Thursday, January 6, 2011

Isto promete...

Com que então ouvi dizer que andava por aí um ano novo...
Diz que se chama 2011. E também diz que promete invadir-nos o recto tal qual um supositório XXL. Isto é o que se diz.
Assim à primeira vista, 2011 parece-me aqueles putos que ainda nem sequer falam mas já auguram vir a ser uns marginais do pior, que um gajo olha para eles e não há dúvida que aos doze anos já fizeram dois filhos à educadora de infância e um ao psicólogo da casa de correcção. O novo ano, embora ainda recém-nascido, não engana ninguém. Vai ser uma besta!

Como eu já sabia disto tudo mesmo antes de olhar para o imberbe na cara, decidi fugir para bem longe na passagem de ano. Para um local tão estranho e inóspito que nem o mais astuto dos anos me encontraria... Há que dizer que 1986 esteve lá muito perto, mas não conseguiu ir além da estação de serviço de Viseu. Isto porque se enganou e pôs gasóleo em vez de gasolina no depósito. E, como todos sabemos, a partir da década de 80, os anos passaram a andar a Sem Chumbo 95.

Bom, estupidez extrema aparte, convém desvendar desde já que decidi ir passar o fim de ano a Bragança.

Sim, a Bragança que fica no extremo norte de Portugal.

Isto porque, à falta de melhores termos, sou um erudito incorrigível, sedento por cultura, partindo em busca das mais ancestrais tradições pagãs das aldeias no acolher do novo ano. E também porque me interessava bastante encher o bandulho à grande e à transmontana. Digamos que tudo contribuiu um bocadinho, vá.

Uma das tradições da região é a chamada "Festa dos Rapazes", em que jovens solteiros saem das suas casas de garrafa de aguardente em punho, cantando e dançando, na ânsia de impressionar as mulheres. E, pensando bem, a diferença entre um grupo de "jovens solteiros" e outro de "alcoólicos exibicionistas" acaba por ser uma e só uma palavra: tradição. É que também já assisti a tradições deste género no Bairro Alto, por exemplo. E, escusado será dizer que nenhuma delas acabou bem.

Mas eu lá fui. E confesso que não foi fácil explicar a alguns amigos meus que ia fazer centenas de quilómetros para ir a uma "festa de rapazes". Mesmo dizendo que a minha mulher iria naturalmente comigo, houve olhares de soslaio que eu preferia que não tivessem acontecido. Enfim, lá fui. E convém dizer que Bragança é longe p'ra c*****o. Demora-se quase um dia inteiro a lá chegar! E eu pensava que isto só acontecia no tempo dos reis...

Alojamento? Hotel Íbis.
Sim, porque se é para festejar o fim de ano, não se olha a despesas. Só do bom e do melhor aqui p'ró campeão.

Bragança em si é interessante. E em mim acabou por ser interessante também.
Não havia muita gente na rua, apesar de não estar muito frio, o que me levou a desconfiar de um de dois cenários possíveis: ou as pessoas estavam todas na parte boa da cidade, parte essa que acabei por não ver, ou então andava tudo a fugir de mim que não faço a barba há quase um mês.
Seja como for, tive sempre a ideia de estar a explorar um cenário de um filme em que faltavam claramente os figurantes. E os poucos que havia, repetiam-se: vi o mesmo casal mais do que uma vez, o que me leva a crer que até na longa metragem que é a minha vida se começam a sentir cortes orçamentais. Os mesmos tipos que fazem de donos do restaurante onde vou almoçar são forçados a correr, colocando bigodes e fardas ao mesmo tempo, para fazerem de agentes da GNR que me irão fazer parar numa operação stop mais à frente. E provavelmente multar-me pelo vinho que me serviram há uma hora atrás. Enfim, tudo isto é muito confuso.

O jantar de fim de ano foi agradável, como são todos na companhia da minha linda mulher (uma das resoluções de ano novo, como já devem ter reparado, é convencê-la a fazer mais vezes sushi). Depois de sairmos do restaurante, às 23h, partimos em busca do local da "animação". Não havia. Quer dizer, local havia, não me interpretem mal. Haviam vários até, que Bragança não é assim tão pequena. Mas "animação" nem vê-la.

O que é que se faz quando falta meia hora para a passagem do ano e não se encontra mais de 6 pessoas juntas em lado nenhum? Vai-se para o castelo, claro está.

Na zona do castelo de Bragança, além de três pensionistas embriagados que aqueciam as mãos ao calor de uma grande fogueira, ou madeiro como lhe chamam por lá, estava também um super deprimente grupo de saloios que claramente viu pela primeira vez o passar do ano fora da casa dos pais. E se estavam bêbados, os imbecis... Pelo menos os guinchos que as moças soltavam, muralha fora, a isso apontavam. Ou era bebedeira ou era cio. E eu desejei ardentemente pela primeira hipótese.

Às 23h45 apeteceu-me urinar, não vou mentir. E na ausência de casa de banho a solução foi a muralha do castelo. Portanto, acabei 2010 como um javardo que mija para cima do património nacional e iniciei 2011 como o único indivíduo lúcido entre uma trupe de cavalgaduras bêbadas (excluindo a minha linda mulher, é claro. Eu já disse que ela é linda? Ah pois disse. Bom, mas nunca é demais repetir...)

Chegando a altura da contagem decrescente, como é óbvio cada um contou para o seu lado. Eu decidi não ligar a isso porque é certo que não há nada mais espalhafatoso que uma valente catrefada de fogo de artifício para indicar a meia noite.

4...

3...

2...

1...

PÁ (foguete)

PÁ (foguete)

...

...

...

E mais nada.

Acabou-se a festa.
Dois foguetes, xixi, cama. Foi mais ou menos esta a mensagem que Bragança quis passar.

E eu tudo bem... Como não gosto de contrariar ninguém, e muito menos uma cidade, assim fiz. Afinal de contas, havia uma suite no espanpanante Íbis a chamar por mim.

No dia seguinte, a minha linda mulher (gosto mais do sushi com abacate do que com pepino, é bom não esquecer) amanheceu a mostrar-me uma lista das aldeias envolventes e das suas tradições de fim de ano. Afinal a Festa dos Rapazes era mais na altura do Dia de Reis, coisa que muito me teria aborrecido caso eu fosse um homossexual ensandecido e sedento por privar com adolescentes ébrios de faces rosadas. Porém, como evidentemente não sou nada disso, pelo menos da última vez que olhei para o BI, essa "desfeita" foi-me completamente indiferente.

A boa notícia é que não faltavam rituais por aquelas terrinhas fora.
A má notícia é que os mais giros aconteciam nas aldeias que estavam mais longe.

Portanto, lá nos metemos no carro. Prestes a fazer oitenta quilómetros para ver tipos mascarados a fazer macacadas. Não me ocorre melhor maneira de começar o novo ano.
Quando chegámos à primeira paragem, não só não se viam macacadas como também não se via ninguém nas ruas. "Que surpresa chocante! E isto que estava a correr tão bem...", pensei eu. Ao sairmos da viatura, eu e a minha mulher ficámos em silêncio a olhar para a igreja local. Para isso e para o conta-quilómetros do nosso carro, que em dois dias tinha feito o equivalente a cinco voltas à Sibéria sem atalhos. Foi então que começámos a ouvir um som característico, o som das gaitas de foles. A festa estava a decorrer e não podia estar longe! Aquilo era tão pequeno que nada era longe. Corremos que nem loucos, de máquina fotográfica em punho, livres como crianças para ver o maravilhoso espectáculo pagão que 2011 nos reservava.

A música inebriante. Tão linda. Tão melodiosa.

Corríamos, entusiasmados.

Cada vez mais perto.

Linda, a música.

Linda, a minha mulher, a correr.

Ofegante, obeso, também eu corria.

Mais perto.

Música.

Mulher.

Obeso.

Corrida.

A festa era já ao virar da esquina.

Estávamos lá quase!!!

Virámos a esquina...

Acabou!

...

...

Foi mais ou menos isto.
Metemo-nos no carro e fomos embora.

Ainda visitámos mais uma aldeia para ver um tipo com pinta de ex-toxicodependente vestido de diabo, ou lá o que era, a bambolear-se em troca de uma ou duas moedas. Nada que não se veja em Arroios durante o ano todo, diga-se. Por isso, metemo-nos novamente no carro e voltámos para Bragança.

E foi assim, em traços muito gerais, que entrei no novo ano.
Claro que fora isto, passeei muito, comi e bebi como deve ser, partilhei momentos especiais com a minha mulher, que é linda, by the way, e fiquei a conhecer coisas que não conhecia. Escusava era de ter ido p'ra tão longe, porra! Mas agora já está, já está...

Não sei se entrei em 2011 com o pé direito se com o pé esquerdo. Seja como for, sei que devo ter entrado com ambos os pés nos pedais do carro porque pouco mais fiz no fim de semana.

Quanto aos rapazes da Festa dos Rapazes, não sei se já a organizaram ou não mas procurem não se embebedar demasiado sob pena de acordarem de manhã ao lado do Manel da Drogaria. Isso ou na cama da velha do cabelo roxo que mora no prédio onde eu trabalho... Já falei sobre ela no passado.

Afinal de contas nem toda a gente pode ter a minha sorte e acordar todos os dias ao lado de uma mulher que é linda...

E que bem que ela faz sushi!

Sunday, December 26, 2010

Então esse Natal? Lá foi...

- Então esse Natal? – pergunta-me um ou outro conhecido, ao passar por mim na rua.

- Lá foi… - respondo eu, enquanto atravesso para o passeio contrário, evitando assim o arrastar da conversa.


