Bom, já não vale a pena tentar ocultar por muito mais tempo aquilo que é evidente.
A minha gata arranjou namorado.
Sei que poucas coisas na vida me prepararam para isto, mais dia menos dia vou ter de a chamar à parte para termos "a conversa", mas pai é pai e eu só tenho de dar o meu melhor nessa matéria. Bem vistas as coisas, este relacionamento só me causa verdadeiro transtorno por volta das 6h30 da manhã, quando a bicha decide vir agredir-me os tímpanos à base de guinchadeira, para que lhe abra a porta da marquise e a deixe ir para junto do seu amor. Então, o que acontece é que eu me levanto com o aspecto e a disposição de um ogre ressacado, tento fazê-la parar de chiar com um ou dois biqueiros bem aviados, e quando dou por mim minutos mais tarde aos patardões à mobília, lá lhe faço a vontade e depois volto p'rá cama. É que esta brincadeira ainda aleija.
Portanto, posto isto não mais ouço o vil felino até à hora de me levantar para ir para o trabalho. É remédio santo.
Ela sobe para um escadote que está junto à parede e fica especada a olhar para o vidro que separa a marquise do prédio ao lado. Um vidro fosco, mas que antecipa a silhueta do seu mais que tudo.
E eu nem me importaria assim tanto se a sua paixão não fosse...
... na realidade...
...
...
UM POMBO MORTO!!!
...
...
Isto, tal qual.
Vamos lá esclarecer uma coisa antes demais: eu odeio pombos. De morte.
E atenção que este indivíduo, sendo pombo, até apresenta uma característica que eu valorizo neste tipo de passaredo. Que é estar morto.
Mas confesso que desejava melhor para a minha gata, uma relação que lhe perspectivasse um futuro e que, acima de tudo, não lhe obrigasse a andar com o tão desagradável odor a cadáver no pêlo.
Indiferente a este aspecto, TODO o tempo livre que a bicha tem é para ser passado de maneira inerte e lânguida a olhar para a desgraçada silhueta por detrás do vidro fosco. E isto é quando tem acesso à marquise. Quando não tem, prefere azucrinar-me o juízo deixando bem explícito que não está onde queria estar. Ou seja, a olhar para um estúpido pombo morto que, sejamos sinceros, não vai a lado nenhum.
Eu não percebo a malta nova de hoje em dia.
E também não percebo como é que alguém, por mais idiota que pareça ou por mais pontiagudas que sejam as suas orelhas, pode achar piada a pombos... É que das garras nojentas à ponta do bico, passando pela penugem encardida e à extraordinária expressão de atraso mental no olhar, estes bichos não trazem nada de alegre ou positivo à minha existência. Absolutamente ZERO.
E eu até acredito que hajam pombos a falar mal de mim também.
Mentira, não acredito nada nisto porque os pombos não falam.
De qualquer maneira, eles podem também não simpatizar comigo e por isso não me importava se entre nós houvesse um ou dois oceanos de distância.
Não vou chegar ao ponto de dizer que gostava de eliminar toda esta espécie da face da Terra. Acredito que este género de passarada sirva para alguma coisa, que tenha um qualquer importante papel no mundo como servir de acendalha para as lareiras ou de chop suey de frango nos restaurantes chineses, mas por favor que assim seja o mais longe de mim possível. Estaria até disposto, caso surgisse um projecto sério e com viabilidade, a permitir que substituissem todos estes animais na zona da grande Lisboa por cascavéis e víboras. Não me importava nada de estar a tomar café numa esplanada da Baixa e a sacudir cobras das calças ao mesmo tempo... Era um preço justo a pagar para correr com os imbecis pombos. O único problema seriam os idosos. Em vez de atirarem milho teriam de começar a arremessar ratinhos vivos nos jardins públicos, o que seria bizarro e, porque não dizê-lo, repugnante. Isto embora seja esta mais uma prova da má onda que é a pombaria. Apenas os efeitos regressivos e atordoantes da senilidade conseguem fazer com que um ser humano nutra algum afecto por eles. Portanto, estão a ver as peças...
E a minha gata perdida de amores por um destes bichos... Ainda por cima um que já bateu a bota há uns dias valentes! Haja estômago e paciência para aturar isto, senhores.
Ainda por cima o buraco fétido e imundo que este palerma escolheu para falecer... Não lembra ao diabo!
É nada mais nada menos que um espacinho minúsculo, de uns 2m por 20cm, que separa o prédio onde estou a viver da habitação ao lado. Um espaço que não serve para nada, mas que a existir estava-se bem de ver que era um convite à pombaria para fazer o seu pior. Em pouco tempo essa "miniatura de corredor" foi palco de defecação, camarata nocturna e leito de truca-truca para dezenas e dezenas de pombos. E este tipo de actividade, com o passar do tempo, gerou uma camada de caca, penas e sei lá mais o quê que nem quero imaginar, em cima da qual, estilo cereja no topo do bolo, foi assentar aquele que parecer ser o noivo da minha gata.
Bonito serviço.
É com este ramalhete de maravilhas que tenho de lidar no dia-a-dia.
Agora, se relativamente ao namoro da bicha não há muito que eu possa fazer, que é sabido que nestas idades se um tipo proíbe é pior a emenda que o soneto, já quanto ao facto de ter o cadáver de um pombo a desfazer-se perante a minha vista a coisa muda de figura. Vou mesmo ter de tomar providências...
Amanhã encarrego a minha mulher de tratar do assunto.
Wednesday, February 23, 2011
Wednesday, February 16, 2011
Enfim, uma pitada de jindungo
A vida tem coisas curiosas.
Não, não estou a referir-me aos indivíduos que costumam estar atrás das dunas a topar as gajas na praia. Falo dos pequenos pormenores que fazem a diferença no dia-a-dia e que dão um toque de especiarias à vivência de um tipo. Sei que há malta que não gosta particularmente de especiarias, longe de mim estar a querer comparar a existência a caril, mas para contar o que aconteceu penso que se adequa a imagem gastronómica.
Ora, quem lê este blogue sabe que para mim "Dia dos Namorados" e "Desastre" são dois conceitos muito amigos. Tal como relatei em Fevereiro do ano passado neste post, eu quis levar a minha mulher a jantar fora, ao restaurante Barra do Quanza em Belém, e no meio da ventania, do frio glaciar e da cascata incessante de água a embater-me na tromba, fui incapaz de encontrar o sítio e acabei a fungar e a comer pizza em casa. A sorte é que na altura tinha uma garrafa de tinto disponível e ao fim de três copos cheios parecia que não havia problema nenhum e que aquilo era um programa romântico como qualquer outro.
Passado praticamente um ano, e sendo que por causa deste episódio a minha mulher só voltou a dirigir-me a palavra há três meses, grande foi a minha surpresa quando recebi um comentário neste blog em nome do tal restaurante.
Rezava o seguinte:
"Caro Amigo, tomámos conhecimento da sua odisseia de 14 de Fevereiro de 2010 e decidimos que o mínimo que podíamos fazer era convidá-lo para uma “segunda tentativa”, esta por nossa conta (desta vez coroada de êxito, esperamos) e por isso tomámos a liberdade de desde já reservar uma mesa para duas pessoas para o próximo Dia dos Namorados, esperando que aceite o nosso convite o que muito nos honraria, um abraço, José Reis."
...
Confesso que inicialmente me cheirou a moscambilha. E bem feita, por sinal.
Da mesma maneira que, há uns tempos atrás, os meus colegas se entreteram a ir à minha página de Facebook e declarar-me fã de artistas tão exóticos como Justin Bieber, Adam Lambert ou Tokyo Hotel, a minha reacção imediata foi de achar que outro qualquer terrorista estava decidido a fazer-me passar por novo "massacre de São Valentim".
Já irado e prestes a fechar o portátil com violência, decidi olhar segunda vez para o comentário e lê-lo com mais atenção. Inclusivamente reparar num post-scriptum que me indicava o número para o qual devia ligar caso aceitasse o convite. E eu assim fiz...
Senhora - Estou sim, restaurante Barra do Quanza.
Eu - Estou. Eheh (nervoso) estou a ligar porque... (gaguejo) colocaram um comentário no meu blogue... Eheheh (mais nervoso)
Senhora - ...
Eu - Por causa do Dia dos Namorados do ano passado... (a suar) É para dizer que aceito o convite e confirmo a reserva... (soluço)
Senhora - Com certeza, como se chama?
Eu - Eheheh (mais nervos) André Oliveira.
Senhora - Ah sim! O casal que não conseguiu encontrar o restaurante. Muito bem, está confirmado. Obrigado e até dia 14.
Eu - Obrigado, bom dia.
...
...
Portanto...
...
O CASAL QUE NÃO CONSEGUIU ENCONTRAR O RESTAURANTE!!!
...
Era assim que eu era conhecido.
E, custa-me dizê-lo, com toda a razão... De facto, foi exactamente isso que aconteceu.
Não o casal, mas eu. EU não consegui encontrar o restaurante! Perdi-me em Lisboa, afinal de contas apenas a cidade em que vivi toda a minha vida, e condenei a minha cara-metade a um serão espartano e a uma gripe de duas semanas. Isto era o tipo de pessoa que eu era... Mas agora algo de surpreendente tinha acontecido e era-me dada a oportunidade de fazer as pazes com o universo e corrigir o erro cometido há um ano atrás. Era então altura de assumir que, a menos que um qualquer inimigo meu, talvez o urso cujo passatempo favorito é riscar-me o carro, se tivesse dado ao trabalho de criar uma conta no blogger com o nome do restaurante, clonar o número de telefone e imitar com perfeição a voz de uma senhora para me atender, afinal o convite sempre era verdadeiro. Portanto, uma boa notícia, uma especiaria perfumada no refogado do meu dia, e uma irrecusável chance de redenção.
Esperei pelo dia 14 como uma criança pequena espera pelo Natal.
Ou como o Padre Frederico espera pelo toque de saída de uma escola primária.
Enfim, com excitação e gulodice.
E quando ele chegou vinha com o carimbo de qualidade do dia homónimo do ano passado: escuro e com um temporal a cavalo. Maravilha, pensei eu. Os fantasmas do passado voltavam para me assombrar. Mas eu não conseguiria continuar a viver se não os exorcizasse de vez. E isso por uma variedade de razões:
1.
Eu próprio levaria o carro dispensando assim um qualquer seboso com carteira de taxista. Portanto, EU seria o meu próprio seboso! Bem sei que à partida e para quem conhece a minha condução, este item mais parece um ponto contra do que a favor. No entanto, e até ver, o carro sempre podia tornar-se num sólido abrigo em plena intempérie, caso alguma coisa corresse mal. E o risco, convém dizê-lo, era elevado.
2.
Desta vez, contaria com a ajuda do GPS. Sim, mais um objecto com uma eficácia questionável quando falamos da minha pessoa. Afinal de contas, e para quem se lembra, também no ano de 2010 sucedeu isto. Por outro lado, convém referir que eu até me entendo com a vil maquineta quando tenho um co-piloto ao meu lado. Preciso de alguém para operar o GPS e para filtrar as indicações que ele me dá. Quando isso acontece, a nossa relação já corre menos mal. Mas ainda assim longe de correr bem...
3.
Pedi à minha mulher para ir ao Google Maps e imprimir o percurso que vai do trabalho dela em Santos até ao restaurante. Eu iria lá buscá-la e seguiríamos a partir dali. O percurso impresso seria a "cereja no topo do bolo" e a garantia que nada, mas mesmo NADA, poderia falhar desta vez.
Vai daí, mal saí do trabalho a missão começou logo mal.
Parei na bomba para pôr gasolina e constatei imediatamente que a ventania conduzia a chuva de modo a que esta se me emplastrasse com violência na cabeça e nas costas. Dizem que a natureza é sábia mas comigo é sempre uma besta. São feitios...
Eu que até tinha tido o cuidado de vestir uma roupinha melhor, estava agora encharcado mesmo antes sequer de me pôr à procura do que quer que fosse... É o que se chama abrir com chave d'ouro. Sim, sentia o frio a entranhar-se-me nos ossos... Mas havia alguma maneira de eu ter a mangueira a espichar gasolina sem me submeter àquele flagelo? Não, pois não?
Ensopado que nem um pinto lá me enfiei na viatura e pus-me a caminho para ir buscar a minha mulher. Mulher essa que, quando cheguei, também me esperava, ensopada, à porta do emprego. "Isto está a correr tão bem...", pensei eu. E estava.
Depois, confesso que tremi. Uma primeira tentativa frustrada de dar com a rua do local fez-me duvidar de que toda aquela panóplia resultasse. Pior que isso, fez-me reviver todo o drama do ano passado e a eventualidade de um possível divórcio. Uma mulher, por muito paciente que seja, tem limites, e eu insisto em abusar deles todos!
Voltei para trás e tentei fazer o percurso pela segunda vez. Recapitulemos: a ideia era ir de Santos para Belém, mas do lado do rio. E foi quando dei por mim e estava a caminho de Campo de Ourique que disse para o lado:
- Sabes, às tantas nós não merecemos que nos convidem para jantar nenhum... A sério, a verdade, por muito que nos custe, é que somos estúpidos. - ainda mais perto de Campo de Ourique. - Estúpidos que dá dó! Às tantas não merecemos sequer jantar hoje...
Eu disse-lhe isto sem que ela comentasse. E ela fez-me um verdadeiro favor em abster-se, acreditem. Bem sei que se o não o tivesse feito, o chorrilho de palavrões seria tal que nem o "Dicionário Universal Jorge Jesus" lhe faria frente. Calou-se e isso de certa forma ofendeu-me. De tal maneira, que gerou em mim uma reacção intempestiva...
Enchi o peito de ar. Reprogramei a porra do GPS. Chamei a mim a ajuda divina de Santo Onofre e das ceroulas da velha do cabelo roxo e persegui o meu destino como se a minha vida dependesse disso. E pelo olhar raiado de sangue da minha mulher, vai-se a ver e até dependia...
Lá dei com o Barra do Quanza.
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(Obrigado)
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(Pronto, já chega)
...
Caso hajam para aí mais totós como eu, convém dizer que o restaurante tem um recém-criado site que esclarece todas as dúvidas acerca da sua localização. Agora sim!
O restaurante serve um misto de comida brasileira e africana e, tal como eu suspeitava, é muito bom. Não só pelos sabores mas também por estar onde está, apesar de ter sido precisamente isso que me impediu de o conhecer mais cedo. Mas além da comida e do sítio, recomendo o Barra do Quanza também pela "boa onda" que demonstraram relativamente ao meu texto e pela simpatia com que me receberam. Não tive a oportunidade de cumprimentar o José Reis que teve a amabilidade de colocar o comentário aqui no blogue mas pude dar um "bacalhau" ao Carlos Moral, chefe cozinheiro, e de lhe dizer que estava tudo uma delícia. E não é por não ter pago, atenção. Posso não saber cozinhar mas sei devorar como poucos. E quem me conhece sabe bem que é verdade.
