Friday, August 27, 2010

Carta aberta ao meu vizinho

Ora então parece que vou mudar de residência muito em breve. Vou-me embora de Benfica. Não, não vou ser expulso da actual casa por incumprimento de renda, essa tem sido paga a tempo e horas, mas decidi que estava na altura de seguir para outras paragens.

E aí sim tenciono não pagar a renda. Mas isso é outra história...

Ao contrário do que imaginei quando me mudei para aqui, o dia da minha partida não será marcado por dezenas de vizinhos em lágrimas, observando com mágoa a saída do mais cintilante foco de luz e alegria que passou pela Rua da Venezuela nas últimas décadas... Para os mais desatentos, isso seria eu.

Ao contrário do que imaginei no passado, afigura-se-me que não é nada disso que se irá passar. Primeiro, porque depois de 2 anos e meio de aqui estar não conheço as pessoas que moram neste prédio. E assim sendo seria estúpido se eles desatassem a chorar quando me vissem a ir embora. Segundo, porque os poucos que reconheço de vista são uma cambada de broncos mal encarados que não perceberiam a sensibilidade nem que ela lhes desse uma lambada com toda a força nas trombas. E isto, atenção, é dito por alguém que é sensível... uma vez mais, para os desatentos, estou a falar de mim.

Ora, se grande parte dos meus vizinhos nutre por mim o mesmo tipo de desprezo que eu nutro por eles, orgulho-me em dizer que há um que é especial: o camarada aqui do apartamento ao lado.

Um tipo encantador que gosta de exprimir o seu encanto em pancadas na parede sempre que eu, ou alguém que esteja em minha casa, faça um som ligeiramente mais alto do que uma torneira a abrir, de um ratinho a chiar ou de uma folha sêca a cair no chão. Manias...

Eu podia aproveitar isto do blogue e da net para vociferar uma catrefada de insultos e ordinarices arbitrárias para me despedir do indivíduo. Mas ao invés disso, decidi ser o "bigger man" e deixar-lhe aqui uma carta aberta, de homem para homem, de modo a resolvermos a bem o mau ambiente que se gerou e que acompanhou a nossa convivência predial nos últimos tempos.

Ora então cá vai...


Prezado Boi

Perdoa iniciar esta carta apelidando-te de bovino mas a verdade é que não sei o teu nome e o emprego do dito animal deve-se às suas numerosas qualidades. Porque é um exemplo de força. Porque é um símbolo de nobreza.

Ah e também porque é cornudo.

Imagino que não vás sentir a minha falta e contente decerto ficarás quando souberes que vou definitivamente para longe de ti. Muitas foram as vezes que ouvi pesadas murraças na parede da minha sala durante amenos jantares aqui passados, sempre que alguém, imaginem lá o displante, se risse um pouco mais alto...

Atenção. Eu entendo a tua aversão ao riso.

Se eu tivesse a tua aparência, acredita que também não tinha vontade nenhuma de me rir e era possível que me irritasse no mais profundo das entranhas se alguém junto a mim o fizesse. Mas também não nego que essa tua implicância me fez lembrar aquele monge velhaco do "Nome da Rosa"... Sabes qual é? Aquele que desatou a matar os outros porque tinham descoberto um livro de anedotas e ele achava que o riso era diabólico e próprio dos macacos. Qualquer coisa do género.

Apesar de considerar praticamente nazi o teu horror a tudo o que é gargalhada sinto-me agradecido por não me teres vindo para aqui encher os livros de veneno. Não me interpretes mal, não me afectaria porque eu pouco leio, é mais porque não gostava que entrasses cá em casa. Gosto de ter um certo controlo nesse aspecto.

Bateste muitas vezes na parede, e tu sabes disso, pelos já falados risos, a principal razão, por uma ou outra expressão mais efusiva de surpresa ou alegria, como tu detestas isso, ou até pelo barulho que fazem sandálias a cair no chão, ao serem descalçadas. Esta então é a melhor. E uma vez mais estou ao teu lado nesta matéria. Aquele estalo que as sandálias fazem no contacto directo com o soalho é sem dúvida um enorme flagelo. Nem sei como aguentaste tudo isso sem fazer queixa à polícia, mas portaste-te como um homenzinho e por isso te agradeço. Ao invés, deste pancadinhas na parede. Sim senhor.

