Monday, January 14, 2008

Para quem não sabe, há coisas erradas em mim

Sinto que está na hora de assumir algo que está errado em mim, deixando de escamotear e omitir aquilo que é demasiado evidente. Algo que está errado em mim... qualquer pessoa que já se deu ao trabalho de ler um ou outro post deste blogue (Olá mãe!) deve estar agora a pensar: "Este indivíduo devia era descobrir aquilo que NÃO tem de errado!"... mas pronto, as coisas são como são e ninguém me tira o valor desta descoberta.

EU SOU UM INDIVÍDUO QUE... COMO É QUE EU HEI-DE COLOCAR ISTO... ORA BEM... HUMMM... DEVOLVE COISAS.

Nesta altura, devem estar a pensar: "Isso é positivo. Hoje em dias as pessoas são egoístas e não há nada mais filantrópico do que devolver amor quando se recebe amor, devolver amizade quando é isso que se recebe, devolver compreensão quando se é compreendido...". Mas não é nada disso, meus amigos. Eu devolvo as coisas que ninguém quer de volta, e isto é um problema sério e patológico que eu tenho. Vamos a exemplos? Então, vamos lá a isso...


Episódio 1

Estava eu na Praia da Luz, muito anos antes de lá terem passado os McCann por isso não vale a pena fazerem insinuações do tipo: "Ah eu bem me parecia que este tipo era demente e, pelos disparates que escreve, é menino para estar metido com os bandidos lá naquela trapalhada toda.", arrastando-me pela areia com molenguice. A dada altura, um gigantesco estrangeiro com fronha de viking lança uma bola na minha direcção. Eu decido ser um bom cidadão português, sempre desejando fazer com que os turistas se sintam em casa, pego na bola e devolvo-a ao antipático nórdico que olha para mim raivosamente. É aí que eu percebo que acabo de devolver uma bola do estúpido jogo de nome Petangue, e também prestes a devolver a minha alma ao criador. A única coisa que fez com que a veia do pescoço do viking parasse de latejar foi o facto de eu não passar de uma pequena criatura palerma, com excesso de peso e boné à tótó. A mulher viking, que estava a jogar com ele e por isso com um semblante não menos carregado, disse-lhe qualquer coisa na língua lá deles e acabou por ficar tudo sereno mas sobre uma enorme tensão. Eu afastei-me com o rabinho entre as pernas e a sensação nítida de que mais valia ter ficado quieto. Neste caso, apesar da culpa ser minha, o Petangue não deixa de ser um jogo efectivamente estúpido. Estamos na praia, ao ar livre, a apanhar o ar fresco do mar, solzinho bom e o que fazemos? Estamos curvados a mandar bolinhas... Não faz sentido.


Ora, este episódio marcou toda a minha infância: a parvoíce do momento, a hesitação do quase-assassínio, a veia do viking a latejar, as gotas de suor na minha testa... Passei anos mais calmos, a reprimir este meu defeito de ser um indivíduo que... como é que eu hei-de colocar isto... ora bem... hummm... devolve coisas. Até há uns dias atrás.


Episódio 2

Desloquei-me a Santo António dos Cavaleiros para assistir a um concerto da banda de um amigo meu. Até aí tudo bem, todos conhecem as chamadas "boogie nights" de Santo António, a loucura e o calor da noite, estava maravilhado com o espírito rebelde da metrópole nocturna: "EPÁ QUE ESPECTÁCULO!!!", pensei eu. O meu amigo malhava na guitarra-baixo como se não houvesse amanhã, uma autêntica estrela do rock num bar marginal. Eu sei que os tocadores de guitarra-baixo não é costume darem show mas este meu amigo é assim, e é assim que os Santo Antónios dos Cavaleirenses gostam dele. A dada altura esse meu amigo decide dar um salto no ar, assinalando um acorde mais violento, e, para dar mais excitação ao acto, cospe vigorosamente a palheta que tinha presa na boca. A palheta cai no chão afundada numa poça de baba. Eu, que não vi o acto repugnante do meu amigo roqueiro, apanho a palheta e começo a tentar devolver-lha no meio do concerto. A minha namorada e os amigos que estavam sentados comigo escondem a cara com as mãos, eu permaneço em pé a tentar devolver a palheta com um sorriso estúpido, ninguém da banda me liga nenhuma. No fim da música, o meu amigo roqueiro dá-me uma palmada nas costas e diz-me com simpatia: "Podes ficar com ela, campeão." mostrando que possuía várias dezenas de palhetas perto de si. Eu sento-me, todo contente, julgando que fui prestável. A minha namorada explica-me o que se passou e eu escondo a cara com as mãos.


