao invés de os colocar na bagageira.

- O que, aliado ao facto de não podermos abrir as janelas por causa da chuva, abençoa a viagem com o sempre inebriante e agradável pivete a alho.

- O destino: Zambujeira do Mar. O condutor: eu. O que é que isto está a pedir? Sarilho, evidentemente.

- Depois de andarmos perdidos durante uma série de quilómetros, chegando a Odemira vemos a estrada cortada porque... sim.

- Se era boa ideia colocar um aviso uma meia hora atrás: ERA! Mas não era a mesma coisa porque assim não andávamos nós às voltas no Alentejo profundo de madrugada...

- Chove na Zambujeira. Não conseguimos deixar de antever os belos dias de praia que nos esperam.

- Cães abandonados e famintos nem vê-los. Deixamos os bifes na bagageira do carro e vamos dormir.

- Dilúvio até de manhã!

- Dia 2: o tempo está rafeiro mas já se aguenta melhor. A TV só tem os canais nacionais, o que me permite assistir a uma inteligente conversa entre Manuel Luís Goucha, Cinha Jardim, Lili Caneças e outra velha que nunca vi mais gorda. O ponto alto é quando esta última diz a palavra "merda" gratuitamente. O público ri e aplaude.

- Assim, depois de vomitar o pequeno almoço, faço uma visita de reconhecimento pela Zambujeira.

- Não há cães abandonados.

- Nem famintos, tão pouco.

- Ainda assim, vamos resgatar os bifes à bagageira do carro e dirigimo-nos para a zona da praia com a intenção de almoçar.

- No final da refeição, reparamos que o vinho não vem na conta.

- O meu primeiro pensamento é de que se trata de cortesia da casa, dado que sou uma celebridade.

- O meu segundo pensamento é que confundo muitas vezes o conceito de celebridade com o de palerma e, como tal, continua a não haver razão para a porra do vinho não estar na conta.

- Porque inegavelmente sou um palerma, alerto para o lapso.

- Pedem-me desculpas (?????) e acrescentam o valor à conta.

- Pago e vou-me embora. Com o almoço a bailar-me no estômago ainda por causa do programa da manhã da TVI...

- Uns metros à frente a minha mulher apercebe-se que deixou os bifes embrulhados na mesa do restaurante.

- Dá-me um valente chilique derivado da vergonha e, entre guinchos animalescos e espasmos musculares, fujo para longe.

- Portanto, o que se passou foi o seguinte: não só chamei à atenção por não ter pago o suficiente como ainda lhes deixei dois bifes para abater na despesa. No que toca a restaurantes, sou um cliente de sonho.

- Mesmo não estando tempo para isso, vamos até à praia e deitamo-nos na areia.

- Para saltar dali minutos mais tarde porque começa a chover outra vez.

- No entanto, o breve contacto entre os nossos casacos e a areia húmida é o suficiente para os deixar para o resto das férias com o fétido aroma a urina de qualquer ser que não o humano.

- Coisa que não contribui para a nossa popularidade nos restantes dias.

- À noite, vejo pela primeira vez o "Portugal tem Talento" e logo a grande final.

- Bárbara Guimarães entra em palco mascarada de Lady Gaga e participa numa interessante e exótica coreografia.

- Quanto a isto, dois aspectos: a mulher apresenta sinais inquestionáveis de insanidade e alguém lhe devia dizer que fazer playback com a boca p'ró lado não é sexy... é sinal de que se teve um AVC.

- Dilúvio até de manhã!

- Apercebo-me que o filho mais velho da falecida princesa Diana se vai casar porque não se fala de outra coisa na TV.

- Constato que o puto tem melhor gosto para as mulheres do que o pai, que por livre e espontânea vontade entregou o coração a um estafermo que parece ter apanhado com uma betoneira em cheio no trombil.

- Lembro-me que o Carlos e a Diana eram um casal intrigante. Ela confessou tê-lo traído com alguns tipos, nomeadamente militares. Ele enganou-a repetidas vezes com aquele aborto mal parido de ogre e, mais tarde e já viúvo, até casou com a criatura.

- Portanto, na minha maneira de ver as coisas, há um nome para cada um. Princesa Diana: adúltera. Príncipe Carlos: maluco dos cornos!

- Mas pronto, o filho agora, e apesar de estar a ficar careca, diz que vai casar-se muito em breve. E parece que um dos enviados especiais da TVI a Londres para fazer a cobertura do acontecimento vai ser Manuel Luís Goucha.