Eu sei que ficas assim irritadiço porque precisas de dormir à noite. Sei que és um homem de negócios... Não propriamente de negócios mas de UM negócio: uma tabacaria a 200 metros aqui do prédio. Daquelas que, para além dos tabacos, dos jornais e da pornografia, também vendem bonitos gatos de louça e outros bibelôs que, apesar de estarem à venda, já fazem parte da mobília por ali estarem há tantos anos.

Percebo que te levantas da caminha sempre às 6 da manhã para abrir o estaminé, todos os dias do ano sem pausas semanais nem férias nem Natal nem nada mais que o valha. Podia ter pena de ti mas não tenho. Muito sinceramente, quero que te lixes. E quero que te lixes não por despeito ou por que me sinta picado pelas tuas pancadinhas carinhosas. É mesmo porque és estúpido.

Tanta dedicação para quê?! Nunca vais a lado nenhum... Nunca gastas o dinheiro para o qual tanto te esforças em nada que se veja ou que valha a pena. Não integras projectos de solidariedade, não visitas os amigos (se é que os tens), não privas com prostitutas, não fazes nada. Casa-Tabacaria. Tabacaria-Casa. A tua vida limita-se a 200 metros p'ra lá e p'ra cá. 200 metros de ambição, o terreno que pensas que já conquistaste e no qual julgas ser O MAIOR.

E és pá. Fica lá com a taça.
Fica lá com este trecho da Rua da Venezuela todo para ti. Quero lá saber.

Pessoalmente considero que quando é isto o nosso Shangri-La, é sinal que algo está errado. Até porque, e desculpa estar a tocar na ferida, não estás a ir p'ra novo, meu caro. E além disso esse penteado é um enorme entrave à aproximação das gajas. Estou só a dizer...

Outra coisa que justifica seres ainda solteiro, e, permite-me dizê-lo, azedo com'á m***a, é o cheiro intenso a peixe frito que emana do teu casebre quase todas as noites. Que raio é aquilo, pá?! És um aficionado de peixe frito, é? E não sabes que isso, mais do que todo o barulho do mundo, justificaria eu passar o serão às marradas à mesma parede onde dás murrinhos sempre que alguém, segundo os teus parâmetros, "passa das marcas" em termos sonoros? É um pivete que não se aguenta!

Mas a verdade é que nós nunca fizemos assim tanto barulho... Nem nada que se pareça. Foste mesquinho, há que dizê-lo. E também há que dizer que o meu desejo mais profundo é que venha cá para casa um de dois: ou o elenco inteiro do Circo Cardinali, anões incluídos, disposto a ensaiar toda a santa noite, ou os Pólo Norte. Aí é que ias ficar com a mãozinha feita em papa, amigo.


E ao ver-teeeeee, Lisboa Lisboaaaa...

(pum pum pum)

Perdereeeeee o Bairro da Madragoaaaaa...

(PUM PUM PUM)


Não era mais que justo e era o que merecias.

Está pois na hora de me despedir. Não com amizade, à Sousa Veloso, porque és uma besta, mas com a mesma rudeza com que lidaste com a minha presença durante a nossa condição de vizinhos.

Apesar de tudo desejo-te o melhor. Que alguém finalmente compre pelo menos um dos gatos de louça ordinária que vendes na tua xafarica e também que consigas acrescentar mais 100 metros ao teu percurso diário até morreres. Talvez passes a ir à tasca da esquina beber uma imperial ao final do dia. Seria uma boa maneira de gozares os teus anos dourados.

Um grande abraço deste que não pode contigo

Saguim

Sunday, August 8, 2010

Ele há coisas...

Há coisas na vida para as quais não tenho resposta.

Eu e todos nós, diga-se. Por muito inteligentes que consigamos ser, por muito cultos ou perspicazes, há sempre uma ou outra coisa que nos escapa e nos deixa boquiabertos, com ar de mongos. Eu julgo até que é nesses momentos que toda a raça humana se encontra: novos e velhos, pobres e ricos, pretos e brancos... Tudo com a boca aberta, fio de baba pendente e ar perdido. Porque há coisas que estão destinadas a constituir mistério para todo o sempre.

Uma destas questões por resolver, no que diz respeito ao meu percurso até à data, é a seguinte:

Porque é que, quando eu andava na escola, aquele que sacava mais miúdas era um indivíduo que exibia um pedaço permanente de ranho verde entre uma das narinas e o topo do lábio superior?

