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Friday, September 24, 2010

Há malta que devia levar com um ouriço gigante nos cornos!

Se calhar fui um bocado longe demais com o título... Comecei assim logo a abrir, com linguagem grosseira e maldosa, sem ponta de sensibilidade. Se foi isto que sentiram, peço desculpa.

Mas a verdade é que este título não é nenhum insulto...

É um desejo do fundo do coração.

Um pedido aos céus.

E eu bem o mereço. Sou honesto. Sou trabalhador (bem sei que estou a escrever este texto durante o horário de trabalho mas enfim... para português a fasquia também não é muito alta). Sou do Benfica. Sejamos francos, tudo isto me ajudará a fazer boa figura ao pessoal das togas brancas e das harpas que mora lá em cima, no dia em que eu me finar.

Por isso, eu devia poder pedir uma chuva de ouriços gigantes de vez em quando, e com isso despachar um magote de bandidagem de cada vez, contribuindo assim para um mundo melhor.

Ora bem, ouriços gigantes porquê? Primeiro porque estou ébrio de ódio e já não sei o que digo. Segundo porque têm espinhos afiados e porque, caindo de costas, depois de se espetarem pelo crânio de um indivíduo adentro iriam querer levantar-se e ir à vida deles, fazendo espichar um bonito efeito de sangue e miolos. Sei que é um pouco sádico este cenário mas, neste momento, o que para os outros seria horrível para mim seria fogo de artifício.


A RAIVA QUE SINTO!!!


Então não é que hoje de manhã, ao chegar ao carro, reparei que me fizeram um imenso e poderoso risco nas portas, ao longo de todo o comprimento da viatura? 'Tá tão giro...

E sendo o carro preto, um risco branco fica-lhe mesmo a matar.

O porquê do sucedido? Não sei. Não faço ideia.

O carro estava bem estacionado... Não estava num local de passagem... Não estava em zona de parquímetro sem pagar... Não estava num lugar para deficientes...
Isto embora, tenha lá ido um deficiente fazer m***a!

Fiquei uns bons 5 minutos a olhar para aquela maravilha, de boca aberta e sem grande reacção. Depois, efervesceu em mim um ódio primitivo e apeteceu-me fazer mal a pessoas. Quaisquer pessoas, sem critério. Avistei um grupo de estudantes que podia muito bem ser aviado à estalada. No final, agradecia, dava os bons dias, recolocava o chapéu na cabeça e ia trabalhar. Mais aliviadinho. Mas pronto, não foi bem isto que aconteceu.

Tive de engolir o sapo.

Resta-me concluir que foi obra de um inimigo, alguém que me quer mal e que aprecia erguer o punho e gritar "Saguiiiiim!" com ar demoníaco. Gosto de pensar que tenho um vilão na minha vida e que sou uma espécie de super-herói. Mas não faria mal se o morcão me viesse defrontar em campo aberto, à homem, ao invés de me andar a lixar a viatura. É um vilão um bocado fajuto, diga-se...

Enfim, suspeitos? Há.

Nomeadamente alguns.

E eles aqui ficam referenciados:


1) O meu Vizinho

Apesar de eu já não espirrar em casa há muito tempo, e com isso despoletar o radar anti-barulho que este senhor tem enfiado na peida (perdoem-me o francês), não há dúvida que há-de sempre figurar em toda e qualquer lista de suspeitos que eu faça. Ele odeia-me, isso é certo. O barulho que eu faço a andar no corredor, o som excruciante dos meus chinelos a bater no chão antes de eu os calçar, o horripilante tilintar dos talheres durante as minhas refeições... Tudo isto faz com que o meu vizinho já tenha arranjado uma tendinite de tanto socar a parede, em busca da quietude do mosteiro budista que ele gostaria que Benfica fosse.

Enfim, se foi ele a fazer o risco até admito que não tenha sido de propósito. Se calhar deixou cair qualquer coisa junto do carro e ao baixar-se riscou-me a porta com a cornadura. Já era altura de cortar as pontas, como nas touradas, mas não há meio...

No entanto, acho pouco provável que seja este o meu vilão. Para ir até ao meu carro fazer uma patifaria desta natureza, o homem teria de abandonar a sua tabacaria pelo menos durante 15 minutos, e todos sabemos que é coisa que ele não faz. E além disso, os vilões têm negócios de fachada mais fixes.


2) O Animal da Autoestrada

A besta ensandecida que me ia abalroando no trânsito no outro dia e que provocou num amigo meu a reacção "Wooo wooo wooo"... A avaliar pelos gestos de ódio que o gorila com hemorroidal efectuou dirigidos à minha pessoa, não seria absurdo concluir que ele terá assumido como prioridade acabar o trabalhinho que ia começando em plena autoestrada. Na traquilidade de um parque de estacionamento e sem "Wooo wooo wooo" a atrapalhar...

Apesar de ser um forte candidato à personagem de vilão da minha vida, há que assumir que estaria mais próximo de ser um velhaco das "Wacky Races". Bem diferente do mítico e galáctico criminoso que queria para ser o meu opositor. Por isso, espero que ainda não seja por aqui.


3) O Violador de Benfica

Bem sei que já foi apanhado mas nunca fiando. Lembro que, em Portugal, "apanhado" na grande maioria das vezes significa preso em liberdade preventiva, ou até em alguns casos, uma pancadinha ameaçadora nas costas e um "Vê lá se não voltas a fazer, meu malandro..."

Escrevi sobre o violador há uns tempos atrás nesta ocasião e é normal assumir que ele se quis vingar. Eu não disse mal dele, atenção. Não posso dizer que seja fã da violação ou que a aceite enquanto hobbie. Aconselho sempre os violadores a comerem antes uma peça de fruta ou a enfiarem uma bala nos cornos. Qualquer uma das duas é melhor do que tomar à força aquilo que em circunstâncias normais NUNCA seria deles. E isto é violação 101.

Bom, o violador andava a rondar o meu prédio, como provou um cartaz colocado no hall de entrada, escrito a marcador de feltro, por um dos meus vizinhos. A verdade é que o indivíduo não conseguiu levar a dele avante comigo e, cego de fúria, é bem possível que me tenha vindo riscar o carro. Apenas uma teoria...


4) O pensionista que gosta de obrar em piscinas

Last but not least e, quanto a mim, a hipótese mais provável. Escrevi sobre ele no meu último post, o causador da minha mais recente aversão ao exercício físico. No painel informativo da piscina onde costumo ir nadar estava um aviso que visava impedir que fossem, "uma vez mais", encontradas "FEZES" na água.

Eu exprimi a minha repulsa e ele não deve ter gostado.

Assim, não contente de espalhar m***a no sítio onde eu pratico natação lembrou-se de ir espalhalá-la também no meu meio de transporte. A mais plausível mas ainda assim difícil de considerar. Isto porque sabemos que o que os pensionistas gostam é de andar na autoestrada em contramão. Como tal, nunca que ele teria conseguido chegar inteiro a Benfica.


Tirando estes artistas, não consigo dizer quem foi.

Apreciava muito que Deus tivesse uma qualquer espécie de número verde para o qual eu pudesse ligar e resolver logo a questão de uma vez. Ir direito ao patrão sem passar pelos subalternos. Equivalente àquela altura em que dizemos ao telefone: "Quero falar com o gerente."

No entanto, penso que se assim fosse, para mim o número estaria sempre impedido. Ou então o anjo que atendesse diria que "ia passar" e punha-me a ouvir "O Bicho" de Iran Costa em loop, para todo o sempre.

Pensando bem, talvez não hajam fãs de Iran Costa no paraíso...

E o melhor é calar-me já senão o Iran Costa ainda se lembra de me ir riscar o carro.

Houvesse um ouriço gigante que lhe lixasse a coreografia!

Hoje estou de todo...

Wednesday, September 15, 2010

O Dia em que o meu Mundo parou

O meu dia hoje foi de cão.

Mesmo.

Não daqueles cães maricas cheios de berloques e perfumes até à ponta do focinho, habituados às mais elaboradas mordomias. O meu dia foi de cão sarnento, dos que andam a fuçar no lixo à procura de jantar e que acabam a roer uma bota, um pneu ou uma camisola do Sporting (não que esse cenário seja minimamente credível mas depois de um dia destes sabe bem achincalhar o clube rival).

A vida actualmente até corre bem. Tenho um emprego agradável com malta afável e simpática. Tenho uma família que sim senhor em todos os aspectos, amigos que valem a pena e até uma mulher que por sua livre e espontânea vontade mantém a decisão insana, dizem alguns, de partilhar a vida comigo. Eu até vou para uma casa nova, para longe do burjeço do vizinho que se excita a bater na parede, e tudo isso faz de mim um tipo feliz.

Tenho um pouco de peso a mais é certo. Mas até esse handicap está a ser combatido, dado que me inscrevi há algumas semanas numa classe de natação livre numa piscina perto do trabalho.

Portanto nada, mas mesmo nada, fazia prever o dia de hoje.

Passo aqui a relatá-lo, para que todos possam partilhar da minha dor:


O RELATO CHOCANTE, E SEM CENAS CORTADAS, DO UNANIMEMENTE PROCLAMADO COMO UM DIA MUITÍSSIMO FEDORENTO NA PELE DO SAGUIM (TAMBÉM CONHECIDO COMO "O DIA EM QUE O MEU MUNDO PAROU")


8:30

Toca o despertador. Acordo imediatamente mas o sono e a chamada ronha impedem-me de içar o meu enorme corpo de mamute. Deixo-me estar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca. A gata mia como se estivesse a ser esventrada. Eu limpo o fio de baba e ignoro os miados angustiantes do raio da gata. Deixo-me estar. A gata mia como se estivessem agora a enforcá-la com as próprias tripas. Eu levanto-me para garantir que não é isso que a minha mulher está a fazer.

9:20

Saio de casa com o meu chapéu de abas enterrado na cabeça. Digo enterrado porque já não o uso há alguns meses e aparentemente mirrou. Ao contrário da minha cabeça que continua a crescer sem qualquer controlo desde os 4 anos de idade. O chapéu corta-me a circulação na testa. Eu não ligo porque gosto de me ver de chapéu. As pessoas na rua não. Afastam-se. Olhando-me ao espelho consigo perceber porquê. Pareço um cigano. De barba, camisa escura e chapéu de abas. Era darem-me uma guitarra e verem-me interpretar "Borbujas de amor" de Juan Luis Guerra. Só que mais gordo. Acho eu porque nunca mais o vi.

9:30

Chego de carro ao Colombo, chapéu a abrir-me um lenho na testa tal é a pressão, para dar boleia a um amigo meu em direcção ao escritório. O gajo ainda não chegou. Páro o carro junto à berma do passeio, 4 piscas ligados, deixando o espaço semelhante ao estádio do Belenenses disponível ao meu lado para não atrapalhar o trânsito. Um gajo ao lado faz o mesmo e pára a lata dele junto ao outro passeio, deixando apenas metade do estádio do Belém. Continua a haver todo o espaço do mundo. Uma mulher idosa pára atrás de nós e começa a apitar muito irritada, cheia de linguagem gestual. Eu deixo-me estar a gozar o espectáculo. À espera que lhe dê um AVC. Ela sai do carro. Eu penso "Tu queres ver?". Em vez de ir chatear o outro vem-me chatear a mim. Eu penso em ir buscar a tranca na mala do carro para lhe desfazer a dentadura à base de marretada mas lembro-me que é capaz de dar cadeia. Ela diz: "Então como é?". Eu pergunto: "Não passa?". Ela volta para o carro e passa. Sempre a insultar-me. Passa ela e passaria um boeing 747. Mas ainda assim não me safo de a ouvir. Continuo à espera que lhe dê um AVC. Mas o carro não se despista. Então presumo que não lhe deve ter dado.

10:20

Chego ao escritório. Tiro o chapéu da cabeça exibindo uma bonita linha vermelha na testa semelhante à cicatriz de uma lobotomia. Ninguém comenta mas eu ouço os risinhos surdos vindos daqui e dali. Não ligo porque o chapéu é fixe. Stress lá num trabalho. Um telefonema, meia dúzia de calmantes e tudo parece estar encaminhado. Mas digamos que se entrasse por ali uma família de jaguares prontos a devorar-me naquele momento não iriam achar a minha carne nada tenra. Isto para além do excesso de gorduras polinsaturadas que lhes causaria o tal AVC que eu desejava que tivesse dado à velha. E o que é que a velha tem a mais do que os jaguares? Nada. Excepto o mau humor. Mas adiante...