- A TVI arrisca-se assim a nunca mais poder pisar solo inglês... Mas admiro a iniciativa e a coragem.

- Além de boa televisão, os dias que se seguem trazem também boa comida.

- Falo de migas com entrecosto, salada de polvo, choquinhos fritos e feijoada de búzios.

- Falo também do bom e velho Guronsan para ajudar a digerir estas zurrapas.

- O Benfica ganha a Taça da Liga o que, para ser sincero, não me faz assim grande diferença. É só mais um tareco para eles lá terem a apanhar pó. E ainda por cima a taça é preta, onde se nota ainda mais a sujidade.

- Se fosse eu, quando fosse jantar depois do jogo deixava-a no restaurante como deixei os bifes. Sempre era menos uma coisa a empatar.

- Sei que estou a ser mau, que é sempre melhor ganhar do que perder. Mas depois do desaire na Taça de Portugal permitam-me o direito à crueldade.

- Os díluvios amainam... No dia do regresso está um maravilhoso sol de Verão.

- Fico emocionado pela forma engalanada como a vila decide despedir-se de mim. Tanto que me apetece lá detonar uma bomba como agradecimento.

- Tenho ainda tempo de ver a actriz Guida Maria a interromper uma das suas peças dedicadas à vagina e a deslocar-se a um estúdio de televisão para comentar a actualidade.

- Constato pela primeira vez que prefiro ver uma mulher de 50 anos a falar de orgãos sexuais do que a exprimir opiniões...

- Aparentemente quando não está a falar com ou de vaginas, Guida Maria está a dizer merda.

- Estava consternada por ver tanta gente a ir de férias, a rumar ao Sul, em tempos de crise. "Parece que a crise afinal é só em minha casa", exclamava ela em tom esganiçado.

- Melhor seria se as pessoas ficassem todas em casa a contar os tostões, não gastassem dinheiro nenhum e a nossa economia estagnasse... Isso é que era de valor.

- Mas no fundo sou obrigado a concordar com ela. Este ponto de vista prova que há de facto uma crise intelectual que reina em sua casa... Já vaginas há com fartura e ainda bem, que o bom teatro não vive sem elas.

- Ainda cedo, para não apanhar trânsito, o regresso...

- É a vez da minha mulher assumir o volante. Tudo corre bem até passarmos por alguns campos de pasto onde se encontram vacas.

- A minha mulher adora bichos. Fica embevecida a olhar p'ra eles...

- P'ra eles e não p'rá estrada, onde se dirige a grande velocidade na direcção de um veículo parado.

- Berro como se estivesse a dar à luz.

- Os meus olhos do tamanho de pratos de sobremesa.

- Ela apercebe-se a tempo de evitar o nosso falecimento.

- E é encharcado em urina que regresso a casa duas horas e picos depois.


FIM

Monday, April 11, 2011

Eu por outros lados


Então não é que em amena passeata pelo mundo da internet fui dar com um boneco da autoria da minha amiga ilustradora e muito talentosa artista Mariana Perry, a partir do meu último texto "Eu por cá"?

Bem verdade, sim senhor. Muito lhe agradeço a gentileza.

Retribuo com um elogio ('Tá do catano, Mariana!) e com alguma publicidade ao seu excelente trabalho. Checkem o seu blogue de ilustração, o de BD e o Behance. É do melhor!

Saturday, April 9, 2011

Eu por cá

Enquanto escrevo estas linhas o meu amor está provavelmente a passar momentos inolvidáveis de diversão infantil na Eurodisney...

Sim, aquela que fica em Paris de França.
Na empresa onde ela trabalha acharam que era boa ideia comemorar o aniversário levando toda a gente para lá... E, até aí, estou plenamente de acordo. Acho que é de valor.

Só que às vezes bate aquela saudade...
Parece que foi ontem que a senti partir de madrugada para esse pássaro alado com penugem de metal a quem as pessoas civilizadas chamam de avião. E sim, parabéns àqueles que detectaram a piada fácil, foi mesmo ontem.

No meu coração parece que foi há mais tempo, tal é o sentimento que nutro por esta mulher.
Em momentos como este apetece-me encher o peito de ar, correr como doido até à janela aqui de casa, abri-la com um empurrão animalesco e gritar a plenos pulmões:

- O QUE É QUE EU COMO?!

...

...