Meus amigos, o problema afinal continua latente e de boa saúde. Eu tenho este problema e não há meio de me ver livre dele. Faz-me temer o meu futuro e imaginar vários perigos na minha vida. Por exemplo:

1) Se me enviarem para a tropa e eu fôr para a guerra, há boas hipóteses de devolver aquela granada que um dos meus camaradas lançou.

2) Se algum dia me casar, é bem possível que a primeira coisa que faça ao sair da igreja seja ir à ourivesaria devolver as alianças.

3) Se algum dia tiver filhos e eles me vierem oferecer aqueles desenhos fofinhos tipo "És o melhor pai do mundo!", eu hei-de responder "Está bem, está bem." e atiro-lhes o presente para cima, devolvendo-o.


Por isso, a bem do país e do mundo, evitem que eu me case, que tenha filhos e, acima de tudo, que me mandem para a tropa e para a guerra. É coisa para aleijar uma pessoa.

Monday, November 5, 2007

Há palavras fascinantes!

Sou um apaixonado pela palavra "lusco-fusco" e não pensem que foi por causa do sketch dos Gato Fedorento... Eu já tinha pancada antes disso.
A palavra "lusco-fusco" não só engloba aquilo que há de mais bonacheirão e patusco na cultura portuguesa como também realça a nossa habilidade lusitana de inventar palavras por tudo e por nada. Não somos conhecidos por economizarmos vocabulário, principalmente no que diz respeito aos palavrões, embora "lusco-fusco" não seja ordinário. Gostava de apertar a mão ao lavrador que ergueu os olhos remelentos da enxada, observou o horizonte e grunhiu por fim: "- Mas que belo lusco-fusco este..."

Não é tarde, não é cedo, não está tão escuro que nos faça acender as luzes de casa mas também não há luminosidade suficiente para nos pormos a ler um livro... o lusco-fusco, se fosse um indivíduo, seria com certeza mulato. Não é preto nem branco, está ali no meio termo. Se estou perfeitamente confortável com isto no que diz respeito a seres humanos, já no que concerne aos momentos do dia a história é diferente. Quem me conhece sabe que eu sou um sujeito de extremos, e o lusco-fusco enquanto conceito, há que dizê-lo, irrita-me profundamente. Decida-se, senhor! É dia ou noite, afinal?! É que eu não sei o que hei-de fazer! Se hei-de continuar a trabalhar porque ainda é de dia ou se hei-de bocejar e decidir não fazer mais nenhum porque já é de noite! O lusco-fusco, enquanto conceito, é uma tremenda perda de tempo! Já a palavra em si, inverte a situação por completo e faz-me aceitar a existência do lusco-fusco. É uma palavra que rima consigo própria, como se de um jogo se tratasse, ela brinca connosco e convida-nos à patusquice. Toda a gente adquire um certo nível de piada ao dizer "lusco-fusco", toda a gente mesmo. Sei que esta declaração pode ser polémica, mas acredito que até José Carlos Malato teria piada se dissesse a palavra uma vez ou outra nos concursos que apresenta. Sei que "piada" e "José Carlos Malato" são dois princípios que não se misturam, como água e azeite, mas a palavra "lusco-fusco" poderia funcionar como o ingrediente secreto para o sucesso. Seria mais ou menos assim:


(Malato)- Boa noite, Cláudia. Com que então veio do Cacém, não é verdade?
(Cláudia)- Pois vim, sim senhor.
(Malato)- Já fui muito feliz no Cacém... eheheheh!

Silêncio sepulcral na assistência.

(Malato)- Quando era magro... eheheh É que agora sou gordo como um hipopótamo! eheheh

Ninguém esboça um sorriso, permanece uma expressão de enfado na face de todos.

