Friday, September 24, 2010

Há malta que devia levar com um ouriço gigante nos cornos!

Se calhar fui um bocado longe demais com o título... Comecei assim logo a abrir, com linguagem grosseira e maldosa, sem ponta de sensibilidade. Se foi isto que sentiram, peço desculpa.

Mas a verdade é que este título não é nenhum insulto...

É um desejo do fundo do coração.

Um pedido aos céus.

E eu bem o mereço. Sou honesto. Sou trabalhador (bem sei que estou a escrever este texto durante o horário de trabalho mas enfim... para português a fasquia também não é muito alta). Sou do Benfica. Sejamos francos, tudo isto me ajudará a fazer boa figura ao pessoal das togas brancas e das harpas que mora lá em cima, no dia em que eu me finar.

Por isso, eu devia poder pedir uma chuva de ouriços gigantes de vez em quando, e com isso despachar um magote de bandidagem de cada vez, contribuindo assim para um mundo melhor.

Ora bem, ouriços gigantes porquê? Primeiro porque estou ébrio de ódio e já não sei o que digo. Segundo porque têm espinhos afiados e porque, caindo de costas, depois de se espetarem pelo crânio de um indivíduo adentro iriam querer levantar-se e ir à vida deles, fazendo espichar um bonito efeito de sangue e miolos. Sei que é um pouco sádico este cenário mas, neste momento, o que para os outros seria horrível para mim seria fogo de artifício.


A RAIVA QUE SINTO!!!


Então não é que hoje de manhã, ao chegar ao carro, reparei que me fizeram um imenso e poderoso risco nas portas, ao longo de todo o comprimento da viatura? 'Tá tão giro...

E sendo o carro preto, um risco branco fica-lhe mesmo a matar.

O porquê do sucedido? Não sei. Não faço ideia.

O carro estava bem estacionado... Não estava num local de passagem... Não estava em zona de parquímetro sem pagar... Não estava num lugar para deficientes...
Isto embora, tenha lá ido um deficiente fazer m***a!

Fiquei uns bons 5 minutos a olhar para aquela maravilha, de boca aberta e sem grande reacção. Depois, efervesceu em mim um ódio primitivo e apeteceu-me fazer mal a pessoas. Quaisquer pessoas, sem critério. Avistei um grupo de estudantes que podia muito bem ser aviado à estalada. No final, agradecia, dava os bons dias, recolocava o chapéu na cabeça e ia trabalhar. Mais aliviadinho. Mas pronto, não foi bem isto que aconteceu.

Tive de engolir o sapo.

Resta-me concluir que foi obra de um inimigo, alguém que me quer mal e que aprecia erguer o punho e gritar "Saguiiiiim!" com ar demoníaco. Gosto de pensar que tenho um vilão na minha vida e que sou uma espécie de super-herói. Mas não faria mal se o morcão me viesse defrontar em campo aberto, à homem, ao invés de me andar a lixar a viatura. É um vilão um bocado fajuto, diga-se...

Enfim, suspeitos? Há.

Nomeadamente alguns.

E eles aqui ficam referenciados:


1) O meu Vizinho

Apesar de eu já não espirrar em casa há muito tempo, e com isso despoletar o radar anti-barulho que este senhor tem enfiado na peida (perdoem-me o francês), não há dúvida que há-de sempre figurar em toda e qualquer lista de suspeitos que eu faça. Ele odeia-me, isso é certo. O barulho que eu faço a andar no corredor, o som excruciante dos meus chinelos a bater no chão antes de eu os calçar, o horripilante tilintar dos talheres durante as minhas refeições... Tudo isto faz com que o meu vizinho já tenha arranjado uma tendinite de tanto socar a parede, em busca da quietude do mosteiro budista que ele gostaria que Benfica fosse.

Enfim, se foi ele a fazer o risco até admito que não tenha sido de propósito. Se calhar deixou cair qualquer coisa junto do carro e ao baixar-se riscou-me a porta com a cornadura. Já era altura de cortar as pontas, como nas touradas, mas não há meio...

No entanto, acho pouco provável que seja este o meu vilão. Para ir até ao meu carro fazer uma patifaria desta natureza, o homem teria de abandonar a sua tabacaria pelo menos durante 15 minutos, e todos sabemos que é coisa que ele não faz. E além disso, os vilões têm negócios de fachada mais fixes.


2) O Animal da Autoestrada

A besta ensandecida que me ia abalroando no trânsito no outro dia e que provocou num amigo meu a reacção "Wooo wooo wooo"... A avaliar pelos gestos de ódio que o gorila com hemorroidal efectuou dirigidos à minha pessoa, não seria absurdo concluir que ele terá assumido como prioridade acabar o trabalhinho que ia começando em plena autoestrada. Na traquilidade de um parque de estacionamento e sem "Wooo wooo wooo" a atrapalhar...

Apesar de ser um forte candidato à personagem de vilão da minha vida, há que assumir que estaria mais próximo de ser um velhaco das "Wacky Races". Bem diferente do mítico e galáctico criminoso que queria para ser o meu opositor. Por isso, espero que ainda não seja por aqui.


3) O Violador de Benfica

Bem sei que já foi apanhado mas nunca fiando. Lembro que, em Portugal, "apanhado" na grande maioria das vezes significa preso em liberdade preventiva, ou até em alguns casos, uma pancadinha ameaçadora nas costas e um "Vê lá se não voltas a fazer, meu malandro..."

Escrevi sobre o violador há uns tempos atrás nesta ocasião e é normal assumir que ele se quis vingar. Eu não disse mal dele, atenção. Não posso dizer que seja fã da violação ou que a aceite enquanto hobbie. Aconselho sempre os violadores a comerem antes uma peça de fruta ou a enfiarem uma bala nos cornos. Qualquer uma das duas é melhor do que tomar à força aquilo que em circunstâncias normais NUNCA seria deles. E isto é violação 101.

Bom, o violador andava a rondar o meu prédio, como provou um cartaz colocado no hall de entrada, escrito a marcador de feltro, por um dos meus vizinhos. A verdade é que o indivíduo não conseguiu levar a dele avante comigo e, cego de fúria, é bem possível que me tenha vindo riscar o carro. Apenas uma teoria...


4) O pensionista que gosta de obrar em piscinas

Last but not least e, quanto a mim, a hipótese mais provável. Escrevi sobre ele no meu último post, o causador da minha mais recente aversão ao exercício físico. No painel informativo da piscina onde costumo ir nadar estava um aviso que visava impedir que fossem, "uma vez mais", encontradas "FEZES" na água.

Eu exprimi a minha repulsa e ele não deve ter gostado.

