Há umas semanas atrás, na sequência de um período prolongado de falta de luz no patamar do prédio onde moro, foi colocado um cartaz A3, escrito a caneta de feltro, com enormes letras capitais desenhadas a azul bébé. Rezava (e reza porque apesar da luz ter voltado ele ainda lá está) o seguinte:
"É FAVOR FECHAR A PORTA:
PROVAVELMENTE OS MORADORES DESTE PRÉDIO NÃO SABEM DA EXISTÊNCIA DE UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS. ESSE TAL VIOLADOR NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS. PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS HÁ QUE COMEÇAR A RESPEITAR UM BOCADO O PEDIDO DOS OUTROS.
É FAVOR FECHAR A PORTA!"
Leram?
Oram bem, meus amigos, eu ando inquieto. Não sei quanto aos outros inquilinos deste prédio mas eu, e aproveitando para comentar o conteúdo do próprio cartaz, não me sinto nada seguro. A questão é a seguinte: vivo sozinho com a minha mulher e só estou com ela ao final do dia. O seu trabalho é stressante e muitas vezes arrasta-se até mais tarde do que seria desejável. É comum chegar já noite cerrada ao prédio e ter de subir as escadas sozinha até à protecção do nosso lar... Portanto, até lá eu estou sozinho e CHEIO DE MEDO DE SER VIOLADO!!!
Hoje em dia, devido à minha exigente actividade profissional referente ao desemprego, passo grande parte do dia no escritório cá de casa. Sozinho.
Ora, depois de ler este cartaz ninguém me tira que o violador anda à coca, entre o andar acima e abaixo do meu, a tentar perceber a melhor maneira de se aproveitar das delícias do meu corpo. Sinceramente, ando de tal forma obcecado com isto que só consegui arranjar uma maneira de enfrentar os meus temores: abrir uma caça ao homem cá no prédio.
Só através deste cartaz há inúmeras ilações que posso tirar para descobrir a sua identidade. Portanto, vamos por partes:
1. "(...) UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS."
Um indivíduo destes tem sem dúvida o passe do metro e é frequentador da Linha Azul. Daí podemos retirar que tem bom gosto para transportes públicos. Sem dúvida que o metro, o comboio e o táxi estão reservados para os criminosos mais organizados, mais metódicos e sofisticados como violadores ou serial killers. Não é difícil perceber que o absurdo e fedorento autocarro está entregue aos carteiristas, burlões baratos e demais bestas. Como tal, nota mais aqui para o homem.
2. "(...) NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS."
Se é sabido que o nosso prédio tem alguma humidade e que os violadores, por norma, precisam de ambientes mais quentes e secos para medrarem, não acho que estejamos 100% safos. Porque esta característica não só revela alguma timidez como ainda uma boa dose de infantilidade. Um violador seguro de si próprio não teria receio de se mostrar às vítimas, mesmo quando fossem claras as suas intenções. Mas este não. Este não corre o risco de ouvir o grito: "Largue-me, não desejo ser violada por si que é feio como uma noite de trovões!". São feitios. Positivo é o facto de sabermos que ele sabe esperar, que fica quietinho até que surja aquilo que pretende. É uma qualidade rara no povo português e que devemos, sem sombra de dúvida, valorizar neste amante indesejado.
3."PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS (...)"
Companheiros, eu já vi as fronhas de toda a gente neste prédio. Não vi mais nem um centímetro cúbico dos seus corpos gastos e disformes, e agradeço a Deus por isso. Ora, além de mim e da minha mulher, se este indivíduo tivesse o mínimo de padrões de exigência, mais ninguém estaria em risco. Fico sem saber se é tara do violador ou se é fuga à realidade por parte dos inquilinos.
Portanto, até agora sei que é um sujeito tímido, paciente, com passe de Metro ou de Comboio e sem grandes critérios relativamente às pessoas com quem procura ter sexo à força. E sei também que há alguém neste prédio que faz cartazes, arrisco-me a dizê-lo, mega-espectaculares. Agora o que é que eu posso fazer de concreto com toda esta informação ainda não descobri.
Até lá, o melhor é não esquecer de pôr o RAID anti-violadores, em cada andar. E se não resultar chama-se uma empresa e faz-se a desvioladorização.
Pronto.
Monday, October 19, 2009
Wednesday, June 3, 2009
Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis (O Regresso)
Queridíssimos e caríssimos amigos (o plural é um proforma, afinal de contas sei bem que apenas a minha mãe segue este blogue, e só o faz para se certificar que o período pós-lobotomia não começou ainda a implicar tendências suicidas. Até agora só estupidez, por isso, tudo bem.)
Não sei se estão lembrados de um post que coloquei há uns tempos aqui na selva do saguim, mais concretamente em Fevereiro de 2008, que dava pelo nome de "Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis". Ora bem, nele apresentei factos concretos de uma inequívoca verdade de que o caracolame como iguaria é realmente similar a fezes ou suor de escroto, portanto coisas ruins nas quais ninguém dotado de sanidade mental haveria de querer pousar a boca. Na altura, e hoje posso confessá-lo, raros foram aqueles que concordaram comigo. A grande maioria não só me contradisse como ainda me insultou por cima. Para mim, foi um choque.
Eu sou um tipo com o saudável hábito de respeitar todas as opiniões e saudar especialmente aquelas que são contrárias às minhas, isto porque geralmente dão azo a animadas e fervorosas discussões, sempre sem sair dos limites da normalidade. Tenho um enorme respeito por toda a gente. Como tal, ao aperceber-me que haviam dezenas de atrasados mentais que continuavam a papar caracóis como se as suas vidas dependessem disso mesmo depois de lerem o meu post, decidi deixar-me estar. Nada posso fazer contra a burrice extrema. Basta-me ter de lidar com a minha...
