Tuesday, February 17, 2009

O futebol depois de Bynia

Para quem não sabe, o Benfica não só é o maior clube do mundo como também tem um papel fulcral no desenvolvimento do próprio futebol. E do desporto em geral. E consequentemente da produção de cerveja. E da continuidade do mundo tal como o conhecemos.

Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.

Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.

O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:

Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.

Mas um dia apareceu o Bynia.

Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.

E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).

Sunday, September 21, 2008

A Genialidade tem formato Outdoor

Uma destas sextas-feiras fiz uma viagem ao Norte do País. Fui ao Gerês e voltei no mesmo dia, de carro, comigo a conduzi-lo... só para se aperceberem da extrema dificuldade e do perigo iminente que constituiu esta minha aventura. Mas teve de ser, dado que se tratava de uma viagem de trabalho fui forçado a assumir a coisa com toda a seriedade que um certo pinheiro verde de cheirinho e uma determinada capa para volante com as cores da bandeira nacional permitiram. Sim, levei o meu carro.

O que dizer de uma jornada do Centro ao Norte do País num dia só, de uma incursão intensa às origens mais profundas da alma portuguesa, do fervilhar em mim de uma pseudo-alma de emigrante, ao palmilhar mais e mais quilómetros de estrada? Epá, o que eu vos digo é que há outdoors do melhor por aí. Tão sublimes que iam provocando um acidente através deste vosso amigo.

Comecemos pelo mais levezinho... um anúncio de uma empresa (atenção que há determinadas zonas do País em que o conceito de empresa é muito vasto. Uma "empresa" pode ser um anexo em pladur com meia dúzia de melões e um sujeito obeso e sebento com uma camisa cinzenta de alças acompanhado por um cão zarolho chamado BRAINE, porque segundo ele BRAINE significa castanho em inglês. Atenção que em muitos locais isto pode ser uma empresa em vias de tornar-se multinacional.) Bom, mas não nos percamos. Um anúncio de uma empresa de fabrico de lareiras. Até aqui tudo ok. O copy do outdoor, para os leigos, o copy é a mensagem escrita (toma que já almoçaste, leigo! Burro da m****), era: "Reacenda a chama em sua casa."

Picantezinho, não?

Até podia ser...

SE A IMAGEM NÃO APRESENTASSE UM CASAL OCTAGENÁRIO NU, ABRAÇADO AOS BEIJOS DIANTE DE UMA LAREIRA!!!

Ora, meus amigos, porque é que isto é errado? Eu sei que o Viagra veio revolucionar o sistema todo há já alguns anos, não precisam de o referir. Mas mesmo assim isto intriga-me. Antigamente, para muitos casais o chamado "mambo horizontal" levava um resfriamento, digamos, TOTAL, por volta dos sessenta anos. E eu acho isso uma boa medida. Aos sessenta anos há coisas que devem ser postas a hibernar para sempre. Há quem diga que no meu caso, essas coisas deviam seguir o mesmo caminho JÁ. Mas eu insisto em mantê-las activas contra a vontade do público e também da maioria das esquadras de polícia. De qualquer forma, não é de mim que isto se trata.

Ter velhinhos nus abraçados não é sexy, não é ousado, não é moderno...

é...

como é que eu...

bom...

epá é NOJENTO, ok?!

Esqueçam lá isso, procurem uma via mais tradicional. Eu nem quero imaginar a versão 2009 desta campanha:

- Depois do outdoor do ano passado, este ano temos de ser mais p´rá frentex rapazes, hem?!
- Chefe, chefe. Estive a pensar e só vejo uma maneira de atingirmos um novo limite.
- Sou todo ouvidos, Bonifácio.
- Agora, em vez de um casal de oitenta anos temos uma velha de 100. Mesmo a cair de podre, com bichezas e tudo, está a ver?
- Estou a ver e está a agradar-me, Bonifácio.
- Mas desta vez não temos o velho. Temos um burro! Um burro ou um boi, um dos dois. Talvez o burro! Mas que seja mesmo chocante, está a ver?!
- Brilhante. Força nisso então.

