Saturday, October 16, 2010

A Problemática dos Lémures

Encerrada de vez a viagem ao México, curada a infecção pulmonar que trouxe como "recuerdo" e de novo na roda viva do trabalho, da compra da casa e do lufa-lufa do dia-a-dia... é tempo de ocupar-me novamente de assuntos que de tão sérios dispensam demoras.

Falo da problemática dos lémures.

Para quem não sabe o que são lémures, coisa imperdoável, aqui fica uma achega: imaginem um guaxinim anoréxico. Aí têm um lémure. Simples, não é?

Por outro lado, se nem sequer sabem o que é um guaxinim então já pouco posso fazer para vos ajudar. Isso é o grau zero dos bichos patuscos, senhores.

Bom, o meu fascínio por lémures é algo que já tem feito correr muita tinta. Nomeadamente a minha. E escusam de dizer que só comecei a gostar deles depois de ter visto o "Madagáscar" porque isso é uma calúnia infame. Ainda o King Julian não sabia dançar o "Move it, move it" e já eu sabia de trás para a frente o que era um lémure e tudo mais que se possa saber acerca deles.

Basta olhar para eles: olhos redondos, muito vivos, como dois holofotes amarelos; orelhas peludas e hirtas, sempre alerta; expressão palerma no focinho; não vale a pena estarmos para aqui com meias-palavras, os lémures, se os animais trabalhassem, eram de longe OS PATRÕES.

Gosto deles, pronto. E podia ficar-me por aqui.

Mas eu nunca me fico por aqui...

Há uns tempos atrás pensei muito seriamente em adoptar um lémure. Pensei tão seriamente que cheguei a trocar alguns e-mails com o Badoca Park, para potenciar ao máximo esta experiência. Quando descobri que adoptar um lémure não significava exactamente trazê-lo para casa, não nego que fiquei algo embargado pela dor. Não foi fácil de recuperar do choque. Mesmo sabendo que o bicho provavelmente não se adaptaria muito bem a Benfica, há por aqui animais com ainda menos maneiras, pensei que o meu papel como pai adoptivo só poderia ser integralmente cumprido com este tipo de proximidade. De que outra maneira poderia eu controlar "as companhias"? Rever-lhe os trabalhos de casa depois das aulas? Falar com ele sobre miúdas?

Sei o que estão a pensar: em Benfica não há lémures fêmeas, logo não há "miúdas"... Mas já vi por aí trambolhos com o cio que certamente até se esfregariam nos escaparates do LIDL se isso não desse prisão. Por isso, um lémure seria para elas uma benção dos céus.

Bom, mas dizia eu que troquei mails com o Badoca Park. Mais do que seria desejável para ambas as partes. Para eles, deve ter sido esquisito responder a tantas perguntas e sentir tanto interesse de um indivíduo em apadrinhar um primata. Quanto à minha pessoa, senti que algo estava a impedir-me de atingir o meu objectivo, algo se estava a colocar entre mim e o meu lémure.

Primeiro queriam impingir-me um lémure de barriga vermelha. Pffffff

Excusado será dizer que os bons são os de cauda anelada. Mas esses não estavam na lista de adopção, o que me levou logo a tecer a minha primeira exigência: "Eu amo todos os seres vivos e todas as criaturas de Deus mas recuso-me absolutamente a adoptar um qualquer ranhoso de barriga vermelha que vocês me queiram impôr..." Foi com esta e outras considerações que facilmente consegui que os lémures de cauda anelada entrassem na equação.

O que me levou ao segundo problema: o apadrinhamento teria de ser presencial. Eu teria de me deslocar até Santo André no Alentejo para oficializar a minha nova condição de "pai adoptivo". E pensando bem era o mais correcto a fazer. Mais do que enviar um cheque frio e impessoal e correr o risco de ver o meu lémure tornar-se um marginal, sem referências nem valores, encostado às palmeiras a fumar marijuana o dia inteiro, a gritar ordinarices aos tratadores e a apalpar as turistas. Eu não poderia suportar tal fracasso no exercer das minhas funções de progenitor. Mas também não me apetecia fazer uma viagem de 200 km para fazer as coisas como deve de ser. Como tal tudo ficou sem efeito até hoje.

Continuo a gostar de lémures e continuo a querer adoptar um. Isto porque entre outras coisas, é-nos permitido dar-lhe nome. E eu queria muito que houvesse um lémure a chamar-se André Oliveira, tal como eu. Pagava bom dinheiro para ouvir os seguintes comentários de um tratador:

- Skippy deixa os outros lémures comerem fruta também. Maggie não mordas a cauda da tua irmã. Estás com o pelo muito giro hoje, Scottie. André Oliveira pára de atirar caganitas às pessoas!

Era espectáculo.

E agora, enquanto o mundo está em crise, o IVA subiu para valores astronómicos, o país está pior do que nunca e o Sócrates goza connosco como um perdido... julgo que estão reunidas as condições para finalmente adoptar o meu lémure.

Vou estudar novamente o assunto, que isto não é para se fazer de ânimo leve, e talvez ganhar coragem de tomar uma atitude.

Um gesto meu hoje, um lémure a menos no mundo do crime amanhã.

Ámen.

Friday, October 8, 2010

Era uma vez no México

Então diz que fui de férias para o México...

Há quem diga que voltei há poucos dias mas eu ainda não tenho a certeza. Isto de 6 horas para aqui, 6 horas para ali e mais o horror de tempo que duram as viagens bem pode significar que o verdadeiro Saguim ainda está perdido num qualquer limbo ou vazio temporal a perguntar ao Michael J. Fox o caminho para casa.

Agora pensando bem, e dada a minha épica falta de orientação, talvez fosse melhor não pedir ajuda ao Michael J. Fox. A última coisa que precisaria era de uma mão tremelicante a dar-me direcções. Para isso já me basta o maldito GPS.

Bom, regressado do México que conclusões há a tomar?


1)
O México não é nada do que dizem: não vi traficantes de droga nem tufões nem indivíduos a gritar "Ay Ay Ay". Nada disso.

2)
O México é perfeitamente seguro a qualquer hora do dia. Atravessei muitas estradas a pé, até durante a noite, e apenas fui abordado por um cavalheiro que se ofereceu para me conduzir gratuitamente até ao meu alojamento.

3)
No México a comida e a bebida são gratuitas e à descrição. E quando falo de comida e bebida não me refiro apenas a pão e água. Tacos, mojitos, pina coladas e margueritas eram à verdadeira vontade do freguês.