(Malato, a suar da testa, aproveita o silêncio para pensar)- Bolas, estou perdido! Ninguém achou piada e eu joguei as minhas duas cartadas mais altas: o engraçadíssimo "Já fui muito feliz..." e as clássicas piadas acerca da minha obesidade. Como é que eu vou desbloquear esta situação?! Ah! Já sei!

(Malato, para o público)- O Cacém é interessante, sobretudo no LUSCO-FUSCO!!!

Todos riem alegremente e olham Malato com carinho, neste momento não há ninguém que não goste dele.


Ora, é assim que funciona. Agora, a título de passatempo, experimentem contar quantas vezes é que a palavra "lusco-fusco" aparece neste post. Depois tentem dizê-la o dobro das vezes, durante o dia. Vão ver que se tornam muito mais populares, sobretudo entre as miúdas.

Monday, October 29, 2007

A origem do mal

Meus amigos, tenho pensado muito...
(se estiver a ler este blogue pela primeira vez, você deve estar a pensar: "Sim senhor, ora aqui está alguém que pensa. Neste país fazem falta mais plataformas cibernéticas válidas de opinião, algo que nos faça questionar acerca da actualidade enquanto navegamos na net... acima de tudo, algo que cumpra esse propósito sem copiar da wikipédia”).

Tenho pensado muito e acho que identifiquei o principal manto negro da discórdia que paira sobre toda a existência humana. Algo que foi responsável pela queda de civilizações, que fez perecer figuras assinaláveis da História, algo venenoso que corrompe os espíritos dos seres humanos e que, sem dúvida nenhuma, ditará a nossa extinção. Este Demónio do Apocalipse dá pelo nome de BUFFET.


Ora, para quem não sabe, e sem copiar da wikipédia, eu vou explicar o que é o buffet.

O buffet é uma forma da comida se apresentar às pessoas, espalhada em bandejas e tabuleiros para que elas se sirvam à sua vontade. GRANDE DISPARATE! Se há coisa que trazemos dos tempos em que eramos todos orangotangos é o instinto de sobrevivência em que temos de provar sempre de tudo e comer o mais possível. Ao movimentarem-se em restaurantes de buffet, as pessoas não só tomam atitudes absolutamente primitivas e brutas como mostram a tolerância de um lobo que guarda a carcaça do coelho acabado de capturar. Empurram-se, puxam-se, arranham-se, rosnam... estar no meio de um buffet é o mesmo que penetrar numa caverna de ursos com um escalope atado à cabeça. É realmente perigoso. Eu até acho que o ser humano não gosta particularmente de violência, penso que a diplomacia até funciona entre nós. Nas grandes batalhas da História houve sempre algo em comum, algo que não permitiu que a paz imperasse:

- Monsieur Napoleão, monsieur Napoleão! A malta aliada ofereceu-nos tréguas, já podemos arrumar a trouxa, sair de Waterloo e voltar para a mulher e filhos na nossa amada França.
- Será como dizes, meu bom Pierre. Eu já sabia que vir até cá era uma mera formalidade… Há sempre que confiar na sensatez dos homens.
- Pois sim, meu comandante. Para assinalar esta camaradagem admirável o nosso chef preparou uma surpresinha para todos. Tanto o Duque de Wellington como o valoroso Gebhard von Blücher (ok, agora copiei da wikipédia...), esses dois patuscos, ficarão de água na boca…
- Que dizes tu, caro Pierre? Que surpresa gastronómica é essa que tanto falas?
- Um delicioso buffet de iguarias francesas, meu comandante. Um verdadeiro petisco!
- Ah bom! Vamos a ele então!

Não será preciso dizer muito mais, é fácil adivinhar o que se terá passado a seguir. Todos conviviam alegremente, ocorriam gargalhadas e abraços entre oficiais de várias nações, a dada altura começou a hora da refeição, Napoleão passou à frente do Duque de Wellington na fila para o guisado e aquilo foi bordoada de meia noite até à rendição dos gauleses... No fim, os aliados, vitoriosos, ganharam o direito a repetir o prato de salada.

