Epá, por favor esclareçam-me lá esta dúvida: porque é que dá a ideia que nós TEMOS de beber Licor Beirão?!
Ah não temos?
É que parece mesmo que está escrito em algum lado, nalguma lei ou assim, que o povo português é obrigado a tomar esta bebida seja de que forma for!
Há uns anos atrás, andava o Manuel João Vieira de bar em bar a fazer a pergunta "O que é que se bebe aqui?!", para ouvir como resposta, em uníssono e num único berro heróico, "LICOR BEIRÃO". Ora, e só para garantir que estamos todos no mesmo comprimento de onda, isto nunca acontece, ok? No mundo real, na melhor das hipóteses, o histórico vocalista da banda Irmãos Catita encontraria dois indivíduos de quarenta e poucos anos, mas com aspecto de oitenta, a bebericar o bom e velho licor nacional directamente de copos engordurados pelo sebo das suas mãos enquanto dialogavam sobre "aquele golo do Carlos Manuel contra os camónes". Se estes sujeitos conseguissem ouvir em condições, ou seja, se o consumo frequente de Licor Beirão ao longo dos anos não tivesse corroído lentamente as suas traqueias até aos tímpanos, seriam eles os únicos a gritar o nome da bebida. Vamos enfrentar os factos como homenzinhos, pode ser? A malta não gosta assim tanto de Licor Beirão. Nem mesmo os beirões. E não é por lhe misturarem algumas pedras de gelo que passa a ser a bebida de eleição da juventude... Esta foi a primeira vez que esta instituição nacional procurou renascer das cinzas, mas não deve ter resultado.
Não deve ter resultado porque passado pouco tempo empurraram o José Diogo Quintela vestido de campino para dentro do mesmo bar, para desafiar os marialvas a largarem as conhecidas zurrapas estrangeiras e a beberem o conhecido licor. Eu sei que a ideia era fazer alusão a uma personagem que o José Diogo tinha interpretado na série dos Gato Fedorento, mas a mensagem não deixava de ser a seguinte: temos de defender os valores nacionais e beber Licor Beirão porque não é só um acto patriótico mas também prova que somos homens com H grande. Com esta medida, a marca acabou por fazer uma selecção mais refinada do target. Na realidade, uma bebida chamada Licor Beirão não é coisa que gostamos de ver uma senhora pedir no balcão de um bar. É o mesmo que vê-la dar um "pum". Digamos que não fica bem. E eu bem sei que em certas zonas do país chega a ser difícil diferenciar as senhoras dos homens, e os "puns", particularmente sonoros e animalescos, acabam por ser a forma mais educada que têm de cumprimentar quem passa. Mas não iremos por aí. Com esta campanha, aquele animado grupo de rapazes e raparigas que abraçados gritavam alegremente "LICOR BEIRÃO", ficou reduzido a dois comparsas que deitavam fora as suas vodkas e os seus whiskys para optarem pelo património português. Mas, mais uma vez, a estratégia não deve ter resultado.
Não deve ter resultado porque agora comunica-se uma nova bebida, uma forma inovadora de nos impingirem o raio do licor: o CAIPIRÃO. Oh senhores, isto é para quê? É para a comunidade brasileira, é? Vamos cortar mais uma fatia do target, vamos? É que de início tínhamos toda a gente, depois eram mais os jovens, depois eram os jovens machos e agora são os jovens machos brasucas. Anseio pela nova campanha... "Agora, e devido novamente aos baixos valores de vendas, aqui na Beira decidimos produzir licor apenas para os jovens machos nordestinos que gostam de cinema francês, mas só de alguns filmes porque no geral acabam por ser maçudos sobretudo ao Domingo que é quando gostamos de dançar um sambinha e comer um bolinho de bacalhau, e que conhecem uma moça de nome Darlene que trabalhava a dias para o Coronel Jairzinho lá na fazenda de Bobotó Pacuará". Qualquer dia é aqui que estamos.
Bem, quanto a mim, o Licor Beirão não é assim tão bom. Não é tão espectacular quanto o pintam. E não vale a pena misturarem-lhe limas, nem gelo, nem açúcar, nem mesmo molho de barbecue, que continua a não ser "a bebida do momento". Porque é que não devolvemos o licor àquele par de indivíduos de quem falei ainda agora? Vamos ser francos, este sempre foi o público alvo, a bebida pertence-lhes. Toda esta panóplia de soluções, todo este nervosismo faz-me acreditar que se trata ou de uma promessa ou de algum acordo com um país estrangeiro, em que o governo português se comprometeu em unir todos os esforços em prol da venda deste produto. Para quê? Não sei. Faça eu o que fizer não me deixam entrar no Palácio de Belém para tratar dos vários assuntos.
Apenas sei que ando cansado e a conceber teorias parvas.
Preciso urgentemente de um Licor Beirão...