Portanto, o respeito pelas opiniões alheias fez-me permanecer no exílio até agora. Momento em que me recordei da derradeira razão pela qual nunca na minha vida haveria de querer ingerir um desses pedaços de ranho ambulantes. Cá vai um flashback daqueles jeitosos...
Era eu miúdo e caminhava satisfeito pelas ruas de Lisboa, provavelmente cantarolando uma música dos Queen (a minha banda de eleição na altura). Passei por um quiosque e, porque era uma espécie de coleccionador compulsivo de metro e meio, não pude deixar de olhar para as revistas e cadernetas expostas. Olhei para a capa de um dos jornais. Fiquei estático. Soltei uma gota de urina. Pisquei os olhos várias vezes. Outra gota de urina. E não consegui dormir durante pelo menos uma semana.
Perguntam-me vocês: seria a capa do "Crime"? Do "Diabo"? Do "Incrível"? Aquele tipo de capas que de tão bizarras conseguem marcar uma pessoa para toda a vida?
Nem por isso. Devia ser um "Público" ou um "Correio da Manhã", coisa mostrável a qualquer petiz, não fosse a manchete dizer algo como "Idoso violado por três homens enquanto apanhava caracóis"!!!
...
Portanto, vamos lá recapitular e digerir esta frase aos bocadinhos.
Um idoso. Para quem não sabe, é um homem que é velho.
Foi violado. Penetrado analmente, para os leigos. Por... três indivíduos.
Enquanto fazia o quê? Ah pois, apanhava caracóis.
E para quê? Infelizmente para os comer.
Claro que todos nós podemos questionar: "O que é que leva três homens adultos a desejar e a consumar o acto da violação com um homem que já viveu o grosso da vida, provavelmente até tem netos, e está alegremente a apanhar caracolada?" Alguém saber a resposta é para mim arrepiante, no entanto, apenas sei que a participação dos caracóis nesta HISTÓRIA DE TERROR não pode ser mera coincidência.
É que a mim ninguém me garante que estou seguro se decidir comer caracóis. Posso muito bem sentar-me numa esplanada, pedir uma imperial e um pires dessas bichezas, e no minuto a seguir ver uma carrinha travar em grande chiadeira diante de mim para dela sairem três indivíduos sedentos de sodomia. Por muita consideração que tenha por vocês, não contem comigo para correr um risco desses.
Esta manchete aconteceu e é apenas mais uma das razões, talvez até a principal, pela qual eu nem sequer me quero aproximar dessa "iguaria". Porque se há muitos homens que apreciam o amor físico com outros homens, duvido que haja algum que tenha desejo em ser violado por três brutamontes. Se for por três fiscais da EMEL ainda pode ser que haja, agora por três brutamontes acho pouco provável.
Eh pá, por favor, eu já não sei o que vos hei-de dizer, deixem essas criaturas peganhentas em paz! A sério, vejam o aspecto do "petisco"... há unhas dos pés com um ar mais apetitoso e nós não as comemos pois não? Então...
Mais juízo e menos apetite por coisas nojentas, ok? Até porque algo me diz que os três violadores ainda andam aí à coca.
Wednesday, April 8, 2009
O último desejo de um imortal
Descobri o segredo para a vida eterna.
E se me dessem a oportunidade de o anunciar ao mundo numa conferência de imprensa televisionada, seria este o discurso que faria...
"Minhas senhoras e meus senhores, muito boa noite.
Também bom dia e boa tarde para os habitantes de todas as outras nações que estão a assistir a este meu discurso via satélite, um pouco por todo o mundo.
Sim, é verdade. Excusam de me sufocar com perguntas.
Depois de centenas e centenas de anos em busca de uma resposta, de uma esperança, de uma força suplementar para a Humanidade, há um novo fôlego que surge no nosso horizonte. Descobri a forma de atingirmos a imortalidade, a nossa “fonte da eterna juventude”, algo que sempre esteve tão perto e que nós, cegos, não soubemos usar em nosso proveito.
Ora, não será pelo sentimento de ausência que choramos mais quando alguém conhecido perece?
Quero que reflictam nisto durante um minuto…
Bom, um minuto se calhar é muito para reflectir, depois criava-se aqui um silêncio constrangedor e para além disso tenho o tempo de antena bem contado. Vamos partir do princípio que reflectiram na ausência durante um minuto, ok?
Meus amigos, se nos faz sofrer assim tanto, então porque é que insistimos em desaparecer?
É que… Nós iremos continuar a morrer, disso não há qualquer dúvida.
Se ligaram a TV com esperança que exista uma beberagem qualquer capaz de vos manter afastados do “soninho eterno”, uma espécie de botox para a alma, então esqueçam… É que é fatal como o destino. E antes que me chamem charlatão por estar a apregoar a imortalidade sendo que não tenho solução para a morte, ouçam bem esta palavra:
TAXIDERMIA.
Escutaram?
Sabem do que se trata?
Não, não tem de se resumir a animais empalhados…
Meus amigos, podemos ser nós próprios.
Se empalharmos os nossos parentes, os nossos amigos, aqueles de quem gostamos, em vez de lhes estraçalharmos os corpos, eles nunca morrerão. Não só nos nossos corações mas também à nossa vista. Estarão perto de nós sempre que quisermos: à mesa enquanto jantamos, na cama quando vamos dormir, no duche antes de irmos para o trabalho. Sempre.