Não sei, parece-me um bocado puxadote demais. Lareiras muito bem, não me importava de ter uma, agora casais de idosos a fazer porcarias na minha sala... Digamos que há imagens mais agradáveis a reter na memória.

Bom, este outdoor foi difícil de encaixar mas não me preparara minimamente para aquilo que vinha a seguir.

Os outdoors da Prevenção Rodoviária querem-se chocantes, querem-se directos, querem-se "sem papas na língua". Mas querer-se-ão estapafúrdios? Depois desta viagem, para mim, é difícil dizer.

Estava eu a poucos metros de uma rotunda quando avisto um outdoor da tal Prevenção Rodoviária. O copy era o seguinte: "Não parou no STOP?". Ok, até aqui está correcto. Se um fulano não parar no STOP arrisca-se a apanhar com um velho (mais uma vez os idosos) a conduzir em contra-mão. Agora pensando bem, mesmo se pararmos no STOP nada nos garante que não somos colhidos na mesma, mas de qualquer forma mais vale parar.

O que é que os rapazes da Prevenção arranjaram como "device" para captar a nossa atenção e sugerir uma angustiante sensação de medo e consciência?

Quatro urnas. Duas grandes e duas pequenas, com as inscrições: pai, mãe, filho e filha.

Ora bem, isto chama à atenção? Chama, sim senhor.

Chama tanto que me ia espetando rotunda adentro, histérico com a estupidez a que tinha acabado de assistir.

E, para mim, a questão é só esta: desde quando é que o macaco Adriano trabalha em publicidade? É que há ideias que não parecem ter sido geradas num mundo racional.
Agora a sério, UMA FAMÍLIA DE URNAS?!! Mas ninguém percebeu que isto é imensamente parvo? Não vale a pena responderem, o outdoor estava lá e não resta qualquer dúvida.

Como tal, estes acabaram por ser os pontos altos da minha viagem. Acontecimentos fulcrais que me fizeram rir à gargalhada, fazer uma pausa de preocupação e pesar pela demência mental dos criativos envolvidos no processo e seguir o meu caminho com a leveza de espírito de saber que afinal existem por aí indivíduos um pouco mais estúpidos do que eu.

Que Deus vos dê muita saudinha e uma vida longa. Ele sabe o quanto preciso dos vossos outdoors.

Tuesday, July 8, 2008

Cartas de amor... quem as não tem?

Chamem-me lamechas, mas haverá coisa mais bonita do que uma comovente carta de amor? Então quando é escrita com paixão e com a ingenuidade que só uma valente catrefada de erros ortográficos e de pontuação podem transmitir... é um mimo, uma coceguinha na alma. Eu pelo menos sinto as coisas assim.

Para quem não me conhece, ou seja toda a gente menos os meus pais, eu sou um tipo que detém aquilo a que vulgarmente se chama: poder de atracção. Não sou particularmente bonito, nada interessante do ponto de vista intelectual e já houve quem dissesse que consigo ser uma besta quando visto roupa beige. Até aqui tudo normal. No entanto, e apesar de todo este handicap, também eu consigo emanar sedução e fui alvo de uma cartinha de um(a) fã, este último fim-de-semana. Não passava de uma simples folha de papel, não tinha forma de coração, não projectava o odor das flores, não estava escrito a lilás. Era apenas um simples e amoroso papel preso no limpa pára-brisas do meu carro (na realidade o carro não é meu mas sim do meu pai, que mo empresta todos os fins-de-semana. Para quem diz que sou condutor de Domingo, claramente devia estar calado porque conduzo também ao Sábado, logo essa "boca" não se aplica. Um condutor de Domingo conduz apenas ao Domingo, eu teria de ser condutor de fim-de-semana porque pego no carro ambos Sábado e Domingo. Anda para aí muito papalvo uivador a berrar disparates à porta de minha casa todos os dias a partir das nove da noite e isto é para aprender a ter tento na língua. Condutor de Domingo o cacete!). Voltando à carta... um singelo papel no limpa pára-brisas do meu carro. Tão banal e tão sexy, meu Deus! Tremi por dentro. Se a minha mulher o visse, se ela lesse o seu potencial conteúdo lascivo e ordinário, com laivos de apertões de vão de escada. Tremi de nervosismo e li, rapidamente e às escondidas, as linhas tímidas, sedentas que eram do meu amor. Diziam o seguinte:

ANORMAL
ONDE POSESTE O CÁRRO CÁBIAM DOIS
RESPEITA OSOTROS SE QUERES SER RESPEITADO

Senti-me um Don Juan.
Amarfanhei o papel e enfiei-o no bolso, não fosse alguém perguntar-me o que era. Tinha a certeza de que se tratava de uma mulher, só podia ser. A sinceridade doce, tão meiga, do início da carta... "ANORMAL"... só podia ser para mim e nunca para nenhum outro. Apenas uma senhora se dirigiria assim a um cavalheiro. Depois, a inclusão do absurdo "poseste" em vez de puseste. Uma verdadeira maravilha digna de um ensaio surrealista de Dalí. Primeiro, tratava-me por tu, o que é simpático e ajuda a quebrar o gelo em cartas como esta. Depois, o erro ortográfico cirurgicamente plantado, inserindo matreirice e infantilidade autista à coisa. Ah que excitação me causou, que mente engenhosa esta que conseguia tocar-me no local mais íntimo e longínquo do meu coração. E que dizer dos acentos mal colocados? Estariam realmente? Creio que não, nunca uma criatura tão deliciosamente inteligente o faria por descuido. São, com toda a certeza, indicadores de direcção indiciando o possível sentido da sua casa. O ninho de pecado onde certamente me esperará com propósitos pouco cristãos. Ao que parece fica para a direita. Noto depois um idioma espanholado, sem chegar realmente a sê-lo, no uso da palavra imaginária "osotros". Aqui consigo identificar um claro convite para fugirmos para Espanha. Capaz de ser bem pensado, Portugal está cheio de gente ignorante e iletrada, pessoas como nós devem levar a sua relação adúltera para bem longe. Por esta altura grossas lágrimas corriam pela minha face abaixo, fruto da comoção incontornável que o mais puro dos sentimentos, e também a mais declarada prova de trissomia 21, provoca em mim. Então entrei no carro, meti uma primeira, espetei-me violenta e repetidamente nas demais viaturas estacionadas à frente e atrás de mim como de costume e segui o meu caminho.

Mas para os mais curiosos, vou mesmo ter de dizer que não. Não cederei à tentação juvenil com aroma a pastilha de tutti frutti, presente naquele escrito pleno de simbolismo e vazio de sentido. Amo demasiado a minha mulher para deixar-me levar por namoricos inconsequentes e abrutalhados, potenciados por cartinhas de amor adolescentes. Não é com falinhas mansas que me levam à séria! Embora o "ANORMAL" do iníco tenha feito a minha vontade fraquejar... estou rodeado de românticos, pá.

Tuesday, April 8, 2008

Ser Benfiquista

Porque é que eu sou do Benfica? É a pergunta que já coloquei a mim próprio muitas vezes e à qual nunca obtive uma resposta convincente. No fundo, não consigo justificar-me perante o meu próprio bom senso e isso, parecendo que não, explica muita coisa. Sou do Benfica porque parte do meu cérebro não funciona em termos. Deve ser isso.

Mas será que alegar insanidade é o suficiente para conseguir escapulir-me a uma análise mais profunda? E porque não? Resulta em muitos julgamentos. Muito bom assassino vai parar a um quartinho almofadado para não acabar numa cadeirinha almofadada por fofinhos eléctrodos letais. Então se é assim, porque é que não posso dizer “- Sou maluco e pronto!” e ficamos por aí?!

Talvez porque seja um pouco mais exigente... Talvez por isso, vou então desconstruir a minha existência de modo a conseguir fundamentar a minha preferência clubística. À boa maneira de Gollum, esquizofrénica personagem das histórias de J.R.R. Tolkien, vou encetar um confuso e perturbado diálogo entre o meu hemisfério cerebelar esquerdo (aquele que tem juízo) e o meu hemisfério cerebelar direito (aquele que tem defeito e é 100% benfiquista). Ora aqui vai...