Pretendo lá voltar com amigos, agora que já sei onde fica, e desta vez para fazer despesa, claro. Porque uma boa "casa", um produto de qualidade e um espírito positivo é o melhor marketing que se pode fazer. Sem pretenciosismos nem caganças. Para mim, é assim um bom restaurante.
E já agora acabo este post com algo que me aconteceu há uns dias e que constitui, por si só, a antítese disto mesmo...
Fui a um outro restaurante ver o Benfica espetar dois ao Porto para a Taça de Portugal. Até aqui tudo jóia. Na ementa vi um prato chamado "Arroz de Lombinhos de Caranguejo do Alasca". Pensei para comigo "Quem é o anormal que vai pedir uma coisa destas...?". Sorri de troça. Veio o empregado. Pedi esse mesmo prato e uma imperial. E o que veio para a mesa foi arroz de marisco ordinário e insosso. Tal qual. Nem lombinhos, nem caranguejo e, escusado será dizer, nem Alasca. Assim, não me admirou que o empregado passasse o resto do serão a perguntar se eu queria mais cerveja. Pudera. Não fosse estar toldado pelo álcool e tinha-lhe enfiado um dos camarões ressequidos onde o sol não brilha...
Não, não estou a referir-me aos indivíduos que costumam estar atrás das dunas a topar as gajas na praia. Falo dos pequenos pormenores que fazem a diferença no dia-a-dia e que dão um toque de especiarias à vivência de um tipo. Sei que há malta que não gosta particularmente de especiarias, longe de mim estar a querer comparar a existência a caril, mas para contar o que aconteceu penso que se adequa a imagem gastronómica.
Ora, quem lê este blogue sabe que para mim "Dia dos Namorados" e "Desastre" são dois conceitos muito amigos. Tal como relatei em Fevereiro do ano passado neste post, eu quis levar a minha mulher a jantar fora, ao restaurante Barra do Quanza em Belém, e no meio da ventania, do frio glaciar e da cascata incessante de água a embater-me na tromba, fui incapaz de encontrar o sítio e acabei a fungar e a comer pizza em casa. A sorte é que na altura tinha uma garrafa de tinto disponível e ao fim de três copos cheios parecia que não havia problema nenhum e que aquilo era um programa romântico como qualquer outro.
Passado praticamente um ano, e sendo que por causa deste episódio a minha mulher só voltou a dirigir-me a palavra há três meses, grande foi a minha surpresa quando recebi um comentário neste blog em nome do tal restaurante.
Rezava o seguinte:
"Caro Amigo, tomámos conhecimento da sua odisseia de 14 de Fevereiro de 2010 e decidimos que o mínimo que podíamos fazer era convidá-lo para uma “segunda tentativa”, esta por nossa conta (desta vez coroada de êxito, esperamos) e por isso tomámos a liberdade de desde já reservar uma mesa para duas pessoas para o próximo Dia dos Namorados, esperando que aceite o nosso convite o que muito nos honraria, um abraço, José Reis."
...
Confesso que inicialmente me cheirou a moscambilha. E bem feita, por sinal.
Da mesma maneira que, há uns tempos atrás, os meus colegas se entreteram a ir à minha página de Facebook e declarar-me fã de artistas tão exóticos como Justin Bieber, Adam Lambert ou Tokyo Hotel, a minha reacção imediata foi de achar que outro qualquer terrorista estava decidido a fazer-me passar por novo "massacre de São Valentim".
Já irado e prestes a fechar o portátil com violência, decidi olhar segunda vez para o comentário e lê-lo com mais atenção. Inclusivamente reparar num post-scriptum que me indicava o número para o qual devia ligar caso aceitasse o convite. E eu assim fiz...
Senhora - Estou sim, restaurante Barra do Quanza.
Eu - Estou. Eheh (nervoso) estou a ligar porque... (gaguejo) colocaram um comentário no meu blogue... Eheheh (mais nervoso)
Senhora - ...
Eu - Por causa do Dia dos Namorados do ano passado... (a suar) É para dizer que aceito o convite e confirmo a reserva... (soluço)
Senhora - Com certeza, como se chama?
Eu - Eheheh (mais nervos) André Oliveira.
Senhora - Ah sim! O casal que não conseguiu encontrar o restaurante. Muito bem, está confirmado. Obrigado e até dia 14.
Eu - Obrigado, bom dia.
...
...
Portanto...
...
O CASAL QUE NÃO CONSEGUIU ENCONTRAR O RESTAURANTE!!!
...
Era assim que eu era conhecido.
E, custa-me dizê-lo, com toda a razão... De facto, foi exactamente isso que aconteceu.
Não o casal, mas eu. EU não consegui encontrar o restaurante! Perdi-me em Lisboa, afinal de contas apenas a cidade em que vivi toda a minha vida, e condenei a minha cara-metade a um serão espartano e a uma gripe de duas semanas. Isto era o tipo de pessoa que eu era... Mas agora algo de surpreendente tinha acontecido e era-me dada a oportunidade de fazer as pazes com o universo e corrigir o erro cometido há um ano atrás. Era então altura de assumir que, a menos que um qualquer inimigo meu, talvez o urso cujo passatempo favorito é riscar-me o carro, se tivesse dado ao trabalho de criar uma conta no blogger com o nome do restaurante, clonar o número de telefone e imitar com perfeição a voz de uma senhora para me atender, afinal o convite sempre era verdadeiro. Portanto, uma boa notícia, uma especiaria perfumada no refogado do meu dia, e uma irrecusável chance de redenção.
Esperei pelo dia 14 como uma criança pequena espera pelo Natal.
Ou como o Padre Frederico espera pelo toque de saída de uma escola primária.
Enfim, com excitação e gulodice.
E quando ele chegou vinha com o carimbo de qualidade do dia homónimo do ano passado: escuro e com um temporal a cavalo. Maravilha, pensei eu. Os fantasmas do passado voltavam para me assombrar. Mas eu não conseguiria continuar a viver se não os exorcizasse de vez. E isso por uma variedade de razões:
1.
Eu próprio levaria o carro dispensando assim um qualquer seboso com carteira de taxista. Portanto, EU seria o meu próprio seboso! Bem sei que à partida e para quem conhece a minha condução, este item mais parece um ponto contra do que a favor. No entanto, e até ver, o carro sempre podia tornar-se num sólido abrigo em plena intempérie, caso alguma coisa corresse mal. E o risco, convém dizê-lo, era elevado.
2.
Desta vez, contaria com a ajuda do GPS. Sim, mais um objecto com uma eficácia questionável quando falamos da minha pessoa. Afinal de contas, e para quem se lembra, também no ano de 2010 sucedeu isto. Por outro lado, convém referir que eu até me entendo com a vil maquineta quando tenho um co-piloto ao meu lado. Preciso de alguém para operar o GPS e para filtrar as indicações que ele me dá. Quando isso acontece, a nossa relação já corre menos mal. Mas ainda assim longe de correr bem...
3.
Pedi à minha mulher para ir ao Google Maps e imprimir o percurso que vai do trabalho dela em Santos até ao restaurante. Eu iria lá buscá-la e seguiríamos a partir dali. O percurso impresso seria a "cereja no topo do bolo" e a garantia que nada, mas mesmo NADA, poderia falhar desta vez.
Vai daí, mal saí do trabalho a missão começou logo mal.
Parei na bomba para pôr gasolina e constatei imediatamente que a ventania conduzia a chuva de modo a que esta se me emplastrasse com violência na cabeça e nas costas. Dizem que a natureza é sábia mas comigo é sempre uma besta. São feitios...
Eu que até tinha tido o cuidado de vestir uma roupinha melhor, estava agora encharcado mesmo antes sequer de me pôr à procura do que quer que fosse... É o que se chama abrir com chave d'ouro. Sim, sentia o frio a entranhar-se-me nos ossos... Mas havia alguma maneira de eu ter a mangueira a espichar gasolina sem me submeter àquele flagelo? Não, pois não?
Ensopado que nem um pinto lá me enfiei na viatura e pus-me a caminho para ir buscar a minha mulher. Mulher essa que, quando cheguei, também me esperava, ensopada, à porta do emprego. "Isto está a correr tão bem...", pensei eu. E estava.
Depois, confesso que tremi. Uma primeira tentativa frustrada de dar com a rua do local fez-me duvidar de que toda aquela panóplia resultasse. Pior que isso, fez-me reviver todo o drama do ano passado e a eventualidade de um possível divórcio. Uma mulher, por muito paciente que seja, tem limites, e eu insisto em abusar deles todos!
Voltei para trás e tentei fazer o percurso pela segunda vez. Recapitulemos: a ideia era ir de Santos para Belém, mas do lado do rio. E foi quando dei por mim e estava a caminho de Campo de Ourique que disse para o lado:
- Sabes, às tantas nós não merecemos que nos convidem para jantar nenhum... A sério, a verdade, por muito que nos custe, é que somos estúpidos. - ainda mais perto de Campo de Ourique. - Estúpidos que dá dó! Às tantas não merecemos sequer jantar hoje...
Eu disse-lhe isto sem que ela comentasse. E ela fez-me um verdadeiro favor em abster-se, acreditem. Bem sei que se o não o tivesse feito, o chorrilho de palavrões seria tal que nem o "Dicionário Universal Jorge Jesus" lhe faria frente. Calou-se e isso de certa forma ofendeu-me. De tal maneira, que gerou em mim uma reacção intempestiva...
Enchi o peito de ar. Reprogramei a porra do GPS. Chamei a mim a ajuda divina de Santo Onofre e das ceroulas da velha do cabelo roxo e persegui o meu destino como se a minha vida dependesse disso. E pelo olhar raiado de sangue da minha mulher, vai-se a ver e até dependia...
Lá dei com o Barra do Quanza.
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(Pronto, já chega)
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Caso hajam para aí mais totós como eu, convém dizer que o restaurante tem um recém-criado site que esclarece todas as dúvidas acerca da sua localização. Agora sim!
O restaurante serve um misto de comida brasileira e africana e, tal como eu suspeitava, é muito bom. Não só pelos sabores mas também por estar onde está, apesar de ter sido precisamente isso que me impediu de o conhecer mais cedo. Mas além da comida e do sítio, recomendo o Barra do Quanza também pela "boa onda" que demonstraram relativamente ao meu texto e pela simpatia com que me receberam. Não tive a oportunidade de cumprimentar o José Reis que teve a amabilidade de colocar o comentário aqui no blogue mas pude dar um "bacalhau" ao Carlos Moral, chefe cozinheiro, e de lhe dizer que estava tudo uma delícia. E não é por não ter pago, atenção. Posso não saber cozinhar mas sei devorar como poucos. E quem me conhece sabe bem que é verdade.
Pretendo lá voltar com amigos, agora que já sei onde fica, e desta vez para fazer despesa, claro. Porque uma boa "casa", um produto de qualidade e um espírito positivo é o melhor marketing que se pode fazer. Sem pretenciosismos nem caganças. Para mim, é assim um bom restaurante.
E já agora acabo este post com algo que me aconteceu há uns dias e que constitui, por si só, a antítese disto mesmo...
Fui a um outro restaurante ver o Benfica espetar dois ao Porto para a Taça de Portugal. Até aqui tudo jóia. Na ementa vi um prato chamado "Arroz de Lombinhos de Caranguejo do Alasca". Pensei para comigo "Quem é o anormal que vai pedir uma coisa destas...?". Sorri de troça. Veio o empregado. Pedi esse mesmo prato e uma imperial. E o que veio para a mesa foi arroz de marisco ordinário e insosso. Tal qual. Nem lombinhos, nem caranguejo e, escusado será dizer, nem Alasca. Assim, não me admirou que o empregado passasse o resto do serão a perguntar se eu queria mais cerveja. Pudera. Não fosse estar toldado pelo álcool e tinha-lhe enfiado um dos camarões ressequidos onde o sol não brilha...
Tuesday, January 25, 2011
Manifesto anti-suíno atrasado mental que me riscou o carro pela segunda vez
BASTA PUM BASTA!
Fosse a Terra mil vezes maior, mais os continentes, oceanos, rios e mares, e havias de arranjar maneira de ainda assim me encontrar e fazer o que fazes melhor: lixar-me a vida com F grande! Meu pulha de merda. Meu suíno atrasado mental.
Porque o fazes não sei.
Só sei que hoje ao chegar ao carro vi nova e enormíssima carrada de bosta em forma de riscalhada em cheio no capô. Eu, que há uns meses culpei o vizinho cornudo, o idoso incontinente e o violador de Telheiras de um outro risco que se exibia, e exibe, em ambas as portas do lado do condutor... Não há dúvida que estas novas evidências deixam estes desgraçados de fora da equação.
Foste tu! Sempre tu.
E não te importaste de gastar do teu deprimente e miserável vencimento para meter umas quantas gotas de combustível na tua caranguejola mecânica e apanhar a A5 para ir de Benfica a Paço d'Arcos repetir a gracinha... Que não tem gracinha nenhuma.
Não sei quem és. Mas mereces morrer.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Deus, até à data pouco Vos pedi.
Direi mesmo que tirando causas mais nobres como todos os prémios do euromilhões ou uma ou outra vitória do Benfica a minha comunicação convosco tem sido reduzida à absoluta nulidade. Mas hoje, jogo-me a Vossos pés, servil e humilde, para Vos implorar algo que até nem é para mim. É PARA ESTA BESTA SODOMITA QUE RESPIRA O MESMO AR QUE EU!
Fazei com que um Mandingo de dois metros comece a violá-lo hoje e acabe apenas em 2014 aquando dos Santos Populares... 24 horas por dia à bruta. Sem parar para comer nem para dormir. Fazei isso, por misericórdia.
Dai-lhe por favor uma dor de barriga tão grande, mas tão grande, que expluda e se desfaça em trampa em frente das pessoas que mais estima. E que estas levem vinte anos a conseguir tirar a merda seca da pele. Por muito que esfreguem.
Ordenai a leões, panteras e tigres que o devorem ainda vivo mas sem o auxílio de garras e dentes. Que o comam com colheres de chá. E que demorem o tempo que precisarem.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Eu que trabalho, que pago impostos, que me oriento.
Eu que estaciono nos lugares para isso destinados, recusando-me a barrar o caminho em cima do passeio aos mais debilitados, aos idosos, aos paralíticos.
Eu que, com a minha mulher, só tenho um carro. E estimo-o como se fosse parte da família.
E ainda assim tenho de chegar de manhã e ver aquilo que parece um grotesco e abrutalhado "4" toscamente gravado em cheio no capô?!