4)
No México há uma abismal quantidade de sujeitos de farda que nos tratam como se fossemos patrões.

5)
No México usamos uma pulseira verde que faz de nós patrões.


Portanto, um sonho de país. Regressado a Portugal, e informado que fui das recentes medidas do Governo às quais a minha educação e recém adoptada postura zen me impedem de comentar, tenho de admitir que será difícil encontrar melhor exemplo.

É pena que realmente se tenha de passar por tamanha odisseia para lá chegar. E quando falo em odisseia não me refiro apenas às já comentadas horas de viagem. Refiro-me a episódios em particular.

Pode ser para muitos um choque mas... eu viajo em turística.

Não que não pudesse efectivamente viajar em executiva, evitando assim a ralé e as doenças, mas prefiro não fazê-lo para dar menos nas vistas. E também para poder comer até ao fim do ano. Parecendo que não, faz diferença.

Seja como for, e por muito que passe pela experiência, tenho algum medo de voar.

Porquê? Pergunta estúpida. Mas ok.

Porque a ideia de me espetar a milhares de metros de altura e depois ter o que resta do meu corpo a ser reconhecido por um tipo que por acaso tinha em arquivo o molde dos meus dentes assusta-me um bocado. Provavelmente é mariquice mas ninguém é de ferro.

Ora, eu estranhei quando, a caminho para o paraíso tropical, em pleno voo, me foram servidas refeições claramente superiores àquelas que normalmente degusto em classe turística. Estranhei, mas como eu quando é para comer activo o modo "urso pardo", tratei do assunto mais depressa do que levaria à hospedeira dizer "O senhor desculpe mas acho que me enganei na sua refeição". A questão não se levantou, até porque todos estavam a comer o mesmo do que eu. Mas não era apenas isso que era bizarro. As bebidas que estavam a ser servidas, normalmente aquelas marcas de confiança e que toda a gente conhece, eram do LIDL. Cortes no orçamento, pensei eu. Mas não era bem disso que se tratava...

A dada altura, ouve-se aquele "clic" tradicional que anuncia que "o piloto vai falar". Mesmo sabendo que normalmente o que dali sai é qualquer coisa como "Ladizendgenilmentdisizorcaptonspkin. Ueeearenaulivinlisbonerepór...", eu acabo por ficar sempre hirto como rocha, temendo que algo de grave se passe e que esteja a ser comunicado aos passageiros como uma extrema-unção.

E o que se ouviu começou por ser isto:

"Senhores passageiros, quem vos fala NÃO É o vosso comandante..."

...

...

Tempo parou para mim...

...

...

Testículos mirraram até ao tamanho de pinhões.

...

...

Veias raiaram nos globos oculares.

...

...

Gotas de urina, libertadas, a conta-gotas.

...

...

Medo. O mais profundo e primitivo medo.

...

Depois deste início de frase, para mim, a conclusão só podia ser uma de três.


1)
"... quem vos fala é o terrorista Yasser Youssef que vai espetar esta capoeira de infiéis no primeiro arranha-céus que encontrar!"

2)
"... quem vos fala é o vosso co-piloto que está neste momento a fazer massagem cardíaca ao comandante sem qualquer sucesso, diga-se."

3)
"... quem vos fala é o tipo que riscou recentemente o carro do Saguim e que voltou para acabar o trabalho."


Portanto, coisa boa não podia ser.

Mas acabou por ser menos má.

Na realidade, a frase inteira foi a seguinte:


"Senhores passageiros, quem vos fala NÃO É o vosso comandante é o chef Olivier que preparou para todos refeições de primeira classe com ingredientes dos supermercados LIDL."


Era publicidade.

Nessa altura, não foi fácil fingir que nada tinha sucedido e que eu não tinha passado por qualquer tipo de aflição. Não falecer acabou por ser simpático, não me interpretem mal, mas quase desejei a morte mais tarde quando fiquei brutalmente mal disposto com a sandes de primeira do Olivier. Ninguém me mandou comê-la, sei disso. Mas quando uma sandes cruza o meu caminho é certo que um de nós vai deixar de existir. E nunca hei-de ser eu porque ser devorado por uma sandes parece-me estúpido.

Chegado ao México, tudo ficou melhor e mais calmo.

Sol.

Praia.

Piscina.

Vendedores ambulantes a burlarem-me à grande.

Tudo na mais profunda paz.

Se há coisa que acontece SEMPRE que me ponho a regatear, SEMPRE, é acabar por ser enganado. Eu afasto-me com um sorriso maroto como quem diz "Eh eh acabei por comprar isto a metade do preço que eles pediram...". Eles vêem-me afastar-me e riem à gargalhada apontando para a minha silhueta, como quem diz "O pacóvio do português acabou por comprar isto pelo dobro do preço que lhe custaria na barraca ao lado...".

Enfim, eu já encaro isto como uma tradição das férias. Para quê combater?

Ao contrário de malta que decide viajar meio mundo para ficar uma semana estendido ao sol, eu opto também por conhecer melhor a cultura da região.

Não que me interesse por cultura, que não interesso, mas a verdade é que eu não me bronzeio: eu avermelho-me. E às partes, que dá um efeito ainda mais giro. Vezes há em que fico vermelho e branco às tiras verticais. Parece mentira mas é verdade. Normalmente quando me apercebo disso sinto que só tenho duas alternativas: ou aguardo que os senhores de bata branca me lancem um dardo tranquilizante para estudarem a nova espécie de manatim bicolor que julgam ter encontrado ou meto-me numa camioneta e vou ver pedras velhas.

Fantástica cultura a dos Mayas. Uns tipos tão inteligentes, tão hábeis e tão sábios em tantas ciências como a astronomia, a arquitectura, a engenharia ou a decapitação... como é que foram tão facilmente conquistados pelos espanhóis???

Portugal, que é Portugal, sempre aqui esteve ao lado e fosse com uma espada, com uma lança ou até com uma pá de meter pão no forno, sempre corremos com os gajos daqui! Houve claramente qualquer coisa que falhou do lado de lá. Se calhar foi a língua. Como lá também se fala espanhol devem-se ter entendido logo, distribuído as tais pulseiras e depois quando deram por isso já não havia Mayas p'ra ninguém.

Dá que pensar.

Bom, o importante é que estou de volta há alguns dias.

O suficiente para constatar que este país não vai a lado nenhum se continuar a insistir neste tempo manhoso. Mas enfim, são políticas e eu nisso não me meto. Votem neles e depois queixem-se.

