Ok, não me orgulho da última hora e meia da minha vida.
Sei que isto pode muito bem vir a ser a ponta de um icebergue e que agora vocês estão à espera que eu me arrependa também do resto... Mas para já tenho de desiludir-vos e cingir-me à tal última hora e meia. Não sejam gulosos.
Estive a jogar PES2010, vulgo Pro Evolution Soccer, um simulador de futebol que corre na minha Playstation 3. Sabem o que é?
Para vocês é capaz de ser apenas um jogo mas para mim foi um sonho de infância tornado realidade. Lembro-me bem dos serões que passei a fazer equipas, a inventar tácticas, a sonhar que comprava jogadores e geria o meu plantel... isto enquanto o Baião saltava aos berros no Big Show Sic.
Eram os loucos anos 90 e eu era ainda mais louco.
Ninguém por muito puto, betinho ou gordo que fosse aceitava passar assim as últimas horas de cada dia.
Ninguém excepto eu.
Bom, na altura poucos eram os jogos que me ofereciam aquilo que eu desejava.
Aquele controlo absoluto. Aquele nível de detalhe nos gráficos e na jogabilidade. Aquela confusão esquizofrénica entre o que é real e o que não existe.
Foi preciso esperar muitos anos até que chegasse um que já se aproximava.
Ao qual se seguiu outro.
E outro.
E outro.
Até aquele que jogo hoje.
Parece uma bonita história com um final feliz, não parece?
MAS NÃO É!
...
Sei que devia jogar um pouco melhor atendendo ao tempo que dedico a esta m****.
Sei que o meu Benfica já devia ter sido campeão há pelo menos 3 épocas.
Sei que esta incompetência toda só pode ser fruto da minha incrível estupidez e/ou imbecilidade, que não me permite evoluir a cada novo jogo disto que compro!!!
A última hora e meia da minha vida foi passada a insultar violentamente bonecos na televisão, a esmurrar em desespero o comando e a minha própria perna, a lançar olhares de raiva para o tecto, maldizendo a minha existência.
Eu juro que sinto ódio por aquela gente pixelizada! E que se me dessem uma Uzi de pixéis e me pusessem dentro do ecrã eu despachava aquela malta mais depressa do que lhes leva a dizer "Konami".
Porra, é demais!
Eu TODAS AS NOITES me dirijo à sala com a intenção de fazer uma ou duas partidas para "relaxar". E TODAS AS NOITES me vou deitar com o mais profundo negrume no coração.
Às vezes até me apetece bater na minha mulher, já que não posso bater no c***** do árbitro virtual. Aliás, já estive para lhe alçar o remo quando ela me perguntou "Então, ganhaste?"
Insulto...
Olho esquerdo a tremelicar...
ÓDIO!
A única coisa que me impediu de a agredir nesse dia foi o facto de eu saber que ela se iria virar a mim depois.
Capaz de me aleijar.
E eu nem sei se ela tem as vacinas todas...
Bom, mas não nos dispersemos do assunto principal. Isto é triste.
Há dias em que fico cheio de dores na mão, tal a força que faço no comando.
Há noites que nem durmo como deve ser, revoltado com o facto de não conseguir atinar com aquilo.
Há semanas inteiras em que me apetece viajar para a Coreia, vestir um colete de bombas e esfregar as minhas entranhas na porra de indústria de videojogos que os gajos têm.
Já vi malta entrar em depressão por causa de gajas. Por causa de dinheiro. Por causa de stress. Por causa de gajas que lhes mamam o dinheiro todo e lhes causam stress.
Mas por causa de um jogo, nunca vi...
Bom, vou pôr um comprimido debaixo da língua. Mas antes vou beber três copos de drambuie que é para adormecer os nervos.
Depois, como de costume, resta-me adormecer de bruços no corredor.
E desejar que a minha mulher, ao pisar-me a cabeça, não me pergunte:
"Então, ganhaste?"
Sunday, April 4, 2010
Sunday, February 14, 2010
O Homem-bússola ao contrário II
Mesmo quando se pensava que este vosso amigo não conseguia repetir a proeza... não só repete como consegue fazer pior. Eu não páro de me surpreender a mim próprio. No mau sentido é claro. Enquanto o prejudicado for eu e só eu, não vejo grande mal nisso. Agora quando esta maldição horrível atinge pessoas que me são queridas e que são, até ver, completamente inocentes, então é coisa para me provocar uma assadura na virilha.
Estão preparados?
Não?
Eh pá não se armem em esquisitos...
Dia: 14 de Fevereiro de 2010 (o muito comercial Dia dos Namorados)
Missão: Ir de minha casa, em Benfica, até ao restaurante Barra do Quanza em Belém.
Pontos a favor: Reserva de uma mesa para duas pessoas, em meu nome, para as 21h; a morada num papel; um taxista profissional e certamente escaldado em encontrar toda e qualquer localização.
Pontos contra: Eu.