4 MURRAÇAS TE PREGARIA EU BEM NO ALTO DA PINHA SE TE APANHASSE, DEMÓNIO APANASCADO DOS INFERNOS!!!
4 EXTINTORES TE ENFIARIA EU NO CU E AINDA ASSIM TE OBRIGARIA A IR DAQUI A SANTIAGO DE COMPOSTELA EM PASSO DE CORRIDA!!!
4 ANOS A ARDER NUM ASSADOR DE CHOURIÇOS GIGANTE ERA O QUE MERECIAS, ENQUANTO TE BANHAVA COM ÁLCOOL ETÍLICO DE 30 EM 30 SEGUNDOS!!!
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
És o pus que brota da gangrena da Terra.
És a substância pastosa e fedorenta que sai de um umbigo mal lavado.
És a parte rija da escarreta de um tuberculoso.
És a ténia que se bamboleia no intestino de um boi.
Tu, meu animal, METES-ME NOJO!
E O QUE É DEMAIS É DEMAIS.
PÁRA DE ME RISCAR O CARRO!
Já não tem piada. Aliás, nunca teve. No humor, tal como em tudo, não vales nada.
Péssimo timming, péssimo registo, péssimas punchlines.
Tu fazes "Os Malucos do Riso" parecerem o Ricky Gervais. De tão merdoso e infeliz que és.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Sei que não é bonito desejar a morte de alguém. De alguém que não sejas tu.
Desejo do fundo do coração que faleças em circunstâncias mesmo muito violentas. Tu, os teus familiares, os teus amigos e toda a gente que te conheça ou que já se tenha cruzado contigo na rua.
Isto excepto eu, os meus familiares e os meus amigos, é claro.
E de bom grado traçaria também eu um risco em todas as gerações que te antecederam, vil e asquerosa lontra! Eliminá-los-ia até aos dinossauros se preciso fosse. E era com alegria que enterraria os caninos na célula que originou a tua pérfida linhagem.
QUERO TANTO QUE MORRAS!!!
E ainda assim, mesmo sendo tu o peido bafiento da Humanidade, há quem te faça o jantar. E quem te cosa as meias. E quem te corte o cabelo.
Que morram também, afogados em enxofre!
E para que saibas, besta quadrada, inimigo declarado, cão pestilento e leproso, estarei com atenção às tuas movimentações. Descobrirei quem és nem que por isso perca casa, emprego e mulher. Porque não se testam os limites de um homem como tu o fizeste. Não se deixam assim centenas de euros para pagar sem ao mesmo tempo assinar um duelo que, da minha parte, será até à morte... CUSTA SABER NÃO CUSTA, COBARDE?!
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
És valente no escuro de uma rua à noite não és, espécie de morcego mongolóide?!
Riscas-me o carro e vais para casa dormir. Sem crises de consciência. Sem problemas de maior. Vais dormir, simplesmente.
Oh que alegria me daria lançar sobre a tua cama uma chuva de napalm. Ver-te a correr em chamas, tu, a tua mulher e os teus filhos, e apagar-vos as chamas do corpo num acto piedoso. PARA VOS PEGAR FOGO OUTRA VEZ COM AINDA MAIS INTENSIDADE!!!
Hei-de tocar concertina e fazer sapateado em cima da tua campa enquanto declamo estrofes ordinárias insultando a tua mãe.
Hei-de comer o cerebelo dos teus filhos enquanto brindo com um belo Chianti, ao som de Miles Davis.
Hei-de servir o teu cão recheado com nêsperas, ainda vivo e a respirar, a uma família de etíopes famintos.
Hei-de odiar-te até ao fim dos meus dias.
E só espero que a energia de todo este ódio te cause para já e pelo menos, um fulminante AVC.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Fosse a Terra mil vezes maior, mais os continentes, oceanos, rios e mares, e havias de arranjar maneira de ainda assim me encontrar e fazer o que fazes melhor: lixar-me a vida com F grande! Meu pulha de merda. Meu suíno atrasado mental.
Porque o fazes não sei.
Só sei que hoje ao chegar ao carro vi nova e enormíssima carrada de bosta em forma de riscalhada em cheio no capô. Eu, que há uns meses culpei o vizinho cornudo, o idoso incontinente e o violador de Telheiras de um outro risco que se exibia, e exibe, em ambas as portas do lado do condutor... Não há dúvida que estas novas evidências deixam estes desgraçados de fora da equação.
Foste tu! Sempre tu.
E não te importaste de gastar do teu deprimente e miserável vencimento para meter umas quantas gotas de combustível na tua caranguejola mecânica e apanhar a A5 para ir de Benfica a Paço d'Arcos repetir a gracinha... Que não tem gracinha nenhuma.
Não sei quem és. Mas mereces morrer.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Deus, até à data pouco Vos pedi.
Direi mesmo que tirando causas mais nobres como todos os prémios do euromilhões ou uma ou outra vitória do Benfica a minha comunicação convosco tem sido reduzida à absoluta nulidade. Mas hoje, jogo-me a Vossos pés, servil e humilde, para Vos implorar algo que até nem é para mim. É PARA ESTA BESTA SODOMITA QUE RESPIRA O MESMO AR QUE EU!
Fazei com que um Mandingo de dois metros comece a violá-lo hoje e acabe apenas em 2014 aquando dos Santos Populares... 24 horas por dia à bruta. Sem parar para comer nem para dormir. Fazei isso, por misericórdia.
Dai-lhe por favor uma dor de barriga tão grande, mas tão grande, que expluda e se desfaça em trampa em frente das pessoas que mais estima. E que estas levem vinte anos a conseguir tirar a merda seca da pele. Por muito que esfreguem.
Ordenai a leões, panteras e tigres que o devorem ainda vivo mas sem o auxílio de garras e dentes. Que o comam com colheres de chá. E que demorem o tempo que precisarem.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Eu que trabalho, que pago impostos, que me oriento.
Eu que estaciono nos lugares para isso destinados, recusando-me a barrar o caminho em cima do passeio aos mais debilitados, aos idosos, aos paralíticos.
Eu que, com a minha mulher, só tenho um carro. E estimo-o como se fosse parte da família.
E ainda assim tenho de chegar de manhã e ver aquilo que parece um grotesco e abrutalhado "4" toscamente gravado em cheio no capô?!
4 MURRAÇAS TE PREGARIA EU BEM NO ALTO DA PINHA SE TE APANHASSE, DEMÓNIO APANASCADO DOS INFERNOS!!!
4 EXTINTORES TE ENFIARIA EU NO CU E AINDA ASSIM TE OBRIGARIA A IR DAQUI A SANTIAGO DE COMPOSTELA EM PASSO DE CORRIDA!!!
4 ANOS A ARDER NUM ASSADOR DE CHOURIÇOS GIGANTE ERA O QUE MERECIAS, ENQUANTO TE BANHAVA COM ÁLCOOL ETÍLICO DE 30 EM 30 SEGUNDOS!!!
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
És o pus que brota da gangrena da Terra.
És a substância pastosa e fedorenta que sai de um umbigo mal lavado.
És a parte rija da escarreta de um tuberculoso.
És a ténia que se bamboleia no intestino de um boi.
Tu, meu animal, METES-ME NOJO!
E O QUE É DEMAIS É DEMAIS.
PÁRA DE ME RISCAR O CARRO!
Já não tem piada. Aliás, nunca teve. No humor, tal como em tudo, não vales nada.
Péssimo timming, péssimo registo, péssimas punchlines.
Tu fazes "Os Malucos do Riso" parecerem o Ricky Gervais. De tão merdoso e infeliz que és.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Sei que não é bonito desejar a morte de alguém. De alguém que não sejas tu.
Desejo do fundo do coração que faleças em circunstâncias mesmo muito violentas. Tu, os teus familiares, os teus amigos e toda a gente que te conheça ou que já se tenha cruzado contigo na rua.
Isto excepto eu, os meus familiares e os meus amigos, é claro.
E de bom grado traçaria também eu um risco em todas as gerações que te antecederam, vil e asquerosa lontra! Eliminá-los-ia até aos dinossauros se preciso fosse. E era com alegria que enterraria os caninos na célula que originou a tua pérfida linhagem.
QUERO TANTO QUE MORRAS!!!
E ainda assim, mesmo sendo tu o peido bafiento da Humanidade, há quem te faça o jantar. E quem te cosa as meias. E quem te corte o cabelo.
Que morram também, afogados em enxofre!
E para que saibas, besta quadrada, inimigo declarado, cão pestilento e leproso, estarei com atenção às tuas movimentações. Descobrirei quem és nem que por isso perca casa, emprego e mulher. Porque não se testam os limites de um homem como tu o fizeste. Não se deixam assim centenas de euros para pagar sem ao mesmo tempo assinar um duelo que, da minha parte, será até à morte... CUSTA SABER NÃO CUSTA, COBARDE?!
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
És valente no escuro de uma rua à noite não és, espécie de morcego mongolóide?!
Riscas-me o carro e vais para casa dormir. Sem crises de consciência. Sem problemas de maior. Vais dormir, simplesmente.
Oh que alegria me daria lançar sobre a tua cama uma chuva de napalm. Ver-te a correr em chamas, tu, a tua mulher e os teus filhos, e apagar-vos as chamas do corpo num acto piedoso. PARA VOS PEGAR FOGO OUTRA VEZ COM AINDA MAIS INTENSIDADE!!!
Hei-de tocar concertina e fazer sapateado em cima da tua campa enquanto declamo estrofes ordinárias insultando a tua mãe.
Hei-de comer o cerebelo dos teus filhos enquanto brindo com um belo Chianti, ao som de Miles Davis.
Hei-de servir o teu cão recheado com nêsperas, ainda vivo e a respirar, a uma família de etíopes famintos.
Hei-de odiar-te até ao fim dos meus dias.
E só espero que a energia de todo este ódio te cause para já e pelo menos, um fulminante AVC.
MORRA O PORCO MORRA! PIM!
Thursday, January 20, 2011
Os animais são más pessoas
Encontro-me neste preciso momento a escrever no meu portátil, enfiadinho na cama porque apanhei p'raí uma carraspana exótica difícil de identificar. Na dúvida, chamo-lhe virose. Um velho truque que os médicos utilizam quando não sabem o que é que um gajo tem. Ou dizem que não tem nada e arriscam-se a levar com um processo se o indivíduo patinar ou dizem que é uma virose e aconteça o que acontecer estão safos. Malta esperta, os médicos.
Mas não é disso que quero falar hoje...
Enquanto procuro equilibrar o computador no colo, fazendo com que a máxima percentagem do meu corpo esteja debaixo das cobertas e a apanhar o tradicional e muito terapêutico "quente", a minha gata está aos gritos e às cabeçadas à mobília do hall de entrada.
Porquê?
Porque sim.
Porque pode.
Claro que podia ter algum respeito pela minha condição enferma, assim como podia respeitar o meu sono e o da minha cara metade quando decide acordar-nos todo o santo dia de manhã com miados e lamúrias. A minha gata parece-me uma daquelas ciganas romenas que não larga as pessoas nem por nada, cheia de pieguices, a pedir esmola. A diferença é que a minha gata não pede esmola, ela não quer saber disso. Na verdade não quer nada. A não ser chatear.
Eu gosto de bichos mas desconfio que eles não vão muito com a minha cara.
Além do mais não os entendo. Invariavelmente a nossa relação acaba por seguir no caminho do absurdo, como um sketch sem piada de uns quaisquer "Malucos do Riso" finlandeses... Aprecio animais assim como aprecio as pinturas do Miró: faz-me sentir bem cá dentro mas não percebo patavina do que se está a passar.
A minha gata é apenas um dos exemplos.
Veio cá para casa como gato. Foi assim que a apresentaram e foi assim que ela se comportou nos primeiros meses. Enchia-me de orgulho. Finalmente tinha junto a mim um astuto companheiro de brincadeiras, outro macho com quem beber uma bejeca fresca ao final do dia e falar de bola. Ah e também o adereço ideal para as minhas imitações de vilão de James Bond... Mas isso já prometi que não voltaria a fazer. Pelo menos não em público.
Um belo dia vou ao veterinário e ele dá-me a notícia de que o que tinha em mãos não era na realidade um magnífico e viril exemplar macho mas sim uma fêmea com um corpo um pouco mais masculino. Uma espécie de Dina, a cantora de "Amor de Água Fresca", mas em gato. E eu tudo bem. Tal qual Nené, a antiga vedeta do Benfica que não sujava os calções, que um dia descobriu que o que tinha em casa não era bem aquilo que esperava, aceitei o que o destino me oferecia e perdoei as mentiras e os enganos protagonizados pela criatura. Perdoei mas não esqueci, claro está.
Os animais são más pessoas, a verdade é essa. Não é à toa que lhes chamam "animais"...
É que uma boa percentagem deles são umas verdadeiras bestas!
Convém não esquecer que damos cama e comida a esta ingrata de bigodes! E só não damos roupa lavada porque a quantidade de pêlo que ela produz e perde todos os dias dava para começar um negócio de mantas. Escusado será descrever as maravilhas que este isto faz pela higiene aqui do poiso...
Até porque não é só a gata que cá mora. Damos também guarida a uma coelha que, à falta de melhor termo, é aquilo que de mais semelhante conheço com o próprio anticristo.
Relembro também (peço desculpa por estar a desbobinar tanta coisa a meu favor mas é hora de dizer algumas verdades a estas duas) que fui comprar a sacana das orelhas compridas a um shopping manhoso e que ela na altura tinha mais sarna que uma prostituta em Saigão. Mas será que isso me demoveu? Não, senhores. Não é esse o tipo de pessoa que eu sou. Levei-a na mesma, ofereci-a à minha mulher e foi com muito orgulho que a vi durante meses a tratar a doença da coelha, a levá-la ao veterinário, a aplicar-lhe remédio nas chagas, a comprar-lhe os medicamentos, etc. O tipo de coisa que me devia fazer estar num pedestal aos olhos do bicho... Mas não é isso que acontece.
Odeia-me de morte.
Olha para mim de lado com um esgar de "Se te apanho a dormir, arranco-te a jugular à dentada e faço ninho no teu fígado ó filha da p**a!!!"
Eu faço que não é nada comigo mas sei bem que a única coisa que garante a minha segurança é o simples facto de ter mais de dez vezes o tamanho dela. Parecendo que não, faz diferença.
Mas ao menos a coelha tenta-me morder apenas em situações triviais como quando me chego demasiado perto da gaiola ou quando estou a tentar enfiá-la dentro de uma panela de água a ferver. Isso eu compreendo. Agora a gata devia saber melhor. Devia ter a noção que às 6:30 da manhã as pessoas estão na altura mais gostosa do soninho. Exactamente naquela fase em que faz muita diferença ter um animal aos guinchos no quarto ou a raspar com as unhas nas portas do armário. Às 6:30, fazerem-me este tipo de coisas é equivalente a servirem-me um pequeno almoço de café com leite e testículos de boi. Muito desagradável.