É, que... E, por favor, não me interpretem mal que eu não sou nada machista... Sou é muito pouco hábil no que diz respeito à nobre arte da culinária. É certo que já fui mais esforçado no passado, não vou negar isso, mas a minha tendência natural para a trapalhice numa actividade que incide num sentido tão picuinhas como o paladar, esta minha coordenação motora digna de um cabeçudo do Carnaval de Torres revela-se um verdadeiro desastre. Relembro com algum saudosismo os telefonemas que fazia à minha avó na busca abnegada por receitas, dicas, qualquer coisa que me fizesse mostrar a porra de um lado sensível à minha mulher e assim convencê-la a ficar comigo!!!

Mas as coisas nem sempre corriam bem... Aliás, raramente...
Uma das vezes, a minha querida avó ensinou-me via telefone a fazer bifes marinados em vinho tinto. E eu, bruto que nem uma bigorna de vinte toneladas, lá fui à garrafeira de casa dos meus pais e fiz tal e qual ela me tinha instruído. Apenas na altura em que a minha cara-metade se queixou que os bifes tinham um sabor estranho eu comecei a desconfiar de que algo de errado se passava com eles.

Na verdade, não tinham um sabor nada estranho... Se esse sabor pertencesse a um torrão de Alicante encharcado em caramelo!

Estavam doces como tudo.
E o mistério foi rapidamente solucionado quando percebi que não tinha sido com vinho que tinha marinado o raio dos bifes... mas sim com jeropiga.

O resultado não é tão brilhante quanto possam pensar...

Mas sem querer assumir o erro, forcei-nos a acabar a refeição dizendo que era exactamente aquilo que queria fazer e que o sabor agridoce dos bifes (mais doce do que agri é certo) era fruto de uma receita exótica que eu tinha querido experimentar.

Graças a Deus que havia guronsan disponível na caixa dos medicamentos porque as horas que se seguiram foram tudo menos agradáveis...

A partir daí tanto eu como ela percebemos que há tarefas para as quais definitivamente não sou talhado. Ela é dotada de um talento mais do que razoável para a cozinha. Eu sou excepcionalmente bom a espojar-me no sofá e a jogar playstation. Não são tarefas fáceis mas alguém tem de as fazer.

Por essas e por outras ela faz-me falta.
Mas não deixo de me sentir contente por saber que se está a divertir. Isto embora eu também não esteja nada mal servido aqui em Paço de Arcos...

A Eurodisney tem um rato.
E eu só cá em casa tenho uma gata e uma coelha.
Portanto, em bichezas de orelhas proeminentes já estou a ganhar.

Lá, têm o Pato Donald.
E aqui à volta há pombaria que nunca mais acaba.
Não se vestem à marinheiro mas cagam os prédios como se fizessem parte das tropas especiais. Também aí está ela por ela.

Finalmente, parece que também há por lá a montanha russa do Indiana Jones.
E eu aqui perto tenho o SATU do Oeiras Parque.
Pronto, aí tenho de dar o braço a torcer... Adrenalina é coisa que não abunda naquela carruagem. Mas ao menos vou mais à larga porque aquilo está sempre vazio. Por isso acaba por compensar.

Enfim, ela por lá e eu por cá com todas as minhas limitações.
Limitações essas que não são assim tantas... É importante deixar aqui bem explícito que não preciso da ajuda de ninguém para me vestir ou para tomar banho. Isto embora há quem diga que não me fazia falta nenhuma uma mãozinha na hora de escolher os trapos que ostento no corpo, no dia-a-dia, dada a combinação de cores e de tecidos. O que para mim é avant-garde para os outros é apenas bizarro. Eu bem tento explicar que todos os grandes génios sofreram no seu tempo e que se calhar as gerações vindouras ainda hão-de dar-me razão mas nem eu próprio acredito muito nisso... É apenas algo que digo.

No fundo, e a ausência da minha mulher faz-me compreender isso, sou como um porquinho-da-índia que não deve ser deixado sozinho sem ração na tigela nem água no bebedouro. Portanto, se algo me acontecer entretanto, se começar a ficar com o pêlo pouco sedoso ou com os incisivos a lascar a culpa é dela e só dela!

Pelo sim pelo não, vou dedicar o dia de amanhã a roer-lhe os objectos de uso pessoal.

Aposto que tão cedo não repete a gracinha...

Sunday, March 27, 2011

Escolhas da treta

A vida é feita de escolhas, lá diz o cliché.
Atenção que não estou a referir-me a um indivíduo francês com esse nome, mas sim ao lugar comum, a um conceito batidíssimo que se faz repetir há anos e anos.