Desenrolar da acção: É dia 13 de Fevereiro, amanhã é Dia dos Namorados. O que é que eu lhe vou dar? Livros, não tem tempo para ler. Filmes, temos centenas cá em casa que nunca vimos. CD's, saca da net. Roupa, é melhor não me meter nisso. O que é que eu faço? Já sei! Jantarzinho romântico e mais não sei o quê... tudo a debitar na conta do "je". Melhor reservar a mesa já hoje. Espero que consiga. Lifecooler... procurar um que esteja aberto ao Domingo. Uma cozinha que não experimentamos todos os dias. Este é bom, africano, mas não está aberto aos Domingos. Telefono na mesma? Vamos então a isso. Estão abertos amanhã? Sim? Maravilha. Mesa para dois às 21h. Obrigado, meu bom senhor. Aponto a morada num papel. Tudo certo. Certinho. Já é dia 14. São 20h30. Ela já me deu as prendas. Eram boas. A minha vai já a seguir. Levo o carro e o GPS? Este menino é demasiado esperto para cair na mesma esparrela duas vezes. Não senhor. Para além disso, o menino quer beber vinhaça como se não houvesse amanhã. E ainda para mais está a chover a potes. Vamos antes de táxi, ok? Ela diz que quer pagar o táxi. Tão querida... Muito bem. Que pague. Entramos na viatura. Digo a morada. O gajo torce o nariz. Eu caguei. Não sou taxista. Eles é que sabem as moradas todas. São treinados para isso. Diz que a morada que eu lhe estou a dizer é vaga. Ele é que é vago. E para além disso tem um corte de cabelo que meu Deus. Mas isso é lá com ele. Digo-lhe a morada. Ele mostra que não está a ver mas dirige-se para Belém. Já não é mau. Tenho o nome do edifício onde aquilo é, que copiei do Lifecooler. Ele volta a dizer que a morada é vaga. Apetece-me dizer-lhe que vaga é a mãe dele. Mas fico na minha. Passamos por Belém. Ele diz que o edifício é mais à frente mas mais à frente já é Pedrouços. Eu não sei, não sou taxista. Chega a Pedrouços e diz que o edifício ficava lá atrás. Eu volto a não saber, mas acho que ele também não sabe. Faz inversão de marcha. Vai para o sítio que indicou. Parece abandonado, duvido que seja isto. Ele diz que é mais à frente, onde é o Hotel Altis. Eu duvido que o edifício seja o Hotel Altis porque senão não seria o tal restaurante, seria... o Hotel Altis. Ainda assim agradeço. Mortinho para sair do táxi e terminar a agonia. Estou farto do homem. A minha mulher paga o táxi. Estamos ambos junto do Hotel Altis, no meio da trovoada. Damos a volta inteira ao perímetro, a apanhar chuva em recantos do corpo onde o sol não brilha. Nada. Vamos pedir indicações ao recepcionista do Hotel Altis. O homem assusta-se. Diz que é na área ao lado, a mesma que me pareceu abandonada há pouco. Eu agradeço e vou novamente para o meio da tempestade. Estou farto do homem. Eu e a minha mulher enfrentamos o temporal, já encharcados. Damos a volta ao perímetro. Nada. Lágrima, uma única. Tristeza. Já passa das 21h. Ligamos para o 118, que eu esqueci-me do número do restaurante. Dão-nos o número. Ligo, a apanhar chuva na tromba. Ninguém atende. Típico. Ninguém a quem perguntar, ninguém a quem recorrer, os meus "cojones" em jogo para salvar o Dia dos Namorados... e o resultado são duas alminhas ensopadas e desesperadas no meio de uma tempestade. Um leve soluçar começa a querer apoderar-se de mim. Fome e frio. Decido ultrapassar a estrada pela via aérea. Quase somos projectados pelo vento para a frente de um camião. Eu quase desejo ter sido colhido pelo veículo, tal a vergonha. Ambos enregelados. Volto a ligar. Ninguém atende. 21h30. Começamos a andar em direcção ao CCB. Praguejo contra tudo e todos. Principal visado: Deus. O tal que, quando não ouve as orações dos crentes se entretém a brincar com a minha vida como a sua comédia pessoal de Buster Keaton. Ele acha graça. Eu não. Chegamos ao CCB. A minha mulher funga incessantemente. O fungar dela começa a irritar-me. JÁ SEI QUE ESTÁS A FICAR DOENTE E QUE A CULPA É MINHA!!! Mas enfim, a besta sou eu. Tenho é de me irritar comigo próprio. Desisto de ligar para o restaurante. Definitivamente não sei o que se passou. Não consigo deixar de imaginar o gajo a desligar o telefone depois da minha "reserva" e a escangalhar-se a rir, no meio dos cozinheiros e empregados. Continuo a andar mas não sei para onde. O meu par evita fazer-me perguntas para não me enervar mais e eu finjo ter um plano. Mas não tenho. Não sei o que estou a fazer. Estou a andar sem destino, provavelmente a condenar-nos à morte por pneumonia. Estamos ensopados e gelados até aos ossos. Ela fala em irmos para casa. Eu concordo, cabisbaixo. Apanhamos um táxi. Ela paga.
Chegamos a casa. Banho a ferver. Abro uma garrafa de vinho e mandamos vir duas pizzas. Depois de algumas goladas de tinto, até parece que o plano sempre foi este...
Mas não foi.
Não foi.
É preciso dizer mais alguma coisa? Só que se eu fosse esta mulher já me tinha pontapeado violentamente nas nádegas. Mas também, se continua comigo não merece muito mais do que isto. Quanto ao Barra do Quanza, acredito ser muito bom restaurante, sim senhor, mas a moradazinha que disponibilizam é um pouco dada ao erro. Pelo menos a avaliar pelas palavras do c****o do taxista.
De qualquer forma, esta minha incrível tendência para me perder e, essencialmente, para o "disparate" anda a ganhar contornos preocupantes. É só acabar de tomar o guronsan, que a pizza não me assentou bem, e vou tomar providências. Providências essas que, se me conheço bem, não auguram nada de positivo.
Estão preparados?
Não?
Eh pá não se armem em esquisitos...
Dia: 14 de Fevereiro de 2010 (o muito comercial Dia dos Namorados)
Missão: Ir de minha casa, em Benfica, até ao restaurante Barra do Quanza em Belém.
Pontos a favor: Reserva de uma mesa para duas pessoas, em meu nome, para as 21h; a morada num papel; um taxista profissional e certamente escaldado em encontrar toda e qualquer localização.
Pontos contra: Eu.