Assim, não contente de espalhar m***a no sítio onde eu pratico natação lembrou-se de ir espalhalá-la também no meu meio de transporte. A mais plausível mas ainda assim difícil de considerar. Isto porque sabemos que o que os pensionistas gostam é de andar na autoestrada em contramão. Como tal, nunca que ele teria conseguido chegar inteiro a Benfica.


Tirando estes artistas, não consigo dizer quem foi.

Apreciava muito que Deus tivesse uma qualquer espécie de número verde para o qual eu pudesse ligar e resolver logo a questão de uma vez. Ir direito ao patrão sem passar pelos subalternos. Equivalente àquela altura em que dizemos ao telefone: "Quero falar com o gerente."

No entanto, penso que se assim fosse, para mim o número estaria sempre impedido. Ou então o anjo que atendesse diria que "ia passar" e punha-me a ouvir "O Bicho" de Iran Costa em loop, para todo o sempre.

Pensando bem, talvez não hajam fãs de Iran Costa no paraíso...

E o melhor é calar-me já senão o Iran Costa ainda se lembra de me ir riscar o carro.

Houvesse um ouriço gigante que lhe lixasse a coreografia!

Hoje estou de todo...

Wednesday, September 15, 2010

O Dia em que o meu Mundo parou

O meu dia hoje foi de cão.

Mesmo.

Não daqueles cães maricas cheios de berloques e perfumes até à ponta do focinho, habituados às mais elaboradas mordomias. O meu dia foi de cão sarnento, dos que andam a fuçar no lixo à procura de jantar e que acabam a roer uma bota, um pneu ou uma camisola do Sporting (não que esse cenário seja minimamente credível mas depois de um dia destes sabe bem achincalhar o clube rival).

A vida actualmente até corre bem. Tenho um emprego agradável com malta afável e simpática. Tenho uma família que sim senhor em todos os aspectos, amigos que valem a pena e até uma mulher que por sua livre e espontânea vontade mantém a decisão insana, dizem alguns, de partilhar a vida comigo. Eu até vou para uma casa nova, para longe do burjeço do vizinho que se excita a bater na parede, e tudo isso faz de mim um tipo feliz.

Tenho um pouco de peso a mais é certo. Mas até esse handicap está a ser combatido, dado que me inscrevi há algumas semanas numa classe de natação livre numa piscina perto do trabalho.

Portanto nada, mas mesmo nada, fazia prever o dia de hoje.

Passo aqui a relatá-lo, para que todos possam partilhar da minha dor:


O RELATO CHOCANTE, E SEM CENAS CORTADAS, DO UNANIMEMENTE PROCLAMADO COMO UM DIA MUITÍSSIMO FEDORENTO NA PELE DO SAGUIM (TAMBÉM CONHECIDO COMO "O DIA EM QUE O MEU MUNDO PAROU")


8:30

Toca o despertador. Acordo imediatamente mas o sono e a chamada ronha impedem-me de içar o meu enorme corpo de mamute. Deixo-me estar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca. A gata mia como se estivesse a ser esventrada. Eu limpo o fio de baba e ignoro os miados angustiantes do raio da gata. Deixo-me estar. A gata mia como se estivessem agora a enforcá-la com as próprias tripas. Eu levanto-me para garantir que não é isso que a minha mulher está a fazer.

9:20

Saio de casa com o meu chapéu de abas enterrado na cabeça. Digo enterrado porque já não o uso há alguns meses e aparentemente mirrou. Ao contrário da minha cabeça que continua a crescer sem qualquer controlo desde os 4 anos de idade. O chapéu corta-me a circulação na testa. Eu não ligo porque gosto de me ver de chapéu. As pessoas na rua não. Afastam-se. Olhando-me ao espelho consigo perceber porquê. Pareço um cigano. De barba, camisa escura e chapéu de abas. Era darem-me uma guitarra e verem-me interpretar "Borbujas de amor" de Juan Luis Guerra. Só que mais gordo. Acho eu porque nunca mais o vi.

9:30

Chego de carro ao Colombo, chapéu a abrir-me um lenho na testa tal é a pressão, para dar boleia a um amigo meu em direcção ao escritório. O gajo ainda não chegou. Páro o carro junto à berma do passeio, 4 piscas ligados, deixando o espaço semelhante ao estádio do Belenenses disponível ao meu lado para não atrapalhar o trânsito. Um gajo ao lado faz o mesmo e pára a lata dele junto ao outro passeio, deixando apenas metade do estádio do Belém. Continua a haver todo o espaço do mundo. Uma mulher idosa pára atrás de nós e começa a apitar muito irritada, cheia de linguagem gestual. Eu deixo-me estar a gozar o espectáculo. À espera que lhe dê um AVC. Ela sai do carro. Eu penso "Tu queres ver?". Em vez de ir chatear o outro vem-me chatear a mim. Eu penso em ir buscar a tranca na mala do carro para lhe desfazer a dentadura à base de marretada mas lembro-me que é capaz de dar cadeia. Ela diz: "Então como é?". Eu pergunto: "Não passa?". Ela volta para o carro e passa. Sempre a insultar-me. Passa ela e passaria um boeing 747. Mas ainda assim não me safo de a ouvir. Continuo à espera que lhe dê um AVC. Mas o carro não se despista. Então presumo que não lhe deve ter dado.

10:20

Chego ao escritório. Tiro o chapéu da cabeça exibindo uma bonita linha vermelha na testa semelhante à cicatriz de uma lobotomia. Ninguém comenta mas eu ouço os risinhos surdos vindos daqui e dali. Não ligo porque o chapéu é fixe. Stress lá num trabalho. Um telefonema, meia dúzia de calmantes e tudo parece estar encaminhado. Mas digamos que se entrasse por ali uma família de jaguares prontos a devorar-me naquele momento não iriam achar a minha carne nada tenra. Isto para além do excesso de gorduras polinsaturadas que lhes causaria o tal AVC que eu desejava que tivesse dado à velha. E o que é que a velha tem a mais do que os jaguares? Nada. Excepto o mau humor. Mas adiante...

12:00

Hora da natação. Nadar, descontrair, esticar os músculos, imitar uma baleia azul e fazer de conta que se está num programa da National Geographic. Tudo coisas giras. A água está a 33º. E o ambiente na piscina está ainda mais quente. Fui com um amigo que não se dá bem com esta temperatura. É natural. Ele e todos os outros que não apreciam cozeduras. Eu também sou um deles mas como preciso de perder peso prefiro pensar que é sauna / natação. Saio um pouco da piscina e decido dar um salto ao jacuzzi. Para descontrair. Entro no jacuzzi. A água deve estar a 60º. Perco a sensibilidade da cintura para baixo. Mas deixo-me estar. Paralítico mas feliz. Vem a responsável pela zona das piscinas. Sou expulso do jacuzzi. Diz que não posso estar ali, que tenho de pagar. Eu rio-me com a perspectiva de pagar para ser cozinhado. Saio do jacuzzi. À vista dela, como um marginal. Vou tomar banho para voltar ao trabalho.