Não que tenha algum tipo de aversão a falar sobre a quadra. Ou mesmo que tenha aversão à quadra em si. Custa-me é participar em conversa de chacha.

Quando as pessoas perguntam “Então esse Natal” é de um “Lá foi…” que estão à espera, e não de “Fui p’ra cama à beira do vómito, com azevias até à boca do esófago!” ou “Tive um claro prejuízo no balanço das prendas recebidas e oferecidas…” ou até de “Estive a uma unha negra de arrancar a garganta de um dos meus primos à dentada”. Não que eu sinta vontade de dar uma destas respostas mas sei que pode ser a realidade para algumas pessoas.

A verdade é que ninguém é verdadeiramente sincero no “troco” que dá às questões sobre o Natal e a razão é simples: tirando aquela malta que detesta mesmo a época natalícia e que se recusa a celebrá-la, como o velhaco Gargamel dos estrunfes ou os judeus, o resto sente que dizer mal do Natal é dizer mal da família, das crianças e, acima de tudo, da paz no mundo.

Nada mais falso, diga-se. Um tipo pode perfeitamente detestar a família, desprezar as crianças e cuspir na paz no mundo e continuar a apreciar o Natal. Cada coisa é uma coisa.

Os católicos gostam do Natal porque, no fundo, estão a celebrar o aniversário de alguém que veneram. E fazem-no no conforto do lar, junto ao calor da lareira, em sossego com aqueles que lhes são importantes. Nada de “E se Jesus quer ser cá da malta...”, não é um desses aniversários. É uma festa mais íntima em que, por regra, à uma da manhã está tudo "a aquecer a água para se ir deitar" (como eu amo esta expressão...)

Depois também há quem, como eu, não seja católico mas veja no Natal uma espécie de festival temático anual, com algumas particularidades tradicionais interessantes, sabores regionais de primeira linha e músicas alegres. Claro que não podemos generalizar e achar que todos os sabores regionais feitos nesta quadra são de primeira linha ou que os milhões de cantigas natalícias aconchegam mas... Acho que me faço entender. A média acaba por ser quase sempre bastante positiva. E a média é que importa.

No entanto, há coisas no Natal que são, à falta de melhor termo, enormemente insuportáveis.
Mesmo muito!
E era um favor que me faziam se para o ano todas elas deixassem de existir.
Acho que tornaria o Natal uma época ainda mais intensa com um índice de aceitação mais próxima dos 100%, mais campanhas de solidariedade para ajudar os desgraçadinhos que fazemos questão de ignorar o resto do ano e mais gestos de carinho para com familiares a quem depois não atendemos o telefone. Tudo para o melhor, portanto.

Para dar um avançozinho aos trabalhos, que isto de limar arestas é coisa que leva algum tempo, principalmente quando falamos do Natal, deixo aqui uma lista completa daquilo que, a meu ver, deveria deixar de existir. E notem que quando digo "a meu ver" é o mesmo que não dissesse nada. Porque como vejo muito bem, quase tanto como a águia que foi despedida pelo Benfica (sempre a inovar, este glorioso), isto deixa de ser opinião. É uma lista daquilo que não devia transitar para o Natal de 2011 e mainada! Aqui vai ela:



LISTA DAS COISAS QUE SE VERIFICARAM NO NATAL DE 2010, ASSIM COMO SE VERIFICAM TODOS OS NATAIS, E QUE CONVINHA NÃO SE REPETIREM EM 2011.


1.
A MALDITA CANTIGA DO CORO DE SANTO AMARO DE OEIRAS

Aos 28 anos, penso que cheguei a um ponto em que já não consigo traduzir por palavras o tumulto interior que sinto quando ouço esta vil cantilena. Há uma ou duas expressões em swahili que estão lá muito perto, uma outra em cantonês, mas nenhuma faz real justiça...

QUE CANCRO ATROZ! Na falta de melhor foi esta...
Será que não há mais nenhuma música que crianças pequenas possam cantar para enternecer a porra dos corações?! Em dezenas de anos não houve um campeão qualquer que se chegou à frente e disse "Ehpá tudo muito bem, o Coro de Santo Amaro de Oeiras e tal, mas isto já é um bocado demais e está na hora dos putos cantarem outra coisa..." NUNCA! COMO É QUE ISTO NUNCA ACONTECEU?!

Isto para não falar no estranho que é termos visto a mesma música, a exacta mesma gravação, a ser "cantada" em playback durante anos por crianças diferentes. Os mesmos versos, a mesma voz, na boca de dezenas de miúdas diferentes, de várias formas, raças e feitios, no mais mal engendrado truque de ilusionismo de sempre. A mim não me enganam eles. Eu já cantei uma vez num karaoke e sei bem do que falo.

Não sei onde andam os miúdos originais que cantaram aquilo mas afigura-se-me que hoje serão mais velhos do que eu. E aqueles que não estão presos terão certamente na cabeça um capacete de eléctrodos...

Portanto, a minha primeira exigência está em abolirem de vez esta canção, ok? Não é preciso nada demais, apenas queimar todas as cópias já feitas, os originais e as pautas e arrancar o coração pelas costas a qualquer um que comece a trauteá-la no futuro. Se houver organização e rigor a coisa faz-se.


2.
AS CASCAS DE LARANJA NO BOLO REI

Está bem de ver como é que isto aconteceu. Uma Filipa Vá Com Deus qualquer andava toda atarefada a fazer bolos rei, uns atrás dos outros, quando sem querer despejou o balde das cascas para dentro da massa. Depois de perceber a burrada que tinha feito e de berrar alto e bom som o "Manual de Ética e de Bons Costumes dos Mangas de Alfama", concluiu que tinha apenas duas soluções: ou admitia o erro, deitava tudo para o lixo e passava o Natal a caldos Knorr por causa do prejuízo ou deixava aquilo ficar e dizia que agora se comiam cascas caramelizadas no estrangeiro.

Como esta é a frase que mais convence os portugueses... A coisa pegou. E apesar de toda a gente fazer uma careta quando mastiga o sabor acre da casca de laranja, todos continuam a comer.

Vá lá ver uma coisa...

HÁ UM NOME PARA AS CRIATURAS QUE COMEM CASCAS DE LARANJA.

E O NOME É PORCO.

Os porcos é que comem as cascas todas, os caroços e tudo mais que se atire para a pocilga. Se por baixo das cascas estiver um bolo rei também não são eles que se vão queixar.

Portanto, vamos lá fazer um resumo...

Pinhões OK

Passas OK

Fruta cristalizada OK

Cascas de Laranja NÃO

...

Portanto, a minha segunda exigência está em manterem o lixo onde ele pertence: no caixote. Deixem as iguarias na composição do bolo, sim senhor. Bolo esse que é delicioso, não há dúvida. Agora meterem-lhe cascas por cima é o mesmo que cobrirem a Soraia Chaves de vomitado. Faço-me entender?


3.
A LEOPOLDINA

Sim, eu sei que é um pouco contrasenso falar da Leopoldina e não falar da recém-criada Popota. No entanto, esta segunda tem em si um certo carácter "slutty" que me atrai bastante. E como tenho muito respeito pelas pêgas em geral prefiro dirigir o meu ódio à pássara e apenas à pássara.

Já não há paciência para a história do "mundo encantado dos brinquedos" e para as operações plásticas que a bicha faz de ano para ano. Antes parecia um frango voador com obstipação, agora parece a Angelina Jolie com cabeça de avestruz. O formato muda mas a bizarria continua. Acho mal é chatearem a Lili Caneças por parecer um boneco de cêra e nem abordarem as intervenções cirúrgicas da pássara maldita. E quem diz a Cinha Jardim diz a Leopoldina. Enfim...

"- Mas como seria possível acabarem com a Leopoldina, Saguim?! Ela é um ídolo para as crianças!" exclamam as vozes na minha cabeça, com bastante estupidez.

Uma criatura amarela com olhos esbugalhados.... Um ídolo para as crianças.
Na minha terra, quem é amarelo e tem olhos esbugalhados é toxicodependente. Não é avestruz.
E que eu saiba, ser ídolo para as crianças não é o objectivo de nenhum deles. Pelo menos não à primeira vista. Parecem-me bem mais preocupados com outras coisas.

Portanto, é para acabar sim. Só enerva! "Ah e tal comprem os brinquedos manhosos da pássara que nós damos metade para os Hospitais e fazemos o favor de ficar com a outra metade para nós... Caso seja preciso ir à bica ou assim..." Por favor, já chega!


4.
O NATAL DOS HOSPITAIS

Que é, ao contrário daquilo que muitos pensam, a principal causa de morte em Portugal Continental. O momento em que todas as enfermeiras se esquecem de dar os medicamentos aos pacientes, a altura em que se desligam todas as máquinas dos Cuidados Intensivos para alimentar a mesa de mistura da banda do Marco Paulo. Mais letal do que uma pasta de dentes chinesa.

Além disso, há também o carácter ALTAMENTE DEPRIMENTE que se encerra no nome "Natal dos Hospitais". Ok, eles estão lá fechados e muitos não voltarão a ver a luz do dia. Sabemos disso tudo. Por isso em vez de lhe chamarem literalmente aquilo que é, podiam chamar-lhe "Natal da malta com boa saúde", "Natal dos indivíduos que qualquer dia ainda vão aos Jogos Olímpicos" ou "Natal dos tipos que, saindo das cadeiras de rodas, ainda se portariam muito bem na cama com a Helena Coelho"... Enfim, só para dar umas ideias.