Desenrolar da acção: É dia 13 de Fevereiro, amanhã é Dia dos Namorados. O que é que eu lhe vou dar? Livros, não tem tempo para ler. Filmes, temos centenas cá em casa que nunca vimos. CD's, saca da net. Roupa, é melhor não me meter nisso. O que é que eu faço? Já sei! Jantarzinho romântico e mais não sei o quê... tudo a debitar na conta do "je". Melhor reservar a mesa já hoje. Espero que consiga. Lifecooler... procurar um que esteja aberto ao Domingo. Uma cozinha que não experimentamos todos os dias. Este é bom, africano, mas não está aberto aos Domingos. Telefono na mesma? Vamos então a isso. Estão abertos amanhã? Sim? Maravilha. Mesa para dois às 21h. Obrigado, meu bom senhor. Aponto a morada num papel. Tudo certo. Certinho. Já é dia 14. São 20h30. Ela já me deu as prendas. Eram boas. A minha vai já a seguir. Levo o carro e o GPS? Este menino é demasiado esperto para cair na mesma esparrela duas vezes. Não senhor. Para além disso, o menino quer beber vinhaça como se não houvesse amanhã. E ainda para mais está a chover a potes. Vamos antes de táxi, ok? Ela diz que quer pagar o táxi. Tão querida... Muito bem. Que pague. Entramos na viatura. Digo a morada. O gajo torce o nariz. Eu caguei. Não sou taxista. Eles é que sabem as moradas todas. São treinados para isso. Diz que a morada que eu lhe estou a dizer é vaga. Ele é que é vago. E para além disso tem um corte de cabelo que meu Deus. Mas isso é lá com ele. Digo-lhe a morada. Ele mostra que não está a ver mas dirige-se para Belém. Já não é mau. Tenho o nome do edifício onde aquilo é, que copiei do Lifecooler. Ele volta a dizer que a morada é vaga. Apetece-me dizer-lhe que vaga é a mãe dele. Mas fico na minha. Passamos por Belém. Ele diz que o edifício é mais à frente mas mais à frente já é Pedrouços. Eu não sei, não sou taxista. Chega a Pedrouços e diz que o edifício ficava lá atrás. Eu volto a não saber, mas acho que ele também não sabe. Faz inversão de marcha. Vai para o sítio que indicou. Parece abandonado, duvido que seja isto. Ele diz que é mais à frente, onde é o Hotel Altis. Eu duvido que o edifício seja o Hotel Altis porque senão não seria o tal restaurante, seria... o Hotel Altis. Ainda assim agradeço. Mortinho para sair do táxi e terminar a agonia. Estou farto do homem. A minha mulher paga o táxi. Estamos ambos junto do Hotel Altis, no meio da trovoada. Damos a volta inteira ao perímetro, a apanhar chuva em recantos do corpo onde o sol não brilha. Nada. Vamos pedir indicações ao recepcionista do Hotel Altis. O homem assusta-se. Diz que é na área ao lado, a mesma que me pareceu abandonada há pouco. Eu agradeço e vou novamente para o meio da tempestade. Estou farto do homem. Eu e a minha mulher enfrentamos o temporal, já encharcados. Damos a volta ao perímetro. Nada. Lágrima, uma única. Tristeza. Já passa das 21h. Ligamos para o 118, que eu esqueci-me do número do restaurante. Dão-nos o número. Ligo, a apanhar chuva na tromba. Ninguém atende. Típico. Ninguém a quem perguntar, ninguém a quem recorrer, os meus "cojones" em jogo para salvar o Dia dos Namorados... e o resultado são duas alminhas ensopadas e desesperadas no meio de uma tempestade. Um leve soluçar começa a querer apoderar-se de mim. Fome e frio. Decido ultrapassar a estrada pela via aérea. Quase somos projectados pelo vento para a frente de um camião. Eu quase desejo ter sido colhido pelo veículo, tal a vergonha. Ambos enregelados. Volto a ligar. Ninguém atende. 21h30. Começamos a andar em direcção ao CCB. Praguejo contra tudo e todos. Principal visado: Deus. O tal que, quando não ouve as orações dos crentes se entretém a brincar com a minha vida como a sua comédia pessoal de Buster Keaton. Ele acha graça. Eu não. Chegamos ao CCB. A minha mulher funga incessantemente. O fungar dela começa a irritar-me. JÁ SEI QUE ESTÁS A FICAR DOENTE E QUE A CULPA É MINHA!!! Mas enfim, a besta sou eu. Tenho é de me irritar comigo próprio. Desisto de ligar para o restaurante. Definitivamente não sei o que se passou. Não consigo deixar de imaginar o gajo a desligar o telefone depois da minha "reserva" e a escangalhar-se a rir, no meio dos cozinheiros e empregados. Continuo a andar mas não sei para onde. O meu par evita fazer-me perguntas para não me enervar mais e eu finjo ter um plano. Mas não tenho. Não sei o que estou a fazer. Estou a andar sem destino, provavelmente a condenar-nos à morte por pneumonia. Estamos ensopados e gelados até aos ossos. Ela fala em irmos para casa. Eu concordo, cabisbaixo. Apanhamos um táxi. Ela paga.
Chegamos a casa. Banho a ferver. Abro uma garrafa de vinho e mandamos vir duas pizzas. Depois de algumas goladas de tinto, até parece que o plano sempre foi este...
Mas não foi.
Não foi.
É preciso dizer mais alguma coisa? Só que se eu fosse esta mulher já me tinha pontapeado violentamente nas nádegas. Mas também, se continua comigo não merece muito mais do que isto. Quanto ao Barra do Quanza, acredito ser muito bom restaurante, sim senhor, mas a moradazinha que disponibilizam é um pouco dada ao erro. Pelo menos a avaliar pelas palavras do c****o do taxista.
De qualquer forma, esta minha incrível tendência para me perder e, essencialmente, para o "disparate" anda a ganhar contornos preocupantes. É só acabar de tomar o guronsan, que a pizza não me assentou bem, e vou tomar providências. Providências essas que, se me conheço bem, não auguram nada de positivo.
Friday, January 29, 2010
O Homem-bússola ao contrário
Para quem não me conhece: eu sou a pessoa com o menor sentido de orientação do mundo. Continua a ser um mistério como é que dei com o caminho para sair de dentro da minha mãe. Ainda para mais sem ninguém para pedir indicações. Curiosamente, a primeira vez que tinha um percurso a percorrer e o cumpri com sucesso foi também a última. A partir daí foi o caos total...
Às vezes ouvimos indivíduos deprimentes a dizer que se sentem perdidos. A diferença entre eles e eu é só uma: é que eu estou mesmo! Na maior parte das vezes acho que nem sei bem onde estou. E quando finalmente percebo onde estou, é hora de ir para outro sítio. E então perco-me novamente neste grande Triângulo das Bermudas que é a minha vida. Exemplos? Ainda outro dia, um amigo que contava com as minhas indicações para ir de Santa Maria da Feira para o Porto, com tabuletas do tamanho de camiões a ajudar, acabou na autoestrada a caminho de Lisboa. Muita porrada levei eu. E foi merecida.
Mas depois, algo de milagroso aconteceu: APARECEU O GPS!
...
E a merda foi ainda pior.
Prova disso mesmo foi o meu fim de tarde de hoje. O qual vou relatar através de frases curtas, não só porque é mais dramático mas também porque se torna mais fácil de explicar a miríade de coisas absurdas que aconteceram.
Estão preparados?
Não?
Mas vão ler na mesma.