Ah só mais uma coisa: no México não há sushi de jeito. Também não podiam ser só virtudes. Se o México fosse uma mulher, não ter sushi de jeito, para mim, seria equivalente a ter buço ou os dentes da frente podres. Achei a sujeita engraçada, demos umas voltas durante uns dias, mas quando fui olhar bem encontrei esta incompatibilidade.

Não tem sushi de jeito.

Está morta para mim.

Friday, September 24, 2010

Há malta que devia levar com um ouriço gigante nos cornos!

Se calhar fui um bocado longe demais com o título... Comecei assim logo a abrir, com linguagem grosseira e maldosa, sem ponta de sensibilidade. Se foi isto que sentiram, peço desculpa.

Mas a verdade é que este título não é nenhum insulto...

É um desejo do fundo do coração.

Um pedido aos céus.

E eu bem o mereço. Sou honesto. Sou trabalhador (bem sei que estou a escrever este texto durante o horário de trabalho mas enfim... para português a fasquia também não é muito alta). Sou do Benfica. Sejamos francos, tudo isto me ajudará a fazer boa figura ao pessoal das togas brancas e das harpas que mora lá em cima, no dia em que eu me finar.

Por isso, eu devia poder pedir uma chuva de ouriços gigantes de vez em quando, e com isso despachar um magote de bandidagem de cada vez, contribuindo assim para um mundo melhor.

Ora bem, ouriços gigantes porquê? Primeiro porque estou ébrio de ódio e já não sei o que digo. Segundo porque têm espinhos afiados e porque, caindo de costas, depois de se espetarem pelo crânio de um indivíduo adentro iriam querer levantar-se e ir à vida deles, fazendo espichar um bonito efeito de sangue e miolos. Sei que é um pouco sádico este cenário mas, neste momento, o que para os outros seria horrível para mim seria fogo de artifício.


A RAIVA QUE SINTO!!!


Então não é que hoje de manhã, ao chegar ao carro, reparei que me fizeram um imenso e poderoso risco nas portas, ao longo de todo o comprimento da viatura? 'Tá tão giro...

E sendo o carro preto, um risco branco fica-lhe mesmo a matar.

O porquê do sucedido? Não sei. Não faço ideia.

O carro estava bem estacionado... Não estava num local de passagem... Não estava em zona de parquímetro sem pagar... Não estava num lugar para deficientes...
Isto embora, tenha lá ido um deficiente fazer m***a!

Fiquei uns bons 5 minutos a olhar para aquela maravilha, de boca aberta e sem grande reacção. Depois, efervesceu em mim um ódio primitivo e apeteceu-me fazer mal a pessoas. Quaisquer pessoas, sem critério. Avistei um grupo de estudantes que podia muito bem ser aviado à estalada. No final, agradecia, dava os bons dias, recolocava o chapéu na cabeça e ia trabalhar. Mais aliviadinho. Mas pronto, não foi bem isto que aconteceu.

Tive de engolir o sapo.

Resta-me concluir que foi obra de um inimigo, alguém que me quer mal e que aprecia erguer o punho e gritar "Saguiiiiim!" com ar demoníaco. Gosto de pensar que tenho um vilão na minha vida e que sou uma espécie de super-herói. Mas não faria mal se o morcão me viesse defrontar em campo aberto, à homem, ao invés de me andar a lixar a viatura. É um vilão um bocado fajuto, diga-se...

Enfim, suspeitos? Há.

Nomeadamente alguns.

E eles aqui ficam referenciados:


1) O meu Vizinho

Apesar de eu já não espirrar em casa há muito tempo, e com isso despoletar o radar anti-barulho que este senhor tem enfiado na peida (perdoem-me o francês), não há dúvida que há-de sempre figurar em toda e qualquer lista de suspeitos que eu faça. Ele odeia-me, isso é certo. O barulho que eu faço a andar no corredor, o som excruciante dos meus chinelos a bater no chão antes de eu os calçar, o horripilante tilintar dos talheres durante as minhas refeições... Tudo isto faz com que o meu vizinho já tenha arranjado uma tendinite de tanto socar a parede, em busca da quietude do mosteiro budista que ele gostaria que Benfica fosse.

Enfim, se foi ele a fazer o risco até admito que não tenha sido de propósito. Se calhar deixou cair qualquer coisa junto do carro e ao baixar-se riscou-me a porta com a cornadura. Já era altura de cortar as pontas, como nas touradas, mas não há meio...

No entanto, acho pouco provável que seja este o meu vilão. Para ir até ao meu carro fazer uma patifaria desta natureza, o homem teria de abandonar a sua tabacaria pelo menos durante 15 minutos, e todos sabemos que é coisa que ele não faz. E além disso, os vilões têm negócios de fachada mais fixes.


2) O Animal da Autoestrada

A besta ensandecida que me ia abalroando no trânsito no outro dia e que provocou num amigo meu a reacção "Wooo wooo wooo"... A avaliar pelos gestos de ódio que o gorila com hemorroidal efectuou dirigidos à minha pessoa, não seria absurdo concluir que ele terá assumido como prioridade acabar o trabalhinho que ia começando em plena autoestrada. Na traquilidade de um parque de estacionamento e sem "Wooo wooo wooo" a atrapalhar...

Apesar de ser um forte candidato à personagem de vilão da minha vida, há que assumir que estaria mais próximo de ser um velhaco das "Wacky Races". Bem diferente do mítico e galáctico criminoso que queria para ser o meu opositor. Por isso, espero que ainda não seja por aqui.


3) O Violador de Benfica

Bem sei que já foi apanhado mas nunca fiando. Lembro que, em Portugal, "apanhado" na grande maioria das vezes significa preso em liberdade preventiva, ou até em alguns casos, uma pancadinha ameaçadora nas costas e um "Vê lá se não voltas a fazer, meu malandro..."

Escrevi sobre o violador há uns tempos atrás nesta ocasião e é normal assumir que ele se quis vingar. Eu não disse mal dele, atenção. Não posso dizer que seja fã da violação ou que a aceite enquanto hobbie. Aconselho sempre os violadores a comerem antes uma peça de fruta ou a enfiarem uma bala nos cornos. Qualquer uma das duas é melhor do que tomar à força aquilo que em circunstâncias normais NUNCA seria deles. E isto é violação 101.

Bom, o violador andava a rondar o meu prédio, como provou um cartaz colocado no hall de entrada, escrito a marcador de feltro, por um dos meus vizinhos. A verdade é que o indivíduo não conseguiu levar a dele avante comigo e, cego de fúria, é bem possível que me tenha vindo riscar o carro. Apenas uma teoria...