Confesso que já perdi a cabeça por uma vez ou outra e arremessei o chinelo contra o demónio. Sempre sem sucesso porque, no fundo, é isso mesmo que ela quer. Que eu me descontrole e passe a ser mais um a usar pijama mesmo durante o dia e a tomar as refeições por uma palhinha. Mas eu recuso-me a dar-lhe esse gostinho.
Vale a pena recuar até aos anos 90 quando, ainda em casa de meus pais, tive um pequeno peixinho cor de laranja chamado Aníbal. O peixe tinha este nome por duas razões fundamentais: primeiro porque sendo laranja fazia sentido que tivesse o primeiro nome do conhecido político do PSD, e actual Presidente da República, Cavaco Silva e segundo porque na altura eu era AINDA mais estúpido do que sou hoje. Era Aníbal, o peixinho. E rodopiava no seu aquário de balão todo o santo dia. Que mais havia para fazer ali? O comportamento obsessivo do animal não era mais do que compreensível, diga-se.
Vai daí, uma manhã, encontrei o Aníbal inerte no chão. Deitado de lado, ainda com um movimento leve de barbatanas, fazendo antever que não teria sido há muito que saltara do aquário, feito idiota, tendo ido parar às tábuas do soalho.
Grito mudo.
Pânico.
O meu Aníbal, quase morto.
O meu animal de estimação.
...
Peguei nele com jeitinho.
Icei-o do chão.
E depositei-o de novo na sua casa de vidro.
Ainda vivia, o malandro.
...
Podia ser uma bonita história com final feliz não fosse o desgraçado ter ficado com metade do corpo colada ao chão. Nesse momento, assemelhava-se muitíssimo ao vilão Two-Face, das histórias do Batman, e o seu aspecto era deveras grotesco. Do lado direito, vigoroso como sempre: olho brilhante, barbatana vivaça, escamas impecáveis. Do lado esquerdo, um cadáver autêntico: nem olho, nem barbatana, nem escamas nem nada de nada. O Aníbal era agora um ser "especial" e nem o facto de apenas conseguir nadar em 360º por só ter uma barbatana me fez desitir dele. E assim foi até ao dia em que partiu. Ou seja, o dia seguinte.
Bom, esta história de terror toda p'ra quê?
Nem eu sei bem.
Acho que era para provar que sou um tipo porreiro para os animais em geral e eles, em geral, são maus para mim. Para mim e para a grande maioria das pessoas, é importante referir. Falemos de pandas, por exemplo. Os bichos há décadas que dão a dica que não estão interessados em continuar por aqui, que estão prontos para o estágio seguinte da existência. Basicamente, desistiram de pinar. E não há um dia que passe que os chineses não vão lá espicaçar os ursos, mostrando-lhes vídeos pornográficos e citando-lhes poemas lascivos. Querem à força ter mais pandas no mundo, nem que tenham de matar todos os pandas para consegui-lo.
Curiosa a forma como os animais conseguem lixar o sistema.
E fazem-no conscientemente, não me venham com cantigas a dizer que os bichos são ingénuos e todos uns santinhos. Eles sabem o que fazem e se o fazem é porque de alguma forma o merecemos. Pelo pardieiro em que conseguimos transformar este planeta, merecemo-lo sem dúvida. Aí tenho de dizer também eu mea culpa.
E talvez por isso nem tenha ficado muito ofendido quando em plena agitação matinal arremessei a minha pantufa... E entre um ou outro flash ensonado... Penso ter visto a minha gata virar-se para mim e fazer um gesto feio com a pata.
Definitivamente, acho que estamos em guerra.
Mas não é disso que quero falar hoje...
Enquanto procuro equilibrar o computador no colo, fazendo com que a máxima percentagem do meu corpo esteja debaixo das cobertas e a apanhar o tradicional e muito terapêutico "quente", a minha gata está aos gritos e às cabeçadas à mobília do hall de entrada.
Porquê?
Porque sim.
Porque pode.
Claro que podia ter algum respeito pela minha condição enferma, assim como podia respeitar o meu sono e o da minha cara metade quando decide acordar-nos todo o santo dia de manhã com miados e lamúrias. A minha gata parece-me uma daquelas ciganas romenas que não larga as pessoas nem por nada, cheia de pieguices, a pedir esmola. A diferença é que a minha gata não pede esmola, ela não quer saber disso. Na verdade não quer nada. A não ser chatear.
Eu gosto de bichos mas desconfio que eles não vão muito com a minha cara.
Além do mais não os entendo. Invariavelmente a nossa relação acaba por seguir no caminho do absurdo, como um sketch sem piada de uns quaisquer "Malucos do Riso" finlandeses... Aprecio animais assim como aprecio as pinturas do Miró: faz-me sentir bem cá dentro mas não percebo patavina do que se está a passar.
A minha gata é apenas um dos exemplos.
Veio cá para casa como gato. Foi assim que a apresentaram e foi assim que ela se comportou nos primeiros meses. Enchia-me de orgulho. Finalmente tinha junto a mim um astuto companheiro de brincadeiras, outro macho com quem beber uma bejeca fresca ao final do dia e falar de bola. Ah e também o adereço ideal para as minhas imitações de vilão de James Bond... Mas isso já prometi que não voltaria a fazer. Pelo menos não em público.
Um belo dia vou ao veterinário e ele dá-me a notícia de que o que tinha em mãos não era na realidade um magnífico e viril exemplar macho mas sim uma fêmea com um corpo um pouco mais masculino. Uma espécie de Dina, a cantora de "Amor de Água Fresca", mas em gato. E eu tudo bem. Tal qual Nené, a antiga vedeta do Benfica que não sujava os calções, que um dia descobriu que o que tinha em casa não era bem aquilo que esperava, aceitei o que o destino me oferecia e perdoei as mentiras e os enganos protagonizados pela criatura. Perdoei mas não esqueci, claro está.
Os animais são más pessoas, a verdade é essa. Não é à toa que lhes chamam "animais"...
É que uma boa percentagem deles são umas verdadeiras bestas!
Convém não esquecer que damos cama e comida a esta ingrata de bigodes! E só não damos roupa lavada porque a quantidade de pêlo que ela produz e perde todos os dias dava para começar um negócio de mantas. Escusado será descrever as maravilhas que este isto faz pela higiene aqui do poiso...
Até porque não é só a gata que cá mora. Damos também guarida a uma coelha que, à falta de melhor termo, é aquilo que de mais semelhante conheço com o próprio anticristo.
Relembro também (peço desculpa por estar a desbobinar tanta coisa a meu favor mas é hora de dizer algumas verdades a estas duas) que fui comprar a sacana das orelhas compridas a um shopping manhoso e que ela na altura tinha mais sarna que uma prostituta em Saigão. Mas será que isso me demoveu? Não, senhores. Não é esse o tipo de pessoa que eu sou. Levei-a na mesma, ofereci-a à minha mulher e foi com muito orgulho que a vi durante meses a tratar a doença da coelha, a levá-la ao veterinário, a aplicar-lhe remédio nas chagas, a comprar-lhe os medicamentos, etc. O tipo de coisa que me devia fazer estar num pedestal aos olhos do bicho... Mas não é isso que acontece.
Odeia-me de morte.
Olha para mim de lado com um esgar de "Se te apanho a dormir, arranco-te a jugular à dentada e faço ninho no teu fígado ó filha da p**a!!!"
Eu faço que não é nada comigo mas sei bem que a única coisa que garante a minha segurança é o simples facto de ter mais de dez vezes o tamanho dela. Parecendo que não, faz diferença.
Mas ao menos a coelha tenta-me morder apenas em situações triviais como quando me chego demasiado perto da gaiola ou quando estou a tentar enfiá-la dentro de uma panela de água a ferver. Isso eu compreendo. Agora a gata devia saber melhor. Devia ter a noção que às 6:30 da manhã as pessoas estão na altura mais gostosa do soninho. Exactamente naquela fase em que faz muita diferença ter um animal aos guinchos no quarto ou a raspar com as unhas nas portas do armário. Às 6:30, fazerem-me este tipo de coisas é equivalente a servirem-me um pequeno almoço de café com leite e testículos de boi. Muito desagradável.
Confesso que já perdi a cabeça por uma vez ou outra e arremessei o chinelo contra o demónio. Sempre sem sucesso porque, no fundo, é isso mesmo que ela quer. Que eu me descontrole e passe a ser mais um a usar pijama mesmo durante o dia e a tomar as refeições por uma palhinha. Mas eu recuso-me a dar-lhe esse gostinho.
Vale a pena recuar até aos anos 90 quando, ainda em casa de meus pais, tive um pequeno peixinho cor de laranja chamado Aníbal. O peixe tinha este nome por duas razões fundamentais: primeiro porque sendo laranja fazia sentido que tivesse o primeiro nome do conhecido político do PSD, e actual Presidente da República, Cavaco Silva e segundo porque na altura eu era AINDA mais estúpido do que sou hoje. Era Aníbal, o peixinho. E rodopiava no seu aquário de balão todo o santo dia. Que mais havia para fazer ali? O comportamento obsessivo do animal não era mais do que compreensível, diga-se.
Vai daí, uma manhã, encontrei o Aníbal inerte no chão. Deitado de lado, ainda com um movimento leve de barbatanas, fazendo antever que não teria sido há muito que saltara do aquário, feito idiota, tendo ido parar às tábuas do soalho.
Grito mudo.
Pânico.
O meu Aníbal, quase morto.
O meu animal de estimação.
...
Peguei nele com jeitinho.
Icei-o do chão.
E depositei-o de novo na sua casa de vidro.
Ainda vivia, o malandro.
...
Podia ser uma bonita história com final feliz não fosse o desgraçado ter ficado com metade do corpo colada ao chão. Nesse momento, assemelhava-se muitíssimo ao vilão Two-Face, das histórias do Batman, e o seu aspecto era deveras grotesco. Do lado direito, vigoroso como sempre: olho brilhante, barbatana vivaça, escamas impecáveis. Do lado esquerdo, um cadáver autêntico: nem olho, nem barbatana, nem escamas nem nada de nada. O Aníbal era agora um ser "especial" e nem o facto de apenas conseguir nadar em 360º por só ter uma barbatana me fez desitir dele. E assim foi até ao dia em que partiu. Ou seja, o dia seguinte.
Bom, esta história de terror toda p'ra quê?
Nem eu sei bem.
Acho que era para provar que sou um tipo porreiro para os animais em geral e eles, em geral, são maus para mim. Para mim e para a grande maioria das pessoas, é importante referir. Falemos de pandas, por exemplo. Os bichos há décadas que dão a dica que não estão interessados em continuar por aqui, que estão prontos para o estágio seguinte da existência. Basicamente, desistiram de pinar. E não há um dia que passe que os chineses não vão lá espicaçar os ursos, mostrando-lhes vídeos pornográficos e citando-lhes poemas lascivos. Querem à força ter mais pandas no mundo, nem que tenham de matar todos os pandas para consegui-lo.
Curiosa a forma como os animais conseguem lixar o sistema.
E fazem-no conscientemente, não me venham com cantigas a dizer que os bichos são ingénuos e todos uns santinhos. Eles sabem o que fazem e se o fazem é porque de alguma forma o merecemos. Pelo pardieiro em que conseguimos transformar este planeta, merecemo-lo sem dúvida. Aí tenho de dizer também eu mea culpa.
E talvez por isso nem tenha ficado muito ofendido quando em plena agitação matinal arremessei a minha pantufa... E entre um ou outro flash ensonado... Penso ter visto a minha gata virar-se para mim e fazer um gesto feio com a pata.
Definitivamente, acho que estamos em guerra.
Thursday, January 6, 2011
Isto promete...
Com que então ouvi dizer que andava por aí um ano novo...
Diz que se chama 2011. E também diz que promete invadir-nos o recto tal qual um supositório XXL. Isto é o que se diz.
Assim à primeira vista, 2011 parece-me aqueles putos que ainda nem sequer falam mas já auguram vir a ser uns marginais do pior, que um gajo olha para eles e não há dúvida que aos doze anos já fizeram dois filhos à educadora de infância e um ao psicólogo da casa de correcção. O novo ano, embora ainda recém-nascido, não engana ninguém. Vai ser uma besta!
Como eu já sabia disto tudo mesmo antes de olhar para o imberbe na cara, decidi fugir para bem longe na passagem de ano. Para um local tão estranho e inóspito que nem o mais astuto dos anos me encontraria... Há que dizer que 1986 esteve lá muito perto, mas não conseguiu ir além da estação de serviço de Viseu. Isto porque se enganou e pôs gasóleo em vez de gasolina no depósito. E, como todos sabemos, a partir da década de 80, os anos passaram a andar a Sem Chumbo 95.
Bom, estupidez extrema aparte, convém desvendar desde já que decidi ir passar o fim de ano a Bragança.
Sim, a Bragança que fica no extremo norte de Portugal.
Isto porque, à falta de melhores termos, sou um erudito incorrigível, sedento por cultura, partindo em busca das mais ancestrais tradições pagãs das aldeias no acolher do novo ano. E também porque me interessava bastante encher o bandulho à grande e à transmontana. Digamos que tudo contribuiu um bocadinho, vá.
Uma das tradições da região é a chamada "Festa dos Rapazes", em que jovens solteiros saem das suas casas de garrafa de aguardente em punho, cantando e dançando, na ânsia de impressionar as mulheres. E, pensando bem, a diferença entre um grupo de "jovens solteiros" e outro de "alcoólicos exibicionistas" acaba por ser uma e só uma palavra: tradição. É que também já assisti a tradições deste género no Bairro Alto, por exemplo. E, escusado será dizer que nenhuma delas acabou bem.
Mas eu lá fui. E confesso que não foi fácil explicar a alguns amigos meus que ia fazer centenas de quilómetros para ir a uma "festa de rapazes". Mesmo dizendo que a minha mulher iria naturalmente comigo, houve olhares de soslaio que eu preferia que não tivessem acontecido. Enfim, lá fui. E convém dizer que Bragança é longe p'ra c*****o. Demora-se quase um dia inteiro a lá chegar! E eu pensava que isto só acontecia no tempo dos reis...
Alojamento? Hotel Íbis.
Sim, porque se é para festejar o fim de ano, não se olha a despesas. Só do bom e do melhor aqui p'ró campeão.
Bragança em si é interessante. E em mim acabou por ser interessante também.
Não havia muita gente na rua, apesar de não estar muito frio, o que me levou a desconfiar de um de dois cenários possíveis: ou as pessoas estavam todas na parte boa da cidade, parte essa que acabei por não ver, ou então andava tudo a fugir de mim que não faço a barba há quase um mês.
Seja como for, tive sempre a ideia de estar a explorar um cenário de um filme em que faltavam claramente os figurantes. E os poucos que havia, repetiam-se: vi o mesmo casal mais do que uma vez, o que me leva a crer que até na longa metragem que é a minha vida se começam a sentir cortes orçamentais. Os mesmos tipos que fazem de donos do restaurante onde vou almoçar são forçados a correr, colocando bigodes e fardas ao mesmo tempo, para fazerem de agentes da GNR que me irão fazer parar numa operação stop mais à frente. E provavelmente multar-me pelo vinho que me serviram há uma hora atrás. Enfim, tudo isto é muito confuso.