12:00

Hora da natação. Nadar, descontrair, esticar os músculos, imitar uma baleia azul e fazer de conta que se está num programa da National Geographic. Tudo coisas giras. A água está a 33º. E o ambiente na piscina está ainda mais quente. Fui com um amigo que não se dá bem com esta temperatura. É natural. Ele e todos os outros que não apreciam cozeduras. Eu também sou um deles mas como preciso de perder peso prefiro pensar que é sauna / natação. Saio um pouco da piscina e decido dar um salto ao jacuzzi. Para descontrair. Entro no jacuzzi. A água deve estar a 60º. Perco a sensibilidade da cintura para baixo. Mas deixo-me estar. Paralítico mas feliz. Vem a responsável pela zona das piscinas. Sou expulso do jacuzzi. Diz que não posso estar ali, que tenho de pagar. Eu rio-me com a perspectiva de pagar para ser cozinhado. Saio do jacuzzi. À vista dela, como um marginal. Vou tomar banho para voltar ao trabalho.

13:00

Já chove. Coisa esperta. Ainda meio molhado da banhoca e já novamente molhado da chuva. Dá-me muita alegria. E desconforto também. Corro de volta para o escritório.

13:15

Vou aquecer o meu almoço: arroz de pato da Nobre. Uma embalagem com arroz e outra com pato. Engenhoso. A ideia era aquecer uma de cada vez e depois juntá-las. Eu junto-as logo e aqueço-as juntas. Não porque fique melhor mas porque não tenho paciência para esperar. O aspecto é miserável. Levo a papa para a mesa e procuro ignorar os olhares de nojo dos meus colegas. "Parece comida de cão...", comenta alguém. Eu concordo com as orelhas cabisbaixas. Compreendo que a minha mulher não tivera tempo para preparar nada melhor no dia anterior. E eu também não a quis obrigar. Ser bondoso dá nisto. Penso em colocar o prato num dos cantos da sala e comê-lo nas 4 patas como seria coerente. Mas acabo por comer à mesa, mesmo não merecendo.

16:00

O dia de trabalho corre stressante mas agora mais normalmente. Boa parte dos nervos já se foram e até parece que o dia tem alguma salvação. Fico a saber que o meu amigo, tendo abandonado a piscina mais cedo por a considerar algo muito próximo de um caldeirão de canibais no pico do fogo, decidiu preencher um daqueles papéis de reclamação / sugestão na secretaria. Eu acho bem, já estava na altura de alguém encostar os sacanas à parede. Só pela vingança de me terem expulso do jacuzzi. Aquilo, na realidade, não é um complexo de piscinas, digamos, normal. Pertence a uma associação de uma doença degenerativa nos ossos e é, em grande parte, destinada a tratamentos e, directa ou indirectamente, a pensionistas. Mas depois também há vagas para o público em geral, ou seja eu e o meu amigo, os únicos que deixaram de lado preconceitos e decidiram aceitar aquilo como uma piscina como outra qualquer, sem olhar ao mau aspecto que dá a tipos como nós frequentarem tal local. Ora, tudo correu bem até ele relatar o que lera no painel de informações aquando da entrega da sua reclamação.

...

Passo a citar:

"AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NA PISCINA..."

...

...

É preciso dizer mais alguma coisa?

...

Haverá mais alguma maneira de Deus me dizer que eu sou o Seu bobo favorito?

...

...

FEZES?!

...

...

Eu só queria fazer algum desporto... Mexer-me... Tornar-me mais saudável...

...

...

FEZES?!

...

...

Porquê eu?! O que é que eu faço agora?! Continuo a ir sujeito a... Jesus, nem consigo dizer... Sinto-me sujo, como se tivesse sido violado por javalis.

...

...

FEZES?!

...

...

Fezes...

...

Nessa altura, seria normal assumir que o meu dia tinha atingido o clímax. Mas não... Ainda não.

18:00

Ainda enojado pela história das fezes, e sem fazer qualquer ideia de como irei lidar com a situação, "arrumo a loja" e vou-me embora para casa. Tenho ainda de ir dirigir um pequeno workshop e, num dia como este, tudo pode correr mal. Dou novamente boleia ao mesmo amigo da manhã e a uma amiga que vai no banco de trás. Serenos da vida, seguimos caminho.

18:20

Estou na autoestrada de Cascais, rumo a Lisboa. Estou na faixa da esquerda. Faço pisca para a direita. Não vem ninguém. Lentamente, vou ocupando a faixa do meio. Na mais profunda paz. De repente, aquilo que parece ser uma mistura entre urso pardo com distúrbios mentais e o cú de uma vaca aparece lançado da faixa da direita sem fazer pisca e disposto a abalroar-nos. A minha amiga do banco de trás vê a tragédia a avançar na nossa direcção mas decide não dizer uma palavra. Para não incomodar. Porque quando um tipo leva com a frente de um chaço a enfaixar-se no seu porta bagagens, é bom que não haja nada a chateá-lo. Melhor ainda foi a reacção do meu amigo. Esse preferiu exprimir o seu pânico / indignação, ao ver a besta desvairada a aproximar-se, com a seguinte expressão: "Wooo Wooo Wooo". Sabem o que isto quer dizer? Eu também não. Mas ao menos deu para me aperceber da bonita colisão que se aproximava. Ao mesmo tempo, e a par do "Wooo Wooo Wooo" o meu amigo tentava também proteger-se com as mãos. Porque sabemos que se a outra carroça se enfiasse por ali adentro era bom que alguém lhe metesse as gânfias. Para evitar estragos maiores. Fui a tempo de me desviar e de apitar violentamente, esperando que o som fizesse explodir o cérebro diminuto do quadrúpede. E o ruminante levou a mal. Perseguiu-me e uns metros à frente colocou-se ao nosso lado, desenvolvendo toda uma panóplia de gestos em tudo semelhantes aos da velha do episódio matinal. Eu mandei-o ir pastar. E ele, cego de fúria e de assadura no escroto, seguiu em alta velocidade protagonizando novo episódio parecido com o nosso com outro carro uns metros mais à frente. Enfim. Apesar de tudo, senti-me agradecido pelo dia maligno me ter poupado de um choque no meio da autoestrada. Porque a avaliar pela sede de porrada do animal mau condutor era bem possível que não me safasse de andar à bulha por entre centenas de veículos em alta velocidade. Era capaz de correr mal e eu já não estar aqui a escrever-vos estas linhas. Ou então a escrevê-las com uma jante enterrada na cana do nariz. Quem sabe?

19:00

Deixei os meus companheiros nos locais respectivos. Estacionei o carro perto de casa. Agora vou apanhar o comboio. Tenho de comprar um bilhete de ida e volta pois não tenho passe. Passe é para os pobres. O comboio está a chegar. Há filas nas máquinas de comprar bilhetes. Que surpresa chocante. E as filas não estão a avançar. E o comboio a chegar. Duas mulheres permanecem especadas em frente ao mostrador da máquina, carregando nos botões aleatoriamente, queixando-se que "Não dá!". Eu sinto-me cansado. Podia chegar-me à frente para as ajudar mas nada faço. Não há nada que eu possa fazer. Há anos que ando de comboio e se há coisa que essa experiência me ensinou é que sempre que vou comprar bilhetes há SEMPRE alguém que permanece especado em frente do mostrador, a carregar nos botões aleatoriamente e a queixar-se que "Não dá!". Mesmo sem tempo nenhum e a ver a minha vida a andar para trás, depois de um dia que me deixou quase literalmente de rastos, prefiro imaginar as variadas formas de como as duas mulheres podiam morrer naquele momento. Imagino-me a cortar-lhes as gargantas com o meu bilhete por carregar, à Steven Seagal, e a atirar-lhes as cabeças com violência contra à porra do mostrador que simplesmente "Não dá!". Sorrio com muita malícia. Acordo do transe, preocupado com a minha escala de valores e capacidade de distinguir o bem do mal, e carrego o bilhete na outra máquina.

19:20

Aproximo-me da escola onde vou dirigir o workshop. Apercebo-me que me esqueci da chave da mesma, que era suposto devolver. Apenas mais uma acha para a fogueira do dia 15. Nada de relevante, atendendo ao que já passei desde manhã. Caminho para a sala, com os nervos à flor da pele, receando que os formandos me esperem com archotes e forquilhas, dispostos a perseguir até à morte o impostor azarado, isto seria eu, só para coroar em beleza um dia mau. Aí eu fugiria hurrando até um moinho abandonado, eles deitariam fogo ao moinho e eu conheceria um horrível fim entre chamas e faíscas. Enquanto isso, o meu amigo gritaria lá em baixo qualquer coisa como: "Wooo Wooo Wooo" para me avisar que algo de terrível estaria para acontecer. E eu, antes de conhecer o meu fim veria num letreiro um aviso com a seguinte inscrição: "AVISAM-SE OS ASSOCIADOS QUE UMA VEZ MAIS FORAM ENCONTRADAS FEZES NO MOINHO..." Enfim, agora dispersei-me um bocadinho.

19:30

Chego à sala. Nada de aldeões raivosos sedentos de vingança mas sim um dos formandos que chegou mais cedo. Explico-lhe que o meu dia está a correr tudo menos bem enquanto tento servir-me um copo de água. O jarro resvala e produzo um fantástico efeito de cascata pela mesa de formação afora. Pergunto-me o que mais falta acontecer... Mas não obtenho resposta e dou início ao workshop.


Agora estou em casa. Sendo que são agora 1:46, "O Dia em que o meu Mundo parou" conheceu o seu fim há já alguns minutos. Sobrevivi a ele e sinto-me como um daqueles veteranos de guerra, disposto a juntar-me em almoçaradas aos companheiros que, como eu, também lhe fizeram frente. Num restaurante porreiro com ambiente acolhedor. Comida caseira. Vinho da casa.

E se possível sem fezes...

Thursday, September 2, 2010

L'appareil est prêt a fonctionner

Não restam quaisquer dúvidas: tenho um poltergeist emplastrado no chão do escritório em minha casa.

Bom, não é propriamente só no chão. É mais na base duma mesinha de apoio, com gavetas, que tenho junto ao sítio onde geralmente me sento com o computador. E isso ainda intensifica mais a gravidade da coisa. Daquilo que sei de poltergeists, que felizmente é muito pouco, são tipos para fazerem traquinices daquelas sérias e eu tenho aqui guardada uma pilha de documentos importantes que detestaria ver queimados, rasgados ou decorados com falos pintados com sangue de galinha. Parece-me ser do género de coisas que eles fazem...

No fundo, e no meio desta história toda, quais são as minhas certezas?

1.
O poltergeist fala com alguma frequência. Mais até do que eu desejaria. É que normalmente quando estou no escritório estou a escrever e, a contrário dos bons escritores, faz-me muita confusão ouvir qualquer som quando estou a redigir qualquer coisa. Se eu nem sequer ligo o iTunes, imaginam com certeza a confusão que me faz ter p'raqui um poltergeist a palrar. Quebra-me logo a concentração!

2.
O poltergeist tem voz de mulher. Esta então não me surpreende nadinha e vocês sabem porquê...

3.
O poltergeist fala francês. E sendo que eu não falo, isso irrita-me profundamente. Até hoje ainda não foi ordinário comigo mas sabe Deus quando é que ele vai perder a compustura. Também, verdade seja dita, não lhe dei razões para tal. Não o tenho incomodado nada, não chamei exorcistas cá a casa nos últimos tempos, não o borrifei com água benta (até porque não a tenho, para usar a cá de casa teria de o fazer com água da EPAL e calculo que não tivesse o efeito desejado), não sintonizei o canal Canção Nova na TV, enfim... Tenho sido um santo para este poltergeist, diga-se.

4.
O poltergeist diz uma e uma só frase que é: "L'appareil est prêt a fonctionner".


Ao invés destas certezas me elucidarem de alguma forma, muito pelo contrário, enchem-me de dúvidas e de temores. A que "appareil" estará ele a referir-se? Será uma qualquer máquina demoníaca destinada a causar a morte e a destruição pelo mundo fora?... E ele, ao imaginar o início do cataclismo, esfrega as patinhas de cabra e diz, com um tom sinistro, que a geringonça está prestes a funcionar?!

É que se é assim julgo que até conheço a geringonça a que ele se refere. Aquela que tem em mim tais efeitos dá pelo nome de GPS e sim já quase me levou a enforcar-me numa figueira depois de uma série de enganos e trapalhadas. A dada altura parece que tudo está ligado.

No entanto, lamento desiludir-vos a todos fazendo esfumaçar-se esta teia de enganos e metáforas à qual eu próprio vos atraí. Não há nenhum poltergeist na base da mesinha de apoio do meu local de trabalho em casa. Eu sei que, assim a frio, a notícia pode ser chocante mas é esta a verdade.