13:00

Já chove. Coisa esperta. Ainda meio molhado da banhoca e já novamente molhado da chuva. Dá-me muita alegria. E desconforto também. Corro de volta para o escritório.

13:15

Vou aquecer o meu almoço: arroz de pato da Nobre. Uma embalagem com arroz e outra com pato. Engenhoso. A ideia era aquecer uma de cada vez e depois juntá-las. Eu junto-as logo e aqueço-as juntas. Não porque fique melhor mas porque não tenho paciência para esperar. O aspecto é miserável. Levo a papa para a mesa e procuro ignorar os olhares de nojo dos meus colegas. "Parece comida de cão...", comenta alguém. Eu concordo com as orelhas cabisbaixas. Compreendo que a minha mulher não tivera tempo para preparar nada melhor no dia anterior. E eu também não a quis obrigar. Ser bondoso dá nisto. Penso em colocar o prato num dos cantos da sala e comê-lo nas 4 patas como seria coerente. Mas acabo por comer à mesa, mesmo não merecendo.

16:00

O dia de trabalho corre stressante mas agora mais normalmente. Boa parte dos nervos já se foram e até parece que o dia tem alguma salvação. Fico a saber que o meu amigo, tendo abandonado a piscina mais cedo por a considerar algo muito próximo de um caldeirão de canibais no pico do fogo, decidiu preencher um daqueles papéis de reclamação / sugestão na secretaria. Eu acho bem, já estava na altura de alguém encostar os sacanas à parede. Só pela vingança de me terem expulso do jacuzzi. Aquilo, na realidade, não é um complexo de piscinas, digamos, normal. Pertence a uma associação de uma doença degenerativa nos ossos e é, em grande parte, destinada a tratamentos e, directa ou indirectamente, a pensionistas. Mas depois também há vagas para o público em geral, ou seja eu e o meu amigo, os únicos que deixaram de lado preconceitos e decidiram aceitar aquilo como uma piscina como outra qualquer, sem olhar ao mau aspecto que dá a tipos como nós frequentarem tal local. Ora, tudo correu bem até ele relatar o que lera no painel de informações aquando da entrega da sua reclamação.

...

Passo a citar:

"AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NA PISCINA..."

...

...

É preciso dizer mais alguma coisa?

...

Haverá mais alguma maneira de Deus me dizer que eu sou o Seu bobo favorito?

...

...

FEZES?!

...

...

Eu só queria fazer algum desporto... Mexer-me... Tornar-me mais saudável...

...

...

FEZES?!

...

...

Porquê eu?! O que é que eu faço agora?! Continuo a ir sujeito a... Jesus, nem consigo dizer... Sinto-me sujo, como se tivesse sido violado por javalis.

...

...

FEZES?!

...

...

Fezes...

...

Nessa altura, seria normal assumir que o meu dia tinha atingido o clímax. Mas não... Ainda não.

18:00

Ainda enojado pela história das fezes, e sem fazer qualquer ideia de como irei lidar com a situação, "arrumo a loja" e vou-me embora para casa. Tenho ainda de ir dirigir um pequeno workshop e, num dia como este, tudo pode correr mal. Dou novamente boleia ao mesmo amigo da manhã e a uma amiga que vai no banco de trás. Serenos da vida, seguimos caminho.

18:20

Estou na autoestrada de Cascais, rumo a Lisboa. Estou na faixa da esquerda. Faço pisca para a direita. Não vem ninguém. Lentamente, vou ocupando a faixa do meio. Na mais profunda paz. De repente, aquilo que parece ser uma mistura entre urso pardo com distúrbios mentais e o cú de uma vaca aparece lançado da faixa da direita sem fazer pisca e disposto a abalroar-nos. A minha amiga do banco de trás vê a tragédia a avançar na nossa direcção mas decide não dizer uma palavra. Para não incomodar. Porque quando um tipo leva com a frente de um chaço a enfaixar-se no seu porta bagagens, é bom que não haja nada a chateá-lo. Melhor ainda foi a reacção do meu amigo. Esse preferiu exprimir o seu pânico / indignação, ao ver a besta desvairada a aproximar-se, com a seguinte expressão: "Wooo Wooo Wooo". Sabem o que isto quer dizer? Eu também não. Mas ao menos deu para me aperceber da bonita colisão que se aproximava. Ao mesmo tempo, e a par do "Wooo Wooo Wooo" o meu amigo tentava também proteger-se com as mãos. Porque sabemos que se a outra carroça se enfiasse por ali adentro era bom que alguém lhe metesse as gânfias. Para evitar estragos maiores. Fui a tempo de me desviar e de apitar violentamente, esperando que o som fizesse explodir o cérebro diminuto do quadrúpede. E o ruminante levou a mal. Perseguiu-me e uns metros à frente colocou-se ao nosso lado, desenvolvendo toda uma panóplia de gestos em tudo semelhantes aos da velha do episódio matinal. Eu mandei-o ir pastar. E ele, cego de fúria e de assadura no escroto, seguiu em alta velocidade protagonizando novo episódio parecido com o nosso com outro carro uns metros mais à frente. Enfim. Apesar de tudo, senti-me agradecido pelo dia maligno me ter poupado de um choque no meio da autoestrada. Porque a avaliar pela sede de porrada do animal mau condutor era bem possível que não me safasse de andar à bulha por entre centenas de veículos em alta velocidade. Era capaz de correr mal e eu já não estar aqui a escrever-vos estas linhas. Ou então a escrevê-las com uma jante enterrada na cana do nariz. Quem sabe?

19:00

Deixei os meus companheiros nos locais respectivos. Estacionei o carro perto de casa. Agora vou apanhar o comboio. Tenho de comprar um bilhete de ida e volta pois não tenho passe. Passe é para os pobres. O comboio está a chegar. Há filas nas máquinas de comprar bilhetes. Que surpresa chocante. E as filas não estão a avançar. E o comboio a chegar. Duas mulheres permanecem especadas em frente ao mostrador da máquina, carregando nos botões aleatoriamente, queixando-se que "Não dá!". Eu sinto-me cansado. Podia chegar-me à frente para as ajudar mas nada faço. Não há nada que eu possa fazer. Há anos que ando de comboio e se há coisa que essa experiência me ensinou é que sempre que vou comprar bilhetes há SEMPRE alguém que permanece especado em frente do mostrador, a carregar nos botões aleatoriamente e a queixar-se que "Não dá!". Mesmo sem tempo nenhum e a ver a minha vida a andar para trás, depois de um dia que me deixou quase literalmente de rastos, prefiro imaginar as variadas formas de como as duas mulheres podiam morrer naquele momento. Imagino-me a cortar-lhes as gargantas com o meu bilhete por carregar, à Steven Seagal, e a atirar-lhes as cabeças com violência contra à porra do mostrador que simplesmente "Não dá!". Sorrio com muita malícia. Acordo do transe, preocupado com a minha escala de valores e capacidade de distinguir o bem do mal, e carrego o bilhete na outra máquina.