Para acabar com a guerra basta moderar o acesso das pessoas à comida, controlar os seus instintos animais, e tudo correrá bem. O buffet é a maior arma de destruição maciça de sempre, e ainda bem que os muçulmanos ainda não deram com ela. Quando a descobrirem, será sem dúvida o fim da civilização! Imaginem a notícia em primeira mão, dada pela CNN:

Times Square arrasada por multidão em fúria!
Um terrorista islâmico terá declarado aberto um buffet de chamuças em plena Times Square. Em pouco menos de cinco minutos, uma enorme onda de violência vinda de todo o lado varreu esta zona histórica de New York, eliminando-a do mapa. Não há sobreviventes. Este é, sem sombra de dúvida, o mais horrível ataque terrorista desde o 11 de Setembro.

Enquanto o buffet estiver por aí, à mão de qualquer um... Que Deus nos proteja a todos, pois não estamos seguros.

Monday, October 1, 2007

É urgente a Guerra dos Mundos!

Ora bem, vamos lá ver se nos entendemos...
Penso que cheguei a um ponto em que toda a gente tem de concordar comigo. Quando digo toda a gente refiro-me a TODA A GENTE, todos os seres humanos do planeta sem qualquer tipo de excepção.
É que, meus amigos, há já alguns anos que cheguei a esta brilhante conclusão: OS ACTORES E ACTRIZES BRASILEIROS SÃO SERES EXTRATERRESTRES!
E porquê? A resposta é muito simples: nunca... mas nunca... envelhecem.
Eu tenho vinte e quatro anos e quem tem a minha idade, ou até um pouco mais, sabe bem que aquilo que digo é verdade. Os actores que faziam de jovens galãs quando eu era criança são os mesmíssimos actores que fazem esses papéis nos dias de hoje, e esta regra aplica-se para as crianças e idosos. Não envelheceram um minuto sequer desde os tempos que se bamboleavam, com os seus fabulosos penteados à anos 80, ao som da Lambada.
No entanto, de quando em vez, lá se assiste ao triste anúncio do falecimento de um destes intérpretes. Cá para mim, eles são colocados no planeta Terra com uma certa forma e feitio, com uma missão diabólica que normalmente envolve experiências científicas em nordestinos e degustação de caipirinhas. A dada altura, a nave-mãe desce uma vez mais dos céus e vem recolhê-los deixando no seu lugar cadáveres em tudo idênticos a eles. É um processo muito simples e não me deixa qualquer tipo de dúvidas. Já com os portugueses, a história é um pouco diferente... mesmo aquelas ou aqueles de quem se diz “Parece que a idade lhe passa ao lado.”, na realidade a idade não só não lhes passa ao lado como os atropela com a violência de um camião TIR. Estão velhos, meus amigos. Temos de aceitar os factos. E estão velhos porque são humanos, seres finitos cujos corpos se deterioram com o passar do tempo... como seres vivos que são. Essa malta brasileira, que não tem vergonha de ter nascido em 1819 e aparentar um corpinho de adolescente é que deve pensar que somos todos parvos! E as desculpas que apresentam são inúmeras:

Ah é o solzinho...
ERRADO!!!! O sol dá cabo da pele e do cabelo! Que o diga a nossa Cinha Jardim...

Ah é do sambinha...
ERRADO!!!! Onde é que a rotação contínua de articulações e o sexo desprotegido com estranhos dá saúde? Não neste planeta, com certeza...

Ah é da cachaça...
ERRADO!!!! A cachaça quando muito dá cirrose, não dá saúde...

Ah é da alegria que sentimos...
ERRADO!!!! Esta malta, grava durante trinta horas diárias e vive na iminência constante do rapto, assassinato ou assalto à mão armada. Isto provoca tudo menos alegria, penso eu... Stress ou pânico talvez...

Ah é o meu Jesus da Baía...
ERRADO!!!! Se houver um Jesus na Baía provavelmente passa os dias na praia a beber águinha de coco, não tem cá paciência para andar a dar saúde às pessoas...

Está definitivamente na altura de desmascararmos estes alienígenas de uma figa, querem ver telenovelas vejam as da TVI. Isso sim são produções reais, os velhos estão em decadência e os novos, vindos directamente dos castings de agências de modelos, estão em alta. Isto é a vida real...