Há é uma balança de casa de banho falante que, dada a falta de espaço deste albergue de gnomos que é a minha actual residência (desejoso de sair de Benfica!), teve de ser guardada debaixo da tal mesinha, pronta a entrar em acção sempre que alguém dela se lembrasse.

O problema é que ninguém se lembra... Mas ela insiste em impor a sua presença com uma constância alarmante. Volta e meia diz "L'appareil est prêt a fonctionner" como que querendo lembrar-nos que está a postos, que está presente, que pode e quer trabalhar.

Eu no entanto continuo a ignorá-la.

Há 11% de desempregados neste país e nenhum deles se enfia cá em casa a dizer-me em francês que quer trabalhar.

Como tal, ela que vá para a fila como toda a gente.

Friday, August 27, 2010

Carta aberta ao meu vizinho

Ora então parece que vou mudar de residência muito em breve. Vou-me embora de Benfica. Não, não vou ser expulso da actual casa por incumprimento de renda, essa tem sido paga a tempo e horas, mas decidi que estava na altura de seguir para outras paragens.

E aí sim tenciono não pagar a renda. Mas isso é outra história...

Ao contrário do que imaginei quando me mudei para aqui, o dia da minha partida não será marcado por dezenas de vizinhos em lágrimas, observando com mágoa a saída do mais cintilante foco de luz e alegria que passou pela Rua da Venezuela nas últimas décadas... Para os mais desatentos, isso seria eu.

Ao contrário do que imaginei no passado, afigura-se-me que não é nada disso que se irá passar. Primeiro, porque depois de 2 anos e meio de aqui estar não conheço as pessoas que moram neste prédio. E assim sendo seria estúpido se eles desatassem a chorar quando me vissem a ir embora. Segundo, porque os poucos que reconheço de vista são uma cambada de broncos mal encarados que não perceberiam a sensibilidade nem que ela lhes desse uma lambada com toda a força nas trombas. E isto, atenção, é dito por alguém que é sensível... uma vez mais, para os desatentos, estou a falar de mim.

Ora, se grande parte dos meus vizinhos nutre por mim o mesmo tipo de desprezo que eu nutro por eles, orgulho-me em dizer que há um que é especial: o camarada aqui do apartamento ao lado.

Um tipo encantador que gosta de exprimir o seu encanto em pancadas na parede sempre que eu, ou alguém que esteja em minha casa, faça um som ligeiramente mais alto do que uma torneira a abrir, de um ratinho a chiar ou de uma folha sêca a cair no chão. Manias...

Eu podia aproveitar isto do blogue e da net para vociferar uma catrefada de insultos e ordinarices arbitrárias para me despedir do indivíduo. Mas ao invés disso, decidi ser o "bigger man" e deixar-lhe aqui uma carta aberta, de homem para homem, de modo a resolvermos a bem o mau ambiente que se gerou e que acompanhou a nossa convivência predial nos últimos tempos.

Ora então cá vai...


Prezado Boi

Perdoa iniciar esta carta apelidando-te de bovino mas a verdade é que não sei o teu nome e o emprego do dito animal deve-se às suas numerosas qualidades. Porque é um exemplo de força. Porque é um símbolo de nobreza.

Ah e também porque é cornudo.

Imagino que não vás sentir a minha falta e contente decerto ficarás quando souberes que vou definitivamente para longe de ti. Muitas foram as vezes que ouvi pesadas murraças na parede da minha sala durante amenos jantares aqui passados, sempre que alguém, imaginem lá o displante, se risse um pouco mais alto...

Atenção. Eu entendo a tua aversão ao riso.

Se eu tivesse a tua aparência, acredita que também não tinha vontade nenhuma de me rir e era possível que me irritasse no mais profundo das entranhas se alguém junto a mim o fizesse. Mas também não nego que essa tua implicância me fez lembrar aquele monge velhaco do "Nome da Rosa"... Sabes qual é? Aquele que desatou a matar os outros porque tinham descoberto um livro de anedotas e ele achava que o riso era diabólico e próprio dos macacos. Qualquer coisa do género.

Apesar de considerar praticamente nazi o teu horror a tudo o que é gargalhada sinto-me agradecido por não me teres vindo para aqui encher os livros de veneno. Não me interpretes mal, não me afectaria porque eu pouco leio, é mais porque não gostava que entrasses cá em casa. Gosto de ter um certo controlo nesse aspecto.

Bateste muitas vezes na parede, e tu sabes disso, pelos já falados risos, a principal razão, por uma ou outra expressão mais efusiva de surpresa ou alegria, como tu detestas isso, ou até pelo barulho que fazem sandálias a cair no chão, ao serem descalçadas. Esta então é a melhor. E uma vez mais estou ao teu lado nesta matéria. Aquele estalo que as sandálias fazem no contacto directo com o soalho é sem dúvida um enorme flagelo. Nem sei como aguentaste tudo isso sem fazer queixa à polícia, mas portaste-te como um homenzinho e por isso te agradeço. Ao invés, deste pancadinhas na parede. Sim senhor.

Eu sei que ficas assim irritadiço porque precisas de dormir à noite. Sei que és um homem de negócios... Não propriamente de negócios mas de UM negócio: uma tabacaria a 200 metros aqui do prédio. Daquelas que, para além dos tabacos, dos jornais e da pornografia, também vendem bonitos gatos de louça e outros bibelôs que, apesar de estarem à venda, já fazem parte da mobília por ali estarem há tantos anos.

Percebo que te levantas da caminha sempre às 6 da manhã para abrir o estaminé, todos os dias do ano sem pausas semanais nem férias nem Natal nem nada mais que o valha. Podia ter pena de ti mas não tenho. Muito sinceramente, quero que te lixes. E quero que te lixes não por despeito ou por que me sinta picado pelas tuas pancadinhas carinhosas. É mesmo porque és estúpido.

Tanta dedicação para quê?! Nunca vais a lado nenhum... Nunca gastas o dinheiro para o qual tanto te esforças em nada que se veja ou que valha a pena. Não integras projectos de solidariedade, não visitas os amigos (se é que os tens), não privas com prostitutas, não fazes nada. Casa-Tabacaria. Tabacaria-Casa. A tua vida limita-se a 200 metros p'ra lá e p'ra cá. 200 metros de ambição, o terreno que pensas que já conquistaste e no qual julgas ser O MAIOR.

E és pá. Fica lá com a taça.
Fica lá com este trecho da Rua da Venezuela todo para ti. Quero lá saber.

Pessoalmente considero que quando é isto o nosso Shangri-La, é sinal que algo está errado. Até porque, e desculpa estar a tocar na ferida, não estás a ir p'ra novo, meu caro. E além disso esse penteado é um enorme entrave à aproximação das gajas. Estou só a dizer...

Outra coisa que justifica seres ainda solteiro, e, permite-me dizê-lo, azedo com'á m***a, é o cheiro intenso a peixe frito que emana do teu casebre quase todas as noites. Que raio é aquilo, pá?! És um aficionado de peixe frito, é? E não sabes que isso, mais do que todo o barulho do mundo, justificaria eu passar o serão às marradas à mesma parede onde dás murrinhos sempre que alguém, segundo os teus parâmetros, "passa das marcas" em termos sonoros? É um pivete que não se aguenta!

Mas a verdade é que nós nunca fizemos assim tanto barulho... Nem nada que se pareça. Foste mesquinho, há que dizê-lo. E também há que dizer que o meu desejo mais profundo é que venha cá para casa um de dois: ou o elenco inteiro do Circo Cardinali, anões incluídos, disposto a ensaiar toda a santa noite, ou os Pólo Norte. Aí é que ias ficar com a mãozinha feita em papa, amigo.


E ao ver-teeeeee, Lisboa Lisboaaaa...

(pum pum pum)

Perdereeeeee o Bairro da Madragoaaaaa...

(PUM PUM PUM)


Não era mais que justo e era o que merecias.

Está pois na hora de me despedir. Não com amizade, à Sousa Veloso, porque és uma besta, mas com a mesma rudeza com que lidaste com a minha presença durante a nossa condição de vizinhos.

Apesar de tudo desejo-te o melhor. Que alguém finalmente compre pelo menos um dos gatos de louça ordinária que vendes na tua xafarica e também que consigas acrescentar mais 100 metros ao teu percurso diário até morreres. Talvez passes a ir à tasca da esquina beber uma imperial ao final do dia. Seria uma boa maneira de gozares os teus anos dourados.

Um grande abraço deste que não pode contigo

Saguim

Sunday, August 8, 2010

Ele há coisas...

Há coisas na vida para as quais não tenho resposta.

Eu e todos nós, diga-se. Por muito inteligentes que consigamos ser, por muito cultos ou perspicazes, há sempre uma ou outra coisa que nos escapa e nos deixa boquiabertos, com ar de mongos. Eu julgo até que é nesses momentos que toda a raça humana se encontra: novos e velhos, pobres e ricos, pretos e brancos... Tudo com a boca aberta, fio de baba pendente e ar perdido. Porque há coisas que estão destinadas a constituir mistério para todo o sempre.

Uma destas questões por resolver, no que diz respeito ao meu percurso até à data, é a seguinte:

Porque é que, quando eu andava na escola, aquele que sacava mais miúdas era um indivíduo que exibia um pedaço permanente de ranho verde entre uma das narinas e o topo do lábio superior?

Isto, tal qual.

Ehpá porquê?

É que o rapaz apresentava-se assim todos os dias sem excepção. E o gajedo atirava-se aos seus pés, sedentas que estavam da sua atenção, indiferentes ao aspecto repugnante e, justifica-se a comparação, mongolóide, do imberbe. Eu na altura julgava que ele não se apercebia que era ranhoso e que mantinha aquilo ali por uma questão de desleixo ou ignorância. Hoje a única certeza que tenho é que ele não só sabia que tinha ranho como o deixava ali estar como uma qualquer estratégia doentia de Dom Juan de trazer por casa. Porque se há malta que aprecia ver meninas a esfregar-se em balões ou até ter as partes baixas pisadas por sapatos com salto de agulha, então isto do ranho verde é capaz de ser o grau zero dos fetiches pervertidos.

Para o sujeito, o ranho atraía namoradas assim como aquelas fitas da cola castanha atraem e aprisionam moscas. Era certinho.

E eu nunca percebi porquê.

Mas, ao mesmo tempo, aceito que o mundo é mesmo assim, há coisas que também só têm piada se ficarem no limbo das certezas. Será que há vida depois da morte? Haverá seres extraterrestres? O universo é mesmo infinito? Porque é afrodisíaco o ranho verde? Tantos e tão maravilhosos mistérios que, só por si, concentram a piada que é estar vivo.

No entanto, quero crer que isto do ranho não está ao alcance de qualquer um. Há que saber usá-lo. Não foi com certeza com muco que conquistei a minha mulher. Uma vez atirei-lhe com um copo de galão em cheio na cara, em golfadas, mas isso foi porque me engasguei e não porque estivesse a fazer uso de algum tipo de charme. Sei o que estão a pensar: galão e ranho não são de todo a mesma coisa... Mas quando se apanha com café com leite regurgitado na tromba é igualmente nojento. Se fosse ranho a reacção dela teria sido a mesma: um sorriso gracioso, um movimento suave em direcção à porta e o caminho até ao duche de casa em doces passadas, sem dizer palavra.

Os choninhas todos do mundo podiam imitar o mítico pedaço de ranho verde que, estou certo, pouco conseguiriam retirar do look. Aquele indivíduo exibia-o com mestria, com um tipo de autoconfiança arrogante de quem está seguro do seu ranho, de quem tem a certeza que é "o maior". E que só irá partilhar o muco com a tipa que o merecer. Que foram muitas, na altura.

Passados estes anos todos penso que fiz as pazes com o universo. Continuo a pensar nisto bem mais do que devia, bem sei, mas resolvi aceitar que nunca vou entender exactamente o que se passou. Havia ranho, não há dúvida disso. Ele era bem evidente, com um tom de verde que de tão vivo às vezes parecia ter luz própria (o que devia dar um jeitão à noite a atravessar as ruas) e a sua consistência era perfeita: não tão rijo que o fizesse secar e não tão mole que o tornasse líquido e escorregadio. Estava no ponto. Exactamente no ponto.

Hoje, o indivíduo deve ser, seguramente, alguém que sim senhor. Daqueles que aparecem nas revistas agarrados às miúdas dos Morangos ou àquelas outras que não se sabe bem o que fazem, embora se desconfie que estão isentas de impostos. Estou certo que o tipo hoje tem tudo: dinheiro, sucesso, coca e muitas beldades no seu leito.