19:20

Aproximo-me da escola onde vou dirigir o workshop. Apercebo-me que me esqueci da chave da mesma, que era suposto devolver. Apenas mais uma acha para a fogueira do dia 15. Nada de relevante, atendendo ao que já passei desde manhã. Caminho para a sala, com os nervos à flor da pele, receando que os formandos me esperem com archotes e forquilhas, dispostos a perseguir até à morte o impostor azarado, isto seria eu, só para coroar em beleza um dia mau. Aí eu fugiria hurrando até um moinho abandonado, eles deitariam fogo ao moinho e eu conheceria um horrível fim entre chamas e faíscas. Enquanto isso, o meu amigo gritaria lá em baixo qualquer coisa como: "Wooo Wooo Wooo" para me avisar que algo de terrível estaria para acontecer. E eu, antes de conhecer o meu fim veria num letreiro um aviso com a seguinte inscrição: "AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NO MOINHO..." Enfim, agora dispersei-me um bocadinho.

19:30

Chego à sala. Nada de aldeões raivosos sedentos de vingança mas sim um dos formandos que chegou mais cedo. Explico-lhe que o meu dia está a correr tudo menos bem enquanto tento servir-me um copo de água. O jarro resvala e produzo um fantástico efeito de cascata pela mesa de formação afora. Pergunto-me o que mais falta acontecer... Mas não obtenho resposta e dou início ao workshop.


Agora estou em casa. Sendo que são agora 1:46, "O Dia em que o meu Mundo parou" conheceu o seu fim há já alguns minutos. Sobrevivi a ele e sinto-me como um daqueles veteranos de guerra, disposto a juntar-me em almoçaradas aos companheiros que, como eu, também lhe fizeram frente. Num restaurante porreiro com ambiente acolhedor. Comida caseira. Vinho da casa.

E se possível sem fezes...

Thursday, September 2, 2010

L'appareil est prêt a fonctionner

Não restam quaisquer dúvidas: tenho um poltergeist emplastrado no chão do escritório em minha casa.

Bom, não é propriamente só no chão. É mais na base duma mesinha de apoio, com gavetas, que tenho junto ao sítio onde geralmente me sento com o computador. E isso ainda intensifica mais a gravidade da coisa. Daquilo que sei de poltergeists, que felizmente é muito pouco, são tipos para fazerem traquinices daquelas sérias e eu tenho aqui guardada uma pilha de documentos importantes que detestaria ver queimados, rasgados ou decorados com falos pintados com sangue de galinha. Parece-me ser do género de coisas que eles fazem...

No fundo, e no meio desta história toda, quais são as minhas certezas?

1.
O poltergeist fala com alguma frequência. Mais até do que eu desejaria. É que normalmente quando estou no escritório estou a escrever e, a contrário dos bons escritores, faz-me muita confusão ouvir qualquer som quando estou a redigir qualquer coisa. Se eu nem sequer ligo o iTunes, imaginam com certeza a confusão que me faz ter p'raqui um poltergeist a palrar. Quebra-me logo a concentração!

2.
O poltergeist tem voz de mulher. Esta então não me surpreende nadinha e vocês sabem porquê...

3.
O poltergeist fala francês. E sendo que eu não falo, isso irrita-me profundamente. Até hoje ainda não foi ordinário comigo mas sabe Deus quando é que ele vai perder a compustura. Também, verdade seja dita, não lhe dei razões para tal. Não o tenho incomodado nada, não chamei exorcistas cá a casa nos últimos tempos, não o borrifei com água benta (até porque não a tenho, para usar a cá de casa teria de o fazer com água da EPAL e calculo que não tivesse o efeito desejado), não sintonizei o canal Canção Nova na TV, enfim... Tenho sido um santo para este poltergeist, diga-se.

4.
O poltergeist diz uma e uma só frase que é: "L'appareil est prêt a fonctionner".


Ao invés destas certezas me elucidarem de alguma forma, muito pelo contrário, enchem-me de dúvidas e de temores. A que "appareil" estará ele a referir-se? Será uma qualquer máquina demoníaca destinada a causar a morte e a destruição pelo mundo fora?... E ele, ao imaginar o início do cataclismo, esfrega as patinhas de cabra e diz, com um tom sinistro, que a geringonça está prestes a funcionar?!

É que se é assim julgo que até conheço a geringonça a que ele se refere. Aquela que tem em mim tais efeitos dá pelo nome de GPS e sim já quase me levou a enforcar-me numa figueira depois de uma série de enganos e trapalhadas. A dada altura parece que tudo está ligado.

No entanto, lamento desiludir-vos a todos fazendo esfumaçar-se esta teia de enganos e metáforas à qual eu próprio vos atraí. Não há nenhum poltergeist na base da mesinha de apoio do meu local de trabalho em casa. Eu sei que, assim a frio, a notícia pode ser chocante mas é esta a verdade.

Há é uma balança de casa de banho falante que, dada a falta de espaço deste albergue de gnomos que é a minha actual residência (desejoso de sair de Benfica!), teve de ser guardada debaixo da tal mesinha, pronta a entrar em acção sempre que alguém dela se lembrasse.

O problema é que ninguém se lembra... Mas ela insiste em impor a sua presença com uma constância alarmante. Volta e meia diz "L'appareil est prêt a fonctionner" como que querendo lembrar-nos que está a postos, que está presente, que pode e quer trabalhar.

Eu no entanto continuo a ignorá-la.

Há 11% de desempregados neste país e nenhum deles se enfia cá em casa a dizer-me em francês que quer trabalhar.

Como tal, ela que vá para a fila como toda a gente.

Friday, August 27, 2010

Carta aberta ao meu vizinho

Ora então parece que vou mudar de residência muito em breve. Vou-me embora de Benfica. Não, não vou ser expulso da actual casa por incumprimento de renda, essa tem sido paga a tempo e horas, mas decidi que estava na altura de seguir para outras paragens.