A alma, de facto, esvai-se no ar. Mas a companhia, a sensação de conforto nos nossos corações, essa nunca desaparece. O segredo para a “vida após a morte”, aquele que se julgava ocultado algures nas passagens da Bíblia, do Alcorão ou do Livro Sagrado dos Eremitas do Deserto (se é que existe), reside nas mãos sebentas e repletas de cheiro a bicho morto de um taxidermista.
Sabia de antemão que não iria conseguir da vossa parte os urros de júbilo e os cantares de louvor a mim que sei que mereço.
É uma ideia que precisa de tempo para entranhar-se em cada um de vocês.
E talvez eu possa dar uma pequena ajuda. Talvez precisem de um primeiro passo.
Não me importo de ser eu a dá-lo.
Eu sou um pouco mais velho do que a minha mulher e não temos filhos. Estive a fazer contas e a consultar alguns bruxos africanos e tudo indica que serei o primeiro a partir.
Por isso, tomei uma decisão.
É perante vós, perante ela e perante a justiça dos homens que manifesto o meu desejo de ser empalhado quando morrer. Quero que a minha esposa me conserve na nossa sala de estar, divisão da casa onde vivemos momentos de verdadeira felicidade, exactamente ao lado da nossa televisão.
Sei o que estão a pensar neste momento. Não é lá muito boa ideia.
Como estou um passo à vossa frente posso acrescentar que não desejo ser empalhado de corpo inteiro. Isso seria absurdo. Apenas o busto, para facilitar.
Apreciaria imenso também que o artista que tratasse de atafulhar o meu corpo de miolo, me construísse um meio sorriso na boca. Uma expressão que me imortalizasse não só como um sujeito razoavelmente inteligente, mas também como um bon vivant, alguém que, com uma grande dose de malandrice, aprecia um cálice de Chardonnay ao final do dia.
O sorriso seria também como que uma última oferta para a minha mulher. Algo como “estou a observar-te, estou contigo enquanto vês o teu programa favorito e ai de ti se arranjas outro para calçar as minhas pantufas”. Seria uma bonita prova de amor.
Bom, amigos de todo o mundo, pensem nisso.
Hoje mesmo, porque não convidar a bisavó para jantar? Sim, um pouco verde, é certo. Sim, sem alguns pedaços importantes da fisionomia. Mas presente.
E não é isso que importa, afinal de contas? Pois claro que é.
Um grande abraço a todos e, pela parte que me toca, sejam bem-vindos à imortalidade.
Obrigado eu!"
Tuesday, February 17, 2009
O futebol depois de Bynia
Para quem não sabe, o Benfica não só é o maior clube do mundo como também tem um papel fulcral no desenvolvimento do próprio futebol. E do desporto em geral. E consequentemente da produção de cerveja. E da continuidade do mundo tal como o conhecemos.
Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.
Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.
O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:
Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.
Mas um dia apareceu o Bynia.
Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.
E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).
Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.
Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.
O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:
Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.
Mas um dia apareceu o Bynia.
Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.
E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).
Sunday, September 21, 2008
A Genialidade tem formato Outdoor
Uma destas sextas-feiras fiz uma viagem ao Norte do País. Fui ao Gerês e voltei no mesmo dia, de carro, comigo a conduzi-lo... só para se aperceberem da extrema dificuldade e do perigo iminente que constituiu esta minha aventura. Mas teve de ser, dado que se tratava de uma viagem de trabalho fui forçado a assumir a coisa com toda a seriedade que um certo pinheiro verde de cheirinho e uma determinada capa para volante com as cores da bandeira nacional permitiram. Sim, levei o meu carro.
O que dizer de uma jornada do Centro ao Norte do País num dia só, de uma incursão intensa às origens mais profundas da alma portuguesa, do fervilhar em mim de uma pseudo-alma de emigrante, ao palmilhar mais e mais quilómetros de estrada? Epá, o que eu vos digo é que há outdoors do melhor por aí. Tão sublimes que iam provocando um acidente através deste vosso amigo.
Comecemos pelo mais levezinho... um anúncio de uma empresa (atenção que há determinadas zonas do País em que o conceito de empresa é muito vasto. Uma "empresa" pode ser um anexo em pladur com meia dúzia de melões e um sujeito obeso e sebento com uma camisa cinzenta de alças acompanhado por um cão zarolho chamado BRAINE, porque segundo ele BRAINE significa castanho em inglês. Atenção que em muitos locais isto pode ser uma empresa em vias de tornar-se multinacional.) Bom, mas não nos percamos. Um anúncio de uma empresa de fabrico de lareiras. Até aqui tudo ok. O copy do outdoor, para os leigos, o copy é a mensagem escrita (toma que já almoçaste, leigo! Burro da m****), era: "Reacenda a chama em sua casa."
Picantezinho, não?
Até podia ser...
SE A IMAGEM NÃO APRESENTASSE UM CASAL OCTAGENÁRIO NU, ABRAÇADO AOS BEIJOS DIANTE DE UMA LAREIRA!!!
Ora, meus amigos, porque é que isto é errado? Eu sei que o Viagra veio revolucionar o sistema todo há já alguns anos, não precisam de o referir. Mas mesmo assim isto intriga-me. Antigamente, para muitos casais o chamado "mambo horizontal" levava um resfriamento, digamos, TOTAL, por volta dos sessenta anos. E eu acho isso uma boa medida. Aos sessenta anos há coisas que devem ser postas a hibernar para sempre. Há quem diga que no meu caso, essas coisas deviam seguir o mesmo caminho JÁ. Mas eu insisto em mantê-las activas contra a vontade do público e também da maioria das esquadras de polícia. De qualquer forma, não é de mim que isto se trata.