O jantar de fim de ano foi agradável, como são todos na companhia da minha linda mulher (uma das resoluções de ano novo, como já devem ter reparado, é convencê-la a fazer mais vezes sushi). Depois de sairmos do restaurante, às 23h, partimos em busca do local da "animação". Não havia. Quer dizer, local havia, não me interpretem mal. Haviam vários até, que Bragança não é assim tão pequena. Mas "animação" nem vê-la.
O que é que se faz quando falta meia hora para a passagem do ano e não se encontra mais de 6 pessoas juntas em lado nenhum? Vai-se para o castelo, claro está.
Na zona do castelo de Bragança, além de três pensionistas embriagados que aqueciam as mãos ao calor de uma grande fogueira, ou madeiro como lhe chamam por lá, estava também um super deprimente grupo de saloios que claramente viu pela primeira vez o passar do ano fora da casa dos pais. E se estavam bêbados, os imbecis... Pelo menos os guinchos que as moças soltavam, muralha fora, a isso apontavam. Ou era bebedeira ou era cio. E eu desejei ardentemente pela primeira hipótese.
Às 23h45 apeteceu-me urinar, não vou mentir. E na ausência de casa de banho a solução foi a muralha do castelo. Portanto, acabei 2010 como um javardo que mija para cima do património nacional e iniciei 2011 como o único indivíduo lúcido entre uma trupe de cavalgaduras bêbadas (excluindo a minha linda mulher, é claro. Eu já disse que ela é linda? Ah pois disse. Bom, mas nunca é demais repetir...)
Chegando a altura da contagem decrescente, como é óbvio cada um contou para o seu lado. Eu decidi não ligar a isso porque é certo que não há nada mais espalhafatoso que uma valente catrefada de fogo de artifício para indicar a meia noite.
4...
3...
2...
1...
PÁ (foguete)
PÁ (foguete)
...
...
...
E mais nada.
Acabou-se a festa.
Dois foguetes, xixi, cama. Foi mais ou menos esta a mensagem que Bragança quis passar.
E eu tudo bem... Como não gosto de contrariar ninguém, e muito menos uma cidade, assim fiz. Afinal de contas, havia uma suite no espanpanante Íbis a chamar por mim.
No dia seguinte, a minha linda mulher (gosto mais do sushi com abacate do que com pepino, é bom não esquecer) amanheceu a mostrar-me uma lista das aldeias envolventes e das suas tradições de fim de ano. Afinal a Festa dos Rapazes era mais na altura do Dia de Reis, coisa que muito me teria aborrecido caso eu fosse um homossexual ensandecido e sedento por privar com adolescentes ébrios de faces rosadas. Porém, como evidentemente não sou nada disso, pelo menos da última vez que olhei para o BI, essa "desfeita" foi-me completamente indiferente.
A boa notícia é que não faltavam rituais por aquelas terrinhas fora.
A má notícia é que os mais giros aconteciam nas aldeias que estavam mais longe.
Portanto, lá nos metemos no carro. Prestes a fazer oitenta quilómetros para ver tipos mascarados a fazer macacadas. Não me ocorre melhor maneira de começar o novo ano.
Quando chegámos à primeira paragem, não só não se viam macacadas como também não se via ninguém nas ruas. "Que surpresa chocante! E isto que estava a correr tão bem...", pensei eu. Ao sairmos da viatura, eu e a minha mulher ficámos em silêncio a olhar para a igreja local. Para isso e para o conta-quilómetros do nosso carro, que em dois dias tinha feito o equivalente a cinco voltas à Sibéria sem atalhos. Foi então que começámos a ouvir um som característico, o som das gaitas de foles. A festa estava a decorrer e não podia estar longe! Aquilo era tão pequeno que nada era longe. Corremos que nem loucos, de máquina fotográfica em punho, livres como crianças para ver o maravilhoso espectáculo pagão que 2011 nos reservava.
A música inebriante. Tão linda. Tão melodiosa.
Corríamos, entusiasmados.
Cada vez mais perto.
Linda, a música.
Linda, a minha mulher, a correr.
Ofegante, obeso, também eu corria.
Mais perto.
Música.
Mulher.
Obeso.
Corrida.
A festa era já ao virar da esquina.
Estávamos lá quase!!!
Virámos a esquina...
Acabou!
...
...
Foi mais ou menos isto.
Metemo-nos no carro e fomos embora.
Ainda visitámos mais uma aldeia para ver um tipo com pinta de ex-toxicodependente vestido de diabo, ou lá o que era, a bambolear-se em troca de uma ou duas moedas. Nada que não se veja em Arroios durante o ano todo, diga-se. Por isso, metemo-nos novamente no carro e voltámos para Bragança.
E foi assim, em traços muito gerais, que entrei no novo ano.
Claro que fora isto, passeei muito, comi e bebi como deve ser, partilhei momentos especiais com a minha mulher, que é linda, by the way, e fiquei a conhecer coisas que não conhecia. Escusava era de ter ido p'ra tão longe, porra! Mas agora já está, já está...
Não sei se entrei em 2011 com o pé direito se com o pé esquerdo. Seja como for, sei que devo ter entrado com ambos os pés nos pedais do carro porque pouco mais fiz no fim de semana.
Quanto aos rapazes da Festa dos Rapazes, não sei se já a organizaram ou não mas procurem não se embebedar demasiado sob pena de acordarem de manhã ao lado do Manel da Drogaria. Isso ou na cama da velha do cabelo roxo que mora no prédio onde eu trabalho... Já falei sobre ela no passado.
Afinal de contas nem toda a gente pode ter a minha sorte e acordar todos os dias ao lado de uma mulher que é linda...
E que bem que ela faz sushi!
Diz que se chama 2011. E também diz que promete invadir-nos o recto tal qual um supositório XXL. Isto é o que se diz.
Assim à primeira vista, 2011 parece-me aqueles putos que ainda nem sequer falam mas já auguram vir a ser uns marginais do pior, que um gajo olha para eles e não há dúvida que aos doze anos já fizeram dois filhos à educadora de infância e um ao psicólogo da casa de correcção. O novo ano, embora ainda recém-nascido, não engana ninguém. Vai ser uma besta!
Como eu já sabia disto tudo mesmo antes de olhar para o imberbe na cara, decidi fugir para bem longe na passagem de ano. Para um local tão estranho e inóspito que nem o mais astuto dos anos me encontraria... Há que dizer que 1986 esteve lá muito perto, mas não conseguiu ir além da estação de serviço de Viseu. Isto porque se enganou e pôs gasóleo em vez de gasolina no depósito. E, como todos sabemos, a partir da década de 80, os anos passaram a andar a Sem Chumbo 95.
Bom, estupidez extrema aparte, convém desvendar desde já que decidi ir passar o fim de ano a Bragança.
Sim, a Bragança que fica no extremo norte de Portugal.
Isto porque, à falta de melhores termos, sou um erudito incorrigível, sedento por cultura, partindo em busca das mais ancestrais tradições pagãs das aldeias no acolher do novo ano. E também porque me interessava bastante encher o bandulho à grande e à transmontana. Digamos que tudo contribuiu um bocadinho, vá.
Uma das tradições da região é a chamada "Festa dos Rapazes", em que jovens solteiros saem das suas casas de garrafa de aguardente em punho, cantando e dançando, na ânsia de impressionar as mulheres. E, pensando bem, a diferença entre um grupo de "jovens solteiros" e outro de "alcoólicos exibicionistas" acaba por ser uma e só uma palavra: tradição. É que também já assisti a tradições deste género no Bairro Alto, por exemplo. E, escusado será dizer que nenhuma delas acabou bem.
Mas eu lá fui. E confesso que não foi fácil explicar a alguns amigos meus que ia fazer centenas de quilómetros para ir a uma "festa de rapazes". Mesmo dizendo que a minha mulher iria naturalmente comigo, houve olhares de soslaio que eu preferia que não tivessem acontecido. Enfim, lá fui. E convém dizer que Bragança é longe p'ra c*****o. Demora-se quase um dia inteiro a lá chegar! E eu pensava que isto só acontecia no tempo dos reis...
Alojamento? Hotel Íbis.
Sim, porque se é para festejar o fim de ano, não se olha a despesas. Só do bom e do melhor aqui p'ró campeão.
Bragança em si é interessante. E em mim acabou por ser interessante também.
Não havia muita gente na rua, apesar de não estar muito frio, o que me levou a desconfiar de um de dois cenários possíveis: ou as pessoas estavam todas na parte boa da cidade, parte essa que acabei por não ver, ou então andava tudo a fugir de mim que não faço a barba há quase um mês.
Seja como for, tive sempre a ideia de estar a explorar um cenário de um filme em que faltavam claramente os figurantes. E os poucos que havia, repetiam-se: vi o mesmo casal mais do que uma vez, o que me leva a crer que até na longa metragem que é a minha vida se começam a sentir cortes orçamentais. Os mesmos tipos que fazem de donos do restaurante onde vou almoçar são forçados a correr, colocando bigodes e fardas ao mesmo tempo, para fazerem de agentes da GNR que me irão fazer parar numa operação stop mais à frente. E provavelmente multar-me pelo vinho que me serviram há uma hora atrás. Enfim, tudo isto é muito confuso.
O jantar de fim de ano foi agradável, como são todos na companhia da minha linda mulher (uma das resoluções de ano novo, como já devem ter reparado, é convencê-la a fazer mais vezes sushi). Depois de sairmos do restaurante, às 23h, partimos em busca do local da "animação". Não havia. Quer dizer, local havia, não me interpretem mal. Haviam vários até, que Bragança não é assim tão pequena. Mas "animação" nem vê-la.
O que é que se faz quando falta meia hora para a passagem do ano e não se encontra mais de 6 pessoas juntas em lado nenhum? Vai-se para o castelo, claro está.
Na zona do castelo de Bragança, além de três pensionistas embriagados que aqueciam as mãos ao calor de uma grande fogueira, ou madeiro como lhe chamam por lá, estava também um super deprimente grupo de saloios que claramente viu pela primeira vez o passar do ano fora da casa dos pais. E se estavam bêbados, os imbecis... Pelo menos os guinchos que as moças soltavam, muralha fora, a isso apontavam. Ou era bebedeira ou era cio. E eu desejei ardentemente pela primeira hipótese.
Às 23h45 apeteceu-me urinar, não vou mentir. E na ausência de casa de banho a solução foi a muralha do castelo. Portanto, acabei 2010 como um javardo que mija para cima do património nacional e iniciei 2011 como o único indivíduo lúcido entre uma trupe de cavalgaduras bêbadas (excluindo a minha linda mulher, é claro. Eu já disse que ela é linda? Ah pois disse. Bom, mas nunca é demais repetir...)
Chegando a altura da contagem decrescente, como é óbvio cada um contou para o seu lado. Eu decidi não ligar a isso porque é certo que não há nada mais espalhafatoso que uma valente catrefada de fogo de artifício para indicar a meia noite.
4...
3...
2...
1...
PÁ (foguete)
PÁ (foguete)
...
...
...
E mais nada.
Acabou-se a festa.
Dois foguetes, xixi, cama. Foi mais ou menos esta a mensagem que Bragança quis passar.
E eu tudo bem... Como não gosto de contrariar ninguém, e muito menos uma cidade, assim fiz. Afinal de contas, havia uma suite no espanpanante Íbis a chamar por mim.
No dia seguinte, a minha linda mulher (gosto mais do sushi com abacate do que com pepino, é bom não esquecer) amanheceu a mostrar-me uma lista das aldeias envolventes e das suas tradições de fim de ano. Afinal a Festa dos Rapazes era mais na altura do Dia de Reis, coisa que muito me teria aborrecido caso eu fosse um homossexual ensandecido e sedento por privar com adolescentes ébrios de faces rosadas. Porém, como evidentemente não sou nada disso, pelo menos da última vez que olhei para o BI, essa "desfeita" foi-me completamente indiferente.
A boa notícia é que não faltavam rituais por aquelas terrinhas fora.
A má notícia é que os mais giros aconteciam nas aldeias que estavam mais longe.
Portanto, lá nos metemos no carro. Prestes a fazer oitenta quilómetros para ver tipos mascarados a fazer macacadas. Não me ocorre melhor maneira de começar o novo ano.
Quando chegámos à primeira paragem, não só não se viam macacadas como também não se via ninguém nas ruas. "Que surpresa chocante! E isto que estava a correr tão bem...", pensei eu. Ao sairmos da viatura, eu e a minha mulher ficámos em silêncio a olhar para a igreja local. Para isso e para o conta-quilómetros do nosso carro, que em dois dias tinha feito o equivalente a cinco voltas à Sibéria sem atalhos. Foi então que começámos a ouvir um som característico, o som das gaitas de foles. A festa estava a decorrer e não podia estar longe! Aquilo era tão pequeno que nada era longe. Corremos que nem loucos, de máquina fotográfica em punho, livres como crianças para ver o maravilhoso espectáculo pagão que 2011 nos reservava.
A música inebriante. Tão linda. Tão melodiosa.
Corríamos, entusiasmados.
Cada vez mais perto.
Linda, a música.
Linda, a minha mulher, a correr.
Ofegante, obeso, também eu corria.
Mais perto.
Música.
Mulher.
Obeso.
Corrida.
A festa era já ao virar da esquina.
Estávamos lá quase!!!
Virámos a esquina...
Acabou!
...
...
Foi mais ou menos isto.
Metemo-nos no carro e fomos embora.
Ainda visitámos mais uma aldeia para ver um tipo com pinta de ex-toxicodependente vestido de diabo, ou lá o que era, a bambolear-se em troca de uma ou duas moedas. Nada que não se veja em Arroios durante o ano todo, diga-se. Por isso, metemo-nos novamente no carro e voltámos para Bragança.
E foi assim, em traços muito gerais, que entrei no novo ano.
Claro que fora isto, passeei muito, comi e bebi como deve ser, partilhei momentos especiais com a minha mulher, que é linda, by the way, e fiquei a conhecer coisas que não conhecia. Escusava era de ter ido p'ra tão longe, porra! Mas agora já está, já está...
Não sei se entrei em 2011 com o pé direito se com o pé esquerdo. Seja como for, sei que devo ter entrado com ambos os pés nos pedais do carro porque pouco mais fiz no fim de semana.
Quanto aos rapazes da Festa dos Rapazes, não sei se já a organizaram ou não mas procurem não se embebedar demasiado sob pena de acordarem de manhã ao lado do Manel da Drogaria. Isso ou na cama da velha do cabelo roxo que mora no prédio onde eu trabalho... Já falei sobre ela no passado.