Dia: 29 de Janeiro de 2010
Missão: Ir de São Domingos de Rana até à casa de um amigo, algures atrás do shopping Alegro de Alfragide.
Pontos a favor: O nome da rua, o número de telemóvel do meu amigo, caso precise de alguma coisa, e um extraordinário GPS.
Pontos contra: Eu.
Desenrolar da acção: Saio do meu local de trabalho. Entro no carro. Ligo o GPS. Está à procura de sinal. Retiro o braço articulado com a ventosa para prender o aparelho ao pára-brisas. O braço articulado tem a porca muito apertada e não a consigo direccionar para mim. Tenho de prender o braço articulado ao vidro do condutor, mesmo à minha esquerda. Ok, não há problema. Já tem sinal. Começo a pôr a localidade para onde quero ir. Carnaxide. Ok. Ponho o nome da rua. O GPS procura. Aparece um resultado. Deve ser esta. Cá vamos nós. Autoestrada connosco! Tudo certo. Estou a chegar à portagem. Apercebo-me que vou ter de abrir o vidro. Não vou poder abrir sem retirar o braço articulado com a ventosa. Tento retirá-lo. Não consigo. Estou a aproximar-se. Tento retirar com mais força, conduzindo ao mesmo tempo. Não sai. Cada vez mais perto. Cada vez com mais força. Não sai. Esta merda não sai. E a portagem a poucos metros já. A conduzir ao mesmo tempo. Sou forçado a parar junto a uma cabina encerrada. Luto com o braço mecânico. Violentamente. Não sai. Mais força. Sai em estrondo! Alívio. Faço marcha atrás. Ando 3 metros para o lado. Portagem. Gota de suor na testa. Pago e ponho-me a andar. Volto a colocar o braço articulado com a ventosa no vidro, agora com menos força. Ok, vai correr tudo bem. Estou na autoestrada. É ir sempre em frente. O GPS só deve dar sinal de vida daqui a alguns minutos. Mas deu já. Está a mandar-me sair da autoestrada em Oeiras. Não faz sentido. Eu saio. O GPS foi caro. Mais vale fazer o que ele manda. Rotunda do Oeiras Parque. Manda-me virar à direita. Não faz sentido. Vou voltar para onde vim. Isto está tudo doido. Caguei no GPS. Vou voltar para a autoestrada e depois logo vejo. Aproximo-me da portagem. Tento tirar o braço articulado com a ventosa do vidro que tive o cuidado de colocar com menos pressão. Não sai. Tento com mais força. Não sai. Cada vez mais perto. E a merda do braço articulado a teimar. MALDIÇÃO!!! E eu vermelho de ódio e de esforço. Não sai. A portagem a poucos metros. A vergonha a acumular-se. Não sei o que fazer. Não tenho sítio para parar como da vez anterior. Cada vez mais força. Cada vez mais perto. Veia jugular lateja no pescoço. A ventosa nunca esteve tão agarrada. Quase na portagem. Toda a força que tenho. Não quero saber. Se partir partiu. A maldita ventosa solta-se em estrondo. Quase me despisto. Suor. Páro na portagem. Pago. Ok, segunda portagem em pouco tempo. Isto é ridículo. Volto a colocar o braço mecânico com a ventosa no vidro. Quase não faço pressão. Fica pendurado. Não fica seguro. Pendurado. Reprogramo a geringonça. É desta. Voltas e voltinhas por aqueles lados. Não sei onde estou. Estou atrasado. Isso é que eu estou. Voltas e voltinhas. E mais voltinhas. Manda-me sair da autoestrada. De repente, já sei onde estou. Rotunda do Oeiras Parque à minha frente. O GPS manda-me virar à direita e voltar ao ponto de partida. Quero morrer. Desisto. Vou voltar novamente para a autoestrada. A portagem aproxima-se. Tento tirar o braço articulado com a ventosa. Não sai. Não é possível!!! Urros de raiva. Toda a força do mundo. ESTAVA POUSADO, NEM SEQUER FIZ PRESSÃO!!! Não sai. A portagem cada vez mais perto. ÓDIO!!! Cada vez mais perto. Não sai. Quase que ando ao murro ao GPS. Não sai. A portagem aproxima-se. Tenho de decidir depressa. Abro a janela. Só uma fresta. Não consigo abrir mais. Passo o cartão multibanco pela fresta. Vergonha. A mulher olha para mim como se eu fosse atrasado mental. Eu sinto-me atrasado mental. Recebo o cartão de volta pela fresta na janela. Como um leproso. Ponho-me a andar. Odeio o GPS. Vou até à zona do Alegro pelo caminho que conheço. Ao menos nesse não me perco. Desligo o maldito aparelho. Ignoro o braço articulado. Estou rodeado de papéis de portagens. A mesma mulher viu-me passar duas vezes quase seguidas na mesma direcção. Deve estar a pôr um comprimido debaixo da língua agora. Eh eh oxalá morra. Oxalá morram todos! Estou enervado. Já lá devia estar há uma hora. Ligo ao meu amigo. Não atende. Não sei o que fazer. Chego ao Alegro. Páro o carro lá perto. Ligo ao meu amigo. Não atende. Faço as pazes com o GPS. Volto a digitar o nome da rua. Há bocado dava-me um resultado, agora a busca dá-me três ruas diferentes com o mesmo nome. Não entendo. Lágrima cai. Ligo ao meu amigo. Decididamente, não vou poder contar com ele. Só eu e o GPS. Sigo caminho em direcção uma das ruas que o aparelho identificou. A que me pareceu ser a tal. Ruas isoladas. Gueto. Medo. Inversão de marcha. Desespero. Suor. Sangue. Lágrimas. Consigo sair do Gueto. Páro o carro. Desespero. Vómitos. Pergunto a um transeunte qual o nome da rua em que estou. Só para me certificar que estou completamente f***do. Milagre. É esta a rua! E o edifício em questão está mesmo à minha frente. Lá dentro, o meu amigo à minha espera. Com o telemóvel desligado. Aleluia...
Aleluia...
Aleluia.
Agora estou em casa. Enrolado, no chão, na posição fetal. Sou o "Homem-bússola ao contrário" e isso é mais evidente do que nunca.
Agora vou dormir.
Isto se conseguir encontrar a porra do caminho!!!