Isto, tal qual.

Ehpá porquê?

É que o rapaz apresentava-se assim todos os dias sem excepção. E o gajedo atirava-se aos seus pés, sedentas que estavam da sua atenção, indiferentes ao aspecto repugnante e, justifica-se a comparação, mongolóide, do imberbe. Eu na altura julgava que ele não se apercebia que era ranhoso e que mantinha aquilo ali por uma questão de desleixo ou ignorância. Hoje a única certeza que tenho é que ele não só sabia que tinha ranho como o deixava ali estar como uma qualquer estratégia doentia de Dom Juan de trazer por casa. Porque se há malta que aprecia ver meninas a esfregar-se em balões ou até ter as partes baixas pisadas por sapatos com salto de agulha, então isto do ranho verde é capaz de ser o grau zero dos fetiches pervertidos.

Para o sujeito, o ranho atraía namoradas assim como aquelas fitas da cola castanha atraem e aprisionam moscas. Era certinho.

E eu nunca percebi porquê.

Mas, ao mesmo tempo, aceito que o mundo é mesmo assim, há coisas que também só têm piada se ficarem no limbo das certezas. Será que há vida depois da morte? Haverá seres extraterrestres? O universo é mesmo infinito? Porque é afrodisíaco o ranho verde? Tantos e tão maravilhosos mistérios que, só por si, concentram a piada que é estar vivo.

No entanto, quero crer que isto do ranho não está ao alcance de qualquer um. Há que saber usá-lo. Não foi com certeza com muco que conquistei a minha mulher. Uma vez atirei-lhe com um copo de galão em cheio na cara, em golfadas, mas isso foi porque me engasguei e não porque estivesse a fazer uso de algum tipo de charme. Sei o que estão a pensar: galão e ranho não são de todo a mesma coisa... Mas quando se apanha com café com leite regurgitado na tromba é igualmente nojento. Se fosse ranho a reacção dela teria sido a mesma: um sorriso gracioso, um movimento suave em direcção à porta e o caminho até ao duche de casa em doces passadas, sem dizer palavra.

Os choninhas todos do mundo podiam imitar o mítico pedaço de ranho verde que, estou certo, pouco conseguiriam retirar do look. Aquele indivíduo exibia-o com mestria, com um tipo de autoconfiança arrogante de quem está seguro do seu ranho, de quem tem a certeza que é "o maior". E que só irá partilhar o muco com a tipa que o merecer. Que foram muitas, na altura.

Passados estes anos todos penso que fiz as pazes com o universo. Continuo a pensar nisto bem mais do que devia, bem sei, mas resolvi aceitar que nunca vou entender exactamente o que se passou. Havia ranho, não há dúvida disso. Ele era bem evidente, com um tom de verde que de tão vivo às vezes parecia ter luz própria (o que devia dar um jeitão à noite a atravessar as ruas) e a sua consistência era perfeita: não tão rijo que o fizesse secar e não tão mole que o tornasse líquido e escorregadio. Estava no ponto. Exactamente no ponto.

Hoje, o indivíduo deve ser, seguramente, alguém que sim senhor. Daqueles que aparecem nas revistas agarrados às miúdas dos Morangos ou àquelas outras que não se sabe bem o que fazem, embora se desconfie que estão isentas de impostos. Estou certo que o tipo hoje tem tudo: dinheiro, sucesso, coca e muitas beldades no seu leito.

O suficiente de fama e fortuna para garantir que na redacção da revista vai haver alguém que abra as fotos no Photoshop...

E QUE LHE APAGUE A PORRA DO RANHO!!!

Sunday, July 18, 2010

Ah a praia

Ah a praia...

A brisa suave que enternece os corpos semi-nus, expostos ao calor da nossa maior estrela, dona da luz sagrada que alimenta corpo e alma.

Ah a maravilhosa praia...


Não sou grande fã.


Hoje passei por uma. Não estava tempo para isso mas ainda assim apeteceu-me lá tomar café. E como também não tinha mais nada para fazer, decidi tirar partido do computador e dissertei... Dissertei sobre o que se passava à minha volta.

Cá vai...


"É praticamente meio-dia e estou sentado, de portátil ao colo, numa esplanada da praia do Baleal. Perto de Peniche. Estou aqui sentado a escrever baboseiras porque, e apesar das centenas de pessoas que se encontram a chafurdar na areia e nas ondas neste preciso momento, NÃO ESTÁ TEMPO DE PRAIA. Ok?