Afinal de contas nem toda a gente pode ter a minha sorte e acordar todos os dias ao lado de uma mulher que é linda...
E que bem que ela faz sushi!
Sunday, December 26, 2010
Então esse Natal? Lá foi...
- Então esse Natal? – pergunta-me um ou outro conhecido, ao passar por mim na rua.
- Lá foi… - respondo eu, enquanto atravesso para o passeio contrário, evitando assim o arrastar da conversa.
Não que tenha algum tipo de aversão a falar sobre a quadra. Ou mesmo que tenha aversão à quadra em si. Custa-me é participar em conversa de chacha.
Quando as pessoas perguntam “Então esse Natal” é de um “Lá foi…” que estão à espera, e não de “Fui p’ra cama à beira do vómito, com azevias até à boca do esófago!” ou “Tive um claro prejuízo no balanço das prendas recebidas e oferecidas…” ou até de “Estive a uma unha negra de arrancar a garganta de um dos meus primos à dentada”. Não que eu sinta vontade de dar uma destas respostas mas sei que pode ser a realidade para algumas pessoas.
A verdade é que ninguém é verdadeiramente sincero no “troco” que dá às questões sobre o Natal e a razão é simples: tirando aquela malta que detesta mesmo a época natalícia e que se recusa a celebrá-la, como o velhaco Gargamel dos estrunfes ou os judeus, o resto sente que dizer mal do Natal é dizer mal da família, das crianças e, acima de tudo, da paz no mundo.
Nada mais falso, diga-se. Um tipo pode perfeitamente detestar a família, desprezar as crianças e cuspir na paz no mundo e continuar a apreciar o Natal. Cada coisa é uma coisa.
Os católicos gostam do Natal porque, no fundo, estão a celebrar o aniversário de alguém que veneram. E fazem-no no conforto do lar, junto ao calor da lareira, em sossego com aqueles que lhes são importantes. Nada de “E se Jesus quer ser cá da malta...”, não é um desses aniversários. É uma festa mais íntima em que, por regra, à uma da manhã está tudo "a aquecer a água para se ir deitar" (como eu amo esta expressão...)
Depois também há quem, como eu, não seja católico mas veja no Natal uma espécie de festival temático anual, com algumas particularidades tradicionais interessantes, sabores regionais de primeira linha e músicas alegres. Claro que não podemos generalizar e achar que todos os sabores regionais feitos nesta quadra são de primeira linha ou que os milhões de cantigas natalícias aconchegam mas... Acho que me faço entender. A média acaba por ser quase sempre bastante positiva. E a média é que importa.
No entanto, há coisas no Natal que são, à falta de melhor termo, enormemente insuportáveis.
Mesmo muito!
E era um favor que me faziam se para o ano todas elas deixassem de existir.
Acho que tornaria o Natal uma época ainda mais intensa com um índice de aceitação mais próxima dos 100%, mais campanhas de solidariedade para ajudar os desgraçadinhos que fazemos questão de ignorar o resto do ano e mais gestos de carinho para com familiares a quem depois não atendemos o telefone. Tudo para o melhor, portanto.
Para dar um avançozinho aos trabalhos, que isto de limar arestas é coisa que leva algum tempo, principalmente quando falamos do Natal, deixo aqui uma lista completa daquilo que, a meu ver, deveria deixar de existir. E notem que quando digo "a meu ver" é o mesmo que não dissesse nada. Porque como vejo muito bem, quase tanto como a águia que foi despedida pelo Benfica (sempre a inovar, este glorioso), isto deixa de ser opinião. É uma lista daquilo que não devia transitar para o Natal de 2011 e mainada! Aqui vai ela:
LISTA DAS COISAS QUE SE VERIFICARAM NO NATAL DE 2010, ASSIM COMO SE VERIFICAM TODOS OS NATAIS, E QUE CONVINHA NÃO SE REPETIREM EM 2011.
1.
A MALDITA CANTIGA DO CORO DE SANTO AMARO DE OEIRAS
Aos 28 anos, penso que cheguei a um ponto em que já não consigo traduzir por palavras o tumulto interior que sinto quando ouço esta vil cantilena. Há uma ou duas expressões em swahili que estão lá muito perto, uma outra em cantonês, mas nenhuma faz real justiça...
QUE CANCRO ATROZ! Na falta de melhor foi esta...
Será que não há mais nenhuma música que crianças pequenas possam cantar para enternecer a porra dos corações?! Em dezenas de anos não houve um campeão qualquer que se chegou à frente e disse "Ehpá tudo muito bem, o Coro de Santo Amaro de Oeiras e tal, mas isto já é um bocado demais e está na hora dos putos cantarem outra coisa..." NUNCA! COMO É QUE ISTO NUNCA ACONTECEU?!
Isto para não falar no estranho que é termos visto a mesma música, a exacta mesma gravação, a ser "cantada" em playback durante anos por crianças diferentes. Os mesmos versos, a mesma voz, na boca de dezenas de miúdas diferentes, de várias formas, raças e feitios, no mais mal engendrado truque de ilusionismo de sempre. A mim não me enganam eles. Eu já cantei uma vez num karaoke e sei bem do que falo.
Não sei onde andam os miúdos originais que cantaram aquilo mas afigura-se-me que hoje serão mais velhos do que eu. E aqueles que não estão presos terão certamente na cabeça um capacete de eléctrodos...
Portanto, a minha primeira exigência está em abolirem de vez esta canção, ok? Não é preciso nada demais, apenas queimar todas as cópias já feitas, os originais e as pautas e arrancar o coração pelas costas a qualquer um que comece a trauteá-la no futuro. Se houver organização e rigor a coisa faz-se.
2.
AS CASCAS DE LARANJA NO BOLO REI
Está bem de ver como é que isto aconteceu. Uma Filipa Vá Com Deus qualquer andava toda atarefada a fazer bolos rei, uns atrás dos outros, quando sem querer despejou o balde das cascas para dentro da massa. Depois de perceber a burrada que tinha feito e de berrar alto e bom som o "Manual de Ética e de Bons Costumes dos Mangas de Alfama", concluiu que tinha apenas duas soluções: ou admitia o erro, deitava tudo para o lixo e passava o Natal a caldos Knorr por causa do prejuízo ou deixava aquilo ficar e dizia que agora se comiam cascas caramelizadas no estrangeiro.
Como esta é a frase que mais convence os portugueses... A coisa pegou. E apesar de toda a gente fazer uma careta quando mastiga o sabor acre da casca de laranja, todos continuam a comer.
Vá lá ver uma coisa...
HÁ UM NOME PARA AS CRIATURAS QUE COMEM CASCAS DE LARANJA.
E O NOME É PORCO.
Os porcos é que comem as cascas todas, os caroços e tudo mais que se atire para a pocilga. Se por baixo das cascas estiver um bolo rei também não são eles que se vão queixar.
Portanto, vamos lá fazer um resumo...
Pinhões OK
Passas OK
Fruta cristalizada OK
Cascas de Laranja NÃO
...
Portanto, a minha segunda exigência está em manterem o lixo onde ele pertence: no caixote. Deixem as iguarias na composição do bolo, sim senhor. Bolo esse que é delicioso, não há dúvida. Agora meterem-lhe cascas por cima é o mesmo que cobrirem a Soraia Chaves de vomitado. Faço-me entender?
3.
A LEOPOLDINA
Sim, eu sei que é um pouco contrasenso falar da Leopoldina e não falar da recém-criada Popota. No entanto, esta segunda tem em si um certo carácter "slutty" que me atrai bastante. E como tenho muito respeito pelas pêgas em geral prefiro dirigir o meu ódio à pássara e apenas à pássara.
Já não há paciência para a história do "mundo encantado dos brinquedos" e para as operações plásticas que a bicha faz de ano para ano. Antes parecia um frango voador com obstipação, agora parece a Angelina Jolie com cabeça de avestruz. O formato muda mas a bizarria continua. Acho mal é chatearem a Lili Caneças por parecer um boneco de cêra e nem abordarem as intervenções cirúrgicas da pássara maldita. E quem diz a Cinha Jardim diz a Leopoldina. Enfim...
"- Mas como seria possível acabarem com a Leopoldina, Saguim?! Ela é um ídolo para as crianças!" exclamam as vozes na minha cabeça, com bastante estupidez.
Uma criatura amarela com olhos esbugalhados.... Um ídolo para as crianças.
Na minha terra, quem é amarelo e tem olhos esbugalhados é toxicodependente. Não é avestruz.
E que eu saiba, ser ídolo para as crianças não é o objectivo de nenhum deles. Pelo menos não à primeira vista. Parecem-me bem mais preocupados com outras coisas.
Portanto, é para acabar sim. Só enerva! "Ah e tal comprem os brinquedos manhosos da pássara que nós damos metade para os Hospitais e fazemos o favor de ficar com a outra metade para nós... Caso seja preciso ir à bica ou assim..." Por favor, já chega!
4.
O NATAL DOS HOSPITAIS
Que é, ao contrário daquilo que muitos pensam, a principal causa de morte em Portugal Continental. O momento em que todas as enfermeiras se esquecem de dar os medicamentos aos pacientes, a altura em que se desligam todas as máquinas dos Cuidados Intensivos para alimentar a mesa de mistura da banda do Marco Paulo. Mais letal do que uma pasta de dentes chinesa.
Além disso, há também o carácter ALTAMENTE DEPRIMENTE que se encerra no nome "Natal dos Hospitais". Ok, eles estão lá fechados e muitos não voltarão a ver a luz do dia. Sabemos disso tudo. Por isso em vez de lhe chamarem literalmente aquilo que é, podiam chamar-lhe "Natal da malta com boa saúde", "Natal dos indivíduos que qualquer dia ainda vão aos Jogos Olímpicos" ou "Natal dos tipos que, saindo das cadeiras de rodas, ainda se portariam muito bem na cama com a Helena Coelho"... Enfim, só para dar umas ideias.
Agora, "Natal dos Hospitais" parece-me desadequado. No nome e no formato. Há artistas que hoje em dia só fazem aquilo, chega a ser mais importante para eles do que para os próprios doentes. É o seu Rock in Rio. E isso chega a ser mais triste do que aquele conto do Hans Christian Andersen em que uma miúda queima fósforo após fósforo até patinar no gelo (e atenção que neste caso, patinar significa mesmo morrer).
Portanto, já era altura de acabarem também com isso e devolverem a alegria à quadra. Assim como assim, ninguém se lembra que há gente nos hospitais quando se está a encher o bucho com sonhos e filhozes. A menos que se coma tanto que se tenha de ir a um. Mas isso também já não me acontece há alguns anos...
5.
GATOS NO NATAL
Deixei esta para o fim por ser a mais pessoal e também aquela que à partida pode indicar às pessoas que o meu estado mental não é o mais são. Se eu tivesse colocado este ponto no princípio, no lugar de todo o discurso coerente e muito correcto que tive até agora, dificilmente leriam até ao fim. Mas pronto, é mais ou menos isto: no Natal, os gatos deviam ir de férias para longe. Tipo Palma de Maiorca ou Lloret del Mar, como fazem os estudantes nas viagens de finalistas.
Isto porque os gatos, como é sabido, adoram os enfeites que penduramos na árvore. Adoram.
Mas adoram-nos mais no chão do que nos ramos, o que torna a convivência entre felinos e árvores de Natal quase impossível. A menos que se tomem as devidas precauções...
No ano passado eu tomei-as e não tivesse hoje quase todos os meus pertences em caixas de cartão voltaria a tomá-las.
Ouvi dizer que os gatos não gostavam do cheiro a citrinos. Vai daí, comprei um detergente com aroma a limão, preparei uma solução com água e borrifei a árvore toda. Coisa que até podia ter corrido mal porque as luzes já estavam ligadas. Mas enfim, lá a borrifei na mesma.
Não resultou. A gata continuava a violentar a árvore.
Vai daí, decidi deixar os produtos artificiais de lado e apostei na "real thing". Peguei num limão, cortei-lhe tiras de casca e pendurei-as nos ramos, como se de enfeites se tratassem.
Não resultou. A gata divertia-se a roer os ramos e a dar patadas nas bolas.
Irritei-me. Fui buscar o piri-piri e untei as pontas dos ramos. Sorriso demoníaco no rosto. Em pleno Natal.
Resultou mais ou menos. Ela apercebeu-se que roer os ramos talvez já não fosse grande ideia mas continuava a disparar grandes murraças nos enfeites.
Era preciso algo mais. Algo que a mantivesse à distância.
Pimenta. Muita.
A árvore ficou assente em pó branco. Tanto que parecia neve... E o Natal prosseguiu, mais calmo do que nunca.
Foi, porém, uma solução de recurso. Nada me garante que a minha gata não está numa dieta intensiva de especiarias, ela passa muito tempo sozinha durante o dia, preparando-se para um novo frente-a-frente com a árvore que está agora empacotada algures. De bom grado lhe pagava um fim de semana no Íbis para me poupar a tal chatice.
E é isto. Tudo o resto pode continuar, com peso e medida claro está, que não me importo.
Agora é começar a pensar no Natal do ano que vem, que a malta não se safa sem Natais.
Eu nem tirava as luzes das ruas que era para não se perder o espírito.
E admiro a postura do Sporting por estar em "modo Natal" desde o início da época.
Se não é o Sporting a dar o exemplo...
- Lá foi… - respondo eu, enquanto atravesso para o passeio contrário, evitando assim o arrastar da conversa.
Não que tenha algum tipo de aversão a falar sobre a quadra. Ou mesmo que tenha aversão à quadra em si. Custa-me é participar em conversa de chacha.
Quando as pessoas perguntam “Então esse Natal” é de um “Lá foi…” que estão à espera, e não de “Fui p’ra cama à beira do vómito, com azevias até à boca do esófago!” ou “Tive um claro prejuízo no balanço das prendas recebidas e oferecidas…” ou até de “Estive a uma unha negra de arrancar a garganta de um dos meus primos à dentada”. Não que eu sinta vontade de dar uma destas respostas mas sei que pode ser a realidade para algumas pessoas.
A verdade é que ninguém é verdadeiramente sincero no “troco” que dá às questões sobre o Natal e a razão é simples: tirando aquela malta que detesta mesmo a época natalícia e que se recusa a celebrá-la, como o velhaco Gargamel dos estrunfes ou os judeus, o resto sente que dizer mal do Natal é dizer mal da família, das crianças e, acima de tudo, da paz no mundo.
Nada mais falso, diga-se. Um tipo pode perfeitamente detestar a família, desprezar as crianças e cuspir na paz no mundo e continuar a apreciar o Natal. Cada coisa é uma coisa.
Os católicos gostam do Natal porque, no fundo, estão a celebrar o aniversário de alguém que veneram. E fazem-no no conforto do lar, junto ao calor da lareira, em sossego com aqueles que lhes são importantes. Nada de “E se Jesus quer ser cá da malta...”, não é um desses aniversários. É uma festa mais íntima em que, por regra, à uma da manhã está tudo "a aquecer a água para se ir deitar" (como eu amo esta expressão...)