O suficiente de fama e fortuna para garantir que na redacção da revista vai haver alguém que abra as fotos no Photoshop...

E QUE LHE APAGUE A PORRA DO RANHO!!!

Sunday, July 18, 2010

Ah a praia

Ah a praia...

A brisa suave que enternece os corpos semi-nus, expostos ao calor da nossa maior estrela, dona da luz sagrada que alimenta corpo e alma.

Ah a maravilhosa praia...


Não sou grande fã.


Hoje passei por uma. Não estava tempo para isso mas ainda assim apeteceu-me lá tomar café. E como também não tinha mais nada para fazer, decidi tirar partido do computador e dissertei... Dissertei sobre o que se passava à minha volta.

Cá vai...


"É praticamente meio-dia e estou sentado, de portátil ao colo, numa esplanada da praia do Baleal. Perto de Peniche. Estou aqui sentado a escrever baboseiras porque, e apesar das centenas de pessoas que se encontram a chafurdar na areia e nas ondas neste preciso momento, NÃO ESTÁ TEMPO DE PRAIA. Ok?

É que às vezes parece que tenho de gritar para me darem alguma atenção. Isto cansa, pá!

Ora bem, porque é que eu digo que não está tempo de praia?
Porque está frio e o céu está encoberto. Isto para mim é não estar tempo de praia.

Mas claro que há sempre um magote de jagunços a pensar o contrário. Deus os abençoe.

Eu cá não entrava nesta água hoje nem que o Figueiras (porque todos sabemos que na altura das férias o Figueiras entra em acção e substitui a maior parte dos apresentadores de concursos da SIC) me oferecesse um milhão de euros ou uma noite com uma espantosa modelo - viram como não indiquei o nome da modelo? Para me salvaguardar de possíveis represálias ou olhares de nojo lançados pela minha mulher. Isto é assim, escrever disparates muito bem mas sempre com um olho no burro e outro no cigano, que este menino ninguém apanha desprevenido. É o apanhas!

Bom, se no caso da modelo ver-me-ia forçado a rejeitar a oferta graças ao amor incondicional que sinto pela minha cara-metade (embrulha!) já no caso do dinheiro só não aceitaria porque então um milhão de euros seria efectivamente o preço da minha morte.

Se eu entrasse neste mar morreria.

Sem pestanejar.

Sem um último insulto aos meus inimigos.

Sem mais nada.

Bom, neste momento a questão para a qual se exige resposta é: porque estou eu a escrever estas linhas agora?

Porque a praia é um palco de bizarria que me merece comentário.

Primeiro: EU estou cá.
A partir daqui deveria ser sempre a subir não é? Mas não é.

Ainda agora se levantou uma estrangeira que se sentou na minha mesa a beber um galão. Eu só a autorizei a tirar uma cadeira mas ela achou que esse consentimento se alargava a ocupar 50% do meu espaço. Ah e quando eu falo em estrangeira falo em 80 quilos de norueguesa! Daquelas que, com uma patada, me viraria a cabeça ao contrário, a 180º, como aquele famoso golpe do Bruce Lee que punha os inimigos a “nanar”. Pronto, ao menos agora a Helga foi à vida dela. Já não é mau.

Há pouco, à minha esquerda um emigrante português quase certamente radicado em França, gritava obscenidades em conversa amena com a mulher. Pelo que percebi, não estava zangado com ela, estava zangado com uma qualquer situação. E as obscenidades, gritadas num misto das duas línguas, portanto em luso-francês, não suscitavam na esposa qualquer reacção adversa mas sim um olhar de respeito e admiração.

Quero isso para mim.

Amanhã ao pequeno almoço vou experimentar ser ordinário com a minha mulher em luso-francês. A ver se resulta.

À minha direita, bamboleia-se uma mulher a quem me apetece pedir por Deus para não voltar a usar biquíni. Claro que todos nós temos o direito democrático de o usar, eu incluído, mas quando o nosso corpo se assemelha a uma alforreca gigante, isso deveria ficar automaticamente fora de questão.

Também à minha direita, uma septuagenária vagueia confusa por entre as mesas da esplanada. A julgar pela atitude e pela maneira como está vestida, dá a entender que veio aqui ter por engano. Seguiu uma indicação errada para a Pastelaria Versalhes, fornecida ou por mim ou por outra septuagenária, e quando deu por ela estava a ouvir os berros irados do emigrante. Eu podia ajudá-la mas sempre me foi incutido que não devemos falar com estranhos.

E se esta velha tem um olhar sinistro...

Ao topar para o horizonte, sou obrigado a constatar que este tempo manhoso não afasta os fiéis resistentes aqui da praia. Como os admiro…

A sua incontrolável fixação pelo “tostanço” faz com que para aqui viessem mesmo que houvesse alerta de tsunami. “É da maneira que corre uma aragenzinha...”, diriam eles, amarrados aos bares de praia. Os bravos.

Isto lembra-me que ontem, aqui mesmo neste local, vi uma rapariga cuja pele se assemelhava ao tipo de madeira que os meus pais têm no tecto do corredor de casa deles. Mogno.

E a miúda era loira, daquelas que costumam ser muito branquinhas.

É nestas alturas que recordo o saudoso Michael Jackson…aquilo que o homem teve de ouvir, as bocas, as críticas e os risos de gozo… e tudo o que sempre quis fazer foi o inverso DAQUILO QUE FAZEM TODOS OS OUTROS NO PLANETA!

Se um branco quer ser preto, é sexy e atraente.

Se um preto que ser branco, é maluco, é esquizo e é freak.

E ainda por cima é pedófilo.

Para acamar.

Vá-se lá perceber o mundo...

Chegou uma nova família aqui à praia.
Os miúdos têm pouca vontade de se aventurar pelo areal adentro. Uma das crianças puxa os calções do pai, suplicando: “Mas está bué da vento...”

O pai ignora.

E atendendo ao aspecto do bicho considero já ser uma grande sorte não ter aplicado a tão portuguesa lambada no focinho ao garoto.

Já os vejo lá ao fundo.

Os pais determinados, faça frio, chuva ou granizo, a passar o raio do dia aqui enfiados. E os miúdos mais atrás, a arrastar os pés, em plena agonia pela sua triste sorte.

Tem graça que nisto da praia, parece que com a idade as pessoas vão perdendo o bom senso. Ao que parece, os mais pequenos têm uma noção, digamos, mais sã, de quando realmente vale a pena vir apanhar sol.

Normalmente é quando o há. Não é assim tão complicado.

Ao longe avisto o salva-vidas.

Aprecio muitíssimo esta profissão.

Um homem que treina afincadamente, com todas as privações adjacentes, que estuda os mistérios do mar e do tempo, que ouve mais do que o comum dos mortais, que vê mais longe e mais fundo do que todos nós, que é obrigado a ter a destreza de um tubarão, a coragem de um verdadeiro herói...

Sempre, SEMPRE, com um único objectivo: papar gajas.

É de valor.

E vai-se a ver e é hora de almoçar. Vou-me embora.

Gostei muito deste bocadinho. Por acaso, nem por isso.
Mas também agora já passou.

A mim quem me tira uma boa piscina tira-me tudo.
Claro que não tenho o imenso prazer de sentir areia a assar-me as partes baixas mas no fundo, e digam o que disserem, não sentir isso até acaba por ser positivo.
São gostos."

Saturday, July 10, 2010

O Fim está próximo

É amanhã que a minha mulher faz anos.
Para mim, esta é sempre uma fase complicada.

Não que me preocupe que ela esteja a envelhecer ou pense arranjar outra. Por enquanto esta que tenho ainda se encontra em bom estado e, como sempre fui poupadinho, vai dando para as curvas nessa longa autoestrada que é a vida.
Bom, poesia barata à parte, o meu problema é outro:

O que é que eu lhe vou dar?

É que, fica aqui a confissão, eu tenho um grave problema no que concerne a ofertar presentes à minha amada. Invariavelmente são estúpidos. E nas vezes que não são, são idiotas. Alterna entre o idiota e o estúpido, vá. E, sem saber como, ela continua comigo. Talvez esteja à espera que venha uma prenda boa para depois sim me mandar pastar. Isso seria um plano inteligente... mas também não quero estar aqui a dar-lhe ideias.

Eu não tenho grande jeito para ofertas, seja no aniversário ou no Natal, e isso sempre foi bem notório ao longo da nossa relação. Para vos ajudar a compreender o meu problema, elaborei aquele que pode ser o ranking das prendas mais imbecis que eu já alguma vez lhe dei... Estão preparados? Então aqui vai na mesma:


TOP 6 DAS OFERTAS MAIS "WHAT DA FUCK?!" COM QUE EU JÁ SURPREENDI A MINHA POBRE MULHER


6
Um "Relvinhas"

O que é um "relvinhas", perguntam vocês?
O objecto em questão pode ter esse nome ou também, e como foi apelidado por alguém conhecido, podem referir-se a ele como "aquele boneco esquisitóide com aspecto de feto".

Assim sendo, um "Relvinhas" é uma espécie de divertida cabeça, coberta com um material que contém sementes de relva na zona cimeira. Se regarmos regularmente a relva cresce e parece que a cabeça tem cabelo, podendo fazer-se penteados e tudo. Há quem diga que é muito giro, mas normalmente quem o diz tem um fio de baba permanente a pender-lhe do lábio inferior. E isso retira-lhe toda a credibilidade.

Ora, quando uma criança de 5 anos recebe isto de um pai, é querido.

Quando a mesma criança de 5 anos constrói uma peça destas para oferecer à avó, é adorável.

Quando é um rapaz de 25 a dá-la à namorada...

é...

perturbador.

Mas ela, Deus a abençoe, lá regou o boneco todos os dias até que este apodrecesse e ambos concordássemos que o melhor era deitá-lo no lixo. E só nesta altura me apercebi que oferecer uma coisa destas não tinha sido aquela ideia genial que eu sempre achei que era.

5
Uma Luz de Presença

Foi talvez a primeira de todas.
E porquê não sei... nunca soube.

Vi a Luz de Presença à venda, provavelmente numa loja de artigos para bébés, e achei que seria querido oferecê-la à minha cara metade. Claro que ela ficou uma bela dezena de segundos a olhar para aquilo e, em silêncio, a tentar medir a minha sanidade mental, até perceber que não só aquela oferta tinha sido intencional como eu ainda esperava um elogio ou um beijinho carinhoso em resposta.

E recebi-o. O beijinho carinhoso.
Ao mesmo tempo que na cabeça dela ecoava o grito "O QUE É QUE EU VOU FAZER COM ESTA M***A!!!", mas tudo bem. Este teatro tão bem encenado, apenas justificável pelo habitual período de charme que marca o início de qualquer relação, fez com que eu só desconfiasse que a prenda tinha sido um fiasco uns meses mais tarde. Bem engendrado, sim senhor.

4
Um Guarda-chuva com Asas de Abelha


No próprio dia em que lhe ofereci tão bizarro objecto, chovia torrencialmente. Antes de enfrentarmos a hostilidade do dilúvio, perguntei-lhe se não queria aproveitar e experimentar o seu novo guarda-chuva. Ao que ela respondeu rapidamente "Não, não..." atirando-se para baixo da chuva a correr e arriscando uma pneumonia daquelas que não se esquece... Este episódio parece que conta tudo acerca deste presente. Inútil...

E invisível também. Não sei onde está. Mas tenho a certeza que ela tratou do assunto.

Um dia qualquer, na minha ausência... o guarda-chuva com asas de abelha, um grelhador a carvão e uma caixa de fósforos... vocês façam a matemática.

3
Um Coelho a Pilhas

Se eu tivesse passado toda a minha infância e adolescência enfiado num poço, sem ver nada nem ninguém, até compreendia o meu fascínio quando me apresentaram esta porcaria num Shopping. E a minha mais-que-tudo tinha de possuir um.

Portanto, a ver se nos entendemos, é um boneco de um coelho no qual se enfiam pilhas e, a partir daí, o boneco move-se. Mal e porcamente mas move-se.

...

Sim, ofereci-lhe isto.

Lembro-me dela, sentada na cama, gota de suor na testa, a olhar para a estúpida maquineta. E nem nesse dia ela me enfiou duas lambadas na tromba... A isto chama-se autocontrolo, amigos.

Passando à frente...

2
Um Coelho com Sarna


Sim, leram bem. Não contente com o disparate anteriormente citado envolvendo o mesmo animal, desta vez decidi dar o passo em frente e ofertar-lhe a chamada "real thing". E logo com sarna! Eu sou um prato.