Ter velhinhos nus abraçados não é sexy, não é ousado, não é moderno...
é...
como é que eu...
bom...
epá é NOJENTO, ok?!
Esqueçam lá isso, procurem uma via mais tradicional. Eu nem quero imaginar a versão 2009 desta campanha:
- Depois do outdoor do ano passado, este ano temos de ser mais p´rá frentex rapazes, hem?!
- Chefe, chefe. Estive a pensar e só vejo uma maneira de atingirmos um novo limite.
- Sou todo ouvidos, Bonifácio.
- Agora, em vez de um casal de oitenta anos temos uma velha de 100. Mesmo a cair de podre, com bichezas e tudo, está a ver?
- Estou a ver e está a agradar-me, Bonifácio.
- Mas desta vez não temos o velho. Temos um burro! Um burro ou um boi, um dos dois. Talvez o burro! Mas que seja mesmo chocante, está a ver?!
- Brilhante. Força nisso então.
Não sei, parece-me um bocado puxadote demais. Lareiras muito bem, não me importava de ter uma, agora casais de idosos a fazer porcarias na minha sala... Digamos que há imagens mais agradáveis a reter na memória.
Bom, este outdoor foi difícil de encaixar mas não me preparara minimamente para aquilo que vinha a seguir.
Os outdoors da Prevenção Rodoviária querem-se chocantes, querem-se directos, querem-se "sem papas na língua". Mas querer-se-ão estapafúrdios? Depois desta viagem, para mim, é difícil dizer.
Estava eu a poucos metros de uma rotunda quando avisto um outdoor da tal Prevenção Rodoviária. O copy era o seguinte: "Não parou no STOP?". Ok, até aqui está correcto. Se um fulano não parar no STOP arrisca-se a apanhar com um velho (mais uma vez os idosos) a conduzir em contra-mão. Agora pensando bem, mesmo se pararmos no STOP nada nos garante que não somos colhidos na mesma, mas de qualquer forma mais vale parar.
O que é que os rapazes da Prevenção arranjaram como "device" para captar a nossa atenção e sugerir uma angustiante sensação de medo e consciência?
Quatro urnas. Duas grandes e duas pequenas, com as inscrições: pai, mãe, filho e filha.
Ora bem, isto chama à atenção? Chama, sim senhor.
Chama tanto que me ia espetando rotunda adentro, histérico com a estupidez a que tinha acabado de assistir.
E, para mim, a questão é só esta: desde quando é que o macaco Adriano trabalha em publicidade? É que há ideias que não parecem ter sido geradas num mundo racional.
Agora a sério, UMA FAMÍLIA DE URNAS?!! Mas ninguém percebeu que isto é imensamente parvo? Não vale a pena responderem, o outdoor estava lá e não resta qualquer dúvida.
Como tal, estes acabaram por ser os pontos altos da minha viagem. Acontecimentos fulcrais que me fizeram rir à gargalhada, fazer uma pausa de preocupação e pesar pela demência mental dos criativos envolvidos no processo e seguir o meu caminho com a leveza de espírito de saber que afinal existem por aí indivíduos um pouco mais estúpidos do que eu.
Que Deus vos dê muita saudinha e uma vida longa. Ele sabe o quanto preciso dos vossos outdoors.
O que dizer de uma jornada do Centro ao Norte do País num dia só, de uma incursão intensa às origens mais profundas da alma portuguesa, do fervilhar em mim de uma pseudo-alma de emigrante, ao palmilhar mais e mais quilómetros de estrada? Epá, o que eu vos digo é que há outdoors do melhor por aí. Tão sublimes que iam provocando um acidente através deste vosso amigo.
Comecemos pelo mais levezinho... um anúncio de uma empresa (atenção que há determinadas zonas do País em que o conceito de empresa é muito vasto. Uma "empresa" pode ser um anexo em pladur com meia dúzia de melões e um sujeito obeso e sebento com uma camisa cinzenta de alças acompanhado por um cão zarolho chamado BRAINE, porque segundo ele BRAINE significa castanho em inglês. Atenção que em muitos locais isto pode ser uma empresa em vias de tornar-se multinacional.) Bom, mas não nos percamos. Um anúncio de uma empresa de fabrico de lareiras. Até aqui tudo ok. O copy do outdoor, para os leigos, o copy é a mensagem escrita (toma que já almoçaste, leigo! Burro da m****), era: "Reacenda a chama em sua casa."
Picantezinho, não?
Até podia ser...
SE A IMAGEM NÃO APRESENTASSE UM CASAL OCTAGENÁRIO NU, ABRAÇADO AOS BEIJOS DIANTE DE UMA LAREIRA!!!
Ora, meus amigos, porque é que isto é errado? Eu sei que o Viagra veio revolucionar o sistema todo há já alguns anos, não precisam de o referir. Mas mesmo assim isto intriga-me. Antigamente, para muitos casais o chamado "mambo horizontal" levava um resfriamento, digamos, TOTAL, por volta dos sessenta anos. E eu acho isso uma boa medida. Aos sessenta anos há coisas que devem ser postas a hibernar para sempre. Há quem diga que no meu caso, essas coisas deviam seguir o mesmo caminho JÁ. Mas eu insisto em mantê-las activas contra a vontade do público e também da maioria das esquadras de polícia. De qualquer forma, não é de mim que isto se trata.
Ter velhinhos nus abraçados não é sexy, não é ousado, não é moderno...
é...
como é que eu...
bom...
epá é NOJENTO, ok?!
Esqueçam lá isso, procurem uma via mais tradicional. Eu nem quero imaginar a versão 2009 desta campanha:
- Depois do outdoor do ano passado, este ano temos de ser mais p´rá frentex rapazes, hem?!