Agora, "Natal dos Hospitais" parece-me desadequado. No nome e no formato. Há artistas que hoje em dia só fazem aquilo, chega a ser mais importante para eles do que para os próprios doentes. É o seu Rock in Rio. E isso chega a ser mais triste do que aquele conto do Hans Christian Andersen em que uma miúda queima fósforo após fósforo até patinar no gelo (e atenção que neste caso, patinar significa mesmo morrer).

Portanto, já era altura de acabarem também com isso e devolverem a alegria à quadra. Assim como assim, ninguém se lembra que há gente nos hospitais quando se está a encher o bucho com sonhos e filhozes. A menos que se coma tanto que se tenha de ir a um. Mas isso também já não me acontece há alguns anos...


5.
GATOS NO NATAL

Deixei esta para o fim por ser a mais pessoal e também aquela que à partida pode indicar às pessoas que o meu estado mental não é o mais são. Se eu tivesse colocado este ponto no princípio, no lugar de todo o discurso coerente e muito correcto que tive até agora, dificilmente leriam até ao fim. Mas pronto, é mais ou menos isto: no Natal, os gatos deviam ir de férias para longe. Tipo Palma de Maiorca ou Lloret del Mar, como fazem os estudantes nas viagens de finalistas.

Isto porque os gatos, como é sabido, adoram os enfeites que penduramos na árvore. Adoram.
Mas adoram-nos mais no chão do que nos ramos, o que torna a convivência entre felinos e árvores de Natal quase impossível. A menos que se tomem as devidas precauções...
No ano passado eu tomei-as e não tivesse hoje quase todos os meus pertences em caixas de cartão voltaria a tomá-las.

Ouvi dizer que os gatos não gostavam do cheiro a citrinos. Vai daí, comprei um detergente com aroma a limão, preparei uma solução com água e borrifei a árvore toda. Coisa que até podia ter corrido mal porque as luzes já estavam ligadas. Mas enfim, lá a borrifei na mesma.

Não resultou. A gata continuava a violentar a árvore.

Vai daí, decidi deixar os produtos artificiais de lado e apostei na "real thing". Peguei num limão, cortei-lhe tiras de casca e pendurei-as nos ramos, como se de enfeites se tratassem.

Não resultou. A gata divertia-se a roer os ramos e a dar patadas nas bolas.

Irritei-me. Fui buscar o piri-piri e untei as pontas dos ramos. Sorriso demoníaco no rosto. Em pleno Natal.

Resultou mais ou menos. Ela apercebeu-se que roer os ramos talvez já não fosse grande ideia mas continuava a disparar grandes murraças nos enfeites.

Era preciso algo mais. Algo que a mantivesse à distância.

Pimenta. Muita.
A árvore ficou assente em pó branco. Tanto que parecia neve... E o Natal prosseguiu, mais calmo do que nunca.

Foi, porém, uma solução de recurso. Nada me garante que a minha gata não está numa dieta intensiva de especiarias, ela passa muito tempo sozinha durante o dia, preparando-se para um novo frente-a-frente com a árvore que está agora empacotada algures. De bom grado lhe pagava um fim de semana no Íbis para me poupar a tal chatice.



E é isto. Tudo o resto pode continuar, com peso e medida claro está, que não me importo.

Agora é começar a pensar no Natal do ano que vem, que a malta não se safa sem Natais.
Eu nem tirava as luzes das ruas que era para não se perder o espírito.
E admiro a postura do Sporting por estar em "modo Natal" desde o início da época.

Se não é o Sporting a dar o exemplo...

Tuesday, December 14, 2010

E agora algo completamente repugnante

No prédio onde eu trabalho mora uma senhora de idade.

Coisa que, até ver, não tem nada de mal.
Se calhar até lá mora mais do que uma, mas esta digamos que tem aquele toquezinho de bizarria e, porque não dizê-lo, de repugnância, que lhe dá bastante destaque.

Para começar tem o cabelo roxo.
O que não é assim tão original. Muitas e muitas velhotas da mesma geração decidem chocar a malta nova e levantar assim o dedo médio para o mundo. Os punks usam pulseiras com picos, a malta do rock usa calças de cabedal, os anões usam escadotes e as pensionistas, algumas, preferem expressar-se através da cabeleira. A mim não me faz confusão. Não percebo a mensagem mas também não entro em conflitos por causa disso. E se o problema fosse só este nem sequer valia a pena estarmos aqui a falar.

A idosa que vive no prédio onde labuto...

Eu já tinha percebido que a velha gostava de palheta. Não foi uma nem duas vezes que me apanhou na escada e aproveitou a oportunidade para trocar impressões acerca do estado do tempo ou de como os vizinhos são "gente que não interessa". Eu fui obrigado a concordar dado que o único vizinho que conhecia era de facto ela e ela, de facto, não me interessava. Nem ela nem o cabelo roxo que a avaliar pela solidez e pelo aspecto mate, não deve ver água há uma catrefada de meses. Mas enfim, sempre sem perder a gentileza e o sorriso amarelo na cara, a minha maneira de lidar com esta situação era passar por ela tão rápido que quase lhe fazia saltar a dentadura contra a parede, com a força do vento.

Coisa que não me impediu, ainda assim, de passar por alguns dissabores.
O primeiro, ainda conhecia mal a peça, aconteceu quando eu e um colega nos preparávamos para entrar no prédio, cruzando-nos com a velha no hall de entrada. Ofuscado pelo fedor da carapinha roxa, passei depois pela porta dela e reparei que a tinha deixado aberta. Confesso que a minha reacção inicial foi de entrar-lhe por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e depois incriminar o meu amigo. Mas como tive medo que ele me lixasse primeiro, que isto hoje não se pode confiar em ninguém, concentrei-me antes na minha segunda reacção: entrar por ali adentro, limpar-lhe o ouro e as pratas e acertar-lhe com um candelabro na testa quando voltasse, para que não houvesse nada que me associasse ao sucedido. Porém, também isso ficou por fazer. Primeiro porque nasciam em mim sérias dúvidas que houvesse naquela casa ouro e pratas. Plástico talvez. Rançoso. Agora ouro e pratas, afigurava-se-me pouco provável. Depois porque com o capacete roxo, seria preciso bem mais do que um candelabro para lhe abrir um lenho fatal na tola. Assim, deixei-me estar.

E assim fiquei, a ouvir os apelos samaritanos do colega que me acompanhava, preocupado que um qualquer bandido depenasse o que havia para depenar do burgo da velha. Farto daquele choramingar, acedi a chamá-la de volta e alertá-la para o lapso. Ele lá foi e eu fiquei na escada à espera, apenas para partilhar os louros da boa acção. Quando a velha voltou, decidiu exprimir os seus melhores agradecimentos convidando-nos, a mim e a ele, para entrar e TOMAR UMA BEBIDA...

...

...

... até insistiu e tudo...

...

Vá lá ver... Não estamos a falar de nenhuma cota toda p'rá frentex e ainda p'rás curvas. Não que isso fizesse alguma diferença porque sou muito fiel à minha mulher e tudo (até porque ela lê o blogue) mas não é de todo disso que estamos a falar. Falamos sim de uma avó, que eu agradeço aos céus não ser a minha, mas ainda assim aquela que podia ser a avó de alguém.

Se queremos entrar para tomar uma bebida?!

Os dois de uma vez?!

Então e a velha não ia sair?!!!

Bom, esperei que o silêncio e o ridículo da situação recusassem o convite por mim e voltei para o trabalho. Sendo que os primeiros quinze minutos do horário laboral foram passados a esfregar as mãos com pedra-pomes e a cuspir vigorosamente para o lavatório da casa de banho de serviço.

Eu nem faço ideia do tipo de bebidas que a anciã teria para me oferecer, além do copo de água onde demolha a dentadura durante a noite, claro. De qualquer maneira para levar a dela avante comigo era bom que tivesse alguns barris de aguardente da boa, que só em coma alcóolico e com uma pipa emplastrada na nuca é que eu lhe fazia a vontade. Enfim, ele há coisas...

Passaram-se algumas semanas até que a voltasse a ver. Para isso muito contribuiu a minha faceta de roedor nocturno, fugindo vigorosamente sempre que o mais ténue ruído soava na escada do prédio. Mas não podia evitá-la para sempre. Não a ela.

Um dia, estava eu a praticar natação na piscina que também já mencionei num post anterior (pelas piores razões, diga-se), quando um camarada meu se sentiu mal e foi necessário que eu fosse buscar a carteira dele ao escritório. Nessa altura fiz aquilo que qualquer bom amigo faria: exigi o respectivo pagamento pelo serviço e lá fui acudi-lo. Quando entrei no prédio, espavorido, quem estava lá? Eu acho que vocês sabem quem.

Sorrateira como um traque num elevador, pairou sobre mim apanhando-me completamente desprevenido. Também ela queria a minha ajuda. Mas desta vez, diz que era PARA LHE ABRIR A PANELA DE PRESSÃO.

...

Eu não sei que tipo de pessoa anda à coca dos indivíduos que passam à porta para lhes pedir que "lhe abram a panela de pressão". E escrevo-o entre aspas porque para mim não é mais do que um eufemismo. Se eu tivesse acedido a ir abrir-lhe "a panela de pressão", nada me garantia que dias depois não fosse chamado a abrir-lhe "a pressão da panela" e convenhamos que tudo se iria encaminhar para a abertura da sua própria pressão. O que já seria demais para mim. Tanto que não fui capaz de recusar-lhe auxílio. Afinal de contas tratava-se de um pedido de ajuda e não de um convite ordinário, como era claramente o anterior.