E aí sim tenciono não pagar a renda. Mas isso é outra história...

Ao contrário do que imaginei quando me mudei para aqui, o dia da minha partida não será marcado por dezenas de vizinhos em lágrimas, observando com mágoa a saída do mais cintilante foco de luz e alegria que passou pela Rua da Venezuela nas últimas décadas... Para os mais desatentos, isso seria eu.

Ao contrário do que imaginei no passado, afigura-se-me que não é nada disso que se irá passar. Primeiro, porque depois de 2 anos e meio de aqui estar não conheço as pessoas que moram neste prédio. E assim sendo seria estúpido se eles desatassem a chorar quando me vissem a ir embora. Segundo, porque os poucos que reconheço de vista são uma cambada de broncos mal encarados que não perceberiam a sensibilidade nem que ela lhes desse uma lambada com toda a força nas trombas. E isto, atenção, é dito por alguém que é sensível... uma vez mais, para os desatentos, estou a falar de mim.

Ora, se grande parte dos meus vizinhos nutre por mim o mesmo tipo de desprezo que eu nutro por eles, orgulho-me em dizer que há um que é especial: o camarada aqui do apartamento ao lado.

Um tipo encantador que gosta de exprimir o seu encanto em pancadas na parede sempre que eu, ou alguém que esteja em minha casa, faça um som ligeiramente mais alto do que uma torneira a abrir, de um ratinho a chiar ou de uma folha sêca a cair no chão. Manias...

Eu podia aproveitar isto do blogue e da net para vociferar uma catrefada de insultos e ordinarices arbitrárias para me despedir do indivíduo. Mas ao invés disso, decidi ser o "bigger man" e deixar-lhe aqui uma carta aberta, de homem para homem, de modo a resolvermos a bem o mau ambiente que se gerou e que acompanhou a nossa convivência predial nos últimos tempos.

Ora então cá vai...


Prezado Boi

Perdoa iniciar esta carta apelidando-te de bovino mas a verdade é que não sei o teu nome e o emprego do dito animal deve-se às suas numerosas qualidades. Porque é um exemplo de força. Porque é um símbolo de nobreza.

Ah e também porque é cornudo.

Imagino que não vás sentir a minha falta e contente decerto ficarás quando souberes que vou definitivamente para longe de ti. Muitas foram as vezes que ouvi pesadas murraças na parede da minha sala durante amenos jantares aqui passados, sempre que alguém, imaginem lá o displante, se risse um pouco mais alto...

Atenção. Eu entendo a tua aversão ao riso.

Se eu tivesse a tua aparência, acredita que também não tinha vontade nenhuma de me rir e era possível que me irritasse no mais profundo das entranhas se alguém junto a mim o fizesse. Mas também não nego que essa tua implicância me fez lembrar aquele monge velhaco do "Nome da Rosa"... Sabes qual é? Aquele que desatou a matar os outros porque tinham descoberto um livro de anedotas e ele achava que o riso era diabólico e próprio dos macacos. Qualquer coisa do género.

Apesar de considerar praticamente nazi o teu horror a tudo o que é gargalhada sinto-me agradecido por não me teres vindo para aqui encher os livros de veneno. Não me interpretes mal, não me afectaria porque eu pouco leio, é mais porque não gostava que entrasses cá em casa. Gosto de ter um certo controlo nesse aspecto.

Bateste muitas vezes na parede, e tu sabes disso, pelos já falados risos, a principal razão, por uma ou outra expressão mais efusiva de surpresa ou alegria, como tu detestas isso, ou até pelo barulho que fazem sandálias a cair no chão, ao serem descalçadas. Esta então é a melhor. E uma vez mais estou ao teu lado nesta matéria. Aquele estalo que as sandálias fazem no contacto directo com o soalho é sem dúvida um enorme flagelo. Nem sei como aguentaste tudo isso sem fazer queixa à polícia, mas portaste-te como um homenzinho e por isso te agradeço. Ao invés, deste pancadinhas na parede. Sim senhor.

Eu sei que ficas assim irritadiço porque precisas de dormir à noite. Sei que és um homem de negócios... Não propriamente de negócios mas de UM negócio: uma tabacaria a 200 metros aqui do prédio. Daquelas que, para além dos tabacos, dos jornais e da pornografia, também vendem bonitos gatos de louça e outros bibelôs que, apesar de estarem à venda, já fazem parte da mobília por ali estarem há tantos anos.

Percebo que te levantas da caminha sempre às 6 da manhã para abrir o estaminé, todos os dias do ano sem pausas semanais nem férias nem Natal nem nada mais que o valha. Podia ter pena de ti mas não tenho. Muito sinceramente, quero que te lixes. E quero que te lixes não por despeito ou por que me sinta picado pelas tuas pancadinhas carinhosas. É mesmo porque és estúpido.

Tanta dedicação para quê?! Nunca vais a lado nenhum... Nunca gastas o dinheiro para o qual tanto te esforças em nada que se veja ou que valha a pena. Não integras projectos de solidariedade, não visitas os amigos (se é que os tens), não privas com prostitutas, não fazes nada. Casa-Tabacaria. Tabacaria-Casa. A tua vida limita-se a 200 metros p'ra lá e p'ra cá. 200 metros de ambição, o terreno que pensas que já conquistaste e no qual julgas ser O MAIOR.

E és pá. Fica lá com a taça.
Fica lá com este trecho da Rua da Venezuela todo para ti. Quero lá saber.

Pessoalmente considero que quando é isto o nosso Shangri-La, é sinal que algo está errado. Até porque, e desculpa estar a tocar na ferida, não estás a ir p'ra novo, meu caro. E além disso esse penteado é um enorme entrave à aproximação das gajas. Estou só a dizer...

Outra coisa que justifica seres ainda solteiro, e, permite-me dizê-lo, azedo com'á m***a, é o cheiro intenso a peixe frito que emana do teu casebre quase todas as noites. Que raio é aquilo, pá?! És um aficionado de peixe frito, é? E não sabes que isso, mais do que todo o barulho do mundo, justificaria eu passar o serão às marradas à mesma parede onde dás murrinhos sempre que alguém, segundo os teus parâmetros, "passa das marcas" em termos sonoros? É um pivete que não se aguenta!

Mas a verdade é que nós nunca fizemos assim tanto barulho... Nem nada que se pareça. Foste mesquinho, há que dizê-lo. E também há que dizer que o meu desejo mais profundo é que venha cá para casa um de dois: ou o elenco inteiro do Circo Cardinali, anões incluídos, disposto a ensaiar toda a santa noite, ou os Pólo Norte. Aí é que ias ficar com a mãozinha feita em papa, amigo.