- Chefe, chefe. Estive a pensar e só vejo uma maneira de atingirmos um novo limite.
- Sou todo ouvidos, Bonifácio.
- Agora, em vez de um casal de oitenta anos temos uma velha de 100. Mesmo a cair de podre, com bichezas e tudo, está a ver?
- Estou a ver e está a agradar-me, Bonifácio.
- Mas desta vez não temos o velho. Temos um burro! Um burro ou um boi, um dos dois. Talvez o burro! Mas que seja mesmo chocante, está a ver?!
- Brilhante. Força nisso então.
Não sei, parece-me um bocado puxadote demais. Lareiras muito bem, não me importava de ter uma, agora casais de idosos a fazer porcarias na minha sala... Digamos que há imagens mais agradáveis a reter na memória.
Bom, este outdoor foi difícil de encaixar mas não me preparara minimamente para aquilo que vinha a seguir.
Os outdoors da Prevenção Rodoviária querem-se chocantes, querem-se directos, querem-se "sem papas na língua". Mas querer-se-ão estapafúrdios? Depois desta viagem, para mim, é difícil dizer.
Estava eu a poucos metros de uma rotunda quando avisto um outdoor da tal Prevenção Rodoviária. O copy era o seguinte: "Não parou no STOP?". Ok, até aqui está correcto. Se um fulano não parar no STOP arrisca-se a apanhar com um velho (mais uma vez os idosos) a conduzir em contra-mão. Agora pensando bem, mesmo se pararmos no STOP nada nos garante que não somos colhidos na mesma, mas de qualquer forma mais vale parar.
O que é que os rapazes da Prevenção arranjaram como "device" para captar a nossa atenção e sugerir uma angustiante sensação de medo e consciência?
Quatro urnas. Duas grandes e duas pequenas, com as inscrições: pai, mãe, filho e filha.
Ora bem, isto chama à atenção? Chama, sim senhor.
Chama tanto que me ia espetando rotunda adentro, histérico com a estupidez a que tinha acabado de assistir.
E, para mim, a questão é só esta: desde quando é que o macaco Adriano trabalha em publicidade? É que há ideias que não parecem ter sido geradas num mundo racional.
Agora a sério, UMA FAMÍLIA DE URNAS?!! Mas ninguém percebeu que isto é imensamente parvo? Não vale a pena responderem, o outdoor estava lá e não resta qualquer dúvida.
Como tal, estes acabaram por ser os pontos altos da minha viagem. Acontecimentos fulcrais que me fizeram rir à gargalhada, fazer uma pausa de preocupação e pesar pela demência mental dos criativos envolvidos no processo e seguir o meu caminho com a leveza de espírito de saber que afinal existem por aí indivíduos um pouco mais estúpidos do que eu.
Que Deus vos dê muita saudinha e uma vida longa. Ele sabe o quanto preciso dos vossos outdoors.
Tuesday, July 8, 2008
Cartas de amor... quem as não tem?
Chamem-me lamechas, mas haverá coisa mais bonita do que uma comovente carta de amor? Então quando é escrita com paixão e com a ingenuidade que só uma valente catrefada de erros ortográficos e de pontuação podem transmitir... é um mimo, uma coceguinha na alma. Eu pelo menos sinto as coisas assim.
Para quem não me conhece, ou seja toda a gente menos os meus pais, eu sou um tipo que detém aquilo a que vulgarmente se chama: poder de atracção. Não sou particularmente bonito, nada interessante do ponto de vista intelectual e já houve quem dissesse que consigo ser uma besta quando visto roupa beige. Até aqui tudo normal. No entanto, e apesar de todo este handicap, também eu consigo emanar sedução e fui alvo de uma cartinha de um(a) fã, este último fim-de-semana. Não passava de uma simples folha de papel, não tinha forma de coração, não projectava o odor das flores, não estava escrito a lilás. Era apenas um simples e amoroso papel preso no limpa pára-brisas do meu carro (na realidade o carro não é meu mas sim do meu pai, que mo empresta todos os fins-de-semana. Para quem diz que sou condutor de Domingo, claramente devia estar calado porque conduzo também ao Sábado, logo essa "boca" não se aplica. Um condutor de Domingo conduz apenas ao Domingo, eu teria de ser condutor de fim-de-semana porque pego no carro ambos Sábado e Domingo. Anda para aí muito papalvo uivador a berrar disparates à porta de minha casa todos os dias a partir das nove da noite e isto é para aprender a ter tento na língua. Condutor de Domingo o cacete!). Voltando à carta... um singelo papel no limpa pára-brisas do meu carro. Tão banal e tão sexy, meu Deus! Tremi por dentro. Se a minha mulher o visse, se ela lesse o seu potencial conteúdo lascivo e ordinário, com laivos de apertões de vão de escada. Tremi de nervosismo e li, rapidamente e às escondidas, as linhas tímidas, sedentas que eram do meu amor. Diziam o seguinte:
ANORMAL
ONDE POSESTE O CÁRRO CÁBIAM DOIS
RESPEITA OSOTROS SE QUERES SER RESPEITADO
Senti-me um Don Juan.