4) O pensionista que gosta de obrar em piscinas

Last but not least e, quanto a mim, a hipótese mais provável. Escrevi sobre ele no meu último post, o causador da minha mais recente aversão ao exercício físico. No painel informativo da piscina onde costumo ir nadar estava um aviso que visava impedir que fossem, "uma vez mais", encontradas "FEZES" na água.

Eu exprimi a minha repulsa e ele não deve ter gostado.

Assim, não contente de espalhar m***a no sítio onde eu pratico natação lembrou-se de ir espalhalá-la também no meu meio de transporte. A mais plausível mas ainda assim difícil de considerar. Isto porque sabemos que o que os pensionistas gostam é de andar na autoestrada em contramão. Como tal, nunca que ele teria conseguido chegar inteiro a Benfica.


Tirando estes artistas, não consigo dizer quem foi.

Apreciava muito que Deus tivesse uma qualquer espécie de número verde para o qual eu pudesse ligar e resolver logo a questão de uma vez. Ir direito ao patrão sem passar pelos subalternos. Equivalente àquela altura em que dizemos ao telefone: "Quero falar com o gerente."

No entanto, penso que se assim fosse, para mim o número estaria sempre impedido. Ou então o anjo que atendesse diria que "ia passar" e punha-me a ouvir "O Bicho" de Iran Costa em loop, para todo o sempre.

Pensando bem, talvez não hajam fãs de Iran Costa no paraíso...

E o melhor é calar-me já senão o Iran Costa ainda se lembra de me ir riscar o carro.

Houvesse um ouriço gigante que lhe lixasse a coreografia!

Hoje estou de todo...

Wednesday, September 15, 2010

O Dia em que o meu Mundo parou

O meu dia hoje foi de cão.

Mesmo.

Não daqueles cães maricas cheios de berloques e perfumes até à ponta do focinho, habituados às mais elaboradas mordomias. O meu dia foi de cão sarnento, dos que andam a fuçar no lixo à procura de jantar e que acabam a roer uma bota, um pneu ou uma camisola do Sporting (não que esse cenário seja minimamente credível mas depois de um dia destes sabe bem achincalhar o clube rival).

A vida actualmente até corre bem. Tenho um emprego agradável com malta afável e simpática. Tenho uma família que sim senhor em todos os aspectos, amigos que valem a pena e até uma mulher que por sua livre e espontânea vontade mantém a decisão insana, dizem alguns, de partilhar a vida comigo. Eu até vou para uma casa nova, para longe do burjeço do vizinho que se excita a bater na parede, e tudo isso faz de mim um tipo feliz.

Tenho um pouco de peso a mais é certo. Mas até esse handicap está a ser combatido, dado que me inscrevi há algumas semanas numa classe de natação livre numa piscina perto do trabalho.

Portanto nada, mas mesmo nada, fazia prever o dia de hoje.

Passo aqui a relatá-lo, para que todos possam partilhar da minha dor:


O RELATO CHOCANTE, E SEM CENAS CORTADAS, DO UNANIMEMENTE PROCLAMADO COMO UM DIA MUITÍSSIMO FEDORENTO NA PELE DO SAGUIM (TAMBÉM CONHECIDO COMO "O DIA EM QUE O MEU MUNDO PAROU")


8:30

Toca o despertador. Acordo imediatamente mas o sono e a chamada ronha impedem-me de içar o meu enorme corpo de mamute. Deixo-me estar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca. A gata mia como se estivesse a ser esventrada. Eu limpo o fio de baba e ignoro os miados angustiantes do raio da gata. Deixo-me estar. A gata mia como se estivessem agora a enforcá-la com as próprias tripas. Eu levanto-me para garantir que não é isso que a minha mulher está a fazer.

9:20

Saio de casa com o meu chapéu de abas enterrado na cabeça. Digo enterrado porque já não o uso há alguns meses e aparentemente mirrou. Ao contrário da minha cabeça que continua a crescer sem qualquer controlo desde os 4 anos de idade. O chapéu corta-me a circulação na testa. Eu não ligo porque gosto de me ver de chapéu. As pessoas na rua não. Afastam-se. Olhando-me ao espelho consigo perceber porquê. Pareço um cigano. De barba, camisa escura e chapéu de abas. Era darem-me uma guitarra e verem-me interpretar "Borbujas de amor" de Juan Luis Guerra. Só que mais gordo. Acho eu porque nunca mais o vi.

9:30

Chego de carro ao Colombo, chapéu a abrir-me um lenho na testa tal é a pressão, para dar boleia a um amigo meu em direcção ao escritório. O gajo ainda não chegou. Páro o carro junto à berma do passeio, 4 piscas ligados, deixando o espaço semelhante ao estádio do Belenenses disponível ao meu lado para não atrapalhar o trânsito. Um gajo ao lado faz o mesmo e pára a lata dele junto ao outro passeio, deixando apenas metade do estádio do Belém. Continua a haver todo o espaço do mundo. Uma mulher idosa pára atrás de nós e começa a apitar muito irritada, cheia de linguagem gestual. Eu deixo-me estar a gozar o espectáculo. À espera que lhe dê um AVC. Ela sai do carro. Eu penso "Tu queres ver?". Em vez de ir chatear o outro vem-me chatear a mim. Eu penso em ir buscar a tranca na mala do carro para lhe desfazer a dentadura à base de marretada mas lembro-me que é capaz de dar cadeia. Ela diz: "Então como é?". Eu pergunto: "Não passa?". Ela volta para o carro e passa. Sempre a insultar-me. Passa ela e passaria um boeing 747. Mas ainda assim não me safo de a ouvir. Continuo à espera que lhe dê um AVC. Mas o carro não se despista. Então presumo que não lhe deve ter dado.

10:20

Chego ao escritório. Tiro o chapéu da cabeça exibindo uma bonita linha vermelha na testa semelhante à cicatriz de uma lobotomia. Ninguém comenta mas eu ouço os risinhos surdos vindos daqui e dali. Não ligo porque o chapéu é fixe. Stress lá num trabalho. Um telefonema, meia dúzia de calmantes e tudo parece estar encaminhado. Mas digamos que se entrasse por ali uma família de jaguares prontos a devorar-me naquele momento não iriam achar a minha carne nada tenra. Isto para além do excesso de gorduras polinsaturadas que lhes causaria o tal AVC que eu desejava que tivesse dado à velha. E o que é que a velha tem a mais do que os jaguares? Nada. Excepto o mau humor. Mas adiante...