E ao ver-teeeeee, Lisboa Lisboaaaa...

(pum pum pum)

Perdereeeeee o Bairro da Madragoaaaaa...

(PUM PUM PUM)


Não era mais que justo e era o que merecias.

Está pois na hora de me despedir. Não com amizade, à Sousa Veloso, porque és uma besta, mas com a mesma rudeza com que lidaste com a minha presença durante a nossa condição de vizinhos.

Apesar de tudo desejo-te o melhor. Que alguém finalmente compre pelo menos um dos gatos de louça ordinária que vendes na tua xafarica e também que consigas acrescentar mais 100 metros ao teu percurso diário até morreres. Talvez passes a ir à tasca da esquina beber uma imperial ao final do dia. Seria uma boa maneira de gozares os teus anos dourados.

Um grande abraço deste que não pode contigo

Saguim

Sunday, August 8, 2010

Ele há coisas...

Há coisas na vida para as quais não tenho resposta.

Eu e todos nós, diga-se. Por muito inteligentes que consigamos ser, por muito cultos ou perspicazes, há sempre uma ou outra coisa que nos escapa e nos deixa boquiabertos, com ar de mongos. Eu julgo até que é nesses momentos que toda a raça humana se encontra: novos e velhos, pobres e ricos, pretos e brancos... Tudo com a boca aberta, fio de baba pendente e ar perdido. Porque há coisas que estão destinadas a constituir mistério para todo o sempre.

Uma destas questões por resolver, no que diz respeito ao meu percurso até à data, é a seguinte:

Porque é que, quando eu andava na escola, aquele que sacava mais miúdas era um indivíduo que exibia um pedaço permanente de ranho verde entre uma das narinas e o topo do lábio superior?

Isto, tal qual.

Ehpá porquê?

É que o rapaz apresentava-se assim todos os dias sem excepção. E o gajedo atirava-se aos seus pés, sedentas que estavam da sua atenção, indiferentes ao aspecto repugnante e, justifica-se a comparação, mongolóide, do imberbe. Eu na altura julgava que ele não se apercebia que era ranhoso e que mantinha aquilo ali por uma questão de desleixo ou ignorância. Hoje a única certeza que tenho é que ele não só sabia que tinha ranho como o deixava ali estar como uma qualquer estratégia doentia de Dom Juan de trazer por casa. Porque se há malta que aprecia ver meninas a esfregar-se em balões ou até ter as partes baixas pisadas por sapatos com salto de agulha, então isto do ranho verde é capaz de ser o grau zero dos fetiches pervertidos.

Para o sujeito, o ranho atraía namoradas assim como aquelas fitas da cola castanha atraem e aprisionam moscas. Era certinho.

E eu nunca percebi porquê.

Mas, ao mesmo tempo, aceito que o mundo é mesmo assim, há coisas que também só têm piada se ficarem no limbo das certezas. Será que há vida depois da morte? Haverá seres extraterrestres? O universo é mesmo infinito? Porque é afrodisíaco o ranho verde? Tantos e tão maravilhosos mistérios que, só por si, concentram a piada que é estar vivo.

No entanto, quero crer que isto do ranho não está ao alcance de qualquer um. Há que saber usá-lo. Não foi com certeza com muco que conquistei a minha mulher. Uma vez atirei-lhe com um copo de galão em cheio na cara, em golfadas, mas isso foi porque me engasguei e não porque estivesse a fazer uso de algum tipo de charme. Sei o que estão a pensar: galão e ranho não são de todo a mesma coisa... Mas quando se apanha com café com leite regurgitado na tromba é igualmente nojento. Se fosse ranho a reacção dela teria sido a mesma: um sorriso gracioso, um movimento suave em direcção à porta e o caminho até ao duche de casa em doces passadas, sem dizer palavra.

Os choninhas todos do mundo podiam imitar o mítico pedaço de ranho verde que, estou certo, pouco conseguiriam retirar do look. Aquele indivíduo exibia-o com mestria, com um tipo de autoconfiança arrogante de quem está seguro do seu ranho, de quem tem a certeza que é "o maior". E que só irá partilhar o muco com a tipa que o merecer. Que foram muitas, na altura.

Passados estes anos todos penso que fiz as pazes com o universo. Continuo a pensar nisto bem mais do que devia, bem sei, mas resolvi aceitar que nunca vou entender exactamente o que se passou. Havia ranho, não há dúvida disso. Ele era bem evidente, com um tom de verde que de tão vivo às vezes parecia ter luz própria (o que devia dar um jeitão à noite a atravessar as ruas) e a sua consistência era perfeita: não tão rijo que o fizesse secar e não tão mole que o tornasse líquido e escorregadio. Estava no ponto. Exactamente no ponto.

Hoje, o indivíduo deve ser, seguramente, alguém que sim senhor. Daqueles que aparecem nas revistas agarrados às miúdas dos Morangos ou àquelas outras que não se sabe bem o que fazem, embora se desconfie que estão isentas de impostos. Estou certo que o tipo hoje tem tudo: dinheiro, sucesso, coca e muitas beldades no seu leito.

O suficiente de fama e fortuna para garantir que na redacção da revista vai haver alguém que abra as fotos no Photoshop...

E QUE LHE APAGUE A PORRA DO RANHO!!!

Sunday, July 18, 2010

Ah a praia

Ah a praia...

A brisa suave que enternece os corpos semi-nus, expostos ao calor da nossa maior estrela, dona da luz sagrada que alimenta corpo e alma.

Ah a maravilhosa praia...


Não sou grande fã.


Hoje passei por uma. Não estava tempo para isso mas ainda assim apeteceu-me lá tomar café. E como também não tinha mais nada para fazer, decidi tirar partido do computador e dissertei... Dissertei sobre o que se passava à minha volta.

Cá vai...


"É praticamente meio-dia e estou sentado, de portátil ao colo, numa esplanada da praia do Baleal. Perto de Peniche. Estou aqui sentado a escrever baboseiras porque, e apesar das centenas de pessoas que se encontram a chafurdar na areia e nas ondas neste preciso momento, NÃO ESTÁ TEMPO DE PRAIA. Ok?

É que às vezes parece que tenho de gritar para me darem alguma atenção. Isto cansa, pá!

Ora bem, porque é que eu digo que não está tempo de praia?
Porque está frio e o céu está encoberto. Isto para mim é não estar tempo de praia.

Mas claro que há sempre um magote de jagunços a pensar o contrário. Deus os abençoe.