Às vezes ouvimos indivíduos deprimentes a dizer que se sentem perdidos. A diferença entre eles e eu é só uma: é que eu estou mesmo! Na maior parte das vezes acho que nem sei bem onde estou. E quando finalmente percebo onde estou, é hora de ir para outro sítio. E então perco-me novamente neste grande Triângulo das Bermudas que é a minha vida. Exemplos? Ainda outro dia, um amigo que contava com as minhas indicações para ir de Santa Maria da Feira para o Porto, com tabuletas do tamanho de camiões a ajudar, acabou na autoestrada a caminho de Lisboa. Muita porrada levei eu. E foi merecida.
Mas depois, algo de milagroso aconteceu: APARECEU O GPS!
...
E a merda foi ainda pior.
Prova disso mesmo foi o meu fim de tarde de hoje. O qual vou relatar através de frases curtas, não só porque é mais dramático mas também porque se torna mais fácil de explicar a miríade de coisas absurdas que aconteceram.
Estão preparados?
Não?
Mas vão ler na mesma.
Dia: 29 de Janeiro de 2010
Missão: Ir de São Domingos de Rana até à casa de um amigo, algures atrás do shopping Alegro de Alfragide.
Pontos a favor: O nome da rua, o número de telemóvel do meu amigo, caso precise de alguma coisa, e um extraordinário GPS.
Pontos contra: Eu.
Desenrolar da acção: Saio do meu local de trabalho. Entro no carro. Ligo o GPS. Está à procura de sinal. Retiro o braço articulado com a ventosa para prender o aparelho ao pára-brisas. O braço articulado tem a porca muito apertada e não a consigo direccionar para mim. Tenho de prender o braço articulado ao vidro do condutor, mesmo à minha esquerda. Ok, não há problema. Já tem sinal. Começo a pôr a localidade para onde quero ir. Carnaxide. Ok. Ponho o nome da rua. O GPS procura. Aparece um resultado. Deve ser esta. Cá vamos nós. Autoestrada connosco! Tudo certo. Estou a chegar à portagem. Apercebo-me que vou ter de abrir o vidro. Não vou poder abrir sem retirar o braço articulado com a ventosa. Tento retirá-lo. Não consigo. Estou a aproximar-se. Tento retirar com mais força, conduzindo ao mesmo tempo. Não sai. Cada vez mais perto. Cada vez com mais força. Não sai. Esta merda não sai. E a portagem a poucos metros já. A conduzir ao mesmo tempo. Sou forçado a parar junto a uma cabina encerrada. Luto com o braço mecânico. Violentamente. Não sai. Mais força. Sai em estrondo! Alívio. Faço marcha atrás. Ando 3 metros para o lado. Portagem. Gota de suor na testa. Pago e ponho-me a andar. Volto a colocar o braço articulado com a ventosa no vidro, agora com menos força. Ok, vai correr tudo bem. Estou na autoestrada. É ir sempre em frente. O GPS só deve dar sinal de vida daqui a alguns minutos. Mas deu já. Está a mandar-me sair da autoestrada em Oeiras. Não faz sentido. Eu saio. O GPS foi caro. Mais vale fazer o que ele manda. Rotunda do Oeiras Parque. Manda-me virar à direita. Não faz sentido. Vou voltar para onde vim. Isto está tudo doido. Caguei no GPS. Vou voltar para a autoestrada e depois logo vejo. Aproximo-me da portagem. Tento tirar o braço articulado com a ventosa do vidro que tive o cuidado de colocar com menos pressão. Não sai. Tento com mais força. Não sai. Cada vez mais perto. E a merda do braço articulado a teimar. MALDIÇÃO!!! E eu vermelho de ódio e de esforço. Não sai. A portagem a poucos metros. A vergonha a acumular-se. Não sei o que fazer. Não tenho sítio para parar como da vez anterior. Cada vez mais força. Cada vez mais perto. Veia jugular lateja no pescoço. A ventosa nunca esteve tão agarrada. Quase na portagem. Toda a força que tenho. Não quero saber. Se partir partiu. A maldita ventosa solta-se em estrondo. Quase me despisto. Suor. Páro na portagem. Pago. Ok, segunda portagem em pouco tempo. Isto é ridículo. Volto a colocar o braço mecânico com a ventosa no vidro. Quase não faço pressão. Fica pendurado. Não fica seguro. Pendurado. Reprogramo a geringonça. É desta. Voltas e voltinhas por aqueles lados. Não sei onde estou. Estou atrasado. Isso é que eu estou. Voltas e voltinhas. E mais voltinhas. Manda-me sair da autoestrada. De repente, já sei onde estou. Rotunda do Oeiras Parque à minha frente. O GPS manda-me virar à direita e voltar ao ponto de partida. Quero morrer. Desisto. Vou voltar novamente para a autoestrada. A portagem aproxima-se. Tento tirar o braço articulado com a ventosa. Não sai. Não é possível!!! Urros de raiva. Toda a força do mundo. ESTAVA POUSADO, NEM SEQUER FIZ PRESSÃO!!! Não sai. A portagem cada vez mais perto. ÓDIO!!! Cada vez mais perto. Não sai. Quase que ando ao murro ao GPS. Não sai. A portagem aproxima-se. Tenho de decidir depressa. Abro a janela. Só uma fresta. Não consigo abrir mais. Passo o cartão multibanco pela fresta. Vergonha. A mulher olha para mim como se eu fosse atrasado mental. Eu sinto-me atrasado mental. Recebo o cartão de volta pela fresta na janela. Como um leproso. Ponho-me a andar. Odeio o GPS. Vou até à zona do Alegro pelo caminho que conheço. Ao menos nesse não me perco. Desligo o maldito aparelho. Ignoro o braço articulado. Estou rodeado de papéis de portagens. A mesma mulher viu-me passar duas vezes quase seguidas na mesma direcção. Deve estar a pôr um comprimido debaixo da língua agora. Eh eh oxalá morra. Oxalá morram todos! Estou enervado. Já lá devia estar há uma hora. Ligo ao meu amigo. Não atende. Não sei o que fazer. Chego ao Alegro. Páro o carro lá perto. Ligo ao meu amigo. Não atende. Faço as pazes com o GPS. Volto a digitar o nome da rua. Há bocado dava-me um resultado, agora a busca dá-me três ruas diferentes com o mesmo nome. Não entendo. Lágrima cai. Ligo ao meu amigo. Decididamente, não vou poder contar com ele. Só eu e o GPS. Sigo caminho em direcção uma das ruas que o aparelho identificou. A que me pareceu ser a tal. Ruas isoladas. Gueto. Medo. Inversão de marcha. Desespero. Suor. Sangue. Lágrimas. Consigo sair do Gueto. Páro o carro. Desespero. Vómitos. Pergunto a um transeunte qual o nome da rua em que estou. Só para me certificar que estou completamente f***do. Milagre. É esta a rua! E o edifício em questão está mesmo à minha frente. Lá dentro, o meu amigo à minha espera. Com o telemóvel desligado. Aleluia...