(hemisfério esquerdo) - Olha lá, o Benfica provoca-te desespero?
(hemisfério direito) - Sim, há anos e anos, de diversas formas e feitios. Já chorei, berrei, bati em mim próprio e nos outros, sempre a chorar e a berrar, por causa das derrotas do Glorioso.
(hemisfério esquerdo) - Estou a ver... Então e alegrias? O Benfica faz-te feliz?
(hemisfério direito) - Epá, esporadicamente...
(hemisfério esquerdo) - Com que frequência?
(hemisfério direito) - Nunca (suspiro)...
(hemisfério esquerdo) - Bem me parecia. Explica-me então porquê? Porque raio és benfiquista?
(hemisfério direito) - Ok. Vou contar-te então uma história...


CONTO DE UMA TARDE DE CHUVA (tentativa desesperada do meu hemisfério cerebelar direito, aquele que tem um parafuso queimado, para tentar convencer o meu hemisfério cerebelar esquerdo, aquele que é são como a Fátima Lopes que ingere Activia e nunca sofre de prisão na tripa, de que ser do Benfica é realmente boa ideia e coisa para continuar até ao fim dos dias do André, a embalagem dos dois hemisférios que se encontra a babar-se abundantemente enquanto estes se envolvem num bizarro diálogo)

Isto passou-se há cerca de uma hora atrás, numa zona de Lisboa onde desenvolvo a minha actividade profissional (aos meus colegas que neste momento estão rebolar-se no chão, a rir às gargalhadas, enquanto exclamam “- Profissional?! Este babuíno amestrado nem à chapada conseguia ser amador, quanto mais...”, a todos eles um violento manguito na tromba). Ia eu a caminho de um café, a passar por um terreno cheio de carros estacionados quando avisto uma estranha silhueta vermelha a efectuar aquilo a que ele apelidava de “dança” mas que me parecia ser os espasmos de um flamingo com epilepsia. Era um simpático e bonacheirão arrumador de carros, vestido à Benfica dos pés à cabeça, e encontrava-se a bailar porque estava feliz... ou bebâdo... ou então um misto dos dois. Eu sorri para ele e disse para mim próprio “- Seria mais construtivo se esta besta fosse antes bulir para as obras e acartasse cimento em vez de acartar pacotes de vinho...”, e depois prossegui. Ele, protegido pelo glorioso símbolo da águia e por um farfalhudo bigode preto, riu-se para mim e exclamou-me qualquer coisa que não percebi porque a sua boca ostentava apenas dois apodrecidos dentes nas gengivas. Eu ri também, para não ser mal educado, dei-lhe uma pancada amigável nas costas e segui o meu caminho. Quando abandonava o local de lazer, o “bailarino” chamou-me de longe e veio a ziguezaguear até mim pelo meio dos carros. Pediu-me um isqueiro e avisou-me desde logo que estava metido na droga e no vinho até à ponta dos cabelos. Eu fiz um ar surpreendido, como se os meus sentidos todos já não tivessem dado conta do fedor, e pedi-lhe que tivesse cuidado com a saúde. Disse isto com a perfeita noção de que a saúde e este menino com certeza nunca sequer se encontraram. Ele ria como louco e efectuava notável malabarismo com os seus dois dentes, sempre envergando com orgulho o resplandescente fato-de-treino do Benfica. Entretanto, no meio do discurso incoerente, lá deixava escapar: “- Você ainda me vai dar cinquenta cêntimos...”. Eu olhei para aquela infeliz criatura desdentada e dei-lhe um euro, tentando impedir que voltasse a efectuar a sua “dança” diante de mim. Ele ficou todo contente com a preciosa ajuda para novo serão de festarola. Eu voltei à minha vida, impressionado com o espectáculo.

Ora, o sujeito era drogado? Era. O sujeito era bêbado? Era. O sujeito tinha um aspecto tão repugnante que se adormecesse numa praia faria com que o Greenpeace processasse o Governo? Tinha.

Então porque bailava ele? Porque ria ele? Porque é que procurava ensinar-me coisas enquanto me bufava perdigotos pestilentos para os olhos?
Porque era do Benfica. E era feliz!


O FIM



Isto é para o meu hemisfério esquerdo aprender a ficar calado! VIVA O BENFICA!