É que às vezes parece que tenho de gritar para me darem alguma atenção. Isto cansa, pá!

Ora bem, porque é que eu digo que não está tempo de praia?
Porque está frio e o céu está encoberto. Isto para mim é não estar tempo de praia.

Mas claro que há sempre um magote de jagunços a pensar o contrário. Deus os abençoe.

Eu cá não entrava nesta água hoje nem que o Figueiras (porque todos sabemos que na altura das férias o Figueiras entra em acção e substitui a maior parte dos apresentadores de concursos da SIC) me oferecesse um milhão de euros ou uma noite com uma espantosa modelo - viram como não indiquei o nome da modelo? Para me salvaguardar de possíveis represálias ou olhares de nojo lançados pela minha mulher. Isto é assim, escrever disparates muito bem mas sempre com um olho no burro e outro no cigano, que este menino ninguém apanha desprevenido. É o apanhas!

Bom, se no caso da modelo ver-me-ia forçado a rejeitar a oferta graças ao amor incondicional que sinto pela minha cara-metade (embrulha!) já no caso do dinheiro só não aceitaria porque então um milhão de euros seria efectivamente o preço da minha morte.

Se eu entrasse neste mar morreria.

Sem pestanejar.

Sem um último insulto aos meus inimigos.

Sem mais nada.

Bom, neste momento a questão para a qual se exige resposta é: porque estou eu a escrever estas linhas agora?

Porque a praia é um palco de bizarria que me merece comentário.

Primeiro: EU estou cá.
A partir daqui deveria ser sempre a subir não é? Mas não é.

Ainda agora se levantou uma estrangeira que se sentou na minha mesa a beber um galão. Eu só a autorizei a tirar uma cadeira mas ela achou que esse consentimento se alargava a ocupar 50% do meu espaço. Ah e quando eu falo em estrangeira falo em 80 quilos de norueguesa! Daquelas que, com uma patada, me viraria a cabeça ao contrário, a 180º, como aquele famoso golpe do Bruce Lee que punha os inimigos a “nanar”. Pronto, ao menos agora a Helga foi à vida dela. Já não é mau.

Há pouco, à minha esquerda um emigrante português quase certamente radicado em França, gritava obscenidades em conversa amena com a mulher. Pelo que percebi, não estava zangado com ela, estava zangado com uma qualquer situação. E as obscenidades, gritadas num misto das duas línguas, portanto em luso-francês, não suscitavam na esposa qualquer reacção adversa mas sim um olhar de respeito e admiração.

Quero isso para mim.

Amanhã ao pequeno almoço vou experimentar ser ordinário com a minha mulher em luso-francês. A ver se resulta.

À minha direita, bamboleia-se uma mulher a quem me apetece pedir por Deus para não voltar a usar biquíni. Claro que todos nós temos o direito democrático de o usar, eu incluído, mas quando o nosso corpo se assemelha a uma alforreca gigante, isso deveria ficar automaticamente fora de questão.

Também à minha direita, uma septuagenária vagueia confusa por entre as mesas da esplanada. A julgar pela atitude e pela maneira como está vestida, dá a entender que veio aqui ter por engano. Seguiu uma indicação errada para a Pastelaria Versalhes, fornecida ou por mim ou por outra septuagenária, e quando deu por ela estava a ouvir os berros irados do emigrante. Eu podia ajudá-la mas sempre me foi incutido que não devemos falar com estranhos.

E se esta velha tem um olhar sinistro...

Ao topar para o horizonte, sou obrigado a constatar que este tempo manhoso não afasta os fiéis resistentes aqui da praia. Como os admiro…

A sua incontrolável fixação pelo “tostanço” faz com que para aqui viessem mesmo que houvesse alerta de tsunami. “É da maneira que corre uma aragenzinha...”, diriam eles, amarrados aos bares de praia. Os bravos.

Isto lembra-me que ontem, aqui mesmo neste local, vi uma rapariga cuja pele se assemelhava ao tipo de madeira que os meus pais têm no tecto do corredor de casa deles. Mogno.

E a miúda era loira, daquelas que costumam ser muito branquinhas.