Depois também há quem, como eu, não seja católico mas veja no Natal uma espécie de festival temático anual, com algumas particularidades tradicionais interessantes, sabores regionais de primeira linha e músicas alegres. Claro que não podemos generalizar e achar que todos os sabores regionais feitos nesta quadra são de primeira linha ou que os milhões de cantigas natalícias aconchegam mas... Acho que me faço entender. A média acaba por ser quase sempre bastante positiva. E a média é que importa.
No entanto, há coisas no Natal que são, à falta de melhor termo, enormemente insuportáveis.
Mesmo muito!
E era um favor que me faziam se para o ano todas elas deixassem de existir.
Acho que tornaria o Natal uma época ainda mais intensa com um índice de aceitação mais próxima dos 100%, mais campanhas de solidariedade para ajudar os desgraçadinhos que fazemos questão de ignorar o resto do ano e mais gestos de carinho para com familiares a quem depois não atendemos o telefone. Tudo para o melhor, portanto.
Para dar um avançozinho aos trabalhos, que isto de limar arestas é coisa que leva algum tempo, principalmente quando falamos do Natal, deixo aqui uma lista completa daquilo que, a meu ver, deveria deixar de existir. E notem que quando digo "a meu ver" é o mesmo que não dissesse nada. Porque como vejo muito bem, quase tanto como a águia que foi despedida pelo Benfica (sempre a inovar, este glorioso), isto deixa de ser opinião. É uma lista daquilo que não devia transitar para o Natal de 2011 e mainada! Aqui vai ela:
LISTA DAS COISAS QUE SE VERIFICARAM NO NATAL DE 2010, ASSIM COMO SE VERIFICAM TODOS OS NATAIS, E QUE CONVINHA NÃO SE REPETIREM EM 2011.
1.
A MALDITA CANTIGA DO CORO DE SANTO AMARO DE OEIRAS
Aos 28 anos, penso que cheguei a um ponto em que já não consigo traduzir por palavras o tumulto interior que sinto quando ouço esta vil cantilena. Há uma ou duas expressões em swahili que estão lá muito perto, uma outra em cantonês, mas nenhuma faz real justiça...
QUE CANCRO ATROZ! Na falta de melhor foi esta...
Será que não há mais nenhuma música que crianças pequenas possam cantar para enternecer a porra dos corações?! Em dezenas de anos não houve um campeão qualquer que se chegou à frente e disse "Ehpá tudo muito bem, o Coro de Santo Amaro de Oeiras e tal, mas isto já é um bocado demais e está na hora dos putos cantarem outra coisa..." NUNCA! COMO É QUE ISTO NUNCA ACONTECEU?!
Isto para não falar no estranho que é termos visto a mesma música, a exacta mesma gravação, a ser "cantada" em playback durante anos por crianças diferentes. Os mesmos versos, a mesma voz, na boca de dezenas de miúdas diferentes, de várias formas, raças e feitios, no mais mal engendrado truque de ilusionismo de sempre. A mim não me enganam eles. Eu já cantei uma vez num karaoke e sei bem do que falo.
Não sei onde andam os miúdos originais que cantaram aquilo mas afigura-se-me que hoje serão mais velhos do que eu. E aqueles que não estão presos terão certamente na cabeça um capacete de eléctrodos...
Portanto, a minha primeira exigência está em abolirem de vez esta canção, ok? Não é preciso nada demais, apenas queimar todas as cópias já feitas, os originais e as pautas e arrancar o coração pelas costas a qualquer um que comece a trauteá-la no futuro. Se houver organização e rigor a coisa faz-se.
2.
AS CASCAS DE LARANJA NO BOLO REI
Está bem de ver como é que isto aconteceu. Uma Filipa Vá Com Deus qualquer andava toda atarefada a fazer bolos rei, uns atrás dos outros, quando sem querer despejou o balde das cascas para dentro da massa. Depois de perceber a burrada que tinha feito e de berrar alto e bom som o "Manual de Ética e de Bons Costumes dos Mangas de Alfama", concluiu que tinha apenas duas soluções: ou admitia o erro, deitava tudo para o lixo e passava o Natal a caldos Knorr por causa do prejuízo ou deixava aquilo ficar e dizia que agora se comiam cascas caramelizadas no estrangeiro.
Como esta é a frase que mais convence os portugueses... A coisa pegou. E apesar de toda a gente fazer uma careta quando mastiga o sabor acre da casca de laranja, todos continuam a comer.
Vá lá ver uma coisa...
HÁ UM NOME PARA AS CRIATURAS QUE COMEM CASCAS DE LARANJA.
E O NOME É PORCO.
Os porcos é que comem as cascas todas, os caroços e tudo mais que se atire para a pocilga. Se por baixo das cascas estiver um bolo rei também não são eles que se vão queixar.
Portanto, vamos lá fazer um resumo...
Pinhões OK
Passas OK
Fruta cristalizada OK
Cascas de Laranja NÃO
...
Portanto, a minha segunda exigência está em manterem o lixo onde ele pertence: no caixote. Deixem as iguarias na composição do bolo, sim senhor. Bolo esse que é delicioso, não há dúvida. Agora meterem-lhe cascas por cima é o mesmo que cobrirem a Soraia Chaves de vomitado. Faço-me entender?
3.
A LEOPOLDINA
Sim, eu sei que é um pouco contrasenso falar da Leopoldina e não falar da recém-criada Popota. No entanto, esta segunda tem em si um certo carácter "slutty" que me atrai bastante. E como tenho muito respeito pelas pêgas em geral prefiro dirigir o meu ódio à pássara e apenas à pássara.
Já não há paciência para a história do "mundo encantado dos brinquedos" e para as operações plásticas que a bicha faz de ano para ano. Antes parecia um frango voador com obstipação, agora parece a Angelina Jolie com cabeça de avestruz. O formato muda mas a bizarria continua. Acho mal é chatearem a Lili Caneças por parecer um boneco de cêra e nem abordarem as intervenções cirúrgicas da pássara maldita. E quem diz a Cinha Jardim diz a Leopoldina. Enfim...
"- Mas como seria possível acabarem com a Leopoldina, Saguim?! Ela é um ídolo para as crianças!" exclamam as vozes na minha cabeça, com bastante estupidez.
Uma criatura amarela com olhos esbugalhados.... Um ídolo para as crianças.
Na minha terra, quem é amarelo e tem olhos esbugalhados é toxicodependente. Não é avestruz.
E que eu saiba, ser ídolo para as crianças não é o objectivo de nenhum deles. Pelo menos não à primeira vista. Parecem-me bem mais preocupados com outras coisas.
Portanto, é para acabar sim. Só enerva! "Ah e tal comprem os brinquedos manhosos da pássara que nós damos metade para os Hospitais e fazemos o favor de ficar com a outra metade para nós... Caso seja preciso ir à bica ou assim..." Por favor, já chega!
4.
O NATAL DOS HOSPITAIS
Que é, ao contrário daquilo que muitos pensam, a principal causa de morte em Portugal Continental. O momento em que todas as enfermeiras se esquecem de dar os medicamentos aos pacientes, a altura em que se desligam todas as máquinas dos Cuidados Intensivos para alimentar a mesa de mistura da banda do Marco Paulo. Mais letal do que uma pasta de dentes chinesa.
Além disso, há também o carácter ALTAMENTE DEPRIMENTE que se encerra no nome "Natal dos Hospitais". Ok, eles estão lá fechados e muitos não voltarão a ver a luz do dia. Sabemos disso tudo. Por isso em vez de lhe chamarem literalmente aquilo que é, podiam chamar-lhe "Natal da malta com boa saúde", "Natal dos indivíduos que qualquer dia ainda vão aos Jogos Olímpicos" ou "Natal dos tipos que, saindo das cadeiras de rodas, ainda se portariam muito bem na cama com a Helena Coelho"... Enfim, só para dar umas ideias.
Agora, "Natal dos Hospitais" parece-me desadequado. No nome e no formato. Há artistas que hoje em dia só fazem aquilo, chega a ser mais importante para eles do que para os próprios doentes. É o seu Rock in Rio. E isso chega a ser mais triste do que aquele conto do Hans Christian Andersen em que uma miúda queima fósforo após fósforo até patinar no gelo (e atenção que neste caso, patinar significa mesmo morrer).
Portanto, já era altura de acabarem também com isso e devolverem a alegria à quadra. Assim como assim, ninguém se lembra que há gente nos hospitais quando se está a encher o bucho com sonhos e filhozes. A menos que se coma tanto que se tenha de ir a um. Mas isso também já não me acontece há alguns anos...
5.
GATOS NO NATAL
Deixei esta para o fim por ser a mais pessoal e também aquela que à partida pode indicar às pessoas que o meu estado mental não é o mais são. Se eu tivesse colocado este ponto no princípio, no lugar de todo o discurso coerente e muito correcto que tive até agora, dificilmente leriam até ao fim. Mas pronto, é mais ou menos isto: no Natal, os gatos deviam ir de férias para longe. Tipo Palma de Maiorca ou Lloret del Mar, como fazem os estudantes nas viagens de finalistas.
Isto porque os gatos, como é sabido, adoram os enfeites que penduramos na árvore. Adoram.
Mas adoram-nos mais no chão do que nos ramos, o que torna a convivência entre felinos e árvores de Natal quase impossível. A menos que se tomem as devidas precauções...
No ano passado eu tomei-as e não tivesse hoje quase todos os meus pertences em caixas de cartão voltaria a tomá-las.
Ouvi dizer que os gatos não gostavam do cheiro a citrinos. Vai daí, comprei um detergente com aroma a limão, preparei uma solução com água e borrifei a árvore toda. Coisa que até podia ter corrido mal porque as luzes já estavam ligadas. Mas enfim, lá a borrifei na mesma.
Não resultou. A gata continuava a violentar a árvore.
Vai daí, decidi deixar os produtos artificiais de lado e apostei na "real thing". Peguei num limão, cortei-lhe tiras de casca e pendurei-as nos ramos, como se de enfeites se tratassem.
Não resultou. A gata divertia-se a roer os ramos e a dar patadas nas bolas.
Irritei-me. Fui buscar o piri-piri e untei as pontas dos ramos. Sorriso demoníaco no rosto. Em pleno Natal.
Resultou mais ou menos. Ela apercebeu-se que roer os ramos talvez já não fosse grande ideia mas continuava a disparar grandes murraças nos enfeites.
Era preciso algo mais. Algo que a mantivesse à distância.
Pimenta. Muita.
A árvore ficou assente em pó branco. Tanto que parecia neve... E o Natal prosseguiu, mais calmo do que nunca.
Foi, porém, uma solução de recurso. Nada me garante que a minha gata não está numa dieta intensiva de especiarias, ela passa muito tempo sozinha durante o dia, preparando-se para um novo frente-a-frente com a árvore que está agora empacotada algures. De bom grado lhe pagava um fim de semana no Íbis para me poupar a tal chatice.
E é isto. Tudo o resto pode continuar, com peso e medida claro está, que não me importo.
Agora é começar a pensar no Natal do ano que vem, que a malta não se safa sem Natais.
Eu nem tirava as luzes das ruas que era para não se perder o espírito.
E admiro a postura do Sporting por estar em "modo Natal" desde o início da época.
Se não é o Sporting a dar o exemplo...
Tuesday, December 14, 2010
E agora algo completamente repugnante
No prédio onde eu trabalho mora uma senhora de idade.
Coisa que, até ver, não tem nada de mal.
Se calhar até lá mora mais do que uma, mas esta digamos que tem aquele toquezinho de bizarria e, porque não dizê-lo, de repugnância, que lhe dá bastante destaque.
Para começar tem o cabelo roxo.
O que não é assim tão original. Muitas e muitas velhotas da mesma geração decidem chocar a malta nova e levantar assim o dedo médio para o mundo. Os punks usam pulseiras com picos, a malta do rock usa calças de cabedal, os anões usam escadotes e as pensionistas, algumas, preferem expressar-se através da cabeleira. A mim não me faz confusão. Não percebo a mensagem mas também não entro em conflitos por causa disso. E se o problema fosse só este nem sequer valia a pena estarmos aqui a falar.
A idosa que vive no prédio onde labuto...
Eu já tinha percebido que a velha gostava de palheta. Não foi uma nem duas vezes que me apanhou na escada e aproveitou a oportunidade para trocar impressões acerca do estado do tempo ou de como os vizinhos são "gente que não interessa". Eu fui obrigado a concordar dado que o único vizinho que conhecia era de facto ela e ela, de facto, não me interessava. Nem ela nem o cabelo roxo que a avaliar pela solidez e pelo aspecto mate, não deve ver água há uma catrefada de meses. Mas enfim, sempre sem perder a gentileza e o sorriso amarelo na cara, a minha maneira de lidar com esta situação era passar por ela tão rápido que quase lhe fazia saltar a dentadura contra a parede, com a força do vento.
Coisa que não me impediu, ainda assim, de passar por alguns dissabores.
O primeiro, ainda conhecia mal a peça, aconteceu quando eu e um colega nos preparávamos para entrar no prédio, cruzando-nos com a velha no hall de entrada. Ofuscado pelo fedor da carapinha roxa, passei depois pela porta dela e reparei que a tinha deixado aberta. Confesso que a minha reacção inicial foi de entrar-lhe por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e depois incriminar o meu amigo. Mas como tive medo que ele me lixasse primeiro, que isto hoje não se pode confiar em ninguém, concentrei-me antes na minha segunda reacção: entrar por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e acertar-lhe com um candelabro na testa quando voltasse, para que não houvesse nada que me associasse ao sucedido. Porém, também isso ficou por fazer. Primeiro porque nasciam em mim sérias dúvidas que houvesse naquela casa ouro e pratas. Plástico talvez. Rançoso. Agora ouro e pratas, afigurava-se-me pouco provável. Depois porque com o capacete roxo, seria preciso bem mais do que um candelabro para lhe abrir um lenho fatal na tola. Assim, deixei-me estar.
E assim fiquei, a ouvir os apelos samaritanos do colega que me acompanhava, preocupado que um qualquer bandido depenasse o que havia para depenar do burgo da velha. Farto daquele choramingar, acedi a chamá-la de volta e alertá-la para o lapso. Ele lá foi e eu fiquei na escada à espera, apenas para partilhar os louros da boa acção. Quando a velha voltou, decidiu exprimir os seus melhores agradecimentos convidando-nos, a mim e a ele, para entrar e TOMAR UMA BEBIDA...
...
...
... até insistiu e tudo...
...
Vá lá ver... Não estamos a falar de nenhuma cota toda p'rá frentex e ainda p'rás curvas. Não que isso fizesse alguma diferença porque sou muito fiel à minha mulher e tudo (até porque ela lê o blogue) mas não é de todo disso que estamos a falar. Falamos sim de uma avó, que eu agradeço aos céus não ser a minha, mas ainda assim aquela que podia ser a avó de alguém.