Eu cá não entrava nesta água hoje nem que o Figueiras (porque todos sabemos que na altura das férias o Figueiras entra em acção e substitui a maior parte dos apresentadores de concursos da SIC) me oferecesse um milhão de euros ou uma noite com uma espantosa modelo - viram como não indiquei o nome da modelo? Para me salvaguardar de possíveis represálias ou olhares de nojo lançados pela minha mulher. Isto é assim, escrever disparates muito bem mas sempre com um olho no burro e outro no cigano, que este menino ninguém apanha desprevenido. É o apanhas!

Bom, se no caso da modelo ver-me-ia forçado a rejeitar a oferta graças ao amor incondicional que sinto pela minha cara-metade (embrulha!) já no caso do dinheiro só não aceitaria porque então um milhão de euros seria efectivamente o preço da minha morte.

Se eu entrasse neste mar morreria.

Sem pestanejar.

Sem um último insulto aos meus inimigos.

Sem mais nada.

Bom, neste momento a questão para a qual se exige resposta é: porque estou eu a escrever estas linhas agora?

Porque a praia é um palco de bizarria que me merece comentário.

Primeiro: EU estou cá.
A partir daqui deveria ser sempre a subir não é? Mas não é.

Ainda agora se levantou uma estrangeira que se sentou na minha mesa a beber um galão. Eu só a autorizei a tirar uma cadeira mas ela achou que esse consentimento se alargava a ocupar 50% do meu espaço. Ah e quando eu falo em estrangeira falo em 80 quilos de norueguesa! Daquelas que, com uma patada, me viraria a cabeça ao contrário, a 180º, como aquele famoso golpe do Bruce Lee que punha os inimigos a “nanar”. Pronto, ao menos agora a Helga foi à vida dela. Já não é mau.

Há pouco, à minha esquerda um emigrante português quase certamente radicado em França, gritava obscenidades em conversa amena com a mulher. Pelo que percebi, não estava zangado com ela, estava zangado com uma qualquer situação. E as obscenidades, gritadas num misto das duas línguas, portanto em luso-francês, não suscitavam na esposa qualquer reacção adversa mas sim um olhar de respeito e admiração.

Quero isso para mim.

Amanhã ao pequeno almoço vou experimentar ser ordinário com a minha mulher em luso-francês. A ver se resulta.

À minha direita, bamboleia-se uma mulher a quem me apetece pedir por Deus para não voltar a usar biquíni. Claro que todos nós temos o direito democrático de o usar, eu incluído, mas quando o nosso corpo se assemelha a uma alforreca gigante, isso deveria ficar automaticamente fora de questão.

Também à minha direita, uma septuagenária vagueia confusa por entre as mesas da esplanada. A julgar pela atitude e pela maneira como está vestida, dá a entender que veio aqui ter por engano. Seguiu uma indicação errada para a Pastelaria Versalhes, fornecida ou por mim ou por outra septuagenária, e quando deu por ela estava a ouvir os berros irados do emigrante. Eu podia ajudá-la mas sempre me foi incutido que não devemos falar com estranhos.

E se esta velha tem um olhar sinistro...

Ao topar para o horizonte, sou obrigado a constatar que este tempo manhoso não afasta os fiéis resistentes aqui da praia. Como os admiro…

A sua incontrolável fixação pelo “tostanço” faz com que para aqui viessem mesmo que houvesse alerta de tsunami. “É da maneira que corre uma aragenzinha...”, diriam eles, amarrados aos bares de praia. Os bravos.

Isto lembra-me que ontem, aqui mesmo neste local, vi uma rapariga cuja pele se assemelhava ao tipo de madeira que os meus pais têm no tecto do corredor de casa deles. Mogno.

E a miúda era loira, daquelas que costumam ser muito branquinhas.

É nestas alturas que recordo o saudoso Michael Jackson…aquilo que o homem teve de ouvir, as bocas, as críticas e os risos de gozo… e tudo o que sempre quis fazer foi o inverso DAQUILO QUE FAZEM TODOS OS OUTROS NO PLANETA!

Se um branco quer ser preto, é sexy e atraente.

Se um preto que ser branco, é maluco, é esquizo e é freak.

E ainda por cima é pedófilo.

Para acamar.

Vá-se lá perceber o mundo...

Chegou uma nova família aqui à praia.
Os miúdos têm pouca vontade de se aventurar pelo areal adentro. Uma das crianças puxa os calções do pai, suplicando: “Mas está bué da vento...”

O pai ignora.

E atendendo ao aspecto do bicho considero já ser uma grande sorte não ter aplicado a tão portuguesa lambada no focinho ao garoto.

Já os vejo lá ao fundo.

Os pais determinados, faça frio, chuva ou granizo, a passar o raio do dia aqui enfiados. E os miúdos mais atrás, a arrastar os pés, em plena agonia pela sua triste sorte.

Tem graça que nisto da praia, parece que com a idade as pessoas vão perdendo o bom senso. Ao que parece, os mais pequenos têm uma noção, digamos, mais sã, de quando realmente vale a pena vir apanhar sol.

Normalmente é quando o há. Não é assim tão complicado.

Ao longe avisto o salva-vidas.

Aprecio muitíssimo esta profissão.

Um homem que treina afincadamente, com todas as privações adjacentes, que estuda os mistérios do mar e do tempo, que ouve mais do que o comum dos mortais, que vê mais longe e mais fundo do que todos nós, que é obrigado a ter a destreza de um tubarão, a coragem de um verdadeiro herói...

Sempre, SEMPRE, com um único objectivo: papar gajas.

É de valor.

E vai-se a ver e é hora de almoçar. Vou-me embora.

Gostei muito deste bocadinho. Por acaso, nem por isso.
Mas também agora já passou.

A mim quem me tira uma boa piscina tira-me tudo.
Claro que não tenho o imenso prazer de sentir areia a assar-me as partes baixas mas no fundo, e digam o que disserem, não sentir isso até acaba por ser positivo.
São gostos."

Saturday, July 10, 2010

O Fim está próximo

É amanhã que a minha mulher faz anos.
Para mim, esta é sempre uma fase complicada.

Não que me preocupe que ela esteja a envelhecer ou pense arranjar outra. Por enquanto esta que tenho ainda se encontra em bom estado e, como sempre fui poupadinho, vai dando para as curvas nessa longa autoestrada que é a vida.
Bom, poesia barata à parte, o meu problema é outro:

O que é que eu lhe vou dar?

É que, fica aqui a confissão, eu tenho um grave problema no que concerne a ofertar presentes à minha amada. Invariavelmente são estúpidos. E nas vezes que não são, são idiotas. Alterna entre o idiota e o estúpido, vá. E, sem saber como, ela continua comigo. Talvez esteja à espera que venha uma prenda boa para depois sim me mandar pastar. Isso seria um plano inteligente... mas também não quero estar aqui a dar-lhe ideias.