Sunday, June 10, 2007

O Budismo e a Libertação do Marisco

Meus caros amigos, eu vi a luz... Finalmente há uma credo religioso que me faz sentido na cabeça. POSSO DEIXAR DE SER ATEU!!! YEAH!!!

É que isto do ateísmo já teve mais charme, antigamente ser ateu era um acto de bravura e coragem perante a fervilhante ameaça de ir parar ao inferno, hoje já ninguém olha para isto com aquele misto de admiração e pavor que tanto gozo me dava. Enfim, as modas perdem o glamour, não é novidade para ninguém. Eu tenho respeito pelas religiões, mas nunca consegui acreditar nem abraçar nenhuma… Eu tentei, mas a malta religiosa é pouco dada a abraços e contacto físico em geral. Dizem que tal conduz a uma prática pecadora horrível de nome sexo, mas eu pouco percebo disso...

Bom, no entanto, o importante é que estou finalmente pronto para me tornar crente e a religião que me despertou para esta nova faceta da minha vida é, nada mais nada menos que, o Budismo. E porquê? Primeiro, e chamem-me doido por isso, prefiro fazer as minhas orações perante a estatueta de um senhor careca, bolachudo e sorridente do que perante a de um homem pregado a uma cruz com grande número de escoriações e ar de intenso sofrimento. Para admirar tragédias já bastam os telejornais da TVI... Segundo, porque descobri que os budistas se prestam a rituais fascinantes, nomeadamente aquele que consiste na libertação de animais. Vamos lá ver uma coisa: libertar animais é realmente bonito, principalmente se estiverem presos, e não é preciso ser-se budista para o fazer. Mas aquilo que mais me comoveu ao descobrir esta actividade foi ter constatado que o Budismo dá primazia aos mariscos vivos. Ora, eu sou um interessado pelo marisco. Não tenho vergonha em admitir que aprecio imenso devorá-lo, nas suas mais variadas formas, porque sei que se existisse marisco gigante este não hesitaria em comer-me também. Encontrei no site da União Budista Portuguesa, a seguinte declaração: "De todas as mortes, as mais dolorosas são as daqueles seres que são cozidos vivos, também devido ao tempo da cozedura, em função da dor e da sua diferente percepção do tempo, resultar para eles muito dilatado. É por isso que os budistas privilegiam a libertação de mariscos vivos – amêijoas, berbigão, santolas, lagostas, etc. - , que se podem adquirir nos viveiros e libertar no alto mar ou em lugares fora do alcance ou da vista de quem possa querer apanhá-los." E foi aqui que me ocorreu o chamamento da fé! De nada me valeria andar atrás deles com uma rede de pesca quando se dirigissem para praias isoladas, a malta budista é malta desconfiada e não iria libertar o mariscame directamente para as minhas garras. Se não podes enganá-los, converte-te e junta-te a eles, assim terás boas patuscadas com regularidade.

Claro que depois podem vir dizer-me: "És um sujeito altamente execrável! Abusas da confiança de gente séria para atafulhares o congelador! Os teus companheiros entregam-te marisco para libertares e tu enches a pança!", mas isto é conversa de gente parva que não entende a espiritualidade que envolve uma boa mariscada. Para além de que, se um sujeito budista adepto da prática da libertação de marisco se dirige a uma superfície comercial com o objectivo de o comprar, podem assistir-se diálogos mesmo bizarros:

(empregado) - Ora boa tarde, então o que vai ser?
(budista) - Eram sete sapateiras vivas, faz favor.
(empregado) - Sete vivinhas... é para cozer não é verdade?
(budista) - Ná! É para libertar. Hoje chegam os meus cunhados do norte e vamos fazer uma libertação em família, até para comemorar o aniversário do meu sobrinho e tudo...
(empregado) - Ehpá! Isso é que vai ser libertar! Não se esqueça do Alka-Seltzer.

É por estas e por outras que opto por ser leal ao meu próprio, peculiar e polémico entendimento do Budismo. Para comprar marisco é preciso ter dinheiro, coisa que os monges budistas rejeitam com veemência. Buda é conhecido por ser bastante anafado, com certeza que não foi a beber leite de cabra que ficou assim. Ora, esta religião está cheia de contradições, mas eu aceito-as a todas desde que possa continuar a libertar camarão tigre para dentro do bucho. É apenas uma simples questão de interpretação do saber budista. Eu interpreto-o à minha maneira.