Se queremos entrar para tomar uma bebida?!
Os dois de uma vez?!
Então e a velha não ia sair?!!!
Bom, esperei que o silêncio e o ridículo da situação recusassem o convite por mim e voltei para o trabalho. Sendo que os primeiros quinze minutos do horário laboral foram passados a esfregar as mãos com pedra-pomes e a cuspir vigorosamente para o lavatório da casa de banho de serviço.
Eu nem faço ideia do tipo de bebidas que a anciã teria para me oferecer, além do copo de água onde demolha a dentadura durante a noite, claro. De qualquer maneira para levar a dela avante comigo era bom que tivesse alguns barris de aguardente da boa, que só em coma alcóolico e com uma pipa emplastrada na nuca é que eu lhe fazia a vontade. Enfim, ele há coisas...
Passaram-se algumas semanas até que a voltasse a ver. Para isso muito contribuiu a minha faceta de roedor nocturno, fugindo vigorosamente sempre que o mais ténue ruído soava na escada do prédio. Mas não podia evitá-la para sempre. Não a ela.
Um dia, estava eu a praticar natação na piscina que também já mencionei num post anterior (pelas piores razões, diga-se), quando um camarada meu se sentiu mal e foi necessário que eu fosse buscar a carteira dele ao escritório. Nessa altura fiz aquilo que qualquer bom amigo faria: exigi o respectivo pagamento pelo serviço e lá fui acudi-lo. Quando entrei no prédio, espavorido, quem estava lá? Eu acho que vocês sabem quem.
Sorrateira como um traque num elevador, pairou sobre mim apanhando-me completamente desprevenido. Também ela queria a minha ajuda. Mas desta vez, diz que era PARA LHE ABRIR A PANELA DE PRESSÃO.
...
Eu não sei que tipo de pessoa anda à coca dos indivíduos que passam à porta para lhes pedir que "lhe abram a panela de pressão". E escrevo-o entre aspas porque para mim não é mais do que um eufemismo. Se eu tivesse acedido a ir abrir-lhe "a panela de pressão", nada me garantia que dias depois não fosse chamado a abrir-lhe "a pressão da panela" e convenhamos que tudo se iria encaminhar para a abertura da sua própria pressão. O que já seria demais para mim. Tanto que não fui capaz de recusar-lhe auxílio. Afinal de contas tratava-se de um pedido de ajuda e não de um convite ordinário, como era claramente o anterior.
Então, voltei a fazer aquilo que se esperaria de uma pessoa de bem. Pedi-lhe para esperar, fui buscar a carteira do meu amigo que estava a contar com ela, saí novamente do prédio e, com todo o altruísmo que me reconhecem, liguei ao meu colega, o mesmo da outra vez, para ir lá assistir a velha. Não gosto de faltar a ninguém e muito menos àqueles que precisam.
Ele lá foi mas parece que se fartou de tocar à porta sem que ela lha tivesse aberto. Provavelmente, desiludida com a troca, o que se compreende perfeitamente. Só que eu não chego para todas e o mundo terá de aprender a lidar com isso.
Bom, feitas as contas, ela continua aí. E estes dois episódios, apesar de perturbadores não me teriam incomodado assim tanto se, para além do cabelo roxo, a velha não ostentasse com frequência um espectacularmente encardido roupão com padrão de flores. Como aquelas toalhas de plástico para a mesa de cozinha mas para vestir.
Eu sei que ela deve pensar que fica um verdadeiro Hugh Hefner no feminino, isto partindo do princípio que o Hugh Hefner atrai de alguma forma as dezenas de badalhocas que estão sempre à volta dele, mas a única coisa que consegue com aquilo é atrair a mesma quantidade de mosquedo que um javali em Xabregas. Ok, digamos só Xabregas. Já chega para provar o meu ponto de vista.
Mete impressão, disso não há dúvidas.
Não é bonito de se ver, nem de perto nem de longe.
Os encontros entre nós parecem saídos de um filme de David Lynch mas misturados com cenas daquele tipo que aparece na televisão a dizer que sobrevive nos piores sítios e nas piores condições, enquanto come larvas e merda de elefante. Sim, tudo isso é verdade.
Mas AINDA ASSIM nada se compara com o que esta velha apresenta como bandeira, a assinalar a sua janela na fachada do prédio. Uma peça de roupa que ela insiste em pendurar regularmente na corda e que é, só por si, significativa de todo um estilo de vida.
Algo que faria a pêra do Malato assemelhar-se ao decote da Rita Pereira.
Algo que tornaria a sardanisca do inferno numa bandeja de sushi.
Algo que transformaria o Justin Bieber numa mulher a sério.
...
Falo de...
... nada mais nada menos...
... do que umas calças de pijama...
... COMPLETAMENTE CAGADAS!!!
...
Ehpá, completamente.
...
E ali à entrada do prédio para toda a gente esbarrar.
Como se não bastasse TUDO O RESTO, ainda mais isto.
Um exemplo de honestidade, convenhamos. A velha não está ali para enganar ninguém. Com um cartão de visita daqueles só se presta ao serviço quem quer. E depois não diga que ela não avisou. Ao menos neste aspecto, há que enaltecer a senhora.
Bom, eu não só não me presto ao serviço como começo a ter falta de estratégias ninja para me escapar ao confronto. Ainda não experimentei o clássico rotativo na boca "à Van Damme" mas algo me diz que se o tentasse eu me aleijaria bem mais do que ela. Assim, resta-me pegar-lhe fogo às fétidas ceroulas penduradas e esperar que o incêncio consuma o resto do covil.
O problema é que depois o incêndio alastrava-se para o edifício e eu ficava sem escritório para trabalhar...
Mas também quem é que gosta de trabalhar?
Coisa que, até ver, não tem nada de mal.
Se calhar até lá mora mais do que uma, mas esta digamos que tem aquele toquezinho de bizarria e, porque não dizê-lo, de repugnância, que lhe dá bastante destaque.
Para começar tem o cabelo roxo.
O que não é assim tão original. Muitas e muitas velhotas da mesma geração decidem chocar a malta nova e levantar assim o dedo médio para o mundo. Os punks usam pulseiras com picos, a malta do rock usa calças de cabedal, os anões usam escadotes e as pensionistas, algumas, preferem expressar-se através da cabeleira. A mim não me faz confusão. Não percebo a mensagem mas também não entro em conflitos por causa disso. E se o problema fosse só este nem sequer valia a pena estarmos aqui a falar.
A idosa que vive no prédio onde labuto...
Eu já tinha percebido que a velha gostava de palheta. Não foi uma nem duas vezes que me apanhou na escada e aproveitou a oportunidade para trocar impressões acerca do estado do tempo ou de como os vizinhos são "gente que não interessa". Eu fui obrigado a concordar dado que o único vizinho que conhecia era de facto ela e ela, de facto, não me interessava. Nem ela nem o cabelo roxo que a avaliar pela solidez e pelo aspecto mate, não deve ver água há uma catrefada de meses. Mas enfim, sempre sem perder a gentileza e o sorriso amarelo na cara, a minha maneira de lidar com esta situação era passar por ela tão rápido que quase lhe fazia saltar a dentadura contra a parede, com a força do vento.
Coisa que não me impediu, ainda assim, de passar por alguns dissabores.
O primeiro, ainda conhecia mal a peça, aconteceu quando eu e um colega nos preparávamos para entrar no prédio, cruzando-nos com a velha no hall de entrada. Ofuscado pelo fedor da carapinha roxa, passei depois pela porta dela e reparei que a tinha deixado aberta. Confesso que a minha reacção inicial foi de entrar-lhe por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e depois incriminar o meu amigo. Mas como tive medo que ele me lixasse primeiro, que isto hoje não se pode confiar em ninguém, concentrei-me antes na minha segunda reacção: entrar por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e acertar-lhe com um candelabro na testa quando voltasse, para que não houvesse nada que me associasse ao sucedido. Porém, também isso ficou por fazer. Primeiro porque nasciam em mim sérias dúvidas que houvesse naquela casa ouro e pratas. Plástico talvez. Rançoso. Agora ouro e pratas, afigurava-se-me pouco provável. Depois porque com o capacete roxo, seria preciso bem mais do que um candelabro para lhe abrir um lenho fatal na tola. Assim, deixei-me estar.
E assim fiquei, a ouvir os apelos samaritanos do colega que me acompanhava, preocupado que um qualquer bandido depenasse o que havia para depenar do burgo da velha. Farto daquele choramingar, acedi a chamá-la de volta e alertá-la para o lapso. Ele lá foi e eu fiquei na escada à espera, apenas para partilhar os louros da boa acção. Quando a velha voltou, decidiu exprimir os seus melhores agradecimentos convidando-nos, a mim e a ele, para entrar e TOMAR UMA BEBIDA...
...
...
... até insistiu e tudo...
...
Vá lá ver... Não estamos a falar de nenhuma cota toda p'rá frentex e ainda p'rás curvas. Não que isso fizesse alguma diferença porque sou muito fiel à minha mulher e tudo (até porque ela lê o blogue) mas não é de todo disso que estamos a falar. Falamos sim de uma avó, que eu agradeço aos céus não ser a minha, mas ainda assim aquela que podia ser a avó de alguém.
Se queremos entrar para tomar uma bebida?!
Os dois de uma vez?!
Então e a velha não ia sair?!!!
Bom, esperei que o silêncio e o ridículo da situação recusassem o convite por mim e voltei para o trabalho. Sendo que os primeiros quinze minutos do horário laboral foram passados a esfregar as mãos com pedra-pomes e a cuspir vigorosamente para o lavatório da casa de banho de serviço.
Eu nem faço ideia do tipo de bebidas que a anciã teria para me oferecer, além do copo de água onde demolha a dentadura durante a noite, claro. De qualquer maneira para levar a dela avante comigo era bom que tivesse alguns barris de aguardente da boa, que só em coma alcóolico e com uma pipa emplastrada na nuca é que eu lhe fazia a vontade. Enfim, ele há coisas...
Passaram-se algumas semanas até que a voltasse a ver. Para isso muito contribuiu a minha faceta de roedor nocturno, fugindo vigorosamente sempre que o mais ténue ruído soava na escada do prédio. Mas não podia evitá-la para sempre. Não a ela.
Um dia, estava eu a praticar natação na piscina que também já mencionei num post anterior (pelas piores razões, diga-se), quando um camarada meu se sentiu mal e foi necessário que eu fosse buscar a carteira dele ao escritório. Nessa altura fiz aquilo que qualquer bom amigo faria: exigi o respectivo pagamento pelo serviço e lá fui acudi-lo. Quando entrei no prédio, espavorido, quem estava lá? Eu acho que vocês sabem quem.
Sorrateira como um traque num elevador, pairou sobre mim apanhando-me completamente desprevenido. Também ela queria a minha ajuda. Mas desta vez, diz que era PARA LHE ABRIR A PANELA DE PRESSÃO.
...
Eu não sei que tipo de pessoa anda à coca dos indivíduos que passam à porta para lhes pedir que "lhe abram a panela de pressão". E escrevo-o entre aspas porque para mim não é mais do que um eufemismo. Se eu tivesse acedido a ir abrir-lhe "a panela de pressão", nada me garantia que dias depois não fosse chamado a abrir-lhe "a pressão da panela" e convenhamos que tudo se iria encaminhar para a abertura da sua própria pressão. O que já seria demais para mim. Tanto que não fui capaz de recusar-lhe auxílio. Afinal de contas tratava-se de um pedido de ajuda e não de um convite ordinário, como era claramente o anterior.
Então, voltei a fazer aquilo que se esperaria de uma pessoa de bem. Pedi-lhe para esperar, fui buscar a carteira do meu amigo que estava a contar com ela, saí novamente do prédio e, com todo o altruísmo que me reconhecem, liguei ao meu colega, o mesmo da outra vez, para ir lá assistir a velha. Não gosto de faltar a ninguém e muito menos àqueles que precisam.
Ele lá foi mas parece que se fartou de tocar à porta sem que ela lha tivesse aberto. Provavelmente, desiludida com a troca, o que se compreende perfeitamente. Só que eu não chego para todas e o mundo terá de aprender a lidar com isso.
Bom, feitas as contas, ela continua aí. E estes dois episódios, apesar de perturbadores não me teriam incomodado assim tanto se, para além do cabelo roxo, a velha não ostentasse com frequência um espectacularmente encardido roupão com padrão de flores. Como aquelas toalhas de plástico para a mesa de cozinha mas para vestir.
Eu sei que ela deve pensar que fica um verdadeiro Hugh Hefner no feminino, isto partindo do princípio que o Hugh Hefner atrai de alguma forma as dezenas de badalhocas que estão sempre à volta dele, mas a única coisa que consegue com aquilo é atrair a mesma quantidade de mosquedo que um javali em Xabregas. Ok, digamos só Xabregas. Já chega para provar o meu ponto de vista.
Mete impressão, disso não há dúvidas.
Não é bonito de se ver, nem de perto nem de longe.
Os encontros entre nós parecem saídos de um filme de David Lynch mas misturados com cenas daquele tipo que aparece na televisão a dizer que sobrevive nos piores sítios e nas piores condições, enquanto come larvas e merda de elefante. Sim, tudo isso é verdade.
Mas AINDA ASSIM nada se compara com o que esta velha apresenta como bandeira, a assinalar a sua janela na fachada do prédio. Uma peça de roupa que ela insiste em pendurar regularmente na corda e que é, só por si, significativa de todo um estilo de vida.
Algo que faria a pêra do Malato assemelhar-se ao decote da Rita Pereira.
Algo que tornaria a sardanisca do inferno numa bandeja de sushi.
Algo que transformaria o Justin Bieber numa mulher a sério.
...
Falo de...
... nada mais nada menos...
... do que umas calças de pijama...
... COMPLETAMENTE CAGADAS!!!
...
Ehpá, completamente.
...
E ali à entrada do prédio para toda a gente esbarrar.
Como se não bastasse TUDO O RESTO, ainda mais isto.
Um exemplo de honestidade, convenhamos. A velha não está ali para enganar ninguém. Com um cartão de visita daqueles só se presta ao serviço quem quer. E depois não diga que ela não avisou. Ao menos neste aspecto, há que enaltecer a senhora.
Bom, eu não só não me presto ao serviço como começo a ter falta de estratégias ninja para me escapar ao confronto. Ainda não experimentei o clássico rotativo na boca "à Van Damme" mas algo me diz que se o tentasse eu me aleijaria bem mais do que ela. Assim, resta-me pegar-lhe fogo às fétidas ceroulas penduradas e esperar que o incêncio consuma o resto do covil.
O problema é que depois o incêndio alastrava-se para o edifício e eu ficava sem escritório para trabalhar...
Mas também quem é que gosta de trabalhar?
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