É nestas alturas que recordo o saudoso Michael Jackson…aquilo que o homem teve de ouvir, as bocas, as críticas e os risos de gozo… e tudo o que sempre quis fazer foi o inverso DAQUILO QUE FAZEM TODOS OS OUTROS NO PLANETA!

Se um branco quer ser preto, é sexy e atraente.

Se um preto que ser branco, é maluco, é esquizo e é freak.

E ainda por cima é pedófilo.

Para acamar.

Vá-se lá perceber o mundo...

Chegou uma nova família aqui à praia.
Os miúdos têm pouca vontade de se aventurar pelo areal adentro. Uma das crianças puxa os calções do pai, suplicando: “Mas está bué da vento...”

O pai ignora.

E atendendo ao aspecto do bicho considero já ser uma grande sorte não ter aplicado a tão portuguesa lambada no focinho ao garoto.

Já os vejo lá ao fundo.

Os pais determinados, faça frio, chuva ou granizo, a passar o raio do dia aqui enfiados. E os miúdos mais atrás, a arrastar os pés, em plena agonia pela sua triste sorte.

Tem graça que nisto da praia, parece que com a idade as pessoas vão perdendo o bom senso. Ao que parece, os mais pequenos têm uma noção, digamos, mais sã, de quando realmente vale a pena vir apanhar sol.

Normalmente é quando o há. Não é assim tão complicado.

Ao longe avisto o salva-vidas.

Aprecio muitíssimo esta profissão.

Um homem que treina afincadamente, com todas as privações adjacentes, que estuda os mistérios do mar e do tempo, que ouve mais do que o comum dos mortais, que vê mais longe e mais fundo do que todos nós, que é obrigado a ter a destreza de um tubarão, a coragem de um verdadeiro herói...

Sempre, SEMPRE, com um único objectivo: papar gajas.

É de valor.

E vai-se a ver e é hora de almoçar. Vou-me embora.

Gostei muito deste bocadinho. Por acaso, nem por isso.
Mas também agora já passou.

A mim quem me tira uma boa piscina tira-me tudo.
Claro que não tenho o imenso prazer de sentir areia a assar-me as partes baixas mas no fundo, e digam o que disserem, não sentir isso até acaba por ser positivo.
São gostos."

Saturday, July 10, 2010

O Fim está próximo

É amanhã que a minha mulher faz anos.
Para mim, esta é sempre uma fase complicada.

Não que me preocupe que ela esteja a envelhecer ou pense arranjar outra. Por enquanto esta que tenho ainda se encontra em bom estado e, como sempre fui poupadinho, vai dando para as curvas nessa longa autoestrada que é a vida.
Bom, poesia barata à parte, o meu problema é outro:

O que é que eu lhe vou dar?

É que, fica aqui a confissão, eu tenho um grave problema no que concerne a ofertar presentes à minha amada. Invariavelmente são estúpidos. E nas vezes que não são, são idiotas. Alterna entre o idiota e o estúpido, vá. E, sem saber como, ela continua comigo. Talvez esteja à espera que venha uma prenda boa para depois sim me mandar pastar. Isso seria um plano inteligente... mas também não quero estar aqui a dar-lhe ideias.

Eu não tenho grande jeito para ofertas, seja no aniversário ou no Natal, e isso sempre foi bem notório ao longo da nossa relação. Para vos ajudar a compreender o meu problema, elaborei aquele que pode ser o ranking das prendas mais imbecis que eu já alguma vez lhe dei... Estão preparados? Então aqui vai na mesma:


TOP 6 DAS OFERTAS MAIS "WHAT DA FUCK?!" COM QUE EU JÁ SURPREENDI A MINHA POBRE MULHER


6
Um "Relvinhas"

O que é um "relvinhas", perguntam vocês?
O objecto em questão pode ter esse nome ou também, e como foi apelidado por alguém conhecido, podem referir-se a ele como "aquele boneco esquisitóide com aspecto de feto".

Assim sendo, um "Relvinhas" é uma espécie de divertida cabeça, coberta com um material que contém sementes de relva na zona cimeira. Se regarmos regularmente a relva cresce e parece que a cabeça tem cabelo, podendo fazer-se penteados e tudo. Há quem diga que é muito giro, mas normalmente quem o diz tem um fio de baba permanente a pender-lhe do lábio inferior. E isso retira-lhe toda a credibilidade.

Ora, quando uma criança de 5 anos recebe isto de um pai, é querido.