12:00

Hora da natação. Nadar, descontrair, esticar os músculos, imitar uma baleia azul e fazer de conta que se está num programa da National Geographic. Tudo coisas giras. A água está a 33º. E o ambiente na piscina está ainda mais quente. Fui com um amigo que não se dá bem com esta temperatura. É natural. Ele e todos os outros que não apreciam cozeduras. Eu também sou um deles mas como preciso de perder peso prefiro pensar que é sauna / natação. Saio um pouco da piscina e decido dar um salto ao jacuzzi. Para descontrair. Entro no jacuzzi. A água deve estar a 60º. Perco a sensibilidade da cintura para baixo. Mas deixo-me estar. Paralítico mas feliz. Vem a responsável pela zona das piscinas. Sou expulso do jacuzzi. Diz que não posso estar ali, que tenho de pagar. Eu rio-me com a perspectiva de pagar para ser cozinhado. Saio do jacuzzi. À vista dela, como um marginal. Vou tomar banho para voltar ao trabalho.

13:00

Já chove. Coisa esperta. Ainda meio molhado da banhoca e já novamente molhado da chuva. Dá-me muita alegria. E desconforto também. Corro de volta para o escritório.

13:15

Vou aquecer o meu almoço: arroz de pato da Nobre. Uma embalagem com arroz e outra com pato. Engenhoso. A ideia era aquecer uma de cada vez e depois juntá-las. Eu junto-as logo e aqueço-as juntas. Não porque fique melhor mas porque não tenho paciência para esperar. O aspecto é miserável. Levo a papa para a mesa e procuro ignorar os olhares de nojo dos meus colegas. "Parece comida de cão...", comenta alguém. Eu concordo com as orelhas cabisbaixas. Compreendo que a minha mulher não tivera tempo para preparar nada melhor no dia anterior. E eu também não a quis obrigar. Ser bondoso dá nisto. Penso em colocar o prato num dos cantos da sala e comê-lo nas 4 patas como seria coerente. Mas acabo por comer à mesa, mesmo não merecendo.

16:00

O dia de trabalho corre stressante mas agora mais normalmente. Boa parte dos nervos já se foram e até parece que o dia tem alguma salvação. Fico a saber que o meu amigo, tendo abandonado a piscina mais cedo por a considerar algo muito próximo de um caldeirão de canibais no pico do fogo, decidiu preencher um daqueles papéis de reclamação / sugestão na secretaria. Eu acho bem, já estava na altura de alguém encostar os sacanas à parede. Só pela vingança de me terem expulso do jacuzzi. Aquilo, na realidade, não é um complexo de piscinas, digamos, normal. Pertence a uma associação de uma doença degenerativa nos ossos e é, em grande parte, destinada a tratamentos e, directa ou indirectamente, a pensionistas. Mas depois também há vagas para o público em geral, ou seja eu e o meu amigo, os únicos que deixaram de lado preconceitos e decidiram aceitar aquilo como uma piscina como outra qualquer, sem olhar ao mau aspecto que dá a tipos como nós frequentarem tal local. Ora, tudo correu bem até ele relatar o que lera no painel de informações aquando da entrega da sua reclamação.

...

Passo a citar:

"AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NA PISCINA..."

...

...

É preciso dizer mais alguma coisa?

...

Haverá mais alguma maneira de Deus me dizer que eu sou o Seu bobo favorito?

...

...

FEZES?!

...

...

Eu só queria fazer algum desporto... Mexer-me... Tornar-me mais saudável...

...

...

FEZES?!

...

...

Porquê eu?! O que é que eu faço agora?! Continuo a ir sujeito a... Jesus, nem consigo dizer... Sinto-me sujo, como se tivesse sido violado por javalis.

...

...

FEZES?!

...

...

Fezes...

...

Nessa altura, seria normal assumir que o meu dia tinha atingido o clímax. Mas não... Ainda não.

18:00

Ainda enojado pela história das fezes, e sem fazer qualquer ideia de como irei lidar com a situação, "arrumo a loja" e vou-me embora para casa. Tenho ainda de ir dirigir um pequeno workshop e, num dia como este, tudo pode correr mal. Dou novamente boleia ao mesmo amigo da manhã e a uma amiga que vai no banco de trás. Serenos da vida, seguimos caminho.

18:20

Estou na autoestrada de Cascais, rumo a Lisboa. Estou na faixa da esquerda. Faço pisca para a direita. Não vem ninguém. Lentamente, vou ocupando a faixa do meio. Na mais profunda paz. De repente, aquilo que parece ser uma mistura entre urso pardo com distúrbios mentais e o cú de uma vaca aparece lançado da faixa da direita sem fazer pisca e disposto a abalroar-nos. A minha amiga do banco de trás vê a tragédia a avançar na nossa direcção mas decide não dizer uma palavra. Para não incomodar. Porque quando um tipo leva com a frente de um chaço a enfaixar-se no seu porta bagagens, é bom que não haja nada a chateá-lo. Melhor ainda foi a reacção do meu amigo. Esse preferiu exprimir o seu pânico / indignação, ao ver a besta desvairada a aproximar-se, com a seguinte expressão: "Wooo Wooo Wooo". Sabem o que isto quer dizer? Eu também não. Mas ao menos deu para me aperceber da bonita colisão que se aproximava. Ao mesmo tempo, e a par do "Wooo Wooo Wooo" o meu amigo tentava também proteger-se com as mãos. Porque sabemos que se a outra carroça se enfiasse por ali adentro era bom que alguém lhe metesse as gânfias. Para evitar estragos maiores. Fui a tempo de me desviar e de apitar violentamente, esperando que o som fizesse explodir o cérebro diminuto do quadrúpede. E o ruminante levou a mal. Perseguiu-me e uns metros à frente colocou-se ao nosso lado, desenvolvendo toda uma panóplia de gestos em tudo semelhantes aos da velha do episódio matinal. Eu mandei-o ir pastar. E ele, cego de fúria e de assadura no escroto, seguiu em alta velocidade protagonizando novo episódio parecido com o nosso com outro carro uns metros mais à frente. Enfim. Apesar de tudo, senti-me agradecido pelo dia maligno me ter poupado de um choque no meio da autoestrada. Porque a avaliar pela sede de porrada do animal mau condutor era bem possível que não me safasse de andar à bulha por entre centenas de veículos em alta velocidade. Era capaz de correr mal e eu já não estar aqui a escrever-vos estas linhas. Ou então a escrevê-las com uma jante enterrada na cana do nariz. Quem sabe?