Aleluia...
Aleluia.
Agora estou em casa. Enrolado, no chão, na posição fetal. Sou o "Homem-bússola ao contrário" e isso é mais evidente do que nunca.
Agora vou dormir.
Isto se conseguir encontrar a porra do caminho!!!
Monday, October 19, 2009
Este prédio não é para violadores
Há umas semanas atrás, na sequência de um período prolongado de falta de luz no patamar do prédio onde moro, foi colocado um cartaz A3, escrito a caneta de feltro, com enormes letras capitais desenhadas a azul bébé. Rezava (e reza porque apesar da luz ter voltado ele ainda lá está) o seguinte:
"É FAVOR FECHAR A PORTA:
PROVAVELMENTE OS MORADORES DESTE PRÉDIO NÃO SABEM DA EXISTÊNCIA DE UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS. ESSE TAL VIOLADOR NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS. PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS HÁ QUE COMEÇAR A RESPEITAR UM BOCADO O PEDIDO DOS OUTROS.
É FAVOR FECHAR A PORTA!"
Leram?
Oram bem, meus amigos, eu ando inquieto. Não sei quanto aos outros inquilinos deste prédio mas eu, e aproveitando para comentar o conteúdo do próprio cartaz, não me sinto nada seguro. A questão é a seguinte: vivo sozinho com a minha mulher e só estou com ela ao final do dia. O seu trabalho é stressante e muitas vezes arrasta-se até mais tarde do que seria desejável. É comum chegar já noite cerrada ao prédio e ter de subir as escadas sozinha até à protecção do nosso lar... Portanto, até lá eu estou sozinho e CHEIO DE MEDO DE SER VIOLADO!!!
Hoje em dia, devido à minha exigente actividade profissional referente ao desemprego, passo grande parte do dia no escritório cá de casa. Sozinho.
Ora, depois de ler este cartaz ninguém me tira que o violador anda à coca, entre o andar acima e abaixo do meu, a tentar perceber a melhor maneira de se aproveitar das delícias do meu corpo. Sinceramente, ando de tal forma obcecado com isto que só consegui arranjar uma maneira de enfrentar os meus temores: abrir uma caça ao homem cá no prédio.
Só através deste cartaz há inúmeras ilações que posso tirar para descobrir a sua identidade. Portanto, vamos por partes:
1. "(...) UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS."
Um indivíduo destes tem sem dúvida o passe do metro e é frequentador da Linha Azul. Daí podemos retirar que tem bom gosto para transportes públicos. Sem dúvida que o metro, o comboio e o táxi estão reservados para os criminosos mais organizados, mais metódicos e sofisticados como violadores ou serial killers. Não é difícil perceber que o absurdo e fedorento autocarro está entregue aos carteiristas, burlões baratos e demais bestas. Como tal, nota mais aqui para o homem.
2. "(...) NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS."
Se é sabido que o nosso prédio tem alguma humidade e que os violadores, por norma, precisam de ambientes mais quentes e secos para medrarem, não acho que estejamos 100% safos. Porque esta característica não só revela alguma timidez como ainda uma boa dose de infantilidade. Um violador seguro de si próprio não teria receio de se mostrar às vítimas, mesmo quando fossem claras as suas intenções. Mas este não. Este não corre o risco de ouvir o grito: "Largue-me, não desejo ser violada por si que é feio como uma noite de trovões!". São feitios. Positivo é o facto de sabermos que ele sabe esperar, que fica quietinho até que surja aquilo que pretende. É uma qualidade rara no povo português e que devemos, sem sombra de dúvida, valorizar neste amante indesejado.
3."PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS (...)"
Companheiros, eu já vi as fronhas de toda a gente neste prédio. Não vi mais nem um centímetro cúbico dos seus corpos gastos e disformes, e agradeço a Deus por isso. Ora, além de mim e da minha mulher, se este indivíduo tivesse o mínimo de padrões de exigência, mais ninguém estaria em risco. Fico sem saber se é tara do violador ou se é fuga à realidade por parte dos inquilinos.
Portanto, até agora sei que é um sujeito tímido, paciente, com passe de Metro ou de Comboio e sem grandes critérios relativamente às pessoas com quem procura ter sexo à força. E sei também que há alguém neste prédio que faz cartazes, arrisco-me a dizê-lo, mega-espectaculares. Agora o que é que eu posso fazer de concreto com toda esta informação ainda não descobri.
Até lá, o melhor é não esquecer de pôr o RAID anti-violadores, em cada andar. E se não resultar chama-se uma empresa e faz-se a desvioladorização.
Pronto.
"É FAVOR FECHAR A PORTA:
PROVAVELMENTE OS MORADORES DESTE PRÉDIO NÃO SABEM DA EXISTÊNCIA DE UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS. ESSE TAL VIOLADOR NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS. PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS HÁ QUE COMEÇAR A RESPEITAR UM BOCADO O PEDIDO DOS OUTROS.
É FAVOR FECHAR A PORTA!"
Leram?
Oram bem, meus amigos, eu ando inquieto. Não sei quanto aos outros inquilinos deste prédio mas eu, e aproveitando para comentar o conteúdo do próprio cartaz, não me sinto nada seguro. A questão é a seguinte: vivo sozinho com a minha mulher e só estou com ela ao final do dia. O seu trabalho é stressante e muitas vezes arrasta-se até mais tarde do que seria desejável. É comum chegar já noite cerrada ao prédio e ter de subir as escadas sozinha até à protecção do nosso lar... Portanto, até lá eu estou sozinho e CHEIO DE MEDO DE SER VIOLADO!!!
Hoje em dia, devido à minha exigente actividade profissional referente ao desemprego, passo grande parte do dia no escritório cá de casa. Sozinho.