Quando a mesma criança de 5 anos constrói uma peça destas para oferecer à avó, é adorável.

Quando é um rapaz de 25 a dá-la à namorada...

é...

perturbador.

Mas ela, Deus a abençoe, lá regou o boneco todos os dias até que este apodrecesse e ambos concordássemos que o melhor era deitá-lo no lixo. E só nesta altura me apercebi que oferecer uma coisa destas não tinha sido aquela ideia genial que eu sempre achei que era.

5
Uma Luz de Presença

Foi talvez a primeira de todas.
E porquê não sei... nunca soube.

Vi a Luz de Presença à venda, provavelmente numa loja de artigos para bébés, e achei que seria querido oferecê-la à minha cara metade. Claro que ela ficou uma bela dezena de segundos a olhar para aquilo e, em silêncio, a tentar medir a minha sanidade mental, até perceber que não só aquela oferta tinha sido intencional como eu ainda esperava um elogio ou um beijinho carinhoso em resposta.

E recebi-o. O beijinho carinhoso.
Ao mesmo tempo que na cabeça dela ecoava o grito "O QUE É QUE EU VOU FAZER COM ESTA M***A!!!", mas tudo bem. Este teatro tão bem encenado, apenas justificável pelo habitual período de charme que marca o início de qualquer relação, fez com que eu só desconfiasse que a prenda tinha sido um fiasco uns meses mais tarde. Bem engendrado, sim senhor.

4
Um Guarda-chuva com Asas de Abelha


No próprio dia em que lhe ofereci tão bizarro objecto, chovia torrencialmente. Antes de enfrentarmos a hostilidade do dilúvio, perguntei-lhe se não queria aproveitar e experimentar o seu novo guarda-chuva. Ao que ela respondeu rapidamente "Não, não..." atirando-se para baixo da chuva a correr e arriscando uma pneumonia daquelas que não se esquece... Este episódio parece que conta tudo acerca deste presente. Inútil...

E invisível também. Não sei onde está. Mas tenho a certeza que ela tratou do assunto.

Um dia qualquer, na minha ausência... o guarda-chuva com asas de abelha, um grelhador a carvão e uma caixa de fósforos... vocês façam a matemática.

3
Um Coelho a Pilhas

Se eu tivesse passado toda a minha infância e adolescência enfiado num poço, sem ver nada nem ninguém, até compreendia o meu fascínio quando me apresentaram esta porcaria num Shopping. E a minha mais-que-tudo tinha de possuir um.

Portanto, a ver se nos entendemos, é um boneco de um coelho no qual se enfiam pilhas e, a partir daí, o boneco move-se. Mal e porcamente mas move-se.

...

Sim, ofereci-lhe isto.

Lembro-me dela, sentada na cama, gota de suor na testa, a olhar para a estúpida maquineta. E nem nesse dia ela me enfiou duas lambadas na tromba... A isto chama-se autocontrolo, amigos.

Passando à frente...

2
Um Coelho com Sarna


Sim, leram bem. Não contente com o disparate anteriormente citado envolvendo o mesmo animal, desta vez decidi dar o passo em frente e ofertar-lhe a chamada "real thing". E logo com sarna! Eu sou um prato.

Como tal, sem ela nunca ter demonstrado vontade de ter qualquer animal, e muito menos um coelho, eu surpreendi-a com um ser vivo! Ali, à espera de ser tratado, alimentado, escovado e tudo mais que as pessoas de bem fazem aos animais (com isto excluo as actividades levadas a cabo por certos pastores. Separemos o trigo do joio).

Vocês dirão: "- Sim, mas tu com certeza pretendias tratar do bicho a meias com ela..." Ao que eu respondo: "- Não. Nem por isso." E ficamos por aqui.

Sei que nesse dia teria merecido sair de casa dos pais dela com um coelho enfiado pelo rabo acima, mas não saí. Acho que foi por pouco.

E assim chegamos ao primeiro do ranking...

1
Máquina de Hidromassagem para os Pés


O Cadillac das prendas estúpidas. E de longe a mais brutalmente cara.
Não sei o que me deu. Se muitas das outras prendas são o tipo de coisa que se oferece a uma criança pequena para deixar de fazer birra ou a um adulto psicopata para deixar de degolar inocentes, este é claramente um presente com "avó" escrito em toda a sua superfície.