19:00

Deixei os meus companheiros nos locais respectivos. Estacionei o carro perto de casa. Agora vou apanhar o comboio. Tenho de comprar um bilhete de ida e volta pois não tenho passe. Passe é para os pobres. O comboio está a chegar. Há filas nas máquinas de comprar bilhetes. Que surpresa chocante. E as filas não estão a avançar. E o comboio a chegar. Duas mulheres permanecem especadas em frente ao mostrador da máquina, carregando nos botões aleatoriamente, queixando-se que "Não dá!". Eu sinto-me cansado. Podia chegar-me à frente para as ajudar mas nada faço. Não há nada que eu possa fazer. Há anos que ando de comboio e se há coisa que essa experiência me ensinou é que sempre que vou comprar bilhetes há SEMPRE alguém que permanece especado em frente do mostrador, a carregar nos botões aleatoriamente e a queixar-se que "Não dá!". Mesmo sem tempo nenhum e a ver a minha vida a andar para trás, depois de um dia que me deixou quase literalmente de rastos, prefiro imaginar as variadas formas de como as duas mulheres podiam morrer naquele momento. Imagino-me a cortar-lhes as gargantas com o meu bilhete por carregar, à Steven Seagal, e a atirar-lhes as cabeças com violência contra à porra do mostrador que simplesmente "Não dá!". Sorrio com muita malícia. Acordo do transe, preocupado com a minha escala de valores e capacidade de distinguir o bem do mal, e carrego o bilhete na outra máquina.

19:20

Aproximo-me da escola onde vou dirigir o workshop. Apercebo-me que me esqueci da chave da mesma, que era suposto devolver. Apenas mais uma acha para a fogueira do dia 15. Nada de relevante, atendendo ao que já passei desde manhã. Caminho para a sala, com os nervos à flor da pele, receando que os formandos me esperem com archotes e forquilhas, dispostos a perseguir até à morte o impostor azarado, isto seria eu, só para coroar em beleza um dia mau. Aí eu fugiria hurrando até um moinho abandonado, eles deitariam fogo ao moinho e eu conheceria um horrível fim entre chamas e faíscas. Enquanto isso, o meu amigo gritaria lá em baixo qualquer coisa como: "Wooo Wooo Wooo" para me avisar que algo de terrível estaria para acontecer. E eu, antes de conhecer o meu fim veria num letreiro um aviso com a seguinte inscrição: "AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NO MOINHO..." Enfim, agora dispersei-me um bocadinho.

19:30

Chego à sala. Nada de aldeões raivosos sedentos de vingança mas sim um dos formandos que chegou mais cedo. Explico-lhe que o meu dia está a correr tudo menos bem enquanto tento servir-me um copo de água. O jarro resvala e produzo um fantástico efeito de cascata pela mesa de formação afora. Pergunto-me o que mais falta acontecer... Mas não obtenho resposta e dou início ao workshop.


Agora estou em casa. Sendo que são agora 1:46, "O Dia em que o meu Mundo parou" conheceu o seu fim há já alguns minutos. Sobrevivi a ele e sinto-me como um daqueles veteranos de guerra, disposto a juntar-me em almoçaradas aos companheiros que, como eu, também lhe fizeram frente. Num restaurante porreiro com ambiente acolhedor. Comida caseira. Vinho da casa.

E se possível sem fezes...

Thursday, September 2, 2010

L'appareil est prêt a fonctionner

Não restam quaisquer dúvidas: tenho um poltergeist emplastrado no chão do escritório em minha casa.

Bom, não é propriamente só no chão. É mais na base duma mesinha de apoio, com gavetas, que tenho junto ao sítio onde geralmente me sento com o computador. E isso ainda intensifica mais a gravidade da coisa. Daquilo que sei de poltergeists, que felizmente é muito pouco, são tipos para fazerem traquinices daquelas sérias e eu tenho aqui guardada uma pilha de documentos importantes que detestaria ver queimados, rasgados ou decorados com falos pintados com sangue de galinha. Parece-me ser do género de coisas que eles fazem...

No fundo, e no meio desta história toda, quais são as minhas certezas?

1.
O poltergeist fala com alguma frequência. Mais até do que eu desejaria. É que normalmente quando estou no escritório estou a escrever e, a contrário dos bons escritores, faz-me muita confusão ouvir qualquer som quando estou a redigir qualquer coisa. Se eu nem sequer ligo o iTunes, imaginam com certeza a confusão que me faz ter p'raqui um poltergeist a palrar. Quebra-me logo a concentração!

2.
O poltergeist tem voz de mulher. Esta então não me surpreende nadinha e vocês sabem porquê...

3.
O poltergeist fala francês. E sendo que eu não falo, isso irrita-me profundamente. Até hoje ainda não foi ordinário comigo mas sabe Deus quando é que ele vai perder a compustura. Também, verdade seja dita, não lhe dei razões para tal. Não o tenho incomodado nada, não chamei exorcistas cá a casa nos últimos tempos, não o borrifei com água benta (até porque não a tenho, para usar a cá de casa teria de o fazer com água da EPAL e calculo que não tivesse o efeito desejado), não sintonizei o canal Canção Nova na TV, enfim... Tenho sido um santo para este poltergeist, diga-se.

4.
O poltergeist diz uma e uma só frase que é: "L'appareil est prêt a fonctionner".


Ao invés destas certezas me elucidarem de alguma forma, muito pelo contrário, enchem-me de dúvidas e de temores. A que "appareil" estará ele a referir-se? Será uma qualquer máquina demoníaca destinada a causar a morte e a destruição pelo mundo fora?... E ele, ao imaginar o início do cataclismo, esfrega as patinhas de cabra e diz, com um tom sinistro, que a geringonça está prestes a funcionar?!

É que se é assim julgo que até conheço a geringonça a que ele se refere. Aquela que tem em mim tais efeitos dá pelo nome de GPS e sim já quase me levou a enforcar-me numa figueira depois de uma série de enganos e trapalhadas. A dada altura parece que tudo está ligado.

No entanto, lamento desiludir-vos a todos fazendo esfumaçar-se esta teia de enganos e metáforas à qual eu próprio vos atraí. Não há nenhum poltergeist na base da mesinha de apoio do meu local de trabalho em casa. Eu sei que, assim a frio, a notícia pode ser chocante mas é esta a verdade.