Ora, depois de ler este cartaz ninguém me tira que o violador anda à coca, entre o andar acima e abaixo do meu, a tentar perceber a melhor maneira de se aproveitar das delícias do meu corpo. Sinceramente, ando de tal forma obcecado com isto que só consegui arranjar uma maneira de enfrentar os meus temores: abrir uma caça ao homem cá no prédio.
Só através deste cartaz há inúmeras ilações que posso tirar para descobrir a sua identidade. Portanto, vamos por partes:
1. "(...) UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS."
Um indivíduo destes tem sem dúvida o passe do metro e é frequentador da Linha Azul. Daí podemos retirar que tem bom gosto para transportes públicos. Sem dúvida que o metro, o comboio e o táxi estão reservados para os criminosos mais organizados, mais metódicos e sofisticados como violadores ou serial killers. Não é difícil perceber que o absurdo e fedorento autocarro está entregue aos carteiristas, burlões baratos e demais bestas. Como tal, nota mais aqui para o homem.
2. "(...) NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS."
Se é sabido que o nosso prédio tem alguma humidade e que os violadores, por norma, precisam de ambientes mais quentes e secos para medrarem, não acho que estejamos 100% safos. Porque esta característica não só revela alguma timidez como ainda uma boa dose de infantilidade. Um violador seguro de si próprio não teria receio de se mostrar às vítimas, mesmo quando fossem claras as suas intenções. Mas este não. Este não corre o risco de ouvir o grito: "Largue-me, não desejo ser violada por si que é feio como uma noite de trovões!". São feitios. Positivo é o facto de sabermos que ele sabe esperar, que fica quietinho até que surja aquilo que pretende. É uma qualidade rara no povo português e que devemos, sem sombra de dúvida, valorizar neste amante indesejado.
3."PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS (...)"
Companheiros, eu já vi as fronhas de toda a gente neste prédio. Não vi mais nem um centímetro cúbico dos seus corpos gastos e disformes, e agradeço a Deus por isso. Ora, além de mim e da minha mulher, se este indivíduo tivesse o mínimo de padrões de exigência, mais ninguém estaria em risco. Fico sem saber se é tara do violador ou se é fuga à realidade por parte dos inquilinos.
Portanto, até agora sei que é um sujeito tímido, paciente, com passe de Metro ou de Comboio e sem grandes critérios relativamente às pessoas com quem procura ter sexo à força. E sei também que há alguém neste prédio que faz cartazes, arrisco-me a dizê-lo, mega-espectaculares. Agora o que é que eu posso fazer de concreto com toda esta informação ainda não descobri.
Até lá, o melhor é não esquecer de pôr o RAID anti-violadores, em cada andar. E se não resultar chama-se uma empresa e faz-se a desvioladorização.
Pronto.
Wednesday, June 3, 2009
Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis (O Regresso)
Queridíssimos e caríssimos amigos (o plural é um proforma, afinal de contas sei bem que apenas a minha mãe segue este blogue, e só o faz para se certificar que o período pós-lobotomia não começou ainda a implicar tendências suicidas. Até agora só estupidez, por isso, tudo bem.)
Não sei se estão lembrados de um post que coloquei há uns tempos aqui na selva do saguim, mais concretamente em Fevereiro de 2008, que dava pelo nome de "Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis". Ora bem, nele apresentei factos concretos de uma inequívoca verdade de que o caracolame como iguaria é realmente similar a fezes ou suor de escroto, portanto coisas ruins nas quais ninguém dotado de sanidade mental haveria de querer pousar a boca. Na altura, e hoje posso confessá-lo, raros foram aqueles que concordaram comigo. A grande maioria não só me contradisse como ainda me insultou por cima. Para mim, foi um choque.
Eu sou um tipo com o saudável hábito de respeitar todas as opiniões e saudar especialmente aquelas que são contrárias às minhas, isto porque geralmente dão azo a animadas e fervorosas discussões, sempre sem sair dos limites da normalidade. Tenho um enorme respeito por toda a gente. Como tal, ao aperceber-me que haviam dezenas de atrasados mentais que continuavam a papar caracóis como se as suas vidas dependessem disso mesmo depois de lerem o meu post, decidi deixar-me estar. Nada posso fazer contra a burrice extrema. Basta-me ter de lidar com a minha...
Portanto, o respeito pelas opiniões alheias fez-me permanecer no exílio até agora. Momento em que me recordei da derradeira razão pela qual nunca na minha vida haveria de querer ingerir um desses pedaços de ranho ambulantes. Cá vai um flashback daqueles jeitosos...
Era eu miúdo e caminhava satisfeito pelas ruas de Lisboa, provavelmente cantarolando uma música dos Queen (a minha banda de eleição na altura). Passei por um quiosque e, porque era uma espécie de coleccionador compulsivo de metro e meio, não pude deixar de olhar para as revistas e cadernetas expostas. Olhei para a capa de um dos jornais. Fiquei estático. Soltei uma gota de urina. Pisquei os olhos várias vezes. Outra gota de urina. E não consegui dormir durante pelo menos uma semana.
Perguntam-me vocês: seria a capa do "Crime"? Do "Diabo"? Do "Incrível"? Aquele tipo de capas que de tão bizarras conseguem marcar uma pessoa para toda a vida?
Nem por isso. Devia ser um "Público" ou um "Correio da Manhã", coisa mostrável a qualquer petiz, não fosse a manchete dizer algo como "Idoso violado por três homens enquanto apanhava caracóis"!!!
...
Portanto, vamos lá recapitular e digerir esta frase aos bocadinhos.
Um idoso. Para quem não sabe, é um homem que é velho.
Foi violado. Penetrado analmente, para os leigos. Por... três indivíduos.
Enquanto fazia o quê? Ah pois, apanhava caracóis.
E para quê? Infelizmente para os comer.
Claro que todos nós podemos questionar: "O que é que leva três homens adultos a desejar e a consumar o acto da violação com um homem que já viveu o grosso da vida, provavelmente até tem netos, e está alegremente a apanhar caracolada?" Alguém saber a resposta é para mim arrepiante, no entanto, apenas sei que a participação dos caracóis nesta HISTÓRIA DE TERROR não pode ser mera coincidência.