Mas a vida é, de facto, feita de escolhas.
E eu, com impressionante recorrência, escolho mal.

Não digo sempre, há alturas em que acerto como no dia em que escolhi a mulher com quem partilho a vida ou no momento em que achei que era rabichola ter demasiado cabelo e optei pela calvície. Em ambas as situações, considero que movi a peça certa do xadrez.

No entanto, não consigo lembrar-me do número absurdo de vezes que, tendo perante mim um quadro de 50/50, optei pelo resultado que se revelou mais catastrófico. Exemplos concretos, existem e muitos. Mas eu prefiro relatar os dois que estão mais fresquinhos...

Quanto ao primeiro, estava eu a ver TV no sossego do meu lar...
Ok, esqueçam esta última parte porque no meu lar raramente há disso. A ideia mais realista que tenho de sossego entre quatro paredes é quando a gata está tão exausta de me f***r o juízo que jaz inerte, de patas voltadas e olhos abertos, ofegante como uma bomba de tirar água, a recuperar o fôlego antes de me voltar a azucrinar o juízo até ao limiar da insanidade. São esses quinze minutos diários aqueles que compõem a minha ideia de... sossego.

Mas pronto, num desses deliciosos intervalos vi um anúncio que promovia a nova cerveja Sagres Preta com sabor a chocolate.

Que imensa idiotice, pensei eu.

Que brutal atrocidade, reflecti.

QUE BESTIAL MARAVILHA QUE TENHO DE SABOREAR O QUANTO ANTES, concluí!!!

Pois é, na verdade eu sou como as avestruzes. Adoro coisas brilhantes e raras são as vezes que não vou lá meter o bico. Além disso, há quem diga que entre mim e os apalermados passarocos, o cérebrozinho é de tamanho idêntico. E às pessoas que dizem isso está prometida uma bicada nos cornos.

Adiante...
Depois do momento divino em que visualizei a publicidade à cerveja, contaram-se pelos dedos de uma mão os segundos que demorei a sorver às goladas o misterioso néctar.

Foi logo na próxima sessão de compras semanal com a minha mulher, já estávamos nós na caixa a meter as mercearias nos sacos quando me lembrei do importante item em falta e dei uma corrida até aos escaparates das cervejas. Surgi com um pack de seis, sorridente e feliz da vida. Disse que não podia esperar muito mais para provar o tesourinho.

"Olhe que pode levar só uma garrafa... Se é só para provar...", disse a senhora da caixa, deixando fluir a voz da experiência.

" Não senhora, que depois aproveito e partilho com amigos...", disse eu, confiante da minha escolha.

...

Experimentei.

E sou agora capaz de declarar...

... com toda a legitimidade e conhecimento de causa...

... que é talvez a MIXÓRDIA MAIS MAL SABOROSA QUE JÁ ALGUMA VEZ ME PASSOU PELA TRAQUEIA!!!

...

Atenção que eu não posso comprovar em absoluto a seguinte comparação.
Mas o sabor desta beberragem será apenas comparável ao da URINA INFECTADA DE UM ALCOÓLICO DIABÉTICO!

Tem álcool... Tem um travo a cerveja... É doce... Tem um travo a chocolate... É horrível... Tem um travo a fezes...

E agora tenho aqui mais cinco garrafas destas no frigorífico sem que ninguém no seu perfeito juízo lhes queira pegar! Não vou oferecer isto a amigo nenhum porque seria o equivalente a oferecer-lhe o quisto lancetado de um morcego: é fedorento e não serve para nada. Mas, ao mesmo tempo, esta porcaria custou dinheiro e custa-me enfiá-la assim no lixo sem mais nem menos...

Enfim, cruel dilema.

Mas não tão cruel como o jantar de ontem.

Ok, agora as pessoas mais maldosas dirão "este agora pensa que, depois do que aconteceu com o Barra do Quanza, basta vir falar de restaurantes p'ró blogue para que tudo se resolva de maneira airosa e receba convites simpáticos para jantar à pala"...

Pessoas maldosas, atentem nas minhas palavras:

EU NÃO VOLTO A ESTE RESTAURANTE NEM QUE ME SIRVAM SUSHI ENROLADO EM NOTAS DE QUINHENTOS, COM A JESSICA ALBA A MASSAJAR-ME OS PÉS COM ÓLEO JOHNSON E A CHAMAR-ME "COMANDANTE", OK?!