Wednesday, February 20, 2008

Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis

O que é que eu tenho contra os caracóis? Absolutamente nada. Até aí estamos entendidos.
Porque é que eu não os como? A resposta é simples: porque a ideia de digerir um ser semelhante a um pedaço de ranho vivo, a mim, provoca-me asco, senão mesmo NOJO.

Eu acho piada às pessoas que vão ver um bom filme de terror série B e depois, fazendo a sua pior careta, dizem que detestaram ver zombies esventrados ou alienígenas cobertos de muco espacial. Têm a lata de repugnar-se perante este tipo de coisas e depois, logo a seguir, ir encher o bandulho com caracóis cozidos, deixando a água castanha da cozedura, o “molhinho” como lhe chamam, escorrer abundantemente pelos cantos da boca. Ora, como é que eu hei-de explicar isto de modo a que todos percebam... A mim, não me fariam comer caracóis NEM QUE ME ENFIASSEM UM ARAME EM BRASA PELA URETRA ADENTRO!!! (e atenção que isto é coisa para doer um bocado)

O que é que se passa com esta gente? Há necessidade para isto?!
Está a decorrer alguma guerra nuclear que limitou os alimentos no nosso país? Não? Então porque é que a malta insiste em comer estes bichos? Epá, não consigo entender...

O pessoal fã de caracóis não me interprete mal, o bicho é simpático lá com os pauzinhos e mais não sei o quê... É giro para ter no quintal e fazer desenhos para as crianças. Agora daí a juntá-los todos numa panela com orégãos e cozê-los vivos vai uma grande diferença! Pensem comigo, ok? De modo a colocar o bom e velho juizínho nas vossas cabeças, o saguim vai convosco estudar os pontos negativos e positivos dos caracóis enquanto bichos para comer:


Pontos Negativos:

- A ausência de ossos ou espinhas.
- O ranho.
- A cor cinzento-esverdeada.
- Os pauzinhos à extra-terrestre.
- O ranho.
- A forma como se cozinha e se come, com um palito.
- O cheiro.
- O ranho.


Pontos Positvos:

- Nenhum...


Ora bem, parece-me que temos um vencedor. Meus amigos, vocês podem dizer o seguinte: “Ok, realmente tudo o que dizes é verdade, fruto da tua inteligência superior e extraordinária sensatez. Mas, a mim, os caracóis sabem-me bem com cervejinha.”
E aqui reside o verdadeiro busílis da questão. O caracol sabe bem com cervejinha. Porque é que a sabedoria popular nos manda comer caracóis sempre com uma imperial a acompanhar? Porque só o efeito atordoante do álcool consegue escamotear TODOS aqueles pontos negativos que enunciei ainda agora. Há quem diga que a bebida transforma um camafeu numa mulher atraente. Neste caso, transforma o PIOR pitéu da História num verdadeiro buffet de queijos franceses. No meu caso, e mais uma vez reforço, se eu estivesse em coma alcoólico profundo, acordaria caso alguém me tentasse empurrar um destes seres esquisitóides pela goela abaixo.


P.S.: Se depois de todo este sermão ainda for um acérrimo activista destes bichos enquanto petisco, fique a saber que o CARACOL É HERMAFRODITA, ok? O que significa que é menino para dar para os dois lados. Agora coma... Coma e ingira estas hormonazitas todas. Eheheheheh e depois queixe-se que abichana!

Monday, January 14, 2008

Para quem não sabe, há coisas erradas em mim

Sinto que está na hora de assumir algo que está errado em mim, deixando de escamotear e omitir aquilo que é demasiado evidente. Algo que está errado em mim... qualquer pessoa que já se deu ao trabalho de ler um ou outro post deste blogue (Olá mãe!) deve estar agora a pensar: "Este indivíduo devia era descobrir aquilo que NÃO tem de errado!"... mas pronto, as coisas são como são e ninguém me tira o valor desta descoberta.

EU SOU UM INDIVÍDUO QUE... COMO É QUE EU HEI-DE COLOCAR ISTO... ORA BEM... HUMMM... DEVOLVE COISAS.