Eu não tenho grande jeito para ofertas, seja no aniversário ou no Natal, e isso sempre foi bem notório ao longo da nossa relação. Para vos ajudar a compreender o meu problema, elaborei aquele que pode ser o ranking das prendas mais imbecis que eu já alguma vez lhe dei... Estão preparados? Então aqui vai na mesma:


TOP 6 DAS OFERTAS MAIS "WHAT DA FUCK?!" COM QUE EU JÁ SURPREENDI A MINHA POBRE MULHER


6
Um "Relvinhas"

O que é um "relvinhas", perguntam vocês?
O objecto em questão pode ter esse nome ou também, e como foi apelidado por alguém conhecido, podem referir-se a ele como "aquele boneco esquisitóide com aspecto de feto".

Assim sendo, um "Relvinhas" é uma espécie de divertida cabeça, coberta com um material que contém sementes de relva na zona cimeira. Se regarmos regularmente a relva cresce e parece que a cabeça tem cabelo, podendo fazer-se penteados e tudo. Há quem diga que é muito giro, mas normalmente quem o diz tem um fio de baba permanente a pender-lhe do lábio inferior. E isso retira-lhe toda a credibilidade.

Ora, quando uma criança de 5 anos recebe isto de um pai, é querido.

Quando a mesma criança de 5 anos constrói uma peça destas para oferecer à avó, é adorável.

Quando é um rapaz de 25 a dá-la à namorada...

é...

perturbador.

Mas ela, Deus a abençoe, lá regou o boneco todos os dias até que este apodrecesse e ambos concordássemos que o melhor era deitá-lo no lixo. E só nesta altura me apercebi que oferecer uma coisa destas não tinha sido aquela ideia genial que eu sempre achei que era.

5
Uma Luz de Presença

Foi talvez a primeira de todas.
E porquê não sei... nunca soube.

Vi a Luz de Presença à venda, provavelmente numa loja de artigos para bébés, e achei que seria querido oferecê-la à minha cara metade. Claro que ela ficou uma bela dezena de segundos a olhar para aquilo e, em silêncio, a tentar medir a minha sanidade mental, até perceber que não só aquela oferta tinha sido intencional como eu ainda esperava um elogio ou um beijinho carinhoso em resposta.

E recebi-o. O beijinho carinhoso.
Ao mesmo tempo que na cabeça dela ecoava o grito "O QUE É QUE EU VOU FAZER COM ESTA M***A!!!", mas tudo bem. Este teatro tão bem encenado, apenas justificável pelo habitual período de charme que marca o início de qualquer relação, fez com que eu só desconfiasse que a prenda tinha sido um fiasco uns meses mais tarde. Bem engendrado, sim senhor.

4
Um Guarda-chuva com Asas de Abelha


No próprio dia em que lhe ofereci tão bizarro objecto, chovia torrencialmente. Antes de enfrentarmos a hostilidade do dilúvio, perguntei-lhe se não queria aproveitar e experimentar o seu novo guarda-chuva. Ao que ela respondeu rapidamente "Não, não..." atirando-se para baixo da chuva a correr e arriscando uma pneumonia daquelas que não se esquece... Este episódio parece que conta tudo acerca deste presente. Inútil...

E invisível também. Não sei onde está. Mas tenho a certeza que ela tratou do assunto.

Um dia qualquer, na minha ausência... o guarda-chuva com asas de abelha, um grelhador a carvão e uma caixa de fósforos... vocês façam a matemática.

3
Um Coelho a Pilhas

Se eu tivesse passado toda a minha infância e adolescência enfiado num poço, sem ver nada nem ninguém, até compreendia o meu fascínio quando me apresentaram esta porcaria num Shopping. E a minha mais-que-tudo tinha de possuir um.

Portanto, a ver se nos entendemos, é um boneco de um coelho no qual se enfiam pilhas e, a partir daí, o boneco move-se. Mal e porcamente mas move-se.

...

Sim, ofereci-lhe isto.

Lembro-me dela, sentada na cama, gota de suor na testa, a olhar para a estúpida maquineta. E nem nesse dia ela me enfiou duas lambadas na tromba... A isto chama-se autocontrolo, amigos.

Passando à frente...

2
Um Coelho com Sarna


Sim, leram bem. Não contente com o disparate anteriormente citado envolvendo o mesmo animal, desta vez decidi dar o passo em frente e ofertar-lhe a chamada "real thing". E logo com sarna! Eu sou um prato.

Como tal, sem ela nunca ter demonstrado vontade de ter qualquer animal, e muito menos um coelho, eu surpreendi-a com um ser vivo! Ali, à espera de ser tratado, alimentado, escovado e tudo mais que as pessoas de bem fazem aos animais (com isto excluo as actividades levadas a cabo por certos pastores. Separemos o trigo do joio).

Vocês dirão: "- Sim, mas tu com certeza pretendias tratar do bicho a meias com ela..." Ao que eu respondo: "- Não. Nem por isso." E ficamos por aqui.

Sei que nesse dia teria merecido sair de casa dos pais dela com um coelho enfiado pelo rabo acima, mas não saí. Acho que foi por pouco.

E assim chegamos ao primeiro do ranking...

1
Máquina de Hidromassagem para os Pés


O Cadillac das prendas estúpidas. E de longe a mais brutalmente cara.
Não sei o que me deu. Se muitas das outras prendas são o tipo de coisa que se oferece a uma criança pequena para deixar de fazer birra ou a um adulto psicopata para deixar de degolar inocentes, este é claramente um presente com "avó" escrito em toda a sua superfície.

O meu raciocínio foi simples: ela queixava-se que ao final do dia lhe doíam os pés, eu tinha algum dinheiro, vi uma traquitana destas à venda pelo valor do PIB de um pequeno país asiático e nem hesitei.

Uma vez mais, no momento da oferta, sentada na cama, ela não conseguiu evitar aquele piscar de olhos nervoso, revelador de confusão e/ou ódio e/ou tristeza extrema.

Nos dias seguintes, a maquineta terá trabalhado uma meia dúzia de vezes. E em todas elas fui eu que a obriguei a usá-la. Ao que parece a sensação não era assim tão espectacular. Enfim...


Agora, estou com o mesmo problema. E sou obrigado a recordar todas estas falhas para ao menos tentar não fazer outra gracinha. Coisa que já começa a ser extremamente preocupante.
É que assim não há amor que resista.

O verdadeiro, dizem, resiste a tudo.
À pior das doenças, à mais terrível das catástrofes... a tudo.

Mas a um guarda-chuva com asas de abelha ou a um coelho com sarna...
Sinto que estou na corda bamba.