Nem pó!

Passou-se o seguinte: ontem, depois de um evento, fui jantar com amigos. Como éramos muitos, e estávamos na zona da Avenida da Liberdade, sugeri que fossemos ao restaurante Indian Palace no Largo do Carmo. Não que o restaurante seja nada por aí além mas era o único que estava a ver acolher um grupo tão grande assim sem marcação prévia. Portanto, fiz a minha escolha e transmiti-a aos meus camaradas, colocando assim a cabeça no cadafalso.

Lá fomos e lá entrámos. E o início até nem fazia augurar nada de muito mau... apenas dez minutos até que nos sentassem. A malta ria e partilhava, bem disposta, que já tinha apetite. A malta desconhecia aquilo para que estava guardada.

As ementas demoraram mais de meia hora a vir. À terceira vez que perguntei por elas, disse-me o indivíduo que "estavam ocupadas". Aí, eu acalmei e percebi tudo. Para quem não sabe, ser ementa não é para todos, é uma ocupação exigente. Uma vez estive junto a uma ementa durante quinze minutos e não imaginam o número de telefonemas e de mails que ela recebeu, isto enquanto fazia a contabilidade de um sujeito de Odivelas e elaborava o programa de um grupo excursionista da Amora. Portanto, constata-se por este exemplo que "ementas ocupadas" é o que p'raí mais há.

Depois de três imperiais no bucho e de parte dos sorrisos já ter abandonado as faces da malta... lá vieram meia dúzia de ementas todas ao mesmo tempo. Isto enquanto os empregados corriam literalmente para a frente e para trás como se fosse hora de ponta em Bombaim ou o final de um filme de Bollywood. Eu já não sabia se havia de escolher o jantar ou de aplaudir o espectáculo.

Mas, enfim... Escolhemos, pedimos e...

... esperámos até perto da MEIA NOITE para começar a comer.

...

Meia noite.

Das duas uma: ou o serviço é mau ou esperaram que fosse nove da noite na Índia para servir a nossa refeição. De qualquer das formas, foi importante para nós comermos ao mesmo tempo de um qualquer estofador chamado Sangita... Depois ficámos foi com jet lag.

Outra das razões do atraso devia ser o método de lavagem da loiça, porque pelo estado encardido dos pratos sou forçado a acreditar que os mesmo foram lavados no Ganges. Por isso, isto de andar sempre com sacas cheias de loiça para os aviões, p'raqui e p'rali, deve levar o seu tempo... Enfim, ca nojo.

Já a mastigar, por entre uma garfada ou outra, ainda tivemos de lutar com um tipo que queria à força vender-nos uns óculos de plástico roxo que davam luzes das hastes. Não foi tarefa fácil.
Sedentos de alimento e dada a ausência de colheres, todos raspávamos sôfregamente com os garfos as pequenas malgas de molhenga que constituía o nosso jantar.

Todos? Não.

Um dos nossos amigos resistia ainda e sempre ao invasor... Ou seja, o prato dele demorou extra-tempo a chegar e quando chegou veio com outro nome e com outros ingredientes completamente diferentes do pedido original. Marchou, tal era a fome. Mas só marchou metade porque a cena tinha mais picante do que a Cicciolina quando se orientou com o cavalo... Apenas deu para enganar a larica.

No final, como se a minha escolha de restaurante não tivesse sido já suficientemente negra ainda houve improviso e discussão porque o tal prato que não veio diziam os indianos que veio e o que veio, e que quase rebentara as gengivas do nosso amigo à base de piri-piri, ao que parece também continha borrego e era caro como cornos.

Ainda tivemos de ver o indiano apontar para o nosso amigo e gritar "BORREGO!" em plenos pulmões como se nós estivessemos a negar que ele o tivesse comido... Um insulto que poderia muito bem ter dado início a um verdadeiro conflito "a la Martim Moniz".

Apenas quando uns de nós começaram a perder a cabeça e ameaçaram pedir o livro de reclamações os ânimos serenaram e foi tudo para casa com fome mas sem ter sido demasiado roubado...

...

Enfim, "cerveja preta com chocolate" e "Indian Palace"... Duas escolhas erradas que podiam muito bem servir-me de lição mas que, sei bem, serão apenas mais duas achas para a lareira na qual arderei eternamente.

By the way, diz que dou uma bonita chama.

E que com um cházinho e uma mantinha nos joelhos, proporciono momentos muito zen.

Valha-nos isso.