Como tal, sem ela nunca ter demonstrado vontade de ter qualquer animal, e muito menos um coelho, eu surpreendi-a com um ser vivo! Ali, à espera de ser tratado, alimentado, escovado e tudo mais que as pessoas de bem fazem aos animais (com isto excluo as actividades levadas a cabo por certos pastores. Separemos o trigo do joio).

Vocês dirão: "- Sim, mas tu com certeza pretendias tratar do bicho a meias com ela..." Ao que eu respondo: "- Não. Nem por isso." E ficamos por aqui.

Sei que nesse dia teria merecido sair de casa dos pais dela com um coelho enfiado pelo rabo acima, mas não saí. Acho que foi por pouco.

E assim chegamos ao primeiro do ranking...

1
Máquina de Hidromassagem para os Pés


O Cadillac das prendas estúpidas. E de longe a mais brutalmente cara.
Não sei o que me deu. Se muitas das outras prendas são o tipo de coisa que se oferece a uma criança pequena para deixar de fazer birra ou a um adulto psicopata para deixar de degolar inocentes, este é claramente um presente com "avó" escrito em toda a sua superfície.

O meu raciocínio foi simples: ela queixava-se que ao final do dia lhe doíam os pés, eu tinha algum dinheiro, vi uma traquitana destas à venda pelo valor do PIB de um pequeno país asiático e nem hesitei.

Uma vez mais, no momento da oferta, sentada na cama, ela não conseguiu evitar aquele piscar de olhos nervoso, revelador de confusão e/ou ódio e/ou tristeza extrema.

Nos dias seguintes, a maquineta terá trabalhado uma meia dúzia de vezes. E em todas elas fui eu que a obriguei a usá-la. Ao que parece a sensação não era assim tão espectacular. Enfim...


Agora, estou com o mesmo problema. E sou obrigado a recordar todas estas falhas para ao menos tentar não fazer outra gracinha. Coisa que já começa a ser extremamente preocupante.
É que assim não há amor que resista.

O verdadeiro, dizem, resiste a tudo.
À pior das doenças, à mais terrível das catástrofes... a tudo.

Mas a um guarda-chuva com asas de abelha ou a um coelho com sarna...
Sinto que estou na corda bamba.

Sunday, May 23, 2010

A propósito...

Não é que haja muita gente a esforçar-se para me agradar.
Na realidade, o número de pessoas não chega a ultrapassar uma dezena.
É até um pouco menos do que isso.
Julgo que ronda mesmo o zero.

Isto, embora eu não possa confirmar este valor.

Afinal posso: é zero é.

De qualquer maneira, e apesar de não jogar, ninguém me diz que amanhã não possa ganhar o euromilhões e consequentemente ter logo inúmeros borra botas a lamberem-me vigorosamente uma das nádegas numa busca sôfrega por migalhas. Eu sei porque era isto que eu faria se alguém meu conhecido ganhasse o euromilhões.

Como tal, tendo em vista essa possibilidade, decidi aqui deixar de forma muito sumária uma lista das coisas que eu mais detesto e que deverão ser evitadas caso eu fique poderoso da noite para o dia. Actualmente isso só acontece após o banho, quando penduro uma toalha ao pescoço e corro nú pela casa com o braço em riste, como se estivesse a voar, mas antecipo que em breve o meu "poder" irá adquirir contornos reais e, digamos, menos assustadores. Seria bom voltar a receber pessoas cá em casa outra vez.

Bom, então cá vai...

LISTA DAS COISAS QUE EU MAIZÓDEIO NA VIDA E QUE, CASO EU GANHE O EUROMILHÕES OU APRENDA REALMENTE A VOAR COM UMA TOALHA DE BANHO PENDURADA AO PESCOÇO, DEVEM SER EVITADAS TENDO EM VISTA O MEU PLENO BEM-ESTAR

- Pessoas a fazer segundas vozes quando ouvem músicas na rádio
Se vocês cantassem bem acham que o vosso momento de glória seria esse?! Pensem um bocado e fechem a goela! Que cambada...

- Alguém que retira um pedaço da minha sobremesa após ter rejeitado pedir uma para si próprio(a)
Num mundo ideal, eu teria o direito de enterrar a colher no globo ocular do abusador... Mas enfim, é esta pouca vergonha.

- Empregados de mesa engraçadinhos e que "gostam de conversar"
Normalmente, o meu sorriso amarelo diz tudo. Mas eles não reparam porque eu estar ali ou estar uma cabaça gigante, para eles é igual. Querem é plateia!

- Malta que fala comigo a olhar fixamente para a minha testa
Eh pá, das duas uma: ou colocam óculos de sol ou arranjam uma personalidade! Ou então tenho de começar a escrever coisas na testa, não vá esbarrar com uma destas criaturas. Qualquer indicação como "OS OLHOS 'TÃO MAIS ABAIXO, Ó CRETINO!!!"

- Todo e qualquer GPS
Por mais avançado ou engenhoso que seja, para mim há-de ser sempre um monte de porcas e pecinhas putrefacto e traidor! E mais não digo.

- Aqueles que se colocam entre mim e o sushi
Os que haviam foram desaparecendo e ainda hoje há quem relacione o sumiço ao cheiro fortíssimo que emana do meu guarda-fatos... Se não há provas, o melhor é esquecerem o assunto.

- Malta que come caracóis
Aliás, eu ofereço a cura para este comportamento bizarro. É um tratamento que não respeita a convenção dos Direitos Humanos mas garanto que é eficaz!

- Questões financeiras, IRS, IVA e coisas assim
Às vezes penso que mais vale arranjar alguém para gerir os meu 38€ mensais e passar a descansar mais a cabeça.

- Pessoas que não sabem dançar e que insistem em bambolear-se ridiculamente
Para mim, a dança é um assunto muito sensível. Basicamente, acho que não devia existir. E então quando o "bailarino" não faz a mínima ideia do que está a fazer e ainda assim insiste em fazê-lo, temos mesmo o caldo entornado.

- Gente que barafusta para o ar, a ver se eu ouço
Acontece muita vez. Em autocarros então é um fartote. Pelo menos era quando eu andava na cruel besta mecânica, há alguns anos atrás. Mais uma razão para eu odiar os bichos.

- Coisas que desaparecem sem eu saber como
A ideia que dá é que Deus, por exemplo, precisa de um xizato e como não tem nenhum lá em cima decide levar o meu emprestado. Só que, como é um tipo atarefado e já tem alguma idade, depois esquece-se e eu é que fico a arder. Às vezes, a explicação mais lógica é mesmo esta.

- Um indivíduo que ache que é "O MAIOR"
Isto porque o maior, como é sabido, sou eu.

...

Isto para fazer uma pequena síntese.
Claro que podia ficar aqui uma noite inteira a debitar informação mas penso que será mais proveitoso se a for aqui colocando aos bochechos. Só espero é que estejam a apontar,não vá o diabo tecê-las e na altura não haver acesso à net. Depois não digam que eu não avisei.

Porque é que eu não fiz antes uma lista das coisas que gosto?
Primeiro porque não sou um Ursinho Carinhoso, já fui num emprego anterior, e hoje não perco tempo com parvoíces. Depois porque não me apeteceu.

Até porque os Ursinhos Carinhosos não ganham o euromilhões.
Se ganhassem em vez de lhes saírem corações da pança saía-lhes prostitutas de luxo do quarto.

É essa a prova dos nove.

Saturday, May 8, 2010

Eu se pudesse...

Já não é a primeira vez que afirmo que, se pudesse ou tivesse oportunidade, faria um singelo par de operações plásticas. Duas únicas alterações no meu aspecto físico.

Bom, quem me conhece pode agora perguntar: "Então mas tu com esse aspecto de manatim com bócio, se fosses capaz, não preferias ir mais longe e fazer toda uma panóplia de upgrades que evidentemente te estão a faltar?" Nesse caso, eu responderia: "Não."

Não, por preguiça apenas.

É muito mais fácil isolar uma sala, aplicar um soalho flutuante ou pintar uma cómoda (aviso que a partir de hoje todas as minhas analogias vão ter a ver com bricolage, prática na qual sou talento impressionante) do que criar tudo a partir da raiz. Principalmente se esse tudo tiver sido adquirido na Moviflor, as coisas lá são bem mais complicadas de montar do que as do IKEA.

Já eu, não fui comprado na Moviflor. Pelo que sei vim num pack oferta do "Rei das Meias" juntamente com quatro pares de peúgas de lã virgem e umas ceroulas. E de qualquer maneira sou demasiado complexo para me querer cansar a decidir dezenas de operações que finalmente me iriam tornar no Apolo que todos concordam que nasci para ser. É trabalheira que não quero e, como tal, concentrei os meus objectivos em apenas duas operaçõezinhas.

E assim voltamos à conversa inicial. Como o Pastel de Belém que não passa de um Pastel de Nata pretencioso: na volta, vai dar ao mesmo (afinal nem todas as minhas analogias são de bricolage... Maldição! Amo demasiado a pastelaria para deixá-la de fora!)

Duas cirurgias plásticas. Duas apenas. O primeiro número par. Dois.

No Benfica, é o Airton. Nos jogos de cartas parece que não vale muito. Na natureza, vale uma descendência. Nos parquímetros vale cerca de hora e meia...

Chega então o momento de desvendar qual seriam as malvadas, não é?

Pois é.

Então respirem fundo e procurem não negar à partida uma ciência que tenho a certeza que desconhecem por ser demasiado alternativa e, porque não dizer, avançada para as vossas mentes humildes.

Cá vai...

1ª - Adição de uma cauda de castor.


2ª - Adição de bolsas faciais (como as dos hamsters).


...


Eu não disse que isto era demasiado à frente para vocês?

Aposto que neste momento estão todos a chorar os segundos que já perderam a ler aquilo que inteligentemente denominam como "patacoadas febris" ou "barbaridades dignas de um manatim com bócio" ou até "mais uma prova de que o André devia era estar a levar os choques eléctricos"...

Se querem que vos diga, esse vosso sentimento é tão absurdo como aplicar chão de tacos numa cozinha (aaahhh o regresso das analogias de bricolage...)

Pois reparem: ambas as cirurgias aumentariam as minhas potencialidades de uma forma considerável. Eu sei que "aumento" é palavra que não fica bem em qualquer frase relativa ao meu corpo. Sei bem disso. Mas neste caso os fins justificariam em muito os meios.

Se é verdade que isto do aquecimento global veio para ficar e que é a nova tendência do século XXI, então não tarda muito para que o oceano engula grande parte dos continentes. E não, não estou a referir-me ao antigo jogador do Sporting porque isso seria estúpido.

Se isto ficar tudo submerso, uma cauda de castor calha que nem ginjas! Não só me torna um autêntico torpedo a nadar, funcionando esta como remo, como ainda me permite aplicar um tabefe daqueles que aleijam a qualquer tubarão que me queira apresentar ao próprio esófago. É portanto arma e propulsor. E eu nem sequer estou a falar do efeito espectacular que uma cauda de castor dá no rabo de um indivíduo como eu e no quanto seria um sucesso entre as gajas. Penso que isso é um dado adquirido e é assunto que não merece ser sequer repisado.

Portanto: Eu + Cauda de Castor = Eu vivo enquanto vocês todos fazem tijolo num mundo pós-apocalíptico...

Penso que assim não restam dúvidas acerca de quão positiva seria esta intervenção.

Agora, as bolsas faciais eram uma história completamente diferente. Se a cauda de castor era, digamos, a sobrevivência do campeão, já as bolsas eram o prazer.

Com prazer não me estou a referir ao sexo (nem quero pensar que uso dariam certos fetichistas a estes apêndices corporais...). Estou a referir-me à minha capacidade de dar resposta a um estrondoso buffet de sushi.

Não vale a pena estarmos com cantigas: a minha aparência de, dizem alguns, "manatim com bócio" deve-se em muito a esta diabólica invenção. Neste momento, e sem nenhum orgulho, posso dizer-me responsável pelo extermínio de boa parte dos salmões e atuns deste planeta. Eu, que até gosto de bichezas... Mas talvez goste mais daquilo.

Sou doente por sushi. Tanto que gosto de seguir-lhe a filosofia, respeitar o propósito para o qual foi criado. Um tipo de comida tão delicado, tão delicioso, em que todos os ingredientes e sabores se mesclam num bailado suave e sensual só poderia ser apreciado de uma forma...

ÀS PAZADAS E À BRUTA!

Sendo assim tão culturalmente sensível, bolsas faciais como às dos hamsters são a única solução para que eu consiga comer ainda mais, assemelhando-me finalmente ao ogre sedento de peixe crú que estou destinado a tornar-me.