Nesta altura, devem estar a pensar: "Isso é positivo. Hoje em dias as pessoas são egoístas e não há nada mais filantrópico do que devolver amor quando se recebe amor, devolver amizade quando é isso que se recebe, devolver compreensão quando se é compreendido...". Mas não é nada disso, meus amigos. Eu devolvo as coisas que ninguém quer de volta, e isto é um problema sério e patológico que eu tenho. Vamos a exemplos? Então, vamos lá a isso...


Episódio 1

Estava eu na Praia da Luz, muito anos antes de lá terem passado os McCann por isso não vale a pena fazerem insinuações do tipo: "Ah eu bem me parecia que este tipo era demente e, pelos disparates que escreve, é menino para estar metido com os bandidos lá naquela trapalhada toda.", arrastando-me pela areia com molenguice. A dada altura, um gigantesco estrangeiro com fronha de viking lança uma bola na minha direcção. Eu decido ser um bom cidadão português, sempre desejando fazer com que os turistas se sintam em casa, pego na bola e devolvo-a ao antipático nórdico que olha para mim raivosamente. É aí que eu percebo que acabo de devolver uma bola do estúpido jogo de nome Petangue, e também prestes a devolver a minha alma ao criador. A única coisa que fez com que a veia do pescoço do viking parasse de latejar foi o facto de eu não passar de uma pequena criatura palerma, com excesso de peso e boné à tótó. A mulher viking, que estava a jogar com ele e por isso com um semblante não menos carregado, disse-lhe qualquer coisa na língua lá deles e acabou por ficar tudo sereno mas sobre uma enorme tensão. Eu afastei-me com o rabinho entre as pernas e a sensação nítida de que mais valia ter ficado quieto. Neste caso, apesar da culpa ser minha, o Petangue não deixa de ser um jogo efectivamente estúpido. Estamos na praia, ao ar livre, a apanhar o ar fresco do mar, solzinho bom e o que fazemos? Estamos curvados a mandar bolinhas... Não faz sentido.


Ora, este episódio marcou toda a minha infância: a parvoíce do momento, a hesitação do quase-assassínio, a veia do viking a latejar, as gotas de suor na minha testa... Passei anos mais calmos, a reprimir este meu defeito de ser um indivíduo que... como é que eu hei-de colocar isto... ora bem... hummm... devolve coisas. Até há uns dias atrás.


Episódio 2

Desloquei-me a Santo António dos Cavaleiros para assistir a um concerto da banda de um amigo meu. Até aí tudo bem, todos conhecem as chamadas "boogie nights" de Santo António, a loucura e o calor da noite, estava maravilhado com o espírito rebelde da metrópole nocturna: "EPÁ QUE ESPECTÁCULO!!!", pensei eu. O meu amigo malhava na guitarra-baixo como se não houvesse amanhã, uma autêntica estrela do rock num bar marginal. Eu sei que os tocadores de guitarra-baixo não é costume darem show mas este meu amigo é assim, e é assim que os Santo Antónios dos Cavaleirenses gostam dele. A dada altura esse meu amigo decide dar um salto no ar, assinalando um acorde mais violento, e, para dar mais excitação ao acto, cospe vigorosamente a palheta que tinha presa na boca. A palheta cai no chão afundada numa poça de baba. Eu, que não vi o acto repugnante do meu amigo roqueiro, apanho a palheta e começo a tentar devolver-lha no meio do concerto. A minha namorada e os amigos que estavam sentados comigo escondem a cara com as mãos, eu permaneço em pé a tentar devolver a palheta com um sorriso estúpido, ninguém da banda me liga nenhuma. No fim da música, o meu amigo roqueiro dá-me uma palmada nas costas e diz-me com simpatia: "Podes ficar com ela, campeão." mostrando que possuía várias dezenas de palhetas perto de si. Eu sento-me, todo contente, julgando que fui prestável. A minha namorada explica-me o que se passou e eu escondo a cara com as mãos.


Meus amigos, o problema afinal continua latente e de boa saúde. Eu tenho este problema e não há meio de me ver livre dele. Faz-me temer o meu futuro e imaginar vários perigos na minha vida. Por exemplo:

1) Se me enviarem para a tropa e eu fôr para a guerra, há boas hipóteses de devolver aquela granada que um dos meus camaradas lançou.