Há é uma balança de casa de banho falante que, dada a falta de espaço deste albergue de gnomos que é a minha actual residência (desejoso de sair de Benfica!), teve de ser guardada debaixo da tal mesinha, pronta a entrar em acção sempre que alguém dela se lembrasse.

O problema é que ninguém se lembra... Mas ela insiste em impor a sua presença com uma constância alarmante. Volta e meia diz "L'appareil est prêt a fonctionner" como que querendo lembrar-nos que está a postos, que está presente, que pode e quer trabalhar.

Eu no entanto continuo a ignorá-la.

Há 11% de desempregados neste país e nenhum deles se enfia cá em casa a dizer-me em francês que quer trabalhar.

Como tal, ela que vá para a fila como toda a gente.

Friday, August 27, 2010

Carta aberta ao meu vizinho

Ora então parece que vou mudar de residência muito em breve. Vou-me embora de Benfica. Não, não vou ser expulso da actual casa por incumprimento de renda, essa tem sido paga a tempo e horas, mas decidi que estava na altura de seguir para outras paragens.

E aí sim tenciono não pagar a renda. Mas isso é outra história...

Ao contrário do que imaginei quando me mudei para aqui, o dia da minha partida não será marcado por dezenas de vizinhos em lágrimas, observando com mágoa a saída do mais cintilante foco de luz e alegria que passou pela Rua da Venezuela nas últimas décadas... Para os mais desatentos, isso seria eu.

Ao contrário do que imaginei no passado, afigura-se-me que não é nada disso que se irá passar. Primeiro, porque depois de 2 anos e meio de aqui estar não conheço as pessoas que moram neste prédio. E assim sendo seria estúpido se eles desatassem a chorar quando me vissem a ir embora. Segundo, porque os poucos que reconheço de vista são uma cambada de broncos mal encarados que não perceberiam a sensibilidade nem que ela lhes desse uma lambada com toda a força nas trombas. E isto, atenção, é dito por alguém que é sensível... uma vez mais, para os desatentos, estou a falar de mim.

Ora, se grande parte dos meus vizinhos nutre por mim o mesmo tipo de desprezo que eu nutro por eles, orgulho-me em dizer que há um que é especial: o camarada aqui do apartamento ao lado.

Um tipo encantador que gosta de exprimir o seu encanto em pancadas na parede sempre que eu, ou alguém que esteja em minha casa, faça um som ligeiramente mais alto do que uma torneira a abrir, de um ratinho a chiar ou de uma folha sêca a cair no chão. Manias...

Eu podia aproveitar isto do blogue e da net para vociferar uma catrefada de insultos e ordinarices arbitrárias para me despedir do indivíduo. Mas ao invés disso, decidi ser o "bigger man" e deixar-lhe aqui uma carta aberta, de homem para homem, de modo a resolvermos a bem o mau ambiente que se gerou e que acompanhou a nossa convivência predial nos últimos tempos.

Ora então cá vai...


Prezado Boi

Perdoa iniciar esta carta apelidando-te de bovino mas a verdade é que não sei o teu nome e o emprego do dito animal deve-se às suas numerosas qualidades. Porque é um exemplo de força. Porque é um símbolo de nobreza.

Ah e também porque é cornudo.

Imagino que não vás sentir a minha falta e contente decerto ficarás quando souberes que vou definitivamente para longe de ti. Muitas foram as vezes que ouvi pesadas murraças na parede da minha sala durante amenos jantares aqui passados, sempre que alguém, imaginem lá o displante, se risse um pouco mais alto...

Atenção. Eu entendo a tua aversão ao riso.

Se eu tivesse a tua aparência, acredita que também não tinha vontade nenhuma de me rir e era possível que me irritasse no mais profundo das entranhas se alguém junto a mim o fizesse. Mas também não nego que essa tua implicância me fez lembrar aquele monge velhaco do "Nome da Rosa"... Sabes qual é? Aquele que desatou a matar os outros porque tinham descoberto um livro de anedotas e ele achava que o riso era diabólico e próprio dos macacos. Qualquer coisa do género.

Apesar de considerar praticamente nazi o teu horror a tudo o que é gargalhada sinto-me agradecido por não me teres vindo para aqui encher os livros de veneno. Não me interpretes mal, não me afectaria porque eu pouco leio, é mais porque não gostava que entrasses cá em casa. Gosto de ter um certo controlo nesse aspecto.

Bateste muitas vezes na parede, e tu sabes disso, pelos já falados risos, a principal razão, por uma ou outra expressão mais efusiva de surpresa ou alegria, como tu detestas isso, ou até pelo barulho que fazem sandálias a cair no chão, ao serem descalçadas. Esta então é a melhor. E uma vez mais estou ao teu lado nesta matéria. Aquele estalo que as sandálias fazem no contacto directo com o soalho é sem dúvida um enorme flagelo. Nem sei como aguentaste tudo isso sem fazer queixa à polícia, mas portaste-te como um homenzinho e por isso te agradeço. Ao invés, deste pancadinhas na parede. Sim senhor.

Eu sei que ficas assim irritadiço porque precisas de dormir à noite. Sei que és um homem de negócios... Não propriamente de negócios mas de UM negócio: uma tabacaria a 200 metros aqui do prédio. Daquelas que, para além dos tabacos, dos jornais e da pornografia, também vendem bonitos gatos de louça e outros bibelôs que, apesar de estarem à venda, já fazem parte da mobília por ali estarem há tantos anos.

Percebo que te levantas da caminha sempre às 6 da manhã para abrir o estaminé, todos os dias do ano sem pausas semanais nem férias nem Natal nem nada mais que o valha. Podia ter pena de ti mas não tenho. Muito sinceramente, quero que te lixes. E quero que te lixes não por despeito ou por que me sinta picado pelas tuas pancadinhas carinhosas. É mesmo porque és estúpido.

Tanta dedicação para quê?! Nunca vais a lado nenhum... Nunca gastas o dinheiro para o qual tanto te esforças em nada que se veja ou que valha a pena. Não integras projectos de solidariedade, não visitas os amigos (se é que os tens), não privas com prostitutas, não fazes nada. Casa-Tabacaria. Tabacaria-Casa. A tua vida limita-se a 200 metros p'ra lá e p'ra cá. 200 metros de ambição, o terreno que pensas que já conquistaste e no qual julgas ser O MAIOR.

E és pá. Fica lá com a taça.
Fica lá com este trecho da Rua da Venezuela todo para ti. Quero lá saber.