Então, voltei a fazer aquilo que se esperaria de uma pessoa de bem. Pedi-lhe para esperar, fui buscar a carteira do meu amigo que estava a contar com ela, saí novamente do prédio e, com todo o altruísmo que me reconhecem, liguei ao meu colega, o mesmo da outra vez, para ir lá assistir a velha. Não gosto de faltar a ninguém e muito menos àqueles que precisam.

Ele lá foi mas parece que se fartou de tocar à porta sem que ela lha tivesse aberto. Provavelmente, desiludida com a troca, o que se compreende perfeitamente. Só que eu não chego para todas e o mundo terá de aprender a lidar com isso.

Bom, feitas as contas, ela continua aí. E estes dois episódios, apesar de perturbadores não me teriam incomodado assim tanto se, para além do cabelo roxo, a velha não ostentasse com frequência um espectacularmente encardido roupão com padrão de flores. Como aquelas toalhas de plástico para a mesa de cozinha mas para vestir.

Eu sei que ela deve pensar que fica um verdadeiro Hugh Hefner no feminino, isto partindo do princípio que o Hugh Hefner atrai de alguma forma as dezenas de badalhocas que estão sempre à volta dele, mas a única coisa que consegue com aquilo é atrair a mesma quantidade de mosquedo que um javali em Xabregas. Ok, digamos só Xabregas. Já chega para provar o meu ponto de vista.

Mete impressão, disso não há dúvidas.
Não é bonito de se ver, nem de perto nem de longe.
Os encontros entre nós parecem saídos de um filme de David Lynch mas misturados com cenas daquele tipo que aparece na televisão a dizer que sobrevive nos piores sítios e nas piores condições, enquanto come larvas e merda de elefante. Sim, tudo isso é verdade.

Mas AINDA ASSIM nada se compara com o que esta velha apresenta como bandeira, a assinalar a sua janela na fachada do prédio. Uma peça de roupa que ela insiste em pendurar regularmente na corda e que é, só por si, significativa de todo um estilo de vida.

Algo que faria a pêra do Malato assemelhar-se ao decote da Rita Pereira.

Algo que tornaria a sardanisca do inferno numa bandeja de sushi.

Algo que transformaria o Justin Bieber numa mulher a sério.

...

Falo de...

... nada mais nada menos...

... do que umas calças de pijama...

... COMPLETAMENTE CAGADAS!!!

...

Ehpá, completamente.

...

E ali à entrada do prédio para toda a gente esbarrar.
Como se não bastasse TUDO O RESTO, ainda mais isto.

Um exemplo de honestidade, convenhamos. A velha não está ali para enganar ninguém. Com um cartão de visita daqueles só se presta ao serviço quem quer. E depois não diga que ela não avisou. Ao menos neste aspecto, há que enaltecer a senhora.

Bom, eu não só não me presto ao serviço como começo a ter falta de estratégias ninja para me escapar ao confronto. Ainda não experimentei o clássico rotativo na boca "à Van Damme" mas algo me diz que se o tentasse eu me aleijaria bem mais do que ela. Assim, resta-me pegar-lhe fogo às fétidas ceroulas penduradas e esperar que o incêncio consuma o resto do covil.

O problema é que depois o incêndio alastrava-se para o edifício e eu ficava sem escritório para trabalhar...

Mas também quem é que gosta de trabalhar?

Sunday, December 5, 2010

A Sardanisca do Inferno (e outras questões muito relevantes)

Eu espero sinceramente que o mundo não acabe em 2012.

...

Digo isto não porque nutra qualquer apreço pela Humanidade mas porque, depois do período terrível de mudanças e de pré-obras em que me encontro, ver o mundo acabar pouco tempo depois seria uma tremenda desilusão. O mínimo que poderiam fazer quando isto amainasse era garantir paz no mundo, a retoma económica deste país e consequente pontapé no cu ao Sócrates e aos restantes (que só querem é poleiro), um bom poleiro para mim e o título de campeão nacional para o Benfica. Julgo que não é pedir muito depois da trabalheira que isto está a dar.

Esvaziar a casa de Benfica revelou-se um verdadeiro pesadelo.
Primeiro, empacotou-se a titânica quantidade de tralha que só eu e certos roedores da América Central conseguimos acumular. Depois, encheram-se as divisões e o corredor com estas mesmas caixas, criando um elaborado labirinto no qual a minha gata fez questão de desaparecer durante dias a fio. Na dúvida se estaria viva ou morta, dei por mim a atirar punhados de granulado para o monte de caixotins, na esperança que ela desse com o alimento e conseguisse aguentar-se por mais algumas horas. Enfim, um autêntico pardieiro.

É possível que o bovino do vizinho da seita anti-ruído tenha dado forte e feio com a cornamenta na parede, queixando-se das arrumações, mas a verdade é que nem dei por isso. Estava quase literalmente afogado em mobílias desmontadas, caixas empilhadas e muito mas muito cotão.

Entretanto as mudanças fizeram-se... nunca mais volto à casa de Benfica!
Vou até mais longe e digo que a única coisa que me vai fazer regressar àquela zona vai ser o fantástico restaurante de sushi que se houvesse justiça no mundo tinha a minha fotografia em grande na parede. É que nos últimos dois anos e meio sinto que peguei naquilo que era um reles boteco de peixe crú e transformei num dos mais requisitados "spots" no que diz respeito a cozinha japonesa. Aquilo agora está sempre cheio! E a maioria dos clientes fui eu que lá levei. Podia ficar ofendido com a falta de reconhecimento e deixar de lá ir. Mas como sempre fui mais guloso do que orgulhoso, continuo a encher a pança à base de salmãozinho que é uma beleza.

Anyway...

Um dia antes de abandonar definitivamente o santuário silencioso da Rua da Venezuela, guardado pelo cruel minotauro com penteado "à f*****e" que mora na casa ao lado, aconteceu um episódio curioso. Depois de ter estado praticamente um ano sem intercomunicador, coisa que o senhorio fazia gala em não mandar arranjar e que suscitou um espectacular abaixo assinado de todos os meus vizinhos, uma semana antes de me ir embora o bicho estava como novo.

"Está giro." - pensei eu.

Depois de meses e meses a ter de descer as escadas para abrir a porta do prédio às minhas visitas, coisa muito fashion e que se vê muito no estrangeiro nomeadamente no terceiro mundo, depois disso tudo o problema estava agora solucionado.

Na última noite passada no "cenário de guerra", eu e a minha mulher, aproveitando o desaparecimento da comida, dos utensílios de cozinha, dos nossos animais de estimação perdidos entre os escombros, e até da pachorra para cozinhar, decidimos mandar vir uma pizza.

TRRRRRRRRIMMMMMM!!! - ela chegou.

A minha mulher caminhou confiante em direcção ao intercomunicador que já se encontrava operacional.

Sorriso tranquilo no rosto.

Carregou no botão satisfeita de poder gozar o luxo que é não ter de descer em pijama para abrir a porta do prédio ao homem das pizzas. Ao frio.

O botão funcionou e a porta abriu-se.

ZZZZZZAAAAAAAAPPPPPPPPPP (para quem não sabe é o som tradicional do interruptor das portas).

Som esse que devia começar e acabar em poucos segundos não devia?

Pois devia.

Mas este começou e não acabou.

O barulho manteve-se sem parar. E era mais do que óbvio que após um ano com aquilo estragado a família saguim preparava-se para uma última gracinha...

O zunido soava a bom soar, sem interrupção. Talvez o botão estivesse colado...

Desmontei o intercomunicador. Constatei que não percebia nada de electrónica. Voltei a montar o aparelho.

E a barulheira infernal na escada...
A acusar-nos violentamente de termos feito m***a! Mas na realidade tudo o que a minha mulher fez foi carregar num botão. E tudo o que eu fiz foi abrir a boca e esperar que nela viesse aterrar uma fatia de pizza.

Deixámo-nos estar no sossego do nosso lar em pedaços. A saborear a nossa refeição.

Isto enquanto no hall do prédio soava uma chinfrineira equivalente ao recolher obrigatório num Gulag.

A dada altura, ouviu-se barulho lá em baixo. Algumas pancadas. E tudo ficou silencioso.

Convenci-me rapidamente que o vizinho do lado tinha resolvido o problema com os cornos. E, como tal, deixei-me ficar, mais confortável com a minha consciência.

No dia seguinte, em plena lufa-lufa das mudanças, a vizinha da frente cumprimentou-nos, a mim e à minha mulher, com um sorriso. Coisa nunca vista. Para uns, tal gesto poderia significar cortesia mas para mim tudo não passava da vontade cada vez mais consumada de nos ver pelas costas.

"Já viram o que aqui fizeram ontem?", perguntou ela. "Não, não.", respondemos nós. "Alguém carregou no intercomunicador e aquilo ficou a fazer barulho uma data de tempo...", disse ela. "Ah, sim?", perguntámos nós. "Sim.", respondeu ela. "E depois houve alguém que cortou aqui os fios da porta e por isso estamos sem intercomunicador outra vez.", acrescentou ela. "Parece impossível...", dissemos nós. "É um prédio de selvagens, sabe?", criticou ela. "Por isso é que nos vamos embora.", concluímos nós.

No final da conversa, a ex-vizinha ainda disse que tinha pena que saíssemos dali. Que nos achava um casal muito simpático. Observação curiosa, dado que ao longo deste tempo nos fartou de lançar grunhidos e olhares de carneiro mal morto. Mas de qualquer forma soube bem abandonar o prédio com um elogio. Isso e deixá-lo definitivamente entregue aos selvagens.

Vai daí, dois terços das coisas foram para a casa nova que ainda aguarda as obras.
E o terço final veio connosco para uma casa pertencente à minha família, em Paço d'Arcos.