Amarfanhei o papel e enfiei-o no bolso, não fosse alguém perguntar-me o que era. Tinha a certeza de que se tratava de uma mulher, só podia ser. A sinceridade doce, tão meiga, do início da carta... "ANORMAL"... só podia ser para mim e nunca para nenhum outro. Apenas uma senhora se dirigiria assim a um cavalheiro. Depois, a inclusão do absurdo "poseste" em vez de puseste. Uma verdadeira maravilha digna de um ensaio surrealista de Dalí. Primeiro, tratava-me por tu, o que é simpático e ajuda a quebrar o gelo em cartas como esta. Depois, o erro ortográfico cirurgicamente plantado, inserindo matreirice e infantilidade autista à coisa. Ah que excitação me causou, que mente engenhosa esta que conseguia tocar-me no local mais íntimo e longínquo do meu coração. E que dizer dos acentos mal colocados? Estariam realmente? Creio que não, nunca uma criatura tão deliciosamente inteligente o faria por descuido. São, com toda a certeza, indicadores de direcção indiciando o possível sentido da sua casa. O ninho de pecado onde certamente me esperará com propósitos pouco cristãos. Ao que parece fica para a direita. Noto depois um idioma espanholado, sem chegar realmente a sê-lo, no uso da palavra imaginária "osotros". Aqui consigo identificar um claro convite para fugirmos para Espanha. Capaz de ser bem pensado, Portugal está cheio de gente ignorante e iletrada, pessoas como nós devem levar a sua relação adúltera para bem longe. Por esta altura grossas lágrimas corriam pela minha face abaixo, fruto da comoção incontornável que o mais puro dos sentimentos, e também a mais declarada prova de trissomia 21, provoca em mim. Então entrei no carro, meti uma primeira, espetei-me violenta e repetidamente nas demais viaturas estacionadas à frente e atrás de mim como de costume e segui o meu caminho.
Mas para os mais curiosos, vou mesmo ter de dizer que não. Não cederei à tentação juvenil com aroma a pastilha de tutti frutti, presente naquele escrito pleno de simbolismo e vazio de sentido. Amo demasiado a minha mulher para deixar-me levar por namoricos inconsequentes e abrutalhados, potenciados por cartinhas de amor adolescentes. Não é com falinhas mansas que me levam à séria! Embora o "ANORMAL" do iníco tenha feito a minha vontade fraquejar... estou rodeado de românticos, pá.
Para quem não me conhece, ou seja toda a gente menos os meus pais, eu sou um tipo que detém aquilo a que vulgarmente se chama: poder de atracção. Não sou particularmente bonito, nada interessante do ponto de vista intelectual e já houve quem dissesse que consigo ser uma besta quando visto roupa beige. Até aqui tudo normal. No entanto, e apesar de todo este handicap, também eu consigo emanar sedução e fui alvo de uma cartinha de um(a) fã, este último fim-de-semana. Não passava de uma simples folha de papel, não tinha forma de coração, não projectava o odor das flores, não estava escrito a lilás. Era apenas um simples e amoroso papel preso no limpa pára-brisas do meu carro (na realidade o carro não é meu mas sim do meu pai, que mo empresta todos os fins-de-semana. Para quem diz que sou condutor de Domingo, claramente devia estar calado porque conduzo também ao Sábado, logo essa "boca" não se aplica. Um condutor de Domingo conduz apenas ao Domingo, eu teria de ser condutor de fim-de-semana porque pego no carro ambos Sábado e Domingo. Anda para aí muito papalvo uivador a berrar disparates à porta de minha casa todos os dias a partir das nove da noite e isto é para aprender a ter tento na língua. Condutor de Domingo o cacete!). Voltando à carta... um singelo papel no limpa pára-brisas do meu carro. Tão banal e tão sexy, meu Deus! Tremi por dentro. Se a minha mulher o visse, se ela lesse o seu potencial conteúdo lascivo e ordinário, com laivos de apertões de vão de escada. Tremi de nervosismo e li, rapidamente e às escondidas, as linhas tímidas, sedentas que eram do meu amor. Diziam o seguinte:
ANORMAL
ONDE POSESTE O CÁRRO CÁBIAM DOIS
RESPEITA OSOTROS SE QUERES SER RESPEITADO
Senti-me um Don Juan.
Amarfanhei o papel e enfiei-o no bolso, não fosse alguém perguntar-me o que era. Tinha a certeza de que se tratava de uma mulher, só podia ser. A sinceridade doce, tão meiga, do início da carta... "ANORMAL"... só podia ser para mim e nunca para nenhum outro. Apenas uma senhora se dirigiria assim a um cavalheiro. Depois, a inclusão do absurdo "poseste" em vez de puseste. Uma verdadeira maravilha digna de um ensaio surrealista de Dalí. Primeiro, tratava-me por tu, o que é simpático e ajuda a quebrar o gelo em cartas como esta. Depois, o erro ortográfico cirurgicamente plantado, inserindo matreirice e infantilidade autista à coisa. Ah que excitação me causou, que mente engenhosa esta que conseguia tocar-me no local mais íntimo e longínquo do meu coração. E que dizer dos acentos mal colocados? Estariam realmente? Creio que não, nunca uma criatura tão deliciosamente inteligente o faria por descuido. São, com toda a certeza, indicadores de direcção indiciando o possível sentido da sua casa. O ninho de pecado onde certamente me esperará com propósitos pouco cristãos. Ao que parece fica para a direita. Noto depois um idioma espanholado, sem chegar realmente a sê-lo, no uso da palavra imaginária "osotros". Aqui consigo identificar um claro convite para fugirmos para Espanha. Capaz de ser bem pensado, Portugal está cheio de gente ignorante e iletrada, pessoas como nós devem levar a sua relação adúltera para bem longe. Por esta altura grossas lágrimas corriam pela minha face abaixo, fruto da comoção incontornável que o mais puro dos sentimentos, e também a mais declarada prova de trissomia 21, provoca em mim. Então entrei no carro, meti uma primeira, espetei-me violenta e repetidamente nas demais viaturas estacionadas à frente e atrás de mim como de costume e segui o meu caminho.