É que eu já topei os sacanas dos ratos. Os gajos enchem a mula à nossa frente, engolindo de uma assentada bagos inteiros de milho, sementes de girassol e outras iguarias e depois vão para um canto da gaiola vomitar tudo para comer como deve ser. Aquilo que a uns repugna, a mim inspira. E é assim que eu gosto de viver.

Estou agora a reunir apoios.
Duas operações destas envolvem custos elevados e alguma ilegalidade.
Como é um plano a médio prazo, para já não tenho pressa. É para se ir fazendo.

Assim como a bricolage.

Actividade que afinal não me tem tanto como talento impressionante mas sim como palhaço esforçado.

Mas não me preocupo porque tem um nome rabiças.

E eu se pudesse tinha uma cauda de castor.

Sunday, April 4, 2010

A minha Cruz

Ok, não me orgulho da última hora e meia da minha vida.

Sei que isto pode muito bem vir a ser a ponta de um icebergue e que agora vocês estão à espera que eu me arrependa também do resto... Mas para já tenho de desiludir-vos e cingir-me à tal última hora e meia. Não sejam gulosos.

Estive a jogar PES2010, vulgo Pro Evolution Soccer, um simulador de futebol que corre na minha Playstation 3. Sabem o que é?

Para vocês é capaz de ser apenas um jogo mas para mim foi um sonho de infância tornado realidade. Lembro-me bem dos serões que passei a fazer equipas, a inventar tácticas, a sonhar que comprava jogadores e geria o meu plantel... isto enquanto o Baião saltava aos berros no Big Show Sic.

Eram os loucos anos 90 e eu era ainda mais louco.
Ninguém por muito puto, betinho ou gordo que fosse aceitava passar assim as últimas horas de cada dia.

Ninguém excepto eu.

Bom, na altura poucos eram os jogos que me ofereciam aquilo que eu desejava.
Aquele controlo absoluto. Aquele nível de detalhe nos gráficos e na jogabilidade. Aquela confusão esquizofrénica entre o que é real e o que não existe.

Foi preciso esperar muitos anos até que chegasse um que já se aproximava.
Ao qual se seguiu outro.
E outro.
E outro.
Até aquele que jogo hoje.

Parece uma bonita história com um final feliz, não parece?

MAS NÃO É!

...

Sei que devia jogar um pouco melhor atendendo ao tempo que dedico a esta m****.
Sei que o meu Benfica já devia ter sido campeão há pelo menos 3 épocas.
Sei que esta incompetência toda só pode ser fruto da minha incrível estupidez e/ou imbecilidade, que não me permite evoluir a cada novo jogo disto que compro!!!

A última hora e meia da minha vida foi passada a insultar violentamente bonecos na televisão, a esmurrar em desespero o comando e a minha própria perna, a lançar olhares de raiva para o tecto, maldizendo a minha existência.
Eu juro que sinto ódio por aquela gente pixelizada! E que se me dessem uma Uzi de pixéis e me pusessem dentro do ecrã eu despachava aquela malta mais depressa do que lhes leva a dizer "Konami".

Porra, é demais!
Eu TODAS AS NOITES me dirijo à sala com a intenção de fazer uma ou duas partidas para "relaxar". E TODAS AS NOITES me vou deitar com o mais profundo negrume no coração.

Às vezes até me apetece bater na minha mulher, já que não posso bater no c***** do árbitro virtual. Aliás, já estive para lhe alçar o remo quando ela me perguntou "Então, ganhaste?"

Insulto...

Olho esquerdo a tremelicar...

ÓDIO!

A única coisa que me impediu de a agredir nesse dia foi o facto de eu saber que ela se iria virar a mim depois.
Capaz de me aleijar.
E eu nem sei se ela tem as vacinas todas...

Bom, mas não nos dispersemos do assunto principal. Isto é triste.
Há dias em que fico cheio de dores na mão, tal a força que faço no comando.
Há noites que nem durmo como deve ser, revoltado com o facto de não conseguir atinar com aquilo.
Há semanas inteiras em que me apetece viajar para a Coreia, vestir um colete de bombas e esfregar as minhas entranhas na porra de indústria de videojogos que os gajos têm.

Já vi malta entrar em depressão por causa de gajas. Por causa de dinheiro. Por causa de stress. Por causa de gajas que lhes mamam o dinheiro todo e lhes causam stress.
Mas por causa de um jogo, nunca vi...

Bom, vou pôr um comprimido debaixo da língua. Mas antes vou beber três copos de drambuie que é para adormecer os nervos.

Depois, como de costume, resta-me adormecer de bruços no corredor.
E desejar que a minha mulher, ao pisar-me a cabeça, não me pergunte:

"Então, ganhaste?"

Sunday, February 14, 2010

O Homem-bússola ao contrário II

Mesmo quando se pensava que este vosso amigo não conseguia repetir a proeza... não só repete como consegue fazer pior. Eu não páro de me surpreender a mim próprio. No mau sentido é claro. Enquanto o prejudicado for eu e só eu, não vejo grande mal nisso. Agora quando esta maldição horrível atinge pessoas que me são queridas e que são, até ver, completamente inocentes, então é coisa para me provocar uma assadura na virilha.

Estão preparados?

Não?

Eh pá não se armem em esquisitos...


Dia: 14 de Fevereiro de 2010 (o muito comercial Dia dos Namorados)


Missão: Ir de minha casa, em Benfica, até ao restaurante Barra do Quanza em Belém.


Pontos a favor: Reserva de uma mesa para duas pessoas, em meu nome, para as 21h; a morada num papel; um taxista profissional e certamente escaldado em encontrar toda e qualquer localização.

Pontos contra: Eu.


Desenrolar da acção: É dia 13 de Fevereiro, amanhã é Dia dos Namorados. O que é que eu lhe vou dar? Livros, não tem tempo para ler. Filmes, temos centenas cá em casa que nunca vimos. CD's, saca da net. Roupa, é melhor não me meter nisso. O que é que eu faço? Já sei! Jantarzinho romântico e mais não sei o quê... tudo a debitar na conta do "je". Melhor reservar a mesa já hoje. Espero que consiga. Lifecooler... procurar um que esteja aberto ao Domingo. Uma cozinha que não experimentamos todos os dias. Este é bom, africano, mas não está aberto aos Domingos. Telefono na mesma? Vamos então a isso. Estão abertos amanhã? Sim? Maravilha. Mesa para dois às 21h. Obrigado, meu bom senhor. Aponto a morada num papel. Tudo certo. Certinho. Já é dia 14. São 20h30. Ela já me deu as prendas. Eram boas. A minha vai já a seguir. Levo o carro e o GPS? Este menino é demasiado esperto para cair na mesma esparrela duas vezes. Não senhor. Para além disso, o menino quer beber vinhaça como se não houvesse amanhã. E ainda para mais está a chover a potes. Vamos antes de táxi, ok? Ela diz que quer pagar o táxi. Tão querida... Muito bem. Que pague. Entramos na viatura. Digo a morada. O gajo torce o nariz. Eu caguei. Não sou taxista. Eles é que sabem as moradas todas. São treinados para isso. Diz que a morada que eu lhe estou a dizer é vaga. Ele é que é vago. E para além disso tem um corte de cabelo que meu Deus. Mas isso é lá com ele. Digo-lhe a morada. Ele mostra que não está a ver mas dirige-se para Belém. Já não é mau. Tenho o nome do edifício onde aquilo é, que copiei do Lifecooler. Ele volta a dizer que a morada é vaga. Apetece-me dizer-lhe que vaga é a mãe dele. Mas fico na minha. Passamos por Belém. Ele diz que o edifício é mais à frente mas mais à frente já é Pedrouços. Eu não sei, não sou taxista. Chega a Pedrouços e diz que o edifício ficava lá atrás. Eu volto a não saber, mas acho que ele também não sabe. Faz inversão de marcha. Vai para o sítio que indicou. Parece abandonado, duvido que seja isto. Ele diz que é mais à frente, onde é o Hotel Altis. Eu duvido que o edifício seja o Hotel Altis porque senão não seria o tal restaurante, seria... o Hotel Altis. Ainda assim agradeço. Mortinho para sair do táxi e terminar a agonia. Estou farto do homem. A minha mulher paga o táxi. Estamos ambos junto do Hotel Altis, no meio da trovoada. Damos a volta inteira ao perímetro, a apanhar chuva em recantos do corpo onde o sol não brilha. Nada. Vamos pedir indicações ao recepcionista do Hotel Altis. O homem assusta-se. Diz que é na área ao lado, a mesma que me pareceu abandonada há pouco. Eu agradeço e vou novamente para o meio da tempestade. Estou farto do homem. Eu e a minha mulher enfrentamos o temporal, já encharcados. Damos a volta ao perímetro. Nada. Lágrima, uma única. Tristeza. Já passa das 21h. Ligamos para o 118, que eu esqueci-me do número do restaurante. Dão-nos o número. Ligo, a apanhar chuva na tromba. Ninguém atende. Típico. Ninguém a quem perguntar, ninguém a quem recorrer, os meus "cojones" em jogo para salvar o Dia dos Namorados... e o resultado são duas alminhas ensopadas e desesperadas no meio de uma tempestade. Um leve soluçar começa a querer apoderar-se de mim. Fome e frio. Decido ultrapassar a estrada pela via aérea. Quase somos projectados pelo vento para a frente de um camião. Eu quase desejo ter sido colhido pelo veículo, tal a vergonha. Ambos enregelados. Volto a ligar. Ninguém atende. 21h30. Começamos a andar em direcção ao CCB. Praguejo contra tudo e todos. Principal visado: Deus. O tal que, quando não ouve as orações dos crentes se entretém a brincar com a minha vida como a sua comédia pessoal de Buster Keaton. Ele acha graça. Eu não. Chegamos ao CCB. A minha mulher funga incessantemente. O fungar dela começa a irritar-me. JÁ SEI QUE ESTÁS A FICAR DOENTE E QUE A CULPA É MINHA!!! Mas enfim, a besta sou eu. Tenho é de me irritar comigo próprio. Desisto de ligar para o restaurante. Definitivamente não sei o que se passou. Não consigo deixar de imaginar o gajo a desligar o telefone depois da minha "reserva" e a escangalhar-se a rir, no meio dos cozinheiros e empregados. Continuo a andar mas não sei para onde. O meu par evita fazer-me perguntas para não me enervar mais e eu finjo ter um plano. Mas não tenho. Não sei o que estou a fazer. Estou a andar sem destino, provavelmente a condenar-nos à morte por pneumonia. Estamos ensopados e gelados até aos ossos. Ela fala em irmos para casa. Eu concordo, cabisbaixo. Apanhamos um táxi. Ela paga.

Chegamos a casa. Banho a ferver. Abro uma garrafa de vinho e mandamos vir duas pizzas. Depois de algumas goladas de tinto, até parece que o plano sempre foi este...
Mas não foi.

Não foi.


É preciso dizer mais alguma coisa? Só que se eu fosse esta mulher já me tinha pontapeado violentamente nas nádegas. Mas também, se continua comigo não merece muito mais do que isto. Quanto ao Barra do Quanza, acredito ser muito bom restaurante, sim senhor, mas a moradazinha que disponibilizam é um pouco dada ao erro. Pelo menos a avaliar pelas palavras do c****o do taxista.

De qualquer forma, esta minha incrível tendência para me perder e, essencialmente, para o "disparate" anda a ganhar contornos preocupantes. É só acabar de tomar o guronsan, que a pizza não me assentou bem, e vou tomar providências. Providências essas que, se me conheço bem, não auguram nada de positivo.

Friday, January 29, 2010

O Homem-bússola ao contrário

Para quem não me conhece: eu sou a pessoa com o menor sentido de orientação do mundo. Continua a ser um mistério como é que dei com o caminho para sair de dentro da minha mãe. Ainda para mais sem ninguém para pedir indicações. Curiosamente, a primeira vez que tinha um percurso a percorrer e o cumpri com sucesso foi também a última. A partir daí foi o caos total...

Às vezes ouvimos indivíduos deprimentes a dizer que se sentem perdidos. A diferença entre eles e eu é só uma: é que eu estou mesmo! Na maior parte das vezes acho que nem sei bem onde estou. E quando finalmente percebo onde estou, é hora de ir para outro sítio. E então perco-me novamente neste grande Triângulo das Bermudas que é a minha vida. Exemplos? Ainda outro dia, um amigo que contava com as minhas indicações para ir de Santa Maria da Feira para o Porto, com tabuletas do tamanho de camiões a ajudar, acabou na autoestrada a caminho de Lisboa. Muita porrada levei eu. E foi merecida.