Embora não esteja cá ninguém a morar, a casa mantém-se habitável e pronta para qualquer necessidade. E dado que se não viesse morar agora para aqui ou ficava a dormir em cima de pilhas de ladrilho na nova residência ou montava uma tenda debaixo do viaduto Duarte Pacheco... podemos dizer que é mesmo necessário. Isto embora seja uma solução temporária.

Na primeira noite aqui, e depois da má experiência com as pizzas ainda em Benfica, que para além de terem arruinado com o intercomunicador também arruinaram com o meu sistema digestivo pelos simples facto de "saberem mal como tudo", decidimos fazer hambúrgueres de atum.

Ao verificar que os mesmos estavam a libertar algum fumo, lembrei-me de ligar o extractor que se encontrava por cima do fogão.

RRRRRRRÁ - soou o velho aparelho enquanto cuspia um estranho projéctil contra a minha mão.

...

Pausa para compreender o que se tinha passado.

...

Nova pausa para dirigir o olhar para o tal projéctil arremessado pelo extractor.

...

Tempo agora de gritar como uma menina e sentir-me horrorizado com o sucedido.

...

O que tinha sido arremessado contra a minha mão, era nada mais nada menos do que...

...

...

... O CADÁVER RESSEQUIDO E DISFORME DE UMA SARDANISCA!!!

...

...

Sim, leram bem.

Uma espécie de Tutankamon das osgas que, prevendo o fim cada vez mais próximo, decidiu largar o peido mestre entre as pás do extractor cá de casa.
Após ter-me tocado na mão, repousava a escassos centímetros daquele que iria ser o meu jantar.

Com a ajuda de folhas de papel e à maior distância que o corpo humano consegue funcionar, lá coloquei o "freakshow" no lixo. E escusado será dizer que rezei a todos os santinhos para que a gata não fosse lá buscá-lo e vir colocar-mo de novo no colo. Isso ou aparecer-me durante a noite a roer o repugnante cadáver como se de um pretzel se tratasse.

Enfim, felizmente nenhuma destas visões aterrorizadoras se confirmou. A Sardanisca do Inferno até ver foi exorcizada e não se têm verificado problemas de maior.

Agora, até as obras na casa nova estarem prontas ainda temos muito que penar.
A Benfica desejo um futuro à sua medida, sem rancores, principalmente para aqueles que me chatearam ou me prejudicaram de alguma forma. Sem qualquer tipo de sentimentos negativos ou de prisões com o passado, lhes desejo do fundo do coração que lhes nasça um feto no cimo da cabeça e que não os deixe dormir durante a noite, cantando o repertório completo do Nelson Ned over and over again...

Quanto a Paço d'Arcos, infelizmente vai ter de levar comigo durante uns meses.
O que, sejamos francos, não é assim tão mau quanto isso.

Se formos a ver bem até há coisas piores...

E quase todas elas envolvem cadáveres secos de sardanisca.

Sunday, November 21, 2010

Darwin para Totós

Quem já leu Darwin, quem percebe alguma coisa de Evolução ou lê outra coisa que não seja a Tv Guia sabe que só existem 2 tipos de seres humanos: os Caçadores e os Recolectores.

Ora, eu nunca li Darwin nem percebo mais de Evolução do que o comum dos mortais mas achei que dava mais credibilidade à minha tese se começasse o texto desta forma.
Chamem-lhe má fé, chamem-lhe estupidez, mas de qualquer maneira está na altura de pormos as Tv Guias de lado e reflectirmos um pouco sobre esta ideia.

Caçadores e Recolectores.

Há quem diga que foi assim, no Passado. Tipo, há milhares de anos.
Eu não sou capaz de comprovar porque não era nascido. Mas o Manuel de Oliveira era e foi mais ou menos nessa altura que idealizou o "Aniki Bóbó". Só que a malta na altura era burra e não ia ao cinema.

Bom, falo em caça e em recolecção para definir a relação que as pessoas têm com os seus pertences. Os Caçadores são aqueles que quando querem alguma coisa, falemos apenas de bens essenciais à vida como uma casa para viver ou a última versão do PES para a Playstation 3, lutam, trabalham, suam e sangram para a conseguir. Porém, quando finalmente atingem o seu objectivo, desfrutam do seu pertence e quando acabam pouco se importam com o que lhe acontece. Se se perder, perdeu. Se se estragar, estragou. Se, digamos, uma gata ou uma coelha roer, roeu. E está-se assim muito bem.
Os Recolectores já são diferentes. Para conseguirem cumprir o seus desejos muitas vezes aplicam o mesmo esforço do que os Caçadores mas quando têm nas suas mãos o tão anciado prémio... Guardam-no. Protegem-no. Nunca se livram dele. E, muitas vezes. coleccionam-no.

Eu sou um Recolector.

Já fui mais, há que dizê-lo. Mas é algo que me está na massa do sangue.
A minha tendência é para agrupar objectos semelhantes, assim como fazem certos chimpanzés em laboratórios de pesquisa. Só que a mim deixaram de me dar bananas como recompensa há alguns anos. Ainda assim, achei que estava na altura de homenagear a nobre arte do coleccionismo e escrever sobre as minhas colecções de sempre.

Já não começo nenhuma colecção há muitos anos. Há quem diga que amadureci mas eu acho que é por falta de tempo. Tenho acumulado gordura na pança mas isso dificilmente será uma colecção... Quando muito é um passatempo. Mas uma colecção implica outro tipo de directrizes. Anyway, como não podia deixar de ser, e porque este blogue vive muito de rankings, aqui ficam os Tops das minhas colecções. Dividi a contagem em dois, as normais e as anormais... Porquê? Vocês vão perceber porquê.


TOP 3 DAS COLECÇÕES, DIGAMOS NORMAIS, SE É QUE ALGUMA COLECÇÃO CONSEGUE SÊ-LO, MAS PRONTO ESTAS SERÃO MAIS SOCIALMENTE ACEITES DO QUE AS OUTRAS VÁ, DO VOSSO SEMPRE AMIGO SAGUIM.


1.
SELOS

Até aqui tudo normal, parece-me.

As colecções de selos existem há séculos, muita gente como deve ser as fez e convenhamos que não deixa de ser um investimento. É que isto é coisa para valer algum dinheiro. Não organizada como eu a tenho claro... Desta maneira calculo que não sirva p'ra nada. Tenho vários álbuns, cada um relativo a um continente, onde os selos estão divididos por países e pouco mais do que isso. Estou-me nas tintas para as séries, para os anos e para o raio que parta... aquilo está orientado por temazinhos e já é uma grande coisa!

No início organizava os selos com a ajuda de uma pinça.
Mas era só para fazer vista. Para dar estilo.
Todavia, como invariavelmente esta actividade deprimente decorria na solidão do meu lar, apercebi-me que não estava a impressionar ninguém. E então reformei a pinça.

Lembro-me que o pontapé de saída para ter decidido fazer uma colecção de selos foi ter sabido que o meu avô em tempos também tinha tido uma. Só que teve de vendê-la devido a problemas financeiros. Isto porque a dele, sim, valia alguma coisa. Lembro-me que depois de me ter contado isto lhe perguntei porque não tinha tirado umas fotos dos álbuns para guardar como recordação. Ele olhou para o puto estúpido que lhe tinha feito a pergunta estúpida e limitou-se a encolher os ombros, evitando olhar para a minha cara sorridente que achava ter focado um ponto importante. Enfim...


2.
ÍMANES PARA FRIGORÍFICO / COPINHOS DE SHOT

Dois enormérrimos clichés. E, para mim, dois gigantescos potes de areia movediça...
Quando comecei a viajar pelo mundo fora, visitando paraísos exóticos como Armação de Pêra ou Badajoz, impunha-se o exercer da minha tendência para a recolecção.

E como sou um indivíduo extremamente criativo, sempre em busca de ideias "fora da caixa" (como eu adoro esta expressão), nada melhor do que começar a comprar AQUILO QUE TODA A GENTE COMPRA PARA ASSINALAR A PRESENÇA NUM LOCAL. O problema é que como já viajo há alguns anos e comecei a fazer aquilo logo na primeira viagem, agora não consigo parar. Penso que, de alguma forma, estou a faltar ao respeito ao pequeno Saguim que comprou o primeiro íman ou o primeiro copo... E se eu não gosto de faltar ao respeito a ninguém, muito menos a mim próprio!

O que é que eu faço com estas lindíssimas peças de decoração?
Os ímanes, pasmem-se, estão na porta do frigorífico. Se dúvidas houvessem que sou bimbo, basta darem um salto aqui à cozinha do menino. Os copinhos de shot que NUNCA foram, são ou serão usados, estão num armário a apanhar pó.

Agradeço a Deus que a minha mulher ainda não se lembrou de implicar com isto.
Porque se algum dia o fizer vou ter de pô-la na rua.

É que mulher tenho uma, ímanes e copinhos tenho muitos. Em termos de colecção, a segunda ganha em quantidade.


3.
CROMOS

Estes felizmente já não colecciono. É que, verdade seja dita, aquilo dava uma trabalheira dos diabos. Era o ritual de comprar carteirinhas nos quiosques, cujos donos esfregavam as mãos de contentes quando me viam aproximar arrastando um adulto cabisbaixo pela mão. É preciso dizer que, à minha conta houve muito antigo proprietário de quiosque que se deu bem na vida. O Belmiro de Azevedo, por exemplo, tinha o dele junto à Tarantela no largo da Estefânia. E hoje nem uma lembrança no Natal nem nada. Enfim, feitios.