Mas para os mais curiosos, vou mesmo ter de dizer que não. Não cederei à tentação juvenil com aroma a pastilha de tutti frutti, presente naquele escrito pleno de simbolismo e vazio de sentido. Amo demasiado a minha mulher para deixar-me levar por namoricos inconsequentes e abrutalhados, potenciados por cartinhas de amor adolescentes. Não é com falinhas mansas que me levam à séria! Embora o "ANORMAL" do iníco tenha feito a minha vontade fraquejar... estou rodeado de românticos, pá.
Tuesday, April 8, 2008
Ser Benfiquista
Porque é que eu sou do Benfica? É a pergunta que já coloquei a mim próprio muitas vezes e à qual nunca obtive uma resposta convincente. No fundo, não consigo justificar-me perante o meu próprio bom senso e isso, parecendo que não, explica muita coisa. Sou do Benfica porque parte do meu cérebro não funciona em termos. Deve ser isso.
Mas será que alegar insanidade é o suficiente para conseguir escapulir-me a uma análise mais profunda? E porque não? Resulta em muitos julgamentos. Muito bom assassino vai parar a um quartinho almofadado para não acabar numa cadeirinha almofadada por fofinhos eléctrodos letais. Então se é assim, porque é que não posso dizer “- Sou maluco e pronto!” e ficamos por aí?!
Talvez porque seja um pouco mais exigente... Talvez por isso, vou então desconstruir a minha existência de modo a conseguir fundamentar a minha preferência clubística. À boa maneira de Gollum, esquizofrénica personagem das histórias de J.R.R. Tolkien, vou encetar um confuso e perturbado diálogo entre o meu hemisfério cerebelar esquerdo (aquele que tem juízo) e o meu hemisfério cerebelar direito (aquele que tem defeito e é 100% benfiquista). Ora aqui vai...
(hemisfério esquerdo) - Olha lá, o Benfica provoca-te desespero?
(hemisfério direito) - Sim, há anos e anos, de diversas formas e feitios. Já chorei, berrei, bati em mim próprio e nos outros, sempre a chorar e a berrar, por causa das derrotas do Glorioso.
(hemisfério esquerdo) - Estou a ver... Então e alegrias? O Benfica faz-te feliz?
(hemisfério direito) - Epá, esporadicamente...
(hemisfério esquerdo) - Com que frequência?
(hemisfério direito) - Nunca (suspiro)...
(hemisfério esquerdo) - Bem me parecia. Explica-me então porquê? Porque raio és benfiquista?
(hemisfério direito) - Ok. Vou contar-te então uma história...
CONTO DE UMA TARDE DE CHUVA (tentativa desesperada do meu hemisfério cerebelar direito, aquele que tem um parafuso queimado, para tentar convencer o meu hemisfério cerebelar esquerdo, aquele que é são como a Fátima Lopes que ingere Activia e nunca sofre de prisão na tripa, de que ser do Benfica é realmente boa ideia e coisa para continuar até ao fim dos dias do André, a embalagem dos dois hemisférios que se encontra a babar-se abundantemente enquanto estes se envolvem num bizarro diálogo)
Isto passou-se há cerca de uma hora atrás, numa zona de Lisboa onde desenvolvo a minha actividade profissional (aos meus colegas que neste momento estão rebolar-se no chão, a rir às gargalhadas, enquanto exclamam “- Profissional?! Este babuíno amestrado nem à chapada conseguia ser amador, quanto mais...”, a todos eles um violento manguito na tromba). Ia eu a caminho de um café, a passar por um terreno cheio de carros estacionados quando avisto uma estranha silhueta vermelha a efectuar aquilo a que ele apelidava de “dança” mas que me parecia ser os espasmos de um flamingo com epilepsia. Era um simpático e bonacheirão arrumador de carros, vestido à Benfica dos pés à cabeça, e encontrava-se a bailar porque estava feliz... ou bebâdo... ou então um misto dos dois. Eu sorri para ele e disse para mim próprio “- Seria mais construtivo se esta besta fosse antes bulir para as obras e acartasse cimento em vez de acartar pacotes de vinho...”, e depois prossegui. Ele, protegido pelo glorioso símbolo da águia e por um farfalhudo bigode preto, riu-se para mim e exclamou-me qualquer coisa que não percebi porque a sua boca ostentava apenas dois apodrecidos dentes nas gengivas. Eu ri também, para não ser mal educado, dei-lhe uma pancada amigável nas costas e segui o meu caminho. Quando abandonava o local de lazer, o “bailarino” chamou-me de longe e veio a ziguezaguear até mim pelo meio dos carros. Pediu-me um isqueiro e avisou-me desde logo que estava metido na droga e no vinho até à ponta dos cabelos. Eu fiz um ar surpreendido, como se os meus sentidos todos já não tivessem dado conta do fedor, e pedi-lhe que tivesse cuidado com a saúde. Disse isto com a perfeita noção de que a saúde e este menino com certeza nunca sequer se encontraram. Ele ria como louco e efectuava notável malabarismo com os seus dois dentes, sempre envergando com orgulho o resplandescente fato-de-treino do Benfica. Entretanto, no meio do discurso incoerente, lá deixava escapar: “- Você ainda me vai dar cinquenta cêntimos...”. Eu olhei para aquela infeliz criatura desdentada e dei-lhe um euro, tentando impedir que voltasse a efectuar a sua “dança” diante de mim. Ele ficou todo contente com a preciosa ajuda para novo serão de festarola. Eu voltei à minha vida, impressionado com o espectáculo.