É que a mim ninguém me garante que estou seguro se decidir comer caracóis. Posso muito bem sentar-me numa esplanada, pedir uma imperial e um pires dessas bichezas, e no minuto a seguir ver uma carrinha travar em grande chiadeira diante de mim para dela sairem três indivíduos sedentos de sodomia. Por muita consideração que tenha por vocês, não contem comigo para correr um risco desses.
Esta manchete aconteceu e é apenas mais uma das razões, talvez até a principal, pela qual eu nem sequer me quero aproximar dessa "iguaria". Porque se há muitos homens que apreciam o amor físico com outros homens, duvido que haja algum que tenha desejo em ser violado por três brutamontes. Se for por três fiscais da EMEL ainda pode ser que haja, agora por três brutamontes acho pouco provável.
Eh pá, por favor, eu já não sei o que vos hei-de dizer, deixem essas criaturas peganhentas em paz! A sério, vejam o aspecto do "petisco"... há unhas dos pés com um ar mais apetitoso e nós não as comemos pois não? Então...
Mais juízo e menos apetite por coisas nojentas, ok? Até porque algo me diz que os três violadores ainda andam aí à coca.
Wednesday, April 8, 2009
O último desejo de um imortal
Descobri o segredo para a vida eterna.
E se me dessem a oportunidade de o anunciar ao mundo numa conferência de imprensa televisionada, seria este o discurso que faria...
"Minhas senhoras e meus senhores, muito boa noite.
Também bom dia e boa tarde para os habitantes de todas as outras nações que estão a assistir a este meu discurso via satélite, um pouco por todo o mundo.
Sim, é verdade. Excusam de me sufocar com perguntas.
Depois de centenas e centenas de anos em busca de uma resposta, de uma esperança, de uma força suplementar para a Humanidade, há um novo fôlego que surge no nosso horizonte. Descobri a forma de atingirmos a imortalidade, a nossa “fonte da eterna juventude”, algo que sempre esteve tão perto e que nós, cegos, não soubemos usar em nosso proveito.
Ora, não será pelo sentimento de ausência que choramos mais quando alguém conhecido perece?
Quero que reflictam nisto durante um minuto…
Bom, um minuto se calhar é muito para reflectir, depois criava-se aqui um silêncio constrangedor e para além disso tenho o tempo de antena bem contado. Vamos partir do princípio que reflectiram na ausência durante um minuto, ok?
Meus amigos, se nos faz sofrer assim tanto, então porque é que insistimos em desaparecer?
É que… Nós iremos continuar a morrer, disso não há qualquer dúvida.
Se ligaram a TV com esperança que exista uma beberagem qualquer capaz de vos manter afastados do “soninho eterno”, uma espécie de botox para a alma, então esqueçam… É que é fatal como o destino. E antes que me chamem charlatão por estar a apregoar a imortalidade sendo que não tenho solução para a morte, ouçam bem esta palavra:
TAXIDERMIA.
Escutaram?
Sabem do que se trata?
Não, não tem de se resumir a animais empalhados…
Meus amigos, podemos ser nós próprios.
Se empalharmos os nossos parentes, os nossos amigos, aqueles de quem gostamos, em vez de lhes estraçalharmos os corpos, eles nunca morrerão. Não só nos nossos corações mas também à nossa vista. Estarão perto de nós sempre que quisermos: à mesa enquanto jantamos, na cama quando vamos dormir, no duche antes de irmos para o trabalho. Sempre.
A alma, de facto, esvai-se no ar. Mas a companhia, a sensação de conforto nos nossos corações, essa nunca desaparece. O segredo para a “vida após a morte”, aquele que se julgava ocultado algures nas passagens da Bíblia, do Alcorão ou do Livro Sagrado dos Eremitas do Deserto (se é que existe), reside nas mãos sebentas e repletas de cheiro a bicho morto de um taxidermista.
Sabia de antemão que não iria conseguir da vossa parte os urros de júbilo e os cantares de louvor a mim que sei que mereço.
É uma ideia que precisa de tempo para entranhar-se em cada um de vocês.
E talvez eu possa dar uma pequena ajuda. Talvez precisem de um primeiro passo.
Não me importo de ser eu a dá-lo.
Eu sou um pouco mais velho do que a minha mulher e não temos filhos. Estive a fazer contas e a consultar alguns bruxos africanos e tudo indica que serei o primeiro a partir.
Por isso, tomei uma decisão.
É perante vós, perante ela e perante a justiça dos homens que manifesto o meu desejo de ser empalhado quando morrer. Quero que a minha esposa me conserve na nossa sala de estar, divisão da casa onde vivemos momentos de verdadeira felicidade, exactamente ao lado da nossa televisão.
Sei o que estão a pensar neste momento. Não é lá muito boa ideia.
Como estou um passo à vossa frente posso acrescentar que não desejo ser empalhado de corpo inteiro. Isso seria absurdo. Apenas o busto, para facilitar.
Apreciaria imenso também que o artista que tratasse de atafulhar o meu corpo de miolo, me construísse um meio sorriso na boca. Uma expressão que me imortalizasse não só como um sujeito razoavelmente inteligente, mas também como um bon vivant, alguém que, com uma grande dose de malandrice, aprecia um cálice de Chardonnay ao final do dia.
O sorriso seria também como que uma última oferta para a minha mulher. Algo como “estou a observar-te, estou contigo enquanto vês o teu programa favorito e ai de ti se arranjas outro para calçar as minhas pantufas”. Seria uma bonita prova de amor.
Bom, amigos de todo o mundo, pensem nisso.
Hoje mesmo, porque não convidar a bisavó para jantar? Sim, um pouco verde, é certo. Sim, sem alguns pedaços importantes da fisionomia. Mas presente.
E não é isso que importa, afinal de contas? Pois claro que é.
Um grande abraço a todos e, pela parte que me toca, sejam bem-vindos à imortalidade.
Obrigado eu!"
Tuesday, February 17, 2009
O futebol depois de Bynia
Para quem não sabe, o Benfica não só é o maior clube do mundo como também tem um papel fulcral no desenvolvimento do próprio futebol. E do desporto em geral. E consequentemente da produção de cerveja. E da continuidade do mundo tal como o conhecemos.
Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.
Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.
O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:
Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.
Mas um dia apareceu o Bynia.
Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.
E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).
Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.
Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.
O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:
Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.
Mas um dia apareceu o Bynia.
Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.
E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).
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