O meu raciocínio foi simples: ela queixava-se que ao final do dia lhe doíam os pés, eu tinha algum dinheiro, vi uma traquitana destas à venda pelo valor do PIB de um pequeno país asiático e nem hesitei.

Uma vez mais, no momento da oferta, sentada na cama, ela não conseguiu evitar aquele piscar de olhos nervoso, revelador de confusão e/ou ódio e/ou tristeza extrema.

Nos dias seguintes, a maquineta terá trabalhado uma meia dúzia de vezes. E em todas elas fui eu que a obriguei a usá-la. Ao que parece a sensação não era assim tão espectacular. Enfim...


Agora, estou com o mesmo problema. E sou obrigado a recordar todas estas falhas para ao menos tentar não fazer outra gracinha. Coisa que já começa a ser extremamente preocupante.
É que assim não há amor que resista.

O verdadeiro, dizem, resiste a tudo.
À pior das doenças, à mais terrível das catástrofes... a tudo.

Mas a um guarda-chuva com asas de abelha ou a um coelho com sarna...
Sinto que estou na corda bamba.

Saturday, June 26, 2010

Olha outro!

Poucos dias depois de ter anunciado a colaboração do Fil neste blogue, prometendo fair play desde o início e comprometendo-me a postar todo e qualquer ataque ilustrado da sua autoria à minha pessoa, rebentou a bomba na comunicação social. Alegadamente, eu teria sido filmado não só a comprar uma vuvuzela (também conhecida como "a corneta dos infernos" ou "a pior ideia de sempre desde a Super Bock sem álcool com sabor a pêssego") como a aprender a tocá-la perante o olhar desconfortável do já célebre Mabuti.

Após o visionamento das imagens, o meu camarada Pedro Carvalho não resistiu e a sua obra obrigou-me a alargar o leque de ilustradores também a ele. Qualquer pessoa que me representa a tocar vuvuzela merece sofrer pesadas torturas... mas para aplicá-las teria de me deslocar muitos quilómetros até Barcelos, onde ele vive, e como é sabido eu sou uma pessoa doente. Como tal, se ele assim o quiser, esta "selva" é dele também.

Tuesday, June 22, 2010

Tinha de vir a BD...

A partir de hoje, "A Hora do Saguim" vai passar a ter também ilustrações e banda desenhada da autoria de Fil.

Para quem não o conhece, Fil não é apenas o meu parceiro no projecto Zona, é muito mais do que isso. Para além de ser a sigla da Feira Internacional de Lisboa, é também um indivíduo que efectua pinturas em tela, um jogador satisfaz menos de PES e, assim como grande parte da população portuguesa, diverte-se a gozar comigo nos tempos livres.

Ocorreu-me pregar-lhe um tabefe e acabar com a brincadeira pela raiz.
Mas ousar tal acto com um sujeito que tem o dobro do meu tamanho pareceu-me pouco sensato.

Como tal, decidi partilhar este espaço com ele, promover o achincalhe à minha pessoa e ainda sorrir e bater palmas por cima. Sou ou não sou estúpido, hem?!

O primeiro dos seus trabalhos apresenta o Homem Bússola ao Contrário, personagem previamente apresentada neste blogue, numa incursão à casa de banho da sua própria casa.

Fica a nota de que aquilo que vão ver é um enorme exagero da realidade.

Eu moro num T2. Só precisaria de usar um GPS de T3 para cima...

Enjoy!

Sunday, May 23, 2010

A propósito...

Não é que haja muita gente a esforçar-se para me agradar.
Na realidade, o número de pessoas não chega a ultrapassar uma dezena.
É até um pouco menos do que isso.
Julgo que ronda mesmo o zero.

Isto, embora eu não possa confirmar este valor.

Afinal posso: é zero é.

De qualquer maneira, e apesar de não jogar, ninguém me diz que amanhã não possa ganhar o euromilhões e consequentemente ter logo inúmeros borra botas a lamberem-me vigorosamente uma das nádegas numa busca sôfrega por migalhas. Eu sei porque era isto que eu faria se alguém meu conhecido ganhasse o euromilhões.