2) Se algum dia me casar, é bem possível que a primeira coisa que faça ao sair da igreja seja ir à ourivesaria devolver as alianças.

3) Se algum dia tiver filhos e eles me vierem oferecer aqueles desenhos fofinhos tipo "És o melhor pai do mundo!", eu hei-de responder "Está bem, está bem." e atiro-lhes o presente para cima, devolvendo-o.


Por isso, a bem do país e do mundo, evitem que eu me case, que tenha filhos e, acima de tudo, que me mandem para a tropa e para a guerra. É coisa para aleijar uma pessoa.

Monday, November 5, 2007

Há palavras fascinantes!

Sou um apaixonado pela palavra "lusco-fusco" e não pensem que foi por causa do sketch dos Gato Fedorento... Eu já tinha pancada antes disso.
A palavra "lusco-fusco" não só engloba aquilo que há de mais bonacheirão e patusco na cultura portuguesa como também realça a nossa habilidade lusitana de inventar palavras por tudo e por nada. Não somos conhecidos por economizarmos vocabulário, principalmente no que diz respeito aos palavrões, embora "lusco-fusco" não seja ordinário. Gostava de apertar a mão ao lavrador que ergueu os olhos remelentos da enxada, observou o horizonte e grunhiu por fim: "- Mas que belo lusco-fusco este..."

Não é tarde, não é cedo, não está tão escuro que nos faça acender as luzes de casa mas também não há luminosidade suficiente para nos pormos a ler um livro... o lusco-fusco, se fosse um indivíduo, seria com certeza mulato. Não é preto nem branco, está ali no meio termo. Se estou perfeitamente confortável com isto no que diz respeito a seres humanos, já no que concerne aos momentos do dia a história é diferente. Quem me conhece sabe que eu sou um sujeito de extremos, e o lusco-fusco enquanto conceito, há que dizê-lo, irrita-me profundamente. Decida-se, senhor! É dia ou noite, afinal?! É que eu não sei o que hei-de fazer! Se hei-de continuar a trabalhar porque ainda é de dia ou se hei-de bocejar e decidir não fazer mais nenhum porque já é de noite! O lusco-fusco, enquanto conceito, é uma tremenda perda de tempo! Já a palavra em si, inverte a situação por completo e faz-me aceitar a existência do lusco-fusco. É uma palavra que rima consigo própria, como se de um jogo se tratasse, ela brinca connosco e convida-nos à patusquice. Toda a gente adquire um certo nível de piada ao dizer "lusco-fusco", toda a gente mesmo. Sei que esta declaração pode ser polémica, mas acredito que até José Carlos Malato teria piada se dissesse a palavra uma vez ou outra nos concursos que apresenta. Sei que "piada" e "José Carlos Malato" são dois princípios que não se misturam, como água e azeite, mas a palavra "lusco-fusco" poderia funcionar como o ingrediente secreto para o sucesso. Seria mais ou menos assim:


(Malato)- Boa noite, Cláudia. Com que então veio do Cacém, não é verdade?
(Cláudia)- Pois vim, sim senhor.
(Malato)- Já fui muito feliz no Cacém... eheheheh!

Silêncio sepulcral na assistência.

(Malato)- Quando era magro... eheheh É que agora sou gordo como um hipopótamo! eheheh

Ninguém esboça um sorriso, permanece uma expressão de enfado na face de todos.

(Malato, a suar da testa, aproveita o silêncio para pensar)- Bolas, estou perdido! Ninguém achou piada e eu joguei as minhas duas cartadas mais altas: o engraçadíssimo "Já fui muito feliz..." e as clássicas piadas acerca da minha obesidade. Como é que eu vou desbloquear esta situação?! Ah! Já sei!

(Malato, para o público)- O Cacém é interessante, sobretudo no LUSCO-FUSCO!!!

Todos riem alegremente e olham Malato com carinho, neste momento não há ninguém que não goste dele.


Ora, é assim que funciona. Agora, a título de passatempo, experimentem contar quantas vezes é que a palavra "lusco-fusco" aparece neste post. Depois tentem dizê-la o dobro das vezes, durante o dia. Vão ver que se tornam muito mais populares, sobretudo entre as miúdas.