Pessoalmente considero que quando é isto o nosso Shangri-La, é sinal que algo está errado. Até porque, e desculpa estar a tocar na ferida, não estás a ir p'ra novo, meu caro. E além disso esse penteado é um enorme entrave à aproximação das gajas. Estou só a dizer...

Outra coisa que justifica seres ainda solteiro, e, permite-me dizê-lo, azedo com'á m***a, é o cheiro intenso a peixe frito que emana do teu casebre quase todas as noites. Que raio é aquilo, pá?! És um aficionado de peixe frito, é? E não sabes que isso, mais do que todo o barulho do mundo, justificaria eu passar o serão às marradas à mesma parede onde dás murrinhos sempre que alguém, segundo os teus parâmetros, "passa das marcas" em termos sonoros? É um pivete que não se aguenta!

Mas a verdade é que nós nunca fizemos assim tanto barulho... Nem nada que se pareça. Foste mesquinho, há que dizê-lo. E também há que dizer que o meu desejo mais profundo é que venha cá para casa um de dois: ou o elenco inteiro do Circo Cardinali, anões incluídos, disposto a ensaiar toda a santa noite, ou os Pólo Norte. Aí é que ias ficar com a mãozinha feita em papa, amigo.


E ao ver-teeeeee, Lisboa Lisboaaaa...

(pum pum pum)

Perdereeeeee o Bairro da Madragoaaaaa...

(PUM PUM PUM)


Não era mais que justo e era o que merecias.

Está pois na hora de me despedir. Não com amizade, à Sousa Veloso, porque és uma besta, mas com a mesma rudeza com que lidaste com a minha presença durante a nossa condição de vizinhos.

Apesar de tudo desejo-te o melhor. Que alguém finalmente compre pelo menos um dos gatos de louça ordinária que vendes na tua xafarica e também que consigas acrescentar mais 100 metros ao teu percurso diário até morreres. Talvez passes a ir à tasca da esquina beber uma imperial ao final do dia. Seria uma boa maneira de gozares os teus anos dourados.

Um grande abraço deste que não pode contigo

Saguim

Sunday, August 8, 2010

Ele há coisas...

Há coisas na vida para as quais não tenho resposta.

Eu e todos nós, diga-se. Por muito inteligentes que consigamos ser, por muito cultos ou perspicazes, há sempre uma ou outra coisa que nos escapa e nos deixa boquiabertos, com ar de mongos. Eu julgo até que é nesses momentos que toda a raça humana se encontra: novos e velhos, pobres e ricos, pretos e brancos... Tudo com a boca aberta, fio de baba pendente e ar perdido. Porque há coisas que estão destinadas a constituir mistério para todo o sempre.

Uma destas questões por resolver, no que diz respeito ao meu percurso até à data, é a seguinte:

Porque é que, quando eu andava na escola, aquele que sacava mais miúdas era um indivíduo que exibia um pedaço permanente de ranho verde entre uma das narinas e o topo do lábio superior?

Isto, tal qual.

Ehpá porquê?

É que o rapaz apresentava-se assim todos os dias sem excepção. E o gajedo atirava-se aos seus pés, sedentas que estavam da sua atenção, indiferentes ao aspecto repugnante e, justifica-se a comparação, mongolóide, do imberbe. Eu na altura julgava que ele não se apercebia que era ranhoso e que mantinha aquilo ali por uma questão de desleixo ou ignorância. Hoje a única certeza que tenho é que ele não só sabia que tinha ranho como o deixava ali estar como uma qualquer estratégia doentia de Dom Juan de trazer por casa. Porque se há malta que aprecia ver meninas a esfregar-se em balões ou até ter as partes baixas pisadas por sapatos com salto de agulha, então isto do ranho verde é capaz de ser o grau zero dos fetiches pervertidos.

Para o sujeito, o ranho atraía namoradas assim como aquelas fitas da cola castanha atraem e aprisionam moscas. Era certinho.

E eu nunca percebi porquê.

Mas, ao mesmo tempo, aceito que o mundo é mesmo assim, há coisas que também só têm piada se ficarem no limbo das certezas. Será que há vida depois da morte? Haverá seres extraterrestres? O universo é mesmo infinito? Porque é afrodisíaco o ranho verde? Tantos e tão maravilhosos mistérios que, só por si, concentram a piada que é estar vivo.

No entanto, quero crer que isto do ranho não está ao alcance de qualquer um. Há que saber usá-lo. Não foi com certeza com muco que conquistei a minha mulher. Uma vez atirei-lhe com um copo de galão em cheio na cara, em golfadas, mas isso foi porque me engasguei e não porque estivesse a fazer uso de algum tipo de charme. Sei o que estão a pensar: galão e ranho não são de todo a mesma coisa... Mas quando se apanha com café com leite regurgitado na tromba é igualmente nojento. Se fosse ranho a reacção dela teria sido a mesma: um sorriso gracioso, um movimento suave em direcção à porta e o caminho até ao duche de casa em doces passadas, sem dizer palavra.

Os choninhas todos do mundo podiam imitar o mítico pedaço de ranho verde que, estou certo, pouco conseguiriam retirar do look. Aquele indivíduo exibia-o com mestria, com um tipo de autoconfiança arrogante de quem está seguro do seu ranho, de quem tem a certeza que é "o maior". E que só irá partilhar o muco com a tipa que o merecer. Que foram muitas, na altura.

Passados estes anos todos penso que fiz as pazes com o universo. Continuo a pensar nisto bem mais do que devia, bem sei, mas resolvi aceitar que nunca vou entender exactamente o que se passou. Havia ranho, não há dúvida disso. Ele era bem evidente, com um tom de verde que de tão vivo às vezes parecia ter luz própria (o que devia dar um jeitão à noite a atravessar as ruas) e a sua consistência era perfeita: não tão rijo que o fizesse secar e não tão mole que o tornasse líquido e escorregadio. Estava no ponto. Exactamente no ponto.

Hoje, o indivíduo deve ser, seguramente, alguém que sim senhor. Daqueles que aparecem nas revistas agarrados às miúdas dos Morangos ou àquelas outras que não se sabe bem o que fazem, embora se desconfie que estão isentas de impostos. Estou certo que o tipo hoje tem tudo: dinheiro, sucesso, coca e muitas beldades no seu leito.

O suficiente de fama e fortuna para garantir que na redacção da revista vai haver alguém que abra as fotos no Photoshop...

E QUE LHE APAGUE A PORRA DO RANHO!!!