P.S.: Alguém que ensine uma vez mais ao Eusébio a diferença entre marisco e tremoço porque ele tem sido visto todos os fins-de-semana na Praia das Maçãs a despejar embalagens inteiras deste aperitivo. Foi um hábito que ganhou no Oriente aquando do Mundial de Futebol de 2002. Que maçada, pá!

Tuesday, February 13, 2007

Marketing do bom!

Confesso que não sou grande adepto dos desportos motorizados, mas um amigo meu é e outro dia chamou-me à atenção para um dado curioso. Um jornal do ramo, o "Autosport", apresentava na sua capa uma chamada de atenção para a campanha promocional vigente. Ora, essa campanha consistia no seguinte: na compra de um jornal "Autosport", o leitor receberia absolutamente grátis OUTRO jornal "Autosport" igual. Não havia qualquer dúvida, tratava-se mesmo do clássico "pague 1 leve 2". Bom, eu passei por uma série de emoções diferentes ao constatar este facto. De início, deu-me para rir fartas e ruidosas gargalhadas enquanto apontava com o dedo indicador para a publicação. Depois fiquei pensativo... numa viagem interior para tentar entender, no meu mais íntimo, se aquilo realmente era um pouco ridículo. Por fim, voltei novamente a rir histericamente quando cheguei à conclusão de que a minha emoção primária estava correcta. Porque isto, das duas uma, ou é ridículo ou é marketing do bom. A minha questão é muito simples: um indivíduo compra um jornal; chega a casa, senta-se no sofá e lê-o de ponta a ponta; para que é que ele quer outro jornal igual àquele que acabou de ler?? Quanto a mim não faz sentido...
A menos que o leitor tenha Alzheimer, aí realmente a história é diferente: o indivíduo adquire o "Autosport" com a devida promoção; chega a casa, senta-se no sofá e lê-o de ponta a ponta; no final olha para o outro jornal igual e exclama "-Olha o último "Autosport"... ainda não o li.", lê-o de ponta a ponta; no final olha para o outro jornal igual e exclama "-Olha o último "Autosport"... ainda não o li."; e por aí adiante... esta situação poderia prolongar-se para sempre. Mas, partindo do princípio que o target deste jornal não é o de indivíduos com insuficiências mentais, continuo sem entender qual a grande vantagem desta promoção.
Quase que consigo imaginar a reunião de criativos do “Autosport” onde a ideia surgiu… vamos chamar-lhes, sei lá, Auto e Sport por exemplo...

(Auto)- Pois, porque se um gajo não protege as virilhas no Verão, com o suor, aquilo fica tudo verme...
(Sport)- ESPERA!! ESPERA!! IDEIA GENIAL A SURGIR!! EU SINTO-A!! É MESMO GENIAL!!
(Auto)- Epá! Conta conta!
(Sport)- Varreu-se-me... tinha-a na ponta da língua. Deixa lá... vamos prosseguir com a reunião.
(Auto)- Ah pois... a campanha... o que é que havemos de fazer para conquistarmos mais leitores e deixarmos de ter em stock estes milhares de jornais que não foram vendidos...?
(Sport)- Ao menos poupamos dinheiro em cadeiras...
(Auto)- Ao menos isso...
(Sport)- É...
(Auto)- ...
(Sport)- ...
(Auto)- ... mas as virilhas no Verão, para mim, são um problema. Comprei uma pomada na farmá...
(Sport)- ESPERA!! ESPERA!! JÁ SEI!! PROMOÇÃO GENIAL!! PAGUE UM, LEVE DOIS!! É ISSO!!
(Auto)- GRANDE IDEIA!! COMO É QUE EU NÃO ME LEMBREI DISSO ANTES!! VAMOS OBRIGAR OS LEITORES A FICAR COM TODA ESTA LIXARADA EXTRA!!
(Sport)- MUAHAHAHAH!! CONTINUAREMOS A DERRUBAR O DOBRO DAS ÁRVORES SEM NECESSIDADE NENHUMA!! SOMOS GRANDES!! PRIMEIRO OS LEITORES DO "AUTOSPORT", DEPOIS O MUNDO!!