Ora, o sujeito era drogado? Era. O sujeito era bêbado? Era. O sujeito tinha um aspecto tão repugnante que se adormecesse numa praia faria com que o Greenpeace processasse o Governo? Tinha.
Então porque bailava ele? Porque ria ele? Porque é que procurava ensinar-me coisas enquanto me bufava perdigotos pestilentos para os olhos?
Porque era do Benfica. E era feliz!
O FIM
Isto é para o meu hemisfério esquerdo aprender a ficar calado! VIVA O BENFICA!
Mas será que alegar insanidade é o suficiente para conseguir escapulir-me a uma análise mais profunda? E porque não? Resulta em muitos julgamentos. Muito bom assassino vai parar a um quartinho almofadado para não acabar numa cadeirinha almofadada por fofinhos eléctrodos letais. Então se é assim, porque é que não posso dizer “- Sou maluco e pronto!” e ficamos por aí?!
Talvez porque seja um pouco mais exigente... Talvez por isso, vou então desconstruir a minha existência de modo a conseguir fundamentar a minha preferência clubística. À boa maneira de Gollum, esquizofrénica personagem das histórias de J.R.R. Tolkien, vou encetar um confuso e perturbado diálogo entre o meu hemisfério cerebelar esquerdo (aquele que tem juízo) e o meu hemisfério cerebelar direito (aquele que tem defeito e é 100% benfiquista). Ora aqui vai...
(hemisfério esquerdo) - Olha lá, o Benfica provoca-te desespero?
(hemisfério direito) - Sim, há anos e anos, de diversas formas e feitios. Já chorei, berrei, bati em mim próprio e nos outros, sempre a chorar e a berrar, por causa das derrotas do Glorioso.
(hemisfério esquerdo) - Estou a ver... Então e alegrias? O Benfica faz-te feliz?
(hemisfério direito) - Epá, esporadicamente...
(hemisfério esquerdo) - Com que frequência?
(hemisfério direito) - Nunca (suspiro)...
(hemisfério esquerdo) - Bem me parecia. Explica-me então porquê? Porque raio és benfiquista?
(hemisfério direito) - Ok. Vou contar-te então uma história...
CONTO DE UMA TARDE DE CHUVA (tentativa desesperada do meu hemisfério cerebelar direito, aquele que tem um parafuso queimado, para tentar convencer o meu hemisfério cerebelar esquerdo, aquele que é são como a Fátima Lopes que ingere Activia e nunca sofre de prisão na tripa, de que ser do Benfica é realmente boa ideia e coisa para continuar até ao fim dos dias do André, a embalagem dos dois hemisférios que se encontra a babar-se abundantemente enquanto estes se envolvem num bizarro diálogo)
Isto passou-se há cerca de uma hora atrás, numa zona de Lisboa onde desenvolvo a minha actividade profissional (aos meus colegas que neste momento estão rebolar-se no chão, a rir às gargalhadas, enquanto exclamam “- Profissional?! Este babuíno amestrado nem à chapada conseguia ser amador, quanto mais...”, a todos eles um violento manguito na tromba). Ia eu a caminho de um café, a passar por um terreno cheio de carros estacionados quando avisto uma estranha silhueta vermelha a efectuar aquilo a que ele apelidava de “dança” mas que me parecia ser os espasmos de um flamingo com epilepsia. Era um simpático e bonacheirão arrumador de carros, vestido à Benfica dos pés à cabeça, e encontrava-se a bailar porque estava feliz... ou bebâdo... ou então um misto dos dois. Eu sorri para ele e disse para mim próprio “- Seria mais construtivo se esta besta fosse antes bulir para as obras e acartasse cimento em vez de acartar pacotes de vinho...”, e depois prossegui. Ele, protegido pelo glorioso símbolo da águia e por um farfalhudo bigode preto, riu-se para mim e exclamou-me qualquer coisa que não percebi porque a sua boca ostentava apenas dois apodrecidos dentes nas gengivas. Eu ri também, para não ser mal educado, dei-lhe uma pancada amigável nas costas e segui o meu caminho. Quando abandonava o local de lazer, o “bailarino” chamou-me de longe e veio a ziguezaguear até mim pelo meio dos carros. Pediu-me um isqueiro e avisou-me desde logo que estava metido na droga e no vinho até à ponta dos cabelos. Eu fiz um ar surpreendido, como se os meus sentidos todos já não tivessem dado conta do fedor, e pedi-lhe que tivesse cuidado com a saúde. Disse isto com a perfeita noção de que a saúde e este menino com certeza nunca sequer se encontraram. Ele ria como louco e efectuava notável malabarismo com os seus dois dentes, sempre envergando com orgulho o resplandescente fato-de-treino do Benfica. Entretanto, no meio do discurso incoerente, lá deixava escapar: “- Você ainda me vai dar cinquenta cêntimos...”. Eu olhei para aquela infeliz criatura desdentada e dei-lhe um euro, tentando impedir que voltasse a efectuar a sua “dança” diante de mim. Ele ficou todo contente com a preciosa ajuda para novo serão de festarola. Eu voltei à minha vida, impressionado com o espectáculo.
Ora, o sujeito era drogado? Era. O sujeito era bêbado? Era. O sujeito tinha um aspecto tão repugnante que se adormecesse numa praia faria com que o Greenpeace processasse o Governo? Tinha.
Então porque bailava ele? Porque ria ele? Porque é que procurava ensinar-me coisas enquanto me bufava perdigotos pestilentos para os olhos?
Porque era do Benfica. E era feliz!
O FIM
Isto é para o meu hemisfério esquerdo aprender a ficar calado! VIVA O BENFICA!
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