Mas depois, algo de milagroso aconteceu: APARECEU O GPS!

...

E a merda foi ainda pior.

Prova disso mesmo foi o meu fim de tarde de hoje. O qual vou relatar através de frases curtas, não só porque é mais dramático mas também porque se torna mais fácil de explicar a miríade de coisas absurdas que aconteceram.

Estão preparados?

Não?

Mas vão ler na mesma.


Dia: 29 de Janeiro de 2010


Missão: Ir de São Domingos de Rana até à casa de um amigo, algures atrás do shopping Alegro de Alfragide.


Pontos a favor: O nome da rua, o número de telemóvel do meu amigo, caso precise de alguma coisa, e um extraordinário GPS.


Pontos contra: Eu.


Desenrolar da acção: Saio do meu local de trabalho. Entro no carro. Ligo o GPS. Está à procura de sinal. Retiro o braço articulado com a ventosa para prender o aparelho ao pára-brisas. O braço articulado tem a porca muito apertada e não a consigo direccionar para mim. Tenho de prender o braço articulado ao vidro do condutor, mesmo à minha esquerda. Ok, não há problema. Já tem sinal. Começo a pôr a localidade para onde quero ir. Carnaxide. Ok. Ponho o nome da rua. O GPS procura. Aparece um resultado. Deve ser esta. Cá vamos nós. Autoestrada connosco! Tudo certo. Estou a chegar à portagem. Apercebo-me que vou ter de abrir o vidro. Não vou poder abrir sem retirar o braço articulado com a ventosa. Tento retirá-lo. Não consigo. Estou a aproximar-se. Tento retirar com mais força, conduzindo ao mesmo tempo. Não sai. Cada vez mais perto. Cada vez com mais força. Não sai. Esta merda não sai. E a portagem a poucos metros já. A conduzir ao mesmo tempo. Sou forçado a parar junto a uma cabina encerrada. Luto com o braço mecânico. Violentamente. Não sai. Mais força. Sai em estrondo! Alívio. Faço marcha atrás. Ando 3 metros para o lado. Portagem. Gota de suor na testa. Pago e ponho-me a andar. Volto a colocar o braço articulado com a ventosa no vidro, agora com menos força. Ok, vai correr tudo bem. Estou na autoestrada. É ir sempre em frente. O GPS só deve dar sinal de vida daqui a alguns minutos. Mas deu já. Está a mandar-me sair da autoestrada em Oeiras. Não faz sentido. Eu saio. O GPS foi caro. Mais vale fazer o que ele manda. Rotunda do Oeiras Parque. Manda-me virar à direita. Não faz sentido. Vou voltar para onde vim. Isto está tudo doido. Caguei no GPS. Vou voltar para a autoestrada e depois logo vejo. Aproximo-me da portagem. Tento tirar o braço articulado com a ventosa do vidro que tive o cuidado de colocar com menos pressão. Não sai. Tento com mais força. Não sai. Cada vez mais perto. E a merda do braço articulado a teimar. MALDIÇÃO!!! E eu vermelho de ódio e de esforço. Não sai. A portagem a poucos metros. A vergonha a acumular-se. Não sei o que fazer. Não tenho sítio para parar como da vez anterior. Cada vez mais força. Cada vez mais perto. Veia jugular lateja no pescoço. A ventosa nunca esteve tão agarrada. Quase na portagem. Toda a força que tenho. Não quero saber. Se partir partiu. A maldita ventosa solta-se em estrondo. Quase me despisto. Suor. Páro na portagem. Pago. Ok, segunda portagem em pouco tempo. Isto é ridículo. Volto a colocar o braço mecânico com a ventosa no vidro. Quase não faço pressão. Fica pendurado. Não fica seguro. Pendurado. Reprogramo a geringonça. É desta. Voltas e voltinhas por aqueles lados. Não sei onde estou. Estou atrasado. Isso é que eu estou. Voltas e voltinhas. E mais voltinhas. Manda-me sair da autoestrada. De repente, já sei onde estou. Rotunda do Oeiras Parque à minha frente. O GPS manda-me virar à direita e voltar ao ponto de partida. Quero morrer. Desisto. Vou voltar novamente para a autoestrada. A portagem aproxima-se. Tento tirar o braço articulado com a ventosa. Não sai. Não é possível!!! Urros de raiva. Toda a força do mundo. ESTAVA POUSADO, NEM SEQUER FIZ PRESSÃO!!! Não sai. A portagem cada vez mais perto. ÓDIO!!! Cada vez mais perto. Não sai. Quase que ando ao murro ao GPS. Não sai. A portagem aproxima-se. Tenho de decidir depressa. Abro a janela. Só uma fresta. Não consigo abrir mais. Passo o cartão multibanco pela fresta. Vergonha. A mulher olha para mim como se eu fosse atrasado mental. Eu sinto-me atrasado mental. Recebo o cartão de volta pela fresta na janela. Como um leproso. Ponho-me a andar. Odeio o GPS. Vou até à zona do Alegro pelo caminho que conheço. Ao menos nesse não me perco. Desligo o maldito aparelho. Ignoro o braço articulado. Estou rodeado de papéis de portagens. A mesma mulher viu-me passar duas vezes quase seguidas na mesma direcção. Deve estar a pôr um comprimido debaixo da língua agora. Eh eh oxalá morra. Oxalá morram todos! Estou enervado. Já lá devia estar há uma hora. Ligo ao meu amigo. Não atende. Não sei o que fazer. Chego ao Alegro. Páro o carro lá perto. Ligo ao meu amigo. Não atende. Faço as pazes com o GPS. Volto a digitar o nome da rua. Há bocado dava-me um resultado, agora a busca dá-me três ruas diferentes com o mesmo nome. Não entendo. Lágrima cai. Ligo ao meu amigo. Decididamente, não vou poder contar com ele. Só eu e o GPS. Sigo caminho em direcção uma das ruas que o aparelho identificou. A que me pareceu ser a tal. Ruas isoladas. Gueto. Medo. Inversão de marcha. Desespero. Suor. Sangue. Lágrimas. Consigo sair do Gueto. Páro o carro. Desespero. Vómitos. Pergunto a um transeunte qual o nome da rua em que estou. Só para me certificar que estou completamente f***do. Milagre. É esta a rua! E o edifício em questão está mesmo à minha frente. Lá dentro, o meu amigo à minha espera. Com o telemóvel desligado. Aleluia...


Aleluia...


Aleluia.


Agora estou em casa. Enrolado, no chão, na posição fetal. Sou o "Homem-bússola ao contrário" e isso é mais evidente do que nunca.


Agora vou dormir.


Isto se conseguir encontrar a porra do caminho!!!

Monday, October 19, 2009

Este prédio não é para violadores

Há umas semanas atrás, na sequência de um período prolongado de falta de luz no patamar do prédio onde moro, foi colocado um cartaz A3, escrito a caneta de feltro, com enormes letras capitais desenhadas a azul bébé. Rezava (e reza porque apesar da luz ter voltado ele ainda lá está) o seguinte:


"É FAVOR FECHAR A PORTA:

PROVAVELMENTE OS MORADORES DESTE PRÉDIO NÃO SABEM DA EXISTÊNCIA DE UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS. ESSE TAL VIOLADOR NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS. PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS HÁ QUE COMEÇAR A RESPEITAR UM BOCADO O PEDIDO DOS OUTROS.

É FAVOR FECHAR A PORTA!"


Leram?

Oram bem, meus amigos, eu ando inquieto. Não sei quanto aos outros inquilinos deste prédio mas eu, e aproveitando para comentar o conteúdo do próprio cartaz, não me sinto nada seguro. A questão é a seguinte: vivo sozinho com a minha mulher e só estou com ela ao final do dia. O seu trabalho é stressante e muitas vezes arrasta-se até mais tarde do que seria desejável. É comum chegar já noite cerrada ao prédio e ter de subir as escadas sozinha até à protecção do nosso lar... Portanto, até lá eu estou sozinho e CHEIO DE MEDO DE SER VIOLADO!!!

Hoje em dia, devido à minha exigente actividade profissional referente ao desemprego, passo grande parte do dia no escritório cá de casa. Sozinho.

Ora, depois de ler este cartaz ninguém me tira que o violador anda à coca, entre o andar acima e abaixo do meu, a tentar perceber a melhor maneira de se aproveitar das delícias do meu corpo. Sinceramente, ando de tal forma obcecado com isto que só consegui arranjar uma maneira de enfrentar os meus temores: abrir uma caça ao homem cá no prédio.

Só através deste cartaz há inúmeras ilações que posso tirar para descobrir a sua identidade. Portanto, vamos por partes:


1. "(...) UM VIOLADOR QUE ANDA POR BENFICA, TELHEIRAS, CARNIDE, SETE RIOS E LARANJEIRAS."

Um indivíduo destes tem sem dúvida o passe do metro e é frequentador da Linha Azul. Daí podemos retirar que tem bom gosto para transportes públicos. Sem dúvida que o metro, o comboio e o táxi estão reservados para os criminosos mais organizados, mais metódicos e sofisticados como violadores ou serial killers. Não é difícil perceber que o absurdo e fedorento autocarro está entregue aos carteiristas, burlões baratos e demais bestas. Como tal, nota mais aqui para o homem.


2. "(...) NORMALMENTE FICA ESCONDIDO DENTRO DOS PRÉDIOS À ESPERA DAS VÍTIMAS."

Se é sabido que o nosso prédio tem alguma humidade e que os violadores, por norma, precisam de ambientes mais quentes e secos para medrarem, não acho que estejamos 100% safos. Porque esta característica não só revela alguma timidez como ainda uma boa dose de infantilidade. Um violador seguro de si próprio não teria receio de se mostrar às vítimas, mesmo quando fossem claras as suas intenções. Mas este não. Este não corre o risco de ouvir o grito: "Largue-me, não desejo ser violada por si que é feio como uma noite de trovões!". São feitios. Positivo é o facto de sabermos que ele sabe esperar, que fica quietinho até que surja aquilo que pretende. É uma qualidade rara no povo português e que devemos, sem sombra de dúvida, valorizar neste amante indesejado.


3."PARA QUE TODAS AS PESSOAS QUE VIVEM NESTE PRÉDIO SE SINTAM SEGURAS (...)"

Companheiros, eu já vi as fronhas de toda a gente neste prédio. Não vi mais nem um centímetro cúbico dos seus corpos gastos e disformes, e agradeço a Deus por isso. Ora, além de mim e da minha mulher, se este indivíduo tivesse o mínimo de padrões de exigência, mais ninguém estaria em risco. Fico sem saber se é tara do violador ou se é fuga à realidade por parte dos inquilinos.


Portanto, até agora sei que é um sujeito tímido, paciente, com passe de Metro ou de Comboio e sem grandes critérios relativamente às pessoas com quem procura ter sexo à força. E sei também que há alguém neste prédio que faz cartazes, arrisco-me a dizê-lo, mega-espectaculares. Agora o que é que eu posso fazer de concreto com toda esta informação ainda não descobri.

Até lá, o melhor é não esquecer de pôr o RAID anti-violadores, em cada andar. E se não resultar chama-se uma empresa e faz-se a desvioladorização.

Pronto.

Wednesday, June 3, 2009

Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis (O Regresso)

Queridíssimos e caríssimos amigos (o plural é um proforma, afinal de contas sei bem que apenas a minha mãe segue este blogue, e só o faz para se certificar que o período pós-lobotomia não começou ainda a implicar tendências suicidas. Até agora só estupidez, por isso, tudo bem.)

Não sei se estão lembrados de um post que coloquei há uns tempos aqui na selva do saguim, mais concretamente em Fevereiro de 2008, que dava pelo nome de "Sermão do Saguim aos apreciadores de caracóis". Ora bem, nele apresentei factos concretos de uma inequívoca verdade de que o caracolame como iguaria é realmente similar a fezes ou suor de escroto, portanto coisas ruins nas quais ninguém dotado de sanidade mental haveria de querer pousar a boca. Na altura, e hoje posso confessá-lo, raros foram aqueles que concordaram comigo. A grande maioria não só me contradisse como ainda me insultou por cima. Para mim, foi um choque.

Eu sou um tipo com o saudável hábito de respeitar todas as opiniões e saudar especialmente aquelas que são contrárias às minhas, isto porque geralmente dão azo a animadas e fervorosas discussões, sempre sem sair dos limites da normalidade. Tenho um enorme respeito por toda a gente. Como tal, ao aperceber-me que haviam dezenas de atrasados mentais que continuavam a papar caracóis como se as suas vidas dependessem disso mesmo depois de lerem o meu post, decidi deixar-me estar. Nada posso fazer contra a burrice extrema. Basta-me ter de lidar com a minha...