Depois da compra das carteirinhas seguia-se o abrir das mesmas e a felicidade incontrolável quando se encontrava um ou dois que não se tinha. Os outros engrossavam o molho dos repetidos que se prendiam com um elástico. Depois ainda implicava arte e engenho na altura de colar aquilo dentro dos limites da moldura respectiva, no álbum. Apesar de fazer muita coisa mal na altura (hoje já não faço nada mal como é evidente) era um verdadeiro mestre na colagem perfeita e sem mácula de cromos em cadernetas. Agora, o que é que isso me rendeu na vida? Pouco.

Talvez por isso, porque não é por saber colar bem crominhos num quadrado que mais depressa arranjo emprego, que me deixei de coleccionar cromos. Claro que isso não invalida que tenha aqui duas ou três Simaras de cadernetas (num mundo ideal, "Simara" seria uma unidade de medida de peso) a fazer as delícias dos bichos do papel. Mas como temos de ser uns p'rós outros...


Bom, adiante...


TOP 3 DAS COLECÇÕES, COMPLETAMENTE ANORMAIS, BIZARRAS, ESTAPAFÚRDIAS E TUDO MAIS DE ESTRANHO E LYNCHEANO QUE LHE QUEIRAM CHAMAR, DO VOSSO SEMPRE AMIGO SAGUIM.


1.
POSTAIS ILUSTRADOS

Além de todos os adjectivos acima descritos, esta colecção introduz-nos também o campo do incrivelmente DEPRIMENTE.

Postais ilustrados.

Em que é que eu estava a pensar quando decidi juntar umas micas numa pastinha e guardar tudo o que se enquadrava neste universo? A menos que estivesse nesse preciso momento a ser operado ao cérebro, com uma serra a separar-me os hemisférios, julgo que não tenho desculpa alguma.

Sim, eles ainda aqui estão. Na pastinha.
Coisas tão díspares como aqueles postais com bonecos horrivelmente ordinários que se vendem no Algarve, o sempre terno Topo Gigio ou uma ilustrações foleiras de, por exemplo, o "Outono".

Nunca mostrei isto a ninguém. Ao menos aí tive juízo.
Não que a colecção seja repulsiva de alguma forma mas é mesmo MESMO muito nonsense. Não é fácil explicar às pessoas que aquele que se lembrou de iniciar tal colecção, ou seja eu em puto, não era também possuidor do QI de um rato morto. É uma cantiga difícil de engolir.


2.
PORTA-CHAVES

Apercebo-me que praticamente TODAS estas colecções foram iniciadas em criança e que eu hoje sou apenas a vítima de um horrível legado pelo meu "eu" passado... Fui claro? Basicamente gostava de voltar atrás no tempo, mandar um banano em mim próprio e berrar-me ao ouvido "PÁRA DE ACUMULAR M***A, PÁ!!!" Talvez tivesse resultado. Mas cheira-me que nunca vou ter a certeza.

Bom, os porta-chaves. Um flagelo da minha vida actual.
Quando era miúdo vi uma fantástica reportagem do Canal 1 (como lhe chamavam na altura) sobre uma tasca que tinha o tecto coberto de camarões (os parafusos, não o marisco) que penduravam uma épica colecção de porta-chaves. De todas as formas e feitios. E como os clientes da Casa de Pasto já sabiam que o dono tinha esta, digamos, deficiência, traziam-lhe sempre novos cada vez que lá iam comer. E o dono punha mais camarões e pendurava mais porta-chaves no tecto. E toda a gente achava graça. Apesar de estarem a almoçar na iminência de lhes cair um sapo Cocas no guisado.

Aquilo que hoje me repugna antes maravilhava. Achei muito boa ideia. E imaginei que seria muito lindo ter um dia o tecto da minha casa coberto de camarões e uma colecção de porta-chaves ainda maior do que aquela.

Camaradas, só para vos dar um lamiré... Vamos admitir que eu não tinha mudado nada e continuava a pensar da mesma forma. O dia em que eu abordasse esse assunto junto da minha mulher era o dia em que passaria a ser conhecido como "o Eunuco de Benfica"... E mais não digo.

Feitas as contas, tenho duas enormes caixas cheias de porta-chaves até acima e não sei o que fazer com elas. Cómico é o facto de que sempre que preciso de um porta-chaves vou comprar. Podia tirar um qualquer da caixa mas aqueles pertencem à colecção. Colecção essa que eu já não quero mas que também não vou deitar fora... Até porque muitos dos itens me foram oferecidos e vieram de outros pontos do globo terrestre. Dilema, dilema, dilema...

Há uns anos atrás apercebi-me finalmente daquele que seria um destino digno para esta colecção: a doação a um qualquer Museu do porta-chaves. Em troca de uma ala com o meu nome, claro.

Só que não há nenhum.
Parece que o Estado acha que porta-chaves e cultura não estão bem no mesmo patamar.
É por isso que o Estado é estúpido. Por isso e por mais nada.


E chegámos então àquela que é a "pièce de résistance" desta conversa toda. A colecção mais bizarra de todos os tempos, fora da prisão ou do hospital psiquiátrico.

Pede-se às pessoas mais sensíveis que fechem esta janela e abram outra com o Noddy, por exemplo. Pede-se aos bravos que decidirem ficar para desligarem o som dos telemóveis e afastarem-se de objectos cortantes. Obrigado.

Então cá vamos a isto.

3.
É MELHOR NEM PÔR TÍTULO

Quando era miúdo (outra vez!!!) passava muito tempo sozinho em casa dos meus avós. Os meus avós tinham e têm, felizmente, um terraço no último andar de um prédio. Eu passava muito tempo nesse terraço a falar sozinho e a olhar para as moscas.

As moscas pousavam no muro do terraço, a apanhar sol. Eu olhava para elas e achava que a nossa convivência podia ser levada para um outro nível. Algo mais íntimo.

Daí, comecei a olhá-las com um frasco de vidro na mão. A conceber todo um plano maquiavélico. Elas é que esfregavam as patinhas ao sol mas eu é que estava a congeminar algo terrível. Elas não faziam ideia. Eu sorria, com o frasco na mão.

Após várias tentativas capturei uma, colocando o recipiente de cabeça para baixo. Arrastei-o sem o afastar da base até ao limite do muro e coloquei a mão debaixo, a tapar.

Fui buscar álcool etílico.
Às escondidas porque, vá-se lá saber porquê, a minha avó gostava pouco que eu brincasse com álcool, ou com fósforos, ou menos ainda com as duas coisas ao mesmo tempo. Mas logo por azar era com isso que eu mais gostava de me entreter...

Coloquei um pouco de álcool no frasco. Deitei-lhe fogo. Labareda súbita. Mosca carbonizada no fundo do frasco.

Depois retirei a mosca e com o auxílio de uma velha faca, cortei-lhe a cabeça e coloquei-a num pratinho de esmalte que os meus avós tinham. Achei tanta graça à ideia que comecei a fazer disso o meu hobby de fim de tarde. E a dada altura a minha colecção de "cabecinhas de mosca num prato de esmalte" fazia já inveja a muito bom assassino em série!

...

(pausa para aplausos)

...

(outra pausa para constatar que não houveram aplausos)

...

Tenho a recordar que aquilo que hoje se acha horrendo na altura era uma forma de passar o tempo como outra qualquer. É importante não esquecer que só haviam dois canais de televisão e o Eládio Clímaco aparecia mais do que seria desejável.

Bom, mas a verdade é que eu próprio acho que aquilo não era coisa que se fizesse. Não sei onde foi parar essa minha colecção mas desconfio que a minha avó a tenha confundido com insectos mortos e a tenha deitado para o lixo. Onde pertencia, convenhamos.

De qualquer forma, e dentro desta minha veia de recolector é a única colecção verdadeiramente original. Aquela que não deve haver muito mais gente no mundo a ter uma igual. Eu pelo menos assim o espero.

Para terminar, Caçador ou Recolector? Qual o melhor, afinal?

Parece-me que acaba por ser o Caçador.
Mais limpinho, mais organizado, mais apelativo para as gajas e, acima de tudo...

... com menos cheiro a mosca morta impregnado na roupa.

Saturday, November 13, 2010

Do not cross

Já não é segredo para ninguém que a minha saída de Benfica está para muito breve.
Não é segredo porque eu mesmo o anunciei neste blogue há umas semanas, apesar de ninguém me ter perguntado nada.

Digamos que não sou muito bom a guardar segredos...

Basicamente tenho até ao final do mês para abandonar esta casa.
O meu lar doce lar durante os últimos dois anos e meio.
Casa essa que se pusermos de lado o chifrudo do vizinho anti-ruído, o escape negro do autocarro que pára à porta, os gritos dos transeuntes drogados e marginais de madrugada, o indivíduo meio monhé que está 24 horas por dia, 7 dias por semana, 12 meses por ano, sentado na esplanada da rua a beber imperiais umas atrás das outras sem ficar bêbado e a conversar com os velhotes, o ordinário que me riscou o carro, o outro ordinário que um dia me colocou um bilhetinho no limpa pára-brisas a chamar-me "anormal", os vizinhos mal-encarados, o indivíduo que vem receber a renda todos os dias 7, estilo medieval, porque, ainda não percebi porquê, não se pode pagar via multibanco, o violador de Telheiras que aterrorizou as redondezas, o mijo que muitas vezes aparece no hall de entrada do prédio e cujo mijão se nega a limpá-lo e o intercomunicador que o senhorio se orgulha em pura e simplesmente não mandar arranjar... se pusermos de lado tudo isso, esta casa nem nos acolheu muito mal.