Como tal, tendo em vista essa possibilidade, decidi aqui deixar de forma muito sumária uma lista das coisas que eu mais detesto e que deverão ser evitadas caso eu fique poderoso da noite para o dia. Actualmente isso só acontece após o banho, quando penduro uma toalha ao pescoço e corro nú pela casa com o braço em riste, como se estivesse a voar, mas antecipo que em breve o meu "poder" irá adquirir contornos reais e, digamos, menos assustadores. Seria bom voltar a receber pessoas cá em casa outra vez.

Bom, então cá vai...

LISTA DAS COISAS QUE EU MAIZÓDEIO NA VIDA E QUE, CASO EU GANHE O EUROMILHÕES OU APRENDA REALMENTE A VOAR COM UMA TOALHA DE BANHO PENDURADA AO PESCOÇO, DEVEM SER EVITADAS TENDO EM VISTA O MEU PLENO BEM-ESTAR

- Pessoas a fazer segundas vozes quando ouvem músicas na rádio
Se vocês cantassem bem acham que o vosso momento de glória seria esse?! Pensem um bocado e fechem a goela! Que cambada...

- Alguém que retira um pedaço da minha sobremesa após ter rejeitado pedir uma para si próprio(a)
Num mundo ideal, eu teria o direito de enterrar a colher no globo ocular do abusador... Mas enfim, é esta pouca vergonha.

- Empregados de mesa engraçadinhos e que "gostam de conversar"
Normalmente, o meu sorriso amarelo diz tudo. Mas eles não reparam porque eu estar ali ou estar uma cabaça gigante, para eles é igual. Querem é plateia!

- Malta que fala comigo a olhar fixamente para a minha testa
Eh pá, das duas uma: ou colocam óculos de sol ou arranjam uma personalidade! Ou então tenho de começar a escrever coisas na testa, não vá esbarrar com uma destas criaturas. Qualquer indicação como "OS OLHOS 'TÃO MAIS ABAIXO, Ó CRETINO!!!"

- Todo e qualquer GPS
Por mais avançado ou engenhoso que seja, para mim há-de ser sempre um monte de porcas e pecinhas putrefacto e traidor! E mais não digo.

- Aqueles que se colocam entre mim e o sushi
Os que haviam foram desaparecendo e ainda hoje há quem relacione o sumiço ao cheiro fortíssimo que emana do meu guarda-fatos... Se não há provas, o melhor é esquecerem o assunto.

- Malta que come caracóis
Aliás, eu ofereço a cura para este comportamento bizarro. É um tratamento que não respeita a convenção dos Direitos Humanos mas garanto que é eficaz!

- Questões financeiras, IRS, IVA e coisas assim
Às vezes penso que mais vale arranjar alguém para gerir os meu 38€ mensais e passar a descansar mais a cabeça.

- Pessoas que não sabem dançar e que insistem em bambolear-se ridiculamente
Para mim, a dança é um assunto muito sensível. Basicamente, acho que não devia existir. E então quando o "bailarino" não faz a mínima ideia do que está a fazer e ainda assim insiste em fazê-lo, temos mesmo o caldo entornado.

- Gente que barafusta para o ar, a ver se eu ouço
Acontece muita vez. Em autocarros então é um fartote. Pelo menos era quando eu andava na cruel besta mecânica, há alguns anos atrás. Mais uma razão para eu odiar os bichos.

- Coisas que desaparecem sem eu saber como
A ideia que dá é que Deus, por exemplo, precisa de um xizato e como não tem nenhum lá em cima decide levar o meu emprestado. Só que, como é um tipo atarefado e já tem alguma idade, depois esquece-se e eu é que fico a arder. Às vezes, a explicação mais lógica é mesmo esta.

- Um indivíduo que ache que é "O MAIOR"
Isto porque o maior, como é sabido, sou eu.

...

Isto para fazer uma pequena síntese.
Claro que podia ficar aqui uma noite inteira a debitar informação mas penso que será mais proveitoso se a for aqui colocando aos bochechos. Só espero é que estejam a apontar,não vá o diabo tecê-las e na altura não haver acesso à net. Depois não digam que eu não avisei.

Porque é que eu não fiz antes uma lista das coisas que gosto?
Primeiro porque não sou um Ursinho Carinhoso, já fui num emprego anterior, e hoje não perco tempo com parvoíces. Depois porque não me apeteceu.

Até porque os Ursinhos Carinhosos não ganham o euromilhões.
Se ganhassem em vez de lhes saírem corações da pança saía-lhes prostitutas de luxo do quarto.

É essa a prova dos nove.