Portanto, o respeito pelas opiniões alheias fez-me permanecer no exílio até agora. Momento em que me recordei da derradeira razão pela qual nunca na minha vida haveria de querer ingerir um desses pedaços de ranho ambulantes. Cá vai um flashback daqueles jeitosos...

Era eu miúdo e caminhava satisfeito pelas ruas de Lisboa, provavelmente cantarolando uma música dos Queen (a minha banda de eleição na altura). Passei por um quiosque e, porque era uma espécie de coleccionador compulsivo de metro e meio, não pude deixar de olhar para as revistas e cadernetas expostas. Olhei para a capa de um dos jornais. Fiquei estático. Soltei uma gota de urina. Pisquei os olhos várias vezes. Outra gota de urina. E não consegui dormir durante pelo menos uma semana. 

Perguntam-me vocês: seria a capa do "Crime"? Do "Diabo"? Do "Incrível"? Aquele tipo de capas que de tão bizarras conseguem marcar uma pessoa para toda a vida? 

Nem por isso. Devia ser um "Público" ou um "Correio da Manhã", coisa mostrável a qualquer petiz, não fosse a manchete dizer algo como "Idoso violado por três homens enquanto apanhava caracóis"!!!

...

Portanto, vamos lá recapitular e digerir esta frase aos bocadinhos. 
Um idoso. Para quem não sabe, é um homem que é velho. 
Foi violado. Penetrado analmente, para os leigos. Por... três indivíduos. 

Enquanto fazia o quê? Ah pois, apanhava caracóis. 
E para quê? Infelizmente para os comer.

Claro que todos nós podemos questionar: "O que é que leva três homens adultos a desejar e a consumar o acto da violação com um homem que já viveu o grosso da vida, provavelmente até tem netos, e está alegremente a apanhar caracolada?" Alguém saber a resposta é para mim arrepiante, no entanto, apenas sei que a participação dos caracóis nesta HISTÓRIA DE TERROR não pode ser mera coincidência. 

É que a mim ninguém me garante que estou seguro se decidir comer caracóis. Posso muito bem sentar-me numa esplanada, pedir uma imperial e um pires dessas bichezas, e no minuto a seguir ver uma carrinha travar em grande chiadeira diante de mim para dela sairem três indivíduos sedentos de sodomia. Por muita consideração que tenha por vocês, não contem comigo para correr um risco desses.

Esta manchete aconteceu e é apenas mais uma das razões, talvez até a principal, pela qual eu nem sequer me quero aproximar dessa "iguaria". Porque se há muitos homens que apreciam o amor físico com outros homens, duvido que haja algum que tenha desejo em ser violado por três brutamontes. Se for por três fiscais da EMEL ainda pode ser que haja, agora por três brutamontes acho pouco provável. 

Eh pá, por favor, eu já não sei o que vos hei-de dizer, deixem essas criaturas peganhentas em paz! A sério, vejam o aspecto do "petisco"... há unhas dos pés com um ar mais apetitoso e nós não as comemos pois não? Então... 

Mais juízo e menos apetite por coisas nojentas, ok? Até porque algo me diz que os três violadores ainda andam aí à coca.

Wednesday, April 8, 2009

O último desejo de um imortal

Descobri o segredo para a vida eterna.

E se me dessem a oportunidade de o anunciar ao mundo numa conferência de imprensa televisionada, seria este o discurso que faria...


"Minhas senhoras e meus senhores, muito boa noite.
Também bom dia e boa tarde para os habitantes de todas as outras nações que estão a assistir a este meu discurso via satélite, um pouco por todo o mundo.

Sim, é verdade. Excusam de me sufocar com perguntas.
Depois de centenas e centenas de anos em busca de uma resposta, de uma esperança, de uma força suplementar para a Humanidade, há um novo fôlego que surge no nosso horizonte. Descobri a forma de atingirmos a imortalidade, a nossa “fonte da eterna juventude”, algo que sempre esteve tão perto e que nós, cegos, não soubemos usar em nosso proveito.

Ora, não será pelo sentimento de ausência que choramos mais quando alguém conhecido perece?

Quero que reflictam nisto durante um minuto…
Bom, um minuto se calhar é muito para reflectir, depois criava-se aqui um silêncio constrangedor e para além disso tenho o tempo de antena bem contado. Vamos partir do princípio que reflectiram na ausência durante um minuto, ok?

Meus amigos, se nos faz sofrer assim tanto, então porque é que insistimos em desaparecer?

É que… Nós iremos continuar a morrer, disso não há qualquer dúvida.

Se ligaram a TV com esperança que exista uma beberagem qualquer capaz de vos manter afastados do “soninho eterno”, uma espécie de botox para a alma, então esqueçam… É que é fatal como o destino. E antes que me chamem charlatão por estar a apregoar a imortalidade sendo que não tenho solução para a morte, ouçam bem esta palavra:

TAXIDERMIA.

Escutaram?
Sabem do que se trata?

Não, não tem de se resumir a animais empalhados…
Meus amigos, podemos ser nós próprios.

Se empalharmos os nossos parentes, os nossos amigos, aqueles de quem gostamos, em vez de lhes estraçalharmos os corpos, eles nunca morrerão. Não só nos nossos corações mas também à nossa vista. Estarão perto de nós sempre que quisermos: à mesa enquanto jantamos, na cama quando vamos dormir, no duche antes de irmos para o trabalho. Sempre.

A alma, de facto, esvai-se no ar. Mas a companhia, a sensação de conforto nos nossos corações, essa nunca desaparece. O segredo para a “vida após a morte”, aquele que se julgava ocultado algures nas passagens da Bíblia, do Alcorão ou do Livro Sagrado dos Eremitas do Deserto (se é que existe), reside nas mãos sebentas e repletas de cheiro a bicho morto de um taxidermista.

Sabia de antemão que não iria conseguir da vossa parte os urros de júbilo e os cantares de louvor a mim que sei que mereço.
É uma ideia que precisa de tempo para entranhar-se em cada um de vocês.
E talvez eu possa dar uma pequena ajuda. Talvez precisem de um primeiro passo.

Não me importo de ser eu a dá-lo.

Eu sou um pouco mais velho do que a minha mulher e não temos filhos. Estive a fazer contas e a consultar alguns bruxos africanos e tudo indica que serei o primeiro a partir.

Por isso, tomei uma decisão.

É perante vós, perante ela e perante a justiça dos homens que manifesto o meu desejo de ser empalhado quando morrer. Quero que a minha esposa me conserve na nossa sala de estar, divisão da casa onde vivemos momentos de verdadeira felicidade, exactamente ao lado da nossa televisão.

Sei o que estão a pensar neste momento. Não é lá muito boa ideia.

Como estou um passo à vossa frente posso acrescentar que não desejo ser empalhado de corpo inteiro. Isso seria absurdo. Apenas o busto, para facilitar.

Apreciaria imenso também que o artista que tratasse de atafulhar o meu corpo de miolo, me construísse um meio sorriso na boca. Uma expressão que me imortalizasse não só como um sujeito razoavelmente inteligente, mas também como um bon vivant, alguém que, com uma grande dose de malandrice, aprecia um cálice de Chardonnay ao final do dia.

O sorriso seria também como que uma última oferta para a minha mulher. Algo como “estou a observar-te, estou contigo enquanto vês o teu programa favorito e ai de ti se arranjas outro para calçar as minhas pantufas”. Seria uma bonita prova de amor.

Bom, amigos de todo o mundo, pensem nisso.

Hoje mesmo, porque não convidar a bisavó para jantar? Sim, um pouco verde, é certo. Sim, sem alguns pedaços importantes da fisionomia. Mas presente.

E não é isso que importa, afinal de contas? Pois claro que é.

Um grande abraço a todos e, pela parte que me toca, sejam bem-vindos à imortalidade.

Obrigado eu!"

Tuesday, February 17, 2009

O futebol depois de Bynia

Para quem não sabe, o Benfica não só é o maior clube do mundo como também tem um papel fulcral no desenvolvimento do próprio futebol. E do desporto em geral. E consequentemente da produção de cerveja. E da continuidade do mundo tal como o conhecemos.

Para quem não sabe e para quem me manda calar sempre que desenvolvo esta minha teoria. Sem Benfica, meus caros amigos quer queiram quer não, a coisa não andava para a frente.

Um exemplo concreto? Então vamos lá a isso: BYNIA.

O Bynia é um sujeito que veio trabalhar para o Benfica há mais ou menos dois anos. Eu digo sujeito porque a palavra jogador às tantas é demasiado forte para designar a sua actividade. Mas isso não faz com que o Bynia seja menos importante para o Benfica e para o futebol moderno. A sua naturalidade é indefinida. Da testa para cima: escandinavo. Da testa para baixo: camaronês. Acho que optou pela segunda. Mas até aqui tudo bem. É dentro do campo que o rapaz faz toda a diferença. A verdade é que o Bynia reiventou todo um conceito de futebol, coisa passível de figurar num livro de filosofia, e se ele não se põe a pau ainda sou eu que o escrevo e fico com a honra e glória. Agora perguntam-me vocês: "- Mas, ó André, sendo que os Camarões não têm nenhuma escola filosófica propriamente dita, como é que este artista consegue revolucionar o que quer que seja?". Perguntam-me vocês e, se me permitem, estupidamente. Vou procurar explicar com um exemplo concreto da minha própria vida:

Eu gosto muito de ver e jogar futebol. Claro que, hoje em dia, das raras vezes que jogo, a minha participação é muito semelhante àquela que a pedreira do Estádio do Braga tem nos jogos dos minhotos. Talvez esta seja até um pouco mais activa mas também é natural porque participa em metade dos jogos da época. Quando era miúdo pesava o mesmo que peso agora. Se eu hoje sou, digamos, gordo, então imaginem o que se passava quando tinha metade da altura. Volta e meia apareciam senhores de fato macaco na rua que me regavam com grandes mangueiras, convencidos de que eu era alguma espécie de elefante marinho e não podia estar assim "ao ar". Nesses tempos, também eu quis ser jogador de futebol mas, para além do meu notório handicap físico, não tinha lá muito jeito. E isto do jeito não tem nada de subjectivo: as bolas que deviam ir ter à baliza iam vários metros ao lado ou por cima, os passes que deviam ir ter aos meus colegas iam invariavelmente dizer "olá" aos adversários e as fintas acabavam sempre comigo espetado no chão. Sempre. Ora, houve tempos em que também eu acalentei o sonho de vir a ser jogador profissional de futebol. Mas bastaram dez segundos de lucidez para perceber que isso nunca aconteceria, e ainda bem. Por alguma razão as pessoas ainda ligam a televisão para ver "bom futebol". Porque o conceito de "bom futebol", aquele que, bem ou mal jogado, de alguma maneira procura fazer sentido, faz com que os jogadores se esforcem para conseguir o mesmo: acertar as posições, acertar os passes e fazer com que a coisa esférica entre no espaço delimitado por redes, lá do outro lado do campo. Em suma, eu abdiquei de uma carreira desportiva em prol da lógica das coisas. E durante anos vivi orgulhoso da minha decisão.

Mas um dia apareceu o Bynia.

Meus amigos, o Bynia provou que o futebol é o que um homem quiser. Aquilo que ele faz não é jogar à bola, é um manifesto pelo direito a jogar no Benfica. Ele passa mal as bolas aos companheiros? Eu acho que nem se preocupa em fazê-lo bem, isso são preocupações menores. Ele remata à baliza contrária com intuito de marcar golos? Nem por sombras, o objectivo é fazer com que a bola se vá enterrar pela cúpula do Colombo a dentro. Ele finta, desmarca ou cumpre abnegadamente a sua posição do terreno? Nunca! Para quê, se abalroar adversários é muito mais divertido?! É vê-los a saltar como coelhos, de cada vez que o Bynia alça a perna acima do pescoço. Um fartote.
Agora, com todas estas particularidades seria de prever que os treinadores do Benfica não só não o utilizassem como o proibissem de chegar a menos de 500 metros do Estádio da Luz. Mas ele mantém-se no plantel. Volta e meia é titular, muitas vezes até relegando colegas bem "melhores" para o banco de suplentes. E continua a merecer toda a confiança do mundo.

E à custa disso, assim evolui o futebol. Desporto esse que, se houvesse justiça, passaria a ter duas eras: AB (antes de Bynia) e DB (depois de Bynia).