A verdade é que aquela para onde vamos fica bem longe daqui e precisa de umas obras antes da mudança. Nada de fundo, não comprei nenhuma barraca, embora tenha visto algumas bem jeitosas e em conta, mas é coisa para durar uns dois mesinhos. Por causa disso, os últimos tempos não têm sido nada fáceis porque pensar em tudo o que queremos fazer e ainda tratar de mil e uma burocracias e chatices acaba por ser quase outro trabalho a tempo inteiro. E se já me chateia ter um, então dois é mesmo coisa para dar cabo dos nervos.

O problema é que quando não sobra tempo para mais nada, há uma série de outras coisas extra-emprego que ficam ou em stand-by ou quase completamente esquecidas. Falo de algo tão essencialmente simples como a limpeza da casa onde ainda estou. Ou da ausência dela.

Por um lado, sejamos sinceros, a permanência aqui neste momento provoca-me muito nojo.
Por outro, custa-me estar a gastar energia e recursos na higiene de um local que muito brevemente vai deixar de me albergar. Estão a ver o dilema?

Como sou preguiçoso acabo por me concentrar mais no segundo ponto. Aquele que diz: "What's the point...", afasta o lixo e se deita em posição fetal para acordar no dia seguinte de manhã. Sou preguiçoso para me mexer e fazer limpezas e, mais do que isso, sou preguiçoso para berrar à minha mulher que tem duas horas para pôr isto num brinquinho. Bom, aí sou até mais medroso porque penso que não me safava de levar uma patada nos dentes. Portanto, deixo-me estar.

Neste momento, é possível encontrar por aqui coisas curiosas e dignas da atenção da ciência.
As bolas de cotão atingem dimensões impressionantes e é comum vê-las a voar no corredor como se estivesse no Velho Oeste. Faz um bonito efeito. Fica só a faltar o Clint Eastwood mas não há meio do homem vir a Benfica. Coisa que eu até compreendo, dada a falta de fascínio e/ou interesse desta zona, mas a vir juntava-se o útil ao agradável e às tantas até me dava uma mãozinha e aspirava uma divisão ou outra. Assim de repente, parece-me pouco provável que um dia o Clint Eastwood me venha aspirar a casa por isso prefiro não contar com isso.

Sigamos em frente...

Esta casa produz bolas de cotão como a China produz leite em pó à base de veneno... É às pazadas. O que até se percebe dado que cá vivem 3 criaturas cuja principal função é gerar pêlo dia e noite. Falo da coelha, da gata e, como é evidente, da minha "mais que tudo". Eu sou apenas uma infeliz vítima desta situação horrível dado que pouco pêlo possuo já na zona da cabeça, e o pouco que tenho é regularmente rapado. Já sugeri o mesmo "hairstyle" às referidas 3 criaturas mas a sugestão foi recebida com pouco entusiasmo. Resultado disso é a continuidade das tais bolas de cotão.

Mas agora são tantas e tão grandes que a gata volta e meia olha para mim com os olhos arregalados como quem diz: "Ehpá, já limpavas isto ó porco da m***a! Tenho conhecidos que vivem às espinhas na rua e nem eles se sujeitavam a este pardieiro." Vai daí, dou-lhe um biscoito e compro-lhe o silêncio por mais algumas horas. Ah! E volta e meia também é costume ouvi-la espirrar muito atrapalhada quando decide engolir um pedaço de cotão. Sempre uma graça. Eu sorrio perante a sua estupidez, dou-lhe uma festa na cabeça e fico a desejar que tão cedo uma não se cruze no seu caminho. Por agora, é tudo o que consigo fazer.

Mas se o cotão é realmente um enorme flagelo, o que dizer das descobertas revolucionárias que se vão passando na cozinha? Sim, é verdade, coisas do arco da velha. Já alguma vez tiveram uma abóbora podre no caixote do lixo durante dias? Não é tão espectacular como dizem. Na verdade, é tão nojento que se torna quase ofensivo. Eu levei a reacção da abóbora perante o tempo e a exposição ao ar como um insulto pessoal.

Primeiro a velhaca decidiu dizer-me que não estava em condições de ser consumida através do seu aspecto. Tinha ar de estar estragada e assim sendo foi devidamente colocada no caixote. O problema é que, dada a tal falta de tempo, esse saco acabou por permanecer no lixo durante alguns dias. O suficiente para a porra da abóbora me encher o caixote de uma espécie de água infernal emanadora de cheiro nauseabundo. Uma cortesia desta besta.

Eu nunca fui grande fã de abóboras e de um certo ponto de vista alguma razão deve ter a malta que lhes desenha caras feias e as exibe no Dia das Bruxas. Mas daí ao ódio que senti naquele dia vai uma boa diferença... E tão cedo parece-me que não ponho nenhuma na sopa!

Na cozinha sucedeu ainda outro fenómeno natural digno de nota. Depois de uma refeição de favas com chouriço e de colocado o excedente num tupperware, o meu genial cérebro sugeriu-me que colocasse o recipiente dentro do forno por estar ainda quente, a fazer horas para ir para o frigorífico. Dentro do forno, porque em cima da bancada está fora de questão. A menos que queira proporcionar à gata o banquete do ano, o que muito sinceramente não me seduz por aí além. Coloquei então o tupperware dentro do forno e o mesmo só foi reencontrado alguns dias mais tarde.

O cheiro era deveras incomodativo, verdade.
Impregnava a cozinha como o cadáver de uma doninha, verdade.
Mas o novo aspecto peludo e fofinho atribuía à velha refeição uma faceta carinhosa. Muito terna. Como um peluche mas para comer...

Enfim, digno de estudo digo-vos eu. Mas como também não tenho tempo para isso deixei a biodiversidade em "águas de bacalhau".

De qualquer maneira, há mais a dizer acerca deste upgrade de pocilga ao qual ainda chamo casa. A casa de banho, por exemplo, nem está muito mal.

Para uma casa de banho pública.

Se considerarmos os critérios dos sanitários dos centros de dia ou das estações de comboios, esta até dá gosto.

Ou então não e é repugnante como as outras... Mas não vou entrar em pormenores para não chocar ninguém e não provocar aquele movimento do esófago que "diz que vomita e depois não vomita". Enfim, isto por aqui está agreste.

O volume de roupa suja excede agora em muito o volume de roupa limpa. Não há tempo para meter na máquina e, além do mais, tem estado de chuva. Portanto, tenho agora um cesto a transbordar e ainda um saco cheio em cima, a fazer peso para que a tampa feche minimamente, que não me deixa mentir. E escusado será dizer que estes dois elementos acentuam ainda mais o clima de "barracaria" que domina este domicílio. É de fugir.

Aliás, hoje calcei o último par de peúgas da gaveta. Umas brancas da nike, para jogar à bola. Em situações normais não as usaria hoje mas não me restou outra opção. As cuecas também estão a acabar-se e se não tratar da roupa o quanto antes parece-me que vou ter de optar por um estilo de vida mais "à larga". Espero do fundo do coração que não chegue a tanto.

Feito um balanço final, aquilo que me dá algum alento é que TODA esta situação não é senão temporária. Daqui a pouco tempo já estarei numa casa mais bonita, com mais luz, mais arrumos, mais espaço... e mais área para distribuir a porcaria que mais tarde ou mais cedo se gera! Dar-me-á muita alegria.

E mesmo que tenha de lidar com isto por agora, convém manter o bom humor.

Sorrir sempre.

Não desesperar com a falta de tempo.

Ser optimista e, sobretudo...

... comprar mais biscoitos para gato.

Sunday, October 31, 2010

Sóbrio mas Feliz

Olá, eu sou o Saguim e gosto muito de vinho tinto... (digo eu)

Olá Saguim. (respondem vocês)

Gosto tanto do rubro néctar que há uns tempos atrás a minha doce mulher lembrou-se de me oferecer um daqueles packs da Smartbox, dedicado a workshops, de modo a que pudesse aumentar os meus conhecimentos acerca do mesmo. Conhecimentos esses que neste momento estão muito perto do nulo.

Sei dizer se o vinho me sabe bem ou se me sabe menos bem. Mal, raramente sabe. Mas gostaria de deixar de fazer aquele teatro ridículo sempre que o empregado de mesa mo dá a provar num restaurante...

Normalmente faço o seguinte:

Ergo bem alto o copo no ar. Observo o líquido. É vermelho. Confere.

Bamboleio a vinhaça no copo não sei bem para quê. Dou-lhe uma cheiradela. Cheira a vinho. Confere.

Bebo um golo. Semicerro os olhos para parecer que estou a saborear os taninos ou lá o que é. Em vez disso, constato que sabe a vinho. Portanto, confere.

Faço que sim com a cabeça, com ar de entendido, e vejo o empregado servir-me a mim e à pessoa que me acompanha. Isto enquanto provavelmente o indivíduo se regozija por me ter servido a garrafa que esteve na montra durante o último mês, a apanhar sol.

Bom, vai daí, e em grande parte para evitar estas minhas figuras de palhaço, a minha mulher lembrou-se de me oferecer um pequeno curso de nome "Para quem não percebe nada de vinhos mas gostava de perceber". Nada mais adequado...

O local? Um pequeno restaurante vegetariano e, ao que parece, centro de cursos e oficinas, chamado "Bem-me-quer".

Vamos lá embora, então.

Quando alguém nos oferece um pack da Smartbox, da "Vida é Bela", ou de uma das outras 50.000 empresas que agora proporcionam uma vasta oferta de experiências, ficamos contentes quando recebemos a prenda mas depois deixamo-la "a pastar" numa gaveta até começarmos a ficar com medo que perca a validade. Comigo, foi exactamente isso que aconteceu. Apesar de gostar muitíssimo de vinho, não ao ponto de não conseguir manter um emprego ou um plano de higiene pessoal mas o suficiente para um dia ter pedido num bar "Uma caipirinha, por amor de Deus" em vez do normal "se faz favor", deixei que o pack marinasse em casa até muito recentemente.