Penso que terá sido mais ou menos assim...
De qualquer forma, e porque este blogue também presta algum serviço público, aqui vai uma singela lista de dez sugestões para que os leitores do "Autosport" saibam o que podem fazer com o outro jornal grátis:

1. Enrolá-lo num canudo e vergastar um cão ou um gato.
2. Acender a lareira agora que está frio.
3. Construir um chapéu bicudo e usá-lo no Carnaval.
4. Recortar pedaços de palavras e letras e enviar uma carta anónima a alguém. Uma ameaça de morte ou assim.
5. Fazer-lhe um buraco e ir para um jardim público. As pessoas vão pensar que está a lê-lo, mas na realidade está a topar as gajas.
6. Com recortes e colagens, fazer um vestido de Sevilhanas e ensaiar um número de travestismo. Diz que dá dinheiro...
7. Enrolá-lo num canudo e vergastar uma criança pequena ou uma velha.
8. Fazer vários barquinhos e organizar uma corrida entre eles na banheira.
9. Amarfalhá-lo numa grande bola e atirá-lo à cabeça de algum ministro.
10. Lê-lo outra vez... no caso de padecer de Alzheimer.

Friday, February 9, 2007

Os Che Guevaras do Cacém

É relativamente comum fazer a viagem de comboio na linha de Sintra, volta e meia deparo-me com situações inspiradoras. Há uns tempos atrás, ao passar pela estação do Cacém, reparei numa inscrição de enormes letras pintadas a tinta vermelha numa parede qualquer. Essa inscrição dizia: "QUEREMOS RAMPAS!! NÃO ÀS ESCADAS!!".
Ora bem, escusado será dizer que o meu dia assumiu uma dimensão completamente diferente. Senti nas minhas veias o verdadeiro fervor da revolta, a vontade cega de me revoltar contra uma coisa qualquer... e porque não contra as escadas? Parece-me um motivo tão bom como tantos outros. De facto, as escadas são estúpidas e há séculos que fazem sofrer o ser humano. Ele é nas pirâmides do México, ele é no Bom Jesus de Braga e não vamos esquecer nos credos religiosos que falam numa escadaria até ao céu no momento da morte. É que nem a bater a bota um gajo se livra dos malditos degraus!!
Não senhor, não me vergarei a tal coisa, não permanecerei no silêncio colaborando com esta situação nociva. As escadas são prejudiciais à saúde... é normal ouvirmos velhinhos dizer que lhes custa subir as escadas, crianças a pedir colinho porque não conseguem ou indivíduos paralíticos a praguejar contra o governo diante delas. Não senhor, eu partilho da revolta do Cacém. Também eu grito a plenos pulmões: "NÃO ÀS ESCADAS!!".
É que nunca ouvimos ninguém queixar-se das rampas ou dos elevadores. Se ninguém se queixa de uma coisa é porque é boa, se muita gente se queixa de outra é porque é má. Deixa ver se me consigo fazer entender: rampas e elevadores-BOM; escadas-MAU. Acho que é mais ou menos isto.
E depois ainda veem com a treta do Step, a dizer que tonifica o corpo subir e descer um degrauzinho durante uma hora ao som de música techno. Só se eu fosse maluco é que acreditava em tamanho disparate! E o que mais me irrita é que um gajo pode lá estar uma hora a fazer aquilo e depois queixar-se porque tem de subir quatro lances de escadas para entrar no seu apartamento T0 (porque sejamos francos, quem pratica step não possui capacidade intelectual para aspirar a grandes voos). Isto do step é uma desculpa esfarrapada inventada pelos defensores das escadas para continuar a justificar a construção das mesmas... Agora quem são estes bandido? Arquitectos? Construtores civis? Engenheiros? Ninguém sabe ao certo. É gente suja que mete ao bolso à conta do sofrimento do povo.
Mas felizmente ainda há quem levante a sua voz para denunciar o monopólio das escadas, quem defenda o direito natural das rampas para competir directamente no universo das plataformas que nos fazem ascender de um plano para o outro. Chamo-lhes, respeitosamente, os Che Guevaras do Cacém: "CONTRA AS ESCADAS, HASTA LA VICTORIA SIEMPRE!!!"