Não que não tenha ligado há tempos a tentar reservar o curso. Liguei duas vezes. A primeira delas, os tipos estavam a preparar-se para entrar de férias. Portanto, mau timming. Já na segunda, o formador estava numa vinha e só voltaria na semana seguinte. Pensei logo: o formador está numa vinha? Ou é enólogo ou apanha uvas para ganhar uns trocos... Seja como for, deve perceber do assunto.

Só na última semana consegui finalmente marcar o tal workshop. E que contente que eu fiquei... Todos os dias antecipava o momento na minha cabeça. E, não sei bem porquê, sempre que o fazia imaginava um patusco encontro de bebedeira entre desconhecidos, brindes sucessivos, sonoras gargalhadas e muito "Se o Saguim quer ser cá da malta..." Mais prático que teórico, no fundo. Mas depois também pensava: se assim fosse haveria muito bêbado a querer reservar cursos destes porque parecendo que não acabam por pagar menos do que se fossem para a tasca beber penaltis uns a seguir aos outros... Vai daí, imaginei que às tantas o curso deveria ser menos orgia romana e mais coisa séria.

Marquei então para 29 de Outubro, última sexta, às 19h. E o que aconteceu foi mais ou menos isto...

A HORA DO SAGUIM APRESENTA:

O RELATO EBRIAMENTE CHOCANTE DO WORKSHOP "PARA QUEM NÃO PERCEBE NADA DE VINHOS MAS GOSTAVA DE PERCEBER", FREQUENTADO PELO SAGUIM NUM ESPAÇO DE NOME BASTANTE RABICHO, CHAMADO "BEM-ME-QUER"


18h20

Hoje é um grande dia! Finalmente vou fazer o meu workshop de vinhos. Até que enfim... Fartei-me de adiar e agora sim, vai acontecer. É por isso que o dia de hoje vai ficar para a História. Por isso e porque há horas atrás fui comprar uma casa... Isso também é capaz de importar: a escritura do lar onde se calhar vou viver para sempre. Nada que se compare ao vinho mas ainda assim digno de nota. Já não falta muito! Daqui a bocado é que vai ser!!!


18h30

Vim do banco e da escritura directamente para casa dos meus pais que fica mais próxima do tal sítio. "Bem-me-quer"... Não conheço. Mas também não importa. Desde que haja vinhaça, o nome até podia ser mais gay. Fecho o portátil, dou o dia de trabalho por encerrado, e preparo-me para descer a rua. Que excitação! Finalmente vou ficar um entendido na matéria e começar a mandar vinhos para trás por "não estarem em condições". AHAHAHAH... O PODER!!!


18h45

Chego à "Bem-me-quer". O restaurante está fechado. Isso e tem as luzes apagadas. Tudo bem, o workshop não há-de ser no espaço do restaurante e ainda não são 19h. Pergunto a uma senhora moradora no prédio onde ficam os escritórios em que acontecem os cursos. Ela diz-me que é ali no rés-do-chão. Eu agradeço, sempre bem educado, ansioso por beber uns canecos e perder a educação toda... Eheheheh cá estou eu. Toco à porta. Espero um bocado. Ehehehehe 'Tá quase! 'Tá quase! Ninguém abre. Ok, ainda não são 19h. Eu espero.


18h55

Já só faltam cinco minutos para as 19h e ainda não há sinais de vida dentro do estranho local. Já toquei e toquei e nem um som. O vizinho da frente, depois de certificar-se que eu não era "drógado", disse que "a senhora" tinha saído e já voltava. Não percebo exactamente o que quer ele dizer com "a senhora". Não sei se é relativo a religião ou a putedo... Mas pelo aspecto da escada do prédio inclino-me mais para a segunda hipótese. De qualquer maneira, deixo-me ficar na escada à espera. Em pulgas para afogar o meu stress num belo alentejano. Vinho, diga-se. Não num indivíduo.


18h58

Sai uma mulher do escritório. Apercebo-me rapidamente que não é "a senhora". Vem sozinha e com um sorriso parvo. Eu pergunto-lhe se é ali que dão workshops de vinhos e ela diz-me que sim. Diz que é professora de yoga e que não me abriu a porta porque não é dona daquilo. É professora mas não vem com aluno nenhum... Eu acho estranho mas agradeço e continuo à espera. Antes de se ir embora ela diz-me que "a senhora" deve estar a chegar. Eu sento-me na escada com atenção ao interruptor que volta e meia desliga-se e deixa-me às escuras.


19h00

Vou sonhando com o glamour do vinho tinto e da piela que tenciono apanhar quando chega um tipo brasileiro. Vai ser colega de formação. Ele pergunta-me se é ali a "Bem-me-quer". Eu digo que não sei mas que deve ser. Digo que "a senhora" deve estar a chegar. Vejo pela cara dele que não sabe quem é "a senhora". Mas tal como no vinho que me dão a provar no restaurante, faço o ar entendido de quem sabe e evito qualquer pergunta que ele me tenha a fazer. Fico sentado na escada enquanto ele se encosta à parede a mexer no telemóvel. Fazemos um bonito duo. A porta ao nosso lado fechada. E o workshop que devia estar a começar...


19h15

'Tá giro... Passaram-se quinze minutos e nem "senhora", nem fulano que andava nas vinhas ainda há duas semanas nem outros formandos nada. A porta continua fechada, lá em baixo o restaurante às escuras, eu sentado na escada e o brasileiro encostado à parede a mexer no telemóvel. E assim se vai passando o serão. A luz da escada apaga-se. E perante a inércia do "colega" sou eu que me levanto para a reacender. Começa a cheirar-me a esturro...


19h20

Curioso... Vinte minutos de atraso. Também não vale a pena ficar já irado. Pode ter acontecido algum acidente. Quando reservei pelo telefone pediram-me os meus contactos por isso estou certo que se pudessem ter previsto isto já me tinham ligado. É isso, de certeza que tarda nada vai entrar por aí adentro "a senhora" espavorida porque foi atropelada por uma carrinha de caixa aberta, fractura exposta em ambas as pernas, mas decidida a abrir-nos a porta e a proporcionar-nos o nosso workshop. O brasileiro continua a mexer no telemóvel sem levantar os olhos. Eu, volta e meia, bufo para ver se manifesto a minha impaciência e se troco meia dúzia de palavras com ele. Porém, sem sucesso. A luz da escada apaga-se. Quem se levanta sou eu.


19h30

Querem ver que não vai haver curso p'ra ninguém?! Mesmo que "a senhora" apareça aí com um Ford Fiesta emplastrado na nuca, não há sinal do tipo das vinhas... Se calhar ficou por lá. Deve estar neste momento a dormir de barriga para baixo no meio das videiras, com as calças pelos tornozelos e a tentar não se afogar no próprio mijo. Bêbado! A dada altura digo ao brasileiro que estou a perder a paciência e que vou telefonar para os números de telefone que estão no livro da Smartbox. Ele não me liga nenhuma e continua a mexer no telemóvel, encostado à parede. Encontro dois números: um fixo e um móvel. O fixo ninguém atende. Surpresa chocante. O móvel não está atribuído. Mau... Apaga-se a luz. PORRA QUE JÁ É DEMAIS!!!


19h35

QUE SORTE A MINHA!!! MALDIÇÃO! QUE CAIA JÁ UM METEORITO DAQUELES F****OS, QUE DERAM CABO DOS DINOSSAUROS, EM CIMA DESTA ESPELUNCA!!! Nem sinal da "senhora", nem do bêbado, nem da professora de yoga (que às tantas era mesmo "a senhora" e se baldou de maneira airosa) nem de ninguém. Estou p'raqui enfiado numa 6ª feira à noite, lado-a-lado com um indivíduo que é brasileiro, na escada de um prédio antigo que volta e meia fica às escuras E CONTINUO A NÃO PERCEBER GRANDE COISA DE VINHOS! Os moradores do prédio entram, uns após os outros, em direcção às suas casas. Nenhum deles é "a senhora" que neste momento, a chegar, não se safa de ouvir uns insultos dirigidos a ela e à família. Em vez disso, vão chegando os vizinhos, cada um mais feio que o outro. Faz-me lembrar o meu prédio em Benfica.


19h45

Vou-me embora. Despeço-me do brasileiro e atiro para o ar o clássico "Isto é uma vergonha..." Ele aproveita e vai-se embora também, lixado com a "sacanagem". Chego a casa tão sóbrio quanto saí e, há que dizer, bastante desiludido com isso.


Portanto, foi assim o meu workshop de vinhos.

Escusado será dizer que depois do feriado pingarão duas queixazinhas no atendimento ao cliente da Smartbox: uma em português do Brasil e outra em português de Portugal. E se me dá p'raí ainda pingarão mais em inglês, francês, espanhol ou madeirense. Não que saiba falar estas línguas mas sei quem sabe e decerto me farão o favor.

Estou também muito determinado a ligar para a "Bem-me-quer" e dar uma palavrinha à "senhora". Mostrar educadamente a minha indignação. E, se vier a propósito, mandá-la p'ró c*****o.

Agora, enquanto a minha mulher se ocupa com frivolidades como as obras na casa nova, as mudanças e tudo o que há a comprar, eu estudo formas criativas de me vingar desta gente. Disso e de tornar mais credível o meu teatro quando provo vinhos em restaurantes.

Penso que o segredo está no estalo da língua, após o gole...